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CONSTITUIÇÃO PASTORAL GAUDIUM ET
SPES SOBRE A IGREJA NO MUNDO ACTUAL
PROÉMIO(1)
Íntima união da Igreja com toda a família humana
1. As alegrias e as esperanças, as tristezas e as
angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que
sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos
discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não
encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que,
reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em
demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a
todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género
humano e à sua história.
A quem se dirige o Concílio: todos os
homens 2. Por isso, o Concílio Vaticano II, tendo investigado
mais profundamente o mistério da Igreja, não hesita agora em dirigir a sua
palavra, não já apenas aos filhos da Igreja e a quantos invocam o nome de
Cristo, mas a todos os homens. Deseja expor-lhes o seu modo de conceber a
presença e actividade da Igreja no mundo de hoje.
Tem, portanto, diante dos olhos o mundo dos
homens, ou seja a inteira família humana, com todas as realidades no meio das
quais vive; esse mundo que é teatro da história da humanidade, marcado pelo seu
engenho, pelas suas derrotas e vitórias; mundo, que os cristãos acreditam ser
criado e conservado pelo amor do Criador; caído, sem dúvida, sob a escravidão do
pecado, mas libertado pela cruz e ressurreição de Cristo, vencedor do poder do
maligno; mundo, finalmente, destinado, segundo o desígnio de Deus, a ser
transformado e alcançar a própria realização.
Para iluminar a problemática humana e salvar o homem
3. Nos nossos dias, a humanidade, cheia de admiração ante as próprias
descobertas e poder, debate, porém, muitas vezes, com angústia, as questões
relativas à evolução actual do mundo, ao lugar e missão do homem no universo, ao
significado do seu esforço individual e colectivo, enfim, ao último destino das
criaturas e do homem.
Por isso, o Concílio, testemunhando e expondo a fé do Povo
de Deus por Cristo congregado, não pode manifestar mais eloquentemente a sua
solidariedade, respeito e amor para com a inteira família humana, na qual está
inserido, do que estabelecendo com ela diálogo sobre esses vários problemas,
aportando a luz do Evangelho e pondo à disposição do género humano as energias
salvadoras que a Igreja, conduzida pelo Espírito Santo, recebe do seu Fundador.
Trata-se, com efeito, de salvar a pessoa do homem e de restaurar a sociedade
humana. Por isso, o homem será o fulcro de toda a nossa exposição: o homem na
sua unidade e integridade: corpo e alma, coração e consciência, inteligência e
vontade.
Eis a razão por que este sagrado Concílio, proclamando a sublime
vocação do homem, e afirmando que nele está depositado um germe divino, oferece
ao género humano a sincera cooperação da Igreja, a fim de instaurar a
fraternidade universal que a esta vocação corresponde. Nenhuma ambição terrena
move a Igreja, mas ùnicamente este objectivo: continuar, sob a direcção do
Espírito Consolador, a obra de Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da
verdade (2), para salvar e não para julgar, para servir e não para ser servido (3).
INTRODUÇÃO
A CONDIÇÃO DO HOMEM NO MUNDO ACTUAL
Esperanças e temores
4. Para levar a cabo esta missão,
é dever da Igreja investigar a todo o momento os sinais dos tempos, e
interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo
adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da
vida presente e da futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário
conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações,
e o seu carácter tantas vezes dramático. Algumas das principais características
do mundo actual podem delinear-se do seguinte modo.
A humanidade vive hoje uma
fase nova da sua história, na qual profundas e rápidas transformações se
estendem progressivamente a toda a terra. Provocadas pela inteligência e actividade criadora do homem, elas reincidem sobre o mesmo homem, sobre os seus
juízos e desejos individuais e colectivos, sobre os seus modos de pensar e agir,
tanto em relação às coisas como às pessoas. De tal modo que podemos já falar
duma verdadeira transformação social e cultural, que se reflecte também na vida
religiosa.
Como acontece em qualquer crise de crescimento, esta transformação
traz consigo não pequenas dificuldades. Assim, o homem, que tão imensamente
alarga o próprio poder, nem sempre é capaz de o pôr ao seu serviço. Ao procurar
penetrar mais fundo no interior de si mesmo, aparece frequentemente mais incerto
a seu próprio respeito. E, descobrindo gradualmente com maior clareza as leis da
vida social, hesita quanto à direcção que a esta deve imprimir.
Nunca o género
humano teve ao seu dispor tão grande abundância de riquezas, possibilidades e
poderio económico; e, no entanto, uma imensa parte dos habitantes da terra é
atormentada pela fome e pela miséria, e inúmeros são ainda os analfabetos. Nunca
os homens tiveram um tão vivo sentido da liberdade como hoje, em que surgem
novas formas de servidão social e psicológica. Ao mesmo tempo que o mundo
experimenta intensamente a própria unidade e a interdependência mútua dos seus
membros na solidariedade necessária, ei-lo gravemente dilacerado por forças
antagónicas; persistem ainda, com efeito, agudos conflitos políticos, sociais,
económicos, «raciais» e ideológicos, nem está eliminado o perigo duma guerra que
tudo subverta. Aumenta o intercâmbio das ideias; mas as próprias palavras com
que se exprimem conceitos da maior importância assumem sentidos muito diferentes
segundo as diversas ideologias. Finalmente, procura-se com todo o empenho uma
ordem temporal mais perfeita, mas sem que a acompanhe um progresso espiritual
proporcionado.
Marcados por circunstâncias tão complexas, muitos dos nossos
contemporâneos são incapazes de discernir os valores verdadeiramente permanentes
e de os harmonizar com os novamente descobertos. Daí que, agitados entre a
esperança e a angústia, sentem-se oprimidos pela inquietação, quando se
interrogam acerca da evolução actual dos acontecimentos. Mas esta desafia o
homem, força-o até a uma resposta.
Evolução e domínio da técnica e da ciência
5. A actual perturbação dos espíritos e a
mudança das condições de vida, estão ligadas a uma transformação mais ampla, a
qual tende a dar o predomínio, na formação do espírito, às ciências matemáticas
e naturais, e, no plano da acção, às técnicas, fruto dessas ciências. Esta
mentalidade científica modela a cultura e os modos de pensar duma maneira
diferente do que no passado. A técnica progrediu tanto que transforma a face da
terra e tenta já dominar o espaço.
Também sobre o tempo estende a inteligência
humana o seu domínio: quanto ao passado, graças ao conhecimento histórico;
relativamente ao futuro, com a prospectiva e a planificação. Os progressos das
ciências biológicas, psicológicas e sociais não só ajudam o homem a conhecer-se
melhor, mas ainda lhe permitem exercer, por meios técnicos, uma influência directa
na vida das sociedades. Ao mesmo tempo, a humanidade preocupa-se cada vez mais
com prever e ordenar o seu aumento demográfico.
O próprio movimento da história torna-se tão rápido, que os
indivíduos dificilmente o podem seguir. O destino da comunidade humana torna-se
um só, e não já dividido entre histórias independentes. A humanidade passa,
assim, duma concepção predominantemente estática da ordem das coisas para um
outra, preferentemente dinâmica e evolutiva; daqui nasce uma nova e imensa
problemática, a qual está a exigir novas análises e novas sínteses.
Mudanças na ordem social
6. Pelo mesmo facto, verificam-se cada dia
maiores transformações nas comunidades locais tradicionais, como são famílias
patriarcais, as clãs, as tribos, aldeias e outros diferentes grupos, e nas
relações da convivência social.
Difunde-se progressivamente a sociedade de tipo
industrial, levando algumas nações à opulência económica e transformando
radicalmente as concepções e as condições de vida social vigentes desde há
séculos. Aumentam também a preferência e a busca da vida urbana, quer pelo
aumento das cidades e do número de seus habitantes, quer pela difusão do género
de vida urbana entre os camponeses.
Novos e mais perfeitos meios de comunicação
social permitem o conhecimento dos acontecimentos e a rápida e vasta difusão dos
modos de pensar e de sentir; o que, por sua vez, dá origem a. numerosas
repercussões.
Nem se deve minimizar o facto de muitos homens, levados por
diversos motivos a emigrar, mudarem com isso o próprio modo de viver.
Multiplicam-se assim sem cessar as relações do homem com os seus semelhantes, ao
mesmo tempo que a própria socialização introduz novas ligações, sem no entanto
favorecer em todos os casos uma conveniente maturação das pessoas e relações
verdadeiramente pessoais («personalização»).
É verdade que tal evolução aparece
mais claramente nas nações que beneficiam já das vantagens do progresso económico e técnico, mas nota-se também entre os povos ainda em vias de
desenvolvimento, que desejam alcançar para os seus países os benefícios da
industrialização e da urbanização. Esses povos, sobretudo os que estão ligados a
tradições mais antigas, sentem ao mesmo tempo a exigência dum exercício cada vez
mais pessoal da liberdade.
Transformações psicológicas, morais e religiosas
7. A
transformação de mentalidade e de estruturas põe muitas vezes em questão os
valores admitidos, sobretudo no caso dos jovens. Tornam-se frequentemente
impacientes e mesmo, com a inquietação, rebeldes; conscientes da própria
importância na vida social, aspiram a participar nela o mais depressa possível.
Por este motivo, os pais e educadores encontram não raro crescentes dificuldades
no desempenho da sua missão. Por sua vez, as instituições, as leis e a maneira
de pensar e de sentir herdadas do passado nem sempre parecem adaptadas à
situação actual; e daqui provém uma grave perturbação no comportamento e até nas
próprias normas de acção. Por fim, as novas circunstâncias afectam a própria
vida religiosa. Por um lado, um sentido crítico mais apurado purifica-a duma
concepção mágica do mundo e de certas sobrevivências supersticiosas, e exige
cada dia mais a adesão a uma fé pessoal e operante; desta maneira, muitos chegam
a um mais vivo sentido de Deus. Mas, por outro lado, grandes massas afastam-se
pràticamente da religião. Ao contrário do que sucedia em tempos passados, negar
Deus ou a religião, ou prescindir deles já não é um facto individual e insólito:
hoje, com efeito, isso é muitas vezes apresentado como exigência do progresso
científico ou dum novo tipo de humanismo. Em muitas regiões, tudo isto não é
apenas afirmado no meio filosófico, mas invade em larga escala a literatura, a
arte, a interpretação das ciências do homem e da história e até as próprias leis
civis; o que provoca a desorientação de muitos.
Desequilíbrios pessoais familiares e sociais
8. Uma tão rápida evolução,
muitas vezes processada desordenadamente e, sobretudo, a consciência mais aguda
das desigualdades existentes no mundo, geram ou aumentam contradições e
desequilíbrios. Ao nível da própria pessoa, origina-se com frequência um
desequilíbrio entre o saber prático moderno e o pensar teórico, que não consegue
dominar o conjunto dos seus conhecimentos nem ordená-los em sínteses
satisfatórias. Surge também desequilíbrio entre a preocupação da eficiência
prática e as exigências da consciência moral; outras vezes, as condições
colectivas da existência e as exigências do pensamento pessoal e até da
contemplação. Gera-se, finalmente, o desequilíbrio entre a especialização da
actividade humana e a visão global da realidade.
No seio da família, originam-se
tensões, quer devido à pressão das condições demográficas, económicas e sociais,
quer pelas dificuldades que surgem entre as diferentes gerações, quer pelo novo
tipo de relações sociais entre homens e mulheres.
Grandes discrepâncias surgem
entre as raças e os diversos grupos sociais; entre as nações ricas, as menos
prósperas e as pobres; finalmente, entre as instituições internacionais,
nascidas do desejo de paz que os povos têm, e a ambição de propagar a própria
ideologia ou os egoísmos colectivos existentes nas nações e em outros grupos.
Daqui nascem desconfianças e inimizades mútuas, conflitos e desgraças, das quais
o homem é simultâneamente causa e vítima.
Aspirações mais universais do género humano
9. Entretanto, vai crescendo a
convicção de que o género humano não só pode e deve aumentar cada vez mais o seu
domínio sobre as coisas criadas, mas também lhe compete
estabelecer uma ordem política, social e económica, que o sirva cada vez
melhor e ajude indivíduos e grupos a afirmarem e desenvolverem a própria
dignidade. Daqui vem a insistência com que muitos reivindicam aqueles bens de
que, com uma consciência muito viva, se julgam privados por injustiça ou por
desigual distribuição. As nações em vias de desenvolvimento, e as de recente
independência desejam participar dos bens da civilização, não só no campo
político mas também no económico, e aspiram a desempenhar livre. mente o seu
papel no plano mundial; e, no entanto, aumenta cada dia mais a sua distância, e
muitas vezes, simultâneamente, a sua dependência mesmo económica com relação às
outras nações mais ricas e de mais rápido progresso. Os povos oprimidos pela
fome interpelam os povos mais ricos. As mulheres reivindicam, onde ainda a não
alcançaram, a paridade de direito e de facto com os homens. Os operários e os
camponeses querem não apenas ganhar o necessário para viver, mas desenvolver,
graças ao trabalho, as próprias qualidades; mais ainda, querem participar na
organização da vida económica, social, política e cultural. Pela primeira vez na
história dos homens, todos os povos têm já a convicção de que os bens da cultura
podem e devem estender-se efectivamente a todos.
Subjacente a todas estas
exigências, esconde-se, porém, uma aspiração mais profunda e universal: as
pessoas e os grupos anelam por uma vida plena e livre, digna do homem, pondo ao
próprio serviço tudo quanto o mundo de hoje lhes pode proporcionar em tanta
abundância. E as nações fazem esforços cada dia maiores por chegar a uma certa
comunidade universal. O mundo actual apresenta-se, assim, simultâneamente
poderoso e débil, capaz do melhor e do pior, tendo patente diante de si o
caminho da liberdade ou da servidão, do progresso ou da regressão, da
fraternidade ou do ódio. E o homem torna-se consciente de que a ele compete
dirigir as forças que suscitou, e que tanto o podem esmagar como servir. Por
isso se interroga a si mesmo.
Jesus Cristo, resposta e solução da problemática humana
10. Na verdade, os desequilíbrios de que sofre o
mundo actual estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no
coração do homem. Porque no íntimo do próprio homem muitos elementos se com
batem. Enquanto, por uma parte, ele se experimenta, como criatura que é,
mùltiplamente limitado, por outra sente-se ilimitado nos seus desejos, e chamado
a uma vida superior. Atraído por muitas solicitações, vê-se obrigado a escolher
entre elas e a renunciar a algumas. Mais ainda, fraco e pecador, faz muitas
vezes aquilo que não quer e não realiza o que desejaria fazer (4). Sofre assim
em si mesmo a divisão, da qual tantas e tão grandes discórdias se originam para
a sociedade. Muitos, sem dúvida, que levam uma vida impregnada de materialismo
prático, não podem ter uma clara percepção desta situação dramática; ou,
oprimidos pela miséria, não lhe podem prestar
atenção. Outros pensam encontrar a paz nas diversas interpretações da realidade
que lhes são propostas. Alguns só do esforço humano esperam a verdadeira e plena
libertação do género humano, e estão convencidos que o futuro império do homem
sobre a terra satisfará todas as aspirações do seu coração. E não faltam os que,
desesperando de poder encontrar um sentido para a vida, louvam a coragem
daqueles que, julgando a existência humana vazia de qualquer significado, se
esforçam por lhe conferir, por si mesmos, todo o seu valor. Todavia, perante a
evolução actual do mundo, cada dia são mais numerosos os que põem ou sentem com
nova acuidade as questões fundamentais: Que é o homem? Qual o sentido da dor, do
mal, e da morte, que, apesar do enorme progresso alcançado, continuam a existir?
Para que servem essas vitórias, ganhas a tão grande preço? Que pode o homem dar
à sociedade, e que coisas pode dela receber? Que há para além desta vida
terrena? A Igreja, por sua parte, acredita que Jesus Cristo, morto e
ressuscitado por todos (5), oferece aos homens pelo seu Espírito a luz e a força
para poderem corresponder à sua altíssima vocação; nem foi dado aos homens sob o
céu outro nome, no qual devam ser salvos (6). Acredita também que a chave, o
centro e o fim de toda a história humana se encontram no seu Senhor e mestre. E
afirma, além disso, que, subjacentes a todas as transformações, há muitas coisas
que não mudam, cujo último fundamento é Cristo, o mesmo ontem, hoje, e para
sempre (7). Quer, portanto, o Concílio, à luz de Cristo, imagem de Deus invisível
e primogénito de toda a criação (8), dirigir-se a todos, para iluminar o mistério
do homem e cooperar na solução das principais questões do nosso tempo.
PRIMEIRA PARTE
A IGREJA E A VOCAÇÃO DO HOMEM
Que pensa a Igreja sobre o homem 11. O Povo de Deus,
movido pela fé com que acredita ser conduzido pelo Espírito do Senhor, o qual
enche o universo, esforça-se por discernir nos acontecimentos, nas exigências e
aspirações, em que participa juntamente com os homens de hoje, quais são os
verdadeiros sinais da presença ou da vontade de Deus. Porque a fé ilumina todas
as coisas com uma luz nova, e faz conhecer o desígnio divino acerca da vocação
integral do homem e, dessa forma, orienta o espírito para soluções plenamente
humanas.
O Concílio propõe-se, antes de mais, julgar a esta luz os valores que
hoje são mais apreciados e pô-los em relação com a sua fonte divina. Tais
valores, com efeito, na medida em que são fruto do engenho que Deus concedeu aos
homens, são excelentes, mas, por causa da corrupção do coração humano, não raro
são desviados da sua recta ordenação e precisam de ser purificados.
Que pensa a
Igreja acerca do homem? Que recomendações parecem dever fazer-se, em ordem à
construção da sociedade actual? Qual é o significado último da actividade humana
no universo? Espera-se uma resposta para estas perguntas. Aparecerá então mais
claramente que o Povo de Deus e o género humano, no qual aquele está inserido,
se prestam mútuo serviço; manifestar-se-á assim o carácter religioso e, por isso
mesmo, profundamente humano da missão da Igreja.
CAPÍTULO I
A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
O homem criado à imagem de Deus
12. Tudo quanto existe sobre a terra
deve ser ordenado em função do homem, como seu centro e seu termo: neste ponto
existe um acordo quase geral entre crentes e não-crentes.
Mas, que é o homem?
Ele próprio já formulou, e continua a formular, acerca de si mesmo, inúmeras
opiniões, diferentes entre si e até contraditórias. Segundo estas, muitas vezes
se exalta até se constituir norma absoluta, outras se abate até ao desespero.
Daí as suas dúvidas e angústias. A Igreja sente profundamente estas dificuldades
e, instruída pela revelação de Deus, pode dar-lhes uma resposta que defina a
verdadeira condição do homem, explique as suas fraquezas, ao mesmo tempo que
permita conhecer com exactidão a sua dignidade e vocação.
A Sagrada Escritura
ensina que o homem foi criado «à imagem de Deus», capaz de conhecer e amar o seu
Criador, e por este constituído senhor de todas as criaturas terrenas (1), para as
dominar e delas se servir, dando glória a Deus (2). «Que é, pois, o homem, para
que dele te lembres? ou o filho do homem, para que te preocupes com ele? Fizeste
dele pouco menos que um anjo, coroando-o de glória e de esplendor.
Estabeleceste-o sobre a obra de tuas mãos, tudo puseste sob os seus pés» (Salmo
8, 5-7).
Deus, porém, não criou o homem sòzinho: desde o princípio criou-os
«varão e mulher (Gén. 1,27); e a sua união constitui a primeira forma de
comunhão entre pessoas. Pois o homem, por sua própria natureza, é um ser social,
que não pode viver nem desenvolver as suas qualidades sem entrar em relação com
os outros.
Como também lemos na Sagrada Escritura, Deus viu «todas as coisas que
fizera, e eram excelentes» (Gén. 1,31).
O pecado e suas consequências
13. Estabelecido por Deus num estado de
santidade, o homem, seduzido pelo maligno, logo no começo da sua história abusou
da própria liberdade, levantando-se contra Deus e desejando alcançar o seu fim
fora d'Ele. Tendo conhecido a Deus, não lhe prestou a glória a Ele devida, mas o
seu coração insensato obscureceu-se e ele serviu à criatura, preferindo-a ao
Criador (3). E isto que a revelação divina nos dá a conhecer, concorda com os
dados da experiência. Quando o homem olha para dentro do próprio coração,
descobre-se inclinado também para o mal, e imerso em muitos males, que não podem
provir de seu Criador, que é bom. Muitas vezes, recusando reconhecer Deus como
seu princípio, perturbou também a devida orientação para o fim último e, ao
mesmo tempo, toda a sua ordenação quer para si mesmo, quer para os demais homens
e para toda a criação.
O homem encontra-se, pois, dividido em si mesmo. E assim,
toda a vida humana, quer singular quer colectiva, apresenta-se como uma luta
dramática entre o bem e o mal, entre a
luz e as trevas. Mais: o homem descobre-se incapaz de repelir por si mesmo as
arremetidas do inimigo: cada um sente-se como que preso com cadeias. Mas o
Senhor em pessoa veio para libertar e fortalecer o homem, renovando-o
interiormente e lançando fora o príncipe deste mundo (cfr. Jo. 12,31), que o
mantinha na servidão do pecado (4). Porque o pecado diminui o homem, impedindo-o
de atingir a sua plena realização.
A sublime vocação e a profunda miséria que os homens em si
mesmos experimentam, encontram a sua explicação última à luz desta revelação.
Constituição do homem: sua
natureza 14. O homem, ser uno, composto de corpo e alma, sintetiza em si
mesmo, pela sua natureza corporal, os elementos do mundo material, os quais, por
meio dele, atingem a sua máxima elevação e louvam livremente o Criador (5). Não
pode, portanto, desprezar a vida corporal; deve, pelo contrário, considerar o
seu corpo como bom e digno de respeito, pois foi criado por Deus e há-de
ressuscitar no último dia. Todavia, ferido pelo pecado, o homem experimenta as
revoltas do corpo. É, pois, a própria dignidade humana que exige que o homem
glorifique a Deus no seu corpo (6), não deixando que este se escravize às más
inclinações do próprio coração. Não se engana o homem, quando se reconhece por
superior às coisas materiais e se considera como algo mais do que simples
parcela da natureza ou anónimo elemento da cidade dos homens. Pela sua
interioridade, transcende o universo das coisas: tal é o conhecimento profundo
que ele alcança quando reentra no seu interior, onde Deus, que perscruta os
corações (7), o espera, e onde ele, sob o olhar do Senhor, decide da própria
sorte. Ao reconhecer, pois, em si uma alma espiritual e imortal, não se ilude
com uma enganosa criação imaginativa, mero resultado de condições físicas e
sociais; atinge, pelo contrário, a verdade profunda das coisas.
Dignidade do entendimento
15. Participando
da luz da inteligência divina, com razão pensa o homem que supera, pela
inteligência, o universo. Exercitando incansàvelmente, no decurso dos séculos, o
próprio engenho, conseguiu ele grandes progressos nas ciências empíricas, nas
técnicas e nas artes liberais. Nos nossos dias, alcançou notáveis sucessos,
sobretudo na investigação e conquista do mundo material. Mas buscou sempre, e
encontrou, uma verdade mais profunda. Porque a inteligência não se limita ao
domínio dos fenómenos; embora, em consequência do pecado, esteja parcialmente
obscurecida e debilitada, ela é capaz de atingir com certeza a realidade
inteligível. Finalmente, a natureza
espiritual da pessoa humana encontra e deve encontrar a sua perfeição na
sabedoria, que suavemente atrai o espírito do homem à busca e amor da verdade e
do bem, e graças à qual ele é levado por meio das coisas visíveis até às
invisíveis. Mais do que os séculos
passados, o nosso tempo precisa de uma tal sabedoria, para
que se humanizem as novas descobertas dos homens. Está ameaçado, com efeito, o
destino do mundo, se não surgirem homens cheios de sabedoria. E é de notar que
muitas nações, pobres em bens económicos, mas ricas em sabedoria, podem trazer
às outras inapreciável contribuição.
Pelo dom do Espírito Santo, o homem chega a contemplar e saborear, na fé, o
mistério do plano divino (8).
Dignidade da consciência moral 16. No fundo da
própria consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à
qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está a chamar ao amor do bem e fuga
do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faze isto, evita
aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua
dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado(9). A consciência é o
centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus,
cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser (10). Graças à consciência,
revela-se de modo admirável aquela lei que se realiza no amor de Deus e do
próximo (11). Pela fidelidade à voz da consciência, os cristãos estão unidos aos
demais homens, no dever de buscar a verdade e de nela resolver tantos problemas
morais que surgem na vida individual e social. Quanto mais, portanto, prevalecer
a recta consciência, tanto mais as pessoas e os grupos estarão longe da
arbitrariedade cega e procurarão conformar-se com as normas objectivas da
moralidade. Não raro, porém, acontece que a consciência erra, por ignorância
invencível, sem por isso perder a própria dignidade. Outro tanto não se pode
dizer quando o homem se descuida de procurar a verdade e o bem e quando a
consciência se vai progressivamente cegando, com o hábito do pecado.
Grandeza da liberdade
17. Mas é
só na liberdade que o homem se pode converter ao bem. Os homens de hoje apreciam
grandemente e procuram com ardor esta liberdade; e com toda a razão. Muitas
vezes, porém, fomentam-na dum modo condenável, como se ela consistisse na
licença de fazer seja o que for, mesmo o mal, contanto que agrade. A liberdade
verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no homem. Pois Deus quis
«deixar o homem entregue à sua própria decisão» (12), para que busque por si mesmo
o seu Criador e livremente chegue à total e beatífica perfeição, aderindo a Ele.
Exige, portanto, a dignidade do homem que ele proceda segundo a própria
consciência e por livre adesão, ou seja movido e induzido pessoalmente desde
dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coacção externa. O
homem atinge esta dignidade quando, libertando-se da escravidão das paixões,
tende para o fim pela livre escolha do bem e procura a sério e com diligente
iniciativa os meios convenientes. A liberdade do homem, ferida pelo pecado, só
com a ajuda da graça divina pode tornar plenamente efectiva esta orientação para
Deus. E cada um deve dar conta da própria vida perante o tribunal de Deus,
segundo o bem ou o mal que tiver praticado (13).
A imortalidade e o enigma da morte
18. É em face
da morte que o enigma da condição humana mais se adensa. Não é só a dor e a
progressiva dissolução do corpo que atormentam o homem, mas também, e ainda
mais, o temor de que tudo acabe para sempre. Mas a intuição do próprio coração
fá-lo acertar, quando o leva a aborrecer e a recusar a ruína total e o
desaparecimento definitivo da sua pessoa. O germe de eternidade que nele existe,
irredutível à pura matéria, insurge-se contra a morte. Todas as tentativas da
técnica, por muito úteis que sejam, não conseguem acalmar a ansiedade do homem:
o prolongamento da longevidade biológica não pode satisfazer aquele desejo duma
vida ulterior, invencìvelmente radicado no seu coração.
