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ENCONTRO COM OS PÁROCOS E O CLERO DA DIOCESE DE ROMA

DISCURSO DE SUA SANTIDADE BENTO XVI

Sala das Bênçãos
Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

 

(Giuseppe Corona, Diácono)

Beatíssimo Padre, gostaria antes de tudo de expressar a minha gratidão e a dos meus confrades diáconos pelo ministério que de modo tão providencial a Igreja restabeleceu com o Concílio, ministério que nos permite dar plena expressão à nossa vocação. Estamos empenhados numa grande variedade de tarefas realizadas em âmbitos muito diferentes: a família, o trabalho, a paróquia, a sociedade, também as missões em África e na América Latina, âmbitos por Vossa Santidade já indicados na audiência que nos concedeu por ocasião do vigésimo quinto aniversário do diaconado romano. Agora o nosso número aumentou, somos 108. E agradar-nos-ia que Vossa Santidade nos indicasse uma iniciativa pastoral que se possa tornar sinal de uma presença mais incisiva do diaconado permanente na cidade de Roma, como aconteceu nos primeiros séculos da Igreja romana. De facto, a partilha de um objectivo significativo, comum, por um lado faria crescer a coesão da fraternidade diaconal, por outro daria uma maior visibilidade ao nosso serviço nesta cidade. Confiamos a Vossa Santidade este desejo, isto é, que nos indique uma iniciativa a ser partilhada nos modos e nas formas que nos quiser indicar. Em nome de todos os diáconos saúdo Vossa Santidade com afecto filial.

Obrigado por este testemunho de um dos mais de cem diáconos de Roma. Gostaria também de expressar a minha alegria e a minha gratidão ao Concílio, porque restaurou este importante ministério na Igreja universal. Devo dizer que quando eu era Arcebispo de Munique, talvez não tenha encontrado mais do que três ou quatro diáconos e favoreci muito este ministério, porque me parece que pertence à riqueza do ministério sacramental na Igreja. Ao mesmo tempo, pode ser também uma ligação entre o mundo laico, o mundo profissional e o mundo do ministério sacerdotal. Porque muitos diáconos continuam a desempenhar as suas profissões e mantêm as suas posições, importantes ou até de vida simples, e ao sábado e domingo trabalham na Igreja. Testemunham assim no mundo de hoje, também no mundo do trabalho, a presença da fé, o ministério sacramental e a dimensão diaconal do sacramento da Ordem. Isto parece-me muito importante: a visibilidade da dimensão diaconal.

Naturalmente também cada sacerdote permanece diácono e deve pensar sempre nesta dimensão, porque o próprio Senhor se fez nosso ministro, nosso diácono. Pensemos no gesto do lava-pés, com o qual explicitamente se mostra que o Mestre, o Senhor, é diácono e quer que quantos o seguem sejam diáconos, desempenhem este ministério para a humanidade, ao ponto de ajudar também a lavar os pés sujos dos homens que nos estão confiados. Esta dimensão parece-me de grande importância.

Nesta ocasião vem-me à mente mesmo que talvez não esteja directamente relacionado com o tema uma pequena experiência que anotou Paulo VI. Em cada dia do Concílio foi entronizado o Evangelho. E o Pontífice disse aos mestres-de-cerimónias que uma vez teria querido ele mesmo fazer esta entronização do Evangelho. Disseram-lhe: não, esta é uma tarefa dos diáconos e não do Papa, do Sumo Pontífice, dos Bispos. Ele anotou no seu diário: mas eu sou também um diácono, permaneço diácono e gostaria também de exercer este ministério do diácono pondo no trono a Palavra de Deus. Portanto, isto diz respeito a todos nós. Os sacerdotes permanecem diáconos e os diáconos expressam na Igreja e no mundo esta dimensão diaconal do nosso ministério. Esta entronização litúrgica da Palavra de Deus todos os dias durante o Concílio era sempre para nós um gesto de grande importância: dizia-nos quem era o verdadeiro Senhor daquela assembleia, dizia-nos que no trono está a Palavra de Deus e nós exercemos o ministério pastoral para ouvir e para interpretar, para oferecer aos outros esta Palavra. É amplamente significativo para tudo o que fazemos: entronizar no mundo a palavra de Deus, a Palavra viva, Cristo. Que seja realmente Ele quem governa a nossa vida pessoal e a nossa vida nas paróquias.

O senhor faz-me uma pergunta que, devo dizer, vai um pouco além das minhas forças: quais seriam as tarefas próprias dos diáconos em Roma. Sei que o Cardeal Vigário conhece muito melhor que eu as situações reais da cidade, da comunidade diocesana de Roma. Eu penso que uma das características do ministério dos diáconos é precisamente a multiplicidade das aplicações do diaconado. Na Comissão Teológica Internacional, há alguns anos, estudamos longamente o diaconado na história e também no presente da Igreja. E descobrimos precisamente isto: não há um perfil único. O que se deve fazer, varia segundo a preparação das pessoas, das situações nas quais se encontram. Podem haver aplicações e concretizações muito diversas, sempre em comunhão com o Bispo e com a paróquia, naturalmente. Nas diversas situações apresentam-se diversas possibilidades, também de acordo com a preparação profissional que eventualmente estes diáconos têm: poderiam ser empenhados no sector cultural, hoje tão importante, ou poderiam ter uma voz ou um lugar significativo no sector educativo. Pensamos este ano precisamente no problema da educação como central para o nosso futuro, para o futuro da humanidade.

Certamente, o sector da caridade era em Roma o sector originário, porque os títulos presbiterais e as diaconias eram centros da caridade cristã. Este era assim desde o início na cidade de Roma um sector fundamental. Na minha Encíclica Deus caritas est mostrei que não só a pregação e a liturgia são essenciais para a Igreja e para o ministério da Igreja, mas de igual modo também o é para os pobres, para os necessitados, o serviço da caritas nas suas múltiplas dimensões. Portanto, espero que em todos os tempos, em cada diocese, mesmo com situações diversas, ela permanecerá uma dimensão fundamental e também prioritária para o compromisso dos diáconos, mesmo se não única, como nos mostra também a Igreja primitiva, onde os sete diáconos tinham sido eleitos precisamente para consentir que os apóstolos se dedicassem à oração, à liturgia, à pregação. Mesmo se depois Estêvão se encontra na situação de ter que pregar aos helénicos, aos judeus de língua grega, e assim alarga-se o campo da pregação. Ele é condicionado, digamos, pelas situações culturais, onde ele tem voz para tornar presente neste sector a Palavra de Deus e assim também tornar mais possível a universalidade do testemunho cristão, abrindo as portas a São Paulo, que foi testemunha da sua lapidação e depois, num certo sentido, seu sucessor na universalização da Palavra de Deus. Não sei se o Cardeal Vigário quer acrescentar uma palavra; eu não estou tão próximo das situações concretas.

(Cardeal Ruini)

Santo Padre, posso apenas confirmar, como dizia Vossa Santidade, que também concretamente em Roma os diáconos trabalham em muitos âmbitos, sobretudo nas paróquias, onde se ocupam da pastoral da caridade, mas por exemplo muitos também na pastoral da família. Sendo quase todos os diáconos casados, preparam para o matrimónio, seguem os jovens casais e assim por diante. Depois dão também uma contribuição significativa na pastoral da saúde, contribuem ainda no Vicariato alguns trabalham no Vicariato e, como ouviu antes, nas missões. Há algumas presenças missionárias de diáconos. Penso que, naturalmente, a nível numérico o empenho de maior relevo é feito nas paróquias, mas existem também outros âmbitos que se estão a abrir e precisamente por isso temos já mais de uma centena de diáconos permanentes.

