The Holy See
back up
Search
riga

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI
DURANTE O ENCONTRO COM O CLERO DIOCESANO
DE ROMA NO INÍCIO DA QUARESMA

Quinta-feira, 2 de Março de 2006

 

Falo agora, porque de outro modo o meu monólogo se torna demasiado longo, se espero que se concluam todas as intervenções. Em primeiro lugar, gostaria de expressar a minha alegria por estar hoje aqui convosco, queridos Sacerdotes de Roma. É uma alegria real: a de ver tantos bons pastores ao serviço do "Bom Pastor" aqui, na primeira Sede da Cristandade, na Igreja que "preside à caridade" e que deve ser modelo das outras Igrejas locais. Obrigado pelo vosso serviço!

Temos o exemplo luminoso do Pe. Andrea, que nos mostra como "ser" sacerdote até ao fundo: morrer por Cristo no momento da oração e assim testemunhar, por um lado, a interioridade da própria vida com Cristo e, por outro, o próprio testemunho pelos homens num ponto realmente "panperiférico" do mundo, circundado pelo ódio e pelo fanatismo de outros. É um testemunho que inspira todos a seguir Cristo, a dar a vida pelo próximo e a encontrar precisamente assim a Vida. Em relação à primeira intervenção, dirijo, antes de tudo, um grande obrigado por esta maravilhosa poesia! Existem também poetas e artistas na Igreja de Roma, no presbitério de Roma, e terei também a possibilidade de meditar, de interiorizar estas bonitas palavras e de ter presente que esta "janela" está sempre "aberta". Talvez esta seja a ocasião para recordar a herança fundamental do grande Papa João Paulo II, para continuar a assimilar cada vez mais esta herança.

Iniciámos ontem a Quaresma. A Liturgia de hoje oferece-nos uma profunda indicação do significado fundamental da Quaresma: é um indicador de caminho para a nossa vida. Por isso me parece refiro-me ao Papa João Paulo II que devemos insistir um pouco sobre a primeira Leitura do dia de hoje. O grande discurso de Moisés no limiar da Terra Santa, depois dos quarenta anos da peregrinação no deserto, é um resumo de toda a Torah, de toda a Lei. Encontramos aqui o essencial não só para o povo hebraico mas também para nós. Este essencial é a palavra de Deus: "Coloco diante de ti a vida e a morte, a felicidade e a maldição. Escolhe a vida" (Dt 30, 19). Estas palavras fundamentais da Quaresma são também as palavras fundamentais da herança do nosso grande Papa João Paulo II: escolhe a vida. Esta é a nossa vocação fundamental: escolher nós próprios a vida e ajudar os outros a escolher a vida. Trata-se de renovar, por assim dizer, na Quaresma a nossa "opção fundamental", a opção pela vida.

Mas, surge imediatamente a interrogação: como se escolhe a vida? Como se faz? Reflectindo, veio-me à mente que a grande definição do Cristianismo feita no Ocidente nos últimos cem anos, foi realizada precisamente em nome da opção pela vida. Foi dito penso em Nietzsche mas também em muitos outros que o Cristianismo é uma opção contra a vida. Com a Cruz, com todos os Mandamentos, com todos os "Não" que nos propõe, fecha-nos a porta da vida. Mas nós queremos ter a vida, e escolhemos, optamos, finalmente, pela vida libertando-nos da Cruz, libertando-nos de todos estes Mandamentos e de todos estes "Não". Queremos ter a vida em abundância, nada mais que a vida. Vem logo à mente a palavra do Evangelho de hoje: "Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por Minha causa, salvá-la-á" (Lc 9, 24). Eis o paradoxo que devemos antes de tudo ter presente na opção pela vida. Não pretendendo a vida só para nós mas unicamente dando a vida, não tendo-a e tomando-a, mas dando-a é que a podemos encontrar. Este é o sentido último da Cruz: não a reter para si, mas dar a vida.