Enquanto, diante da
morte, qualquer imaginação se revela impotente, a Igreja, ensinada pela
revelação divina, afirma que o homem foi criado por Deus para um fim feliz, para
além dos limites da miséria terrena. A fé cristã ensina que a própria morte
corporal, de que o homem seria isento se não tivesse pecado (14) - acabará por ser
vencida, quando o homem for pelo omnipotente e misericordioso Salvador
restituído à salvação que por sua culpa perdera. Com efeito, Deus chamou e chama
o homem a unir-se a Ele com todo o seu ser na perpétua comunhão da incorruptível
vida divina. Esta vitória, alcançou-a Cristo ressuscitado, libertando o homem da
morte com a própria morte (15). Portanto, a fé, que se apresenta à reflexão do
homem apoiada em sólidos argumentos, dá uma resposta à sua ansiedade acerca do
seu destino futuro; e ao mesmo tempo oferece a possibilidade de comunicar em
Cristo com os irmãos queridos que a morte já levou, fazendo esperar que eles
alcançaram a verdadeira vida junto de Deus.
Formas e raízes do ateísmo
19. A razão mais sublime da
dignidade do homem consiste na sua vocação à união com Deus. É desde o começo da
sua existência que o homem é convidado a dialogar com Deus: pois, se existe, é
só porque, criado por Deus por amor, é por Ele por amor constantemente
conservado; nem pode viver plenamente segundo a verdade, se não reconhecer
livremente esse amor e se entregar ao seu Criador. Porém, muitos dos nossos
contemporâneos não atendem a esta íntima e vital ligação a Deus, ou até a
rejeitam explicitamente; de tal maneira que o ateísmo deve ser considerado entre
os factos mais graves do tempo actual e submetido a atento exame.
Com a palavra
«ateísmo», designam-se fenómenos muito diversos entre si. Com efeito, enquanto
alguns negam expressamente Deus, outros pensam que o homem não pode afirmar seja
o que for a seu respeito; outros ainda, tratam o problema de Deus de tal maneira
que ele parece não ter significado. Muitos, ultrapassando indevidamente os
limites das ciências positivas, ou pretendem explicar todas as coisas só com os
recursos da ciência, ou, pelo contrário, já não admitem nenhuma verdade
absoluta. Alguns, exaltam de tal modo o homem, que a fé em Deus perde toda a
força, e parecem mais inclinados a afirmar o homem do que a negar Deus. Outros,
concebem Deus de uma tal maneira, que aquilo que rejeitam não é de modo algum
o Deus do Evangelho. Outros há que nem sequer abordam o problema de Deus:
parecem alheios a qualquer inquietação religiosa e não percebem por que se devem
ainda preocupar com a religião. Além disso, o ateísmo nasce muitas vezes dum
protesto violento contra o mal que existe no mundo, ou de se ter atribuído
indevidamente o carácter de absoluto a certos valores humanos que passam a
ocupar o lugar de Deus. A própria civilização actual, não por si mesma mas pelo
facto de estar muito ligada com as realidades terrestres, torna muitas vezes
mais difícil o acesso a Deus. Sem
dúvida que não estão imunes de culpa todos aqueles que procuram voluntàriamente
expulsar Deus do seu coração e evitar os problemas religiosos, não seguindo o
ditame da própria consciência; mas os próprios crentes, muitas vezes, têm
responsabilidade neste ponto. Com efeito, o ateísmo, considerado no seu
conjunto, não é um fenómeno originário, antes resulta de várias causas, entre as
quais se conta também a reacção crítica contra as religiões e, nalguns países,
principalmente contra a religião cristã. Pelo que os crentes podem ter tido
parte não pequena na génese do ateísmo, na medida em que, pela negligência na
educação da sua fé, ou por exposições falaciosas da doutrina, ou ainda pelas
deficiências da sua vida religiosa, moral e social, se pode dizer que antes
esconderam do que revelaram o autêntico rosto de Deus e da religião.
O ateísmo sistemático 20. O ateísmo
moderno apresenta muitas vezes uma forma sistemática, a qual, prescindindo de
outros motivos, leva o desejo de autonomia do homem a um tal grau que constitui
um obstáculo a qualquer dependência com relação a Deus. Os que professam tal
ateísmo, pretendem que a liberdade consiste em ser o homem o seu próprio fim,
autor único e demiurgo da sua história; e pensam que isso é incompatível com o
reconhecimento de um Senhor, autor e fim de todas as coisas; ou que, pelo menos,
torna tal afirmação plenamente supérflua. O sentimento de poder que os
progressos técnicos hodiernos deram ao homem pode favorecer esta doutrina.
Não se deve passar em silêncio, entre
as formas actuais de ateísmo, aquela que espera a libertação do homem sobretudo
da sua libertação económica. A esta, dizem, opõe-se por sua natureza a religião,
na medida em que, dando ao homem a esperança duma enganosa vida futura, o afasta
da construção da cidade terrena. Por isso, os que professam esta doutrina,
quando alcançam o poder, atacam violentamente a religião, difundindo o ateísmo
também por aqueles meios de pressão de que dispõe o poder público, sobretudo na
educação da juventude. Atitude da
Igreja perante o ateísmo 21. A
Igreja, fiel a Deus e aos homens, não pode deixar de reprovar com dor e com toda
a firmeza, como já o fez no passado (16), essas doutrinas e actividades
perniciosas, contrárias à razão e à experiência comum dos homens, e que
destronam o homem da sua inata dignidade.
Procura, no entanto, descobrir no
espírito dos ateus as causas da sua negação de Deus, e, consciente da gravidade
dos problemas levantados pelo ateísmo, e, levada pelo amor dos homens, entende
que elas devem ser objecto de um exame sério e profundo.
A Igreja defende que o
reconhecimento de Deus de modo algum se opõe à dignidade do homem, uma vez que
esta dignidade se funda e se realiza no próprio Deus. Com efeito, o homem
inteligente e livre, foi constituído em sociedade por Deus Criador; mas é
sobretudo chamado a unir-se, como filho, a Deus e a participar na sua
felicidade. Ensina, além disso, a Igreja que a importância das tarefas terrenas
não é diminuída pela esperança escatológica, mas que esta antes reforça com
novos motivos a sua execução. Pelo contrário, se faltam o fundamento divino e a
esperança da vida eterna, a dignidade humana é gravemente lesada, como tantas
vezes se verifica nos nossos dias, e os enigmas da vida e da morte, do pecado e
da dor, ficam sem solução, o que frequentemente leva os homens ao desespero.
Entretanto, cada homem permanece para si mesmo um problema insolúvel, apenas
confusamente pressentido. Ninguém pode, na verdade, evitar inteiramente esta
questão em certos momentos, e sobretudo nos acontecimentos mais importantes da
vida. Só Deus pode responder plenamente e com toda a certeza, Ele que chama o
homem a uma reflexão mais profunda e a uma busca mais humilde.
Quanto ao remédio
para o ateísmo, ele há-de vir da conveniente exposição da doutrina e da vida
íntegra da Igreja e dos seus membros. Pois a Igreja deve tornar presente e como
que visível a Deus Pai e a seu Filho encarnado, renovando-se e purificando-se
continuamente sob a direcção do Espírito Santo (17). Isto há-de alcançar-se, antes
de mais, com o testemunho duma fé viva e adulta, educada de modo a poder
perceber claramente e superar as dificuldades. Magnífico testemunho desta fé
deram e continuam a dar inúmeros mártires. Ela deve manifestar a sua
fecundidade, penetrando toda a vida dos fiéis, mesmo a profana, levando-os à
justiça e ao amor, sobretudo para com os necessitados. Finalmente, o que
contribui mais que tudo para manifestar a presença de Deus é a caridade fraterna
dos fiéis que unânimemente colaboram com a fé do Evangelho (18) e se apresentam como
sinal de unidade. Ainda que rejeite inteiramente o ateísmo, todavia a Igreja
proclama sinceramente que todos os homens, crentes e não-crentes, devem
contribuir para a recta construção do mundo no qual vivem em comum. O que não é
possível sem um prudente e sincero diálogo. Deplora, por isso, a discriminação que certos governantes introduzem entre crentes e não-crentes, com
desconhecimento dos direitos fundamentais da pessoa humana. Para os crentes,
reclama a liberdade efectiva, que lhes permita edificar neste mundo também o
templo de Deus. Quanto aos ateus, convida-os cortêsmente a considerar com
espírito aberto o Evangelho de Cristo. Pois a Igreja sabe perfeitamente que, ao
defender a dignidade da vocação do homem, restituindo a esperança àqueles que já
desesperam do seu destino sublime, a sua mensagem está de acordo com os desejos
mais profundos do coração humano. Longe de diminuir o homem, a sua mensagem
contribui para o seu bem, difundindo luz, vida e liberdade; e, fora dela, nada
pode satisfazer o coração humano: «fizeste-nos para Ti», Senhor, e o nosso
coração está inquieto, enquanto não repousa em Ti» (19).
Cristo, o homem novo 22. Na realidade, o
mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece
verdadeiramente. Adão, o primeiro homem, era efectivamente figura do futuro (20),
isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do
Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação
sublime. Não é por isso de admirar que as verdades acima ditas tenham n'Ele a
sua fonte e n'Ele atinjam a plenitude. «Imagem de Deus invisível» (Col. 1,15)
(21), Ele é o homem perfeito, que restitui aos filhos de Adão semelhança divina,
deformada desde o primeiro pecado. Já que, n'Ele, a natureza humana foi
assumida, e não destruída (22), por isso mesmo também em nós foi ela elevada a
sublime dignidade. Porque, pela sua encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de
certo modo a cada homem. Trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência
humana, agiu com uma vontade humana (23), amou com um coração humano. Nascido da
Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, excepto no pecado
(24). Cordeiro inocente, mereceu-nos a vida com a livre efusão
do seu sangue; n 'Ele nos reconciliou Deus consigo e uns com os outros (25) e nos
arrancou da escravidão do demónio e do pecado. De maneira que cada um de nós
pode dizer com o Apóstolo: o Filho de Deus «amou-me e entregou-se por mim» (Gál.
2,20). Sofrendo por nós, não só nos deu exemplo, para que sigamos os seus passos
(26), mas também abriu um novo caminho, em que a vida e a morte são santificados e
recebem um novo sentido. O cristão, tornado
conforme à imagem do Filho que é o primogénito entre a multidão dos irmãos (27),
recebe «as primícias do Espírito» (Rom. 8,23), que o tornam capaz de cumprir a
lei nova do amor (28). Por meio deste Espírito, «penhor da herança (Ef. 1,14), o
homem todo é renovado interiormente, até à «redenção do corpo» (Rom. 8,23):
«Se
o Espírito d'Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós,
Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos dará também a vida aos vossos
corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita» (Rom. 8,11) (29). É verdade
que para o cristão é uma necessidade e um dever lutar contra o mal através de
muitas tribulações, e sofrer a morte; mas, associado ao mistério pascal, e
configurado à morte de Cristo, vai ao encontro da ressurreição, fortalecido pela
esperança (30). E o que fica dito, vale não só dos cristãos, mas de todos os
homens de boa vontade, em cujos corações a graça opera ocultamente (31). Com
efeito, já que por todos morreu Cristo (32) e a vocação última de todos os homens
é realmente uma só, a saber, a divina, devemos manter que o Espírito Santo a
todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal por um modo só
de Deus conhecido. Tal é, e tão grande, o mistério do homem, que a revelação
cristã manifesta aos que crêem. E assim, por Cristo e em Cristo, esclarece-se o
enigma da dor e da morte, o qual, fora do Seu Evangelho, nos esmaga. Cristo
ressuscitou, destruindo a morte com a própria morte, e deu-nos a vida (33), para
que, tornados filhos no Filho, exclamemos no Espírito: Abba, Pai (34).
CAPÍTULO II
A COMUNIDADE HUMANA
Propósito do Concílio
23. Entre os principais aspectos do mundo actual
conta-se a multiplicação das relações entre os homens, cujo desenvolvimento é
muito favorecido pelos progressos técnicos hodiernos. Todavia, o diálogo
fraterno entre os homens não se realiza ao nível destes progressos, mas ao nível
mais profundo da comunidade de pessoas, a qual exige o mútuo respeito da sua
plena dignidade espiritual. A revelação cristã favorece poderosamente esta
comunhão entre as pessoas, ao mesmo tempo que nós leva a uma compreensão mais
profunda das leis da vida social que o Criador inscreveu na natureza espiritual
e moral do homem.
Dado, porém, que recentes documentos do magistério
eclesiástico expuseram a doutrina cristã acerca da sociedade humana (1), o Concílio
limita-se a recordar algumas verdades mais importantes e a expor o seu
fundamento à luz da revelação. Insiste, seguidamente, em algumas consequências
de maior importância para o nosso tempo.
Índole comunitária da vocação humana
24. Deus, que por todos cuida com
solicitude paternal, quis que os homens formassem uma só família, e se tratassem
uns aos outros como irmãos. Criados todos à imagem e semelhança daquele Deus que
«fez habitar sobre toda a face da terra o inteiro género humano, saído dum
princípio único» (Act. 17,26), todos são chamados a um só e mesmo fim, que é o
próprio Deus.
E por isso, o amor de Deus e do próximo é o primeiro e maior de
todos os mandamentos. Mas a Sagrada Escritura ensina-nos que o amor de Deus não
se pode separar do amor do próximo, «...todos os outros mandamentos se resumem
neste: amarás o próximo como a ti mesmo... A caridade é, pois, a lei na sua
plenitude» (Rom. 13, 9-10; cfr. 1 Jo. 4,20). Isto revela-se como sendo da maior
importância, hoje que os homens se tornam cada dia mais dependentes uns dos
outros e o mundo se unifica cada vez mais.
Mais ainda: quando o Senhor Jesus
pede ao Pai «que todos sejam um..., como nós somos um» (Jo. 17, 21-22),
sugere - abrindo perspectivas inacessíveis à razão humana - que dá uma certa
analogia entre a união das pessoas divinas entre si e a união dos filhos de Deus
na verdade e na caridade. Esta semelhança torna manifesto que o homem, única
criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma, não se pode
encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo (2).
Interdependência da pessoa humana e da sociedade humana
25. A natureza social do homem torna claro que o progresso da pessoa humana e o
desenvolvimento da própria sociedade estão em mútua dependência. Com efeito, a
pessoa humana, uma vez que, por sua natureza, necessita absolutamente da vida
social (3), é e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições
sociais. Não sendo, portanto, a vida social algo de adventício ao homem, este
cresce segundo todas as suas qualidades e torna-se capaz de responder à própria
vocação, graças ao contacto com os demais, ao mútuo serviço e ao diálogo com
seus irmãos.
Entre os laços sociais, necessários para o desenvolvimento do
homem, alguns, como a família e a sociedade política, correspondem mais
imediatamente à sua natureza íntima; outros são antes fruto da sua livre
vontade. No nosso tempo, devido a várias causas, as relações e interdependências
mútuas multiplicam-se cada vez mais; o que dá origem a diversas associações e
instituições, quer públicas quer privadas. Este facto, denominado socialização,
embora não esteja isento de perigos, traz, todavia, consigo muitas vantagens, em
ordem a confirmar e desenvolver as qualidades da pessoa humana e a proteger os
seus direitos (4).
Porém, se é verdade que as pessoas humanas recebem muito desta
vida social, em ordem a realizar a própria vocação, mesmo a religiosa, também
não se pode negar que os homens são muitas vezes afastados do bem ou impelidos
ao mal pelas condições em que vivem e estão mergulhados desde a infância. É
certo que as perturbações tão frequentes da ordem social vêm, em grande parte,
das tensões existentes no seio das formas económicas, políticas e sociais. Mas,
mais profundamente, nascem do egoísmo e do orgulho dos homens, os quais também
pervertem o ambiente social. Onde a ordem das coisas se encontra viciada pelas
consequências do pecado, o homem, nascido com uma inclinação para o mal,
encontra novos incitamentos para o pecado, que não pode superar sem grandes
esforços e ajudado pela graça.
Promoção do bem-comum
26. A interdependência, cada vez mais estreita e
progressivamente estendida a todo o mundo, faz com que o bem comum - ou seja, o
conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada
membro, alcançar mais plena e fàcilmente a própria perfeição - se torne hoje cada
vez mais universal e que, por esse motivo, implique direitos e deveres que dizem
respeito a todo o género humano. Cada grupo deve ter em conta as necessidades e
legítimas aspirações dos outros grupos e mesmo o bem comum de toda a família
humana (5).
Simultâneamente, aumenta a consciência da eminente dignidade da pessoa
humana, por ser superior a todas as coisas e os seus direitos e deveres serem
universais e invioláveis. É necessário, portanto, tornar
acessíveis ao homem todas as coisas de que necessita para levar uma vida
verdadeiramente humana: alimento, vestuário, casa, direito de escolher
livremente o estado de vida e de constituir família, direito à educação, ao
trabalho, à boa fama, ao respeito, à conveniente informação, direito de agir
segundo as normas da própria consciência, direito à protecção da sua vida e à
justa liberdade mesmo em matéria religiosa.
A ordem social e o seu progresso devem, pois, reverter sempre em
bem das pessoas, já que a ordem das coisas deve estar subordinada à ordem das
pessoas e não ao contrário; foi o próprio Senhor quem o insinuou ao dizer que o
sábado fora feito para o homem, não o homem para o sábado (6). Essa ordem,
fundada na verdade, construída sobre a justiça e vivificada pelo amor, deve ser
cada vez mais desenvolvida e, na liberdade, deve encontrar um equilíbrio cada
vez mais humano (7). Para o conseguir, será necessária a renovação da
mentalidade e a introdução de amplas reformas sociais.
O Espírito de Deus, que dirige o curso dos tempos e renova a
face da terra com admirável providência, está presente a esta evolução. E o
fermento evangélico despertou e desperta no coração humano uma irreprimível
exigência de dignidade.
Respeito da pessoa humana
27. Vindo a conclusões práticas e mais urgentes, o Concílio recomenda a
reverência para com o homem, de maneira que cada um deve considerar o próximo,
sem excepção, como um «outro eu», tendo em conta, antes de mais, a sua vida e os
meios necessários para a levar dignamente (8), não imitando aquele homem rico que
não fez caso algum do pobre Lázaro (9).
Sobretudo em nossos dias, urge a obrigação
de nos tornarmos o próximo de todo e qualquer homem, e de o servir efectivamente
quando vem ao nosso . encontro - quer seja o ancião, abandonado de todos, ou o
operário estrangeiro injustamente desprezado, ou o exilado, ou o filho duma
união ilegítima que sofre injustamente por causa dum pecado que não cometeu, ou
o indigente que interpela a nossa consciência, recordando a palavra do Senhor:
«todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o
fizestes» (Mt. 25,40).
Além disso, são infames as seguintes coisas: tudo quanto se opõe
à vida, como seja toda a espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e
suicídio voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as
mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas para violentar as
próprias consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como as
condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a
escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres e jovens; e também as
condições degradantes de trabalho; em que os operários são tratados como meros
instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis. Todas estas
coisas e outras semelhantes são infamantes; ao mesmo tempo que corrompem a
civilização humana, desonram mais aqueles que assim procedem, do que os que
padecem injustamente; e ofendem gravemente a honra devida ao Criador.
Respeito e amor dos adversários
28. O nosso respeito e amor devem estender-se também àqueles
que pensam ou actuam diferentemente de nós em matéria social, política ou até
religiosa. Aliás, quanto mais intimamente compreendermos, com delicadeza e
caridade, a sua maneira de ver, tanto mais fàcilmente poderemos com eles
dialogar.
Evidentemente, este amor e benevolência de modo algum nos devem tornar
indiferentes perante a verdade e o bem. Pelo contrário, é o próprio amor que
incita os discípulos de Cristo a anunciar a todos a verdade salvadora. Mas deve
distinguir-se entre o erro, sempre de rejeitar, e aquele que erra, o qual
conserva sempre a dignidade própria de pessoas, mesmo quando está atingido por ideias religiosas falsas ou menos exactas
(10). Só Deus é juiz e penetra os
corações; por esse motivo, proibe-nos Ele de julgar da culpabilidade interna de
qualquer pessoa (11).
A doutrina de Cristo exige que também perdoemos as injúrias
(12), e estende a todos os inimigos o preceito do amor, que é o mandamento da
lei nova: «ouvistes que foi dito: amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.
Mas eu digo-vos: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam e orai
pelos que vos perseguem e caluniam» (Mt. 5, 43-44).
Igualdade essencial entre todos os homens
29. A igualdade fundamental entre
todos os homens deve ser cada vez mais reconhecida, uma vez que, dotados de alma
racional e criados à imagem de Deus, todos têm a mesma natureza e origem; e,
remidos por Cristo, todos têm a mesma vocação e destino divinos.
Sem dúvida, os
homens não são todos iguais quanto à capacidade física e forças intelectuais e
morais, variadas e diferentes em cada um. Mas deve superar-se e eliminar-se,
como contrária à vontade de Deus, qualquer forma social ou cultural de
discriminação, quanto aos direitos fundamentais da pessoa, por razão do sexo,
raça, cor, condição social, língua ou religião. É realmente de lamentar que
esses direitos fundamentais da pessoa ainda não sejam respeitados em toda a
parte. Por exemplo, quando se nega à mulher o poder de escolher livremente o
esposo ou o estado de vida ou de conseguir uma educação e cultura iguais às do
homem.
Além disso, embora entre os homens haja justas diferenças, a igual
dignidade pessoal postula, no entanto, que se chegue a condições de vida mais
humanas e justas. Com efeito, as excessivas desigualdades económicas e sociais
entre os membros e povos da única família humana provocam o escândalo e são
obstáculo à justiça social, à equidade, à dignidade da pessoa humana e,
finalmente, à paz social e internacional.
Procurem as instituições humanas, privadas ou públicas, servir a dignidade e o
destino do homem, combatendo ao mesmo tempo valorosamente contra qualquer forma
de sujeição política ou social e salvaguardando, sob qualquer regime político,
os direitos humanos fundamentais. Mais ainda: é necessário que tais instituições
se adaptem progressivamente às realidades espirituais, que são as mais elevadas
de todas; embora por vezes se requeira um tempo razoàvelmente longo para chegar
a esse desejado fim.
Superação da ética individualista
30. A profundidade e rapidez das transformações reclamam
com maior urgência que ninguém se contente, por não atender à evolução das
coisas ou por inércia, com uma ética puramente individualística. O dever de
justiça e caridade cumpre-se cada vez mais com a contribuição de cada um em
favor do bem comum, segundo as próprias possibilidades e as necessidades dos
outros, promovendo instituições públicas ou privadas e ajudando as que servem
para melhorar as condições de vida dos homens. Mas há pessoas que, fazendo
profissão de ideias amplas e generosas, vivem sempre, no entanto, de tal modo
como se nenhum caso fizessem das necessidades sociais. E até, em vários países,
muitos desprezam as leis e prescrições sociais. Não poucos atrevem-se a
eximir-se, com várias fraudes e enganos, aos impostos e outras obrigações
sociais. Outros desprezam certas normas da vida social, como por exemplo as
estabelecidas para defender a saúde ou para regularizar o trânsito de veículos,
sem repararem que esse seu descuido põe em perigo a vida própria e alheia.
Todos tomem a peito considerar e respeitar as relações sociais
como um dos principais deveres do homem de hoje. Com efeito, quanto mais o mundo
se unifica, tanto mais as obrigações dos homens transcendem os grupos
particulares e se estendem progressivamente a todo o mundo. O que só se poderá
fazer se os indivíduos e grupos cultivarem em si mesmos e difundirem na
sociedade as virtudes morais e sociais, de maneira a tornarem-se realmente, com
o necessário auxílio da graça divina, homens novos e construtores duma
humanidade nova.
Responsabilidade e participação social
31. Para que cada
homem possa cumprir mais perfeitamente os seus deveres de consciência quer para
consigo quer em relação aos vários grupos de que é membro, deve-se ter o cuidado
de que todos recebam uma formação mais ampla, empregando-se para tal os
consideráveis meios de que hoje dispõe a humanidade. Antes de mais, a educação
dos jovens, de qualquer origem social, deve ser de tal maneira organizada que
suscite homens e mulheres não apenas cultos mas também de forte personalidade,
tão urgentemente exigidos pelo nosso tempo.
Mal poderá, contudo, o homem chegar
a este sentido de responsabilidade, se as condições de vida lhe não permitirem
tornar-se consciente da própria dignidade e responder à sua vocação,
empenhando-se no serviço de Deus e dos outros homens. Ora a liberdade humana com frequência se debilita quando o homem cai em extrema miséria, e degrada-se
quando ele, cedendo às demasiadas facilidades da vida, se fecha numa espécie de
solidão dourada. Pelo contrário, ela robustece-se quando o homem aceita as
inevitáveis
dificuldades da vida social, assume as multiformes exigências da vida em comum e
se empenha no serviço da comunidade humana.
Deve, por isso, estimular-se em
todos a vontade de tomar parte nos empreendimentos comuns. E é de louvar o modo
de agir das nações em que a maior parte dos cidadãos participa, com verdadeira
liberdade, nos assuntos públicos. É preciso, porém, ter sempre em conta a.
situação real de cada povo e o necessário vigor da autoridade pública. Mas para
que todos os cidadãos se sintam inclinados a participar na vida dos vários
grupos de que se forma o corpo social, é necessário que encontrem nesses grupos
bens que os atraiam e os predisponham ao serviço dos outros. Podemos
legitimamente pensar que o destino futuro da humanidade está nas mãos daqueles
que souberem dar às gerações vindoiras razões de viver e de esperar.
O Verbo encarnado e a solidariedade humana
32. Do
mesmo modo que Deus não criou os homens para viverem isolados, mas para se
unirem em sociedade, assim também Lhe «aprouve... santificar e salvar os homens
não individualmente e com exclusão de qualquer ligação mútua, mas fazendo deles
um povo que O reconhecesse em verdade e O servisse santamente»
(13). Desde o começo
da história da salvação, Ele escolheu os homens não só como indivíduos mas ainda
como membros duma comunidade. Com efeito, manifestando o seu desígnio, chamou a
esses escolhidos o «seu povo» (Ex. 3, 7-12), com o qual estabeleceu aliança no
Sinai (14). Esta índole comunitária aperfeiçoa-se e completa-se com a obra de
Jesus Cristo. Pois o próprio Verbo encarnado quis participar da vida social dos
homens. Tomou parte nas bodas de Caná, entrou na casa de Zaqueu, comeu com os
publicanos e pecadores. Revelou o amor do Pai e a sublime vocação dos homens,
evocando realidades sociais comuns e servindo-se de modos de falar e de imagens
da vida de todos os dias. Santificou os laços sociais e antes de mais os
familiares, fonte da vida social; e submeteu-se livremente às leis do seu país.