(Pe. Graziano Bonfitto, vigário paroquial de Ognissanti)

Santo Padre, venho de uma aldeia da Província de Foggia, San Marco in Lamis. Sou um religioso de Dom Orione e sacerdote há cerca de um ano e meio, actualmente Vice-Pároco na paróquia de Ognissanti, no bairro Appio. Não lhe escondo a minha emoção, mas também a incrível alegria que sinto neste momento, para mim tão privilegiado. Vossa Santidade é o Bispo e o Pastor da nossa Igreja diocesana, mas é também o Papa, e portanto o Pastor da Igreja universal. Por isso a emoção é irremediavelmente dupla. Desejo antes de tudo expressar-lhe a minha gratidão por quanto, dia após dia, faz não só pela nossa diocese de Roma mas pela Igreja inteira. As suas palavras e os seus gestos, as suas atenções para connosco, povo de Deus, são sinal do amor e da proximidade que Vossa Santidade sente por todos e por cada um. O meu apostolado sacerdotal desempenha-se em particular entre os jovens. É precisamente em nome deles que hoje lhe desejo dizer obrigado. O meu santo fundador, São Luís Orione, dizia que os jovens são o sol e a tempestade de amanhã. Penso que neste momento histórico em que nos encontramos a viver os jovens são o sol e a tempestade, não do amanhã mas de hoje, de agora. Nós jovens, hoje como nunca, sentimos muito forte a necessidade de ter certezas. Desejamos sinceridade, liberdade, justiça e paz. Queremos ao nosso lado pessoas que caminham connosco, que se fazem nossos ouvintes. Exactamente como Jesus com os discípulos de Emaús. A juventude deseja pessoas capazes de indicar o caminho da liberdade, da responsabilidade, do amor, da verdade. Isto é, hoje os jovens têm uma sede inesgotável de Cristo. Uma sede de testemunhas jubilosas que encontraram Jesus e apostaram nele toda a existência. Os jovens querem uma Igreja sempre activa e sempre próxima das suas exigências. Querem-na presente nas suas opções de vida, mesmo se permanece neles um certo sentido de afastamento em relação à própria Igreja. O jovem procura uma esperança de confiança como Vossa Santidade escreveu na última carta dirigida a nós, fiéis de Roma para evitar viver sem Deus. Santo Padre permita-me que o chame "pai" como é difícil viver em Deus, com Deus e para Deus. A juventude sente-se ameaçada por muitos lados. São muitos os falsos profetas, os vendedores de ilusões. São demasiados os insinuadores de falsas verdades e de ideais ignóbeis. Contudo a juventude que hoje crê, mesmo sentindo-se cercada, está convencida de que Deus é a esperança que resiste a todas as desilusões, que unicamente o seu amor não pode ser destruído pela morte, mesmo se muitas vezes não é fácil encontrar o espaço e a coragem para ser testemunhas. Então que fazer? Como comportar-se? Vale efectivamente a pena continuar a apostar a própria vida em Cristo? A vida, a família, o amor, a alegria, a justiça, o respeito pelas opiniões do próximo, a liberdade, a oração e a caridade são valores que ainda devem ser defendidos? A vida de beatos, ou seja, confrontada com as bem-aventuranças, é uma vida adequada ao homem, ao jovem do terceiro milénio? Muito obrigado pela sua atenção, pelo seu afecto e pela sua solicitude para com os jovens. A juventude está com Vossa Santidade: estima-o, ama-o e espera-o. Esteja-nos sempre próximo, indique-nos sempre com mais força o percurso que leva a Cristo, caminho, verdade e vida. Estimule-nos a voar alto. Cada vez mais alto. E reze sempre por nós. Obrigado.

Obrigado por este belo testemunho de um jovem sacerdote que está com os jovens, os acompanha, como disse, e ajuda a caminhar com Cristo, com Jesus. Que dizer? Todos nós sabemos como é difícil para um jovem de hoje viver como cristão. O contexto cultural, o contexto mediático, oferece tudo menos que o caminho para Cristo. Esse contexto torna quase impossível ver Cristo como centro da vida e viver a vida como Jesus no-la mostra. Contudo, parece-me também que muitos sentem cada vez mais a insuficiência de todas estas ofertas, deste estilo de vida que no final deixa vazios.

Neste sentido, parece-me que as leituras da liturgia de hoje, a do Deuteronómio (30, 15-20) e o trecho evangélico de Lucas (9, 22-25), respondem a quanto, em suma, deveríamos dizer aos jovens e sempre de novo a nós próprios. Como você disse, a sinceridade é fundamental. Os jovens devem sentir que não dizemos palavras não vividas por nós mesmos, mas falamos porque encontramos e procuramos encontrar todos os dias de novo a verdade como verdade para a nossa vida. Só se estivermos neste caminho, se procurarmos assimilar nós mesmos nesta vida e assemelhar a nossa vida com a do Senhor, então também as palavras podem ser críveis e ter uma lógica visível e convincente. Retomo: hoje esta é a grande regra fundamental não só para a Quaresma, mas para toda a vida cristã: escolhe a vida. Tens diante de ti morte e vida: escolhe a vida. E parece-me que a resposta é natural. São só poucos os que nutrem no íntimo uma vontade de destruição, de morte, não querem o ser, a vida, porque tudo é contraditório para eles. Mas, infelizmente trata-se de um fenómeno que se alastra. Com todas as contradições, as falsas promessas, no final a vida parece contraditória, já não é um dom mas uma condenação e assim há quem deseje mais a morte do que a vida. Mas normalmente o homem responde: sim, desejo a vida.

Mas permanece a questão de como encontrar a vida, o que escolher, como escolher a vida. E as ofertas que normalmente são feitas conhecemo-las: ir à discoteca, fazer tudo o que é possível, considerar a liberdade como fazer o que se quer, tudo o que vem à mente, num determinado momento. Mas sabemos e podemos demonstrá-lo que este é um caminho de mentira, porque no final não se encontra a vida mas sim o abismo do nada. Escolhe a vida. A mesma leitura diz: Deus é a tua vida, tu escolheste a vida e fizeste a escolha: Deus. Isto parece-me fundamental. Só assim o nosso horizonte é suficientemente amplo e só assim estamos na fonte da vida, que é mais forte do que a morte, do que todas as ameaças da morte. Portanto, a escolha fundamental é esta aqui indicada: escolhe Deus. É preciso compreender que quem caminha sem Deus, no fim se encontra na escuridão, mesmo se podem haver momentos nos quais parece ter encontrado a vida.

Depois, o passo ulterior é como encontrar Deus, como escolher Deus. Aqui chegamos ao Evangelho: Deus não é desconhecido, não é uma hipótese talvez do primeiro início da criação. Deus é de carne e osso. É um de nós. Conhecemo-lo com o seu rosto, com o seu nome. É Jesus Cristo quem nos fala no Evangelho. É homem e Deus. E sendo Deus, escolheu o homem para fazer com que tivéssemos a possibilidade de escolher Deus. Portanto, é preciso entrar no conhecimento e depois na amizade de Jesus para caminhar com Ele.

Parece-me que é este o ponto fundamental na nossa solicitude pastoral pelos jovens, por todos mas sobretudo pelos jovens: atrair a atenção para a escolha de Deus, que é a vida. Para o facto de que Deus existe. E existe de modo muito concreto. E ensinar a amizade com Jesus Cristo.
Há depois um terceiro passo. Esta amizade com Jesus não é uma amizade com uma pessoa irreal, com alguém que pertence ao passado ou que está longe dos homens, à direita de Deus. Ele está presente no seu corpo, que ainda é um corpo de carne e osso: é a Igreja, a comunhão da Igreja. Devemos construir e tornar acessíveis comunidades que reflectem, que são o reflexo da grande comunidade da Igreja vital. É um conjunto: a experiência vital da comunidade, com todas as debilidades humanas, mas contudo real, com um caminho claro, e uma sólida vida sacramental, na qual podemos tocar também o que nos pode parecer muito distante, a presença do Senhor. Deste modo podemos aprender também os mandamentos para voltar ao Deuteronómio, pelo qual comecei. Porque a leitura diz: escolher Deus significa escolher segundo a sua Palavra, viver segundo a Palavra. Por um momento isto parece um pouco positivista: são imperativos. Mas a primeira coisa é o dom: a sua amizade. Depois podemos compreender que os indicadores de caminho são explicações da realidade desta nossa amizade.

