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CARTA DO CARDEAL AGOSTINO CASAROLI,
EM NOME DO SANTO PADRE,
AO CARDEAL SEBASTIANO BAGGIO,
PRESIDENTE DA PONTIFÍCIA COMISSÃO
PARA A PASTORAL DAS MIGRAÇÕES E DO TURISMO
POR OCASIÃO DO DIA DO MIGRANTE

 

 

Eminência!

1. O aproximar-se do Advento Litúrgico e com ele, a celebração do "Dia do Migrante" nas Igrejas locais oferecem ao Santo Padre a feliz ocasião de dirigir-se, como de costume, aos vários elementos da emigração, através de uma Mensagem que ele sabe ser aguardada e acolhida com gratidão.

Neste ano o Sumo Pontífice não pode deixar de referir-se ao jubileu Extraordinário da Redenção, que a família católica está vivendo, com fervor, no mundo inteiro.

Desde a prévia apresentação do singular evento e, em seguida, na Bula de instituição Sua Santidade afirmou que, em virtude da força transformadora da Redenção, o Jubileu "não deve ser senão um ano ordinário, celebrado de modo extraordinário" (Alocução de 23 de dezembro de 1982, n. 3; Bula Aperite portas Redemptori, n. 3). Nela, junto ao significado espiritual, acentuou a dimensão humana, especialmente em relação a tantos homens e mulheres, irmãs e irmãos que sofrem, referindo-se explicitamente à sua triste herança de privações, de ânsias e de dores, que não pode deixar ninguém indiferente (cf. Alocução citada, n. 6), porque deve ser vista na ótica da Redenção, e à qual todos são chamados a oferecer o próprio tributo de participação e de amor.

Assim, e talvez, sobretudo, deste ponto de vista e no clima do Ano Jubilar, o Dia do Migrante assume o seu pleno significado.

2. O Sumo Pontífice espera que o seu apelo à renovação espiritual e moral, neste tempo de graça, encontre profundo eco no coração de todos os migrantes católicos, nas suas famílias, nas suas comunidades paroquiais e missionárias.

As instituições eclesiais, previstas e recomendadas pela Santa Sé para a assistência pastoral específica para os migrantes, envidarão todos os esforços para que o espírito do Jubileu penetre profundamente todas as camadas da realidade migratória. Não deixarão de estimular e de encorajar, neste sentido, as iniciativas leigas, especialmente as de carácter apostólico e educativo, cuja contribuição deve ser considerada, em si, como qualquer outra actividade eclesial, de valor insubstituível.

Volvendo o olhar cheio de amor ao mundo migratório e reflectindo sobre as suas aspirações, servidão e problemas, o Santo Padre deseja em particular que, do Ano da Redenção se desencadeie um novo e eficaz impulso de fraternidade. Nesta perspectiva, sua mensagem se dirige não apenas ao mundo migrante, mas também às comunidades, especialmente as de tradição, católica e cristã, nas quais estes estão inseridos.

3. Apesar dos felizes progressos obtidos no relacionamento com os irmãos de proveniência estrangeira, persistem, em muitos lugares, não raro de modo preocupante, aqueles fenómenos negativos que costumamos definir com o triste nome de "xenofobia", estranho à linguagem bíblica e cristã, na qual, ao contrário, é continuamente exaltado o termo oposto "filoxenia", no sentido de uma hospitalidade cordial e aberta.

São Paulo faz, deste último termo, objecto de um imperativo programático: "Socorrei as necessidades dos santos. Praticai zelosamente a hospitalidade" (Rom. 12, 13). O mesmo conceito foi também expresso por São Pedro com um acento muito concreto e incisivo: "Exercei mutuamente a hospitalidade sem murmurar" (1 Ped. 4, 9). Na Epístola aos Hebreus se afirma que um misterioso desígnio pode estar oculto neste comportamento fraternal: "Não esqueçais a hospitalidade. Por ela, na verdade, alguns, sem o saberem, tiveram a sorte de hospedar anjos" (Heb. 13, 2). Nestas citações o texto grego entende especificamente, como hospitalidade, a acolhida do estrangeiro.

O absurdo expresso pelo termo "xenofobia" está em contradição direta com o sentimento cristão. Desta mentalidade feita de preconceitos — baseada na inveja que se origina no egoísmo ou ainda no medo de que o homem vindo de fora, mesmo se desejado ou solicitado para determinadas tarefas materiais, acabe por alterar ou pôr em perigo a identidade da sociedade hospitaleira — aumenta as atitudes de desconfiança, susceptíveis de se transformarem em verdadeiras hostilidades e, não raro, embora camuflados, em mecanismos de rejeição.

