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EXORTAÇAO APOSTÓLICA
PÓS-SYNODAL
ECCLESIA IN AFRICA
DO SANTO PADRE
JOÃO PAULO II
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E DIÁCONOS
AOS RELIGIOSOS E RELIGIOSAS
E A TODOS FIÉIS LEIGOS
SOBRE A IGREJA EM ÁFRICA
E A SUA MISSÃO EVANGELIZADORA
RUMO AO ANO 2000

 

INTRODUÇÃO

 

1. A Igreja que está em África, celebrou com alegria e esperança, durante quatro semanas, a sua fé em Cristo ressuscitado, no curso de uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos. Permanece viva ainda a sua recordação na memória da Comunidade Eclesial inteira.

Fiéis à tradição dos primeiros séculos do cristianismo em África, os Pastores deste continente, em comunhão com o Sucessor do apóstolo Pedro e os membros do Colégio Episcopal vindos doutras regiões do mundo, realizaram um Sínodo que se revelou um acontecimento de esperança e de ressurreição, no momento mesmo em que as vicissitudes humanas pareciam antes impelir a África para o desânimo e o desespero.

Os Padres Sinodais, assistidos por qualificados representantes do clero, dos religiosos e do laicado, examinaram profunda e realisticamente as luzes e as sombras, os desafios e as perspectivas da evangelização em África ao aproximar-se do terceiro milénio da fé cristã.

Os membros da Assembleia Sinodal solicitaram-me que levasse ao conhecimento de toda a Igreja os frutos das suas reflexões e das suas preces, dos seus debates e das suas partilhas.1 Com alegria e gratidão ao Senhor, acolhi esse pedido, e hoje mesmo quando, em comunhão com os Pastores e os fiéis da Igreja Católica no continente africano, abro a fase celebrativa da Assembleia Especial para a África, torno público o texto desta Exortação Apostólica pós-sinodal, fruto de um intenso e prolongado trabalho colegial.

Mas, antes de entrar na exposição daquilo que maturou ao longo do Sínodo, julgo oportuno repassar, ainda que rapidamente, as várias fases de um acontecimento de importância tão decisiva para a Igreja em África.

O Concílio

2. O Concílio Ecuménico Vaticano II pode certamente considerar-se, do ponto de vista da história da salvação, como a pedra angular deste século, já quase a desembocar no terceiro milénio. No contexto daquele grande acontecimento, a Igreja de Deus que está em África pôde, por sua vez, viver autênticos momentos de graça. Com efeito, a ideia de um encontro de Bispos da África, sob forma a determinar, para discutir acerca da evangelização do Continente, remonta ao período do Concílio. Este acontecimento histórico foi verdadeiramente o cadinho da colegialidade e uma expressão peculiar da comunhão afectiva e efectiva do Episcopado mundial. Nessa ocasião, os Bispos procuraram individuar os instrumentos apropriados para melhor compartilharem e tornarem eficaz a sua solicitude por todas as Igrejas (cf. 2 Cor 11,28) e, com tal finalidade, começaram a propor as estruturas adequadas a nível nacional, regional e continental.

O Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar

3. Foi em tal clima que os Bispos de África e Madagáscar, presentes no Concílio, decidiram instituir um Secretariado Geral próprio, com a missão de coordenar as suas intervenções de modo a apresentarem em Aula, quanto possível, um ponto de vista comum. Esta cooperação inicial entre os Bispos da África institucionalizou-se, depois, com a criação em Kampala do Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar (S.C.E.A.M.). Tal se verificou por ocasião da visita do Papa Paulo VI ao Uganda, nos meses de Julho e Agosto de 1969, primeira visita à África de um Pontífice dos tempos modernos.

A convocação da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos

4. As Assembleias Gerais do Sínodo dos Bispos, que se têm sucedido periodicamente desde 1967, ofereceram à Igreja que está em África preciosas ocasiões para fazer ouvir a própria voz no âmbito universal da Igreja. Assim, na segunda Assembleia Geral Ordinária (1971), os Padres Sinodais de África aproveitaram de bom grado a ocasião que se lhes deparava, para pedir maior justiça no mundo. A terceira Assembleia Geral Ordinária sobre a evangelização no mundo contemporâneo (1974) consentiu que fossem examinados de forma particular os problemas da evangelização em África. Foi nessa altura que os Bispos do Continente, presentes no Sínodo, publicaram uma importante mensagem, intitulada « Promoção da evangelização na corresponsabilidade ».2 Pouco tempo depois, durante o Ano Santo de 1975, o S.C.E.A.M. convocou a sua própria Assembleia Plenária, em Roma, para aprofundar o tema da evangelização.

5. Desde 1977 até 1983, vários Bispos, sacerdotes, pessoas consagradas, teólogos e leigos exprimiram o desejo de um Concílio ou então um Sínodo Africano, cujo objectivo seria a análise do andamento da evangelização em África tendo em vista as grandes opções a realizar para o futuro do Continente. Acolhi favoravelmente e encorajei a iniciativa de uma « deliberação, sob forma a definir », do Episcopado Africano inteiro, « para examinar os problemas religiosos comuns a todo o Continente ».3 Consequentemente o S.C.E.A.M. empenhou-se na procura dos caminhos e meios para levar a bom termo tal projecto de um Encontro continental. Organizou-se uma consulta às Conferências Episcopais e a cada um dos Bispos de África e Madagáscar, após a qual pude convocar a Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos. Em 6 de Janeiro de 1989, no contexto da Solenidade da Epifania — momento litúrgico durante o qual a Igreja sente uma renovada consciência da universalidade da sua missão e do consequente dever de levar a luz de Cristo a todos os povos —, anunciei ter tomado a decisão desta « iniciativa de grande importância para a difusão do Evangelho ». E especifiquei que o fiz, acolhendo a solicitação expressa, muitas vezes e há diverso tempo, pelos Bispos da África, por sacerdotes, teólogos e expoentes do laicado, « para que fosse promovida uma orgânica solidariedade pastoral em todo o território africano e nas ilhas contíguas ».4

Um acontecimento de graça

6. A Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos foi um momento de graça histórico: o Senhor visitou o seu povo que está em África. Com efeito, este Continente vive hoje aquilo que se pode definir um sinal dos tempos, um momento propício, um dia de salvação para a África. Parece chegada uma « hora da África », uma hora favorável que insistentemente convida os mensageiros de Cristo a fazerem-se ao largo e lançarem as redes para a pesca (cf. Lc 5,4). Como nos primórdios do cristianismo, um alto funcionário de Candace, rainha da Etiópia, feliz por ter recebido a fé mediante o Baptismo, prosseguiu o seu caminho tornando-se testemunha de Cristo (cf. Act 8,27-39), assim hoje a Igreja em África, cheia de alegria e gratidão pela fé recebida, deve prosseguir a sua missão evangelizadora, para atrair ao Senhor os povos do Continente, ensinando-lhes a cumprir tudo quanto Ele mandou (cf. Mt 28,20).

A partir da solene liturgia eucarística de abertura, a 10 de Abril de 1994, que celebrei na Basílica Vaticana, juntamente com trinta e cinco Cardeais, um Patriarca, trinta e nove Arcebispos, cento e quarenta e seis Bispos e noventa Sacerdotes, a Igreja, Família de Deus,5 povo dos crentes, congregou-se em redor do túmulo de Pedro. A África estava presente com a diversidade dos seus ritos, unida a todo o Povo de Deus: ela dançava na sua alegria, exprimindo a sua fé na vida, ao som do batuque e de outros instrumentos musicais africanos. Nessa ocasião, a África sentiu que era, segundo a expressão de Paulo VI, « uma nova pátria de Cristo »,6 terra amada pelo eterno Pai.7 Eis porque eu próprio saudei aquele momento de graça com as palavras do Salmista: « Este é o dia que o Senhor fez; alegremo-nos e exultemos nele » (Sal 118117,24).

Destinatários da Exortação

7. Com esta Exortação Apostólica pós-sinodal, em comunhão com a Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, desejo dirigir-me em primeiro lugar aos Pastores e fiéis católicos, e depois aos irmãos das outras Confissões cristãs, àqueles que professam as grandes religiões monoteístas, em particular aos seguidores da religião tradicional africana, e a todos os homens de boa vontade que, de um modo ou doutro, têm a peito o desenvolvimento espiritual e material da África ou detêm nas suas mãos os destinos deste grande Continente.

Em primeiro lugar, como é natural, tenho em mente os próprios Africanos e todos aqueles que habitam no Continente; penso, em particular, aos filhos e filhas da Igreja Católica: Bispos, sacerdotes, diáconos, seminaristas, membros dos Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica, catequistas e todos aqueles que fazem do serviço aos irmãos o ideal da sua existência. Desejo confirmá-los na fé (cf. Lc 22,32) e exortá-los a perseverar na esperança que dá Cristo ressuscitado, vencendo toda a tentação de desânimo.

Plano da Exortação

8. A Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos examinou a fundo o tema que lhe fora proposto: « A Igreja em África e a sua missão evangelizadora rumo ao ano 2000: "Vós sereis minhas testemunhas" (Act 1,8) ». Esta Exortação procurará, consequentemente, seguir de perto o mesmo itinerário. Começará pelo momento histórico, verdadeiro kairós, em que se realizou o Sínodo, examinando os objectivos, a preparação, e o desenvolvimento do mesmo. Deter- -se-á sobre a situação actual da Igreja em África, recordando as diversas fases de empenhamento missionário. Afrontará, depois, os vários aspectos da missão evangelizadora, que reclamam particular atenção da Igreja no momento presente: a evangelização, a inculturação, o diálogo, a justiça e a paz, os meios de comunicação social. A menção das urgências e dos desafios, que interpelam a Igreja em África na vigília já do ano 2000, permitirá esboçar as tarefas da testemunha de Cristo em África, em ordem a um contributo mais eficaz para a edificação do Reino de Deus. Deste modo será possível, no fim, delinear os compromissos da Igreja em África como Igreja missionária: uma Igreja de missão que se torna ela própria missionária. « Vós sereis minhas testemunhas (...) até aos confins do mundo » (Act 1,8).

CAPÍTULO I

UM HISTÓRICO MOMENTO ECLESIAL

9. « Esta Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos é um acontecimento providencial pelo qual devemos dar graças e glorificar o Pai omnipotente e misericordioso, por seu Filho, no Espírito Santo ».8 Foi com estas palavras, proferidas durante a primeira Congregação Geral, que os Padres abriram solenemente a discussão relativa ao tema do Sínodo. Já numa ocasião anterior, eu mesmo tinha expresso idêntica convicção, reconhecendo que « a Assembleia Especial é um acontecimento eclesial de primária grandeza para a África, um kairós, um momento de graça, no qual Deus manifesta a sua salvação. Toda a Igreja é convidada a viver plenamente este tempo de graça, a aceitar e difundir a Boa Nova. O esforço de preparação para o Sínodo irá beneficiar não apenas a própria celebração sinodal, mas redundará já agora em benefício das Igrejas locais que peregrinam em África, cuja fé e testemunho se reforçam, tornando-se elas cada vez mais maduras ».9

Profissão de fé

10. Este momento de graça concretizou-se, antes de mais, numa solene profissão de fé. Congregados ao redor do Túmulo de Pedro para a inauguração da Assembleia Especial, os Padres do Sínodo proclamaram a sua fé, a fé de Pedro que, retorquindo à pergunta de Cristo « Também vós quereis retirar-vos? », respondeu: « Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna; e nós acreditamos e sabemos que és o Santo de Deus » (Jo 6,67-69). Os Bispos da África, na pessoa dos quais a Igreja Católica encontrava naqueles dias uma singular expressão junto do Túmulo do Apóstolo, reiteraram que criam firmemente que a omnipotência e a misericórdia do único Deus se manifestaram sobretudo na Encarnação redentora do Filho de Deus, Filho que é consubstancial ao Pai na unidade do Espírito Santo, e que, nesta unidade trinitária, recebe em plenitude glória e honra. Esta — afirmaram os Padres — é a nossa fé, esta é a fé da Igreja, esta é a fé de todas as Igrejas locais que, disseminadas pelo Continente Africano, caminham para a casa de Deus.

Esta fé em Jesus Cristo foi manifestada, de modo constante, forte e unânime, nas intervenções dos Padres do Sínodo ao longo de toda a Assembleia Especial. Com a força desta fé, os Bispos da África confiaram o seu Continente a Cristo Senhor, convictos de que só Ele, com o seu Evangelho e com a sua Igreja, pode salvar a África das dificuldades actuais e curá-la dos seus numerosos males.10

11. Ao mesmo tempo, por ocasião da abertura solene da Assembleia Especial, os Bispos da África proclamaram publicamente a sua fé na « única Igreja de Cristo, que no Credo confessamos ser una, santa, católica e apostólica ».11 Estes atributos indicam traços essenciais da Igreja e da sua missão. E ela « não os confere a si mesma; é Cristo quem, pelo Espírito Santo, dá à sua Igreja ser una, santa, católica e apostólica, e é ainda Ele quem a chama a realizar cada uma destas qualidades ».12

Todos aqueles que tiveram o privilégio de assistir à celebração da Assembleia Especial para a África, congratularam-se por ver que os católicos africanos estão a assumir cada vez maiores responsabilidades nas suas Igrejas locais e esforçam-se por compreender sempre melhor o que significa ser simultaneamente católico e africano. A celebração da Assembleia Especial manifestou ao mundo inteiro que, na comunhão eclesial, existem legitimamente as Igrejas locais da África, que têm o direito de conservar e desenvolver « tradições próprias, sem detrimento do primado da Cátedra de Pedro, que preside à universal assembleia da caridade, protege as legítimas diversidades e vigia para que as particularidades ajudem a unidade e de forma alguma a prejudiquem ».13

Sínodo de ressurreição, Sínodo de esperança

12. Por singular desígnio da Providência, a solene inauguração da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos teve lugar no segundo Domingo de Páscoa, isto é, na conclusão da Oitava de Páscoa. Os Padres Sinodais, naquele dia reunidos na Basílica Vaticana, estavam bem conscientes do facto de a alegria da sua Igreja brotar do mesmo acontecimento que tinha enchido de júbilo os corações dos Apóstolos no dia de Páscoa: a ressurreição do Senhor Jesus (cf. Lc 24,40-41). Estavam profundamente conscientes da presença do Senhor ressuscitado no seu meio, que lhes dizia como aos Apóstolos: « A paz esteja convosco » (Jo 20,21.26). Eles estavam conscientes da sua promessa de permanecer com a sua Igreja para sempre (cf. Mt 28,20), e, portanto, também durante a realização da Assembleia Sinodal. Este clima pascal em que a Assembleia Especial iniciou os seus trabalhos, com os membros unidos na celebração da sua fé em Cristo ressuscitado, espontaneamente trazia ao meu espírito as palavras dirigidas por Jesus ao apóstolo Tomé: « Bem-aventurados os que, sem terem visto, acreditam! » (Jo 20,29).

13. Foi, realmente, o Sínodo da ressurreição e da esperança, como declararam, com alegria e entusiasmo, os Padres Sinodais nas primeiras frases da sua Mensagem, dirigida ao Povo de Deus. São palavras que de bom grado faço minhas: « Como Maria Madalena na manhã da ressurreição, como os discípulos de Emaús com o coração ardente e a mente esclarecida, a Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos proclama: Cristo, nossa esperança, ressuscitou. Ele alcançou-nos, Ele caminhou connosco. Ele comentou-nos a Escritura; eis aqui o que Ele nos disse: "Eu sou o Primeiro e o Último, O que vive; Eu estava morto, mas eis-Me vivo pelos séculos, e Eu detenho as chaves da morte e da região dos mortos" (Ap 1,17-18). (...) E como S. João em Patmos, em tempos particularmente difíceis, recebeu profecias de esperança para o Povo de Deus, nós também anunciamos a esperança. Neste momento mesmo em que tantos ódios fratricidas, provocados por interesses políticos, dilaceram os nossos povos, no momento em que o peso da dívida internacional ou da desvalorização da moeda os oprimem, nós, Bispos da África, juntamente com todos os participantes neste Santo Sínodo, unidos ao Santo Padre e a todos os nossos Irmãos no Episcopado que nos elegeram, queremos pronunciar uma palavra de esperança e de conforto para ti, Família de Deus que estás em África; para ti, Família de Deus espalhada por todo o mundo: Cristo, nossa Esperança, está vivo, nós viveremos! ».14

14. Exorto todo o Povo de Deus em África a acolher, com espírito confiante, a mensagem de esperança que lhes foi dirigida pela Assembleia Sinodal. Durante os seus debates, os Padres do Sínodo, plenamente conscientes de serem portadores das expectativas não só dos católicos africanos, mas de todos os homens e mulheres daquele Continente, afrontaram com clareza os inúmeros males que oprimem a África de hoje. Exploraram, em toda a sua complexidade e extensão, aquilo que a Igreja é chamada a realizar para favorecer a mudança desejada, mas fizeram-no numa atitude livre de pessimismos ou de desespero. Não obstante o panorama prevalentemente negativo que numerosas regiões da África apresentam hoje, e apesar das dolorosas experiências que não poucos países atravessam, a Igreja tem o dever de afirmar vigorosamente que é possível superar estas dificuldades. Ela deve fortalecer, em todos os Africanos, a esperança numa verdadeira libertação. A sua confiança está fundada, em última instância, na certeza da promessa divina que nos assegura que a nossa história não está fechada em si mesma, mas aberta ao Reino de Deus. Eis porque não se podem justificar o desespero nem o pessimismo, quando se pensa no futuro da África ou de qualquer outra parte do mundo.