Podemos dizer que esta é uma visão geral, tal como brota do contacto com a Sagrada Escritura e com a vida da Igreja de todos os dias. Depois traduz-se passo por passo nos encontros concretos com os jovens: guiá-los para o diálogo com Jesus na oração, na leitura da Sagrada Escritura sobretudo a leitura comum, mas também pessoal e na vida sacramental. São todos passos para tornar presentes estas experiências na vida profissional, mesmo se muitas vezes o contexto está marcado pela total ausência de Deus e pela aparente impossibilidade de o ver presente. Mas é então, que através da nossa vida e da nossa experiência de Deus, devemos procurar fazer entrar também neste mundo distante de Deus a presença de Cristo.

Existe a sede de Deus. Recebi há pouco tempo a visita ad Limina de Bispos de um país onde mais de 50% da população se declara ateia ou agnóstica. Mas eles disseram-me: na realidade todos têm sede de Deus. Esta sede existe escondida. Por isso comecemos nós primeiro, com os jovens que podemos encontrar. Formemos comunidades nas quais se reflecte a Igreja, aprendamos a amizade com Jesus. E assim, cheios desta alegria e desta experiência, podemos também hoje tornar presente Deus neste nosso mundo.

(Pe. Pietro Riggi, salesiano do Borgo Ragazzi Don Bosco)

Santo Padre, trabalho num oratório e num centro de acolhimento para menores em perigo. Queria perguntar-lhe: a 25 de Março de 2007 Vossa Santidade pronunciou um discurso improvisado, lamentando-se de como hoje se fala pouco dos Novíssimos. De facto, nos catecismos da CEI usados para o ensino da nossa fé aos jovens de confissão, comunhão e crisma, parece-me que são omitidas algumas verdades de fé. Nunca se fala do inferno, do purgatório, uma só vez do paraíso, uma só vez do pecado, só do pecado original. Faltando estas partes essenciais do credo, não lhe parece que desaba o sistema lógico que leva a ver a redenção de Cristo? Faltando o pecado, não falando do inferno, também a redenção de Cristo é diminuída. Não lhe parece que são favorecidas a perda do sentido do pecado e portanto do sacramento da reconciliação e a própria figura salvífica, sacramental do sacerdote que tem o poder de absolver e de celebrar em nome de Cristo? Infelizmente hoje também nós, sacerdotes, quando no Evangelho se fala de inferno, tergiversamos o próprio Evangelho. Não se fala dele, ou não sabemos falar do paraíso. Não sabemos falar de vida eterna. Arriscamos dar à fé uma dimensão apenas horizontal ou demasiado afastada, o horizontal do vertical. E isto infelizmente falta na catequese para os jovens, na iniciativa dos párocos, na estrutura portante. Se não erro, celebra-se este ano também o vigésimo quinto aniversário da consagração da Rússia ao Coração Imaculado de Maria. Para a ocasião não se pode pensar em renovar solenemente esta consagração do mundo inteiro? Caiu o muro de Berlim, mas existem tantos muros de pecado que ainda devem ser derrubados: o ódio, a exploração, o capitalismo selvagem. Muros que devem desabar e ainda devemos esperar que triunfe o Coração Imaculado de Maria para poder realizar esta dimensão. Também desejo fazer notar que Nossa Senhora não receou falar do inferno e do paraíso aos pastorinhos de Fátima que, precisamente, estavam na idade da catequese: sete, nove e doze anos. E nós, ao contrário, muitas vezes omitimo-lo. O que nos pode dizer sobre isto?

Com razão o senhor falou de temas fundamentais da fé, que infelizmente poucas vezes são mencionados na nossa pregação. Na Encíclica Spe salvi eu quis falar também do juízo final, do juízo em geral, e neste contexto também do purgatório, do inferno e do paraíso. Penso que todos nós ainda estamos influenciados pela objecção dos marxistas, segundo os quais os cristãos só falaram do além e descuidaram a terra. Assim, nós queremos demonstrar que nos empenhamos realmente pela terra e não somos pessoas que falam de realidades distantes, que não ajudam a terra. Mas, mesmo sendo justo que os cristãos trabalhem pela terra e todos nós somos chamados a trabalhar para que esta terra seja realmente uma cidade para Deus e de Deus não devemos esquecer a outra dimensão. Se não a considerarmos, não trabalhamos bem pela terra. Mostrar isto foi para mim uma das finalidades fundamentais ao escrever a Encíclica. Quando não se conhece o juízo de Deus, não se conhece a possibilidade do inferno, da falência radical e definitiva da vida, não se conhece a possibilidade e a necessidade da purificação. Então o homem não trabalha bem pela terra porque no final perde os critérios, já não se conhece a si mesmo, porque não conhece Deus, e destrói a terra. Todas as grandes ideologias prometeram: nós dominaremos a situação, não descuidaremos a terra, criaremos um mundo novo, justo, correcto, fraterno. Ao contrário, destruíram o mundo. Vemo-lo com o nazismo, e também com o comunismo, que prometeram construir um mundo tal como deveria ser e, ao contrário, destruíram o mundo.

Nas visitas ad Limina dos Bispos de países ex-comunistas, vejo sempre de novo como naquelas terras foram destruídos não só o planeta, a ecologia, mas sobretudo e mais gravemente, as almas. Reencontrar a consciência verdadeiramente humana, iluminada pela presença de Deus, é o primeiro trabalho de reedificação da terra. É esta a experiência comum daqueles países. A reedificação da terra, respeitando o brado de sofrimento deste planeta, só se pode realizar reencontrando Deus na alma, com os olhos abertos para Deus.

Por isso, o senhor tem razão: devemos falar de tudo isto precisamente por responsabilidade para com a terra, para com os homens que vivem hoje. Devemos falar também do pecado como possibilidade de destruir a si mesmos e também outras partes da terra. Na Encíclica procurei demonstrar que precisamente o juízo último de Deus garante a justiça. Todos queremos um mundo justo. Mas não podemos reparar todas as destruições do passado, todas as pessoas injustamente atormentadas e assassinadas. Só o próprio Deus pode criar a justiça, que deve ser justiça para todos, também para os mortos. E como diz Adorno, um grande marxista, só a ressurreição da carne, que ele considera irreal, poderia criar justiça. Nós cremos nesta ressurreição da carne, na qual nem todos serão iguais. Hoje estamos habituados a pensar: o que é o pecado, Deus é grande, conhece-nos, portanto o pecado não conta, no fim Deus será bom com todos. É uma bela esperança. Mas existe a justiça e a verdadeira culpa. Quantos destruíram o homem e a terra não podem sentar-se imediatamente à mesa de Deus juntamente com as suas vítimas. Deus cria justiça. Devemos ter isto em conta. Por isso parecia-me importante escrever este texto também sobre o purgatório, que para mim é uma verdade tão óbvia, tão evidente e também necessária e confortadora, que não pode faltar. Procurei dizer: talvez não sejam tantos os que se destruíram assim, que são incuráveis para sempre, que já não tem mais elemento algum sobre o qual se possa basear o amor de Deus, não têm mais em si mesmos um mínimo de capacidade de amar. Isto seria o inferno. Por outro lado, são certamente poucos ou contudo não demasiados os que são tão puros que podem entrar imediatamente na comunhão de Deus. Muitíssimos de nós esperam que haja algo curável em nós, que haja uma vontade final de servir Deus e de servir os homens, de viver segundo Deus. Mas existem tantíssimas feridas, tanta impureza. Temos necessidade de ser preparados, de ser purificados. É esta a nossa esperança: mesmo com tanta sujidade na nossa alma, no final o Senhor dá-nos a possibilidade, lava-nos com a sua bondade que vem da cruz. Torna-nos assim capazes de ser eternamente para Ele. E assim o paraíso é a esperança, é a justiça finalmente realizada. E dá-nos também os critérios para viver, para que este tempo seja de algum modo paraíso, seja uma primeira luz do paraíso. Onde os homens vivem segundo estes critérios, aparece um pouco de paraíso no mundo, e isto é visível. Parece-me também uma demonstração da verdade da fé, da necessidade de seguir o caminho dos mandamentos, do qual devemos falar mais. Estes são realmente indicadores de caminho e mostram-nos como viver bem, como escolher a vida. Por isso devemos falar também do pecado e do sacramento do perdão e da reconciliação. Um homem sincero sabe que é culpado, que deveria recomeçar, que deveria ser purificado. E esta é a realidade maravilhosa que o Senhor nos oferece: há uma possibilidade de renovação, de ser novos. O Senhor começa connosco de novo e nós podemos recomeçar assim também com os outros na nossa vida.