Quis levar a vida dum operário do seu tempo e da sua terra.
Na sua pregação
claramente mandou aos filhos de Deus que se tratassem como irmãos. E na sua
oração pediu que todos os seus discípulos fossem «um». Ele próprio se ofereceu à
morte por todos, de todos feito Redentor. «Não há maior amor do que dar alguém a
vida pelos seus amigos» (Jo. 15, 13). E mandou aos Apóstolos pregar a todos a
mensagem evangélica para que a humanidade se tornasse a família de Deus, na qual
o amor fosse toda a lei. Primogénito entre muitos irmãos, estabeleceu, depois da
sua morte e ressurreição, com o dom do seu Espírito, uma nova comunhão fraterna
entre todos os que O recebem com fé e caridade, a saber, na Igreja, que é o seu
corpo, no qual todos, membros uns dos outros, se prestam mùtuamente serviço
segundo os diversos dons a cada um concedidos.
Esta solidariedade deve crescer sem cessar, até se consumar
naquele dia em que os homens, salvos pela graça, darão perfeita glória a Deus,
como família amada do Senhor e de Cristo seu irmão.
CAPÍTULO III
A ACTIVIDADE HUMANA NO MUNDO
Problema do sentido da actividade humana
33. Sempre o homem procurou, com o seu trabalho e
engenho, desenvolver mais a própria vida; hoje, porém, sobretudo graças à
ciência e à técnica, estendeu o seu domínio à natureza inteira, e continuamente
o aumenta; e a família humana, sobretudo devido ao aumento de múltiplos meios de
comunicação entre as nações, vai-se descobrindo e organizando progressivamente
como uma só comunidade espalhada pelo mundo inteiro. Acontece assim que muitos
bens que o homem noutro tempo esperava sobretudo das forças superiores, os
alcança hoje por seus próprios meios. Muitas são as questões que se levantam
entre os homens, perante este imenso empreendimento, que já atingiu o inteiro género humano. Qual o sentido e valor desta actividade? Como se devem usar estes
bens? Para que fim tendem os esforços dos indivíduos e das sociedades? Guarda do
depósito da palavra divina, onde se vão buscar os princípios da ordem religiosa
e moral, a Igreja, embora nem sempre tenha uma resposta já pronta para cada uma
destas perguntas, deseja, no entanto, juntar a luz da revelação à competência de
todos os homens, para que assim receba luz o caminho recentemente empreendido
pela humanidade. Valor da
actividade humana 34. Uma coisa é certa para os crentes: a actividade humana
individual e colectiva, aquele imenso esforço com que os homens, no decurso dos
séculos, tentaram melhorar as condições de vida, corresponde à vontade de Deus.
Pois o homem, criado à imagem de Deus, recebeu o mandamento de dominar a terra
com tudo o que ela contém e governar o mundo na justiça e na santidade(1) e,
reconhecendo Deus como Criador universal, orientar-se a si e ao universo para
Ele; de maneira que, estando todas as coisas sujeitas ao homem, seja glorificado
em toda a terra o nome de Deus (2). Isto aplica-se também às actividades de todos
os dias. Assim, os homens e as mulheres que, ao ganhar o sustento para si e suas
famílias, de tal modo exercem a própria actividade que prestam conveniente
serviço à sociedade, com razão podem considerar que prolongam com o seu trabalho
a obra do Criador, ajudam os seus irmãos e dão uma contribuição pessoal para a
realização dos desígnios de Deus na história (3).
Longe de pensar que as obras do
engenho e poder humano se opõem ao poder de Deus, ou de considerar a criatura
racional como rival do Criador, os cristãos devem, pelo contrário, estar
convencidos de que as vitórias do género humano manifestam a grandeza de Deus e
são fruto do seu desígnio inefável. Mas, quanto mais aumenta o poder dos homens,
tanto mais cresce a sua responsabilidade, pessoal e comunitária. Vê-se,
portanto, que a mensagem cristã não afasta os homens da tarefa de construir o
mundo, nem os leva a desatender o bem dos
seus semelhantes, mas que, antes, os obriga ainda mais a realizar essas
actividades (4). Ordenação da actividade humana
35. A actividade humana, do mesmo modo que procede do homem,
assim para ele se ordena. De facto, quando age, o homem não transforma apenas as
coisas e a sociedade, mas realiza-se a si mesmo. Aprende muitas coisas,
desenvolve as próprias faculdades, sai de si e eleva-se sobre si mesmo. Este
desenvolvimento, bem compreendido, vale mais do que os bens externos que se
possam conseguir. O homem vale mais por aquilo que é do que por aquilo que tem
(5). Do mesmo modo, tudo o que o homem faz para conseguir mais justiça, mais
fraternidade, uma organização mais humana das relações sociais, vale mais do que
os progressos técnicos. Pois tais progressos podem proporcionar a base material
para a promoção humana, mas, por si sós, são incapazes de a realizar.
A norma da actividade humana é pois a seguinte: segundo o plano e vontade de Deus, ser
conforme com o verdadeiro bem da humanidade e tornar possível ao homem,
individualmente considerado ou em sociedade, cultivar e realizar a sua vocação
integral. Justa autonomia das realidades
terrestres 36. No entanto, muitos dos nossos contemporâneos parecem temer que a
íntima ligação entre a actividade humana e a religião constitua um obstáculo
para a autonomia dos homens, das sociedades ou das ciências. Se por autonomia
das realidades terrenas se entende que as coisas criadas e as próprias
sociedades têm leis e valores próprios, que o homem irá gradualmente
descobrindo, utilizando e organizando, é perfeitamente legítimo exigir tal
autonomia. Para além de ser uma exigência dos homens do nosso tempo, trata-se de
algo inteiramente de acordo com a vontade do Criador. Pois, em virtude do
próprio facto da criação, todas as coisas possuem consistência, verdade, bondade
e leis próprias, que o homem deve respeitar, reconhecendo os métodos peculiares
de cada ciência e arte. Por esta razão, a investigação metódica em todos os
campos do saber, quando levada a cabo de um modo verdadeiramente científico e
segundo as normas morais, nunca será realmente oposta à fé, já que as realidades
profanas e as da fé têm origem no mesmo Deus (6). Antes, quem se esforça com
humildade e constância por perscrutar os segredos da natureza, é, mesmo quando
disso não tem consciência, como que conduzido pela mão de Deus, o qual sustenta
as coisas e as faz ser o que são. Seja permitido, por isso, deplorar certas
atitudes de espírito que não faltaram entre os mesmos cristãos, por não
reconhecerem suficientemente a legítima autonomia da ciência e que, pelas
disputas e controvérsias a que deram origem, levaram muitos espíritos a pensar
que a fé e a ciência eram incompatíveis (7).
Se, porém, com as palavras «autonomia das realidades temporais» se entende que
as criaturas não dependem de Deus e que o homem pode usar delas sem as ordenar
ao Criador, ninguém que acredite em Deus deixa de ver a falsidade de tais
assertos. Pois, sem o Criador, a criatura não subsiste. De resto, todos os
crentes, de qualquer religião, sempre souberam ouvir a sua voz e manifestação na
linguagem das criaturas. Antes, se se esquece Deus, a própria criatura se
obscurece.
A actividade humana viciada pelo pecado
37. A Sagrada Escritura, confirmada pela experiência dos séculos,
ensina à família humana que o progresso humano, tão grande bem para o homem,
traz consigo também uma grande tentação: perturbada a ordem de valores e
misturado o bem com o mal, os homens e os grupos consideram apenas o que é seu,
esquecendo o dos outros. Deixa assim o mundo de ser um lugar de verdadeira
fraternidade, enquanto que o acrescido dos homens ameaça já destruir o próprio género humano.
Um duro combate contra os poderes das trevas atravessa, com
efeito. toda a história humana; começou no princípio do mundo e, segundo a
palavra do Senhor (8), durará até ao último dia. Inserido nesta luta, o homem deve
combater constantemente, se quer ser fiel ao bem; e só com grandes esforços e a
ajuda da graça de Deus conseguirá realizar a sua própria unidade.
Por isso, a
Igreja de Cristo, confiando no desígnio do Criador, ao mesmo tempo que reconhece
que o progresso humano pode servir para a verdadeira felicidade dos homens, não
pode deixar de repetir aquela palavra do Apóstolo:
«não vos conformeis com este
mundo» (Rom. 12, 2), isto é, com aquele espírito de vaidade e malícia que
transforma a actividade humana, destinada ao serviço de Deus e do homem, em
instrumento de pecado.
E se alguém quer saber de que maneira se pode superar
esta situação miserável, os cristãos professam que todas as actividades humanas,
constantemente ameaçadas pela soberba e amor próprio desordenado, devem ser
purificadas e levadas à perfeição pela cruz e ressurreição de Cristo. Porque,
remido por Cristo e tornado nova criatura no Espírito Santo, o homem pode e deve
amar até as coisas criadas por Deus. Pois recebeu-as de Deus e considera-as e
respeita-as como vindas da mão do Senhor. Dando por elas graças ao benfeitor e
usando e aproveitando as criaturas em pobreza e liberdade de espírito, é
introduzido no verdadeiro senhorio do mundo, como quem nada tem e tudo possui (9).
«Todas as coisas são vossas; mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus» (1 Cor.
3, 22-23).
A actividade humana aperfeiçoada na Encarnação e no mistério pascal
38. O Verbo de Deus, pelo qual todas as coisas foram feitas,
fazendo-se homem e vivendo na terra dos homens (10), entrou como homem perfeito na
história do mundo, assumindo-a e recapitulando-a (11). Ele revela-nos que
«Deus é
amor» (1 Jo. 4, 8) e ensina-nos ao mesmo tempo que a lei fundamental da
perfeição humana e, portanto, da transformação do mundo, é o novo mandamento do amor. Dá, assim, aos
que acreditam no amor de Deus, a certeza de que o caminho do amor está aberto
para todos e que o esforço por estabelecer a universal fraternidade não é vão.
Adverte, ao mesmo tempo, que este amor não se deve exercitar apenas nas coisas
grandes, mas, antes de mais, nas circunstâncias ordinárias da vida. Suportando a
morte por todos nós pecadores (12), ensina-nos com o seu exemplo que também
devemos levar a cruz que a carne e o mundo fazem pesar sobre os ombros daqueles
que buscam a paz e a justiça. Constituído Senhor pela sua ressurreição, Cristo,
a quem foi dado todo o poder no céu e na terra (13), actua já pela força do
Espírito Santo nos corações dos homens; não suscita neles apenas o desejo da
vida futura, mas, por isso mesmo, anima, purifica e fortalece também aquelas
generosas aspirações que levam a humanidade a tentar tornar a vida mais humana e
a submeter para esse fim toda a terra. Sem dúvida, os dons do Espírito são
diversos: enquanto chama alguns a darem claro testemunho do desejo da pátria
celeste e a conservarem-no vivo no seio da família humana, chama outros a
dedicarem-se ao serviço terreno dos homens, preparando com esta sua actividade
como que a matéria do reino dos céus. Liberta, porém, a todos, para que,
deixando o amor próprio e empregando em favor da vida humana todas as energias
terrenas, se lancem para o futuro, em que a humanidade se tornará oblação
agradável a Deus (14).
O penhor desta esperança e o viático para este caminho
deixou-os o Senhor aos seus naquele sacramento da fé, em que os elementos
naturais, cultivados pelo homem, se convertem no Corpo e Sangue gloriosos, na
ceia da comunhão fraterna e na prelibação do banquete celeste.
A nova terra e o novo céu
39. Ignoramos o
tempo em que a terra e a humanidade atingirão a sua plenitude (15), e também não
sabemos que transformação sofrerá o universo. Porque a figura deste mundo,
deformada pelo pecado, passa certamente (16), mas Deus ensina-nos que se prepara
uma nova habitação e uma nova terra, na qual reina a justiça (17) e cuja
felicidade satisfará e superará todos os desejos de paz que se levantam no
coração dos homens (18). Então, vencida a morte, os filhos de Deus ressuscitarão
em Cristo e aquilo que foi semeado na fraqueza e corrupção, revestir-se-á de
incorruptibilidade (19); permanecendo a caridade e as suas obras (20), todas as
criaturas que Deus criou para o homem serão libertadas da escravidão da vaidade
(21).
É certo que é-nos lembrado que de nada serve ao homem ganhar o mundo
inteiro, se a si mesmo se vem a perder (22). A expectativa da nova terra não deve,
porém, enfraquecer, mas antes activar a solicitude em ordem a desenvolver esta
terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que já consegue apresentar
uma certa prefiguração do mundo futuro. Por conseguinte, embora o progresso terreno se deva cuidadosamente
distinguir do crescimento do reino de Cristo, todavia, na medida em que pode
contribuir para a melhor organização da sociedade humana, interessa muito ao
reino de Deus (23).
Todos estes valores da dignidade humana, da comunhão fraterna
e da liberdade, fruto da natureza e do nosso trabalho, depois de os termos
difundido na terra, no Espírito do Senhor e segundo o seu mandamento, voltaremos de novo a encontrá-los, mas então purificados de qualquer mancha, iluminados
e transfigurados, quando Cristo entregar ao Pai o reino eterno e universal:
«reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de
amor e de paz» (24). Sobre a terra, o reino já está misteriosamente presente;
quando o Senhor vier, atingirá a perfeição.
CAPÍTULO IV
A FUNÇÃO DA IGREJA NO MUNDO ACTUAL
Relação mútua entre a Igreja e o mundo
40. Tudo quanto dissemos acerca
da dignidade da pessoa humana, da comunidade dos homens, do significado profundo
da actividade humana, constitui o fundamento das relações entre a Igreja e o
mundo e a base do seu diálogo recíproco(1). Pelo que, no presente capítulo,
pressupondo tudo o que o Concílio já declarou acerca do mistério da Igreja,
considerar-se-á a mesma Igreja enquanto existe neste mundo e com ele vive e actua.
A Igreja, que tem a sua origem no amor do eterno Pai (2), foi fundada, no
tempo, por Cristo Redentor, e reune-se no Espírito Santo (3), tem um fim salvador
e escatológico, o qual só se poderá atingir plenamente no outro mundo. Mas ela
existe já actualmente na terra, composta de homens que são membros da cidade
terrena e chamados a formar já na história humana a família dos filhos de Deus,
a qual deve crescer continuamente até à vinda do Senhor. Unida em vista dos bens
celestes e com eles enriquecida, esta família foi por Cristo «constituída e
organizada como sociedade neste mundo» (4), dispondo de «convenientes meios de
unidade visível e social» (5). Deste modo, a Igreja, simultâneamente «agrupamento
visível e comunidade espiritual» (6), caminha juntamente com toda a humanidade,
participa da mesma sorte terrena do mundo e é como que o fermento e a alma da
sociedade humana (7), a qual deve ser renovada em Cristo e transformada em família
de Deus.
Esta compenetração da cidade terrena com a celeste só pela fé se pode
perceber; mais, ela permanece o mistério da história humana, sempre perturbada
pelo pecado, enquanto não chega a plena manifestação da glória dos filhos de
Deus. Procurando o seu fim salvífico, a Igreja não se limita a comunicar ao
homem a vida divina; espalha sobre todo o mundo os reflexos da sua luz,
sobretudo enquanto cura e eleva a dignidade da pessoa humana, consolida a coesão
da sociedade e dá um sentido mais profundo à quotidiana actividade dos homens. A
Igreja pensa, assim, que por meio de cada um dos seus membros e por toda a sua
comunidade, muito pode ajudar para tornar mais humana a família dos homens e a
sua história.
Além disso, a Igreja católica aprecia grandemente a contribuição
que as outras igrejas cristãs ou comunidades eclesiais têm dado e continuam a
dar para a consecução do mesmo fim. E está também firmemente persuadida de que
pode receber muita ajuda, de vários modos, do mundo, pelas qualidades e acção
dos indivíduos e das sociedades, na preparação do Evangelho. Expõem-se, a seguir, alguns
princípios gerais para promover convenientemente o intercâmbio e ajuda recíproca
entre a Igreja e o mundo, nos domínios que são de algum modo comuns a ambos.
Ajuda que a Igreja oferece ao homem
41.
O homem actual está a caminho de um desenvolvimento mais pleno da personalidade
e uma maior descoberta e afirmação dos próprios direitos. Tendo a Igreja, por
sua parte, a missão de manifestar o mistério de Deus, último fim do homem, ela
descobre ao mesmo tempo ao homem o sentido da sua existência, a verdade profunda
à cerca dele mesmo. A Igreja sabe muito bem que só Deus, a quem serve, pode
responder às aspirações mais profundas do coração humano, que nunca plenamente
se satisfaz com os alimentos terrestres. Sabe também que o homem, solicitado
pelo Espírito de Deus, nunca será totalmente indiferente ao problema religioso,
como o confirmam não só a experiência dos tempos passados, mas também inúmeros
testemunhos do presente. Com efeito, o homem sempre desejará saber, ao menos
confusamente, qual é o significado da sua vida, da sua actividade e da sua
morte. E a própria presença da Igreja lhe traz à mente estes problemas. Mas só
Deus, que criou o homem à sua imagem e o remiu, dá plena resposta a estas
perguntas, pela revelação em Cristo seu Filho feito homem. Aquele que segue
Cristo, o homem perfeito, torna-se mais homem.
Apoiada nesta fé, a Igreja pode
subtrair a dignidade da natureza humana a quaisquer flutuações de opiniões, por
exemplo, as que rebaixam exageradamente o corpo humano ou, pelo contrário, o
exaltam sem medida. Nenhuma lei humana pode salvaguardar tão perfeitamente a
dignidade pessoal e a liberdade do homem como o Evangelho de Cristo, confiado à
Igreja. Pois este Evangelho anuncia e proclama a liberdade dos filhos de Deus;
rejeita toda a espécie de servidão, a qual tem a sua última origem no pecado (8);
respeita escrupulosamente a dignidade da consciência e a sua livre decisão; sem
descanso recorda que todos os talentos humanos devem redundar em serviço de Deus
e bem dos homens; e a todos recomenda, finalmente, a caridade (9). É o que
corresponde à lei fundamental da economia cristã. Porque, embora seja o mesmo
Deus o Criador e o Salvador, o senhor da história humana e o da história da
salvação, todavia, segundo a ordenação divina, a justa autonomia das criaturas e
sobretudo do homem, não só não é delimitada mas antes é restituída à sua
dignidade e nela confirmada.
Por isso, a Igreja, em virtude do Evangelho que
lhe foi confiado, proclama os direitos do homem e reconhece e tem em grande
apreço o dinamismo do nosso tempo, que por toda a parte promove tais direitos.
Este movimento, porém, deve ser penetrado pelo espírito do Evangelho, e
defendido de qualquer espécie de falsa autonomia. Pois estamos sujeitos à
tentação de julgar que os nossos direitos pessoais só são plenamente assegurados
quando nos libertamos de toda a norma da lei divina. Enquanto que, por este caminho, a dignidade
da pessoa humana, em vez de se salvar, perde-se.
Ajuda que a Igreja oferece à sociedade
42. A unidade da família humana
recebe um grande reforço e encontra o seu acabamento na unidade da família dos
filhos de Deus -. Certamente, a missão própria confiada por Cristo à sua Igreja,
não é de ordem política, económica ou social: o fim que lhe propôs é, com
efeito, de ordem religiosa (11). Mas desta mesma missão religiosa deriva um
encargo, uma luz e uma energia que podem servir para o estabelecimento e
consolidação da comunidade humana segundo a lei divina. E também, quando for
necessário, tendo em conta as circunstâncias de tempos e lugares, pode ela
própria, e até deve, suscitar obras destinadas ao serviço de todos, sobretudo
dos pobres, tais como obras caritativas e outras semelhantes.
A Igreja
reconhece, além disso, tudo o que há de bom no dinamismo social hodierno;
sobretudo o movimento para a unidade, o processo duma sã socialização e
associação civil e económica. Promover a unidade é, efectivamente, algo que se
harmoniza com a missão essencial da Igreja, pois ela é, «em Cristo, como que o
sacramento ou sinal e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de
todo o género humano» (12). Ela própria manifesta assim ao mundo que a verdadeira
união social eterna flui da união dos espíritos e dos corações, daquela fé e
caridade em que indissolùvelmente se funda, no Espírito Santo, a sua própria
unidade. Porque a energia que a Igreja pode insuflar à sociedade actual consiste
nessa fé e caridade efectivamente vividas e não em qualquer domínio externo,
actuado com meios puramente humanos.
Além disso, dado que a Igreja não está
ligada, por força da sua missão e natureza, a nenhuma forma particular de
cultura ou sistema político, económico ou social, pode, graças a esta sua
universalidade, constituir um laço muito estreito entre as diversas comunidades
e nações, contanto que nela confiem e lhe reconheçam a verdadeira liberdade para
cumprir esta sua missão. Por esta razão, a Igreja recomenda a todos os seus
filhos, e também a todos os homens, que superem com este espírito de família
próprio dos filhos de Deus, todos os conflitos entre nações e raças, e
consolidem internamente as legítimas associações humanas.
O Concílio considera
com muito respeito o que há de bom, verdadeiro e justo nas instituições tão
diversas que o género humano criou e sem cessar continua a criar. E a Igreja
declara querer ajudar e promover todas
essas instituições, na medida em que isso dela dependa e seja compatível com a
sua própria missão. Ela nada deseja mais ardentemente do que, servindo o bem de
todos, poder desenvolver-se livremente sob qualquer regime que reconheça os
direitos fundamentais da pessoa e da família e os imperativos do bem comum.
Ajuda que a Igreja oferece à atividade humana
43.
O Concílio exorta os cristãos, cidadãos de ambas as cidades, a que procurem
cumprir fielmente os seus deveres terrenos, guiados pelo espírito do Evangelho.
Afastam-se da verdade os que, sabendo que não temos aqui na terra uma cidade
permanente, mas que vamos em demanda da futura (13), pensam que podem por isso
descuidar os seus deveres terrenos, sem atenderem a que a própria fé ainda os
obriga mais a cumpri-los, segundo a vocação própria de cada um (14). Mas não menos
erram os que, pelo contrário, opinam poder entregar-se às ocupações terrenas,
como se estas fossem inteiramente alheias à vida religiosa, a qual pensam
consistir apenas no cumprimento dos actos de culto e de certos deveres morais.
Este divórcio entre a fé que professam e o comportamento quotidiano de muitos
deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo. Já no Antigo
Testamento os profetas denunciam este escândalo (15); no Novo, Cristo ameaçou-o
ainda mais veementemente com graves castigos (16). Não se oponham, pois, infundadamente, as actividades profissionais e sociais, por um lado, e a vida
religiosa, por outro. O cristão que descuida os seus deveres temporais, falta
aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio Deus, e põe em
risco a sua salvação eterna. A exemplo de Cristo que exerceu um mister de
operário, alegrem-se antes os cristãos por poderem exercer todas as actividades
terrenas, unindo numa síntese vital todos os seus esforços humanos, domésticos,
profissionais, científicos ou técnicos com os valores religiosos, sob cuja
elevada ordenação, tudo se coordena para glória de Deus.
As tarefas e actividades seculares competem como próprias, embora não exclusivamente, aos
leigos. Por esta razão, sempre que, sós ou associados, actuam como cidadãos do
mundo, não só devem respeitar as leis próprias de cada domínio, mas procurarão
alcançar neles uma real competência. Cooperarão de boa vontade com os homens que
prosseguem os mesmos fins. Reconhecendo quais são as exigências da fé, e por ela
robustecidos, não hesitem, quando for oportuno, em idear novas iniciativas e
levá-las a realização. Compete à sua consciência prèviamente bem formada,
imprimir a lei divina na vida da cidade terrestre. Dos sacerdotes, esperem os
leigos a luz e força espiritual. Mas não pensem que os seus pastores estão
sempre de tal modo preparados que tenham uma solução pronta para qualquer
questão, mesmo grave, que surja, ou que tal é a sua missão. Antes, esclarecidos
pela sabedoria cristã, e atendendo à doutrina do magistério (17), tomem por si
mesmos as próprias responsabilidades. Muitas vezes, a concepção
cristã da vida incliná-los-á para determinada solução, em certas circunstâncias
concretas. Outros fiéis, porém, com não menos sinceridade, pensarão
diferentemente acerca do mesmo assunto, como tantas vezes acontece, e
legitimamente. Embora as soluções propostas por uma e outra parte, mesmo
independentemente da sua intenção, sejam por muitos fàcilmente vinculadas à
mensagem evangélica, devem, no entanto, lembrar-se de que a ninguém é permitido,
em tais casos, invocar exclusivamente a favor da própria opinião a autoridade da
Igreja. Mas procurem sempre esclarecer-se mutuamente, num diálogo sincero,
salvaguardando a caridade recíproca e atendendo, antes de mais, ao bem comum.
Os
leigos, que devem tomar parte activa em toda a vida da Igreja, não devem apenas
impregnar o mundo com o espírito cristão, mas são também chamados a serem
testemunhas de Cristo, em todas as circunstâncias, no seio da comunidade humana.
Quanto aos Bispos, a quem está confiado o encargo de governar a Igreja de Deus,
preguem juntamente com os seus sacerdotes a mensagem de Cristo de tal maneira
que todas as actividades terrenas dos fiéis sejam penetradas pela luz do
Evangelho. Lembrem-se, além disso, os pastores que, com o seu comportamento e
solicitude quotidanos (18), manifestam ao mundo o rosto da Igreja com base no qual
os homens julgam da força e da verdade da mensagem cristã. Com a sua vida e
palavra, juntos com os religiosos e os seus fiéis, mostrem que a Igreja, com
todos os dons que contém em si, é só pela sua simples presença uma fonte
inexaurível daquelas virtudes de que tanto necessita o mundo de hoje. Por meio
de assíduo estudo, tornem-se capazes de tomar parte no diálogo com o mundo e com
os homens de qualquer opinião. Mas sobretudo, tenham no seu coração as palavras
deste Concílio: «Dado que o género humano caminha hoje cada vez mais para a
unidade civil, económica e social, tanto mais necessário é que os sacerdotes em
conjunto e sob a direcção dos Bispos e do Sumo Pontífice, evitem todo o motivo
de divisão, para que a humanidade toda seja conduzida à unidade da família de
Deus» (19).