Colegialidade afectiva e efectiva

15. Antes de entrar na explanação dos vários argumentos, queria pôr em relevo como o Sínodo dos Bispos constitui um instrumento verdadeiramente propício para favorecer a comunhão eclesial. Quando, quase no final do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI, de veneranda memória, instituiu o Sínodo, indicou claramente que uma das suas finalidades essenciais haveria de ser a de exprimir e promover, sob a guia do Sucessor de Pedro, a comunhão recíproca dos Bispos dispersos pelo mundo.15 O princípio subjacente à instituição do Sínodo dos Bispos é simples: quanto mais firme for a comunhão dos Bispos entre si, tanto mais rica se revelará a comunhão da própria Igreja no seu conjunto. A Igreja em África é testemunha da verdade destas palavras, porque fez a experiência do entusiasmo e dos resultados concretos que acompanharam os preparativos da Assembleia do Sínodo dos Bispos a ela dedicada.

16. Por ocasião do meu primeiro encontro com o Conselho da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, que se reunira tendo em vista a Assembleia Especial para a África, indiquei a razão pela qual pareceu oportuno convocar esta Assembleia: a promoção de « uma orgânica solidariedade pastoral em todo o território africano e nas ilhas contíguas ».16 Com esta expressão, pretendia abraçar os intuitos e objectivos principais para os quais se deveria orientar a dita Assembleia. Para esclarecer ainda melhor as minhas expectativas, acrescentei que as reflexões preparatórias da Assembleia deveriam abarcar « todos os aspectos importantes da vida da Igreja em África e, em particular, deveriam abranger a evangelização, a inculturação, o diálogo, a solicitude pastoral no campo social e os meios de comunicação social ».17

17. Durante as minhas visitas pastorais a África, frequentemente me referi à Assembleia Especial e aos principais objectivos para que fora convocada. Quando tomei parte, pela primeira vez em terra africana, numa reunião do Conselho do Sínodo, não deixei de sublinhar a minha convicção de que uma Assembleia Sinodal não pode reduzir-se a uma consulta sobre argumentos práticos. A sua verdadeira razão de ser está no facto de a Igreja não poder crescer senão reforçando a comunhão entre os seus membros, a começar pelos seus Pastores.18

Cada Assembleia Sinodal manifesta e desenvolve a solidariedade entre os responsáveis das Igrejas particulares no cumprimento da sua missão para além dos confins das respectivas dioceses. Como ensinou o Concílio Vaticano II, « os Bispos, como legítimos sucessores dos Apóstolos e membros do colégio episcopal, considerem-se unidos sempre entre si e mostrem-se solícitos de todas as Igrejas, pois cada um, por instituição divina e por exigência do múnus apostólico, é responsável por toda a Igreja, juntamente com os outros Bispos ».19

18. O tema que confiei à Assembleia Especial — « A Igreja em África e a sua missão evangelizadora rumo ao ano 2000: "Vós sereis minhas testemunhas" (Act 1,8) » — manifesta o meu desejo de que esta Igreja viva o tempo que falta até ao Grande Jubileu como um « novo Advento », tempo de expectativa e de preparação. De facto, considero a preparação para o ano 2000 como uma das chaves de interpretação do meu Pontificado.20

As Assembleias Sinodais que se sucederam neste arco de quase trinta anos — as Assembleias Gerais e as Especiais continentais, regionais ou nacionais — colocam-se todas nesta perspectiva de preparação do Grande Jubileu. O facto de a evangelização ser o tema de todas estas Assembleias Sinodais indica quão viva seja hoje na Igreja a consciência da missão salvífica recebida de Cristo. Esta tomada de consciência manifesta-se, com singular evidência, nas Exortações Apostólicas pós-sinodais dedicadas à evangelização, à catequese, à família, à penitência e à reconciliação na vida da Igreja e da humanidade inteira, à vocação e missão dos leigos, à formação dos presbíteros.

Em plena comunhão com a Igreja Universal

19. Desde o início da preparação da Assembleia Especial que tive bem vivo o desejo, plenamente compartilhado pelo Conselho da Secretaria Geral, de fazer com que este Sínodo fosse autêntica e inequivocamente africano. Mas, simultaneamente, era de importância fundamental que a Assembleia Especial fosse celebrada em plena comunhão com a Igreja Universal. E, de fa- cto, a Assembleia sempre teve em consideração a Igreja Universal. Reciprocamente, quando chegou o momento de publicar os Lineamenta, não deixei de convidar os meus Irmãos no Episcopado e todo o Povo de Deus, espalhado pelo mundo, a recordarem na oração a Assembleia Especial para a África e a sentirem-se implicados nas actividades promovidas em ordem a tal acontecimento.

Esta Assembleia, como frequentemente tive ocasião de afirmar, reveste uma notável importância para a Igreja Universal, não só por causa do interesse que a sua convocação suscitou por todo o lado, mas também pela natureza mesma da comunhão eclesial, que transcende qualquer fronteira de tempo e espaço. De facto, a Assembleia Especial inspirou muita oração e boas obras, pelas quais os fiéis e as comunidades da Igreja nos outros continentes acompanharam o desenrolar do Sínodo. E como duvidar de que, no mistério da comunhão eclesial, tenham vindo também em apoio dele as orações dos Santos no Céu?

Quando estabeleci que a primeira fase dos trabalhos da Assembleia Especial tivesse lugar em Roma, fi-lo para sublinhar mais eloquentemente ainda a comunhão que liga a Igreja que está em África à Igreja Universal, de modo a evidenciar o empenho de todos os fiéis a favor da África.

20. A solene concelebração eucarística de abertura do Sínodo, que presidi na Basílica de S. Pedro, pôs em relevo de modo maravilhoso e emocionante a universalidade da Igreja. Esta universalidade, « que não é uniformidade, mas comunhão de diferenças compatíveis com o Evangelho »,21 foi vivida por todos os Bispos. Todos eles, enquanto membros do corpo episcopal que sucede ao Colégio Apostólico, tinham consciência de terem sido consagrados não só em benefício duma diocese, mas para a salvação do mundo inteiro.22

Dou graças a Deus Todo-Poderoso pela ocasião que nos deu de experimentar, por meio da Assembleia Especial, o que comporta uma autêntica catolicidade. « Em virtude desta mesma catolicidade, cada uma das partes traz às outras e a toda a Igreja os seus dons particulares ».23

Uma mensagem pertinente e credível

21. Segundo os Padres Sinodais, a questão principal que a Igreja em África deve enfrentar, consiste em descrever, com toda a clareza possível, aquilo que ela tem de ser e realizar em plenitude, para que a sua mensagem seja pertinente e credível.24 Todos os debates na Assembleia fizeram referência a esta exigência, verdadeiramente essencial e fundamental, um autêntico desafio para a Igreja em África.

É verdade, sem dúvida, « que o Espírito Santo é o agente principal de evangelização: é Ele que impele a anunciar o Evangelho, como é Ele que, no íntimo das consciências, leva a aceitar a Palavra da salvação ».25 Mas, uma vez reafirmada esta verdade, a Assembleia Especial quis justamente acrescentar que a evangelização é também uma missão que o Senhor Jesus confiou à sua Igreja, sob a guia e a força do Espírito Santo. É necessária a nossa cooperação através da oração fervorosa, duma grande reflexão, de projectos adequados e da mobilização de todos os recursos.26

O debate sinodal sobre o tema da pertinência e credibilidade da mensagem da Igreja em África não podia deixar de implicar uma reflexão sobre a credibilidade dos próprios arautos dessa mensagem. Os Padres enfrentaram a questão de modo directo, com profunda sinceridade, sem qualquer indulgência. Disto se ocupara já o Papa Paulo VI que, com palavras memoráveis, recordara: « Ouve-se repetir, com frequência hoje em dia, que este nosso século tem sede de autenticidade. A propósito dos jovens, sobretudo, afirma-se que eles têm horror ao fictício, àquilo que é falso, e que procuram, acima de tudo, a verdade e a transparência. Estes sinais dos tempos deveriam encontrar-nos vigilantes. Tacitamente ou em altos brados, mas sempre com grande vigor, eles fazem-nos a pergunta: acreditais verdadeiramente naquilo que anunciais? Viveis aquilo em que acreditais? Pregais vós verdadeiramente aquilo que viveis? Mais do que nunca, portanto, o testemunho da vida tornou-se uma condição essencial para a eficácia profunda da pregação. Sob este ângulo, somos, até certo ponto, responsáveis pelo avanço do Evangelho que nós proclamamos ».27

Eis porque, referindo-me à missão evangelizadora da Igreja no campo da justiça e da paz, afirmei: « A Igreja está consciente, hoje mais que nunca, de que a sua mensagem social encontrará credibilidade primeiro no testemunho das obras e só depois na sua coerência e lógica interna ».28

22. Como não recordar, aqui, que já a oitava Assembleia Plenária do S.C.E.A.M., realizada em Lagos, na Nigéria, no ano 1987, tinha examinado, com notável clareza, a questão da credibilidade e pertinência da mensagem da Igreja em África?! A referida Assembleia declarara que a credibilidade da Igreja em África dependia de Bispos e sacerdotes capazes de dar testemunho de uma vida exemplar, seguindo as pegadas de Cristo; de religiosos realmente fiéis, autênticas testemunhas pelo seu modo de viver os conselhos evangélicos; de um laicado dinâmico, com pais profundamente crentes, educadores conscientes das suas responsabilidades, dirigentes políticos animados de profundo sentido moral.29

Família de Deus em caminho sinodal

23. No dia 23 de Junho de 1989, dirigindo-me aos membros do Conselho da Secretaria Geral, falei com grande insistência sobre a participação, na preparação da Assembleia Especial, de todo o Povo de Deus, a todos os níveis, especialmente em África. « Se for bem preparada — disse —, a Assembleia do Sínodo permitirá envolver todos os níveis da comunidade cristã: indivíduos, pequenas comunidades, paróquias, dioceses e organizações locais, nacionais e internacionais ».30

Desde o início do meu Pontificado até à inauguração da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, pude efectuar dez visitas pastorais ao Continente Africano, abrangendo trinta e seis nações. Por ocasião das viagens apostólicas sucessivas à convocação da Assembleia Especial, os temas do Sínodo e da necessidade de todos os fiéis se prepararem para a Assembleia Sinodal sempre estiveram presentes, de forma saliente, nos meus encontros com o Povo de Deus em África. Vali-me também das visitas ad limina dos Bispos daquele Continente para solicitar a colaboração de todos na preparação da Assembleia Especial para a África. Além disso, em três diferentes ocasiões, realizei, junto com o Conselho da Secretaria Geral do Sínodo, sessões de trabalho em terra africana: em Yamoussoukro na Costa do Marfim (1990), na cidade de Luanda em Angola (1992), e em Kampala no Uganda (1993), sempre com o objectivo de convidar os Africanos a tomarem parte activa e unânime na preparação da Assembleia Sinodal.

24. A apresentação dos Lineamenta em Lomé, a 25 de Julho de 1990, por ocasião da nona Assembleia Geral do S.C.E.A.M., constituiu, sem dúvida, uma etapa nova e importante do caminho preparatório para a Assembleia Especial. Pode-se justamente afirmar que a publicação dos Lineamenta desencadeou decididamente os preparativos do Sínodo, em todas as Igrejas particulares da África. A Assembleia do S.C.E.A.M., em Lomé, adoptou uma Oração pela Assembleia Especial e pediu que fosse rezada, publica e privadamente, em todas as paróquias africanas até à celebração do Sínodo. Esta iniciativa do S.C.E.A.M. foi verdadeiramente feliz e não passou despercebida na Igreja Universal.

Em seguida, para favorecer a difusão dos Lineamenta, numerosas Conferências Episcopais e dioceses fizeram traduzir o documento nas suas línguas, como, por exemplo, em suaíle, árabe, malgaxe, e outras línguas. « Publicações, conferências e simpósios sobre os temas do Sínodo foram organizados por diversas Conferências Episcopais, Institutos de Teologia e Seminários, Associações de Institutos de Vida Consagrada, dioceses, alguns jornais e periódicos importantes, Bispos e teólogos ».31

25. Elevo fervorosas acções de graças a Deus Omnipotente pelo cuidado singular com que foram redigidos os Lineamenta e o Instrumentum laboris 32 do Sínodo. Foi um trabalho afrontado e realizado por africanos, Bispos e peritos, a começar da Comissão Preliminar do Sínodo, nos meses de Janeiro a Março de 1989. A Comissão seria, depois, revezada pelo Conselho da Secretaria Geral da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, que fora por mim instituído a 20 de Junho de 1989.

Estou profundamente grato, ainda, ao grupo de trabalho que tão bem cuidou as liturgias eucarísticas de abertura e encerramento do Sínodo. Contando entre os seus membros, teólogos, liturgistas e peritos em cânticos e instrumentos africanos de expressão litúrgica, o grupo quis, como era desejo meu, fazer com que aquelas cerimónias fossem marcadas por nítido carácter africano.

26. Agora devo acrescentar que a resposta dos Africanos ao meu apelo a participarem na preparação do Sínodo foi verdadeiramente admirável. O acolhimento reservado aos Lineamenta, tanto dentro como fora das comunidades eclesiais africanas, superou largamente toda e qualquer previsão. Muitas Igrejas locais serviram-se dos Lineamenta para mobilizar os fiéis, e podemos, desde já, afirmar com certeza que os frutos do Sínodo começam a manifestar-se num novo compromisso e numa renovada tomada de consciência por parte dos cristãos da África.33

Ao longo das várias fases de preparação da Assembleia Especial, numerosos membros da Igreja em África — clero, religiosos, religiosas, leigos — inseriram-se de foram exemplar no itinerário sinodal, « caminhando juntos », pondo cada um os próprios talentos ao serviço da Igreja e rezando juntos fervorosamente pelo bom êxito do Sínodo. Mais de uma vez, os Padres do Sínodo assinalaram, ao longo da Assembleia Sinodal, que o seu trabalho fora facilitado precisamente pela « preparação solícita e minuciosa deste Sínodo, realizada com o envolvimento activo da Igreja em África, a todos os níveis ».34

Deus quer salvar a África

27. O Apóstolo dos Gentios diz-nos que Deus « quer que todos os homens se salvem e conheçam a verdade. Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Homem, que Se deu em resgate por todos » (1 Tim 2,4-6). Uma vez que Deus chama todos os homens a um único e mesmo destino, que é divino, « devemos manter que o Espírito Santo a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal por um modo só de Deus conhecido ».35 O amor redentor de Deus abraça a humanidade inteira: toda a raça, tribo e nação; por conseguinte, abraça também as populações do Continente Africano. A Providência divina quis que a África estivesse presente, durante a Paixão de Cristo, na pessoa de Simão de Cirene, obrigado pelos soldados romanos a ajudar o Senhor a levar a Cruz (cf. Mc 15,21).

28. A liturgia do sexto Domingo de Páscoa de 1994, vivida na solene Celebração Eucarística da conclusão da Fase de Trabalho da Assembleia Especial, proporcionou-me a ocasião de desenvolver uma reflexão sobre o desígnio salvífico de Deus a respeito da África. Uma das leituras bíblicas, tirada dos Actos dos Apóstolos, evocava um acontecimento que pode ser considerado como o primeiro passo na missão da Igreja ao encontro dos pagãos: o relato da visita feita por Pedro, sob o impulso do Espírito Santo, à casa de um pagão, o centurião Cornélio. Até àquele momento, o Evangelho fora proclamado sobretudo aos hebreus. Depois de ter hesitado bastante, Pedro, iluminado pelo Espírito, decidiu ir à casa de um pagão. Chegado lá, teve a alegre surpresa de constatar o facto de que o centurião esperava Cristo e o Baptismo. O livro dos Actos dos Apóstolos assim o narra: « Os fiéis circuncisos que tinham vindo com Pedro, ficaram maravilhados ao verem que o dom do Espírito Santo fora derramado também sobre os pagãos, pois ouviam-nos falar em línguas e glorificar a Deus » (10, 45-46).

Em casa de Cornélio, reproduziu-se de algum modo o milagre do Pentecostes. Pedro disse então: « Reconheço, na verdade, que Deus não faz acepção de pessoas, mas que qualquer nação que O teme e põe em prática a justiça, Lhe é agradável. (...) Poderá alguém recusar a água do Baptismo aos que receberam o Espírito Santo como nós? » (Act 10, 34-35.47).

Começou assim a missão da Igreja ad gentes, da qual Paulo de Tarso se tornará o principal arauto. Os primeiros missionários chegados ao coração de África sentiram seguramente uma admiração semelhante à experimentada pelos cristãos dos tempos apostólicos, perante a efusão do Espírito Santo.

29. O desígnio que Deus tem de salvar a África, está na origem da difusão da Igreja neste Continente. Ora, sendo a Igreja, segundo a vontade de Cristo, por sua natureza missionária, segue- -se daí que a Igreja em África é chamada a assumir ela própria um papel activo ao serviço do projecto salvador de Deus. Por isso, disse que « a Igreja em África é Igreja missionária e em missão ».36

A Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos teve a missão de examinar os meios pelos quais os Africanos poderão realizar melhor o mandato que o Senhor ressuscitado deu aos seus discípulos: « Ide, pois, ensinai todas as nações » (Mt 28,19).

CAPÍTULO II

A IGREJA EM ÁFRICA

I. Breve história da evangelização no continente

30. No dia da abertura da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, primeira assembleia do género na história, os Padres Sinodais recordaram algumas das maravilhas operadas por Deus ao longo da evangelização da África. É uma história que remonta à época do próprio nascimento da Igreja. A difusão do Evangelho deu-se em diversas fases. Os primeiros séculos do cristianismo viram a evangelização do Egipto e da África do Norte. Uma segunda fase, envolvendo as regiões daquele Continente situadas ao sul do Saara, teve lugar nos séculos XV e XVI. Uma terceira fase, caracterizada por um extraordinário esforço missionário, teve início no século XIX.