Este aspecto da renovação, da restituição do nosso ser depois de tantas coisas erradas, depois de tantos pecados, é a grande promessa, o grande dom que a Igreja oferece. E que, por exemplo, a psicoterapia não pode oferecer. A psicoterapia está hoje tão difundida e é também necessária face a tantas psiques destruídas ou gravemente feridas. Mas as possibilidades da psicoterapia são muito limitadas: só pode procurar equilibrar um pouco uma alma desequilibrada. Mas não pode dar uma verdadeira renovação, uma superação destas graves doenças da alma. E por isso permanece sempre provisória e nunca definitiva. O sacramento da penitência dá-nos a ocasião de nos renovarmos profundamente com o poder de Deus ego te absolvo que é possível porque Cristo assumiu sobre si estes pecados, estas culpas. Parece-me que hoje esta é uma grande necessidade. Podemos ser curados. As almas que estão feridas e doentes, como é a experiência de todos, têm necessidade não só de conselhos mas de uma verdadeira renovação, que só pode vir do poder de Deus, do poder do Amor crucificado. Este parece-me um grande nexo dos mistérios que no final incidem realmente na nossa vida. Devemos nós próprios meditá-los de novo e desta forma fazê-los chegar ao nosso povo.

(Pe. Massimo Tellan, pároco de Santo Henrique)

Sou o Padre Massimo Tellan, há quinze anos sacerdote, há seis pároco de Casal Monastero, sector Norte. Penso que todos nos damos conta de viver cada vez mais imersos num mundo culturalmente inflacionado por palavras, muitas vezes sem significado, que desorientam o coração humano a ponto de o tornar surdo à palavra de verdade. Esta palavra eterna que se fez carne e assumiu um rosto em Jesus de Nazaré tornou-se evanescente para muitos, e sobretudo para as novas gerações, inconsistente e distante. Certamente confundida na selva de imagens ambíguas e efémeras pelas quais se é bombardeado quotidianamente. Então que espaço dar ao educar para a fé, para este binómio de palavra a ser acolhida e imagem a ser contemplada? Onde está a arte de narrar a fé e de introduzir no mistério, como acontecia no passado com a biblia pauperum? Na hodierna sociedade da imagem como podemos recuperar a força transbordante do ver, que acompanha o mistério da encarnação e do encontro com Jesus, como aconteceu com João e André às margens do Jordão, convidados a ir e ver onde habita o Mestre? Por outras palavras: como educar para a busca e para a contemplação daquela verdadeira beleza que, como escrevia Dostoievski, salvará o mundo? Obrigado, Santidade, pela sua atenção, e se me permite, mesmo com o consentimento dos confrades, quer como sacerdote deste presbitério quer como artista inexperiente, gostaria de acompanhar o que foi dito oferecendo-lhe um ícone de Cristo na coluna, imagem daquela humanidade sofredora e humilhada que o Verbo quis assumir não só até ao Ecce homo, mas até à morte na Cruz, e ao mesmo tempo imagem actual da Igreja Corpo místico de Cristo, muitas vezes ferida pela arrogância do mal, mas chamada com o seu Senhor, a abraçar o pecado do mundo para o redimir com o seu sacrifício com Jesus. Obrigado, Santo Padre, e obrigado também aos meus confrades. Todos eles, todos os dias mais do que eu e melhor do que eu, estão comprometidos a mostrar ao mundo com o próprio testemunho de vida o rosto actual do Mestre. Se é verdade, como é, que quem viu o Filho viu o Pai, assim quem nos vê a nós, sua Igreja, pode ver Cristo.

Obrigado por este dom agradável. Agradeço por não termos só palavras, mas também imagens. Vemos que também hoje, da meditação cristã, nascem novas imagens, renasce a cultura cristã, a iconografia cristã. Sim, vivemos na inflação das palavras, das imagens. Portanto é difícil criar espaço para a Palavra e para a imagem. Parece-me que precisamente na situação do nosso mundo, que todos conhecemos, que é também o nosso sofrimento, o sofrimento de cada um, o tempo da Quaresma adquire um novo significado. Certamente o jejum corporal, durante um certo tempo considerado já não de moda, hoje todos o consideram necessário. Não é difícil compreender que devemos jejuar. Por vezes encontramo-nos também diante de certos exageros devidos a um ideal de beleza errado. Mas contudo o jejum corporal é algo importante, porque somos corpo e alma e a disciplina do corpo, a disciplina também material, é importante para a vida espiritual que é sempre vida encarnada numa pessoa que é corpo e alma.

Esta é uma dimensão. Hoje proliferam e manifestam-se outras dimensões. Parece-me que a Quaresma poderia ser também um tempo de jejum das palavras e das imagens. Temos necessidade de um pouco de silêncio, precisamos de um espaço sem o bombardeamento permanente das imagens. Neste sentido, tornar acessível e compreensível hoje o significado de quarenta dias de disciplina exterior e interior é muito importante para nos ajudar a compreender que uma dimensão da nossa Quaresma, desta disciplina corporal e espiritual, é criar-nos espaços de silêncio e também sem imagens, para reabrir o nosso coração à imagem verdadeira da palavra verdadeira. Parece-me promissor que também hoje se veja que existe um renascimento da arte cristã, quer de uma música meditativa como por exemplo a que nasceu em Taizé quer, retornando à arte do ícone, a uma arte cristã que permanece, digamos, dentro das grandes normativas da arte iconológica do passado, mas alargando-se às experiências e às visões de hoje. Onde houver uma verdadeira e profunda meditação da Palavra, onde entrarmos realmente na contemplação desta visibilidade de Deus no mundo, desta tangibilidade de Deus no mundo, surgem também novas imagens, novas possibilidades de tornar visíveis os acontecimentos da salvação. É precisamente esta a consequência do acontecimento da encarnação. O Antigo Testamento proibia qualquer imagem e devia proibi-lo num mundo cheio de divindades. Ele vivia no grande vazio que era também representado pelo interior do templo, onde, em contraste com outros templos, não havia imagem alguma, mas só o trono vazio da Palavra, da presença misteriosa do Deus invisível, não circunscrito pelas nossas imagens.

Mas depois a nova etapa é que este Deus misterioso nos liberta da inflação das imagens, também de um tempo cheio de imagens de divindades, e dá-nos a liberdade da visão do essencial. Aparece com um rosto, com um corpo, com uma história humana que, ao mesmo tempo, é uma história divina. Uma história que continua na história dos santos, dos mártires, dos santos da caridade, da palavra, que são sempre explicação, continuação no Corpo de Cristo desta sua vida divina e humana, e nos dá as imagens fundamentais nas quais além das superficiais que escondem a realidade podemos abrir o olhar para a própria Verdade. Neste sentido parece-me excessivo o período iconoclástico do pós-Concílio, que tinha contudo um sentido, porque talvez fosse necessário libertar-se de uma superficialidade das demasiadas imagens.

Agora voltemos ao conhecimento do Deus que se fez homem. Como nos diz a Carta aos Efésios, Ele é a verdadeira imagem. E nesta verdadeira imagem vemos além das aparências que escondem a verdade a própria Verdade: "Quem Me vê, vê o Pai". Neste sentido diria que, com muito respeito e com muita reverência, podemos reencontrar uma arte cristã e também reencontrar as representações essenciais e grandes do mistério de Deus na tradição iconográfica da Igreja. E assim poderíamos redescobrir a imagem verdadeira, coberta pelas aparências. É realmente um trabalho importante da educação cristã: a libertação pela Palavra por detrás das palavras, que exige sempre de novo espaços de silêncio, de meditação, de aprofundamento, de abstinência, de disciplina. E igualmente a educação para a verdadeira imagem, isto é, para a redescoberta dos grandes ícones criados na história pela cristandade: com humildade libertamo-nos de imagens superficiais. Este tipo de iconoclasmo é sempre necessário para redescobrir a Imagem, ou seja, as grandes imagens fundamentais que expressam a presença de Deus na carne.