Assim, Novo e Antigo Testamento caminham juntos. Na primeira Leitura do Deuteronómio a resposta de Deus é: "Recomendo-te hoje que ames o Senhor, teu Deus, que andes nos Seus caminhos, que guardes os Seus preceitos, Suas leis e Seus decretos. Se assim fizeres viverás" (30, 16). Isto, à primeira vista não nos agrada, mas é o caminho: a opção pela vida e a opção por Deus são idênticas. O Senhor diz isto no Evangelho de São João: "A vida eterna consiste nisto: que Te conheçam" (Jo 17, 3). A vida humana é uma relação. Só em relação, e não fechados em nós próprios, podemos ter a vida. E a relação fundamental é a relação com o Criador, de outro modo as outras relações são frágeis. Portanto, escolher Deus: eis o que é essencial. Um mundo esvaziado de Deus, um mundo que se esqueceu de Deus, perde a vida e cai numa cultura de morte. Escolher a vida, fazer a opção pela vida, por conseguinte é, em primeiro lugar, escolher a opção-relação com Deus. Mas, surge imediatamente a pergunta: com qual Deus? Aqui, de novo, nos ajuda com o Evangelho: com aquele Deus que nos mostrou o seu rosto em Cristo, com aquele Deus que venceu o ódio na Cruz, isto é, no amor até ao fim. Assim, escolhendo este Deus, escolhemos a vida.

O Papa João Paulo II deu-nos a grande Encíclica Evangelium vitae. Nela é quase um retrato dos problemas da cultura de hoje, das esperanças e dos perigos torna-se visível que uma sociedade que se esquece de Deus, que exclui Deus e, precisamente para ter a vida, cai numa cultura de morte. Precisamente querendo ter a vida, diz-se "Não" à criança, porque me priva de certa parte da minha vida; diz-se "Não" ao futuro, para ter todo o presente; diz-se "Não" quer à vida que nasce quer à vida que sofre, que caminha para a morte. Esta aparente cultura da vida torna-se a anticultura da morte, onde Deus está ausente, onde está ausente aquele Deus que não ordena o ódio mas vence-o. Fazemos aqui a verdadeira opção pela vida. Então, tudo está relacionado: a opção mais profunda por Cristo Crucificado com a opção mais completa pela vida, desde o primeiro momento até ao último.

Parece-me que este é, de certa forma, também o núcleo da nossa pastoral: ajudar a fazer uma verdadeira opção pela vida, renovar a relação com Deus como a relação que nos dá a vida e nos mostra o caminho para a vida. E assim amar de novo Cristo, que do Ser mais desconhecido, ao qual não chegávamos e que permanecia enigmático, se tornou um Deus conhecido, um Deus com um rosto humano, um Deus que é amor. Tenhamos presente precisamente este ponto fundamental para a vida e consideremos que neste programa está presente todo o Evangelho, do Antigo ao Novo Testamento, que tem Cristo como centro. A Quaresma, para nós mesmos, deveria ser o tempo para renovar o nosso conhecimento de Deus, a nossa amizade com Jesus, para assim sermos capazes de guiar os outros de modo convincente à opção pela vida, que é antes de tudo opção por Deus. Para nós próprios deve ser claro que, ao escolhermos Deus, não optamos pela negação da vida, mas escolhemos realmente a vida em abundância. A opção cristã é, fundamentalmente, muito simples: é a opção do "Sim" à vida. Mas este "Sim" só se realiza com um Deus não desconhecido, com um rosto humano. Realiza-se seguindo este Deus na comunhão do amor. Tudo o que eu disse até agora quer ser um modo de renovar a nossa lembrança do grande Papa João Paulo II.

Falemos da segunda intervenção, tão simpática, a propósito das mães. Diria que agora não posso comunicar grandes programas, palavras que poderia dizer às mães. Dizei-lhes simplesmente: o Papa agradece-vos! Agradece-vos porque destes a vida, porque quereis ajudar esta vida que cresce e assim quereis construir um mundo humano, contribuindo para o futuro humano. E fazei-lo não só dando a vida biológica, mas comunicando o centro da vida, fazendo conhecer Jesus, introduzindo os vossos filhos no conhecimento de Jesus, na amizade com Jesus. Este é o fundamento de qualquer catequese. Por conseguinte, é preciso agradecer às mães sobretudo para que completem este seu dar a vida proporcionando a amizade com Jesus.