Primeira fase

31. Numa mensagem aos Bispos e a todos os povos da África, em ordem à promoção do bem-estar material e espiritual do Continente, o meu venerado predecessor Paulo VI recordou, com palavras memoráveis, o glorioso esplendor do passado cristão da África: « Pensamos nas Igrejas cristãs de África, cuja origem vem dos tempos apostólicos e está ligada, segundo a tradição, ao nome e ensinamento do evangelista Marcos. Pensamos no coro inumerável de santos, mártires, confessores, virgens, que a elas pertencem. Na realidade, desde o século II ao século IV, a vida cristã, nas regiões setentrionais de África, foi intensíssima e esteve na vanguarda, tanto do estudo teológico como da expressão literária. Saltam-nos à memória os nomes dos grandes doutores e escritores, como Orígenes, Santo Atanásio e S. Cirilo, luminares da Escola Alexandrina; e, na outra extremidade mediterrânica da África, Tertuliano, S. Cipriano, e sobretudo Santo Agostinho, um dos espíritos mais brilhantes do cristianismo. Recordemos os grandes santos do deserto, Paulo, Antão e Pacómio, primeiros fundadores do monaquismo, que depois havia de difundir-se a seu exemplo, no Oriente e no Ocidente. E, entre tantos outros, não podemos deixar de mencionar S. Frumêncio, chamado Abba Salama, que, tendo sido sagrado Bispo por Santo Atanásio, foi o apóstolo da Etiópia ».37 Durante estes primeiros séculos da Igreja em África, também algumas mulheres deram testemunho de Cristo. De entre elas, obrigatória é a menção particular das Santas Felicidade e Perpétua, Santa Mónica, e Santa Tecla.

« Estes exemplos luminosos e as figuras dos Santos Papas africanos Vítor I, Melquíades e Gelásio I, pertencem ao património comum da Igreja; e os escritos dos autores cristãos da África ainda hoje são fundamentais para o aprofundamento histórico da salvação, à luz da Palavra de Deus. Ao recordar as antigas glórias da África cristã, desejaríamos exprimir o nosso profundo respeito pelas Igrejas, com as quais ainda não estamos em plena comunhão: a Igreja Grega do Patriarcado de Alexandria, a Igreja Copta do Egipto e a Igreja da Etiópia, que têm em comum com a Igreja Católica a origem e a herança doutrinal e espiritual dos grandes santos e Padres da Igreja, não somente da sua terra, mas de toda a Igreja Antiga. Elas trabalharam e sofreram muito para manter vivo o nome cristão na África, através das vicissitudes dos tempos ».38 Essas Igrejas dão ainda hoje o testemunho da vitalidade cristã, que elas recebem das suas raízes apostólicas, particularmente no Egipto e na Etiópia, e, até ao século XVII, na Núbia. No resto do Continente, começava então uma nova etapa de evangelização.

Segunda fase

32. Nos séculos XV e XVI, a exploração da costa africana pelos portugueses foi rapidamente acompanhada pela evangelização das regiões da África situadas ao sul do Saara. Tal esforço incluía, entre outras zonas, as regiões do actual Benin, S. Tomé, Angola, Moçambique, e Madagáscar.

No dia 7 de Junho de 1992, Domingo de Pentecostes, em Luanda, por ocasião da comemoração dos 500 anos da evangelização de Angola, entre outras coisas, afirmei: « Os Actos dos Apóstolos descrevem nominalmente os habitantes dos sítios que tomaram parte directamente no nascimento da Igreja pelo sopro do Espírito Santo. Eis o que todos diziam: "Ouvimo-los anunciar em nossas línguas as maravilhas de Deus" (Act 2,11). Há quinhentos anos, a este coro de línguas vieram-se juntar os povos de Angola. Naquele instante, na vossa pátria africana, renovou-se o Pentecostes de Jerusalém. Os vossos antepassados ouviram a mensagem da Boa Nova, que é a língua do Espírito. Os seus corações acolheram pela primeira vez esta palavra e inclinaram as suas cabeças nas fontes da água baptismal, onde o homem, por obra do Espírito Santo, morre junto com Cristo crucificado e renasce para uma nova vida na sua ressurreição (...). Foi certamente o mesmo Espírito que impeliu aqueles homens de fé, os primeiros missionários, que em 1491 aportaram à foz do rio Zaire, em Pinda, iniciando uma autêntica epopeia missionária. Foi o Espírito Santo, que age a seu modo no coração de cada homem, que moveu o grande rei do Congo, Nzinga-a-Nkuwu, a pedir missionários para anunciar o Evangelho. Foi o Espírito Santo que animou a vida daqueles quatro primeiros cristãos angolanos que, regressados da Europa, testemunhavam o valor da fé cristã. Depois dos primeiros missionários, muitos outros vieram de Portugal e de outros países da Europa para continuar, ampliar e consolidar a obra começada ».39

Durante esse período, erigiu-se um certo número de sedes episcopais, e uma das primícias deste empenho missionário foi a sagração de D. Henrique — filho de D. Afonso I, rei do Congo — como bispo titular de Utica, feita em Roma por Leão X, no ano 1518. D. Henrique tornou-se assim o primeiro bispo autóctone da África negra.

Foi por aquele tempo, mais concretamente no ano 1622, que o meu predecessor Gregório XV erigiu, de modo estável, a Congregação De Propaganda Fide, com a finalidade de desenvolver e organizar melhor as missões.

Por dificuldades de vário género, a segunda fase de evangelização da África terminou no século XVIII com a extinção de quase todas as missões situadas ao sul do Saara.

Terceira fase

33. A terceira fase de evangelização sistemática da África começou no século XIX, período caracterizado por um esforço extraordinário, promovido por grandes apóstolos e animadores da missão africana. Foi um período de rápido crescimento, como demonstram claramente as estatísticas apresentadas na Assembleia Sinodal pela Congregação para a Evangelização dos Povos.40 A África respondeu, com grande generosidade, ao chamamento de Cristo. Nestes últimos decénios, numerosos países africanos celebraram o primeiro centenário do início da sua evangelização. O crescimento da Igreja em África, de há cem anos para cá, constitui verdadeiramente um prodígio da graça de Deus.

A glória e o esplendor do período contemporâneo da evangelização neste Continente são ilustrados de forma admirável pelos santos que a África moderna deu à Igreja. O Papa Paulo VI pôde exprimir eloquentemente esta realidade, quando canonizou os mártires do Uganda na Basílica de S. Pedro, por ocasião do Dia Mundial das Missões de 1964: « Estes mártires africanos acrescentam ao álbum dos vencedores, chamado Martirológio, uma página ao mesmo tempo trágica e grandiosa, verdadeiramente digna de figurar ao lado das célebres narrações da África Antiga. (...) A África, orvalhada com o sangue destes mártires, que são os primeiros desta nova era (e queira Deus que sejam os últimos — tão grande e precioso é o seu holocausto!), a África renasce livre e resgatada ».41

34. A lista dos santos que a África dá à Igreja, lista que é o seu maior título de honra, continua a crescer. Como poderemos deixar de mencionar, entre os mais recentes, Clementina Anwarite, virgem e mártir do Zaire, que beatifiquei em terra africana no ano 1985, Vitória Rasoamanarivo de Madagáscar, e Josefina Bakhita do Sudão, beatificadas também elas durante o meu Pontificado? E como não recordar o Beato Isídoro Bakanja, mártir do Zaire, que tive o privilégio de elevar às honras dos altares durante a Assembleia Especial para a África?

« Outras causas vão maturando. A Igreja em África deve providenciar à redacção do seu próprio Martirológio, juntando às magníficas figuras dos primeiros séculos (...) os mártires e os santos das épocas recentes ».42

Defronte ao crescimento admirável da Igreja em África nos últimos cem anos, diante dos frutos de santidade que se obtiveram, não há senão uma explicação possível: tudo isso é dom de Deus, porque nenhum esforço humano teria conseguido realizar semelhante obra, num período relativamente tão breve. Contudo, não há lugar para triunfalismos humanos. Lembrando o glorioso esplendor da Igreja neste Continente, os Padres Sinodais quiseram apenas celebrar as maravilhas operadas por Deus para a libertação e salvação da África.

« Tudo isto veio do Senhor,
e é admirável aos nossos olhos »
(Sal 118117,23).
« O Todo-Poderoso fez em Mim maravilhas,
Santo é o seu Nome » (Lc 1,49).

Homenagem aos missionários

35. O crescimento esplendoroso e as realizações da Igreja em África devem-se, em grande parte, à dedicação heróica e desinteressada de gerações de missionários. Isto todos o reconhecem. A terra abençoada da África está literalmente semeada de sepulturas de valorosos arautos do Evangelho.

Quando os Bispos da África se encontraram em Roma para a Assembleia Especial, estavam bem conscientes da dívida de gratidão que o Continente tem para com os seus antepassados na fé.

No discurso dirigido à primeira Assembleia do S.C.E.A.M., em Kampala, no dia 31 de Julho de 1969, o Papa Paulo VI fez referência a esta dívida de gratidão: « Vós, Africanos, sois já os missionários de vós mesmos. A Igreja de Cristo está verdadeiramente plantada nesta terra abençoada (cf. Decr. Ad gentes, 6). Temos um dever a cumprir: devemos evocar a lembrança daqueles que em África, antes de vós e ainda hoje convosco, pregaram o Evangelho, como nos adverte a Sagrada Escritura: "Lembrai-vos daqueles que vos pregaram a palavra de Deus, considerai o êxito da sua carreira e imitai a sua fé" (Heb 13,7). É uma história que não devemos esquecer, porque confere à Igreja local a nota da sua autenticidade e nobreza — a nota "apostólica"; essa história é um drama de caridade, de heroísmo, de sacrifício, que faz grande e santa, desde as origens, a Igreja africana »43

36. A Assembleia Especial satisfez condignamente esta dívida de gratidão, por ocasião da sua primeira Congregação Geral, quando declarou: « Cabe aqui prestar uma vibrante homenagem aos missionários, homens e mulheres de todos os Institutos Religiosos e Seculares, bem como a todos os países que, durante os cerca de 2000 anos de evangelização do Continente Africano, (...) se entregaram devotadamente à transmissão da chama da fé cristã. (...) Eis porque nós, felizes herdeiros dessa aventura maravilhosa, devemos dar graças a Deus, numa circunstância tão solene como esta ».44

Na Mensagem ao Povo de Deus, os Padres Sinodais renovaram com vigor a homenagem aos missionários, sem esquecerem de prestar homenagem também aos filhos e filhas da África, especialmente aos catequistas e aos intérpretes, que colaboraram com eles.45

37. Devido à grande epopeia missionária de que foi palco o Continente Africano, sobretudo durante os últimos dois séculos, é que pudemos encontrar-nos em Roma para celebrar a Assembleia Especial para a África. A semente, que a seu tempo foi lançada, produziu frutos abundantes. Os meus Irmãos no Episcopado, filhos dos povos da África, são disso mesmo um testemunho eloquente. Juntamente com os seus presbíteros, carregam já sobre os ombros grande parte do trabalho de evangelização. Atestam-no também os numerosos filhos e filhas da África, que aderem às antigas Congregações missionárias ou entram nos novos Institutos nascidos em terra africana, recolhendo em suas mãos a chama da consagração total ao serviço de Deus e do Evangelho.

Radicação e crescimento da Igreja

38. O facto de o número dos católicos em África, no espaço de quase dois séculos, ter crescido tão rapidamente, constitui por si mesmo um resultado notável sob qualquer ponto de vista. De modo particular, confirmam a consolidação da Igreja no Continente elementos como o sensível e rápido aumento do número das circunscrições eclesiásticas, o crescimento do clero autóctone, dos seminaristas e dos candidatos nos Institutos de Vida Consagrada, a progressiva extensão da rede dos catequistas, cujo contributo para a difusão do Evangelho entre as populações africanas é bem conhecido de todos. Fundamental relevo tem, enfim, a alta percentagem de Bispos nativos que compõem já a Hierarquia no Continente.

Os Padres Sinodais registaram numerosos e significativos passos, realizados pela Igreja em África nos campos da inculturação e do diálogo ecuménico.46 As notáveis e meritórias realizações no campo da educação são universalmente reconhecidas.

Embora os católicos representem apenas catorze por cento da população africana, as instituições católicas no campo da saúde representam dezassete por cento do total das estruturas sanitárias de todo o Continente.

As iniciativas, corajosamente empreendidas pelas jovens Igrejas da África para levar o Evangelho « até aos confins do mundo » (Act 1,8), são seguramente dignas de realce. Os Institutos missionários surgidos em África têm crescido numericamente e começaram já a fornecer pessoal não só para os países do Continente, mas ainda para outras regiões da terra. Sacerdotes diocesanos de África, cujo número está lentamente a crescer, começam a ficar disponíveis por períodos limitados, como presbíteros fidei donum que vão trabalhar noutras dioceses pobres de pessoal, na própria nação ou fora. As províncias africanas dos Institutos Religiosos de direito pontifício, tanto masculinos como femininos, viram também elas aumentar os seus membros. Deste modo, a Igreja coloca-se ao serviço dos povos africanos; além disso, ela aceita entrar no « intercâmbio de dons » com outras Igrejas particulares no âmbito alargado do Povo de Deus. Tudo isto manifesta, de modo tangível, a maturidade alcançada pela Igreja em África: foi isto que tornou possível a celebração da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos.

Como se apresenta a África?

39. Há pouco menos de trinta anos, vários países africanos tornavam-se independentes das potências coloniais. Isto suscitou grandes expectativas no que respeita ao progresso político, económico, social e cultural daqueles povos. Apesar de, « nalguns países, a situação interna não se ter ainda infelizmente consolidado e a violência ter tido muitas vezes o predomínio, não se pode admitir uma condenação geral que envolva todo um povo ou toda uma nação, pior ainda, todo um continente ».47

40. Mas qual é, hoje, a situação real do Continente Africano no seu todo, sobretudo do ponto de vista da missão evangelizadora da Igreja? A este propósito, os Padres Sinodais começaram por colocar uma pergunta: « Num continente saturado de más notícias, como poderá a mensagem cristã ser "Boa Nova" para o nosso povo? No meio do desespero que tudo invade, onde estão a esperança e o optimismo que o Evangelho oferece? A evangelização promove muitos dos valores essenciais que tanta falta fazem ao nosso continente: esperança, paz, alegria, harmonia, amor e unidade ».48

Depois de terem justamente sublinhado que a África é um imenso continente com situações muito diversas, pelo que é preciso evitar generalizações tanto na avaliação dos problemas como ao sugerir soluções, a Assembleia Sinodal, com pena, teve de constatar: « Uma situação comum é, sem dúvida, o facto da África estar saturada de problemas: em quase todas as nossas nações existem condições de miséria espantosa, má administração dos poucos recursos disponíveis, instabilidade política e desorientação social. O resultado está à vista: desolação, guerras e desespero. Num mundo controlado pelas nações ricas e poderosas, a África tornou-se praticamente um apêndice sem importância, muitas vezes esquecida e abandonada por todos ».49

41. Segundo muitos Padres Sinodais, a África actual pode ser comparada àquele homem que descia de Jerusalém para Jericó; ele cai nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancada, o abandonaram, deixando-o meio morto (cf. Lc 10,30-37). A África é um continente onde inumeráveis seres humanos — homens e mulheres, crianças e jovens — jazem, de algum modo, prostrados à margem da estrada, doentes, feridos, indefesos, marginalizados e abandonados. Têm extrema necessidade de bons Samaritanos que venham em sua ajuda.

Eu faço votos de que a Igreja continue paciente e incansavelmente a sua obra de bom Samaritano. Na verdade, regimes, hoje desaparecidos, sujeitaram, durante um longo período, os Africanos a dura prova, enfraquecendo a sua capacidade de reacção: o homem ferido deve recobrar todos os recursos da sua humanidade. Os filhos e filhas de África têm necessidade de presença respeitadora e de solicitude pastoral, que os ajude a retomarem as suas próprias energias para colocá-las ao serviço do bem comum.

Valores positivos da cultura africana

42. Apesar das suas grandes riquezas naturais, a África permanece numa situação económica de pobreza. Possui, todavia, uma rica variedade de valores culturais e de inestimáveis qualidades humanas, que pode oferecer às Igrejas e à humanidade inteira. Os Padres Sinodais puseram em evidência alguns desses valores culturais, que constituem seguramente uma preparação providencial à transmissão do Evangelho; são valores que podem favorecer uma evolução positiva na dramática situação do Continente, e dar início àquela reanimação global de que depende o desejado progresso das diversas nações.

Os Africanos têm um profundo sentido religioso, o sentido do sagrado, o sentido da existência de Deus criador e de um mundo espiritual. A realidade do pecado, nas suas formas individuais e sociais, é bem percebida pela consciência daqueles povos, como sentida é também a necessidade de ritos de purificação e expiação.

43. Na cultura e na tradição africana, o papel da família é considerado por todo o lado como fundamental. Aberto a este sentido da família, do amor e respeito pela vida, o africano ama os filhos, que são recebidos alegremente como um dom de Deus. « Os filhos e filhas de África amam a vida. É precisamente o amor pela vida que os leva a atribuir tão grande importância à veneração dos antepassados. Eles crêem instintivamente que os mortos continuam a viver e permanecem em comunhão com eles. Não é isto, de algum modo, uma preparação à fé na comunhão dos Santos?! Os povos da África respeitam a vida desde que é concebida até nascer. Alegram-se com esta vida. Rejeitam a ideia de que ela possa ser aniquilada, mesmo quando a isso quereriam induzi-los as chamadas "civilizações avançadas". E as práticas hostis à vida são-lhes impostas por meio de sistemas económicos ao serviço do egoísmo dos ricos ».50 Os Africanos demonstram respeito pela vida até ao seu termo natural, e reservam um lugar no seio da família para os anciãos e os parentes.