Ainda que a Igreja, pela virtude do Espírito Santo, se tenha
mantido esposa fiel do Senhor e nunca tenha deixado de ser um sinal de salvação
no mundo, no entanto, ela não ignora que entre os seus membros (20), clérigos ou
leigos, não faltaram, no decurso de tantos séculos, alguns que foram infiéis ao
Espírito de Deus. E também nos nossos dias, a Igreja não deixa de ver quanta
distância separa a mensagem por ela proclamada e a humana fraqueza daqueles a
quem foi confiado o Evangelho. Seja qual for o juízo da história acerca destas
deficiências, devemos delas ter consciência e combatê-las com vigor, para que
não sejam obstáculo à difusão, do Evangelho. Também sabe a Igreja quanto deve
aprender com a experiência dos séculos, no que se refere ao desenvolvimento das
suas relações com o mundo. Conduzida pelo Espírito Santo, a Igreja mãe «exorta
sem cessar os seus filhos a que se purifiquem e renovem, para que o sinal de
Cristo brilhe mais claramente no rosto da Igreja» (21).
Ajuda que a Igreja recebe do mundo 44. Assim como é do interesse do mundo que ele reconheça a
Igreja como realidade social da história e seu fermento, assim também a Igreja
não ignora quanto recebeu da história e evolução do género humano.
A experiência
dos séculos passados, os progressos científicos, os tesoiros encerrados nas
várias formas de cultura humana, os quais manifestam mais plenamente a natureza
do homem e abrem novos caminhos para a verdade, aproveitam igualmente à Igreja.
Ela aprendeu, desde os começos da sua história, a formular a mensagem de Cristo
por meio dos conceitos e línguas dos diversos povos, e procurou ilustrá-la com o
saber filosófico. Tudo isto com o fim de adaptar o Evangelho à capacidade de
compreensão de todos e às exigências dos sábios. Esta maneira adaptada de pregar
a palavra revelada deve permanecer a lei de toda a evangelização. Deste modo,
com efeito, suscita-se em cada nação a possibilidade de exprimir a mensagem de
Cristo segundo a sua maneira própria, ao mesmo tempo que se fomenta um
intercâmbio vivo entre a Igreja e as diversas culturas dos diferentes povos (22).
Para aumentar este intercâmbio, necessita especialmente a Igreja - sobretudo
hoje, em que tudo muda tão ràpidamente e os modos de pensar variam tanto - da
ajuda daqueles que, vivendo no mundo, conhecem bem o espírito e conteúdo das
várias instituições e disciplinas, sejam eles crentes ou não. É dever de todo o
Povo de Deus e sobretudo dos pastores e teólogos, com a ajuda do Espírito Santo,
saber ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e
julgá-las à luz da palavra de Deus, de modo que a verdade revelada possa ser
cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um
modo conveniente. Como a Igreja tem uma estrutura social visível, sinal da sua
unidade em Cristo, pode também ser enriquecida, e de facto o é, com a evolução
da vida social. Não porque falte algo na constituição que Cristo lhe deu, mas
para mais profundamente a conhecer e melhor a exprimir e para a adaptar mais
convenientemente aos nossos tempos. Ela verifica com gratidão que, tanto no seu
conjunto como em cada um dos seus filhos, recebe variadas ajudas dos homens de
toda a classe e condição. Na realidade, todos os que, de acordo com a vontade de
Deus, promovem a comunidade humana no plano familiar, cultural, da vida
económica e social e também política, seja nacional ou internacional, prestam
não pequena ajuda à comunidade eclesial, na medida em que esta depende das
realidades exteriores. Mais ainda, a Igreja
reconhece que muito aproveitou e pode aproveitar da própria oposição daqueles
que a hostilizam e perseguem (23). Jesus Cristo Alfa
e Omega 45. Ao ajudar o mundo e recebendo dele ao mesmo
tempo muitas coisas, o único fim da Igreja é o advento do reino de Deus e o
estabelecimento da salvação de todo o género humano. E todo o bem que o Povo de
Deus pode prestar à família dos homens durante o tempo da sua peregrinação
deriva do facto que a Igreja é o «sacramento universal da salvação» (24),
manifestando e actuando simultâneamente o mistério do amor de Deus pelos homens.
Com efeito, o próprio Verbo de Deus, por quem tudo foi feito, fez-se homem,
para, homem perfeito, a todos salvar e tudo recapitular. O Senhor é o fim da
história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da
civilização, o centro do género humano, a alegria de todos os corações e a
plenitude das suas aspirações (25). Foi Ele que o Pai ressuscitou dos mortos,
exaltou e colocou à sua direita, estabelecendo-o juiz dos vivos e dos mortos.
Vivificados e reunidos no seu Espírito, caminhamos em direcção à consumação da
história humana, a qual corresponde plenamente ao seu desígnio de amor:
«recapitular todas as coisas em Cristo, tanto as do céu como as da terra» (Ef.
1,10). O próprio Senhor o diz: «Eis que venho em breve, trazendo comigo a minha
recompensa, para dar a cada um segundo as suas obras. Eu sou o alfa e o ómega, o
primeiro e o último, o começo e o fim» (Apoc. 22, 12-13).
II PARTE
ALGUNS PROBLEMAS MAIS URGENTES
Atitude do Concílio perante esses problemas
46. Depois de ter exposto a dignidade da
pessoa humana, bem como a missão individual e social que está chamada a realizar
no mundo, o Concílio dirige agora a atenção de todos, à luz do Evangelho e da
experiência humana, para algumas necessidades mais urgentes do nosso tempo, que
profundamente afectam a humanidade.
Entre as muitas questões que hoje a todos
preocupam, importa relevar particularmente as seguintes: o matrimónio e a
família, a cultura humana, a vida económico-social e política, a comunidade
internacional e a paz. Sobre cada uma delas devem resplandecer os princípios e
as luzes que provêm de Cristo e que dirigirão os cristãos e iluminarão todos os
homens na busca da solução para tantos e tão complexos problemas.
CAPÍTULO I
A
PROMOÇÃO DA DIGNIDADE DO MATRIMÓNIO E DA FAMÍLIA
O matrimónio e a família no mundo actual
47. O bem-estar da pessoa e da
sociedade humana e cristã está intimamente ligado com uma favorável situação da
comunidade conjugal e familiar. Por esse motivo, os cristãos, juntamente com
todos os que têm em grande apreço esta comunidade, alegram-se sinceramente com
os vários factores que fazem aumentar entre os homens a estima desta comunidade
de amor e o respeito pela vida e que auxiliam os cônjuges e os pais na sua
sublime missão. Esperam daí ainda melhores resultados e esforçam-se por os
ampliar.
Porém, a dignidade desta instituição não resplandece em toda a parte
com igual brilho. Encontra-se obscurecida pela poligamia, pela epidemia do
divórcio, pelo chamado amor livre e outras deformações. Além disso, o amor
conjugal é muitas vezes profanado pelo egoísmo, amor do prazer e por práticas
ilícitas contra a geração. E as actuais condições económicas, socio-psicológicas
e civis introduzem ainda na família não pequenas perturbações. Finalmente, em
certas partes do globo, verificam-se, com inquietação, os problemas postos pelo
aumento demográfico. Com tudo isto, angustiam-se as consciências. Mas o vigor e
a solidez da instituição matrimonial e familiar também nisto se manifestam: as
profundas transformações da sociedade contemporânea, apesar das dificuldades a
que dão origem, muito frequentemente revelam de diversos modos a verdadeira
natureza de tal instituição.
Por tal motivo, o Concílio, esclarecendo alguns pontos da
doutrina da Igreja, deseja ilustrar e robustecer os cristãos e todos os homens
que se esforçam por proteger e fomentar a nativa dignidade do estado matrimonial
e o seu alto e sagrado valor. A
santidade do matrimónio e da família
48. A íntima comunidade da vida e do amor conjugal, fundada pelo
Criador e dotada de leis próprias, é instituída por meio da aliança matrimonial, eu seja pelo irrevogável consentimento pessoal. Deste modo, por meio do
acto humano com o qual os cônjuges mùtuamente se dão e recebem um ao outro,
nasce uma instituição também à face da sociedade, confirmada pela lei divina. Em
vista do bem tanto dos esposos e da prole como da sociedade, este sagrado
vínculo não está ao arbítrio da vontade humana. O próprio Deus é o autor do
matrimónio, o qual possui diversos bens e fins,(1) todos eles da máxima
importância, quer para a propagação do género humano, quer para o proveito
pessoal e sorte eterna de cada um dos membros da família, quer mesmo,
finalmente, para a dignidade, estabilidade, paz e prosperidade de toda a família
humana. Por sua própria índole, a instituição matrimonial e o amor conjugal
estão ordenados para a procriação e educação da prole, que constituem como que a
sua coroa. O homem e a mulher, que, pela aliança conjugal «já não são dois, mas
uma só carne» (Mt. 19, 6), prestam-se recíproca ajuda e serviço com a íntima
união das suas pessoas e actividades, tomam consciência da própria unidade e
cada vez mais a realizam. Esta união íntima, já que é o dom recíproco de duas
pessoas, exige, do mesmo modo que o bem dos filhos, a inteira fidelidade dos
cônjuges e a indissolubilidade da sua união (2).
Cristo Senhor abençoou
copiosamente este amor de múltiplos aspectos, nascido da fonte divina da
caridade e constituído à imagem da sua própria união com a Igreja. E assim como
outrora Deus veio ao encontro do seu povo com uma aliança de amor e fidelidade
(3), assim agora o Salvador dos homens e esposo da Igreja (4) vem ao encontro dos
esposos cristãos com o sacramento do matrimónio. E permanece com eles, para que,
assim como Ele amou a Igreja e se entregou por ela (5), de igual modo os cônjuges,
dando-se um ao outro, se amem com perpétua fidelidade. O autêntico amor conjugal
é assumido no amor divino, e dirigido e enriquecido pela força redentora de
Cristo e pela acção salvadora da Igreja, para que, assim, os esposos caminhem
eficazmente para Deus e sejam ajudados e fortalecidos na sua missão sublime de
pai e mãe(6). Por este motivo, os esposos cristãos são fortalecidos e como que
consagrados em ordem aos deveres do seu estado por meio de um sacramento
especial (7); cumprindo, graças à força deste, a própria missão conjugal e
familiar, penetrados do espírito de Cristo que impregna toda a sua vida de fé,
esperança e caridade, avançam sempre mais na própria perfeição e mútua
santificação e cooperam assim juntos para a glorificação de Deus.
Precedidos assim pelo exemplo e oração familiar dos pais, tanto
os filhos como todos os que vivem no círculo
familiar encontrarão mais fàcilmente o caminho da existência humana, da salvação
e da santidade. Quanto aos esposos, revestidos com a dignidade e o encargo da
paternidade e maternidade, cumprirão diligentemente o seu dever de educação,
sobretudo religiosa, que a eles cabe em primeiro lugar. Os filhos, como membros
vivos dá família, contribuem a seu modo para a santificação dos pais.
Corresponderão, com a sua gratidão, piedade filial e confiança aos benefícios
recebidos dos pais e assisti-los-ão, como bons filhos, nas dificuldades e na
solidão da velhice. A viuvez, corajosamente assumida na sequência da vocação
conjugal, por todos deve ser respeitada (8). Cada família comunicará generosamente
com as outras as próprias riquezas espirituais. Por isso, a família cristã,
nascida de um matrimónio que é imagem e participação da aliança de amor entre
Cristo e a Igreja (9), manifestará a todos a presença viva do Salvador no mundo e
a autêntica natureza da Igreja, quer por meio do amor dos esposos, quer pela sua
generosa fecundidade, unidade e fidelidade, quer pela amável cooperação de todos
os seus membros. O amor conjugal
49. A Palavra de Deus convida repetidas vezes os noivos a
alimentar e robustecer o seu noivado com um amor casto, e os esposos a sua união
com um amor indiviso (10). E também muitos dos nossos contemporâneos têm em grande
apreço o verdadeiro amor entre marido e mulher, manifestado de diversas
maneiras, de acordo com os honestos costumes dos povos e dos tempos. Esse amor,
dado que é eminentemente humano - pois vai de pessoa a pessoa com um afecto
voluntário - compreende o bem de toda a pessoa e, por conseguinte, pode conferir
especial dignidade às manifestações do corpo e do espírito, enobrecendo-as como
elementos e sinais peculiares do amor conjugal. E o Senhor dignou-se sanar,
aperfeiçoar e elevar este amor com um dom especial de graça e caridade. Unindo o
humano e o divino, esse amor leva os esposos ao livre e recíproco dom de si
mesmos, que se manifesta com a ternura do afecto e, com as obras, e penetra toda
a sua vida (11); e aperfeiçoa-se e aumenta pela sua própria generosa actuação. Ele
transcende, por isso, de longe a mera inclinação erótica, a qual, fomentada
egoìsticamente, rápida e miseràvelmente se desvanece.
Este amor tem a sua
expressão e realização peculiar no acto próprio do matrimónio. São, portanto,
honestos e dignos os actos pelos quais os esposos se unem em intimidade e
pureza; realizados de modo autênticamente humano, exprimem e alimentam a mútua
entrega pela qual se enriquecem um ao outro na alegria e gratidão. Esse amor,
ratificado pela promessa de ambos e, sobretudo, sancionado pelo sacramento de
Cristo, é indissolùvelmente fiel, de corpo e de espírito, na prosperidade e na
adversidade; exclui, por isso, toda e
qualquer espécie de adultério e divórcio. A unidade do matrimónio, confirmada
pelo Senhor, manifesta-se também claramente na igual dignidade da mulher e do
homem que se deve reconhecer no mútuo e pleno amor. Mas, para cumprir com
perseverança os deveres desta vocação cristã, requere-se uma virtude notável;
por este motivo, hão-de os esposos, fortalecidos pela graça para levarem uma
vida de santidade, cultivar assiduamente e impetrar com a oração a fortaleza do
próprio amor, a magnanimidade e o espírito de sacrifício.
O autêntico amor conjugal será mais apreciado, e formar-se-á a
seu respeito uma sã opinião pública, se os esposos cristãos derem um testemunho
eminente de fidelidade e harmonia e de solicitude na educação dos filhos e se
participarem na necessária renovação cultural, psicológica e social em favor do
casamento e da família. Os jovens devem ser conveniente e oportunamente
instruídos, sobretudo no seio da própria família, acerca da dignidade, missão e
exercício do amor conjugal. Deste modo, educados na castidade, poderão, chegada
a idade conveniente, entrar no casamento depois dum noivado puro.
A fecundidade do matrimônio
50. O matrimónio e o amor conjugal ordenam-se
por sua própria natureza à geração e educação da prole. Os filhos são, sem
dúvida, o maior dom do matrimónio e contribuem muito para o bem dos próprios
pais. O mesmo Deus que disse «não é bom que o homem esteja só» (Gén. 2,88) e que
«desde a origem fez o homem varão e mulher» (Mt. 19,14), querendo comunicar-lhe
uma participação especial na Sua obra criadora, abençoou o homem e a mulher
dizendo: «sede fecundos e multiplicai-vos» (Gén. 1,28). Por isso, o autêntico
cultivo do amor conjugal, e toda a vida familiar que dele nasce, sem pôr de lado
os outros fins do matrimónio, tendem a que os esposos, com fortaleza de ânimo,
estejam dispostos a colaborar com o amor do criador e salvador, que por meio
deles aumenta cada dia mais e enriquece a sua família.
Os esposos sabem que no
dever de transmitir e educar a vida humana - dever que deve ser considerado como
a sua missão específica - eles são os cooperadores do amor de Deus criador e como
que os seus intérpretes. Desempenhar-se-ão, portanto, desta missão com a sua
responsabilidade humana e cristã; com um respeito cheio de docilidade para com
Deus, de comum acordo e com esforço comum, formarão rectamente a própria
consciência, tendo em conta o seu bem próprio e o dos filhos já nascidos ou que
prevêem virão a nascer, sabendo ver as condições de tempo e da própria situação
e tendo, finalmente, em consideração o bem da comunidade familiar, da sociedade
temporal e da própria Igreja. São os próprios esposos que, em última instância,
devem diante de Deus tomar esta decisão. Mas, no seu modo de proceder, tenham os
esposos consciência de que não podem agir arbitràriamente, mas que sempre se
devem guiar pela consciência, que se deve conformar com a lei divina, e ser
dóceis ao magistério dia Igreja, que autenticamente a interpreta à luz do
Evangelho. Essa lei divina manifesta a plena significação do amor conjugal,
protege-o e estimula-o para a sua perfeição autenticamente humana. Assim, os
esposos cristãos, confiados na divina Providência e cultivando o espírito de
sacrifício (12), dão glória ao Criador e caminham para a perfeição em Cristo
quando se desempenham do seu dever de procriar com responsabilidade generosa,
humana e cristã. Entre os esposos que deste modo satisfazem à missão que Deus
lhes confiou, devem ser especialmente lembrados aqueles que, de comum acordo e
com prudência, aceitam com grandeza de ânimo educar uma prole numerosa (13).
No
entanto, o matrimónio não foi instituído só em ordem à procriação da prole. A
própria natureza da aliança indissolúvel entre as pessoas e o bem da prole
exigem que o mútuo amor dos esposos se exprima convenientemente, aumente e
chegue à maturidade. E por isso, mesmo que faltem os filhos, tantas vezes
ardentemente desejados, o matrimónio conserva o seu valor e indissolubilidade,
como comunidade e comunhão de toda a vida. O amor
conjugal e o respeito pela vida humana 51. O Concílio não ignora que os
esposos, na sua vontade de conduzir harmònicamente a própria vida conjugal,
encontram frequentes dificuldades em certas circunstâncias da vida actual; que
se podem encontrar em situações em que, pelo menos temporàriamente, não lhes é
possível aumentar o número de filhos e em que só dificilmente se mantêm a
fidelidade do amor e a plena comunidade de vida. Mas quando se suspende a
intimidade da vida conjugal, não raro se põe em risco a fidelidade e se
compromete o bem da prole; porque, nesse caso, ficam ameaçadas tanto a educação
dos filhos como a coragem necessária para ter mais filhos.
Não falta quem se
atreva a dar soluções imorais a estes problemas, sem recuar sequer perante o
homicídio. Mas a Igreja recorda que não pode haver verdadeira incompatibilidade
entre as leis divinas que regem a transmissão da vida e o desenvolvimento do
autêntico amor conjugal. Com efeito, Deus, senhor da vida, confiou aos homens,
para que estes desempenhassem dum modo digno dos mesmos homens, o nobre encargo
de conservar a vida. Esta deve, pois, ser salvaguardada, com extrema solicitude,
desde o primeiro momento da concepção; o aborto e o infanticídio são crimes
abomináveis. A índole sexual humana e o poder gerador do homem, eles superam de
modo admirável o que se encontra nos graus inferiores da vida; daqui se segue
que os mesmos actos específicos da vida conjugal, realizados segundo a autêntica
dignidade humana, devem ser objecto de grande respeito. Quando se trata,
portanto, de conciliar o amor conjugal com a transmissão responsável da vida, a
moralidade do comportamento não depende apenas da sinceridade da intenção e da
apreciação dos motivos; deve também determinar-se por critérios objectivos,
tomados da natureza da pessoa e dos seus actos; critérios que respeitem, num
contexto de autêntico amor, o sentido da mútua doação e da procriação humana.
Tudo isto só é possível se se cultivar sinceramente a virtude da
castidade conjugal. Segundo estes princípios, não é lícito aos filhos da Igreja
adoptar, na regulação dos nascimentos, caminhos que o magistério, explicitando a
lei divina, reprova (14). Todos, finalmente, tenham bem presente que a vida humana
e a missão de a transmitir não se limitam a este mundo, nem podem ser medidas ou
compreendidas ùnicamente em função dele, mas que estão sempre relacionadas com o
eterno destino do homem.
O progresso e a promoção do matrimónio e da família
52. A família é como que uma escola de valorização
humana. Para que esteja em condições de alcançar a plenitude da sua vida e
missão, exige, porém, a benévola comunhão de almas e o comum acordo dos esposos,
e a diligente cooperação dos pais na educação dos filhos. A presença activa do
pai contribui poderosamente para a formação destes; mas é preciso assegurar
também a assistência ao lar por parte da mãe, da qual os filhos, sobretudo os
mais pequenos, têm tanta necessidade; sem descurar, aliás, a legítima promoção
social da mulher. Os filhos sejam educados de tal modo que, chegados à idade
adulta, sejam capazes de seguir com inteira responsabilidade a sua vocação,
incluindo a sagrada, e escolher um estado de vida; e, se casarem, possam
constituir uma família própria, em condições morais, sociais e económicas
favoráveis. Compete aos pais ou tutores guiar os jovens na constituição da
família com prudentes conselhos que eles devem ouvir de bom grado; mas evitem
cuidadosamente forçá-los, directa ou indirectamente, a casar-se ou a escolher o
cônjuge.
A família - na qual se congregam as diferentes gerações que
reciprocamente se ajudam a alcançar uma sabedoria mais plena e a conciliar os
direitos pessoais com as outras exigências da vida social - constitui assim o
fundamento da sociedade. E por esta razão, todos aqueles que têm alguma
influência nas comunidades e grupos sociais, devem contribuís eficazmente para a
promoção do matrimónio e da família. A autoridade civil há-de considerar como um
dever sagrado reconhecer, proteger e favorecer a sua verdadeira natureza,
assegurar a moralidade pública e fomentar a prosperidade doméstica. Deve
salvaguardar-se o direito de os pais gerarem e educarem os filhos no seio da
família. Protejam-se também e ajudem-se convenientemente, por meio duma
previdente legislação e com iniciativas várias, aqueles que por infelicidade não
beneficiam duma família.
Os cristãos, resgatando o tempo presente (15), e
distinguindo o que é eterno das formas mutáveis, promovam com empenho o bem do matrimónio e da família, com o testemunho da
própria vida e cooperando com os homens de boa vontade; deste modo, superando as
dificuldades, proverão às necessidades e vantagens da família, de acordo com os
novos tempos. Para alcançar este fim, muito ajudarão o sentir cristão dos fiéis,
a rectidão de consciência moral dos homens, bem como o saber e competência dos
que se dedicam às ciências sagradas.
Os cientistas, particularmente os
especialistas nas ciências biológicas, médicas, sociais e psicológicas, podem
prestar um grande serviço para bem do matrimónio e da família se, juntando os
seus esforços, procurarem esclarecer mais profundamente as condições que
favorecem a honesta regulação da procriação humana.
Cabe aos sacerdotes,
devidamente informados acerca das realidades familiares, auxiliar a vocação dos
esposos na sua vida conjugal e familiar por vários meios pastorais, com a
pregação da palavra de Deus, o culto litúrgico e outras ajudas espirituais;
devem ainda fortalecê-los, com bondade e paciência, nas suas dificuldades e reconfortá-los com a caridade, para que assim se formem famílias verdadeiramente
irradiantes.
As diferentes obras, sobretudo as associações de famílias, procurem
fortalecer com a doutrina e a acção os jovens e os esposos, especialmente os
casados de há pouco, e formá-los para a vida familiar, social e apostólica.
Finalmente, os próprios esposos, feitos à imagem de Deus e estabelecidos numa
ordem verdadeiramente pessoal, estejam unidos em comunhão de afecto e de
pensamento e com mútua santidade (16) de modo que, seguindo a Cristo, princípio da
vida (17), se tornem, pela fidelidade do seu amor, através das alegrias e
sacrifícios da sua vocação, testemunhas daquele mistério de amor que Deus
revelou ao mundo com a sua morte e ressurreição (18).
CAPÍTULO II
A CONVENIENTE PROMOÇÃO DO PROGRESSO CULTURAL
A cultura e a sua relação com o homem
53. É próprio da pessoa
humana necessitar da cultura, isto é, de desenvolver os bens e valores da
natureza, para chegar a uma autêntica e plena realização. Por isso, sempre que
se trata da vida humana, natureza e cultura encontram-se intimamente ligadas.
A
palavra «cultura» indica, em geral, todas as coisas por meio das quais o homem
apura e desenvolve as múltiplas capacidades do seu espírito e do seu corpo; se
esforça por dominar, pelo estudo e pelo trabalho, o próprio mundo; torna mais
humana, com o progresso dos costumes e das instituições, a vida social, quer na
família quer na comunidade civil; e, finalmente, no decorrer do tempo, exprime,
comunica aos outros e conserva nas suas obras, para que sejam de proveito a
muitos e até à inteira humanidade, as suas grandes experiências espirituais e as
suas aspirações.
Daqui se segue que a cultura humana implica necessàriamente um
aspecto histórico e social e que o termo «cultura» assume frequentemente um
sentido sociológico e etnológico. É neste sentido que se fala da pluralidade das
culturas. Com efeito, diferentes modos de usar das coisas, de trabalhar e de se
exprimir, de praticar a religião e de formar os costumes, de estabelecer leis e
instituições jurídicas, de desenvolver as ciências e as artes e de cultivar a
beleza, dão origem a diferentes estilos de vida e diversas escalas de valores. E
assim, a partir dos usos tradicionais, se constitui o património de cada
comunidade humana. Define-se também por este modo o meio histórico determinado
no qual se integra o homem raça ou época, e do qual tira os bens necessários
para a promoção da civilização.
Secção 1
CONDIÇÕES DA CULTURA NO MUNDO ACTUAL
Novos estilos de vida
54. As condições de vida do homem moderno sofreram tão profunda transformação no
campo social e cultural, que é lícito falar duma nova era da história humana (1).
Novos caminhos se abrem assim ao progresso e difusão da cultura, preparados pelo
imenso avanço das ciências naturais, humanas e sociais, pelo desenvolvimento das
técnicas e pelo progresso no aperfeiçoamento e coordenação dos meios de
comunicação. Daqui provêm algumas notas características da cultura actual: as
chamadas ciências exactas desenvolvem grandemente o sentido crítico; as recentes
investigações psicológicas explicam profundamente a actividade humana; as
disciplinas históricas contribuem muito para considerar as coisas sob o seu
aspecto mutável e evolutivo; as maneiras de viver e os costumes tornam-se cada vez mais uniformes; a
industrialização, a urbanização e outras causas que favorecem a vida
comunitária, criam novas formas de cultura de que resultam novas maneiras de
sentir e de agir e de utilizar o tempo livre; o aumento de intercâmbio entre os
vários povos e grupos sociais revela mais amplamente a todos e a cada um os
tesouros das várias formas de cultura, preparando-se deste modo,
progressivamente, um tipo mais universal de cultura humana, a qual tanto mais
favorecerá e expressará a unidade do género humano, quanto melhor souber
respeitar as peculiaridades das diversas culturas.