A terceira intervenção era do Reitor da igreja de Santa Anastasia. Talvez aqui eu possa dizer, entre parênteses, que a igreja de Santa Anastasia já me era querida antes de a ter visto, porque era a Igreja titular do nosso Cardeal de Faulhaber. Ele sempre nos informou que tinha em Roma uma sua igreja, a de Santa Anastasia. Com esta comunidade encontrámo-nos sempre por ocasião da segunda Missa de Natal, dedicada à "estação" de Santa Anastasia. Os historiadores dizem que nela, o Papa devia visitar o Governador bizantino, que tinha ali a sua Sede. Esta igreja faz-nos pensar também naquela Santa e assim também em "Anastasia": no Natal pensamos também na Ressurreição. Não sabia, e agradeço ter sido informado, que agora tal igreja é sede da "Adoração perpétua"; por conseguinte, é um ponto central da vida de fé de Roma. Esta proposta de criar nos cinco Sectores da Diocese de Roma, cinco lugares de Adoração perpétua, coloco-a confiadamente nas mãos do Cardeal Vigário. Gostaria de dizer apenas: graças a Deus, porque depois do Concílio, depois de um período no qual faltava um pouco do sentido da adoração eucarística, renasceu a alegria desta adoração em toda a parte na Igreja, como vimos e ouvimos no Sínodo sobre a Eucaristia. Sem dúvida, com a Constituição conciliar sobre a Liturgia, foi descoberta sobretudo toda a riqueza da Eucaristia celebrada, onde se realiza o testamento do Senhor: Ele doa-se a nós e nós respondemos doando-nos a Ele. Mas, agora, descobrimos que este centro que o Senhor nos deu no poder de celebrar o seu sacrifício e desta forma entrar em comunhão sacramental, quase corporal, com Ele perde a sua profundidade e também a sua riqueza humana se falta a Adoração, como acto consequente da comunhão recebida: a adoração é um entrar com a profundidade do nosso coração em comunhão com o Senhor que se faz presente e nos convida a unir-nos à sua Presença, ao seu Corpo ressuscitado.

Vamos agora à quarta pergunta. Se compreendi bem, mas não tenho a certeza, era: "como chegar a uma fé viva, a uma fé realmente católica, a uma fé concreta, vivaz, eficiente?". A fé, em última análise, é um dom. Por conseguinte, a primeira condição é aceitar algum dom, não ser auto-suficiente, não fazer tudo sozinho, porque não podemos fazê-lo, mas devemos abrir-nos na certeza de que o Senhor doa realmente. Parece-me que este gesto de abertura é também o primeiro gesto da oração: abrir-se à presença do Senhor e ao seu dom. Este é também o primeiro passo para receber algo que nós não fazemos e que não podemos ter, se pretendemos fazê-lo sozinhos. Este gesto de abertura, de oração doai-me, Senhor, a fé! deve ser realizado com todo o nosso ser. Nós devemos entrar nesta disponibilidade de aceitar o dom e de nos deixarmos permear pelo dom no nosso pensamento, no nosso afecto, na nossa vontade. Neste ponto parece-me muito importante realçar um aspecto fundamental: ninguém crê só por si mesmo. Nós cremos sempre em e com a Igreja. O credo é sempre um acto partilhado, um deixar-se inserir numa comunhão de caminho, de vida, de palavra, de pensamento. Nós não "fazemos" a fé, no sentido de que é antes de tudo Deus que a dá. Mas, não a "fazemos" também no sentido de que ela não deve ser inventada por nós. Devemos deixar-nos cair, por assim dizer, na comunhão da fé, da Igreja. Crer é um acto católico em si. É participação nesta grande certeza, que está presente no sujeito vivo da Igreja. Só assim podemos também compreender a Sagrada Escritura na diversidade de uma leitura que se desenvolve por mil anos. É uma Escritura, porque é elemento, expressão do único sujeito o Povo de Deus que na sua peregrinação é sempre o mesmo sujeito. Naturalmente, é um sujeito que não fala sozinho, mas é um sujeito criado por Deus a expressão clássica é "inspirado" um sujeito que recebe, depois traduz e comunica esta palavra. Esta sinergia é muito importante. Sabemos que o Alcorão, segundo a fé islâmica, é palavra verbalmente dada por Deus, sem mediação humana. O Profeta nada tem a ver com isto. Ele só a escreveu e comunicou. É palavra pura de Deus. Enquanto para nós, Deus entra em comunhão connosco, faz-nos cooperar, cria um sujeito e neste sujeito cresce e desenvolve a sua palavra. Esta parte humana é fundamental, e dá-nos também a possibilidade de ver como as palavras singularmente se tornam Palavra de Deus só na unidade de toda a Escritura, no sujeito vivo do povo de Deus. Por conseguinte, o primeiro elemento é o dom de Deus; o segundo é a comparticipação na fé do povo peregrino, a comunicação na Santa Igreja, a qual, por seu lado, recebe o Verbo de Deus, que é o Corpo de Cristo, animado pela Palavra viva, pelo Logos divino. Devemos aprofundar, dia após dia, esta nossa comunhão com a Santa Igreja e, desta forma, com a Palavra de Deus. Não são duas coisas opostas, de modo que posso dizer: sou mais pela Igreja ou mais pela Palavra de Deus. Só em união somos na Igreja, fazemos parte da Igreja, nos tornamos membros da Igreja, vivemos da Palavra de Deus, que é força de vida da Igreja. E quem vive da Palavra de Deus, só a pode viver porque ela é viva e vital na Igreja vivente.