As culturas africanas têm um sentido muito vivo da solidariedade e da vida comunitária. Em África, não se concebe uma festa que não seja compartilhada por toda a povoação. De facto, a vida comunitária nas sociedades africanas é expressão da família alargada. Com votos ardentes, rezo — e peço para rezarem — a fim de que a África conserve sempre esta preciosa herança cultural e para que não sucumba nunca à tentação do individualismo, tão estranho às suas melhores tradições.

Algumas opções dos povos africanos

44. Sem minimizar de forma alguma os aspectos trágicos da situação africana, atrás evocados, vale a pena lembrar aqui algumas realizações positivas dos povos do Continente, que merecem ser louvadas e encorajadas. Na sua Mensagem ao Povo de Deus, os Padres Sinodais recordaram com alegria, por exemplo, a instauração do processo democrático em muitos países africanos, e fizeram votos de que tal se consolide, e sejam rapidamente afastados os obstáculos e resistências ao Estado de direito, graças à colaboração de todos os protagonistas e ao seu sentido do bem comum.51

Os « ventos de mudança » sopram vigorosamente em muitos lugares do Continente, e o povo pede, com insistência cada vez maior, o reconhecimento e a promoção dos direitos e liberdades do homem. A tal propósito, assinalo com satisfação que a Igreja em África, fiel à sua vocação, se coloca decididamente ao lado dos oprimidos, dos povos sem voz e marginalizados. Encorajo-a firmemente a que continue a prestar tal testemunho. A opção preferencial pelos pobres é « uma forma especial de primado na prática da caridade cristã, testemunhada por toda a tradição da Igreja. (...) A estimulante preocupação pelos pobres — os quais, segundo a fórmula significativa, são "os pobres do Senhor" — deve traduzir-se, a todos os níveis, em actos concretos até chegar decididamente a uma série de reformas necessárias ».52

45. Não obstante a sua pobreza e os poucos meios de que dispõe, a Igreja em África reveste um papel de primeiro plano no que respeita ao desenvolvimento humano integral; as suas notáveis realizações neste campo gozam frequentemente do reconhecimento dos Governos e dos peritos internacionais.

A Assembleia Especial para a África exprimiu profunda gratidão a « todos os cristãos e a todos os homens de boa vontade que trabalham, nos campos da assistência e da promoção, com a nossa Cáritas ou as nossas organizações de desenvolvimento ».53 A assistência que eles, como bons Samaritanos, dão às vítimas africanas das guerras e catástrofes, aos refugiados e deslocados, merece admiração, reconhecimento e apoio da parte de todos.

Por fim, tenho de exprimir viva gratidão à Igreja em África pelo papel que ela desempenhou, ao longo dos anos, a favor da paz e da reconciliação, em numerosas situações de conflito, perturbação política ou guerra civil.

II. Problemas actuais da Igreja em África

46. Os Bispos da África têm pela frente duas questões essenciais: como há-de a Igreja levar por diante a sua missão evangelizadora neste aproximar-se do ano 2000? Como poderão os cristãos africanos tornar-se testemunhas cada vez mais fiéis do Senhor Jesus? Para oferecer respostas adequadas a tais questões, os Bispos, antes e durante a Assembleia Especial, passaram em revista os principais desafios que a comunidade eclesial africana tem hoje de enfrentar.

Evangelização em profundidade

47. O primeiro e fundamental dado, posto em evidência pelos Padres Sinodais, é a sede de Deus dos povos africanos. Para não desiludirem semelhante expectativa, os membros da Igreja devem, antes de mais nada, aprofundar a sua fé.54 Com efeito, a Igreja, precisamente porque é evangelizadora, deve « começar por se evangelizar a si mesma ».55 Importa que ela assuma o desafio contido neste « mesmo tema: a Igreja que se evangeliza por uma conversão e uma renovação constante, a fim de evangelizar o mundo com credibilidade ».56

O Sínodo assinalou a urgência de proclamar a Boa Nova, na África, a milhões de pessoas ainda não evangelizadas. Certamente a Igreja respeita e estima as religiões não cristãs, professadas por tantas e tantas pessoas no Continente Africano, pois elas constituem a expressão viva da alma de largos sectores da população; todavia « nem o respeito e a estima para com essas religiões, nem a complexidade dos problemas levantados são para a Igreja um motivo para ela calar, diante dos não cristãos, o anúncio de Jesus Cristo. Pelo contrário, ela pensa que essas multidões têm o direito de conhecer as riquezas do mistério de Cristo (cf. Ef 3,8), nas quais nós acreditamos que toda a humanidade pode encontrar, numa plenitude inimaginável, tudo aquilo que ela às apalpadelas procura a respeito de Deus, do homem, do seu destino, da vida e da morte, da verdade ».57

48. Com razão, afirmam os Padres Sinodais que « o profundo interesse por uma inculturação verdadeira e equilibrada do Evangelho se torna necessário para evitar a confusão e a alienação na nossa sociedade, a braços com uma rápida evolução ».58 Durante a visita ao Malawi, eu mesmo tive ocasião de dizer: « Proponho-vos hoje um desafio — o desafio a rejeitardes um modo de viver que não corresponda às vossas melhores tradições locais e à vossa fé cristã. Muitos na África olham para além da África, para a chamada "liberdade do modo moderno de viver". Hoje exorto-vos calorosamente a olhar para vós mesmos. Vede as riquezas das vossas tradições, olhai a fé que celebramos nesta Assembleia. Haveis de encontrar aqui a liberdade genuína; aqui encontrareis Cristo que vos guiará para a verdade ».59

Superação das divisões

49. Outro desafio, evidenciado pelos Padres Sinodais, refere-se às diversas formas de divisão, que se hão-de resolver com a prática sincera do diálogo.60 Justamente foi assinalado que a coexistência de grupos étnicos, tradições, línguas e mesmo religiões diversas, dentro das fronteiras herdadas das potências coloniais, encontra frequentemente obstáculos, devido a graves hostilidades recíprocas. « As oposições tribais põem por vezes em perigo se não a paz, pelo menos a consecução do bem comum da sociedade no seu conjunto, e criam também dificuldades para a vida das Igrejas e o acolhimento dos Pastores de outras etnias ».61 Eis porque a Igreja em África se sente interpelada pelo preciso dever de reduzir tais fracturas. Também sob este ponto de vista, a Assembleia Especial sublinhou a importância do diálogo ecuménico com as outras Igrejas e comunidades eclesiais, e ainda do diálogo com a religião tradicional africana e com o islamismo. Os Padres interrogaram-se, ainda, sobre os meios possíveis para alcançar essa meta.

Matrimónio e vocações

50. Um desafio importante, sublinhado quase unanimamente pelas Conferências Episcopais da África nas respostas aos Lineamenta, concerne ao matrimónio cristão e à vida familiar.62 A importância do valor em causa é altíssima: de facto, « o futuro do mundo e da Igreja passa através da família ».63

Outra tarefa fundamental, que a Assembleia Especial pôs em evidência, é o cuidado pelas vocações ao sacerdócio e à vida consagrada: importa discerni-las com sabedoria, fazê-las acompanhar por formadores capazes, controlar a qualidade da formação oferecida. Da solicitude empregue na solução deste problema, depende a realização da esperança de um florescimento de vocações missionárias africanas, à medida das exigências do anúncio do Evangelho em toda a parte do Continente e ainda para além dos seus confins.

Dificuldades sócio-políticas

51. « Na África, a necessidade de aplicar o Evangelho à vida concreta é muito sentida. Como se poderia anunciar Cristo naquele imenso continente, esquecendo que é uma das áreas mais pobres do mundo? Como se poderia deixar de ter em consideração a história feita de sofrimentos de uma terra, onde muitas nações se debatem ainda hoje com a fome, a guerra, as tensões raciais e tribais, a instabilidade política e a violação dos direitos humanos? Tudo isto constitui um desafio para a evangelização ».64

Todos os documentos preparatórios, bem como os debates no decorrer da Assembleia, puseram largamente em evidência o facto de fazerem parte dos desafios fundamentais examinados pelo Sínodo questões como o aumento da pobreza em África, a urbanização, a dívida internacional, o comércio das armas, o problema dos refugiados e deslocados, os problemas demográficos e as ameaças que pesam sobre a família, a emancipação das mulheres, a propagação da SIDA, a sobrevivência em alguns lugares da prática da escravatura, o etnocentrismo e as oposições tribais.

Intromissão dos mass-media

52. Por fim, a Assembleia Especial ocupou-se dos meios de comunicação social — questão de enorme importância, dado que se trata simultaneamente de instrumentos de evangelização e de meios de difusão de uma nova cultura que precisa de ser evangelizada.65 Os Padres Sinodais constataram a triste realidade de que « os países em vias de desenvolvimento, em vez de se transformarem em nações autónomas, preocupadas com a própria caminhada para a justa participação nos bens e nos serviços destinados a todos, tornam-se peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigantesca. Isto verifica-se com frequência também no domínio dos meios de comunicação social, os quais, sendo na sua maior parte geridos por centros situados na parte norte do mundo, nem sempre têm na devida conta as prioridades e os problemas próprios desses países e não respeitam a sua fisionomia cultural; e não é raro eles imporem, pelo contrário, uma visão deformada da vida e do homem, deixando assim de corresponderem às exigências do verdadeiro desenvolvimento ».66

III. Formação dos obreiros da evangelização

53. Com que recursos conseguirá a Igreja em África responder aos desafios agora mencionados? « O mais importante recurso, depois da graça de Cristo, é o seu povo. O Povo de Deus — tomado no sentido teológico da Lumen gentium, um povo que abrange os membros do Corpo de Cristo na sua totalidade — recebeu o mandato, que é ao mesmo tempo uma honra e um dever, de proclamar a mensagem evangélica. (...) A comunidade inteira precisa de ser preparada, motivada e reforçada em ordem à evangelização, cada qual segundo a sua função específica no seio da Igreja ».67 Por isso, o Sínodo pôs fortemente a tónica sobre a formação dos obreiros da evangelização em África. Lembrei já a necessidade da formação condigna dos candidatos ao sacerdócio e de quantos são chamados à vida consagrada. A Assembleia prestou a devida atenção também à formação dos fiéis leigos, reconhecendo o seu papel insubstituível na evangelização da África. Em particular e justamente, acentuou-se a formação dos catequistas leigos.

54. Impõe-se aqui uma última pergunta: a Igreja em África formou suficientemente os leigos para assumirem, com competência, as suas responsabilidades civis e para considerarem os problemas de ordem sócio-política à luz do Evangelho e da fé em Deus? Este é seguramente um dever que interpela os cristãos: exercer sobre o tecido social uma influência que leve a transformar não só as mentalidades, mas também as próprias estruturas da sociedade, de modo que aí se espelhem melhor os desígnios de Deus acerca da família humana. Por isso mesmo, invoquei para os leigos uma formação completa que os ajude a levar uma vida plenamente coerente. A fé, a esperança e a caridade não podem deixar de orientar o comportamento do autêntico discípulo de Cristo, em toda a sua actividade, situação e responsabilidade. Visto que evangelizar significa « levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo transformá-las a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade »,68 os cristãos devem ser formados para viver as implicações sociais do Evangelho, de tal modo que o seu testemunho se torne um desafio profético perante tudo aquilo que lese o verdadeiro bem dos homens e mulheres da África ou de qualquer outro continente.

CAPÍTULO III

EVANGELIZAÇÃO E INCULTURAÇÃO

Missão da Igreja

55. « Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura » (Mc 16,15): tal é o mandato que Jesus ressuscitado, antes de subir ao Pai, deixou aos Apóstolos. « E eles, partindo, foram pregar por toda a parte » (Mc 16,20).

« A tarefa de evangelizar todos os homens constitui a missão essencial da Igreja. (...) Evangelizar constitui, de facto, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar ».69 Nascida da acção evangelizadora de Jesus e dos Doze, a Igreja é, por sua vez, « depositária da Boa Nova que há-de ser anunciada (...). A Igreja começa por se evangelizar a si mesma ». Depois, « a própria Igreja envia evangelizadores. É ela que coloca em seus lábios a Palavra que salva ».70 Como o Apóstolo dos Gentios, a Igreja pode dizer: « Se anuncio o Evangelho (...), é uma obrigação que me foi imposta: ai de mim se não evangelizar! » (1 Cor 9,16).

A Igreja anuncia a Boa Nova não só através da proclamação da palavra que recebeu do Senhor, mas também mediante o testemunho de vida, pelo qual os discípulos de Cristo dão razão da fé, da esperança e do amor que neles existe (cf. 1 Ped 3,15).

Este testemunho que o cristão presta a Cristo e ao Evangelho pode ir até ao sacrifício supremo: o martírio (cf. Mc 8,35). Na verdade, a Igreja e o cristão anunciam Aquele que é « sinal de contradição » (Lc 2,34). Proclamam « Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios » (1 Cor 1,23). Como já disse atrás, para além dos mártires ilustres dos primeiros séculos, a África pode gloriar-se dos seus mártires e santos da época moderna.

A evangelização tem como finalidade « transformar a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade ».71 No Filho Unigénito e por meio d'Ele, serão renovadas as relações dos homens com Deus, com os outros homens, e com toda a criação. Por isso, o anúncio do Evangelho pode contribuir para a transformação interior de todas as pessoas de boa vontade, que têm o coração aberto à acção do Espírito Santo.

56. Testemunhar o Evangelho com a palavra e as obras: eis a incumbência que a Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos recebeu e que agora transmite à Igreja do Continente. « Vós sereis minhas testemunhas » (Act 1,8): o que está em jogo é isto; e estes hão-de ser os frutos do Sínodo em cada âmbito da vida humana em África.

Nascida da pregação de corajosos Bispos e sacerdotes missionários, eficazmente ajudados pelos catequistas — « esse exército com tantos méritos na obra das missões entre pagãos »72 —, a Igreja em África, terra que se tornou « nova pátria de Cristo »,73 é já responsável pela missão no Continente e no mundo: « Africanos, vós sois já missionários de vós mesmos » — disse em Kampala o meu predecessor Paulo VI.74 Dado que a grande maioria dos habitantes do Continente Africano não recebeu ainda o anúncio da Boa Nova da salvação, o Sínodo recomenda que sejam estimuladas as vocações missionárias e pede que seja favorecida e activamente apoiada a oferta de orações, sacrifícios e ajudas concretas a favor do trabalho missionário da Igreja.75

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57. « O Sínodo recorda que evangelizar é anunciar, pela palavra e pela vida, a Boa Nova de Jesus Cristo, crucificado, morto e ressuscitado, caminho, verdade e vida ».76 À África oprimida por todo o lado por gérmens de ódio e violência, por conflitos e guerras, os evangelizadores devem proclamar a esperança da vida, radicada no mistério pascal. Precisamente quando a sua vida parecia, humanamente falando, condenada à derrota, é que Jesus instituiu a Eucaristia, « penhor da futura glória »,77 para perpetuar no tempo e no espaço a sua vitória sobre a morte. Por isso mesmo, a Assembleia Especial para a África, neste período em que o Continente Africano, sob determinados aspectos, se encontra em condições críticas, quis apresentar-se como « Sínodo da ressurreição, Sínodo da esperança (...): Cristo, nossa Esperança, está vivo, nós viveremos! ».78 A África não está votada à morte, mas destinada à vida!

É necessário, portanto, « que a nova evangelização seja centrada no encontro com a pessoa viva de Cristo ».79 « O primeiro anúncio deve ter como meta levar a fazer a experiência inquietante e encantadora de Jesus Cristo, que chama e arrasta atrás de Si numa aventura de fé ».80 Tarefa esta, singularmente facilitada pelo facto de que « o Africano crê em Deus criador a partir da sua vida e da sua religião tradicional. E assim está aberto também à plena e definitiva revelação de Deus em Jesus Cristo, o Deus-connosco, a Palavra feita carne. Jesus, a Boa Nova, é Deus que salva o Africano (...) da opressão e da escravatura ».81

A evangelização deve atingir « o homem e a sociedade em todos os níveis da sua existência. Aquela exprime-se, portanto, em actividades diversas, nomeadamente nas que foram tomadas especificamente em consideração pelo Sínodo: anúncio, inculturação, diálogo, justiça e paz, meios de comunicação social ».82

Para que esta missão tenha êxito pleno, é preciso fazer com que, « na evangelização, seja persistente o recurso ao Espírito Santo, de forma que se realize um contínuo Pentecostes, onde Maria, como no primeiro Pentecostes, tenha o seu lugar ».83 Com efeito, a força do Espírito Santo guia a Igreja para a verdade total (cf. Jo 16,13), e fá-la ir ao encontro do mundo para testemunhar Cristo com resoluta firmeza.