O homem, autor da cultura 55. Cresce cada vez mais o
número dos homens e mulheres, de qualquer grupo ou nação, que têm consciência de
serem os artífices e autores da cultura da própria comunidade. Aumenta também
cada dia mais no mundo inteiro o sentido da autonomia e responsabilidade, o qual
é de máxima importância para a maturidade espiritual e moral do género humano. O
que aparece ainda mais claramente, se tivermos diante dos olhos a unificação do
mundo e o encargo que nos incumbe de construirmos, na verdade e na justiça, um
mundo melhor. Somos assim testemunhas do nascer de um novo humanismo, no qual o
homem se define antes de mais pela sua responsabilidade com relação aos seus
irmãos e à história. Antinomias da cultura actual
e actuação do homem 56. Nestas condições, não é de admirar que o homem,
sentindo a responsabilidade que tem na promoção da cultura, alimente mais
dilatadas esperanças, e ao mesmo tempo encare com inquietação as múltiplas
antinomias existentes e que ele tem de resolver.
Que se deve fazer para que os frequentes contactos entre culturas, que deveriam levar os diferentes grupos e
culturas a um diálogo verdadeiro e fecundo, não perturbem a vida das
comunidades, ou subvertam a sabedoria dos antigos, ou ponham em perigo o génio
próprio de cada povo? Como fomentar o dinamismo e expansão da nova cultura, sem
deixar perder a fidelidade viva à herança tradicional? Problema que se põe com
particular acuidade quando se trata de harmonizar uma cultura nascida dum grande
progresso das ciências e da técnica com a que se alimenta dos estudos clássicos
das diversas tradições. Como conciliar a rápida e progressiva especialização das
várias disciplinas com a necessidade de construir a sua síntese e ainda de
conservar no homem as capacidades de contemplação e admiração que conduzem à
sabedoria? Que fazer para que todos os homens participem dos bens culturais, uma
vez que a cultura das elites é cada vez mais elevada e complexa? Enfim, como
reconhecer a legitimidade da autonomia que a cultura reclama, sem cair num
humanismo meramente terreno ou até hostil à religião?
É preciso, que, no meio de
todas estas antinomias, a cultura humana progrida hoje de tal modo, que
desenvolva harmónica e integralmente a pessoa humana e ajude os homens no
desempenho das tarefas a que todos, e sobretudo os cristãos, estão chamados,
fraternalmente unidos numa única família humana.
Secção 2
ALGUNS PRINCÍPIOS PARA A CONVENIENTE PROMOÇÃO DA CULTURA
Fé e cultura
57. Os
cristãos, peregrinos da cidade celestial, devem buscar e saborear as coisas do
alto (2). Mas, com isso, de modo algum diminui, antes aumenta a importância do seu
dever de colaborar com todos os outros homens na edificação dum mundo mais
humano. E, na verdade, o mistério da fé cristã fornece-lhes valiosos estímulos e
ajudas para cumprirem mais intensamente essa missão e sobretudo para descobrirem
o pleno significado de tal actividade, assinalando assim o lugar privilegiado da
cultura na vocação integral do homem.
Quando o homem, usando as suas mãos ou
recorrendo à técnica, trabalha a terra para que ela produza frutos e se torne
habitação digna para toda a humanidade, ou quando participa conscientemente na
vida social dos diversos grupos, está a dar realização à vontade que Deus
manifestou no começo dos tempos, de que dominasse a terra (3) e completasse a obra
da criação, ao mesmo tempo que se vai aperfeiçoando a si mesmo; cumpre
igualmente o mandamento de Cristo, de se consagrar ao serviço de seus irmãos.
Além disso, dedicando-se às várias disciplinas da história, filosofia, ciências
matemáticas e naturais, e cultivando as artes, pode o homem ajudar muito a
família humana a elevar-se a concepções mais sublimes da verdade, do bem e da
beleza e a um juízo de valor universal, e ser assim luminosamente esclarecida
por aquela admirável sabedoria, que desde a eternidade estava junto de Deus,
dispondo com Ele todas as coisas, e encontrando as suas delícias em estar com os
filhos dos homens (4).
Pelo mesmo facto, o espírito do homem, mais liberto da
escravidão das coisas, pode mais fàcilmente levantar-se ao culto e contemplação
do Criador. Mais ainda, dispõe-se assim, sob o impulso da graça, a reconhecer o
Verbo de Deus, o qual antes de se fazer homem para tudo salvar e em si
recapitular, já «estava no mundo», como «verdadeira luz que ilumina todo o
homem» (Jo. 1, 9-10) (5).
O progresso hodierno das ciências e das técnicas que, em
virtude do seu próprio método, não penetram até às causas últimas das coisas,
pode sem dúvida dar aso a certo fenomenismo e agnosticismo, sempre que o método
de investigação de que usam estas disciplinas se arvora indevidamente em norma
suprema de toda a investigação da verdade. É mesmo de temer que o homem,
fiando-se demasiadamente nas descobertas actuais, julgue que se basta a si mesmo
e já não procure coisas mais altas. Estas deploráveis
manifestações não são, porém, consequências necessárias da cultura actual, nem
nos devem fazer cair na tentação de desconhecer os seus valores positivos. Tais
são, entre outros: o gosto das ciências e a exacta objectividade nas
investigações científicas; a necessidade de colaborar com os outros nas equipas
técnicas; o sentido de solidariedade internacional; a consciência cada vez mais
nítida da responsabilidade que os sábios têm de ajudar e até de proteger os
homens; a vontade de tornar as condições de vida melhores para todos e
especialmente para aqueles que sofrem da privação de responsabilidade ou de
pobreza cultural. Tudo isto pode constituir uma certa preparação para a recepção
da mensagem evangélica, preparação que pode ser informada com a caridade divina
por Aquele que veio para salvar o mundo. A
mensagem de Cristo e a cultura humana 58. Múltiplos laços existem entre a
mensagem da salvação e a cultura humana. Deus, com efeito, revelando-se ao seu
povo até à plena manifestação de Si mesmo no Filho encarnado, falou segundo a
cultura própria de cada época. Do mesmo modo, a Igreja, vivendo no decurso dos
tempos em diversos condicionalismos, empregou os recursos das diversas culturas
para fazer chegar a todas as gentes a mensagem de Cristo, para a explicar,
investigar e penetrar mais profundamente e para lhe dar melhor expressão na
celebração da Liturgia e na vida da multiforme comunidade dos fiéis.
Mas, por
outro lado, tendo sido enviada aos homens de todos os tempos e lugares, a Igreja
não está exclusiva e indissolùvelmente ligada . a nenhuma raça ou nação, a
nenhum género de vida particular, a nenhuma tradição, antiga ou moderna.
Aderindo à própria tradição e, ao mesmo tempo, consciente da sua missão
universal, é capaz de entrar em comunicação com as diversas formas de cultura,
com o que se enriquecem tanto a própria Igreja como essas várias culturas.
O
Evangelho de Cristo renova continuamente a vida e cultura do homem decaído, e
combate e elimina os erros e males nascidos da permanente sedução e ameaça do
pecado. Purifica sem cessar e eleva os costumes dos povos. Fecunda como que por
dentro, com os tesouros do alto, as qualidades de espírito e os dotes de todos
os povos e tempos; fortifica-os, aperfeiçoa-os e restaura-os em Cristo (6). Deste
modo, a Igreja, só com realizar a própria missão (7), já com isso mesmo estimula e
ajuda a civilização, e com a sua actividade, incluindo a litúrgica, educa a
interior liberdade do homem.
Harmonia entre as diversas ordens humanas e culturais
59. Pelas razões aduzidas, a Igreja lembra a todos
que a cultura deve orientar-se para a perfeição integral da pessoa humana, para
o bem da comunidade e de toda a sociedade. Por isso, é necessário cultivar o
espírito de modo a desenvolver-lhe a. capacidade de admirar, de
intuir, de contemplar, de formar um juízo pessoal e de cultivar o sentido
religioso, moral e social. Pois a cultura, uma vez que deriva imediatamente da
natureza racional e social do homem, tem uma constante necessidade de justa
liberdade e de legítima autonomia, de agir segundo os seus próprios princípios
para se desenvolver. Com razão, pois, exige ser respeitada e goza duma certa inviolabilidade, salvaguardados, evidentemente, os direitos da pessoa e da
comunidade, particular ou universal, dentro dos limites do bem comum.
O sagrado
Concílio, recordando o que ensinou o primeiro Concílio do Vaticano, declara que
existem «duas ordens de conhecimento» distintas, a da fé e a da razão, e que a
Igreja de modo algum proíbe que «as artes e disciplinas humanas usem de
princípios e métodos próprios nos seus campos respectivos»; «reconhecendo esta
justa liberdade», afirma por isso a legítima autonomia da cultura humana e
sobretudo das ciências (8). Tudo isto requer também que, salvaguardados a ordem
moral e o bem comum, o homem possa investigar livremente a verdade, expor e
divulgar a sua opinião e dedicar-se a qualquer arte; isto postula, finalmente,
que seja informado com verdade dos acontecimentos públicos (9).
À autoridade
pública pertence, não determinar o carácter próprio das formas de cultura mas
favorecer as condições e as ajudas necessárias para o desenvolvimento cultural
de todos, mesmo das minorias de alguma nação (10). Deve, por isso, insistir-se,
antes de mais, para que a cultura, desviando-se do seu fim, não seja obrigada a
servir as forças políticas ou económicas.
Secção 3
ALGUNS DEVERES MAIS URGENTES
DOS CRISTÃOS COM RELAÇÃO À CULTURA
Reconhecimento do direito do homem à cultura
60. Dado que hoje há a possibilidade de
libertar muitos homens da miséria da ignorância, é dever muito próprio do nosso
tempo, principalmente para os cristãos, trabalhar enèrgicamente para que, tanto
no campo económico como no político, no nacional como no internacional, se
estabeleçam os princípios fundamentais segundo os quais se reconheça e se actue
em toda a parte efectivamente o direito de todos à cultura correspondente à
dignidade humana, sem discriminação de raça, sexo, nação, religião ou situação
social. Pelo que a todos se deve suficiente abundância dos bens culturais,
sobretudo daqueles que constituem a chamada educação de base, a fim de que
muitos, por causa do analfabetismo e da privação duma actividade responsável, não se vejam impedidos de contribuir para o bem comum de modo
verdadeiramente humano. Deve tender-se, portanto, para que todos os que são
disso capazes tenham a possibilidade de seguir estudos superiores; de modo que
subam na sociedade às funções, cargos e serviços correspondentes às próprias
aptidões ou à competência que adquirirem (11). Deste modo, todos os homens e todos
os agrupamentos sociais poderão chegar ao pleno desenvolvimento da sua vida
cultural, segundo as qualidades e tradições próprias de cada um.
É preciso, além
disso, trabalhar muito para que todos tomem consciência, não só do direito à
cultura, mas também do dever que têm de se cultivar e de ajudar os outros nesse
campo. Existem, com efeito, por vezes, condições de vida e de trabalho que
impedem as aspirações culturais dos povos e destroem neles o desejo da cultura.
Isto vale especialmente para os camponeses e trabalhadores, aos quais se devem
proporcionar condições de trabalho tais que não impeçam mas antes ajudem a sua
cultura humana. As mulheres trabalham já em quase todos os sectores de actividade; mas convém que possam exercer plenamente a sua participação, segundo
a própria índole. Será um dever para todos reconhecer e fomentar a necessária e
específica participação das mulheres na vida cultural.
Educação cultural integral do homem
61. É mais difícil hoje
do que outrora fazer uma síntese dos vários ramos do saber e das artes. Porque
ao mesmo tempo que aumenta a multidão e diversidade dos elementos que constituem
a cultura, diminui para cada homem a possibilidade de os compreender e
organizar; a figura do «homem universal» desaparece assim cada vez mais. No
entanto, cada homem continua a ter o dever de salvaguardar a integridade da
pessoa humana, na qual sobressaem os valores da inteligência, da vontade, da
consciência e da fraternidade, valores que se fundam em Deus Criador e por
Cristo foram admiràvelmente restaurados e elevados.
A família é, prioritàriamente, como que a mãe e a fonte da educação: nela, os filhos,
rodeados de amor, aprendem mais fàcilmente a recta ordem das coisas, enquanto
que as formas aprovadas da cultura vão penetrando como que naturalmente na alma
dos adolescentes, à medida que vão crescendo.
Para esta mesma educação existem
nas sociedades hodiernas, sobretudo graças à crescente difusão de livros e aos
novos meios de comunicação cultural e social, possibilidades que podem favorecer
a universalização da cultura. Com efeito, com a diminuição generalizada do tempo
de trabalho, crescem progressivamente para muitos homens as facilidades para
tal. Os tempos livres sejam bem empregados, para descanso do espírito e saúde da
alma e do corpo, ora com actividades e estudos livremente escolhidos, ora com
viagens a outras regiões (turismo), com as quais sé educa o espírito e os homens
se enriquecem com o conhecimento mútuo, ora também com exercícios e
manifestações desportivas, que contribuem para manter o equilíbrio psíquico, mesmo na comunidade, e para estabelecer
relações fraternas entre os homens de todas as condições e nações, ou de raças
diversas . Colaborem, portanto, os cristãos, a fim de que as manifestações e
actividades culturais colectivas, características do nosso tempo, sejam
penetradas de espírito humano e cristão.
Mas todas estas vantagens não conseguirão levar o homem à
educação cultural integral se, ao mesmo tempo, não se tiver o cuidado de
investigar o significado profundo da cultura e da ciência para a pessoa humana.
Harmonia entre a cultura humana e a formação cristã
62. Ainda que a Igreja muito tem contribuído para o
progresso cultural, mostra, contudo, a experiência que, devido a causas
contingentes, a harmonia da cultura com a doutrina nem sempre se realiza sem
dificuldades.
Tais dificuldades não são necessàriamente danosas para a vida da
fé; antes, podem levar o espírito a uma compreensão mais exacta e mais profunda
da mesma fé. Efectivamente, as recentes investigações e descobertas das
ciências, da história e da filosofia, levantam novos problemas, que implicam
consequências também para a vida e exigem dos teólogos novos estudos. Além
disso, os teólogos são convidados a buscar constantemente, de acordo com os
métodos e exigências próprias do conhecimento teológico, a forma mais adequada
de comunicar a doutrina aos homens do seu tempo; porque uma coisa é o depósito
da fé ou as suas verdades, outra o modo como elas se enunciam, sempre, porém,
com o mesmo sentido e significado (12). Na actividade pastoral, conheçam-se e
apliquem-se suficientemente, não apenas os princípios teológicos, mas também os
dados das ciências profanas, principalmente da psicologia e sociologia, para que
assim os fiéis sejam conduzidos a uma vida de fé mais pura e adulta.
A
literatura e as artes são também, segundo a maneira que lhes é própria, de
grande importância para a vida da Igreja. Procuram elas dar expressão à natureza
do homem, aos seus problemas e à experiência das suas tentativas para
conhecer-se e aperfeiçoar-se a si mesmo e ao mundo; e tentam identificar a sua
situação na história e no universo, dar a conhecer as suas misérias e alegrias,
necessidades e energias, e desvendar um futuro melhor. Conseguem assim elevar a
vida humana, que exprimem sob muito diferentes formas, segundo os tempos e
lugares.
Por conseguinte, deve trabalhar-se por que os artistas se sintam
compreendidos, na sua actividade, pela Igreja e que, gozando duma conveniente
liberdade, tenham mais facilidade de contactos com a comunidade cristã. A Igreja
deve também reconhecer as novas formas artísticas, que segundo o génio próprio
das várias nações e regiões se adaptam às exigências dos nossos contemporâneos.
Sejam admitidas nos templos quando, com linguagem conveniente e conforme às
exigências litúrgicas, levantam o espírito a Deus (13).
Deste modo, o conhecimento de Deus é mais perfeitamente manifestado; a pregação
evangélica torna-se mais compreensível ao espírito dos homens e aparece como
integrada nas suas condições normais de vida.
Vivam, pois, os fiéis em estreita
união com os demais homens do seu tempo e procurem compreender perfeitamente o
seu modo de pensar e sentir, qual se exprime pela cultura. Saibam conciliar os
conhecimentos das novas ciências e doutrinas e últimas descobertas com os
costumes e doutrina cristã, a fim de que a prática religiosa e a rectidão moral
acompanhem neles o conhecimento científico e o progresso técnico e sejam capazes
de apreciar e interpretar todas as coisas com autêntico sentido cristão.
Os que
se dedicam às ciências teológicas nos Seminários e Universidades, procurem
colaborar com os especialistas doutros ramos do saber, pondo em comum trabalhos
e conhecimentos. A investigação teológica deve simultâneamente procurar um
profundo conhecimento da verdade revelada e não descurar a ligação com o seu
tempo, para que assim possa ajudar os homens formados nas diversas matérias a
alcançar um conhecimento mais completo da fé. Esta colaboração ajudará
muitíssimo a formação dos ministros sagrados. Estes poderão assim expor de
maneira mais adequada aos homens do nosso tempo a doutrina da Igreja acerca de
Deus, do homem e do mundo; e a sua palavra por eles melhor acolhida (14). É, mesmo
de desejar que muitos leigos adquiram uma conveniente formação nas disciplinas
sagradas e que muitos deles se consagrem expressamente a cultivar e aprofundar
estes estudos. E para que possam desempenhar bem a sua tarefa, deve
reconhecer-se aos fiéis, clérigos ou leigos, uma justa liberdade de
investigação, de pensamento e de expressão da própria opinião, com humildade e
fortaleza, nos domínios da sua competência (15).
CAPÍTULO III
A VIDA ECONÓMICO-SOCIAL
Alguns aspectos da vida económica actual
63. Também na vida económica e social se
devem respeitar e promover a dignidade e a vocação integral da pessoa humana e o
bem de toda a sociedade. Com efeito, o homem é o protagonista, o centro e o fim
de toda a vida económico-social.
A economia actual, de modo semelhante ao que
sucede noutros campos da vida social, é caracterizada por um crescente domínio
do homem sobre a natureza, pela multiplicação e intensificação das relações e
mútua dependência entre os cidadãos, grupos e nações e, finalmente, por mais
frequentes intervenções do poder político. Ao mesmo tempo, o progresso das
técnicas de produção e do intercâmbio de bens e serviços fizeram da economia um
instrumento capaz de prover mais satisfatòriamente às acrescidas necessidades da
família humana.
Mas não faltam motivos de inquietação. Não poucos homens, com
efeito, sobretudo nos países econòmicamente desenvolvidos, parecem dominados
pela realidade económica; toda a sua vida está penetrada por um certo espírito
economístico tanto nas nações favoráveis à economia colectiva como nas outras.
No preciso momento em que o progresso da vida económica permite mitigar as
desigualdades sociais, se for dirigido e organizado de modo racional e humano,
vemo-lo muitas vezes levar ao agravamento das mesmas desigualdades e até em
algumas partes a uma regressão dos socialmente débeis e ao desprezo dos pobres.
Enquanto multidões imensas carecem ainda do estritamente necessário, alguns,
mesmo nas regiões menos desenvolvidas, vivem na opulência e na dissipação.
Coexistem o luxo e a miséria. Enquanto um pequeno número dispõe dum grande poder
de decisão, muitos estão quase inteiramente privados da possibilidade de agir
por própria iniciativa e responsabilidade, e vivem e trabalham em condições
indignas da pessoa humana.
Semelhantes desequilíbrios se verificam tanto entre a
agricultura, a indústria e os serviços como entre as diferentes regiões do mesmo
país. A oposição entre as econòmicamente mais desenvolvidas e as outras torna-se
cada vez mais grave e pode pôr em risco a própria paz mundial.
Os nossos
contemporâneos têm uma consciência cada vez mais viva destas desigualdades, pois
estão convencidos de que as maiores possibilidades técnicas e económicas de que disfruta o mundo actual podem e devem corrigir este funesto estado de coisas.
Mas, para tanto, requerem-se muitas reformas na vida económico-social. e uma
mudança de mentalidade e de hábitos por parte de todos. Com esse fim, a Igreja,
no decurso dos séculos e sobretudo nos últimos tempos, formulou e proclamou à
luz do Evangelho os princípios de justiça e equidade, postulados pela recta
razão tanto na vida individual e social como na internacional. O sagrado
Concílio quer confirmar estes princípios, tendo em conta as condições actuais e
dar algumas orientações, tendo presentes antes de mais as exigências do
progresso económico(1).
Secção 1
O DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO
Desenvolvimento económico ao serviço do homem 64. Hoje, mais do que nunca, para fazer frente ao
aumento populacional e satisfazer às crescentes aspirações do género humano, com
razão se faz um esforço por aumentar a produção agrícola e industrial e a
prestação de serviços. Deve, por isso, favorecer-se o progresso técnico, o
espírito de inventiva, a criação e ampliação dos empreendimentos, a adaptação
dos métodos e os esforços valorosos de todos os que participam na produção; numa
palavra, todos os factores que contribuem para tal desenvolvimento. Mas a
finalidade fundamental da produção não é o mero aumento dos produtos, nem o
lucro ou o poderio, mas o serviço do homem; do homem integral, isto é, tendo em
conta a ordem das suas necessidades materiais e as exigências da sua vida
intelectual, moral, espiritual e religiosa; de qualquer homem ou grupo de
homens, de qualquer raça ou região do mundo. A actividade económica,
regulando-se pelos métodos e leis próprias, deve, portanto, exercer-se dentro
dos limites da ordem moral (2), para que assim se cumpra o desígnio de Deus sobre
o homem (3). O controle do
desenvolvimento económico 65. O desenvolvimento económico deve permanecer sob a direcção do
homem; nem se deve deixar entregue só ao arbítrio de alguns poucos indivíduos ou
grupos economicamente mais fortes ou só da comunidade política ou de algumas
nações mais poderosas. Pelo contrário, é necessário que, em todos os níveis,
tenha parte na sua direcção o maior número possível de homens, ou todas as
nações, se se trata de relações internacionais. De igual modo, é necessário que
as iniciativas dos indivíduos e das associações livres sejam coordenadas e
organizadas harmònicamente com a actividade dos poderes públicos. O
desenvolvimento não se deve abandonar ao simples curso quase mecânico da
actividade económica, ou à autoridade pública sòmente. Devem, por isso,
denunciar-se como erróneas tanto as doutrinas que, a pretexto duma falsa
liberdade, se opõem às necessárias reformas, como as que sacrificam os direitos
fundamentais dos indivíduos e das associações à organização colectiva da
produção (4). Lembrem-se, de resto, os
cidadãos, ser direito e dever seu, que o poder civil deve reconhecer,
contribuir, na medida das próprias possibilidades, para o verdadeiro desenvolvimento da sua comunidade. Sobretudo nas regiões
economicamente menos desenvolvidas, onde é urgente o emprego de todos os recursos
disponíveis, fazem correr grave risco ao bem comum todos aqueles que conservam
improdutivas as suas riquezas ou, salvo o direito pessoal de emigração, privam a
própria comunidade dos meios materiais ou espirituais de que necessita.
A remoção das desigualdades económico-sociais
66. Para satisfazer às exigências da justiça e da equidade, é necessário esforçar-se
enèrgicamente para que, respeitando os direitos das pessoas e a índole própria
de cada povo, se eliminem o mais depressa possível as grandes e por vezes
crescentes desigualdades económicas actualmente existentes, acompanhadas da
discriminação individual e social. De igual modo, tendo em conta as especiais
dificuldades da agricultura em muitas regiões, quer na produção quer na
comercialização dos produtos, é preciso ajudar os agricultores no aumento e
venda da produção, na introdução das necessárias transformações e inovações e na
obtenção dum justo rendimento; para que não continuem a ser, como muitas vezes
acontece, cidadãos de segunda categoria. Quanto aos agricultores, sobretudo os
jovens, dediquem-se com empenho a desenvolver a própria competência
profissional, sem a qual é impossível o progresso da agricultura (5).
É também
exigência da justiça e da equidade que a mobilidade, necessária para o progresso
económico, seja regulada de tal maneira que a vida dos indivíduos e das famílias
não se torne insegura e precária. Deve, portanto, evitar-se cuidadosamente toda
e qualquer espécie de discriminação quanto às condições de remuneração ou de
trabalho com relação aos trabalhadores oriundos de outro país ou região, que
contribuem com o seu trabalho para o desenvolvimento económico da nação ou da
província. Além disso, todos, e antes de mais os poderes públicos, devem
tratá-los como pessoas, e não como simples instrumentos de produção, ajudá-los
para que possam trazer para junto de si a própria família e arranjar conveniente
habitação, e favorecer a sua integração na vida social do povo ou da região que
os acolhe. Todavia, na medida do possível, criem-se fontes de trabalho nas suas
próprias regiões.
Nas economias hoje em transformação, bem como nas novas
formas de sociedade industrial, nas quais, por exemplo, a automação se vai
impondo, deve ter-se o cuidado de que se proporcione a cada um trabalho
suficiente e adaptado, juntamente com a possibilidade duma conveniente formação
técnica e profissional; e garantam-se o sustento e a dignidade humana sobretudo
àqueles que, por causa de doença ou de idade, têm maiores dificuldades.
Secção 2
ALGUNS PRINCÍPIOS ORIENTADORES DE TODA A VIDA ECONÓMICO-SOCIAL
Trabalho, condições de trabalho, descanso
67. O trabalho humano, que se exerce na produção e na troca dos bens económicos e na
prestação de serviços, sobreleva aos demais factores da vida económica, que
apenas têm valor de instrumentos.
Este trabalho, empreendido por conta própria
ou ao serviço de outrem, procede imediatamente da pessoa, a qual como que marca
com o seu zelo as coisas da natureza, e as sujeita ao seu domínio. É com o seu
trabalho que o homem sustenta de ordinário a própria vida e a dos seus; por meio
dele se une e serve aos seus irmãos, pode exercitar uma caridade autêntica e
colaborar no acabamento da criação divina. Mais ainda: sabemos que, oferecendo a
Deus o seu trabalho, o homem se associa à obra redentora de Cristo, o qual
conferiu ao trabalho uma dignidade sublime, trabalhando com as suas próprias
mãos em Nazaré. Daí nasce para cada um o dever de trabalhar fielmente, e também
o direito ao trabalho; à sociedade cabe, por sua parte, ajudar em quanto possa,
segundo as circunstâncias vigentes, os cidadãos para que possam encontrar
oportunidade de trabalho suficiente. Finalmente, tendo em conta as funções e
produtividade de cada um, bem como a situação da empresa e o bem comum, o
trabalho deve ser remunerado de maneira a dar ao homem a possibilidade de
cultivar dignamente a própria vida material, social, cultural e espiritual e a
dos seus (6).
Dado que a actividade económica é, na maior parte dos casos, fruto
do trabalho associado dos homens, é injusto e desumano organizá-la e dispô-la de
tal modo que isso resulte em prejuízo para qualquer dos que trabalham.