Esta é uma dimensão fundamental da educação para a fé, para o verdadeiro humanismo, que procuramos neste tempo em Roma. Voltemos a redescobrir o ícone com as suas regras muito severas, sem as belezas renascentistas. E assim podemos também nós entrar de novo num caminho de redescoberta humilde das grandes imagens, rumo a uma sempre nova libertação das muitas palavras, das demasiadas imagens, para redescobrir as imagens fundamentais que nos são necessárias. O próprio Deus mostrou-nos a sua imagem e nós podemos reencontrar esta imagem com uma profunda meditação da Palavra que faz renascer as imagens.

Então, rezemos ao Senhor para que nos ajude neste caminho de verdadeira educação, de reeducação na fé, que é sempre não só ouvir mas também ver.

(Pe. Paul Chungat, vigário paroquial de São José Cottolengo)

Sou o Padre Chungat, indiano, actualmente vigário da paróquia de São José no Vale Aurélio. Desejo agradecer-lhe a oportunidade que me concedeu de servir na Diocese de Roma por três anos. Isto foi para mim, para os meus estudos, uma grande ajuda, como penso que o seja para todos os sacerdotes estudantes que permanecem em Roma. Agora chegou o tempo de regressar à minha diocese na Índia onde os católicos são apenas 1% enquanto 99% são não-cristãos. O que nestes dias me fez reflectir muito foi a situação da evangelização missionária na minha pátria. Na recente Nota da Congregação para a Doutrina da Fé encontram-se algumas palavras difíceis de compreender no campo do diálogo inter-religioso. Por exemplo, no n. 10 lê-se "plenitude da salvação", e na parte introdutiva, "necessidade de incorporação formal na Igreja". Trata-se de conceitos difíceis de fazer compreender quando eu os levar à Índia e tiver que falar aos meus amigos hindus e aos fiéis de outras religiões. A minha pergunta é: plenitude da salvação deve ser compreendida em sentido qualitativo ou quantitativo? Se for em sentido quantitativo há um pouco de dificuldade. O Concílio Vaticano II diz que há a possibilidade de uma semente de luz também nos outros credos. Se é em sentido qualitativo, além da historicidade e da plenitude da fé, quais são as outras coisas para mostrar a unicidade da nossa fé em relação ao diálogo inter-religioso?

Obrigado por esta intervenção. O senhor sabe bem que devido à amplidão das suas perguntas seria necessário um semestre de teologia! Procurarei ser breve. O senhor conhece a teologia, existem grandes mestres e muitos livros. Antes de tudo, obrigado pelo seu testemunho, porque se diz jubiloso de poder trabalhar em Roma mesmo sendo indiano. Para mim este é um fenómeno maravilhoso da catolicidade. Agora não só os missionários vão do Ocidente para os outros continentes, mas há um intercâmbio de dons: indianos, africanos, sul-americanos trabalham no nosso continente e os nossos vão aos outros. É um dar e receber de todas as partes; é precisamente esta vitalidade da catolicidade, onde todos somos devedores dos dons do Senhor, e depois podemos doar uns aos outros. É nesta reciprocidade dos dons, do dar e do receber, que a Igreja católica vive. Vós podeis aprender destes ambientes e destas experiências ocidentais e nós, de vós, o mesmo. Vejo que precisamente este espírito de religiosidade que existe na Ásia, na África, surpreende os europeus, que muitas vezes são um pouco frios na fé. E assim esta vivacidade, pelo menos do espírito religioso que existe nestes continentes, é um grande dom para todos nós, sobretudo para nós Bispos do mundo ocidental e em particular daqueles países nos quais é mais acentuado o fenómeno da imigração, as Filipinas, a Índia, etc. O nosso catolicismo frio é reavivado por este fervor que vem de vós. Portanto a catolicidade é um grande dom.

Falemos das perguntas que me fez. Neste momento não tenho presentes as palavras exactas do documento da Congregação para a Doutrina da Fé que evocou; contudo pretendo dizer duas coisas. Por um lado, é absolutamente necessário o diálogo, conhecer-se reciprocamente, respeitar-se e procurar colaborar de todas as formas possíveis para as grandes finalidades da humanidade, ou para as suas grandes necessidades, para superar fanatismos e criar um espírito de paz e de amor. E isto está também no espírito do Evangelho, cujo sentido é precisamente que o espírito de amor, que aprendemos de Jesus, a paz de Jesus que Ele nos doou através da cruz, se torne presente universalmente no mundo. Neste sentido o diálogo deve ser diálogo verdadeiro, no respeito pelo próximo e na aceitação da sua alteridade; mas deve ser também evangélico, no sentido que a sua finalidade fundamental é ajudar os homens a viver no amor e fazer com que este amor se possa expandir em todas as partes do mundo.

Mas esta dimensão do diálogo, tão necessária, ou seja a do respeito pelo próximo, da tolerância, da cooperação, não exclui a outra, isto é, que o Evangelho é um grande dom, o dom do grande amor, da grande verdade, que não podemos ter só para nós próprios, mas que devemos oferecer aos outros, considerando que Deus lhes dá a liberdade e a luz necessárias para encontrar a verdade. Esta é a verdade. E portanto este é também o meu caminho. A missão não é imposição, mas um oferecer o dom de Deus, deixando que a sua bondade ilumine as pessoas para que se alargue o dom da amizade concreta com o Deus do rosto humano. Por isso queremos e devemos testemunhar cada vez mais esta fé e o amor que vive na nossa fé. Teríamos descuidado um dever verdadeiro, humano e divino, se tivéssemos deixado os outros sozinhos e se tivéssemos reservado a fé que temos só para nós. Seríamos infiéis até a nós próprios, se não oferecêssemos esta fé ao mundo, mesmo respeitando sempre a liberdade dos outros. A presença da fé no mundo é um elemento positivo, mesmo se não se converte ninguém; é um ponto de referência.

Representantes de religiões não cristãs disseram-me: para nós a plenitude do cristianismo é um ponto de referência que nos ajuda, mesmo se não nos convertemos. Pensemos na grande figura do Mahatma Gandhi. Mesmo estando firmemente ligado à sua religião, para ele o sermão da montanha era um ponto de referência fundamental, que formou toda a sua vida. E assim o fermento da fé, mesmo sem o converter ao cristianismo, entrou na sua vida. E parece-me que este fermento do amor cristão que transparece do Evangelho é além do trabalho missionário que procura alargar os espaços da fé um serviço que prestamos à humanidade.

Pensemos em São Paulo. Aprofundei de novo há pouco tempo a sua motivação missionária. Falei disto também à Cúria por ocasião do encontro de fim de ano. Ele comoveu-se com a palavra do Senhor no seu sermão escatológico. Antes de qualquer acontecimento, antes da vinda do Filho do homem, o Evangelho deve ser pregado a todos os povos. A condição para que o mundo alcance a sua perfeição, para a sua abertura ao paraíso, é que o Evangelho seja anunciado a todos. Ele empregou todo o zelo missionário para que o Evangelho pudesse chegar a todos possivelmente já na sua geração, para responder ao mandato do Senhor "para que seja anunciado a todos os povos". O seu desejo não era tanto baptizar todas as nações, mas a presença do Evangelho no mundo e portanto o cumprimento da história como tal. Parece-me que hoje, ao ver o andamento da história, se possa compreender melhor que esta presença da Palavra de Deus, que este anúncio que chega a todos como fermento, é necessário para que o mundo possa realmente alcançar a sua finalidade. Neste sentido nós queremos, a conversão de todos, mas deixamos que o Senhor aja. O importante é que quem se quer converter tenha essa possibilidade e que surja sobre o mundo para todos esta luz do Senhor como ponto de referência e como luz que ajuda, sem a qual o mundo não se pode encontrar a si mesmo. Não sei se me expliquei bem: diálogo e missão não só não se excluem, mas um exige o outro.