A quinta intervenção era sobre Pio XII. Obrigado por esta intervenção. Era o Papa da minha juventude. Todos o venerámos. Como foi justamente dito, ele amou muito o povo alemão, defendeu-o também na grande catástrofe depois da guerra. E devo acrescentar que antes de ser Núncio em Berlim era Núncio em Munique, porque inicialmente em Berlim ainda não havia a Representação Pontifícia. Estava também próximo de nós. Esta parece-me a ocasião para expressar gratidão a todos os grandes Papas do século passado. Abriu-se o século com São Pio X, depois Bento XV, Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II. Parece-me que este é um dom especial num século tão difícil, com duas guerras mundiais, com duas ideologias destruidoras: fascismo-nazismo e comunismo. Precisamente neste século, que se opôs à fé da Igreja, o Senhor deu-nos uma cadeia de grandes Papas, e assim uma herança espiritual que confirmou, diria, historicamente, a verdade da Primazia do Sucessor de Pedro.

A intervenção seguinte, dedicada à família, era do pároco de Santa Sílvia. Aqui só posso estar de acordo. Também nas visitas "ad Limina" falo sempre com os Bispos sobre a família, ameaçada, de vários modos, no mundo. Está ameaçada em África, porque dificilmente se encontra a passagem do "matrimónio habitual" ao "matrimónio religioso", porque se teme a definitividade.

Enquanto no Ocidente o medo da criança está motivado pelo receio de perder algo da vida, ali é o contrário: enquanto não consta que a mulher também terá filhos, não se pode ousar o matrimónio definitivo. Por isso o número dos matrimónios religiosos permanece relativamente pequeno e também muitos "bons" cristãos, mesmo com uma óptima vontade de ser cristãos, não dão este último passo. O matrimónio está ameaçado de igual modo na América Latina, por outros motivos, e está fortemente ameaçado, como sabemos, no Ocidente. Muito mais devemos, nós enquanto Igreja, ajudar as famílias que são a célula fundamental de cada sociedade sadia. Só assim na família se pode criar uma comunhão das gerações, na qual a memória do passado vive no presente e se abre para o futuro. Assim continua e desenvolve-se realmente a vida e tem continuidade. Não é possível um verdadeiro progresso sem esta continuidade de vida e, de novo, não é possível sem o elemento religioso. Sem a confiança em Deus, sem a confiança em Cristo que nos doa também a capacidade da fé e da vida, a família não pode sobreviver. Vemos isto hoje. Só em Cristo e só a comparticipação da fé da Igreja salva a família e, por outro lado, a Igreja só pode viver se se salva a família. Neste momento não tenho uma receita para isto. Mas parece-me que o devemos ter sempre presente. Por isso devemos fazer tudo o que favorece a família: círculos familiares, catequeses familiares, ensinar a oração em família. Isto parece-me muito importante: onde se reza juntos, torna-se presente o Senhor, torna-se presente esta força que pode interromper a "esclerocardia", aquela dureza de coração que, segundo o Senhor, é o verdadeiro motivo do divórcio. Nada mais, só a presença do Senhor nos ajuda a viver realmente tudo o que desde o início o Criador quis e que foi renovado pelo Redentor. Ensinar a oração familiar e desta forma convidar para a oração com a Igreja. E depois encontrar todos os outros modos.