Ora, é
demasiado frequente, mesmo em nossos dias, que os trabalhadores estão de algum
modo escravizados à própria actividade. Isto não encontra justificação alguma
nas pretensas leis económicas. É preciso, portanto, adaptar todo o processo do
trabalho produtivo às necessidades da pessoa e às formas de vida; primeiro que
tudo da doméstica, especialmente no que se refere às mães, e tendo sempre em
conta o sexo e a idade. Proporcione-se, além disso, aos trabalhadores a
possibilidade de desenvolver, na execução do próprio trabalho, as suas
qualidades e personalidade. Ao mesmo tempo que aplicam responsàvelmente a esta
execução o seu tempo e forças, gozem, porém, todos de suficiente descanso e
tempo livre para atender à vida familiar, cultural, social e religiosa. Tenham
mesmo oportunidade de desenvolver livremente as energias e
capacidades que talvez pouco possam exercitar no seu trabalho profissional.
Participação na empresa e no conjunto da economia. Conflitos de
trabalho 68. Nas empresas económicas, são pessoas as que se associam, isto é homens livres e
autónomos, criados à imagem de Deus. Por isso, tendo em conta as funções de cada
um -proprietários, empresários, dirigentes ou operários - e salva a necessária
unidade de direcção, promova-se, segundo modalidades a determinar
convenientemente, a participação activa de todos na gestão das empresas (7). E
dado que frequentemente não é ao nível da empresa mas num mais alto de
instituições superiores que se tomam as decisões económicas e sociais de que
depende o futuro dos trabalhadores e de seus filhos, eles devem participar
também no estabelecimento dessas decisões, por si ou por delegados livremente
eleitos. Entre os direitos fundamentais da pessoa humana deve contar-se o de os
trabalhadores criarem livremente associações que os possam representar autênticamente
e contribuir para a recta ordenação da vida económica; e ainda o direito de
participar, livremente, sem risco de represálias, na actividade das mesmas.
Graças a esta ordenada participação, junta com uma progressiva formação
económica e social, aumentará cada vez mais em todos a consciência da própria
função e dever; ela os levará a sentirem-se associados, segundo as próprias
possibilidades e aptidões, a todo o trabalho de desenvolvimento económico e
social e à realização do bem comum universal.
Quando, porém, surgem conflitos económico-sociais, devem fazer-se esforços para
que se chegue a uma solução pacífica dos mesmos. Mas ainda que, antes de mais,
se deva recorrer ao sincero diálogo entre as partes, toda via, a greve pode
ainda constituir, mesmo nas actuais circunstâncias, um meio necessário, embora
extremo, para defender os próprios direitos e alcançar as justas reivindicações
dos trabalhadores. Mas procure-se retomar o mais depressa possível o caminho da
negociação e do diálogo da conciliação.
Os bens da terra, destinados a todos 69. Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de
todos os homens e povos; de modo que os bens criados devem chegar
equitativamente às mãos de todos, segundo a justiça, secundada pela caridade (8).
Sejam quais forem as formas de propriedade, conforme as legítimas instituições
dos povos e segundo as diferentes e mutáveis circunstâncias, deve-se sempre
atender a este destino universal dos bens. Por esta razão, quem usa desses bens,
não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como
próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si mas também aos outros
(9). De resto, todos têm o direito de ter
uma parte de bens suficientes para si e suas famílias. Assim pensaram os Padres
e Doutores da Igreja, ensinando que os homens têm obrigação de auxiliar os
pobres e não apenas com os bens supérfluos (10). Aquele, porém, que se encontra em
extrema necessidade, tem direito de tomar, dos bens dos outros, o que necessita
(11). Sendo tão numerosos os que no mundo padecem fome, o sagrado Concílio insiste
com todos, indivíduos e autoridades, para que, recordados daquela palavra dos
Padres - «alimenta o que padece fome, porque, se o não alimentaste, mataste-o»
(12) - repartam realmente e distribuam os seus bens, procurando sobretudo prover
esses indivíduos e povos daqueles auxílios que lhes permitam ajudar-se e
desenvolver-se a si mesmos. Nas sociedades econòmicamente menos desenvolvidas, o
destino comum dos bens é frequentes vezes parcialmente atendido graças a
costumes e tradições próprias da comunidade, que asseguram a cada membro os bens
indispensáveis. Mas deve evitar-se considerar certos costumes como
absolutamente imutáveis, se já não correspondem às exigências do tempo actual;
por outro lado, não se proceda imprudentemente contra os costumes honestos, que,
uma vez convenientemente adaptados às circunstâncias actuais, continuam a ser
muito úteis. De modo análogo, nas nações muito desenvolvidas econòmicamente, um
conjunto de instituições sociais de previdência e seguro pode constituir uma
realidade parcial do destino comum dos bens. Deve prosseguir-se o
desenvolvimento dos serviços familiares e sociais, sobretudo daqueles que
atendem à cultura e educação. Na organização de todas estas instituições, porém,
deve atender-se a que os cidadãos não sejam levados a uma certa passividade com
relação à sociedade ou à irresponsabilidade e recusa de serviço.
Inversões e política monetária
70. Os investimentos, por sua parte, devem tender a assegurar suficientes
empregos e rendimentos, tanto para a população actual como para a de amanhã.
Todos os que decidem destes investimentos e da organização da vida económica -
indivíduos, grupos ou poderes públicos - devem ter presentes estes fins e
reconhecer a grave obrigação que têm de vigiar para que assegurem os requisitos
necessários a uma vida digna dos indivíduos e de toda a comunidade; e, ainda, de
prever o futuro e garantir um são equilíbrio entre as necessidades do consumo
hodierno, individual e colectivo, e as exigências de investimentos para a
geração futura. Tenham-se sempre também em conta as necessidades urgentes das
nações ou regiões econòmicamente menos desenvolvidas. Em matéria de política
monetária, evite-se prejudicar o bem quer da própria nação quer das outras. E
tomem-se providências para que os econòmicamente débeis não sofram injusto
prejuízo com a desvalorização da moeda.
Acesso à propriedade e domínio privado. Problemas dos
latifúndios
71. Dado que a propriedade e as outras formas de domínio privado
dos bens externos contribuem para a expressão da pessoa e lhe dão ocasião de
exercer a própria função na sociedade e na economia, é de grande importância que
se fomente o acesso dos indivíduos e grupos a um certo domínio desses bens.
A propriedade privada ou um certo domínio sobre os bens externos
asseguram a cada um a indispensável esfera de autonomia pessoal e familiar, e
devem ser considerados como que uma extensão da liberdade humana. Finalmente,
como estimulam o exercício da responsabilidade, constituem uma das condições das
liberdades civis (13).
As formas desse domínio ou propriedade são actualmente variadas
e cada dia se diversificam mais. Mas todas continuam a ser, apesar dos fundos
sociais e dos direitos e serviços assegurados pela sociedade, um factor não
desprezível de segurança. O que se deve dizer não só dos bens materiais, mas
também dos imateriais, como é a capacidade profissional.
No entanto, o direito à propriedade privada não é incompatível
com as várias formas legítimas de direito de propriedade pública. Quanto à
apropriação pública dos bens, ela só pode ser levada a cabo pela legítima
autoridade, segundo as exigências e dentro dos limites do bem comum, e mediante
uma compensação equitativa. Compete, além disso, à autoridade pública impedir o
abuso da propriedade privada em detrimento do bem comum (14).
De resto, a mesma propriedade privada é de índole social,
fundada na lei do destino comum dos bens (15). O desprezo deste carácter social
foi muitas vezes ocasião de cobiças e de graves desordens, chegando mesmo a
fornecer um pretexto para os que contestam esse próprio direito.
Em bastantes
regiões econòmicamente pouco desenvolvidas, existem grandes e até vastíssimas
propriedades rústicas, fracamente cultivadas ou até deixadas totalmente incultas
com intentos lucrativos, enquanto a maior parte do povo não tem terras ou apenas
possui pequenos campos e, por outro lado, o aumento da produção agrícola
apresenta um evidente carácter de urgência. Não raro, os que são contratados a
trabalhar pelos proprietários ou exploram, em regime de arrendamento, uma parte
das propriedades, apenas recebem um salário ou um rendimento indigno de um
homem, carecem de habitação decente e são explorados pelos intermediários.
Desprovidos de qualquer segurança, vivem num tal regime de dependência pessoal
que perdem quase por completo a capacidade de iniciativa e responsabilidade e
lhes está vedada toda e qualquer promoção cultural ou participação na vida
social e política. Impõem-se, portanto, reformas necessárias, segundo os vários
casos: para aumentar os rendimentos, corrigir as condições de trabalho, reforçar
a segurança do emprego, estimular a iniciativa e, mesmo, para distribuir terras
não suficientemente cultivadas àqueles que as possam tornar produtivas. Neste
último caso, devem assegurar-se os bens e meios necessários, sobretudo de
educação e possibilidades duma adequada organização cooperativa. Sempre, porém,
que o bem comum exigir a expropriação, a compensação deve ser equitativamente
calculada, tendo em conta todas as circunstâncias.
A actividade económico-social e o reino de
Cristo 72. Os cristãos que
desempenham parte activa no actual desenvolvimento económico-social e lutam pela
justiça e pela caridade, estejam convencidos de que podem contribuir muito para
o bem da humanidade e paz dó mundo. Em todas estas actividades, quer sòzinhos
quer associados, sejam exemplo para todos. Adquirindo a competência e
experiência absolutamente indispensáveis, respeitem a devida hierarquia entre as
actividades terrenas, fiéis a Cristo e ao seu Evangelho, de maneira que toda a
sua vida, tanto individual como social, seja penetrada do espírito das
bem-aventuranças, e especialmente do espírito de pobreza. Todo aquele que,
obedecendo a Cristo, busca primeiramente o reino de Deus, recebe daí um amor
mais forte e mais puro, para ajudar os seus irmãos e realizar, sob o impulso da
caridade, a obra da justiça (16).
CAPÍTULO IV
A VIDA DA COMUNIDADE POLÍTICA
A vida política actual 73. Profundas transformações se verificam nos
nossos dias também nas estruturas e instituições dos povos, em consequência da
sua evolução cultural, económica e social; pois todas estas transformações têm
uma grande influência na vida da comunidade política, especialmente no que se
refere aos direitos e deveres de cada um no exercício da liberdade cívica, na
promoção do bem comum e na estruturação das relações dos cidadãos entre si e com
o poder público. A consciência mais sentida da dignidade humana dá origem em
diversas regiões do mundo ao desejo de instaurar uma ordem político-jurídica em
que os direitos da pessoa na vida pública sejam melhor assegurados, tais como os
direitos de livre reunião e associação, de expressão das próprias opiniões e de
profissão privada e pública da religião. A salvaguarda dos direitos da pessoa é,
com efeito, uma condição necessária para que os cidadãos, quer individualmente
quer em grupo, possam participar activamente na vida e gestão da coisa pública.
Paralelamente com o progresso cultural, económico e social, cresce em muitos o
desejo de tomar maior parte na organização da comunidade política. Aumenta na
consciência de muitos o empenho em assegurar os direitos das minorias, sem
esquecer de resto os seus deveres para com a comunidade política; cresce, além
disso, cada dia o respeito pelos homens que professam uma opinião ou religião
diferente; e estabelece-se ao mesmo tempo uma colaboração mais ampla, a fim de
que todos os cidadãos, e não apenas alguns privilegiados, possam gozar realmente
dós direitos da pessoa. Condenam-se,
pelo contrário, todas as formas políticas, existentes em algumas regiões, que
impedem a liberdade civil ou religiosa, multiplicam as vítimas das paixões e dos
crimes políticos e desviam do bem comum o exercício da autoridade, em benefício
de alguma facção ou dos próprios governantes.
Para estabelecer uma vida política verdadeiramente humana, nada melhor do que
fomentar sentimentos interiores de justiça e benevolência e serviço do bem comum
e reforçar as convicções fundamentais acerca da verdadeira natureza da
comunidade política, bem como do fim, recto exercício e limites da autoridade.
Natureza e fim da comunidade política 74. Os indivíduos, as famílias e os diferentes grupos que constituem
a sociedade civil, têm consciência da própria insuficiência para realizar uma
vida plenamente humana e percebem a necessidade duma comunidade mais ampla, no
seio da qual todos conjuguem diàriamente as próprias forças para cada vez melhor
promoverem o bem comum (1). E por esta razão constituem, segundo diversas formas,
a comunidade política. A comunidade política existe, portanto, em vista do bem comum; nele encontra a sua completa justificação e
significado e dele deriva o seu direito natural e próprio. Quanto ao bem comum,
ele compreende o conjunto das condições de vida social que permitem aos
indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e fàcilmente a própria
perfeição (2). Porém, os homens que se reunem na comunidade política são muitos e
diferentes, e podem legitimamente divergir de opinião. E assim, para impedir que
a comunidade política se desagregue ao seguir cada um o próprio parecer,
requere-se uma autoridade que faça convergir para o bem comum as energias de
todos os cidadãos; não duma maneira mecânica ou despótica, mas sobretudo como
força moral, que se apoia na liberdade e na consciência do próprio dever e
sentido de responsabilidade. Resulta, portanto, claro que a comunidade política
e a autoridade pública se fundam na natureza humana e que, por conseguinte,
pertencem à ordem estabelecida por Deus, embora a determinação do regime
político e a designação dos governantes se deixem à livre vontade dos cidadãos (3). Segue-se também que o exercício da autoridade política, seja na comunidade
como tal, seja nos organismos representativos, se deve sempre desenvolver e
actuar dentro dos limites da ordem. moral, em vista do bem comum, dinâmicamente
concebido, de acordo com a ordem jurídica legitimamente estabelecida ou a
estabelecer. Nestas condições, os cidadãos têm obrigação moral de obedecer (4).
Daqui a responsabilidade, dignidade e importância dos que governam.
Mas quando a autoridade pública, excedendo os limites da própria competência,
oprime os cidadãos, estes não se recusem às exigências objectivas do bem comum;
mas é-lhes lícito, dentro dos limites traçados pela lei natural e pelo
Evangelho, defender os próprios direitos e os dos seus concidadãos, contra o
abuso desta autoridade. Os modos
concretos como a comunidade política organiza a própria estrutura e o equilíbrio
dos poderes públicos, podem variar, segundo a diferente índole e o progresso
histórico dos povos; mas devem sempre ordenar-se à formação de homens cultos,
pacíficos e benévolos para com todos, em proveito de toda a família humana.
A colaboração de todos na vida política
75. É plenamente conforme com a natureza do homem que se encontrem
estruturas jurídico-políticas nas quais todos os cidadãos tenham a possibilidade
efectiva de participar livre e activamente, dum modo cada vez mais perfeito e
sem qualquer discriminação, tanto no estabelecimento das bases jurídicas da
comunidade política, como na gestão da coisa pública e na determinação do campo
e fim das várias instituições e na escolha dos governantes (5). Todos os cidadãos
se lembrem, portanto, do direito e simultâneamente do dever que têm de
fazer uso do seu voto livre em vista da promoção do bem comum. A Igreja louva e
aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso
de tal cargo, em serviço dos homens.
Para que a cooperação responsável dos cidadãos leve a felizes resultados na vida
pública de todos os dias, é necessário que haja uma ordem jurídica positiva, que
estabeleça convenientemente divisão das funções e dos orgãos da autoridade
pública e ao mesmo tempo protecção do direito eficaz e plenamente independente
de quem quer que seja. Juntamente com os deveres a que todos os cidadãos estão
obrigados, sejam reconhecidos, assegurados e fomentados os direitos das
pessoas, famílias e grupos sociais, bem como o exercício dos mesmos. Entre
aqueles, é preciso recordar o dever de prestar à nação os serviços materiais e
pessoais que são requeridos pelo bem comum. Os governantes tenham o cuidado de
não impedir as associações familiares, sociais ou culturais e os corpos ou
organismos intermédios, nem os privem da sua actividade legítima e eficaz; pelo
contrário, procurem de bom grado promovê-la ordenadamente. Evitem, por isso, os
cidadãos quer individual quer associativamente, conceder à autoridade um poder
excessivo, nem lhe peçam, de modo inoportuno, demasiadas vantagens e
facilidades, de modo a que se diminua a responsabilidade das pessoas, famílias e
grupos sociais.
A crescente complexidade das actuais circunstâncias força com frequência o
poder público a intervir nos assuntos sociais, económicos e culturais, com o fim
de introduzir condições mais favoráveis em que os cidadãos e grupos possam
livremente e com mais eficácia promover o bem humano integral. As relações
entre a socialização (6) e a autonomia e desenvolvimento pessoais podem
conceber-se diferentemente, conforme a diversidade das regiões e o grau de
desenvolvimento dos povos. Mas quando, por exigência do bem comum, se limitar temporàriamente o exercício dos direitos, restabeleça-se quanto antes a
liberdade, logo que mudem as circunstâncias. É, porém, desumano que a autoridade
política assuma formas totalitárias ou ditatoriais, que lesam os direitos das
pessoas ou dos grupos sociais.
Os cidadãos cultivem com magnanimidade e lealdade o amor da pátria, mas sem
estreiteza de espírito, de maneira que, ao mesmo tempo, tenham sempre presente o
bem de toda a família humana, que resulta das várias ligações entre as raças,
povos e nações.
Todos os cristãos tenham consciência da sua vocação especial e própria na
comunidade política; por ela são obrigados a dar exemplo de sentida
responsabilidade e dedicação pelo bem comum, de maneira a mostrarem também com
factos como se harmonizam a autoridade e a liberdade, a iniciativa pessoal e a
solidariedade do inteiro corpo social, a oportuna unidade com a proveitosa
diversidade. Reconheçam as legítimas opiniões, divergentes entre si, acerca da
organização da ordem temporal, e respeitem os cidadãos e grupos que as defendem
honestamente. Os partidos políticos devem promover o que julgam ser exigido pelo
bem comum, sem que jamais seja lícito antepor o próprio interesse ao bem comum.
Deve atender-se cuidadosamente à educação cívica e política, hoje tão necessária
à população e sobretudo aos jovens, para que todos os cidadãos possam participar
na vida da comunidade política. Os que são ou podem tornar-se aptos para exercer
a difícil e muito nobre (7) arte da política, preparem-se para ela; e procurem
exercê-la sem pensar no interesse próprio ou em vantagens materiais. Procedam
com inteireza e prudência contra a injustiça e a opressão, contra o arbitrário
domínio de uma pessoa ou de um partido, e contra a intolerância. E dediquem-se
com sinceridade e equidade, mais ainda, com caridade e fortaleza política, ao
bem de todos.
A comunidade política e a Igreja
76. E de grande importância, sobretudo onde existe uma sociedade pluralística,
que se tenha uma concepção exacta das relações entre a comunidade política e a
Igreja, e, ainda, que se distingam claramente as actividades que os fiéis,
isoladamente ou em grupo, desempenham em próprio nome como cidadãos guiados pela
sua consciência de cristãos, e aquelas que exercitam em nome da Igreja e em
união com os seus pastores.
A Igreja que, em razão da sua missão e competência, de modo algum se confunde
com a sociedade nem está ligada a qualquer sistema político determinado, é ao
mesmo tempo o sinal e salvaguarda da transcendência da pessoa humana.
No domínio próprio de cada uma, comunidade política e Igreja são independentes e
autónomas. Mas, embora por títulos diversos, ambas servem a vocação pessoal e
social dos mesmos homens. E tanto mais eficazmente exercitarão este serviço para
bem de todos, quanto melhor cultivarem entre si uma sã cooperação, tendo
igualmente em conta as circunstâncias de lugar e tempo. Porque o homem não se
limita à ordem temporal sòmente; vivendo na história humana, fundada sobre o
amor do Redentor, ela contribui para que se difundam mais amplamente, nas nações
e entre as nações, a justiça e a caridade. Pregando a verdade evangélica e
iluminando com a sua doutrina e o testemunho dos cristãos todos os campos da
actividade humana, ela respeita e promove também a liberdade e responsabilidade
política dos cidadãos.
Os Apóstolos e os sucessores dos mesmos, com os seus cooperadores, enviados para
anunciar aos homens Cristo, salvador do mundo, têm por sustentáculo do seu
apostolado o poder de Deus, o qual muitas vezes manifesta a força do Evangelho
na fraqueza das suas testemunhas. É preciso, pois, que todos os que se consagram
ao ministério da palavra de Deus utilizem os caminhos e meios próprios do
Evangelho, tantas vezes diferentes dos meios da cidade terrena.
É certo que as coisas terrenas e as que, na condição humana, transcendem este
mundo, se encontram intimamente ligadas; a própria Igreja usa das
coisas temporais, na
medida em que a sua missão o exige. Mas ela não coloca a sua esperança nos
privilégios que lhe oferece a autoridade civil; mais ainda, ela renunciará ao
exercício de alguns direitos legitimamente adquiridos, quando verificar que o
seu uso põe em causa a sinceridade do seu testemunho ou que novas condições de
vida exigem outras disposições. Porém, sempre lhe deve ser permitido pregar com
verdadeira liberdade a fé; ensinar a sua doutrina acerca da sociedade; exercer
sem entraves a própria missão entre os homens; e pronunciar o seu juízo moral
mesmo acerca das realidades políticas, sempre que os direitos fundamentais da
pessoa ou a salvação das almas o exigirem e utilizando todos e só aqueles meios
que são conformes com o Evangelho e, segundo a variedade dos tempos e
circunstâncias, são para o bem de todos.
Aderindo fielmente ao Evangelho e
realizando a sua missão no mundo, a Igreja -a quem pertence fomentar e elevar
tudo o que de verdadeiro, bom e belo se encontra na comunidade dos homens (8) -
consolida, para glória de Deus, a paz entre os homens (9).
CAPÍTULO V
A PROMOÇÃO DA PAZ E A COMUNIDADE INTERNACIONAL
Necessidade e desejos actuais da paz
77. Nestes nossos
tempos, em que as dores e angústias derivadas da guerra ou da sua ameaça ainda
oprimem tão duramente os homens, a família humana chegou a uma hora decisiva no
seu processo de maturação. Progressivamente unificada, e por toda a parte mais
consciente da própria unidade, não pode levar a cabo a tarefa que lhe incumbe de
construir um mundo mais humano para todos os homens, a não ser que todos se
orientem com espírito renovado à verdadeira paz. A mensagem evangélica, tão em
harmonia com os mais altos desejos e aspirações do género humano, brilha assim
com novo esplendor nos tempos de hoje, ao proclamar felizes os construtores da
paz «porque serão chamados filhos de Deus» (Mt. 5,9). Por isso, o Concílio,
explicando a verdadeira e nobilíssima natureza da paz, e uma vez condenada a
desumanidade da guerra, quer apelar ardentemente para que os cristãos, com a
ajuda de Cristo, autor da paz, colaborem com todos os homens no estabelecimento
da paz na justiça e no amor e na preparação dos instrumentos da mesma paz.
Natureza da paz e sua consecução
78. A paz não é ausência de guerra; nem se reduz ao estabelecimento do equilíbrio
entre as forças adversas, nem resulta duma dominação despótica. Com toda a
exactidão e propriedade ela é chamada «obra da justiça» (Is. 32, 7). É um fruto
da ordem que o divino Criador estabeleceu para a sociedade humana, e que deve
ser realizada pelos homens, sempre anelantes por uma mais perfeita justiça. Com
efeito, o bem comum do género humano é regido, primária e fundamentalmente, pela
lei eterna; mas, quanto às suas exigências concretas, está sujeito a constantes
mudanças, com o decorrer do tempo. Por esta razão, a paz nunca se alcança duma
vez para sempre, antes deve estar constantemente a ser edificada. Além disso,
como a vontade humana é fraca e ferida pelo pecado, a busca da paz exige o
constante domínio das paixões de cada um e a vigilância da autoridade legítima.
Mas tudo isto não basta. Esta paz não se pode alcançar na terra a não ser que se
assegure o bem das pessoas e que os homens compartilhem entre si livre e
confiadamente as riquezas do seu espírito criador. Absolutamente necessárias
para a edificação da paz são ainda a vontade firme de respeitar a dignidade dos
outros homens e povos e a prática assídua da fraternidade. A paz é assim também
fruto do amor, o qual vai além do que a justiça consegue alcançar. A paz
terrena, nascida do amor do próximo, é imagem e efeito da paz de Cristo, vinda
do Pai. Pois o próprio Filho encarnado, príncipe da paz, reconciliou com Deus,
pela cruz, todos os homens; restabelecendo a unidade de todos num só povo e num
só corpo, extinguiu o ódio (1) e, exaltado na ressurreição, derramou nos corações
o Espírito de amor. Todos os cristãos são,
por isso, insistentemente chamados a que «praticando a verdade na caridade» (Ef.
4, 15), se unam com os homens verdadeiramente pacíficos para implorarem e
edificarem a paz. Levados pelo mesmo espírito, não podemos deixar de louvar
aqueles que, renunciando à violência na reivindicação dos próprios direitos, recorrem a meios de defesa que estão também ao alcance dos mais fracos
— sempre que
isto se possa fazer sem lesar os direitos e obrigações de outros ou da
comunidade. Na medida em que os homens são pecadores, o perigo da guerra
ameaça-os e continuará a ameaça-los até à vinda de Cristo; mas na medida em que,
unidos em caridade, superam o pecado, superadas ficam também as lutas, até que
se realize aquela palavra: «com as espadas forjarão arados e foices com as
lanças. Nenhum povo levantará a espada contra outro e jamais se exercitarão para
a guerra» (Is. 2, 4). Secção 1
EVITAR A GUERRA
Refrear a crueldade das guerras 79. Apesar de as últimas guerras
terem trazido tão grandes danos materiais e morais, ainda todos os dias a guerra
leva por diante as suas devastações em alguma parte da terra. Mais ainda, o
emprego de armas científicas de todo o género para fazer a guerra, ameaça, dada
a selvajaria daquelas, levar os combatentes a uma barbárie muito pior que a de
outros tempos. Além disso, a complexidade da actual situação e o intrincado dos
relações entre países tornam possível o prolongar-se de guerras mais ou menos
larvadas, pelo recurso a novos métodos insidiosos e subversivos. Em muitos
casos, o recurso aos métodos do terrorismo é considerado como uma nova forma de
guerra. Tendo diante dos olhos este estado de prostração da humanidade, o
Concílio quer, antes de mais, recordar o valor permanente do direito natural
internacional e dos seus princípios universais. A. própria consciência da
humanidade afirma cada vez com maior força estes princípios. As acções que lhes
são deliberadamente contrárias, bem como as ordens que as mandam executar, são
portanto, criminosas; nem a obediência cega pode desculpar os que as cumprem.
Entre tais actos devem-se contar, antes de mais, aqueles com que se leva metòdicamente
a cabo o extermínio de toda uma raça, nação ou minoria étnica. Tais acções devem
ser veementemente condenadas como horríveis crimes e louvada no mais alto grau a
coragem de quantos não temem resistir abertamente aos que as querem impor.