58. A palavra que sai da boca de Deus é viva e eficaz, e nunca volta a Ele sem ter produzido o seu efeito (cf. Is 55,11; Heb 4,12-13). Portanto, é preciso proclamá-la sem cessar, insistir « oportuna e inoportunamente (...), com bondade e doutrina » (2 Tim 4,2). Confiada primariamente à Igreja, a Palavra de Deus escrita « não é de interpretação particular » (2 Ped 1,20); compete à Igreja oferecer a sua autêntica interpretação.84

Para fazer com que a Palavra de Deus seja conhecida, amada, meditada e conservada no coração dos fiéis (cf. Lc 2,19.51), é necessário intensificar os esforços para facilitar o acesso à Sagrada Escritura, sobretudo através de traduções integrais ou parciais da Bíblia, feitas na medida do possível em colaboração com as outras Igrejas e Comunidades eclesiais e acompanhadas por indicações de leituras para a oração, o estudo em família ou em comunidade. Além disso, há que promover a formação bíblica dos membros do clero, dos religiosos, dos catequistas, e dos próprios leigos em geral; predispor adequadas Celebrações da Palavra; favorecer o apostolado bíblico, com a ajuda do Centro Bíblico para a África e Madagáscar e de outras estruturas idênticas que hão-de ser encorajadas a todo o nível. Em resumo, dever-se-á procurar colocar a Sagrada Escritura na mão de todos os fiéis, logo desde a sua infância.85

Urgência e necessidade da inculturação

59. Os Padres Sinodais sublinharam, mais de uma vez, a importância particular que reveste para a evangelização a inculturação, ou seja, aquele processo pelo qual « o ensinamento catequético "se encarna" nas diferentes culturas ».86 A inculturação compreende uma dupla dimensão: por um lado, « a íntima transformação dos valores culturais autênticos pela sua integração no cristianismo » e, por outro, « o enraizamento do cristianismo nas várias culturas ».87 O Sínodo considera a inculturação uma prioridade e uma urgência na vida das Igrejas particulares, para a real radicação do Evangelho em África,88 « uma exigência da evangelização »,89 « uma caminhada rumo a uma plena evangelização »,90 um dos maiores desafios para a Igreja no Continente ao avizinhar-se do terceiro milénio.91

Fundamentos teológicos

60. « Ao chegar a plenitude dos tempos » (Gal 4,4), o Verbo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Filho unigénito de Deus, « encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e Se fez homem ».92 É o sublime mistério da Encarnação do Verbo, um mistério que teve lugar na história: em circunstâncias de tempo e lugar bem definidas, no seio de um povo com a sua própria cultura, que Deus tinha escolhido e acompanhado ao longo da história da salvação com o fim de mostrar naquilo que por ele realizava, quanto pretendia fazer por todo o género humano.

Prova evidente do amor de Deus pelos homens (cf. Rm 5,8), Jesus Cristo, com a sua vida, com a Boa Nova anunciada aos pobres, com a paixão, morte e gloriosa ressurreição, realizou a remissão dos nossos pecados e a nossa reconciliação com Deus, seu Pai e, graças a Ele, nosso Pai. A Palavra que a Igreja anuncia, é precisamente o Verbo de Deus feito homem, Ele mesmo sujeito e objecto dessa Palavra. A Boa Nova é Jesus Cristo.

Tal como « o Verbo Se fez carne e veio habitar entre nós » (Jo 1,14), assim também a Boa Nova, a palavra de Jesus Cristo anunciada às nações, deve entranhar-se no ambiente de vida dos seus ouvintes. A inculturação é precisamente esta inserção da mensagem evangélica nas culturas.93 Com efeito, a encarnação do Filho de Deus, exactamente porque integral e concreta,94 foi também encarnação numa cultura específica.

61. Dada a estreita e orgânica relação que existe entre Jesus Cristo e a palavra que a Igreja anuncia, a inculturação da mensagem revelada não poderá deixar de seguir a « lógica » própria do mistério da Redenção. Com efeito, a Encarnação do Verbo não constitui um momento isolado, mas tende para « a Hora » de Jesus e o mistério pascal: « Se o grão de trigo, caindo na terra não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto » (Jo 12,24). « Eu – disse Jesus – quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim » (Jo 12,32). Este auto-despojamento, esta kenosi que é necessária para a exaltação — itinerário de Jesus e de cada um dos seus discípulos (cf. Flp 2,6-9) — é esclarecedora para o encontro das culturas com Cristo e o seu Evangelho. « Cada cultura tem necessidade de ser transfigurada pelos valores do Evangelho à luz do mistério da Páscoa ».95

À luz do mistério da Encarnação e da Redenção é que se deve realizar o discernimento dos valores e contra-valores das culturas. Tal como o Verbo de Deus Se tornou semelhante a nós em tudo, excepto no pecado, assim a inculturação da Boa Nova assume todos os valores humanos autênticos, purificando-os do pecado e restituindo-os ao seu significado pleno.

A inculturação mantém ainda laços profundos com o mistério do Pentecostes. Graças à efusão e à acção do Espírito que unifica dons e talentos, todos os povos da terra, ao entrarem na Igreja, vivem um novo Pentecostes, professam em sua língua a única fé em Jesus Cristo e proclamam as maravilhas que o Senhor neles operou. O Espírito, que já no plano natural é fonte originária da sabedoria dos povos, guia com uma iluminação sobrenatural a Igreja para o conhecimento da Verdade total. Por sua vez, a Igreja, assumindo os valores das diversas culturas, torna-se sponsa ornata monilibus suis, a noiva que se adorna com suas jóias (cf. Is 61,10).

Critérios e âmbitos da inculturação

62. Trata-se de uma tarefa difícil e delicada, porque está em causa a fidelidade da Igreja ao Evangelho e à Tradição Apostólica, na evolução constante das culturas. Por isso, justamente observaram os Padres Sinodais: « Perante as rápidas transformações culturais, sociais, económicas e políticas, as nossas Igrejas locais deverão trabalhar num processo de inculturação sempre renovado, respeitando os dois critérios seguintes: a compatibilidade com a mensagem cristã e a comunhão com a Igreja Universal. (...) Em todo o caso, ter-se-á o cuidado de evitar qualquer sincretismo ».96

« Enquanto caminhada rumo a uma plena evangelização, a inculturação quer colocar o homem em condições de acolher Jesus Cristo na integridade do próprio ser pessoal, cultural, económico e político, de maneira que ele possa viver uma vida santa, em total união com Deus Pai, sob a acção do Espírito Santo ».97

Ao dar graças a Deus pelos frutos que os esforços de inculturação já trouxeram à vida das Igrejas do Continente, particularmente às antigas Igrejas Orientais de África, o Sínodo recomendou « aos Bispos e às Conferências Episcopais terem presente que a inculturação engloba todos os domínios da vida da Igreja e da evangelização: teologia, liturgia, vida e estruturas da Igreja. Tudo isto realça a necessidade da investigação no domínio das culturas africanas em toda a sua complexidade ». Por isso mesmo, o Sínodo convidou os Pastores « a explorarem ao máximo as inúmeras possibilidades que a disciplina actual da Igreja já oferece a este propósito ».98

Igreja como Família de Deus

63. O Sínodo não se limitou a falar da inculturação, mas aplicou-a concretamente também, assumindo como ideia-chave para a evangelização da África, a noção de Igreja como Família de Deus.99 Nela reconheceram os Padres Sinodais uma expressão da natureza da Igreja, particularmente apropriada para a África. Com efeito, a imagem acentua a atenção pelo outro, a solidariedade, as calorosas relações de acolhimento, de diálogo e de mútua confiança.100 A nova evangelização tenderá, portanto, a edificar a Igreja como família, excluindo todo o etnocentrismo e excessivo particularismo, procurando, pelo contrário, promover a reconciliação e uma verdadeira comunhão entre as diversas etnias, favorecendo a solidariedade e a partilha de recursos e pessoas entre as Igrejas particulares, sem indevidas considerações de ordem étnica.101 « Deseja-se vivamente que os teólogos elaborem a teologia da Igreja-Família com toda a riqueza que nesse conceito se encerra, mostrando a sua complementaridade com outras imagens da Igreja ».102

Isto supõe uma reflexão profunda sobre o património bíblico e tradicional que o Concílio Vaticano II recolheu na Constituição dogmática Lumen gentium. Este admirável documento expõe a doutrina sobre a Igreja, recorrendo a imagens extraídas da Sagrada Escritura, tais como Corpo Místico, povo de Deus, templo do Espírito, rebanho e redil, casa onde Deus habita com os homens. Segundo o Concílio, a Igreja é esposa de Cristo e mãe nossa, cidade santa e primícia do Reino futuro. É necessário ter em conta estas sugestivas imagens ao desenvolver, por proposta do Sínodo, uma eclesiologia centrada no conceito de Igreja-Família de Deus.103 Poder-se-á então apreciar, em toda a sua riqueza e densidade, a afirmação que serve de ponto de partida à Constituição conciliar: « A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano ».104

Campos de aplicação

64. Na prática, sem prejuízo algum para as tradições próprias de cada Igreja, Latina ou Oriental, « deverá ser continuada a inculturação da liturgia, sob a condição de nada modificar nos elementos essenciais desta, para que o povo fiel possa compreender e viver melhor as celebrações litúrgicas ».105

O Sínodo reafirmou também o princípio de que, mesmo no caso de a doutrina se apresentar dificilmente assimilável não obstante um período longo de evangelização, ou então quando a sua prática puser sérios problemas pastorais sobretudo na vida sacramental, é necessário permanecer fiel ao ensinamento da Igreja e, simultaneamente, respeitar as pessoas na justiça e com verdadeira caridade pastoral. Suposto isto, o Sínodo fez votos de que as Conferências Episcopais, em colaboração com as Universidades e os Institutos Católicos, criem comissões de estudo, sobretudo no que se refere ao Matrimónio, à veneração dos antepassados e ao mundo dos espíritos, com o objectivo de examinar profundamente todos os aspectos culturais dos problemas que se levantem do ponto de vista teológico, sacramental, ritual e canónico.106

Diálogo

65. « A atitude de diálogo é o modo de ser do cristão tanto na comunidade, como com os outros crentes e com os homens e mulheres de boa vontade ».107 O diálogo há-de ser praticado, antes de mais, no seio da Igreja-família, a todos os níveis: entre Bispos, Conferências Episcopais ou Assembleias da Hierarquia e Sé Apostólica, entre as Conferências ou Assembleias Episcopais das várias nações do próprio Continente e as dos outros continentes, e, em cada Igreja particular, entre o Bispo, o presbitério, as pessoas consagradas, os obreiros pastorais e os fiéis leigos; e bem assim entre os diferentes ritos, no seio da própria Igreja. Será preocupação do S.C.E.A.M. dotar-se « de estruturas e meios que assegurem o exercício deste diálogo »,108 especialmente para favorecer uma solidariedade pastoral orgânica.

« Unidos a Cristo no seu testemunho em África, os católicos são convidados a desenvolver um diálogo ecuménico com todos os irmãos baptizados das outras Confissões cristãs, a fim de que se realize a unidade pela qual Cristo rezou, de maneira que o seu serviço às populações do Continente torne o Evangelho mais credível aos olhos daqueles e daquelas que procuram a Deus ».109 Esse diálogo poder-se-á concretizar em iniciativas como a tradução ecuménica da Bíblia, o aprofundamento teológico de um ou outro aspecto da fé cristã, ou ainda oferecendo juntos um testemunho evangélico em prol da justiça, da paz e do respeito da dignidade humana. Por isso, procurar-se-á criar comissões nacionais e diocesanas para o ecumenismo.110 Os cristãos são conjuntamente responsáveis pelo testemunho a prestar ao Evangelho no Continente. Os progressos ecuménicos têm também como objectivo dar maior eficácia a esse testemunho.

66. « Este esforço do diálogo deve abranger igualmente todos os muçulmanos de boa vontade. Os cristãos não devem esquecer-se de que muitos muçulmanos procuram imitar a fé de Abraão e viver as exigências do Decálogo ».111 A este propósito, a Mensagem do Sínodo sublinha que o Deus vivo, Criador do céu e da terra e Senhor da história, é o Pai da grande família humana, que formamos. Como tal, Ele quer que Lhe prestemos testemunho no respeito dos valores e das tradições religiosas próprias de cada um, trabalhando juntos pela promoção humana e pelo desenvolvimento a todos os níveis. Longe de pretender ser Alguém em nome do qual se matam outros homens, Ele empenha os crentes a pôrem-se juntos ao serviço da vida, na justiça e na paz.112 Particular atenção, pois, há-de ser dada ao diálogo islâmico-cristão para que respeite, de uma parte e doutra, o exercício da liberdade religiosa com tudo o que isso comporta, nomeadamente as manifestações exteriores e públicas da fé.113 Cristãos e muçulmanos são chamados a empenharem-se na promoção de um diálogo imune dos riscos causados por um falso irenismo ou um fundamentalismo militante, e a levantarem a sua voz contra políticas e práticas desleais, como também contra qualquer falta de reciprocidade no que toca à liberdade religiosa.114

67. Quanto à religião tradicional africana, um diálogo sereno e prudente poderá, por um lado, proteger de influências negativas que, frequentemente, condicionam o modo de viver de muitos católicos, e, por outro, assegurar a assimilação de valores positivos, como a crença num Ser Supremo, Eterno, Criador, Providente e Justo Juiz, que se harmonizam bem com o conteúdo da fé. Podem mesmo ser considerados como uma preparação ao Evangelho, porque contêm preciosas semina Verbi [sementes do Verbo], capazes de levar, como já sucedeu no passado, um grande número de pessoas a « abrir-se à plenitude da Revelação em Jesus Cristo, através da proclamação do Evangelho ».115

Portanto há que olhar com grande respeito e estima quantos seguem a religião tradicional, evitando qualquer palavra inadequada ou irreverente. Com essa finalidade, nas casas de formação sacerdotal e religiosa, hão-de ser dadas oportunas elucidações sobre a religião tradicional.116

Desenvolvimento humano integral

68. O desenvolvimento humano integral — desenvolvimento do homem todo e de todo o homem, especialmente de quem é mais pobre e marginalizado na comunidade — tem a ver com o âmago da evangelização. « Entre evangelização e promoção humana, desenvolvimento e libertação, existem, de facto, laços profundos: laços de ordem antropológica, dado que o homem que há-de ser evangelizado não é um ser abstracto mas antes um ser condicionado pelo conjunto dos problemas sociais e económicos; laços de ordem teológica, porque não se pode nunca dissociar o plano da Criação do plano da Redenção, onde se apontam, para além do mais, situações bem concretas de injustiça que há-de ser combatida, e de justiça a ser restaurada; laços daquela ordem eminentemente evangélica qual é a ordem da caridade: como se poderia, realmente, proclamar o mandamento novo do amor sem promover, na justiça e na paz, o verdadeiro, autêntico desenvolvimento do homem? ».117

Assim, quando inaugurou o ministério público na sinagoga de Nazaré, o Senhor Jesus, para ilustrar a sua missão, escolheu o texto messiânico do livro de Isaías: « O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu, para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-Me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, o recobrar da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano de graça do Senhor » (Lc 4,18-19; cf. Is 61,1-2).

O Senhor, portanto, considera-Se enviado a aliviar a miséria dos homens e a combater toda a forma de marginalização. Veio libertar o homem; veio assumir as nossas enfermidades e carregar os nossos males: de facto, « todo o ministério de Jesus está ligado à atenção a todos os que, à sua volta, eram afectados pelo sofrimento: pessoas enlutadas, paralíticos, leprosos, cegos, surdos, mudos... (cf. Mt 8,17) ».118 « É impossível aceitar que a obra de evangelização possa ou deva negligenciar os problemas extremamente graves, debatidos sobremaneira hoje em dia, relativos à justiça, à libertação, ao desenvolvimento e à paz no mundo »:119 a libertação, que a evangelização anuncia, « não pode ser limitada à simples e restrita dimensão económica, política, social e cultural; mas deve ter em vista o homem todo, integralmente, com todas as suas dimensões, incluindo a sua abertura para o absoluto, o próprio Absoluto de Deus ».120

Justamente afirma o Concílio Vaticano II: « Procurando o seu fim salvífico, a Igreja não se limita a comunicar ao homem a vida divina; mas espalha sobre todo o mundo os reflexos da sua luz, sobretudo enquanto cura e eleva a dignidade da pessoa humana, consolida a coesão da sociedade e dá um sentido mais profundo à actividade quotidiana dos homens. A Igreja pensa, assim, que, por meio de cada um dos seus membros e por toda a sua comunidade, muito pode ajudar para tornar mais humana a família dos homens e a sua história ».121 A Igreja anuncia e começa a actuar o Reino de Deus seguindo os passos de Jesus, uma vez que « a natureza do Reino é a comunhão de todos os seres humanos entre si e com Deus ».122 Deste modo, « o Reino é fonte de libertação plena e de salvação total para os homens: com estes, portanto, a Igreja caminha e vive real e intimamente solidária com a sua história ».123

69. A história dos homens assume o seu sentido mais autêntico na Encarnação do Verbo de Deus, que é o fundamento da dignidade humana recuperada. Por Cristo, « imagem do Deus invisível e primogénito de toda a criação » (Col 1,15), é que o homem foi redimido; melhor, « pela sua Encarnação, o Filho de Deus, uniu-Se de certo modo a cada homem ».124 Como não clamar com S. Leão Magno: « Reconhece, ó cristão, a tua dignidade »?125

Anunciar Cristo é, pois, revelar ao homem a sua dignidade inalienável, que Deus resgatou através da encarnação do seu Filho unigénito. Assim prossegue o Concílio Vaticano II: « Tendo a Igreja, por sua parte, a missão de manifestar o mistério de Deus, último fim do homem, ela descobre ao mesmo tempo ao homem o sentido da sua existência, a verdade profunda acerca dele mesmo ».126

Dotado de uma dignidade tão incomparável, o homem não pode viver em condições infra-humanas de vida social, económica, cultural e política. Está aqui o fundamento teológico da luta pela defesa da dignidade pessoal, pela justiça e a paz social, pela promoção humana, a libertação e o desenvolvimento do homem todo e de todo o homem. E aqui está também a razão pela qual, tendo em conta esta dignidade, o progresso dos povos — no âmbito de cada nação e nas relações internacionais — deverá realizar-se de maneira solidária, como justamente observava o meu predecessor Paulo VI.127 Nesta perspectiva, ele pôde sentenciar: « O desenvolvimento é o novo nome da paz ».128 Assim, pode-se dizer com justa razão que « o desenvolvimento integral supõe o respeito da dignidade humana, que só pode realizar-se na justiça e na paz ».129

Fazer-se voz dos sem voz

70. Fortalecidos pela fé e a esperança na força salvadora de Jesus, os Padres do Sínodo concluíram os trabalhos, renovando o compromisso de assumirem o desafio de ser instrumentos da salvação nos diversos âmbitos da vida dos povos africanos. « A Igreja — declararam — deve continuar a cumprir a sua missão profética, e ser voz dos sem voz »,130 a fim de que, por toda a parte, a dignidade humana seja reconhecida a toda a pessoa, e o homem esteja sempre no centro de todos os programas governamentais. O Sínodo « interpela a consciência dos Chefes de Estado e dos responsáveis pela vida pública, para que garantam sempre mais a libertação e o desenvolvimento dos seus povos ».131 Só por tal preço se constrói a paz entre as nações.