Respondo agora ao vice-pároco de São Jerónimo vejo que é também muito jovem que nos fala do que fazem as mulheres na Igreja, também pelos sacerdotes. Posso apenas realçar que me causa sempre grande impressão, no primeiro Cânone Romano, a oração especial pelos sacerdotes: "Nobis quoque peccatoribus". Nesta humildade realista dos sacerdotes nós, precisamente como pecadores, rezamos ao Senhor para que nos ajude a ser servos. Nesta oração pelo sacerdote, precisamente nesta, encontram-se sete mulheres que circundam o sacerdote. Elas mostram-se precisamente como as mulheres crentes que nos ajudam no nosso caminho. Certamente cada um fez esta experiência. E assim a Igreja tem uma grande dívida de agradecimento para com as mulheres. E justamente Vossa Rev.cia ressaltou que, a nível carismático, as mulheres fazem tanto, ousaria dizer, pelo governo da Igreja, começando pelas religiosas, pelas irmãs dos grandes Padres da Igreja, como Santo Ambrósio, até às grandes mulheres da Idade Média Santa Hildegarda, Santa Catarina de Sena, depois Santa Teresa de Ávila e a Madre Teresa. Diria que certamente este sector carismático se distingue do sector ministerial no sentido estreito da palavra, mas é uma verdadeira e profunda participação no governo da Igreja. Como se poderia imaginar o governo da Igreja sem esta contribuição, que por vezes se torna muito visível, como quando Santa Hildegarda critica os Bispos, ou como quando Santa Brígida e Santa Catarina de Sena admoestam e obtêm o regresso dos Papas a Roma? É sempre um factor determinante, sem o qual a Igreja não pode viver. Contudo, Vossa Rev.cia diz justamente: queremos ver também mais visivelmente de modo ministerial as mulheres no governo da Igreja. Digamos que a questão é a seguinte. O ministério sacerdotal está, como sabemos, reservado aos homens pelo Senhor, porque o ministério sacerdotal é governo no sentido profundo que, em última análise, é o Sacramento que governa a Igreja. Este é um ponto decisivo. Não é o homem que faz algo, mas o sacerdote fiel à sua missão governa, no sentido de que é o Sacramento, isto é, mediante o Sacramento é o próprio Cristo que governa, quer através da Eucaristia quer nos outros Sacramentos e, desta forma, é sempre Cristo que preside. Contudo, é justo interrogar-se se também no serviço ministerial apesar do facto de aqui Sacramento e carisma serem o caminho único no qual se realiza a Igreja não se possa oferecer mais espaço, mais posições de responsabilidade às mulheres.

Não compreendi totalmente as palavras da oitava intervenção. Substancialmente compreendi que hoje a humanidade, caminhando de Jerusalém para Jericó, encontra pelo caminho os ladrões. O Bom Samaritano ajuda-a com a misericórdia do Senhor. Podemos realçar apenas que, no final, é o homem que caiu e cai sempre de novo entre os os ladrões, e é Cristo que o cura. Nós devemos e podemos ajudá-lo, quer no serviço do amor quer no serviço da fé que é também um ministério de amor.

Depois os Mártires de Uganda. Obrigado por este contributo. Faz-nos pensar no Continente africano, que é a grande esperança da Igreja. Recebi nos últimos meses grande parte dos Bispos africanos em visita "ad Limina". E foi para mim muito edificante, e também confortador, ver Bispos de alto nível teológico e cultural, Bispos zelosos, que realmente estão animados pela alegria da fé. Sabemos que esta Igreja está em boas mãos, que contudo sofre porque as Nações ainda não se formaram. Foi precisamente através do Cristianismo que na Europa, além das etnias que existiam, se formaram os grandes corpos das Nações, as grandes línguas, e comunhões de culturas e espaços de paz, mesmo se depois estes grandes espaços de paz opostos entre si tenham criado também uma nova espécie de guerra que antes não existia. Contudo, em África, ainda temos em muitas partes esta situação, sobretudo onde existem as etnias dominantes. Depois, o poder colonialista impôs fronteiras nas quais agora se devem formar Nações. Mas ainda persiste esta dificuldade de se reunir num grande conjunto e de encontrar, além das etnias, a unidade do governo democrático e também a possibilidade de contrastar os abusos coloniais que persistem. A África ainda continua a ser objecto de abuso sempre da parte das grandes potências, e muitos conflitos não teriam assumido esta forma se por trás não estivessem os interesses das grandes potências. Assim, vi também como a Igreja, em toda esta confusão, com a sua unidade católica, é o grande factor de unidade na dispersão. Em muitas situações, sobretudo agora depois da grande guerra na República Democrática do Congo, a Igreja permaneceu a única realidade que funciona e que dá continuidade à vida, dá a assistência necessária, garante a convivência e ajuda a encontrar a possibilidade de realizar um grande conjunto. Neste sentido, nestas situações, a Igreja desempenha um serviço substitutivo do nível político, dando a possibilidade de viver juntos, e de reconstruir, depois da explosão do ódio, o espírito de reconciliação. Muitos disseram-me que precisamente nestas situações o Sacramento da Penitência é de grande importância como força de reconciliação e deve ser também administrado neste sentido. Numa palavra, gostaria de dizer que a África é um Continente de grande esperança, de grande fé, de realidades eclesiais comovedoras, de sacerdotes e de Bispos zelosos. Mas é sempre também um Continente que tem necessidade depois das destruições que ali levamos da Europa da nossa ajuda fraterna. E ela só pode nascer da fé, que gera também a caridade universal além das divisões humanas. Esta é a nossa grande responsabilidade neste tempo. A Europa importou as suas ideologias, os seus interesses, mas importou também com a missão o factor da cura. Hoje, temos ainda mais a responsabilidade de termos também nós uma fé zelosa, que se comunica, que quer ajudar os outros, que está bem consciente de que dar a fé não significa introduzir uma força de alienação, mas significa dar o verdadeiro dom do qual o homem tem necessidade, precisamente para ser também criatura do amor.