Existem diversas convenções internacionais relativas à guerra assinadas por
bastantes nações, e que visam a tornar menos desumanas as actividades bélicas e
suas consequências; tais, por exemplo, as que se referem à sorte dos soldados
feridos ou prisioneiros, e outras semelhantes. Estes acordos devem ser
observados. Mais ainda, todos, sobretudo os poderes públicos e os peritos nestas
matérias, têm obrigação de procurar aperfeiçoa-los quanto lhes for possível, de maneira a que sejam capazes de melhor e mais
eficazmente refrearem a crueldade das guerras. Parece, além disso, justo que as
leis tenham em conta com humanidade o caso daqueles que, por motivo de
consciência, recusam combater, contanto que aceitem outra forma de servir a
comunidade humana. Na realidade, a guerra não foi eliminada do mundo dos homens.
E enquanto existir o perigo de guerra e não houver uma autoridade internacional
competente e dotada dos convenientes meios, não se pode negar aos governos,
depois de esgotados todos os recursos de negociações pacíficas, o direito de
legítima defesa. Cabe assim aos governantes e aos demais que participam na
responsabilidade dos negócios públicos, o dever de assegurar a defesa das
populações que lhes estão confiadas, tratando com toda a seriedade um assunto
tão sério. Mas uma coisa é utilizar a força militar para defender justamente as
populações, outra coisa é querer subjugar as outras nações. O poderio bélico não
legitima qualquer uso militar ou político que dele se faça. Nem, finalmente, uma
vez começada lamentàvelmente a guerra, já tudo se torna lícito entre as partes
beligerantes. Aqueles que se dedicam ao
serviço da pátria no exército, considerem-se servidores da segurança e da
liberdade dos povos; na medida em que se desempenham como convém desta tarefa,
contribuem verdadeiramente para o estabelecimento da paz.
A guerra total
80. Com o incremento das armas científicas, tem aumentado desmesuradamente o
horror e maldade da guerra. Pois, com o emprego de tais armas, as acções bélicas
podem causar enormes e indiscriminadas destruições, que desse modo já vão muito
além dos limites da legítima defesa. Mais ainda: se se empregasse integralmente
o material existente nos arsenais das grandes potências, resultaria daí o quase
total e recíproco extermínio de ambos os adversários, sem falar nas inúmeras
devastações provocadas no mundo e nos funestos efeitos que do uso de tais armas
se seguiriam. Tudo isto nos força a
considerar a guerra com um espírito inteiramente novo (2). Saibam os homens de
hoje que darão grave conta das suas actividades bélicas. Pois das suas decisões
actuais dependerá em grande parte o curso dos tempos futuros.
Tendo em atenção todas estas coisas, e fazendo suas as condenações da guerra
total já anteriormente pronunciadas pelos Sumos Pontífices (3), este sagrado
Concílio declara: Toda a acção bélica
que tende indiscriminadamente à destruição de cidades inteiras ou vastas regiões
e seus habitantes é um crime contra Deus e o próprio homem, que se deve condenar
com firmeza e sem hesitação.
O perigo peculiar da guerra hodierna está em que ela fornece,
por assim dizer, a oportunidade de cometer tais crimes àqueles que estão de
posse das modernas armas científicas; e, por uma consequência quase fatal, pode
impelir as vontades dos homens às mais atrozes decisões. Para que tal nunca
venha a suceder, os Bispos de todo o mundo, reunidos, imploram a todos,
sobretudo aos governantes e chefes militares, que ponderem sem cessar a sua tão
grande responsabilidade perante Deus e a humanidade.
A corrida aos armamentos
81. É verdade que não se acumulam as armas
científicas só com o fim de serem empregadas na guerra. Com efeito, dado que se
pensa que a solidez defensiva de cada parte depende da sua capacidade de
resposta fulminante, esta acumulação de armas, que aumenta de ano para ano,
serve, paradoxalmente, para dissuadir possíveis inimigos. Muitos pensam que este
é hoje o meio mais eficaz para assegurar uma certa paz entre as nações.
Seja o
que for deste meio de dissuasão, convençam-se os homens de que a corrida aos
armamentos, a que se entregam muitas nações, não é caminho seguro para uma firme
manutenção da paz; e de que o pretenso equilíbrio daí resultante não é uma paz
segura nem verdadeira. Corre-se o perigo de que, com isso, em vez de se
eliminarem as causas da guerra, antes se agravem progressivamente. E enquanto se
dilapidam riquezas imensas no constante fabrico de novas armas, torna-se
impossível dar remédio suficiente a tantas misérias de que sofre o mundo
actualmente. Mais do que sanar verdadeiramente e plenamente as discórdias entre
as nações, o que se consegue é contagiar com elas outras partes do mundo. É
preciso escolher outros caminhos, partindo da reforma das mentalidades, para
eliminar este escândalo e poder-se restituir ao mundo, liberto da angústia que o
oprime, uma paz verdadeira.
Por tal razão, de novo se deve declarar que a
corrida aos armamentos é um terrível flagelo para a humanidade e prejudica os
pobres dum modo intolerável. E é muito de temer, se ela continuar, que um dia
provoque as exterminadoras calamidades de que já presentemente prepara os meios.
Advertidos pelas calamidades que o género humano tornou possíveis, aproveitemos
o tempo de que ainda dispomos para, tornados mais conscientes da própria
responsabilidade, encontrarmos os caminhos que tornem possível resolver os
nossos conflitos dum modo mais digno de homens. A providência divina instantemente nos pede que nos libertemos da antiga servidão da guerra. Se nos
recusamos a fazer este esforço, não sabemos aonde nos levará o funesto caminho
por onde enveredámos.
Proscrição total da guerra e acção internacional para a evitar
82. É, portanto, claro, que nos devemos esforçar por todos
os meios por preparar os tempos em que, por comum acordo das nações, se possa
interditar absolutamente qualquer espécie de guerra. Isto exige, certamente, a
criação duma autoridade pública mundial, por todos reconhecida e com poder
suficiente para que fiquem garantidos a todos a segurança, o cumprimento da
justiça e o respeito dos direitos. Porém, antes que esta desejável autoridade
possa ser instituída, é necessário que os supremos organismos internacionais se
dediquem com toda a energia a buscar os meios mais aptos para conseguir a
segurança comum. Já que a paz deve antes nascer da confiança mútua do que ser imposta pelo terror das armas, todos devem trabalhar por
que se ponha, finalmente, um termo à corrida aos armamentos e por que se inicie
progressivamente e com garantias reais e eficazes, a redução dos mesmos
armamentos, não unilateral evidentemente, mas simultânea e segundo o que for
estatuído (4).
Entretanto, não se devem subestimar as tentativas já feitas ou
ainda em curso para afastar o perigo da guerra. Procure-se antes ajudar a boa
vontade de muitos que, carregados com as ingentes preocupações dos seus altos
ofícios, mas movidos do seriíssimo dever que os obriga, se esforçam por eliminar
a guerra de que têm horror, embora não possam prescindir da complexidade
objectiva das situações. E dirijam-se a Deus instantes preces, para que lhes dê
a força necessária para empreender com perseverança e levar a cabo com fortaleza
esta obra de imenso amor dos homens, de construir virilmente a paz. Hoje em dia,
isto exige certamente deles que alarguem o espírito mais além das fronteiras da
própria nação, deponham o egoísmo nacional e a ambição de dominar sobre os
outros países, fomentem um grande respeito por toda a humanidade, que já avança
tão laboriosamente para uma maior unidade.
As sondagens até agora diligente e incansàvelmente levadas a
cabo acerca dos problemas da paz e desarmamento, e as reuniões internacionais
que trataram deste assunto, devem ser consideradas como os primeiros passos para
a solução de tão graves problemas e devem no futuro promover-se ainda com. mais
empenho, para obter resultados práticos. No entanto, evitem os homens
entregar-se apenas aos esforços de alguns, sem se preocuparem com a própria
mentalidade. Pois os governantes, responsáveis pelo bem comum da própria nação e
ao mesmo tempo promotores do bem de todo o mundo, dependem muito das opiniões e
sentimentos das populações. Nada aproveitarão com dedicar-se à edificação da
paz, enquanto os sentimentos de hostilidade, desprezo e desconfiança, os ódios
raciais e os preconceitos ideológicos dividirem os homens e os opuserem uns aos
outros. Daqui a enorme necessidade duma renovação na educação das mentalidades e
na orientação da opinião publica. Aqueles que se consagram à obra de educação,
sobretudo da juventude, ou que formam a opinião pública, considerem como
gravíssimo dever o procurar formar as mentalidades de todos para novos
sentimentos pacíficos. Todos nós temos, com efeito, de reformar o nosso coração,
com os olhos postos no mundo inteiro e naquelas tarefas que podemos realizar
juntos para o progresso da humanidade.
Não nos engane uma falsa esperança. A não ser que, pondo de
parte inimizades e ódios, se celebrem no futuro pactos sólidos e honestos acerca
dá paz universal, a humanidade, que já agora corre grave risco, chegará talvez
desgraçadamente, apesar da sua admirável ciência, àquela hora em que não
conhecerá outra paz além da horrível tranquilidade da morte. Mas, ao mesmo tempo
que isto afirma, a Igreja de Cristo, no meio das angústias do tempo actual, não
deixa de esperar firmemente. A nossa época quer ela propor, uma e outra vez,
oportuna e importunamente, a mensagem do Apóstolo: «eis agora o tempo favorável»
para a conversão dos corações, «eis agora os dias da salvação (5).
Secção 2
CONSTRUÇÃO DA COMUNIDADE INTERNACIONAL
Causas e remédios das discórdias 83. Para edificar a paz, é preciso, antes
de mais, eliminar as causas das discórdias entre os homens, que são as que
alimentam as guerras, sobretudo as injustiças. Muitas delas provêm das
excessivas desigualdades económicas e do atraso em lhes dar remédios
necessários. Outras, porém, nascem do espírito de dominação e do desprezo das
pessoas; e, se buscamos causas mais profundas, da inveja, desconfiança e soberba
humanas, bem como de outras paixões egoístas. Como o homem não pode suportar
tantas desordens, delas provém que, mesmo sem haver guerra, o mundo está
continuamente envenenado com as contendas e violências entre os homens. E como
se verificam os mesmos males nas relações entre as nações, é absolutamente
necessário, para os vencer ou prevenir, e para reprimir as violências
desenfreadas, que os organismos internacionais cooperem e se coordenem melhor e
que se fomentem incansàvelmente as organizações que promovem a paz.
A comunidade das nações e instituições internacionais
84. Para que
o bem comum universal se procure convenientemente e se alcance com eficácia,
torna-se já necessário, dado o aumento crescente de estreitos laços de mútua
dependência entre todos os cidadãos e entre todos os povos do mundo, que a
comunidade dos povos se dê a si mesma uma estrutura à altura das tarefas actuais,
sobretudo relativamente àquelas numerosas regiões que ainda padecem intolerável
indigência.
Para obter tais fins, as instituições da comunidade internacional
devem prover, cada uma por sua parte, às diversas necessidades dos homens, no
domínio da vida social - a que pertencem a alimentação, saúde, educação, trabalho - como em certas circunstâncias particulares, que podem surgir aqui ou
ali, tais como a necessidade geral de favorecer o progresso das nações em vias
de desenvolvimento, de obviar às necessidades dos refugiados dispersos por todo
o mundo, ou ainda de ajudar os emigrantes e suas famílias.
As instituições
internacionais, mundiais ou regionais, já existentes, são beneméritas do género
humano. Aparecem como as primeiras tentativas para lançar os fundamentos
internacionais da inteira comunidade humana, a fim de se resolverem os
gravíssimos problemas dos nossos tempos, se promover o progresso em todo o mundo
e se prevenir qualquer forma de guerra. A Igreja alegra-se com o espírito de
verdadeira fraternidade que em todos estes campos floresce entre cristãos e não-cristãos, e tende a intensificar os esforços por remediar tão grande
miséria. A cooperação internacional no campo
económico 85. A unificação actual do género humano requer
também uma cooperação internacional mais ampla no campo económico. Com efeito,
embora quase todos os povos se tenham
tornado independentes, estão ainda longe de se encontrarem livres de excessivas
desigualdades ou de qualquer forma de dependência indevida, ou ao abrigo de
graves dificuldades internas. O crescimento dum país depende dos recursos
humanos e financeiros. Em cada nação, os cidadãos devem ser preparados pela
educação e formação profissional, para desempenharem as diversas funções da vida
económica e social. Para tal, requere-se a ajuda de peritos estrangeiros; estes,
ao darem tal ajuda, não procedam como dominadores, mas como auxiliares e
cooperadores. Não será possível prestar o auxílio material às nações em
desenvolvimento, se não se mudarem profundamente no mundo as estruturas do
comércio actual. Os países desenvolvidos prestar-lhes-ão ainda ajuda sob outras
formas, tais como dons, empréstimos ou investimentos financeiros; os quais se
devem prestar generosamente e sem cobiça, por uma das parte, e receber com
inteira honestidade, pela outra. Para se estabelecer uma autêntica ordem
económica internacional, é preciso abolir o apetite de lucros excessivos, as
ambições nacionais, o desejo de domínio político, os cálculos de ordem militar
bem como as manobras para propagar e impor ideologias. Apresentam-se muitos
sistemas económicos e sociais; é de desejar que os especialistas encontrem neles
as bases comuns dum são comércio mundial; o que mais fàcilmente se conseguirá,
se cada um renunciar aos próprios preconceitos e se mostrar disposto a um
diálogo sincero. Algumas normas oportunas
86. Para tal cooperação, parecem oportunas as seguintes normas:
a) As nações em desenvolvimento ponham todo o empenho em procurar firmemente que
a finalidade expressa do seu progresso seja a plena perfeição humana dos
cidadãos. Lembrem-se que o progresso se origina e cresce, antes de mais, com o
trabalho e engenho das populações, pois deve apoiar-se não apenas nos auxílios
estrangeiros, mas sobretudo no desenvolvimento dos próprios recursos e no
cultivo das qualidades e tradições próprias. Neste ponto, devem sobressair
aqueles que têm maior influência nos outros.
b) É dever muito grave dos povos desenvolvidos ajudar os que estão em vias de
desenvolvimento a realizar as tarefas referidas. Levem, portanto, a cabo, em si
mesmos, as adaptações psicológicas e materiais que são necessárias para
estabelecer esta cooperação internacional. E assim, nas negociações com as
nações mais fracas e pobres, atendam com muito cuidado ao bem das mesmas; pois
elas necessitam, para seu sustento, dos lucros alcançados com a venda dos bens
que produzem. c) Cabe à comunidade
internacional coordenar e estimular o desenvolvimento de modo a que os recursos
a isso destinados sejam utilizados com o máximo de eficácia e total equidade.
Também a ela pertence, sempre dentro do respeito pelo princípio de
subsidiariedade, regular as relações económicas no mundo inteiro de modo que se
desenvolvam segundo a justiça. Criem-se
instituições aptas para promover e regular o comércio internacional, sobretudo
com as nações menos desenvolvidas, e para compensar as deficiências que
ainda perduram, nascidas da excessiva desigualdade de poder entre as nações.
Esta ordenação, acompanhada de ajudas técnicas, culturais e financeiras, deve proporcionar às nações em vias de desenvolvimento os meios necessários para poderem conseguir convenientemente o progresso
da própria economia. d) Em muitos casos, é urgente necessidade rever as
estruturas económicas e sociais. Mas evitem-se as soluções técnicas
prematuramente propostas, sobretudo aquelas que, trazendo ao homem vantagens
materiais, são opostas à sua natureza espiritual e ao seu progresso. Com efeito,
«o homem não vive só de pão, mas também de toda a palavra que sai da boca de
Deus» (Mt. 4, 4). E qualquer parcela da família humana leva em si mesma e nas
suas melhores tradições uma parte do tesouro espiritual confiado por Deus à
humanidade, mesmo que muitos desconheçam a origem donde procede.
A cooperação internacional no que se refere ao incremento
demográfico
87. A
cooperação internacional é especialmente necessária no caso, actualmente
bastante frequente, daqueles povos que, além de muitas outras dificuldades,
sofrem especialmente da que deriva dum rápido aumento da população. É
urgentemente necessário que, por meio duma plena e intensa cooperação de todos,
e sobretudo das nações mais ricas, se investigue o modo de tornar possível
preparar e fazer chegar a toda a humanidade o que é preciso para a subsistência
e conveniente educação dos homens. Mas alguns povos poderiam melhorar muito as
suas condições de vida se, devidamente instruídos, passassem dos métodos
arcaicos de exploração agrícola para as técnicas modernas, aplicando-as com a
devida prudência à própria situação, instaurando, além disso, uma melhor ordem
social e procedendo a uma distribuição mais justa da propriedade das terras.
Com
relação ao problema da população, na própria nação e dentro dos limites da
própria competência, tem o governo direitos e deveres; assim, por exemplo, no
que se refere à legislação social e familiar, ao êxodo das populações agrícolas
para as cidades, à informação acerca da situação e necessidades nacionais. Dado
que hoje este problema preocupa intensamente os espíritos, é também de desejar
que especialistas católicos, sobretudo nas Universidades, prossigam e ampliem
diligentemente os estudos e iniciativas sobre estas matérias.
Visto que muitos
afirmam que o aumento da população do globo, ou ao menos de algumas nações, deve
ser absoluta e radicalmente diminuído por todos os meios e por qualquer espécie
de intervenção da autoridade pública, o Concílio exorta todos a que evitem as
soluções, promovidas privada ou pùblicamente ou até por vezes impostas, que
sejam contrárias à lei moral. Porque, segundo o inalienável direito ao casamento
e procriação da prole, a decisão acerca do número de filhos depende do recto
juízo dos pais e de modo algum se pode entregar ao da autoridade pública. Mas
como o juízo dos pais pressupõe uma consciência bem formada, é de grande
importância que todos tenham a possibilidade de cultivar uma responsabilidade
recta e autênticamente humana, que tenha em conta a lei divina, consideradas as
circunstâncias objectivas e temporais; isto exige, porém, que por toda a parte
melhorem as condições pedagógicas e sociais e, antes de mais, que seja dada uma
formação religiosa ou, pelo menos, uma íntegra educação moral. Sejam também as
populações judiciosamente informadas
acerca dos progressos científicos alcançados na investigação dos métodos que
ajudam os esposos na determinação do número de filhos, cuja segurança esteja bem
comprovada e de que conste claramente a legitimidade moral.
O dever dos cristãos na ajuda internacional
88. Os cristãos
cooperem de bom grado e de todo o coração na construção da ordem internacional
com verdadeiro respeito pelas liberdades legítimas e na amigável fraternidade de
todos; e tanto mais quanto é verdade que a maior parte do mundo ainda sofre
tanta necessidade, de maneira que, nos pobres, o próprio Cristo como que apela
em alta voz para a caridade dos seus discípulos. Não se dê aos homens o
escândalo de haver algumas nações, geralmente de maioria cristã, na abundância,
enquanto outras não têm sequer o necessário para viver e são atormentadas pela
fome, pela doença e por toda a espécie de misérias. Pois o espírito de pobreza e
de caridade são a glória e o testemunho da Igreja de Cristo.
São, por isso, de
louvar e devem ser ajudados os cristãos, sobretudo jovens, que se oferecem espontâneamente para ir em ajuda dos outros homens e povos. Mais ainda: cabe a
todo o Povo de Deus, precedido pela palavra e exemplo dos Bispos, aliviar,
quanto lhe for possível, as misérias deste tempo; e isto, como era. o antigo uso
da Igreja, não sòmente com o supérfluo, mas também com o necessário.
Sem cair
numa organização rígida e uniforme, deve, no entanto, o modo de recolher e
distribuir estes socorros ser regulado com uma certa ordem, nas dioceses, nações
e em todo o mundo; e onde parecer oportuno, conjugando a actividade dos
católicos com a dos outros irmãos cristãos. Porque o espírito de caridade, longe
de se opor a um exercício providente e ordenado da actividade social e
caritativa, antes o exige. Pelo que é necessário que os que pretendem dedicar-se
ao serviço das nações em vias de desenvolvimento, recebam conveniente formação
em instituições adequadas. A
presença eficaz da Igreja na comunidade internacional
89. Quando a Igreja, em virtude da sua missão divina, prega a todos os homens o
Evangelho e lhes dispensa os tesouros da graça, contribui para a consolidação da
paz em todo o mundo e para estabelecer um sólido fundamento para a fraterna
comunidade dos homens e dos povos, a saber: o conhecimento da lei divina e
natural. É, portanto, absolutamente necessário que a Igreja esteja presente na
comunidade das nações, para fomentar e estimular a cooperação entre os homens;
tanto por meio das suas instituições públicas como graças à inteira e sincera
colaboração de todos os cristãos, inspirada apenas pelo desejo de servir a
todos.
O que se alcançará mais eficazmente se
os fiéis, conscientes da própria responsabilidade humana e cristã, procurarem já
no seu meio de vida despertar a vontade de cooperar prontamente com a comunidade
internacional. Dedique-se especial cuidado em formar neste ponto a juventude,
tanto na educação religiosa como na cívica.
A cooperação dos cristãos nas
instituições internacionais 90.
Uma das melhores formas de actuação internacional dos cristãos consiste
certamente na cooperação que, isoladamente ou em grupo, prestam nas próprias
instituições criadas ou a criar para o desenvolvimento da cooperação entre as
nações. Também podem contribuir muito para a edificação da comunidade dos povos,
na paz e fraternidade, as várias associações católicas internacionais, as quais
devem ser consolidadas, com o aumento de colaboradores bem formados, e dos meios
de que necessitam e com uma conveniente coordenação de forças. Nos tempos
actuais, com efeito, tanto a eficácia da acção como a necessidade do diálogo
reclamam empreendimentos colectivos. Essas associações contribuem, além disso,
não pouco também para desenvolver o sentido de universalidade, muito próprio dos
católicos, e para formar a consciência da solidariedade e responsabilidade
verdadeiramente universais.
Finalmente, é de desejar que os
católicos, para bem cumprirem a sua missão na comunidade internacional, procurem
cooperar activa e positivamente quer com os irmãos separados que com eles
professam a caridade evangélica, quer com todos os homens que anelam
verdadeiramente pela paz.
Perante as imensas desgraças que ainda
hoje torturam a maior parte da humanidade, e para fomentar por toda a parte a
justiça e ao mesmo tempo o amor de Cristo para com os pobres, o Concílio, por
sua parte, julga muito oportuna a criação de algum organismo da Igreja
universal, incumbido de estimular a comunidade católica na promoção do progresso
das regiões necessitadas e da justiça social entre as nações.
CONCLUSÃO
Dever dos fiéis e das Igrejas particulares
91. Tudo o que, tirado dos tesouros da doutrina da Igreja, é
proposto por este sagrado Concílio, pretende ajudar todos os homens do nosso
tempo, quer acreditem em Deus, quer não O conheçam explicitamente, a que,
conhecendo mais claramente a sua vocação integral, tornem o mundo mais conforme
à sublime dignidade do homem, aspirem a uma fraternidade universal mais
profundamente fundada e, impelidos pelo amor, correspondam com um esforço
generoso e comum às urgentes exigências da nossa era.
Certamente, perante a imensa diversidade de situações e de
formas de cultura existentes no mundo, esta proposição de doutrina reveste
intencionalmente, em muitos pontos, apenas um carácter genérico; mais ainda:
embora formule uma doutrina aceite na Igreja, todavia, como se trata
frequentemente de realidades sujeitas a constante transformação, deve ainda ser
continuada e ampliada. Confiamos, porém, que muito do que enunciámos apoiados na
palavra de Deus e no espírito do Evangelho, poderá proporcionar a todos uma
ajuda válida, sobretudo depois de os cristãos terem levado a cabo, sob a
direcção dos pastores, a adaptação a cada povo e mentalidade.
Diálogo entre todos os homens
92. Em virtude da sua missão de iluminar o mundo inteiro com a mensagem de
Cristo e de reunir sob um só Espírito todos os homens, de qualquer nação, raça
ou cultura, a Igreja constitui um sinal daquela fraternidade que torna possível
e fortalece o diálogo sincero.
Isto exige, em primeiro lugar, que, reconhecendo toda a legítima diversidade, promovamos na própria Igreja a mútua
estima, respeito e concórdia, em ordem a estabelecer entre todos os que formam o
Povo de Deus, pastores ou fiéis, um diálogo cada vez mais fecundo. Porque o que
une entre si os fiéis é bem mais forte do que o que os divide: haja unidade no
necessário, liberdade no que é duvidoso, e em tudo caridade(1).
Abraçamos também
em espírito os irmãos que ainda não vivem em plena comunhão connosco, e as suas
comunidades, com os quais estamos unidos na confissão do Pai, Filho e Espírito
Santo, e pelo vínculo da caridade, lembrados de que a unidade dos cristãos é
hoje esperada e desejada mesmo por muitos que não crêem em Cristo. Com efeito,
quanto mais esta unidade progredir na verdade e na caridade, pela poderosa acção
do Espírito Santo, tanto mais será para o mundo um presságio de unidade e de paz.
Unamos, pois, as nossas forças e, cada dia mais fiéis ao Evangelho, procuremos,
por modos cada vez mais eficazes para alcançar este fim tão alto, cooperar
fraternalmente no serviço da família humana, chamada, em Cristo, a tornar-se a
família dos filhos de Deus.
Voltamos também o nosso pensamento para todos os que reconhecem
Deus e guardam nas suas tradições preciosos elementos religiosos e humanos,
desejando que um diálogo franco nos leve a todos a receber com fidelidade os
impulsos do Espírito e a segui-los com entusiasmo.
Por nossa parte, o desejo de um tal diálogo, guiado apenas pelo
amor pela verdade e com a necessária prudência, não exclui ninguém; nem aqueles
que cultivam os altos valores do espírito humano, sem ainda conhecerem o seu
autor; nem aqueles que se opõem à Igreja, e de várias maneiras a perseguem. Como
Deus Pai é o princípio e o fim de todos eles, todos somos chamados a ser irmãos.
Por isso, chamados pela mesma vocação humana e divina, podemos e devemos
cooperar pacificamente, sem violência nem engano, na edificação do mundo na
verdadeira paz.
A edificação do mundo e a sua orientação para Deus
93. Lembrados da
palavra do Senhor: «nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se vos
amardes uns aos outros» (Jo. 13, 35), os cristãos nada podem desejar mais
ardentemente do que servir sempre com maior generosidade e eficácia os homens do
mundo de hoje. E assim, fiéis ao Evangelho e graças à sua força, unidos a
quantos amam e promovem a justiça, têm a realizar aqui na terra uma obra imensa,
da qual prestarão contas Aquele que a todos julgará no último dia. Nem todos os
que dizem «Senhor, Senhor» entrarão no reino dos céus, mas aqueles que cumprem a
vontade do Pai (2) e põem sèriamente mãos a obra. Ora, a vontade do Pai é que
reconheçamos e amemos efectivamente em todos os homens a Cristo, por palavra e
por obras, dando assim testemunho da verdade e comunicando aos outros o mistério
do amor do Pai celeste. Deste modo, em toda a terra, os homens serão estimulados
à esperança viva, dom do Espírito Santo, para que finalmente sejam recebidos na
paz e felicidade infinitas, na pátria que refulge com a glória do Senhor.