Estes fenómenos radicalmente contrários ao mandamento evangélico, o são igualmente em relação ao mesmo sentimento de universalidade que, no mundo moderno, acentua de maneira sempre mais marcante o esforço de estabelecer relacionamentos recíprocos entre os povos.

Nos países atingidos por estas preocupantes manifestações, o Episcopado católico não deixou de tomar posição, através de repetidos apelos, muitas vezes numa solidariedade digna de louvor, com as autoridades máximas de confissões e denominações não católicas.

Elogiando cordialmente tais intervenções, Sua Santidade deseja confirmá-las com sua palavra de Pastor universal. Com isto, ele quer declarar, mais uma vez, "que não basta condenar e combater toda a tendência de xenofobia, precisa-se construir positivamente a fraternidade. É necessário tornar as bases sempre mais sólidas, trabalhando sem cessar, para iluminar as consciências com a luz da mensagem cristã.

4. Para o Dia do Migrante, deste Ano Jubilar, o Santo Padre convida de maneira categórica as comunidades cristãs, interessadas no fenómeno migratório, a meditarem séria e profundamente nas urgências evangélicas em relação aos imigrados. Devem interrogar-se em profundidade e com extrema seriedade sobre o grau de fraternidade de sua acolhida. É necessário que elas descubram meios claros e descomprometidos, capazes de fazer penetrar em todos os setores da sociedade, particularmente os da cultura e do trabalho, a mentalidade evangélica da acolhida para aqueles que, nascidos sob um outro céu, pertencem a outras raízes étnicas e nacionais.

A dimensão imigratória constitui, portanto, um desafio que os cristãos, por primeiros, devem considerar dirigida à autenticidade e à veracidade da sua vocação. Essa deve encontrar seu lugar na catequese ordinária, destinada a difundir a mensagem das bem-aventuranças e todo o ensinamento de Cristo, que também quis se identificar com o forasteiro. Esta mensagem conserva todo o seu valor, nas condições de vida industrial, típica do nosso tempo. Embora o contexto exterior mude, o homem continua sendo o portador de uma dignidade que Deus ama, porque deriva da sua mesma imagem, e à qual reserva os frutos da Redenção operada por Cristo e, continuamente aplicada pela Igreja.

O fenómeno migratório deve ser continuamente analisado na prospectiva do plano divino da Redenção que não pode perder de vista a promoção da dignidade do homem, com o reconhecimento dos direitos, sempre sagrados e invioláveis, da natureza humana.

5. E, se colocarmos o acento sobre o aspecto da Reconciliação, própria da espiritualidade jubilar, não podemos fugir ao imperativo que São Paulo, promotor da universalidade da Redenção, celebra num hino de alegria diante dos prodígios da união que brota da virtude pacificadora do Sangue de Cristo: "Pois ele é a nossa paz. Ele que dos dois fez um só povo, derrubando a parede de inimizade que os separava... Veio ele a anunciar a paz, paz aos de longe e paz aos de perto" (Ef. 2, 14-17).

A partir dessa visão elevada, o Apóstolo deduz, como consequência necessária, que não existem mais forasteiros e nem simplesmente hóspedes, sendo todos irmanados na única cidadania "dos santos, e da casa de Deus" (idem 2, 19).

O Santo Padre não oculta a si mesmo a complexidade dos problemas que se apresentam nas situações concretas, a começar dos que nascem a nível da fé. Ele afirma, todavia, que o clima de uma verdadeira fraternidade é indispensável à superação dos mesmos, aliás, é o único caminho através do qual se pode chegar a soluções conformes à caridade e à justiça, capazes de tornar mais humana a imagem das migrações modernas.

A fraternidade universal deve ser objeto também da oração em comum, confirmação de todas as boas aspirações humanas. Sua Santidade expressa o desejo que, nas celebrações jubilares, seja dado lugar de destaque ao tema da fraternidade universal, como ocasião de um exame de consciência individual é colectivo e como um dom a ser ardentemente pedido ao Senhor, em favor de todos os migrantes, especialmente dos mais pobres e necessitados.

Confiando a Vossa Eminência esta cordial mensagem, o Sumo Pontífice sente-se feliz de lançar sua especial Bênção Apostólica sobre todos aqueles que compõem, em todos os continentes e em todas as nações, a família migratória. A todos renova os sentimentos de sua estima e de seu paterno afeto.

Aproveito, com prazer, desta ocasião para confirmar a Vossa Eminência, meus sentimentos de profunda veneração

 

Card. Agostino Casaroli

 



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