O último aspecto foi abordado pelo Vice-Pároco carmelita de Santa Teresa de Ávila, que nos revelou justamente as suas preocupações. Sem dúvida seria errado um optimismo simples e superficial, que não se apercebesse das grandes ameaças em relação à juventude, às crianças e às famílias de hoje. Devemos aperceber-nos com grande realismo destas ameaças, que surgem onde Deus está ausente. Devemos sentir cada vez mais a nossa responsabilidade, para que Deus esteja presente, e assim também a esperança e a capacidade de prosseguir confiantes rumo ao futuro.

Depois, intervieram os outros cinco sacerdotes, aos quais o Papa respondeu com as seguintes palavras:

Retomo agora a palavra, começando com a Pontifícia Academia. Tudo o que Vossa Rev.cia disse acerca do problema dos adolescentes, da solidão e da incompreensão da parte dos adultos, hoje, é muito evidente. É interessante que esta juventude, que nas discotecas procura conviver, na realidade sofre de uma grande solidão, e naturalmente também de grandes incompreensões. Num certo sentido, isto parece-me a expressão do facto que os pais, como foi dito, na grande maioria estão ausentes da formação da família. Mas também as mães devem trabalhar fora de casa. A comunhão entre eles é muito frágil. Cada um vive o seu mundo: são ilhas do pensamento, do sentimento, que não se unem. O grande problema próprio deste tempo no qual cada um, querendo ter a vida para si, a perde porque se isola e afasta o outro de si é o de reencontrar a comunhão profunda que no final só pode provir de um fundo comum a todas as almas, da presença divina que nos une a todos. Parece-me que a condição é superar a solidão e também superar a incompreensão, porque também ela é o resultado do facto que hoje o pensamento está fragmentado. Cada um procura o seu modo de pensar, de viver, e não existe uma comunicação e uma visão profunda da vida. A juventude sente-se exposta a novos horizontes não participados pela geração precedente, porque falta a continuidade da visão do mundo, encerrado numa sucessão cada vez mais rápida de novas invenções. Em dez anos realizaram-se mudanças que no passado nem sequer em cem anos se tinham verificado. Assim separam-se realmente os mundos. Penso na minha juventude e na ingenuidade, se assim posso dizer, na qual vivíamos, numa sociedade totalmente agrária em relação à sociedade de hoje. Vemos como o mundo muda cada vez mais rapidamente, e assim fragmenta-se também com estas mudanças. Por isso, num momento de renovação e de mudança, o elemento permanente torna-se mais importante. Recordo-me quando foi debatida a Constituição conciliar Gaudium et spes. Por um lado, havia o reconhecimento do novo, da novidade, o "Sim" da Igreja à época nova com as suas inovações, o "Não" ao romanticismo do passado, um "Não" justo e necessário. Mas depois os Padres encontra-se a prova disto no texto disseram também que apesar disso, apesar da necessária disponibilidade de ir em frente, de abandonar também outras coisas que nos eram queridas, há algo que não muda, porque é o próprio humano, a criaturalidade. O homem não é totalmente histórico. A absolutização do historicismo, no sentido de que o homem seria só e sempre criatura como fruto de um certo período, não é verdadeira. Há a criaturalidade e precisamente ela nos dá a possibilidade de viver também na mudança e de permanecer idênticos a nós próprios. Esta não é uma resposta imediata ao que devemos fazer, mas parece-me que o primeiro passo é o de ter o diagnóstico. Porque esta solidão numa sociedade que, por outro lado, é uma sociedade de massa? Porque esta incompreensão numa sociedade na qual todos procuram compreender-se, onde a comunicação é tudo e onde a transparência de tudo é a lei suprema? A resposta encontra-se no facto que vemos a mudança no nosso próprio mundo e não vivemos suficientemente aquele elemento que nos relaciona com todos, o elemento criatural, que se torna acessível e se faz realidade numa certa história: a história de Cristo, que não vai contra a criaturalidade mas restitui quanto era querido pelo Criador, como diz o Senhor acerca do matrimónio. O cristianismo, precisamente realçando a história e a religião como um dado histórico, dado numa história, começando por Abraão, e por conseguinte como uma fé histórica, tendo aberto precisamente a porta à modernidade com o seu sentido do progresso, de dar permanentemente continuidade, é também, ao mesmo tempo, uma fé que se baseia no Criador, que se revela e se torna presente numa história à qual dá a sua continuidade e, por conseguinte, a comunicabilidade entre as almas. Portanto, penso também numa fé vivida em profundidade e com toda a abertura ao hoje, mas também com toda a abertura a Deus, que une as duas coisas: o respeito da alteridade e da novidade, e a continuidade do nosso ser, a comunicabilidade entre as pessoas e entre os tempos.