A evangelização deve promover todas as iniciativas que contribuam para desenvolver e nobilitar o homem na sua existência espiritual e material. Trata-se do desenvolvimento do homem todo e de todo o homem, considerado não só isoladamente, mas também e de modo especial no horizonte de um progresso solidário e harmonioso de todos os membros de uma nação e de todos os povos da terra.132

Em suma, a evangelização deve denunciar e combater tudo quanto degrada e destrói o homem. « O exercício do ministério da evangelização no campo social, que é um aspecto do múnus profético da Igreja, compreende também a denúncia dos males e das injustiças. Mas convém esclarecer que o anúncio é sempre mais importante do que a denúncia; e esta não pode prescindir daquele, pois é isso que lhe dá a verdadeira solidez e a força da sua motivação mais alta ».133

Meios de comunicação social

71. « Desde sempre, Deus Se caracteriza pelo seu desejo de comunicar. E fá-lo de diversas maneiras. Comunica o ser a toda a criatura, animada ou inanimada. De modo particular com o homem, estabelece relações privilegiadas. "Depois de ter, em diversas ocasiões e de muitas maneiras, falado outrora aos nossos pais pelos profetas, Deus, nestes tempos que são os últimos, falou-nos pelo Filho" (Heb 1,1-2) ».134 O Verbo de Deus é, por sua natureza, palavra, diálogo e comunicação. Ele veio restaurar, por um lado, a comunicação e as relações entre Deus e os homens, e, por outro, as relações dos homens entre si.

Os mass-media foram considerados pelo Sínodo sob dois aspectos importantes e complementares: como um universo cultural novo e em expansão, e como um conjunto de meios ao serviço da comunicação. Fundamentalmente eles constituem uma nova cultura que tem a sua linguagem própria e, sobretudo, os seus valores e contra-valores específicos. Por este motivo, têm necessidade, como todas as culturas, de ser evangelizados.135

De facto, em nossos dias, os mass-media constituem por si mesmos não só um mundo à parte, mas uma cultura e uma civilização diversa. E a Igreja é convidada a levar a Boa Nova da salvação também a esse mundo. Os arautos do Evangelho devem, pois, entrar aí para se deixarem permear por essa nova civilização e cultura, com o objectivo de saberem servir-se convenientemente dela. « O primeiro areópago dos tempos modernos é o mundo das comunicações, que está a unificar a humanidade, transformando-a — como se costuma dizer — numa "aldeia global". Os meios de comunicação social alcançaram tamanha importância que são para muitos o principal instrumento de informação e formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais, familiares e sociais ».136

A formação no uso dos mass-media é, portanto, uma necessidade, não só para quem anuncia o Evangelho, que deve, para além do mais, possuir o estilo da comunicação, mas também para o leitor, o receptor e o telespectador que, preparados para compreenderem o género da comunicação, hão-de saber acolher os dados fornecidos, com discernimento e espírito crítico.

Na África, onde a transmissão oral é uma das características da sua cultura, tal formação reveste importância capital. Precisamente este tipo de comunicação deve recordar aos Pastores, especialmente aos Bispos e aos sacerdotes, que a Igreja é enviada para falar, para pregar o Evangelho por palavras e gestos. Por isso, ela não pode calar sob risco de faltar à sua missão, a não ser que, em certas circunstâncias, o próprio silêncio seja já um modo de falar e testemunhar. Portanto, devemos anunciar sempre e em toda a ocasião, oportuna e inoportunamente (cf. 2 Tim 4,2), com o fim de edificar na caridade e na verdade.

CAPÍTULO IV

NA PERSPECTIVA DO TERCEIRO MILÉNIO CRISTÃO

I. Os desafios actuais

72. A Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos foi convocada para dar ocasião à Igreja de Deus, espalhada pelo Continente, de reflectir sobre a sua missão evangelizadora na perspectiva do terceiro milénio e predispor, como tive o cuidado de lembrar, « uma orgânica solidariedade pastoral em todo o território africano e nas ilhas contíguas ».137 Como foi já assinalado, tal missão comporta urgências e desafios, resultantes das profundas e rápidas mudanças nas sociedades africanas e das consequências da consolidação de uma civilização à escala mundial.

A necessidade do Baptismo

73. A primeira urgência é, naturalmente, a evangelização. Por um lado, a Igreja deve assimilar e viver cada vez melhor a mensagem de que foi constituída depositária pelo Senhor. Por outro, deve testemunhar e anunciar esta mensagem a quantos ainda não conhecem Jesus Cristo. De facto, foi a pensar neles que o Senhor disse aos Apóstolos: « Ide, pois, ensinai todas as nações » (Mt 28,19).

Como sucedeu no Pentecostes, a pregação do querigma tem como finalidade natural levar o ouvinte à metanoia e ao Baptismo: « O anúncio da Palavra de Deus visa a conversão cristã, isto é, a adesão plena e sincera a Cristo e ao Evangelho, mediante a fé ».138 Por outro lado, a conversão a Cristo « está conexa com o Baptismo: está-o não só por ser práxis comum da Igreja, mas por vontade de Cristo, que enviou a sua Igreja a fazer discípulos em todas as nações e a baptizá-los (cf. Mt 28,19); está-o ainda por intrínseca exigência da recepção em plenitude da vida nova n'Ele: "Em verdade, em verdade, te digo — ensina Jesus a Nicodemos — quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus" (Jo 3,5). O Baptismo, de facto, regenera-nos para a vida de filhos de Deus; une-nos a Jesus Cristo e unge-nos no Espírito Santo: aquele não é um simples selo da conversão, uma espécie de sinal exterior que a comprova e atesta; mas é o sacramento que significa e opera este novo nascimento do Espírito, instaura vínculos reais e indivisíveis com a Trindade, torna-nos membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja ».139 Portanto, um itinerário de conversão que não chegasse ao Baptismo, ter-se-ia detido a meio da estrada.

Na verdade, os homens de boa vontade que, sem culpa alguma da sua parte, não são alcançados pelo anúncio evangélico, mas vivem de harmonia com a sua consciência segundo a lei de Deus, serão salvos por Cristo e em Cristo. Para todo o ser humano, de facto, existe sempre em acto o chamamento de Deus, que aguarda ser identificado e acolhido (cf. 1 Tim 2,4). É precisamente para favorecer esse acolhimento que é pedido aos discípulos de Cristo que não se dêem paz enquanto não for levado a todos o feliz anúncio da salvação.

Urgência da evangelização

74. Com efeito, está estabelecido que o Nome de Jesus Cristo é o único no qual podemos ser salvos (cf. Act 4,12). Visto que, na África, há milhões de pessoas ainda não evangelizadas, a Igreja encontra-se perante a tarefa, necessária e urgente, de proclamar a Boa Nova a todos, e de levar os que a escutam até ao Baptismo e à vida cristã. « A urgência da actividade missionária deriva da radical novidade de vida, trazida por Cristo e vivida pelos seus discípulos. Esta nova vida é dom de Deus, sendo pedido ao homem que a acolha e desenvolva, se quiser realizar-se segundo a sua vocação integral em conformidade com Cristo ».140 Esta vida nova, na originalidade radical do Evangelho, comporta também rupturas relativamente aos costumes e à cultura de qualquer povo da terra, visto que o Evangelho não será nunca um produto interno de determinado país, mas sempre vem « de fora », vem do Alto. Para os baptizados, o grande desafio permanecerá sempre a coerência de uma existência cristã conforme aos compromissos do Baptismo, que significa morte ao pecado e ressurreição quotidiana para uma vida nova (cf. Rm 6,4-5). Sem tal coerência, dificilmente os discípulos de Cristo poderão ser « sal da terra » e « luz do mundo » (Mt 5,13.14). Se a Igreja em África se empenhar, vigorosa e decididamente, por este caminho, a Cruz poderá ser plantada em toda a parte do Continente para a salvação dos povos que não tenham medo de abrir as portas ao Redentor.

Importância da formação

75. Em todos os sectores da vida eclesial, tem capital importância a formação. De facto, ninguém poderá conhecer realmente as verdades de fé que nunca teve oportunidade de aprender, nem será capaz de realizar actos para os quais nunca foi iniciado. Eis porque « a comunidade inteira precisa de ser preparada, motivada e reforçada em vista da evangelização, cada qual segundo a sua função específica no seio da Igreja ».141 Isto aplica-se aos Bispos, aos presbíteros, aos membros dos Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica, aos membros dos Institutos Seculares, e a todos os fiéis leigos.

A formação missionária não pode deixar de ocupar um lugar privilegiado. Ela é « obra da Igreja local, com a ajuda dos missionários e dos seus Institutos, bem como dos cristãos das jovens Igrejas. Este trabalho não deve ser visto como marginal, mas sim central na vida cristã ».142

O programa de formação há-de incluir, de modo particular, a preparação dos leigos para desempenharem plenamente o seu papel de animação cristã da ordem temporal (política, cultural, económica, social), que é empenho característico da vocação secular do laicado. A tal propósito, não se há-de deixar de encorajar leigos competentes e motivados a empenharem-se na acção política,143 onde poderão, através de um digno exercício dos cargos públicos, « atender ao bem comum e, ao mesmo tempo, abrir caminho ao Evangelho ».144

Aprofundar a fé

76. A Igreja em África, para ser evangelizadora, deve « começar por se evangelizar a si mesma. (...) Tem necessidade de ouvir sem cessar aquilo que ela deve acreditar, as razões da sua esperança e o mandamento novo do amor. Povo de Deus imerso no mundo, e não raro tentado pelos ídolos, a Igreja precisa de ouvir, incessantemente, proclamar as grandes obras de Deus ».145

Em África, hoje, « a formação da fé (...) fica- -se, muitas vezes, pela fase elementar, e as seitas facilmente se aproveitam desta ignorância ».146 Torna-se, assim, urgente um sério aprofundamento da fé, porque a rápida evolução da sociedade fez surgir novos desafios, ligados particularmente com os fenómenos de desenraizamento familiar, urbanização, desemprego, e ainda com as múltiplas seduções materialistas, uma certa secularização, e aquela espécie de trauma intelectual provocado pela avalanche de ideias insuficientemente ponderadas, difusas pelos mass-media.147

A força do testemunho

77. A formação deve procurar dar aos cristãos não apenas uma habilitação técnica para transmitir melhor os conteúdos da fé, mas também uma convicção pessoal profunda para os testemunhar eficazmente na vida. Assim, todos aqueles que são chamados a proclamar o Evangelho, esforçar-se-ão por agir com docilidade total ao Espírito, o qual, « hoje ainda, como nos inícios da Igreja, age em cada um dos evangelizadores que se deixa possuir e conduzir por Ele ».148 « As técnicas de evangelização são boas, obviamente; mas ainda as mais aperfeiçoadas não poderiam substituir a acção discreta do Espírito Santo. A preparação mais apurada do evangelizador nada faz sem Ele. De igual modo, a dialéctica mais convincente, sem Ele permanece impotente para com o espírito dos homens. E, ainda, os mais elaborados esquemas com base sociológica e psicológica, sem Ele, em breve se demonstram desprovidos de valor ».149

Um verdadeiro testemunho por parte dos crentes é, hoje, essencial em África, para proclamar de forma autêntica a fé. De modo particular, é preciso que eles ofereçam o testemunho de um amor recíproco sincero. « A vida eterna é "que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (Jo 17,3). O fim último da missão é fazer participar na comunhão que existe entre o Pai e o Filho: os discípulos devem viver a unidade entre si, permanecendo no Pai e no Filho, para que o mundo conheça e creia (cf. Jo 17,21-23). Trata-se de um texto de grande alcance missionário, fazendo-nos entender que somos missionários sobretudo por aquilo que se é, como Igreja que vive profundamente a unidade no amor, e não tanto por aquilo que se diz ou faz ».150

Inculturar a fé

78. Devido à profunda convicção de que «a síntese entre cultura e fé não é só uma exigência da cultura, mas também da fé », porque « uma fé que não se torna cultura é uma fé não plenamente acolhida, nem inteiramente pensada, nem fielmente vivida »,151 a Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos considerou a inculturação uma prioridade e uma urgência na vida das Igrejas particulares em África: só assim pode o Evangelho lançar sólidas raízes nas comunidades cristãs do Continente. Na esteira do Concílio Vaticano II,152 os Padres Sinodais interpretaram a inculturação como um processo que abrange a vida cristã em toda a sua extensão — teologia, liturgia, costumes, estruturas — obviamente sem lesar o direito divino e a grande disciplina da Igreja, corroborada ao longo dos séculos por frutos extraordinários de virtude e heroísmo.153

O desafio da inculturação em África consiste em fazer com que os discípulos de Cristo possam assimilar cada vez melhor a mensagem evangélica, continuando, no entanto, fiéis a todos os valores africanos autênticos. Inculturar a fé em todos os sectores da vida cristã e humana apresenta-se como uma tarefa árdua, para cujo cumprimento é necessária a assistência do Espírito do Senhor que guia a Igreja para a verdade total (cf. Jo 16,13).

Uma comunidade reconciliada

79. O desafio do diálogo é, fundamentalmente, o desafio da transformação das relações entre os homens, entre as nações e entre os povos, na vida religiosa, política, económica, social e cultural. É o desafio do amor de Cristo por todos os homens, amor que o seu discípulo deve reproduzir na sua vida: « É por isto que todos saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros » (Jo 13,35).

« A evangelização continua o diálogo de Deus com a humanidade, um diálogo que atinge o seu ápice na pessoa de Jesus Cristo ».154 Por meio da Cruz, Ele destruiu em Si mesmo a inimizade (cf. Ef 2,16) que divide e afasta os homens uns dos outros.

Ora, apesar da civilização contemporânea lembrar uma « aldeia global », em África, como aliás noutras partes do mundo, o espírito de diálogo, de paz e reconciliação está ainda longe de habitar no coração de todos os homens. As guerras, os conflitos, os comportamentos racistas e xenófobos ainda dominam demasiadamente o mundo das relações humanas.

A Igreja em África pressente a exigência de se tornar lugar de autêntica reconciliação para todos, graças ao testemunho dado pelos seus filhos e filhas. Deste modo, mutuamente perdoados e reconciliados, eles poderão levar ao mundo o perdão e a reconciliação, que Cristo, nossa Paz (cf. Ef 2,14), oferece à humanidade, através da sua Igreja. Caso contrário, o mundo assemelhar-se-á cada vez mais a um campo de batalha, no qual contam apenas os interesses egoístas e onde predomina a lei da força, que afasta inexoravelmente a humanidade da suspirada civilização do amor.

II. A família

Evangelizar a família

80. « O futuro do mundo e da Igreja passa através da família ».155 Com efeito, a família é a primeira célula não apenas da comunidade eclesial viva, mas também da sociedade. Na África, de modo particular, a família representa a base sobre a qual está construído o edifício da sociedade. Por isso mesmo, o Sínodo considera a evangelização da família africana como uma das maiores prioridades, se se quer que ela assuma, por sua vez, o papel de sujeito activo na perspectiva da evangelização das famílias pelas famílias.

Do ponto de vista pastoral, isso constitui um verdadeiro desafio, dadas as dificuldades de ordem política, económica, social e cultural que os núcleos familiares em África têm de enfrentar no contexto das grandes mudanças da sociedade contemporânea. Embora adoptando os valores positivos da modernidade, a família africana deverá, pois, salvaguardar os seus próprios valores essenciais.

A Sagrada Família como modelo

81. A tal propósito, a Sagrada Família que, segundo o Evangelho (cf. Mt 2,14-15), viveu durante algum tempo na África, é « protótipo e exemplo de todas as famílias cristãs »,156 modelo e fonte espiritual para cada família cristã.157

Para usar as palavras do Papa Paulo VI, peregrino na Terra Santa, « Nazaré é a escola em que se começa a compreender a vida de Jesus: a escola do Evangelho. (...) Aqui, nesta escola, se compreende a necessidade de ter uma disciplina espiritual, se se quer (...) ser discípulo de Cristo ».158 Nesta sua profunda meditação sobre o mistério de Nazaré, Paulo VI convida a fixar uma tríplice lição: lição de silêncio, de vida familiar, de trabalho. Na casa de Nazaré, cada um vive a própria missão em perfeita harmonia com os outros membros da Sagrada Família.