(Pe. Alberto Orlando, vigário paroquial de Santa Maria Mãe da Providência)

Sou o Pe. Alberto Orlando, vice-pároco da paróquia de Santa Maria Mãe da Providência. Gostaria de lhe apresentar uma dificuldade vivida em Loreto com os jovens no ano passado. Transcorremos em Loreto um dia muito agradável, mas entre as tantas coisas belas observamos uma certa distância entre Vossa Santidade e os jovens. Chegámos de tarde. Não conseguimos um lugar, nem ver, nem ouvir. Depois, ao anoitecer Vossa Santidade foi embora e nós ficamos à mercê da televisão, que num certo sentido nos usou. Mas os jovens têm necessidade de calor. Uma jovem, por exemplo, disse-me: "Naturalmente o Papa chama-nos "queridos jovens", mas hoje chamou-nos "jovens amigos"". E estava muito contente por isso. Por que não ressaltar este pormenor, esta proximidade? Também a ligação televisiva com Loreto era muito fria, muito distante; também o momento da oração viveu dificuldades porque estava ligado a pontos-luz que permaneceram fechados até tarde, pelo menos enquanto não terminou o espectáculo televisivo. A segunda coisa que originou algumas dificuldades foi a liturgia do dia seguinte, um pouco pesado no que se refere a cânticos e músicas. No momento do Aleluia, para dar um exemplo, uma jovem observou que, apesar do calor, estas canções e estas músicas se prolongavam muito, como se não importasse a ninguém o mal-estar de quem estava apinhado na multidão. E tratava-se de jovens que todos os domingos frequentam a missa. Eis as duas perguntas: por que esta distância entre Vossa Santidade e eles; e como conciliar o tesouro da liturgia em toda a solenidade com o sentimento, o afecto e a emotividade que alimentam os jovens e dos quais eles têm tanta necessidade? Também queria um conselho: como regular-nos entre solenidade e emotividade. Também porque somos nós próprios, sacerdotes, que nos interrogamos muitas vezes sobre quanto somos capazes de viver com simplicidade a emoção e o sentimento. E sendo nós os ministros do sacramento gostaríamos de ser capazes de orientar sentimento e emotividade para um justo equilíbrio.

O primeiro ponto proposto está ligado à situação organizativa: eu encontrei-a assim, portanto não sei se era possível talvez organizar de outro modo. Considerando as milhares de pessoas que ali estavam, era impossível, penso, fazer com que todos estivessem próximos do mesmo modo. Aliás, por isso seguimos um percurso de carro, para ter um pouco de proximidade com todas as pessoas. Mas teremos isto em consideração e veremos se no futuro, noutros encontros com milhares de pessoas, será possível fazer algo de diverso. Mas parece-me que é importante que cresça o sentimento de uma proximidade interior, que encontre a ponte que une apesar da distância.

Um grande problema, ao contrário, é o das liturgias nas quais participam grandes multidões. Recordo-me que em 1960, durante o grande Congresso Eucarístico Internacional de Munique, se procurava dar uma nova fisionomia aos congressos eucarísticos, que até então eram apenas actos de adoração. Desejava-se pôr no centro a celebração da Eucaristia como acto da presença do mistério celebrado. Mas nasceu imediatamente a pergunta sobre como fosse possível. A adoração, dizia-se, pode ser feita também à distância; mas para celebrar é necessária uma comunidade limitada que possa interagir com o mistério, portanto uma comunidade que devia ser assembleia em volta da celebração do mistério. Muitos eram contrários à celebração da Eucaristia em público com cem mil pessoas. Diziam que não era possível precisamente pela própria estrutura da Eucaristia, que exige a comunidade para a comunhão. Eram contrárias a esta solução também grandes personalidades, muito respeitáveis. Depois o professor Jungmann, grande liturgista, um dos grandes arquitectos da reforma litúrgica, criou o conceito de statio orbis, ou seja, voltou à statio Romae onde precisamente no tempo da Quaresma os fiéis se reúnem num ponto, a statio: portanto estão em statio como os soldados para Cristo, depois vão juntos à Eucaristia. Se esta, disse, era a statio da cidade de Roma, onde a cidade de Roma se reúne, então esta é a statio orbis. E a partir daquele momento temos as celebrações eucarísticas com a participação das multidões. Para mim, devo dizer, permanece um problema, porque a comunhão concreta na celebração é fundamental e portanto não penso que a resposta definitiva tenha sido realmente encontrada. Também no último Sínodo fiz sobressair esta pergunta, que contudo não encontrou uma resposta. Fiz também outra pergunta sobre a concelebração de massa: por que concelebram, por exemplo, mil sacerdotes, não se sabe se ainda existe a estrutura querida pelo Senhor. Mas contudo são perguntas. E assim apresentou-se a si a dificuldade em participar numa celebração de massa durante a qual não é possível que todos sejam igualmente envolvidos. Portanto, deve-se escolher um certo estilo, para conservar aquela dignidade que é sempre necessária para a Eucaristia, e portanto a comunidade não é uniforme e a experiência da participação no acontecimento é diversa; para alguns certamente é insuficiente. Mas não dependeu de mim, mas antes de quantos se ocuparam da preparação.
Deve-se reflectir bem por conseguinte sobre o que fazer nestas situações, como responder aos desafios desta situação. Se não erro, era uma orquestra de deficientes que executou as músicas e talvez a ideia era precisamente a de fazer compreender que os deficientes podem ser animadores da sagrada celebração e precisamente eles não devem ser excluídos mas agentes primários. E assim todos, amando-os, não se sentiram excluídos mas envolvidos. Parece-me uma reflexão muito respeitável e eu partilho-a. Mas naturalmente permanece o problema fundamental. Parece-me todavia que também aqui, sabendo o que é a Eucaristia, mesmo não tendo a possibilidade de uma actividade exterior como se desejaria para se sentir co-partícipes, entra-se nela com o coração, como diz o antigo imperativo na Igreja, criado talvez precisamente para os que estavam no fundo da basílica: "Corações ao alto! Agora todos saiamos de nós mesmos, assim todos estamos com o Senhor e estamos juntos". Como disse, não nego o problema, mas se seguirmos realmente estas palavras "Corações ao alto" todos encontraremos, também em situações difíceis e por vezes discutíveis, a verdadeira participação activa.

(Mons. Renzo Martinelli, delegado da Pontifícia Academia da Imaculada)

Santo Padre, desejo antes de tudo agradecer-lhe também os esclarecimentos que fez no domingo passado durante o Angelus, em relação às suas intenções, porque nós educamos sempre os fiéis para rezar pelo Papa e quando Vossa Santidade diz para rezar pelos consagrados, pelo dia pela vida, pelos frutos de conversão da Quaresma, eis que se torna ainda mais evidente uma comunhão interior, mas também conscientes de estar próximos das suas intenções. Também nestes dias a graça de poder rezar diante da Imaculada no aniversário de Lourdes. Voltando ao problema da emergência educativa, a pergunta é a seguinte: Vossa Santidade disse recentemente aos Bispos eslovenos esta frase: "Se por exemplo se concebe o homem segundo uma tendência hoje difundida de modo individualista", como justificar o esforço para a construção de uma comunidade justa e solidária. Então esta mentalidade individualista eu entrei no seminário com onze anos e fui educado um pouco numa mentalidade na qual havia o meu eu e depois ao lado do meu eu, outro um pouco moralista para se conformar a Cristo e no final a minha liberdade, como diz Vossa Santidade no seu Livro Jesus de Nazaré era como que gerida à maneira de escravo, como escravidão, quando comenta o irmão maior da parábola do filho pródigo. E tudo isto gera uma divisão: como propor ao contrário aos jovens aquilo sobre o que Vossa Santidade sempre insistiu, ou seja, que o eu do cristão, quando é investido por Cristo já não é eu. A identidade do cristão, disse-o em Verona muito aprofundadamente, é o eu já não eu porque há o sujeito comum de Cristo. Santidade, como propor esta conversão, esta nova modalidade, esta originalidade cristã de ser uma comunhão que propõe de modo eficaz a novidade da experiência cristã?