O outro aspecto era: como podemos viver a vida como dom? É uma pergunta que fazemos sobretudo agora, na Quaresma. Queremos renovar a opção pela vida que é, como disse, opção não para possuirmos a nós mesmos mas para nos doarmos a nós próprios. Parece-me que só o podemos fazer graças a um diálogo permanente com o Senhor e ao diálogo entre nós. Também com a "correctio fraterna" é necessário maturar cada vez mais face a uma sempre insuficiente capacidade de viver a doação de nós próprios. Mas tenho a impressão que também devemos unir as duas coisas. Por um lado, devemos aceitar a nossa insuficiência com humildade, aceitar este "Eu" que nunca é perfeito mas tende sempre para o Senhor para alcançar a comunhão com o Senhor e com todos.

Esta capacidade de aceitar também os nossos limites é muito importante. Só assim, por outro lado, podemos também crescer, maturar e pedir ao Senhor que nos ajude a não nos cansarmos no caminho, mesmo aceitando com humildade que nunca seremos perfeitos, aceitando até a imperfeição, sobretudo do próximo. Ao aceitar a nossa, podemos aceitar mais facilmente a do outro, deixando-nos formar e reformar sempre de novo, pelo Senhor.

Agora os hospitais. Obrigado pela saudação que vem dos hospitais. Não conhecia a mentalidade segundo a qual um sacerdote se encontra a desempenhar o seu ministério num hospital porque fez algum mal... Sempre pensei que o serviço primário do sacerdote é servir os doentes, quem sofre, porque o Senhor veio sobretudo para estar com os doentes. Veio para partilhar os nossos sofrimentos e para nos curar. Por ocasião das visitas "ad Limina" dos Bispos africanos digo sempre que as duas colunas do nosso trabalho são a educação isto é, a formação do homem, que exige tantas dimensões como a educação para aprender, a profissionalidade, a educação na intimidade da pessoa e a cura. O serviço fundamental, essencial para a Igreja é portanto a cura. E precisamente nos países africanos se realiza tudo isto: a Igreja oferece a cura. Apresenta as pessoas que ajudam os doentes, que ajudam a curar o corpo e a alma. Por conseguinte, parece-me que devemos ver precisamente no Senhor o nosso modelo de sacerdote para curar, ajudar, assistir e acompanhar rumo à cura. Isto é fundamental para o compromisso da Igreja; é a forma fundamental do amor e, por conseguinte, é a expressão fundamental da fé. Por conseguinte, também no sacerdócio é o ponto central.

Depois, respondo ao Vice-Pároco dos Santos Padroeiros da Itália que nos falou do diálogo com os Ortodoxos e do diálogo ecuménico em geral. Na situação mundial de hoje, vemos como o diálogo a todos os níveis é fundamental. Ainda mais importante é que os cristãos não sejam fechados entre si mas abertos, e precisamente nas relações com os Ortodoxos vejo como os relacionamentos pessoais são fundamentais. Na doutrina, em grande parte, estamos unidos sobre todas as coisas fundamentais; mas na doutrina parece muito difícil fazer progressos. Aproximar-nos na comunhão, na experiência comum da vida de fé, é o modo para nos reconhecermos reciprocamente como filhos de Deus e discípulos de Cristo. É esta a minha experiência há pelo menos quarenta, quase cinquenta anos: esta experiência do discipulado comum, que finalmente vivemos na mesma fé, na mesma sucessão apostólica, com os mesmos sacramentos e, por conseguinte, também com a grande tradição de rezar; é bela esta diversidade e multiplicidade das culturas religiosas, das culturas da fé. Ter esta experiência é fundamental e parece-me, talvez, que a convicção de alguns, de uma parte dos monges do Monte Athos contra o ecumenismo, resulta também do facto que falta esta experiência na qual se vê e se sente que também o outro pertence ao mesmo Cristo, pertence à mesma comunhão com Cristo na Eucaristia. Por conseguinte, isto é muito importante: devemos suportar a separação que existe. São Paulo diz que os cismas são necessários durante um certo tempo e o Senhor sabe porquê: para nos provar, para nos exercitarmos, para nos fazer maturar, para nos tornarmos mais humildes. Mas ao mesmo tempo somos obrigados a caminhar para a unidade e o facto de caminhar para a unidade já é uma forma de unidade.