Dignidade e função do homem e da mulher

82. A dignidade do homem e da mulher deriva do facto de que, quando Deus criou o homem, « criou-o à imagem de Deus; Ele os criou varão e mulher » (Gn 1,27). Tanto o homem como a mulher são criados « à imagem de Deus », isto é, dotados de inteligência e vontade, e consequentemente de liberdade. Prova-o a narração sobre o pecado dos primeiros pais (cf. Gn 3). O Salmista canta a dignidade incomparável do homem assim: « Pouco lhe falta para que seja um ser divino; de glória e de honra o coroastes. Destes-lhe domínio sobre as obras das vossas mãos. Tudo submetestes debaixo dos seus pés » (Sal 8,6-7).

Criados os dois à imagem de Deus, o homem e a mulher, embora diferentes, são essencialmente iguais sob o ponto de vista da natureza humana. « Ambos, desde o início, são pessoas, ao contrário dos outros seres vivos do mundo que os circunda. A mulher é um outro "eu" na comum humanidade »,159 e cada um constitui um auxiliar para o outro (cf. Gn 2,18-25).

« Ao criar o homem, "varão e mulher", Deus dá a dignidade pessoal, por igual, ao homem e à mulher, enriquecendo-os de direitos inalienáveis e de responsabilidades que são próprias da pessoa humana ».160 O Sínodo deplorou certos costumes africanos e determinadas práticas « que privam as mulheres dos seus direitos e do respeito que lhes é devido »,161 e pediu que a Igreja no Continente se esforce por promover a salvaguarda de tais direitos.

Dignidade e função do Matrimónio

83. Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, é Amor (cf. 1 Jo 4,8). « A comunhão entre Deus e os homens encontra o seu definitivo cumprimento em Jesus Cristo, o Esposo que ama e Se doa como Salvador da humanidade, unindo-a a Si como seu corpo. Ele revela a verdade originária do Matrimónio, a verdade do "princípio" e, libertando o homem da dureza do seu coração, torna-o capaz de a realizar inteiramente. Esta revelação chega à sua definitiva plenitude no dom do amor que o Verbo de Deus faz à humanidade, assumindo a natureza humana, e no sacrifício que Jesus Cristo faz de Si mesmo sobre a cruz pela sua Esposa, a Igreja. Neste sacrifício, descobre-se inteiramente aquele desígnio que Deus imprimiu na humanidade do homem e da mulher, desde a sua criação; o Matrimónio dos baptizados torna-se assim o símbolo real da Nova e Eterna Aliança, decretada no Sangue de Cristo ».162

O amor recíproco dos esposos baptizados manifesta o Amor de Cristo e da Igreja. Sinal do Amor de Cristo, o Matrimónio é um sacramento da Nova Aliança: « Os esposos são para a Igreja o chamamento permanente daquilo que aconteceu sobre a Cruz; são um para o outro, e para os filhos, testemunhas da salvação da qual o sacramento os faz participar. Deste acontecimento de salvação, o Matrimónio, como todo o sacramento, é memorial, actualização e profecia ».163

O Matrimónio cristão é, pois, um estado de vida, um caminho de santidade cristã, uma vocação que deve conduzir à ressurreição gloriosa e ao Reino, onde « nem os homens terão mulheres, nem as mulheres, maridos » (Mt 22,30). Por isso, o Matrimónio exige um amor indissolúvel; graças a esta sua estabilidade, pode contribuir eficazmente para realizar em plenitude a vocação baptismal dos esposos.

Salvar a família africana

84. Na aula do Sínodo, foram muitas as intervenções que puseram em evidência as ameaças que gravam actualmente sobre a família africana. As preocupações dos Padres Sinodais eram tanto mais justificadas quanto o documento preparatório de uma Conferência das Nações Unidas, realizada em Setembro de 1994 no Cairo, em terra africana, parecia claramente querer adoptar resoluções em contraste com não poucos valores familiares africanos. Fazendo próprias as preocupações, que eu anteriormente tinha manifestado aos promotores da referida Conferência e aos Chefes de Estado do mundo inteiro,164 eles lançaram um premente apelo para que fosse salvaguardada a família: « Não permitais — clamaram eles — que a família africana seja humilhada precisamente na sua própria terra! Não permitais que o Ano Internacional da Família se torne o ano da destruição da família! ».165

A família aberta à sociedade

85. O Matrimónio, por sua natureza, transcende o casal, dada a sua especial missão de perpetuar a humanidade. Do mesmo modo, por natureza, a família estende-se para além dos limites do lar doméstico: ela está orientada para a sociedade. « A família possui vínculos vitais e orgânicos com a sociedade, porque constitui o seu fundamento e alimento contínuo, mediante o dever de serviço à vida: saem, de facto, da família os cidadãos, e é na família que eles encontram a primeira escola daquelas virtudes sociais, que são a alma da vida e do desenvolvimento da mesma sociedade. Assim, por força da sua natureza e vocação, longe de fechar-se em si mesma, a família abre-se às outras famílias e à sociedade, assumindo a sua tarefa social ».166

Nesta linha, a Assembleia Especial para a África afirma que o fim da evangelização é edificar a Igreja como Família de Deus, antecipação, mesmo se imperfeita, do Reino sobre a terra. As famílias cristãs de África tornar-se-ão, desse modo, verdadeiras « igrejas domésticas », contribuindo para o progresso da sociedade na direcção de uma vida mais fraterna. Assim se realizará a transformação das sociedades africanas, por meio do Evangelho!

CAPÍTULO V

« VÓS SEREIS MINHAS TESTEMUNHAS » EM ÁFRICA

Testemunho e santidade

86. Os desafios apontados mostram como fora oportuna a Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos: a tarefa da Igreja no Continente é imensa; para a enfrentar é necessária a colaboração de todos. O testemunho constitui o elemento central. Cristo interpela os seus discípulos em África e confia-lhes o mandato que deu aos Apóstolos no dia da Ascensão: « Vós sereis minhas testemunhas » (Act 1,8) em África.

87. O anúncio da Boa Nova, pela palavra e pelas obras, abre o coração das pessoas ao desejo da santidade, da configuração com Cristo. Na primeira Carta aos Coríntios, S. Paulo dirige-se « aos [que foram] santificados em Jesus Cristo, chamados à santidade, com todos os que, em qualquer lugar, invocam o nome de Jesus Cristo Senhor deles e nosso » (1,2). É que a pregação do Evangelho tem como objectivo a construção da Igreja de Deus, na perspectiva do advento do Reino, que Cristo entregará ao Pai no fim dos tempos (cf. 1 Cor 15,24).

Ora « a entrada no Reino de Deus exige uma mudança de mentalidade (metanoia) e de comportamento, um testemunho de vida por palavras e obras que tem o seu alimento na recepção dos sacramentos, nomeadamente a Eucaristia, dentro da Igreja, sacramento de salvação ».167

Também a inculturação, pela qual a fé penetra na vida das pessoas e das suas comunidades de origem, constitui um caminho para a santidade. Como, na encarnação, Cristo assumiu a natureza humana excluindo apenas o pecado, analogamente, por meio da inculturação, a mensagem cristã assimila os valores da sociedade em que é anunciada, deixando de fora quanto esteja marcado pelo pecado. Na medida em que a comunidade eclesial saiba integrar os valores positivos de uma determinada cultura, torna-se instrumento da sua abertura às dimensões da santidade cristã. Uma inculturação, sabiamente conduzida, purifica e eleva as culturas dos vários povos.

Sob este ponto de vista, é chamada a desempenhar um papel importante a liturgia. Esta, enquanto modo eficaz de proclamar e viver os mistérios da salvação, pode contribuir validamente para elevar e enriquecer específicas manifestações da cultura de um povo. Será, pois, responsabilidade da autoridade competente procurar, segundo modelos ricos de beleza artística, a inculturação daqueles elementos litúrgicos que, à luz das normas vigentes, possam ser modificados.168

I. Obreiros da evangelização

88. A evangelização tem necessidade de obreiros. De facto, « como hão-de invocar Aquele [o Senhor] em quem não acreditaram? E como hão- -de acreditar n'Aquele que não ouviram? E como ouvirão se ninguém lhes prega? E como pregarão se não forem enviados? » (Rm 10,14-15). O anúncio do Evangelho só pode realizar-se plenamente com o contributo de todos os crentes, nos vários níveis da Igreja, universal ou local.

A esta, à Igreja local colocada sob a responsabilidade do Bispo, compete de modo particular a coordenação dos esforços da evangelização, congregando os fiéis, confirmando-os na fé através da acção dos presbíteros e dos catequistas, amparando-os no cumprimento da respectiva missão. Com este objectivo, a diocese proverá à instituição das estruturas necessárias de encontro, de diálogo, de programação. Valendo-se delas, o Bispo poderá orientar convenientemente o trabalho dos sacerdotes, religiosos e leigos, acolhendo os dons e carismas de cada um para os colocar ao serviço de uma pastoral actualizada e incisiva. Neste sentido, serão muitos úteis os vários Conselhos previstos nas normas vigentes de Direito Canónico.

Comunidades eclesiais vivas

89. Os Padres Sinodais reconheceram logo que a Igreja-Família só poderá oferecer plenamente a sua medida de Igreja, se se ramificar em comunidades suficientemente pequenas para permitir estreitas relações humanas. As características dessas comunidades foram sintetizadas pela Assembleia deste modo: hão-de ser lugares onde se proveja, primariamente, à evangelização própria, para depois levar a Boa Nova aos outros; por isso, deverão ser lugares de oração e escuta da Palavra de Deus, de responsabilização dos próprios membros, de iniciação à vida eclesial, de reflexão sobre os vários problema humanos à luz do Evangelho. Sobretudo, procurar-se-á viver nelas o amor universal de Cristo, que transcende as barreiras e as alianças naturais dos clãs, das tribos ou de outros grupos de interesses.169

Laicado

90. Os leigos hão-de ser ajudados a tomar cada vez maior consciência do papel que devem ocupar na Igreja, honrando assim a missão que lhes é peculiar enquanto baptizados e crismados, em conformidade com o ensinamento da Exortação Apostólica pós-sinodal Christifideles laici 170 e da Encíclica Redemptoris missio.171 Para tal, têm de ser preparados, através de apropriados centros ou escolas de formação bíblica e pastoral. Numa linha idêntica, os cristãos que ocupam lugares de responsabilidade têm de ser cuidadosamente preparados para a sua tarefa política, económica e social, através de uma sólida formação na doutrina social da Igreja, para serem fiéis testemunhas do Evangelho no seu âmbito de acção.172

Catequistas

91. « O papel dos catequistas tem sido e continua a ser determinante na implantação e expansão da Igreja em África. O Sínodo recomenda que os catequistas não somente recebam uma perfeita preparação inicial (...), mas que continuem a receber uma formação doutrinal bem como apoio moral e espiritual ».173 Por isso, tanto os Bispos como os sacerdotes tenham a peito os seus catequistas, procurando que lhes sejam asseguradas dignas condições de vida e de trabalho, de modo que possam cumprir bem a sua missão. A sua missão seja reconhecida e honrada no seio da comunidade cristã.

A família

92. O Sínodo lançou um apelo explícito a cada família cristã para que se torne « um lugar privilegiado de testemunho evangélico »,174 uma verdadeira « igreja doméstica »,175 uma comunidade que acredita e evangeliza,176 uma comunidade em diálogo com Deus 177 e generosamente aberta ao serviço do homem.178 « É no seio da família que os pais são, pela palavra e pelo exemplo, para os seus filhos, os primeiros arautos da fé ».179 « É aqui que se exerce, de modo privilegiado, o sacerdócio baptismal do pai, da mãe, dos filhos, de todos os membros da família, "na recepção dos sacramentos, na oração e acção de graças, no testemunho da santidade de vida, na abnegação e na caridade efectiva". O lar é, assim, a primeira escola de vida cristã e "uma escola de enriquecimento humano" ».180

Os pais cuidarão da educação cristã dos filhos. Com a ajuda concreta de famílias cristãs sólidas, serenas e comprometidas, as dioceses programarão o apostolado familiar no quadro da pastoral de conjunto. Enquanto « igreja doméstica », construída sobre as sólidas bases culturais e os ricos valores da tradição familiar africana, a família cristã é chamada a ser uma válida célula de testemunho cristão na sociedade, caracterizada por mudanças rápidas e profundas. O Sínodo sentiu este apelo com particular urgência no contexto do Ano da Família, que a Igreja estava então a celebrar juntamente com toda a comunidade internacional.

Jovens

93. A Igreja em África sabe bem que a juventude não é só o presente, mas sobretudo o futuro da humanidade. Por isso, é necessário ajudar os jovens a superarem os obstáculos que reprimem o seu desenvolvimento: o analfabetismo, a ociosidade, a fome, a droga.181 Para afrontar estes desafios, dever-se-á chamar os jovens a serem evangelizadores do seu ambiente. Não há ninguém que o possa fazer melhor que eles. É necessário que a pastoral da juventude esteja presente explicitamente na pastoral global das dioceses e das paróquias, de modo a dar aos jovens a ocasião de descobrirem bem depressa o valor do dom de si mesmo, caminho essencial para o desenvolvimento da pessoa.182 Vem a propósito lembrar que a celebração da Jornada Mundial da Juventude se revela um meio privilegiado de pastoral juvenil, que favorece a sua formação através da oração, do estudo e da reflexão.

Homens e mulheres consagrados

94. « Numa Igreja Família de Deus, a vida consagrada tem um papel particular, não só para indicar a todos o apelo à santidade, mas também para testemunhar a vida fraterna na comunidade. Por conseguinte, as pessoas consagradas são convidadas a responder à sua vocação, num espírito de comunhão e colaboração com os respectivos Bispos, com o clero e com os leigos ».183

Nas condições actuais da missão em África, é urgente promover as vocações religiosas à vida contemplativa e activa, efectuando, primeiro, escolhas prudentes e provendo a dar-lhes, depois, uma sólida formação humana, espiritual e doutrinal, apostólica e missionária, bíblica e teológica. Esta formação há-de continuar ao longo dos anos, perseverante e periódica. Na fundação de novos Institutos Religiosos, deve-se proceder com grande prudência e claro discernimento, fazendo referência aos critérios indicados pelo Concílio Vaticano II e às normas canónicas vigentes.184 Uma vez fundados, os Institutos Religiosos hão-de ser ajudados a adquirir personalidade jurídica e a atingir a autonomia na gestão tanto das próprias obras como das respectivas entradas financeiras.

A Assembleia Sinodal, depois de ter advertido « os Institutos Religiosos que não mantêm casas em África » a não se considerarem autorizados a « procurar lá novas vocações sem prévio diálogo com o Ordinário do lugar »,185 exortou os responsáveis das Igrejas locais, como também os dos Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica, a promoverem entre si o diálogo com a criação, no espírito da Igreja Família, de grupos mistos de deliberação, como testemunho de fraternidade e sinal de unidade ao serviço da missão comum.186 Nesta perspectiva, acolhi também o convite dos Padres Sinodais a rever, se necessário, qualquer ponto do documento Mutuae relationes,187 para uma melhor definição do papel da vida religiosa na Igreja local.188

Futuros sacerdotes

95. « Hoje mais que nunca — afirmaram os Padres Sinodais —, será nossa preocupação formar os futuros sacerdotes nos verdadeiros valores culturais dos respectivos países, educando-os no sentido da honestidade, responsabilidade, e fidelidade à palavra dada. Serão formados de maneira a revestir as qualidades de representantes de Cristo, verdadeiros servidores e animadores de comunidades cristãs, (...) de forma que sejam sacerdotes espiritualmente sólidos, disponíveis e devotados à causa do Evangelho, e capazes de administrar com transparência os bens da Igreja e de levar uma vida simples, em conformidade com o seu ambiente ».189 Embora respeitando as tradições próprias das Igrejas Orientais, os seminaristas sejam formados de forma que « adquiram uma verdadeira maturidade afectiva e tenham ideias claras e uma convicção íntima sobre a indissociabilidade do celibato e da castidade do sacerdote »;190 além disso, « recebam uma formação adequada sobre o sentido e o lugar da consagração a Cristo no sacerdócio ».191

Diáconos

96. Nos lugares onde as condições pastorais se prestarem à estima e compreensão deste antigo ministério da Igreja, as Conferências e as Assembleias Episcopais estudarão os modos mais adequados de promover e encorajar o diaconado permanente « como ministério ordenado e também como meio de evangelização ».192 Onde já existam os diáconos, trabalhar-se-á por lhes oferecer uma actualização orgânica e completa.