É a grande questão que cada sacerdote que é responsável por outros se apresenta todos os dias. Inclusive para ele mesmo. É verdade que no século XX havia a tendência a uma devoção individualista, para salvar sobretudo a própria alma e criar méritos até calculáveis, que se podiam em certas listas até indicar com números. E certamente todo o movimento do Vaticano II quis superar este individualismo.

Agora eu não desejo julgar estas gerações passadas, que a seu modo procuraram contudo desta maneira servir os outros. Mas havia ali o perigo que se quisesse salvar sobretudo a própria alma; a isto seguia-se uma exteriorização da piedade que no final considerava a fé como um peso e não como uma libertação. E certamente é vontade fundamental da nova pastoral indicada pelo Concílio Vaticano II sair desta visão demasiado limitada do cristianismo e descobrir que só salvo a minha alma dando-a, como nos disse hoje o Senhor no Evangelho; só libertando-me de mim, saindo de mim, como fez Deus no Filho que saiu de si mesmo, Deus, para nos salvar. E nós entramos neste movimento do Filho, procuramos sair de nós mesmos porque sabemos aonde chegar. E não caímos no vazio, mas abandonamo-nos a nós mesmos, abandonando-nos no Senhor, saindo, pondo-nos à sua disposição, como Ele quer e não como nós pensamos.

Esta é a verdadeira obediência cristã, que é liberdade: não como eu quero, com o meu projecto de vida para mim, mas pondo-me à sua disposição, para que Ele disponha de mim. E entregando-me nas suas mãos sou livre. Mas é um grande salto que nunca se faz definitivamente. Penso em Santo Agostinho, que tantas vezes nos disse isto. Inicialmente depois da conversão pensava que tinha chegado ao vértice e que vivia no paraíso da novidade do ser cristão. Depois descobriu que o caminho difícil da vida continuava, embora já dentro da luz de Deus, e que era necessário fazer todos os dias de novo este salto para fora de si mesmo; dar este eu para que morra e se renove no grande Eu de Cristo que é, de certo modo muito verdadeiro, o eu comum de todos nós, o nosso nós.

Mas diria que nós mesmos devemos exactamente na celebração da Eucaristia que é este grande e profundo encontro com o Senhor onde me deixo cair nas Suas mãos dar este grande passo. Quanto mais o aprendemos tanto mais o podemos exprimir aos outros e torná-lo compreensível, acessível aos outros. Só caminhando com o Senhor, abandonando-nos na comunhão da Igreja à sua abertura, não vivendo para mim quer para uma vida terrena feliz, quer só para uma bem-aventurança pessoal, mas fazendo-me instrumento da sua paz, vivo bem e aprendo esta coragem diante dos desafios de todos os dias, sempre novos e graves, muitas vezes quase irrealizáveis. Deixo-me porque tu o queres e estou certo de que assim vou em frente. Podemos apenas rezar ao Senhor para que nos ajude a percorrer este caminho todos os dias, para ajudar, iluminar assim os outros, motivá-los para que possam ser libertados e remidos.

(Pe. Paolo Tammi, pároco de São Pio X, professor de religião)

Desejo manifestar-lhe só um dos tantos agradecimentos pela fadiga e a paixão com que escreveu o seu livro sobre Jesus de Nazaré, um texto que como Vossa Santidade disse, não é um acto de magistério, mas fruto da sua pesquisa pessoal do rosto de Deus. Contribuiu para trazer de novo ao centro do cristianismo a pessoa de Jesus Cristo e certamente está a contribuir e contribuirá para fazer uma paciente justiça das visões parciais do acontecimento cristão, como a visão política na qual cresceu a maior parte da minha adolescência e dos meus coetâneos, ou a moralista, um pouco demasiado insistente, a meu parecer, na pregação católica, por fim a que gosta de se definir desmitizante da figura de Jesus Cristo, como a de certos mestres do pensamento laico que, na verdade com pouca surpresa, improvisamente se ocupam hoje do Fundador do cristianismo e da sua vicissitude humana para negar a sua historicidade ou para atribuir a sua divindade a uma fantasia da Igreja apostólica. Vossa Santidade, ao contrário ensina-nos continuamente que Jesus é verdadeiramente tudo; que d'Ele, homem e Deus, podemos apenas apaixonar-nos, o que não é exactamente como filiar-se a um partido, admitindo que exista, ou falar dele apenas para salvar uma identidade cultural. Limito-me a acrescentar que num ambiente laico como a escola, onde as motivações históricas e filosóficas pró e contra a religião têm obviamente o seu espaço legítimo, vejo todos os dias os jovens manter uma grande distância emotiva, enquanto vi os jovens comoverem-se em Assis, aonde os levei há alguns dias, ao ouvir o testemunho apaixonado de um jovem frade menor. Pergunto: como pode a vida de um sacerdote apaixonar-se cada vez mais pelo essencial que é o esposo Jesus? E ainda: como se vê que um sacerdote está apaixonado por Jesus? Sei que Vossa Santidade já respondeu várias vezes, mas não há dúvida que a resposta pode ajudar a corrigir-nos, a ter de novo esperança. Peço-lhe que o faça mais uma vez com os seus sacerdotes.

Como posso corrigir os párocos, que trabalham tão bem! Podemos só ajudar-nos reciprocamente. Portanto o senhor conhece este ambiente laico com distância não só intelectual, mas sobretudo emotiva, da fé. E devemos, segundo as circunstâncias, procurar o modo de criar pontes. Parece-me que as situações são difíceis, mas o senhor tem razão. Devemos pensar sempre: o que é essencial, mesmo se pode ser diverso o ponto onde podemos ancorar o kerigma, o contexto, o modo de fazer. Mas a questão deve ser sempre: o que é essencial? O que é preciso descobrir? O que gostaria de dar? E repito sempre: o essencial é Deus. Se não falarmos de Deus, se Deus não for descoberto, permanecemos sempre nas coisas secundárias. Portanto parece-me fundamental que pelo menos surja a pergunta: Deus existe? E como poderia viver sem Deus? É Deus verdadeiramente uma realidade importante para mim?

É para mim impressionante que o Vaticano I quisesse precisamente estabelecer este diálogo, compreender Deus com a razão mesmo se na situação histórica em que nos encontramos precisamos que Deus nos ajude e purifique a nossa razão. Parece-me que já se procura responder a este desafio do ambiente laico com Deus como a questão fundamental, e depois com Jesus Cristo, como a resposta de Deus. Naturalmente diria que existem os preambula fidei, que talvez sejam o primeiro passo para abrir o coração e a mente a Deus: as virtudes naturais. Nestes dias recebi a visita de um Chefe de Estado, que me disse: não sou religioso, o fundamento da minha vida é a ética aristotélica. É já algo muito positivo, e já estamos juntos com S. Tomás, a caminho rumo à síntese de Tomás. E portanto este pode ser um ponto de ancoragem, aprender e tornar compreensível a importância para a convivência humana desta ética racional, que depois se abre interiormente se for vivida consequentemente à procura de Deus, à responsabilidade diante de Deus.