«Aquele que, em virtude do poder que actua em nós, é capaz de fazer que
superabundemos para além do que pedimos ou pensamos, a Ele seja dada a glória na
Igreja e em Cristo Jesus, por todos os séculos dos séculos. Amém» (Ef. 3,
20-21). Roma, 7 de Dezembro de
1965 PAPA PAULO VI
Notas Proémio -
Introdução
1. A Constituição
pastoral «A Igreja no mundo actual», formada por duas partes, constitui um todo
unitário. E chamada «pastoral», porque, apoiando-se em princípios doutrinais,
pretende expor as relações da Igreja com o mundo e os homens de hoje. Assim, nem
à primeira parte falta a intenção pastoral, nem à segunda a doutrinal. Na
primeira parte, a Igreja expõe a sua própria doutrina acerca do homem, do mundo
no qual o homem está integrado e da sua relação para com eles. Na segunda,
considera mais expressamente vários aspectos da vida e da sociedade
contemporâneas, e sobretudo as questões e os problemas que, nesses domínios,
padecem hoje de maior urgência. Daqui resulta que, nesta segunda parte, a
matéria, tratada à luz dos princípios doutrinais, não compreende apenas
elementos imutáveis, mas também transitórios. A Constituição deve, pois, ser
interpretada segundo as normas teológicas gerais, tendo em conta, especialmente
na segunda parte, as circunstâncias mutáveis com que estão intrinsecamente
ligados os assuntos em questão.
2. Cfr. Jo. 18,37.
3. Cfr. Jo. 3, 17; Mt. 20, 28; Mc. 10,45.
4. Cfr. Rom.
7,14 s. 5. Cfr. 2 Cor. 5,15.
6. Cfr. Act. 4,12. 7. Cfr. Hebr. 13,8.
8. Cfr. Col. 1,15.
PRIMEIRA PARTE Capítulo I 1. Cfr. Gén. 1,26; Sab. 2,23. 2. Cfr.
Ecli. 17,
3-10. 3. Cfr. Rom. 1, 21-25.
4. Cfr. Jo. 8,34. 5. Cfr. Dan. 3, 57-90. 6. Cfr. 1 Cor. 6, 13-20. 7. Cfr. 1 Reis 16,7; Jer. 17.10.
8. Cfr. Ecli.
17, 7-8.
9. Cfr. Rom. 2, 14-16.
10. Cfr. Pio XII, radiomensagem acerca da formação
da consciência cristã nos jovens, 23 março 1952: AAS 44 (1952), p. 271.
11. Cfr.
Mt. 22, 37-40; Gál. 5,14.
12 Cfr. Ecli. 15,14.
13. Cfr. 2 Cor. 5,10.
14. Cfr. Sab. 1,13; 2, 23-24; Rom. 5,21; 6,23; Tg. 1,15.
15. Cfr. 1 Cor. 15, 56-57.
16. Cfr. Pio XI, Enc. Divini Redemptoris, 19 março 1937: AAS 29
(1937), p. 65-106; Pio XII, Enc. Ad Apostolorum Principis, 29 junho 1958: AAS 50 (1958), p. 601-614; João XXIII,
Enc. Mater et Magistra, 15 maio 1961: AAS 53
(1961) p. 451-453; Paulo VI, Enc. Ecclesiam Suam, 6 agosto 1964: AAS 56 (1964),
p. 651-653.
17. Cfr. Conc. Vat. II, Const. dogm. De Ecclesia, Lumen gentium, cap.
I, n. 8: AAS 57 (1965), p. 12.
18. Cfr. Fil. 1,27.
19. S. Agostinho,
Confissões, I, 1: PL 32, 661.
20. Cfr. Rom. 5,14. Cfr. Tertuliano, De carpis resurr. 6:
«Quodcumque limus exprimebatur, Christus cogitabatur homo futurus»:
PL 2, 802 (848); CSEL, 47, p. 33, 1. 12-13.
21. Cfr. 2 Cor. 4,4.
22.Cfr. Conc. Constant. II, can. 7:
«Neque Deo Verbo in carpis naturam transmutato, neque
carne in Verbi naturam transducta»: Denz. 219 (428). Cfr. também Conc. Constant.
III: « Quemadmodum enim sanctissima ac immaculata animata eius caro deificata
non est perempta (theôtheisa ouk anërethe), sed in próprio sui statu et ratione
permansit»: Denz. 291 (556). Cfr. Conc. Calc.: «in duabus naturis inconfuse,
immutabiliter, indivise, inseparabiliter agnoscentum»: Denz. 148 (302).
23. Cfr.
Conc. Constant. III: «ita et humana eius voluntas deificata non. est perempta»: Denz. 291 (556).
24 Cfr. Hebr. 4,15. 25 Cfr. 2
25. Cfr. 2Cor. 5, 18-19; Col. 1, 20-22.
26. Cfr. 1Ped. 2, 2; Mt. 16,24; Lc. 14, 27.
27. Cfr. Rom.
8, 29; Col. 1,18.
28. Cfr. Rom. 8, 1-11.
29. Cfr. 2 Cor. 4,14.
30. Cfr. Fil. 3,10;
Rom. 8,17.
31. Cfr. Conc. Vat. II, Const. dogm. De Ecclesia, Lumen gentium, cap.
II, n. 16: AAS 57 (1965), p. 20.
32. Cfr. Rom. 8,32.
33. Cfr. Liturgia Pascal
bizantina.
34. Cfr. Rom. 8,15 e Gal. 4,6; Jo. 1,12 e Jo. 3, 1-2.
Capítulo II
1. Cfr. João XXIII, Enc. Mater et Magistra, 15 maio 1961: AAS 53 (1961) p. 401-464;
Enc. Pacem in terris, 11 abril 1963: AAS 55 (1963), p. 257-304; Paulo VI,
Enc.
Ecclesiam suam, 6 agosto 1964: AAS 54 (1964), p. 609-659.
2. Cfr. Lc. 17,23.
3. Cfr. S. Tomás, 1 Ethic. lect. 1.
4. Cfr. João XXIII, Enc. Mater et Magistra:
AAS 53 (1961), p. 418. Cfr. também Pio XI, Enc. Quadragesimo anno: AAS 23
(1931), p. 222 ss.
5. Cfr. João XXIII, Enc. Mater et Magistra: AAS 53 (1961), P.
417. 6. Cfr. Mc. 2,27.
7. Cfr. João XXIII, Enc. Pacem in terris:
AAS 55 (1963), p. 266. 8. Cfr. Tg. 2, 15-16.
9. Cfr. Lc. 16, 19-31.
10. Cfr. João XXIII, Enc. Pacem in terris: AAS 55 (1963), p. 299-300.
11. Cfr. Lc.
6, 37-38; Mt. 7, 1-2; Rom. 2, 1-11; 14, 10-12.
12. Cfr. Mt. 5, 45-47.
13. Cfr.. Conc. Vat. II, Const. dogm. De Ecclesia, Lumen gentium, cap. II, 9: AAS
57 (1965), p. 12-13.
14. Cfr. Ex. 24, 1-8. Capítulo III
1. Cfr. Gén. 1, 26-27; 9, 2-3. 2. Cfr. Salm. 8,7 e 10.
3. Cfr. João XXIII, Enc. Pacem in terris: AAS 55 (1963), p. 297.
4. Cfr. Mensagem enviada
à humanidade pelos Padres Conciliares no início do Concílio Vaticano II, outubro
1962: AAS 54 (1962), p. 822-823. 5. Cfr. Paulo VI, Alocução ao Corpo diplomático,
7 janeiro 1965: AAS 57 (1965), p. 232. 6. Cfr. Conc. Vat. I, Const. dogma
De fide
cath., cap. III: Denz. 1785-1786 (3004-3005).
7. Cfr. Pio Paschini, Vita e opere
di Galileo Galilei, 2 vol. Academia Pontifícia de Ciências, cidade do Vaticano,
1964. 8. Cfr. Mt. 24,13; 13, 24-30 e
36-43. 9. Cfr. 2 Cor. 6,10.
10. Cfr, Jo. 1,3 e 14. 11. Cfr. Ef. 1,10.
12. Cfr. Jo. 3, 14-16; Rom. 5, 8-10.
13. Cfr. Act. 2,36; Mt. 28,18.
14. Cfr.
Rom. 15,16.
15. Cfr. Act. 1,7.
16. Cfr. 1 Cor. 7,31; S. Ireneu, Adversus Haereses,
V, 36: PG VII, 1222.
17. Cfr. 2 Cor. 5,2; 2 Ped. 3,13.
18. Cfr. 1 Cor. 2,9; Apoc.
21, 4-5.
19. Cfr. 1 Cor. 15,42 e 53.
20. Cfr. 1 Cor. 13,8; 3,14.
21. Cfr. Rom. 8,
19-21.
22. Cfr. Lc. 9,25. 23. Cfr. Pio XI,
Enc. Quadragesimo anno:
AAS 23 (1931), p. 207. 24. Missal
romano, Prefácio da festa de Cristo Rei. Capítulo
IV
1. Cfr. Paulo VI, Enc. Ecclesiam suam, III: AAS 56 (1964), p. 637-659.
2. Cfr. Tit.
3,4: « philanthropia».
3. Cfr. Ef. 1,3. 5-6. 13-14. 23.
4. Cfr. Conc. Vat. II,
Const. dogm. De Ecelesia, Lumen gentium, cap. I, n. 8: AAS 57 (1965), p. 12.
5.
Ibid. cap. II, n. 9: AAS 57 (1965), p. 14; efr. n. 8: AAS 1. c., p. 11.
6. Ibid. cap. I, n. 8: AAS (1965), p. 11.
7. Cfr. Ibid. cap. IV, n. 38: AAS 57 (1965), p.
43, com a nota 120. 8. Cfr. Rom. 8, 14-17. 9. Cfr. Mt. 22,39
10. Const. dogm. De Ecclesia, Lumen gentium, cap. II, n. 9: AAS 57 (1965), p.
12-14.
11. Cfr. Pio XII, Alocução aos cultores de história e de arte, 9 março
1956: AAS 48 (1956), p. 212: «O seu divino fundador, Jesus Cristo, não lhe deu
nenhum mandato nem fixou nenhum fim de ordem cultural. O fim que Cristo lhe
assinala é estritamente religioso (...) A Igreja deve conduzir os homens a Deus,
para que eles se Lhe entreguem sem reservas (...) A Igreja jamais poderá perder
de vista este fim estritamente religioso, sobrenatural. O sentido de todas as
suas actividades, até ao último cánon do seu Direito, não pode ser outro senão
concorrer para isso directa ou indirectamente.
12. Const. dogm. De Ecclesia, Lumen
gentium, cap. I, n. 1: AAS 57 (1965), p. 5.
13. Cfr. Hebr. 13,14.
14. Cfr. 2 Tess. 3, 6-13; Ef. 4,28.
15. Cfr. Is. 58, 1-12.
16. Cfr. Mt. 23, 3-33;
Mc. 7, 10-13.
17. Cfr. João XXIII. Ene. Mater et Magistra, IV: AAS 53 (1961), p.
456-457; e I: 1. c., p. 407, 410-411. 18. Cfr. Const. dogm. De
Ecelesia, Lumen gentium, cap. III, n. 28: AAS 57 (1965), p. 34-35. 19. Ibid. n.
28: AAS, 1, c., p. 35-36. 20. Cfr. S. Ambrósio,
De Virginitate, cap. VIII, n. 48:
PL 16, 278. 21. Cfr. Const. dogm. De Ecclesia,
Lumen gentium, cap.
II, n. 15: AAS 57 (1965), p. 20. 22. Cfr. Const. dogm. De Ecclesia,
Lumen gentium,
cap. II, n. 13: AAS 57 (1965), p. 17. 23. Cfr. Justino,
Dialogus
cum Tryphone, cap. 110: PG 6, 729 (ed. Otto), 1897, p. 391-393: «...sed quanto
magis talia nobis infliguntur, tanto plures alii fideles et pii per nomen Jesu
fiunt». Cfr. Tertuliano, Apologeticus, cap. 50, 13: PL 1,534; Cchr, ser. lat.,
I, p. 171: «Etiam plures efficimur, quotiens metimur a vobis: semen est sanguis
christianorum», Cfr. Const. dogm. De Ecclesia, Lumen gentium, cap. VII, n. 48:
AAS 57 (1965), p. 53. 24. Cfr. Const.
dogm. Lumen Gentium c 2 n. 15: AAS 57 (1965),
p. 21. 25. Cfr. Paulo VI, Alocução, 3 fev. 1965:
L'Osservatore Romano, 4 fev.
1965. II PARTE Capítulo I
1. Cfr. S. Agostinho, De bono coniugali: PL 40, 375-376 e
394. S. Tomás, Summa Theol., Suppl. Quaest. 49 art. 3 ad 1; Decretum pro Armenis:
Denz.-Schön. 702 (1327) ; Pio XI, Ene. Casti Connubii: AAS 22 (1930), p.
543-555, Denz.-Schön. 2227-2238. 2 Cfr. Pio XI,
Enc. Casti Connubii: AAS 22
(1930), p. 546-547; Denz.-Schön. (3703-3714).
3. Cfr. Os. 2; Jer. 3, 6-13; Ez. 16
e 23; Is. 54. 4. Cfr. Mt. 9,15; Mc. 2, 19-20; Lc. 5, 34-35; Jo. 3,29; 2 Cor. 11,2;
Ef. 5,27; Apoc. 19, 7-8; 21,2 e 9. 5. Cfr.
Ef. 5,25. 6. Cfr. Conc. Vat. II, Const.
dogm. De Ecelesia, Lumen gentium: AAS 57 (1965), p. 15-16; 40-41; 47.
7. Pio XI,
Enc. Casti Connubii: AAS 22 (1930), p. 583.
8. Cfr. 1 Tim. 5, 3.
9. Cfr. Ef. 5, 32.
10. Cfr. Gén. 2, 22. 24; Prov. 5, 18-20; 31, 10-31; Tob. 8,4-8;
Cant. 1, 2-3; 2,16; 4,16-5,1; 7, 8-11; 1 Cor. 7, 3-6; Ef. 5, 25-33.
11. Cfr. Pio
XI, Enc. Casti Connubii: AAS 22 (1930), p. 547-548; Denz.-Schön. 2232 (3707).
12. Cfr. 1 Cor. 7,5. 13. Cfr. Pio XII, Alocução
Tra le visite, 20 janeiro 1958: AAS 50 (1958), p. 91. 14. Cfr. Pio XI,
Enc. Casti Connubii: AAS 22 (1930), p. 559-561: Denz.-Schön. 3716-3718; Pio XII,
Alocução ao Congresso da União Italiana de parteiras, 29 de outubro 1951: AAS 43
(1951), p. 835-854; Paulo VI, Alocução ao Sacro Colégio, 23 junho 1964: AAS 56
(1964), p. 581-589. Certas questões que requerem outras investigações mais
aprofundadas, foram confiadas, por mandato do Sumo Pontífice, a uma Comissão
para o estudo da população, da família e da natalidade; uma vez terminados os
seus trabalhos, o Sumo Pontífice pronunciará o seu juízo. No actual estado da
doutrina do magistério, o sagrado Concílio não pretende propor imediatamente
soluções concretas. 15. Cfr. Ef. 5,16; Col. 4,5.
16. Cfr.
Sacramentarium Gregorianum: PL 78, 262.
17. Cfr. Rom. 5,15 e 18; 6 5-11; Gál.
2,20.
18. Cfr. Ef. 5, 25-27.
Capítulo II 1. Cfr. Introdução, n. 4-10.
2. 2 Cfr. Col. 3, 1-2.
3. Cfr. Gén. 1,28.
4. Cfr. Prov. 8, 30-31.
5. Cfr. S. Ireneu, Adversus Haereses, III, 11, 8: ed.
Sagnard, p. 200; cfr. ibid. 16,6: p. 290-292; 21, 10-22: p. 370-371; 22, 3; p.
378; etc.
6. Cfr. Ef. 1,10.
7. Cfr. Palavras de Pio XII ao R. P. M.-D. Roland-Gosselin: «É
preciso não perder nunca de vista, que o objectivo da igreja é evangelizar e não
civilizar. Se ela civiliza, é pela evangelização» (Semana social de Versailles,
1936, p. 461-462). 8. Conc. Vat. I, Const.
Dei Filius, e. IV: Denz.
1795, 1799 (3015, 3019). Cfr. Pio XI, Enc. Quadragesimo anno: AAS 23 (1931), p.
190. 9. Cfr. João XXIII, Enc. Pacem in terris: AAS 55 (1963), p. 260.
10. Cfr.
João XXIII, Enc. Pacem in terris: AAS 55 (1963), p. 283; Pio XII, Radiomensagem,
24 dezembro 1941: AAS 34 (1942), p. 16-17.
11. Cfr. João XXIII,
Enc. Pacem in terris: AAS 55 (1963), p. 260
12. Cfr. João XXIII,
Discurso inaugural do Concílio, 11 outubro 1962: AAS 54 (1962), p. 792.
13. Cfr.
Const. De Sacra Liturgia, sacrosanctum concilium n. 123: AAS 56 (1964), p. 131;
Paulo VI, Discurso aos artistas romanos: AAS 56 (1964), p. 439-442.
14. Cfr. Conc. Vat. II, Decreto De institutione sacerdotali, Optatam totius, e
Declaração de educatione christiana, Gravissimum educationis.
15. Cfr. Const.
dogm. De Ecclesia, Lumen gentium, cap. IV, n. 37: AAS 57 (1965), p. 42-43.
Capítulo III
1. Cfr. Pio XII, Mensagem, 23 março 1952; AAS 44 (1952), p.273;
João XXIII, Alocução à A. C. Italiana, 1 maio 1959: AAS 51 (1959), p. 358.
2. Cfr. Pio XI, Enc. Quadragesimo anno: AAS 23 (1931), p. 190 s.; Pio XII,
Mensagem, 23 março 1952:AAS 44 (1952), p. 276 s.; João XXIII, Enc. Mater et
Magistra: AAS 53 (1961), p. 450; Conc. Vat. II, Decreto De instrumentis
communicationis socialis, Inter mirifica, cap. I, n. 6: AAS 56 (1954), p. 147.
3. Cfr. Mt. 16,26; Lc. 16 1-31; Col. 3,17.
4. Cfr. Leão XIII, Enc. Libertas praestantissimum, 20 jun. 1888: AAS 20 (1887-88), p. 597 s.; Pio XI, Enc.
Quadragesimo anno: AAS 23 (1931), p. 191 s.; ID., Enc. Divini Redemptoris: AAS
29 (1937), p. 65 s.; Pio XII, Mensagem natalícia 1941: AAS 34 (1942), p. 10 s.;
João XXIII, Enc. Mater et
Magistra: AAS 53 (1961), p. 401-464.
5. Quanto ao problema da agricultura, cfr. sobretudo João XXIII, Enc.
Mater et
Magistra: AAS 53 (1961), p. 341 s. 6. Cfr. Leão XIII,
Enc. Rerum
Novarum: ASS 23 (1890-1891), p. 649-662; Pio XI, Enc. Quadragesimo anno: A.AS 23
(1931), p. 200-201; ID., Enc. Divini Redemptoris: AAS 29 (1937), p. 92; Pio XII,
Radiomensagem na vigília do Natal de 1942: AAS 35 (1943),.p. 20; ID., Alocução,
13 junho 1943: AAS 35 (1943), p. 172; ID:, Radiomensagem aos operários
espanhóis, 11 março 1951: AAS 43 (1951), p. 215; João XXIII, Enc. Mater et
Magistra: AAS 53 (1961), p. 419. 7. Cfr. João XXIII, Enc.
Mater et Magistra: AAS 53 (1961), p. 408, 424, 427; a palavra
«curatione» foi tirada do texto
latino da Enc. Quadragesimo anno: AAS 23 (1931), p. 199. Sob o aspecto da
evolução desta questão. cfr. também Pio XII, Alocução, 3 junho 1950: AAS 42
(1950), p. 485-488; Paulo VI, Alocução, 8 junho 1964: AAS 56 (1964), p.
574-579. 8 Cfr. Pio XII, Enc. Sertum laetitiae: AAS 31 (1939), p. 642; João
XXIII, Alocução consistorial: AAS 52 (1960), p. 5-11; ID., Enc. Mater et
Magistra: AAS 53 (1961), p. 411. 9. Cfr. S. Tomás,
Summa Theol.
II-II, q. 32, a. 5 ad 2; Ibid. q. 66, a. 2; cfr. explicação em Leão XIII, Enc.
Rerum Novarum: AAS 20 (1890-1891), p. 651; cfr. também Pio XII, Alocução, 1
junho 1941: AAS 33 (1941), p. 199; ID., Radiomensagem natalícia 1954: AAS 47
(1955), p. 27. 10. Cfr. S. Basílio, Hom.
in Mud Lucae «Destruam horrea mea», n.
2: PG 31, 263; Lactâncio, Divinarum institutionum, L. V., de iustitia: PL 6,
565 B; S. Agostinho, In Joann. Ev. tr. 50, n. 6: PL 35, 1760; ID., Enarratio in
Ps. CXLVII, 12: PI: 37, 192; S. Gregório M., Homiliae in Ev., hom. 20: PL 76,
1165; ID., Regulae Pastoralis liber, parte III, cap. 21: PL 77, 87; S.
Boaventura, In III Sent. d. 33, dub. 1 (ed. Quaracchi III, 728) ; ID. In
IV Sent.,
d. 15, p. II, a. 2, q. 1 (ed. cit. IV, 371b) ; q. de superfluo (ms. da Bibl. mun.
de Assis, 186, ff. 112ª-113ª; S. Alberto Magno, In III Sent., d. 33, a. 3. sol.
1 (ed. Borgnet XXVIII, 611) ; ID., In IV Sent., d. 15, a. 16 (ed. cit. XXIX,
494-497). Quanto à determinação do supérfluo actualmente, cfr. João XXIII,
Mensagem radiotelevisiva, 11 setembro 1962. AAS 54 (1962), p. 682: «Dever de
cada homem, dever urgente do cristão é considerar o supérfluo com a medida das
necessidades alheias, e de vigiar que a administração e a distribuição dos bens
criados sejam dispostas para vantagem de todos». 11. Nesse caso, vale o antigo
principio: «na necessidade extrema, todas as coisas são comuns, isto é, todas
as coisas devem ser tornadas comuns». Por outro lado, segundo o modo, extensão e
medida em que se aplica o principio no texto aduzido, além dos autores modernos
aprovados: cfr. S. Tomás, Summa Theol. H-II, q. 66, a. 7. É claro que para a
recta aplicação do princípio todas as condições moralmente exigidas devem ser
respeitadas. 12. Cfr. Decr. Gratiani, C. 21, d. LXXXVI (ed. Friedberg I, 302).
Este dito encontra-se já em PL 54, 491 A e PL 56, 1132 B. (cfr. Antonianum 27
(1952), p. 349-366). 13. Cfr. Leão XIII, Enc.
Rerum Novarum: AAS
20 (1890-1891), p. 643-646; Pio XI, Enc. Quadragesimo anno: AAS 23 (1931), p.
191; Pio XII, Radiomensagem, 1 junho 1941: AAS 33 (1941), p. 199; ID.,
Radiomensagem na vigília de Natal 1942: AAS 35 (1943), p. 17; ID., Radiomensagem,
1 setembro 1944: AAS 36 (1944), p. 253; João XXIII, Enc. Mater et Magistra: AAS
53 (1961), p. 428-429. 14. Cfr. Pio XI,
Enc. Quadragesimo anno: AAS 23 (1931), p.
214; João XXIII, Enc. Mater et Magistra: AAS 53 (1961), p. 429. 15. Cfr. Pio XII,
Radiomensagem, Pentecostes 1941: AAS 44 (1941), p. 199. João XXIII, Enc. Mater et Magistra:
AAS 53 (1961), p. 430. 16. Para o recto uso dos bens segundo a doutrina do
Novo Testamento, cfr. Lc. 3,11; 10,30 s.; 11,41; 1 Ped. 5,3; Mc. 8,36; 12,
30-31; Tg. 5, 1-6; 1 Tim. 6,8; Ef, 4,28; 2 Cor. 8,13; 1 Jo. 3, 17-18.
Capítulo IV
1. Cfr. João XXIII, Enc. Mater et Magistra: AAS 53 (1961), p. 417.
2. Cfr. ID., ibid.
3. Cfr. Rom. 13, 1-5.
4. Cfr. Rom. 13,5.
5. Cfr. Pio XII,
Radiomensagem, 24 dezembro 1942: AAS 35 (1943), p. 9-24; 24 dezembro 1944: AAS
37 (1945), p. 11-17, João XXIII, Enc. Pacem in terris: AAS 55 (1963), p. 263,
271, 277-278. 6. João XXIII, Enc. Mater et Magistra:
AAS 53 (1961), p. 415-418. 7. Pio XI, Alocução aos
dirigentes da federação Universitária Católica: Discorsi di Pio XI (ed. Bertetto),
Turim, vol. 1 (1960), p. 743. 8. Cfr. Conc. Vaticano II, Const. dogm. De Ecclesia,
Lumen gentium, n. 13: A.AS 57 (1965), p. 17.
9. Cfr. Lc. 2,14.
Capítulo V
1. Cfr. Ef. 2, 16; Col. 1, 20-22.
2. Cfr. João XXIII, Enc. Pacem in terris, 11 abril 1963: AAS 55 (1963), p. 291: Por
isso, nesta nossa idade, que se gloria da força atómica, é fora de razão pensar
que a guerra é um meio apto para ressarcir os direitos violados».
3. Cfr. Pio XII,
Alocução, 30 setembro 1954: AAS 46 (1954), p. 589; Radiomensagem, 24 setembro
1954: AAS 47 (1955), p. 15 s.; João XXIII, Enc. Pacem in terris: AAS 55 (1963),
p. 286-291; Paulo VI, Alocução na Assembleia das Nações Unidas, 4 outubro 196'5:
AAS 57 (1965), p. 877-885. 4. Cfr. João XXIII, Ene.
Pacem in
terris, onde se fala da diminuição dos armamentos: AAS 55 (1963), p. 287.
5. Cfr. 2 Cor. 6, 2. Conclusão
1. Cfr.
João XXIII, Enc. Ad Petri Cathedram, 29 junho 1959: AAS 55 (1959),
p. 513.
2. Cfr. Mt. 7, 21.
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