Respondo agora ao Padre espiritual do Seminário. O primeiro problema era a dificuldade da caridade pastoral. Por um lado vivemo-la, mas por outro gostaria também de dizer: coragem. A Igreja faz tanto graças a Deus, em África, mas também em Roma e na Europa! Faz tanto e muitos lhe estão gratos, quer no sector da pastoral dos doentes, quer na pastoral dos pobres e dos abandonados. Continuemos com coragem e procuremos encontrar juntos os caminhos melhores.

O outro ponto centrava-se no facto de que a formação sacerdotal entre gerações, também próximas, parece ser para muitos um pouco diferente, e isto complica o comum compromisso na transmissão da fé. Observei isto quando era Arcebispo de Munique. Quando nós entrámos no Seminário, todos tínhamos uma comum espiritualidade católica, mais ou menos madura. Digamos que o fundamento espiritual era comum. Agora provém de experiências espirituais muito diferentes. Verifiquei no meu seminário que eles viviam em diversas "ilhas" de espiritualidade que dificilmente se comunicavam. Agradeçamos ao Senhor porque deu tantos estímulos novos à Igreja e muitas novas formas de vida espiritual, de descoberta da riqueza da fé. É preciso sobretudo não descuidar a comum espiritualidade católica, que se exprime na Liturgia e na grande Tradição da fé. Isto parece-me muito importante. Este ponto é importante também em relação ao Concílio. Não se deve viver como disse antes do Natal à Cúria Romana a hermenêutica da descontinuidade, mas viver a hermenêutica da renovação, que é espiritualidade da continuidade, do prosseguir em continuidade. Isto parece-me muito importante também em relação à Liturgia. Cito um exemplo concreto do qual me recordei precisamente hoje com a breve meditação deste dia. A "Statio" deste dia, quinta-feira depois da Quarta-Feira de Cinzas, é São Jorge. Correspondentes a este Santo soldado, outrora havia duas leituras sobre dois Santos soldados. A primeira fala do rei Ezequias que, doente, é condenado à morte e pede ao Senhor, chorando: dai-me ainda um pouco de vida! E o Senhor é bondoso e concede-lhe ainda 17 anos de vida. Portanto, uma cura e um soldado que pode recomeçar a sua actividade. A segunda é o Evangelho que narra acerca do oficial de Cafarnaum com o seu servo doente. Assim, temos dois motivos: o da cura e o do "exército" de Cristo, da grande luta. Agora, na Liturgia actual, temos duas leituras totalmente diferentes. A do Deuteronómio: "Escolhe a vida", e a do Evangelho: "Seguir Cristo e assumir a sua cruz", que significa não procurar a própria vida mas doar a vida, e trata-se de uma interpretação do significado de "escolhe a vida". Devo dizer que amei sempre muito a Liturgia. Eu era apaixonado pelo caminho quaresmal da Igreja, por estas "igrejas estacionais" e pelas leituras relacionadas com estas igrejas: uma geografia de fé que se torna uma geografia espiritual da peregrinação com o Senhor. E fiquei um pouco desiludido com o facto de nos terem tirado este nexo entre a "estação" e as leituras. Hoje vejo que precisamente estas leituras são muito bonitas e exprimem o programa da Quaresma: escolher a vida, isto é, renovar o "Sim" do Baptismo, que é precisamente escolha de vida. Neste sentido, há uma continuidade íntima e parece-me que devemos aprender disto, que é apenas um pequeníssimo exemplo entre descontinuidade e continuidade. Devemos aceitar a novidade mas também amar a continuidade e ver o Concílio nesta óptica da continuidade. Isto ajudar-nos-á também a mediar entre as gerações no seu modo de comunicar a fé.

Por fim, o sacerdote do Vicariato de Roma concluiu com uma palavra da qual me aproprio totalmente, de forma que com ela possamos também concluir: tornarmo-nos mais simples. Este parece ser um bom programa. Procuremos pô-lo em prática e assim seremos mais abertos ao Senhor e ao povo.

Obrigado!

© Copyright 2006 - Libreria Editrice Vaticana

top