Portanto parece-me que, por um lado, devemos ter claro diante de nós o que é o essencial que queremos e devemos transmitir aos outros, e quais são os preambula nas situações em que podemos dar os primeiros passos: certamente hoje uma determinada primeira educação ética é um passo fundamental. Fez assim também a cristandade antiga. Cipriano, por exemplo, diz-nos que antes a sua vida era totalmente dissoluta; depois, vivendo na comunidade catecumenal, aprendeu uma ética fundamental e assim abriu-se o caminho para Deus. Também Santo Ambrósio na vigília pascal diz: até agora falámos da moral, agora tratemos dos mistérios. Tinham feito o caminho dos preambula fidei com uma educação ética fundamental, que criava a disponibilidade para compreender o mistério de Deus. Portanto eu diria que devemos talvez fazer uma interacção entre educação ética hoje tão importante por um lado, também com uma sua evidência pragmática, e ao mesmo tempo não omitir a questão de Deus. E neste intersecar-se de dois caminhos parece-me que talvez se consiga abrir-se um pouco àquele Deus, o único que pode doar a luz.
Garantir o anúncio do Evangelho a todos

(Pe. Daniele Salera, vigário paroquial em Santa Maria Mãe do Redentor em Tor Bella Monaca, professor de religião)

Santidade, sou o Padre Daniele Salera, há seis anos sacerdote, vigário paroquial em Tor Bella Monaca onde ensino religião. Ao ler a sua carta sobre a tarefa urgente da educação, anotei alguns aspectos para mim significativos sobre os quais gostaria de dialogar com Vossa Santidade. Antes de tudo considero importante o seu envio à diocese e à cidade. Esta distinção dá razão às diversas identidades que a compõem e interpelam, na liberdade que Vossa Santidade menciona, também os não-crentes. Gostaria de lhe transmitir nestes poucos momentos a beleza de trabalhar na escola com colegas que por vários motivos já não têm qualquer fé viva ou não se reconhecem mais na Igreja, mas servem-me de exemplo na paixão educativa e na recuperação de adolescentes que já têm uma vida marcada pelo crime e pela degradação. Vejo em tantas pessoas com as quais trabalho em Tor Bella Monaca um verdadeiro anseio missionário. Por caminhos diferentes, mas convergentes, lutamos contra aquela crise de esperança que está sempre à espreita quando todos os dias se entra em contacto com jovens que parecem interiormente mortos, sem desejos para o futuro ou tão profundamente possuídos pelo mal que não conseguem distinguir o bem que lhe queremos ou as ocasiões de liberdade e de redenção, que contudo existem no seu caminho. Face a tal emergência humana não há espaço para as divisões, e então muitas vezes repito uma frase do Papa Roncalli que dizia: "Procurarei sempre o que une, e não o que divide". Santidade, esta experiência faz-me viver quotidianamente em contacto com jovens e adultos que nunca teria encontrado se me concentrasse só nas actividades internas da paróquia e observo que é verdade: muitos educadores renunciam à ética em nome de uma afectividade que não dá certezas e gera dependência. Outros têm medo de defender as regras da convivência civil porque pensam que elas não justificam as necessidades, as dificuldades e as identidades dos jovens. Com um slogan, diria que a nível educativo vivemos numa cultura do "sempre sim" e "nunca não". Mas é o "não" pronunciado com paixão amorosa pelo homem e pelo seu futuro que muitas vezes delimita o confim entre bem e mal; confim que na idade evolutiva é fundamental para a construção de identidades pessoais sólidas. E por um lado estou convencido de que face à emergência as diversidades se atenuam, e portanto, a nível educativo podemos verdadeiramente encontrar uma mesa comum com quem na liberdade não se confessa propriamente crente: por outro, pergunto por que nós, Igreja, que tanto escrevemos, pensamos e vivemos sobre a educação como formação para o recto uso da liberdade como diz Vossa Santidade não conseguimos fazer passar este objectivo educativo? Por que nos apresentamos em média tão pouco libertados e libertadores?

Obrigado por este espelho das suas experiências na escola de hoje, dos jovens de hoje, também por estas perguntas autocríticas para nós próprios. Neste momento posso apenas confirmar que me parece muito importante que a Igreja esteja presente também na escola, porque uma educação que não é ao mesmo tempo educação com Deus e presença de Deus, uma educação que não transmite os grandes valores que surgiram na luz de Cristo, não é uma educação. Nunca é suficiente uma formação profissional sem formação do coração. E o coração não pode ser formado sem pelo menos o desafio da presença de Deus. Sabemos que muitos jovens vivem em ambientes, em situações que lhes tornam inacessíveis a luz e a Palavra de Deus; encontram-se em situações de vida que são uma verdadeira escravidão, não só exterior, porque provocam uma escravidão intelectual que obscurece verdadeiramente o coração e a mente. Procuremos com todas as possibilidades à disposição da Igreja oferecer também a eles uma possibilidade de saída. Mas, em todo o caso, façamos com que neste ambiente multifacetado da escola onde se vai dos crentes às situações mais tristes a Palavra de Deus esteja presente. Dissemos precisamente isto de São Paulo, que queria fazer chegar o Evangelho a todos. Este imperativo do Senhor o Evangelho deve ser anunciado a todos não é um imperativo diacrónico, não é um imperativo continental, que em todas as culturas seja anunciado em primeira linha: mas um imperativo interior, no sentido de entrar nos diversos aspectos e dimensões de uma sociedade, para tornar acessível pelo menos um pouco da luz do Evangelho; que o Evangelho seja realmente anunciado a todos.

E parece-me também um aspecto da formação cultural hoje. Conhecer o que é a fé cristã que formou este continente e que é uma luz para todos os continentes. Os modos como se pode tornar presente e acessível ao máximo esta luz são diversos e sei que não tenho para isto uma solução; mas a necessidade de se oferecer a esta aventura bela e difícil é realmente um elemento do imperativo de fazer chegar a todas as dimensões da nossa sociedade o seu conhecimento, o conhecimento do seu rosto.

(Pe. Umberto Fanfarillo, pároco de Santa Doroteia em Trastevere)

Santo Padre, sou o pároco de Santa Doroteia em Trastevere, Padre Umberto Fanfarillo, franciscano conventual. Juntamente com a comunidade cristã do território paroquial, desejo indicar uma abundante, embora não profunda, presença de outros contextos religiosos, com os quais nos confrontamos quotidianamente na estima recíproca, no conhecimento e também numa convivência respeitosa. Nesta substancial positividade de intenções posso incluir o compromisso da Academia "dei Lincei", da Universidade americana John Cabot, com mais de oitocentos alunos provenientes de cerca de sessenta países e com articulações religiosas que vão dos católicos aos luteranos, dos judeus aos muçulmanos. São precisamente estes jovens que, com a morte de João Paulo II, se reuniram em oração na nossa igreja. São alguns deles que, frequentando os locais da paróquia, expressam respeito e serenidade diante dos nossos símbolos religiosos como o crucifixo e as imagens de Maria, dos Santos e do Papa. No território da paróquia a Casa de Peter Pan acolhe crianças doentes de tumor e está ligada ao hospital Bambin Gesù. Também aqui a inter-religiosidade realiza altíssimos momentos de caridade e de religiosa atenção ao irmão doente e necessitado. Temos análoga realidade e respeitoso encontro entre as recordadas expressões religiosas no cárcere Regina Coeli, ainda no território da paróquia. Recentemente, no clima de respeito e de testemunho, foi conferido o sacramento da confirmação a dois jovens anglicanos que se tornaram católicos. Penso que se encontram situações como esta continuamente também em lugares de acolhimento que caracterizam o território de Trastevere. Santo Padre, todos procuramos novas e mais equilibradas atitudes de conhecimento e de respeito. Apreciámos sempre as suas intervenções orientadas para o respeito e para o diálogo na busca da verdade. Ajude-nos ainda com a sua palavra.

Obrigado por este testemunho de uma paróquia verdadeiramente multidimensional e multicultural. Parece-me que o senhor concretizou um pouco quanto foi debatido anteriormente com o confrade indiano: este conjunto de diálogo, de convivência respeitadora, respeitando-nos uns aos outros, aceitando-nos uns aos outros, como eles são na sua alteridade, na sua comunhão. E ao mesmo tempo a presença do cristianismo, da fé cristã como ponto de referência para o qual todos podem lançar o olhar, como um fermento que no respeito das liberdades contudo é uma luz para todos e nos irmana precisamente no respeito pelas diferenças. Que o Senhor nos ajude sempre neste sentido a aceitar o outro na alteridade. A respeitá-lo e a tornar Cristo presente no gesto do amor, que é a verdadeira expressão da sua presença e da sua palavra. E assim nos ajude a ser realmente ministros de Cristo e da sua salvação para o mundo. Obrigado.

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