Sacerdotes

97. Profundamente reconhecida a todos os sacerdotes, diocesanos ou membros dos Institutos, pela obra apostólica que realizam, e consciente das exigências postas pela evangelização dos povos de África e Madagáscar, a Assembleia Sinodal exortou-os a viverem na « fidelidade à sua vocação, no dom total de si mesmos à missão e em plena comunhão com o próprio Bispo ».193 Será dever dos Bispos cuidar da formação permanente dos sacerdotes, sobretudo nos primeiros anos de ministério,194 ajudando-os especialmente a aprofundar o sentido do celibato sagrado e a perseverar na fiel adesão ao mesmo, sabendo apreciar « tão insigne dom, que lhes foi dado pelo Pai e tão claramente é exal- tado pelo Senhor, tendo diante dos olhos os grandes mistérios que nele são significados e nele se realizam ».195 Nesse itinerário de formação, há-de ser prestada também atenção aos valores culturais sãos do ambiente de vida dos sacerdotes. Além disso, é oportuno recordar que o Concílio Vaticano II encorajou, entre os presbíteros, « uma certa vida comum », ou seja, uma certa comunidade de vida segundo as formas sugeridas pelas necessidades pessoais e pastorais concretas. Isso contribuirá para fomentar a vida espiritual e intelectual, a acção apostólica e pastoral, a caridade e a solicitude recíproca, especialmente no caso dos sacerdotes de idade, doentes ou em dificuldade.196

Bispos

98. Os próprios Bispos colocarão todo o cuidado em apascentar a Igreja que Deus para Si adquiriu com o Sangue do próprio Filho, no cumprimento do encargo que lhes foi confiado pelo Espírito Santo (cf. Act 20,28). Empenhados, segundo a recomendação conciliar, no cumprimento do seu « múnus apostólico como testemunhas de Cristo diante de todos os homens »,197 os Bispos exercerão pessoalmente, em colaboração confiante com o presbitério e demais obreiros pastorais, o insubstituível serviço da unidade na caridade, atendendo com solicitude às tarefas de ensino, santificação e governo pastoral. Além disso, não deixarão de prover ao aprofundamento da sua cultura teológica e ao corroboramento da sua vida espiritual, tomando parte, quanto possível, nos tempos de actualização e formação organizados pelas Conferências Episcopais ou pela Sé Apostólica.198 De modo particular, não hão-de esquecer nunca aquela advertência de S. Gregório Magno, segundo a qual o pastor é luz dos seus féis, sobretudo através de uma conduta moral exemplar e impregnada de santidade.199

II. Estruturas de evangelização

99. É motivo de alegria e consolação constatar que « os fiéis leigos estão cada vez mais comprometidos com a missão da Igreja em África e Madagáscar », devido especialmente « ao dinamismo dos movimentos de acção católica, das associações de apostolado e dos novos movimentos de espiritualidade ». Os Padres do Sínodo formularam votos calorosos de que « este impulso prossiga e se desenvolva a todos os níveis do laicado, quer se tratem de adultos, quer de jovens e crianças ».200

Paróquias

100. A paróquia é, por sua natureza, o lugar habitual de vida e culto dos fiéis. Aí, podem exprimir e concretizar as iniciativas, que a fé e a caridade cristã sugerirem à comunidade dos crentes. A paróquia é o lugar onde se manifesta a comunhão dos diversos grupos e movimentos, que nela encontram suporte espiritual e apoio material. Sacerdotes e leigos colocarão todo o seu empenho para que a vida da paróquia seja harmoniosa, no contexto de uma Igreja Família, onde todos sejam « assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações » (Act 2,42).

Movimentos e associações

101. A união fraterna para um testemunho vivo do Evangelho há-de ser também a finalidade dos movimentos apostólicos e associações de carácter religioso. Os fiéis leigos, com efeito, encontram neles uma ocasião privilegiada para ser fermento na massa (cf. Mt 13,33), especialmente no referente à ordenação das coisas temporais segundo Deus e à luta pela promoção da dignidade humana, da justiça e da paz.

Escolas

102. « As escolas católicas são, ao mesmo tempo, lugares de evangelização, de educação integral, de inculturação, e de aprendizagem do diálogo de vida entre jovens de religiões e meios sociais diferentes ».201 A Igreja em África e Madagáscar oferecerá, pois, o seu contributo para a promoção da « escola para todos » 202 no âmbito da escola católica, sem transcurar « a educação cristã dos alunos das escolas não católicas ». Quanto aos universitários, a Igreja esforçar-se-á por lhes « fornecer um programa de formação religiosa correspondente ao seu nível de estudo ».203 Tudo isto, obviamente, supõe a preparação humana, cultural e religiosa dos próprios educadores.

Universidades e Institutos Superiores

103. « As Universidades e os Institutos Superiores Católicos em África desempenham um papel importante na proclamação da Palavra salvífica de Deus. Eles são sinal do crescimento da Igreja, enquanto, nas suas investigações, integram as verdades e as experiências da fé, e ajudam a interiorizá-las. Assim, estes centros de estudo servem a Igreja, fornecendo-lhe pessoal bem preparado; estudando importantes questões teológicas e sociais; desenvolvendo a teologia africana; promovendo o trabalho de inculturação, especialmente na celebração litúrgica; publicando livros e divulgando o pensamento católico; realizando as pesquisas que lhes são confiadas pelos Bispos; contribuindo para o estudo científico das culturas ».204

Nestes tempos de perturbações sociais generalizadas sobre o Continente, a fé cristã pode iluminar eficazmente a sociedade africana. « Os centros culturais católicos oferecem à Igreja singulares possibilidades de presença e acção no campo das mutações culturais. Eles constituem, com efeito, uma espécie de fórum público que permite fazer conhecer largamente, num diálogo criativo, as convicções cristãs sobre o homem, a mulher, a família, o trabalho, a economia, a sociedade, a política, a vida internacional, o meio ambiente ».205 Tornam-se assim um lugar de escuta, respeito e tolerância.

Meios materiais

104. Precisamente nesta perspectiva, os Padres Sinodais puseram em relevo a exigência de que cada comunidade cristã seja posta em condições de prover por si só, na medida do possível, às suas necessidades.206 Além de pessoal qualificado, a evangelização requer também meios materiais e financeiros notáveis, e as dioceses, não raro, estão bem longe de poder dispor deles em medida suficiente. É, portanto, urgente que as Igrejas particulares de África se proponham o objectivo de chegar quanto antes a prover elas mesmas às suas necessidades, assegurando desse modo a sua auto-suficiência. Por conseguinte, convido encarecidamente as Conferências Episcopais, as dioceses e todas as comunidades cristãs das Igrejas do Continente, a empenharem-se, no que for da sua competência, para que esta auto-suficiência se torne cada vez mais uma realidade. Ao mesmo tempo, faço apelo às Igrejas irmãs de todo o mundo, para que sustentem mais generosamente as Obras Missionárias Pontifícias de tal forma que, através dos seus organismos de ajuda, possam oferecer às dioceses carenciadas auxílios económicos destinados a projectos de investimento, capazes de produzir recursos que conduzam ao seu progressivo auto-financiamento.207 Além disso, não se deve esquecer que uma Igreja só pode chegar à auto-suficiência material e financeira, se o povo que lhe está confiado não sofrer condições de miséria extrema.

CAPÍTULO VI

EDIFICAR O REINO DE DEUS

Reino de justiça e de paz

105. O mandato, que Jesus conferiu aos discípulos ao subir ao céu, é dirigido à Igreja de Deus de todos os tempos e lugares. A Igreja Família de Deus em África deve testemunhar Cristo, também pela promoção da justiça e da paz no Continente e no mundo inteiro. « Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus » (Mt 5,9-10) — diz o Senhor. O testemunho da Igreja deve ser acompanhado pelo empenho convicto de cada um dos membros do Povo de Deus a favor da justiça e da solidariedade. Isto é particularmente importante no caso dos leigos que desempenham funções públicas, já que tal testemunho exige um estado de espírito constante e um estilo de vida de harmonia com a fé cristã.

A dimensão eclesial do testemunho

106. Os Padres Sinodais, ao sublinharem a dimensão eclesial do testemunho, declararam solenemente: « A Igreja deve continuar a cumprir a sua missão profética, e ser a voz dos sem voz ».208

Mas, para o actuar de modo eficaz, a Igreja, enquanto comunidade de fé, deve ser uma vigorosa testemunha da justiça e da paz nas suas próprias estruturas e nas relações entre os seus membros. Corajosamente afirma a Mensagem do Sínodo: « As Igrejas de África reconheceram também que, no seu próprio seio, a justiça nem sempre foi respeitada no confronto daqueles que estão ao seu serviço. Se a Igreja deve testemunhar a justiça, ela reconhece que todo aquele que ouse falar de justiça aos homens, deve esforçar-se ele mesmo por ser justo aos seus olhos. É preciso, pois, examinar com atenção os procedimentos, os bens e o estilo de vida da Igreja ».209

O seu apostolado, no referente à promoção da justiça e, de modo particular, à defesa dos direitos humanos fundamentais, não pode ser deixado à improvisação. Consciente do facto de que, em numerosos países da África, são perpetradas flagrantes violações da dignidade e dos direitos do homem, peço às Conferências Episcopais que estabeleçam, onde ainda não existirem, Comissões « Justiça e Paz », aos vários níveis da vida eclesial. Elas deverão sensibilizar as comunidades cristãs para as suas responsabilidades evangélicas na defesa dos direitos humanos.210

107. Se o anúncio da justiça e da paz é parte integrante da tarefa de evangelização, consequentemente a promoção desses valores deverá fazer parte também do programa pastoral de cada comunidade cristã. É por isso que insisto sobre a necessidade de formar adequadamente todos os obreiros pastorais para tal apostolado: « A formação do clero, dos religiosos e dos leigos, dada nos próprios campos do seu apostolado, acentuará a doutrina social da Igreja. Cada um, segundo o seu estado de vida, tomará consciência dos seus direitos e dos seus deveres, aprenderá o sentido e o serviço do bem comum, e ainda os critérios de uma gestão honesta dos bens públicos e de uma correcta presença na vida política, para que possam intervir, com credibilidade, diante das injustiças sociais ».211

Como corpo organizado no seio da comunidade e da nação, a Igreja tem o direito e o dever de participar plenamente, com todos os meios à sua disposição, na edificação de uma sociedade justa e pacífica. Impõe-se recordar aqui o seu apostolado nos campos da educação, da saúde, da sensibilização social e de outros programas de assistência. Na medida em que contribui, com estas suas actividades, para diminuir a ignorância, melhorar a saúde pública e favorecer maior participação de todos nos problemas da sociedade, em espírito de liberdade e corresponsabilidade, a Igreja cria as condições para o progresso da justiça e da paz.

O sal da terra

108. Na época actual, no contexto de uma sociedade pluralista, é sobretudo através do empenhamento dos católicos na vida pública que a Igreja pode exercer uma influência eficaz. Da parte dos católicos, sejam eles de profissão liberal ou professores, empresários ou funcionários, das forças de segurança ou políticos, espera-se que dêem testemunho de bondade, verdade, justiça e amor de Deus nas suas actividades quotidianas. « O dever do fiel leigo (...) é ser sal e luz do mundo (...), particularmente, lá onde ele é o único a poder intervir ».212

Colaborar com os outros crentes

109. A obrigação de se empenhar a favor do desenvolvimento dos povos não é um dever apenas individual, e menos ainda individualista, como se fosse possível consegui-lo com os esforços isolados de cada um. Trata-se de um imperativo tanto para cada homem e cada mulher, como para as sociedades e as nações; de modo particular, é um imperativo para a Igreja Católica e para as outras Igrejas e Comunidades eclesiais, com as quais os católicos estão dispostos a colaborar neste campo.213 Nesse sentido, como os católicos convidam os irmãos cristãos a participarem nas suas iniciativas, assim, acolhendo os convites que lhes são feitos, se declaram prontos a colaborar nas iniciativas por eles promovidas. Com o fim de favorecer o desenvolvimento integral do homem, muito podem conseguir os católicos unidos com os crentes das outras religiões, como, aliás, já sucede em diversos lugares.214

Uma boa gestão da vida pública

110. Os Padres do Sínodo foram unânimes em reconhecer que o maior desafio para realizar a justiça e a paz, na África, consiste em administrar bem a vida pública, nos campos mutuamente conexos da política e da economia. Certos problemas têm origem fora do Continente e, por isso mesmo, não estão totalmente sob o controlo dos governantes e responsáveis nacionais. Mas a Assembleia Sinodal reconheceu que muitos problemas do Continente são consequência de um modo de governar frequentemente viciado pela corrupção. É necessária uma consciência bem desperta, junto com uma firme determinação da vontade, para pôr em acto aquelas soluções que já não é possível adiar mais.

Construir a nação

111. Na vertente política, o árduo processo da construção de unidades nacionais encontra particulares obstáculos, no Continente Africano, dado que a maior parte dos Estados são entidades políticas relativamente recentes. Conciliar profundas diferenças, superar antigos ressentimentos de natureza étnica e integrar-se numa ordem mundial complexa: tudo isto exige grande habilidade na arte de governar. Por esta razão, a Assembleia Sinodal elevou ao Senhor fervorosa prece a fim de que surjam, em África, políticos — homens e mulheres — santos; para que hajam santos Chefes de Estado, que amem profundamente o seu próprio povo e desejem mais servir que servir-se.215

A senda do direito

112. Os alicerces de um bom governo devem estar assentes sobre a base sólida das leis, que protegem os direitos e definem os deveres dos cidadãos.216 Com grande tristeza, tenho de constatar que várias nações africanas sofrem ainda sob regimes autoritários e opressivos que negam aos súbditos a liberdade pessoal e os direitos humanos fundamentais, de modo particular a liberdade de associação e de expressão política, e o direito de escolher os próprios governantes por meio de eleições livres e imparciais. Tais injustiças políticas provocam tensões que frequentemente degeneram em conflitos armados e guerras internas, trazendo consigo graves consequências como carestias, epidemias, destruições, para não falar dos extermínios, do escândalo e da tragédia dos refugiados. Por este motivo, o Sínodo justamente defendeu que uma autêntica democracia, no respeito do pluralismo, é « uma das principais estradas pelas quais a Igreja caminha com o povo. (...) O leigo cristão, comprometido nas lutas democráticas segundo o espírito do Evangelho, é o sinal duma Igreja que se quer presente na construção de um Estado de direito, por toda a parte da África ».217

Gerir o património comum

113. Além disso, o Sínodo faz apelo aos Governos africanos para que adoptem políticas capazes de favorecer o crescimento económico e os investimentos, em ordem à criação de novos postos de trabalho.218 Isto comporta o empenho de prosseguir sãs políticas económicas, estabelecendo correctas prioridades na exploração e distribuição dos recursos por vezes escassos, de forma a prover às carências fundamentais das pessoas e assegurar uma repartição honesta e equitativa dos benefícios e dos encargos. Os Governos têm, em particular, o indeclinável dever de proteger o património comum contra todas as formas de delapidação e apropriação indevida por parte de cidadãos carentes de sentido patriótico ou de estrangeiros sem escrúpulos. Compete ainda aos Governos empreender adequadas iniciativas para melhorar as condições do comércio internacional.

Os problemas económicos da África são agravados ainda pela desonestidade de alguns governantes corruptos, que, coniventes com interesses privados locais ou estrangeiros, desviam para proveito próprio os recursos nacionais, transferindo dinheiro público para contas privadas em Bancos no estrangeiro. Trata-se de verdadeiros e próprios furtos, qualquer que seja a sua cobertura legal. Faço ardentes votos de que os Organismos Internacionais e pessoas íntegras dos países africanos ou de outros países do mundo saibam preparar os meios jurídicos adequados para fazer regressar os capitais indevidamente subtraídos. Também na concessão de empréstimos é importante informar-se sobre a responsabilidade e transparência dos destinatários.219

A dimensão internacional

114. Enquanto Assembleia de Bispos da Igreja Universal presidida pelo Sucessor de Pedro, o Sínodo foi uma ocasião providencial para avaliar, de forma positiva, o lugar e o papel da África no contexto da Igreja Universal e da comunidade mundial. Tornando-se este mundo em que vivemos cada vez mais interdependente, os destinos e os problemas das diversas regiões vão aparecendo sempre mais interligados. A Igreja, enquanto família de Deus sobre a terra, deve ser o sinal vivo e o instrumento eficaz da solidariedade universal, tendo em vista a edificação de uma comunidade de justiça e paz de dimensões cósmicas. Só surgirá um mundo melhor, se for construído sobre os alicerces sólidos de sãos princípios éticos e espirituais.

Na situação mundial actual, as nações africanas contam-se entre as mais desfavorecidas. É necessário que os países ricos tomem clara consciência do seu dever de sustentar os esforços dos países que lutam para sair da pobreza e da miséria. Aliás, é do próprio interesse das nações ricas optarem pelo caminho da solidariedade, porque só assim será possível garantir à humanidade paz e harmonia duradouras. Consequentemente, a Igreja que vive em países desenvolvidos, não pode ignorar a sua responsabilidade acrescida que deriva do compromisso cristão em prol da justiça e da caridade: visto que todos, homens e mulheres, trazem em si mesmos a imagem de Deus e são chamados a fazer parte da mesma família, redimida pelo Sangue de Cristo, deve ser garantido a cada um o justo acesso aos recursos da terra, que Deus pôs à disposição de todos.220

Não é difícil entrever as numerosas implicações práticas, que tal impostação comporta. Em primeiro lugar, há que trabalhar por melhores relações sócio-políticas entre as nações, assegurando condições de maior justiça e dignidade àquelas que há menos tempo alcançaram a independência e entraram na comunidade internacional. Depois, é preciso prestar ouvidos, com profunda sintonia, ao grito angustiado das nações pobres, que pedem ajuda em âmbitos de particular importância: a desnutrição, a deterioração generalizada da qualidade de vida, a insuficiência dos meios para a formação dos jovens, a carência dos serviços previdenciais e sociais elementares com a consequente persistência de doenças endémicas, a difusão do terrível flagelo da SIDA, o peso gravoso e às vezes insuportável da dívida internacional, o horror das guerras fratricidas alimentadas por um tráfico de armas sem escrúpulos, o espectáculo vergonhoso e lastimável dos deslocados e refugiados. Eis alguns campos onde são necessárias intervenções imediatas, que permanecem oportunas, mesmo se se prevêem insuficientes no quadro global dos problemas.

I. Motivos de preocupação

Devolver a esperança aos jovens

115. A situação económica de pobreza tem um impacto especialmente negativo sobre os jovens. Entram na vida dos adultos com escasso entusiasmo, devido a um presente marcado por não poucas frustrações, e, com esperança ainda menor, olham para o futuro que a seus olhos se desenha negro e triste. Por isso, tendem a fugir das zonas rurais transcuradas e concentram-se nas cidades, que, no fundo, pouco de melhor têm para lhes oferecer. Muitos deles saem para o estrangeiro como se fossem para um exílio, e vivem lá uma existência precária de refugiados económicos. Unido aos Padres do Sínodo, sinto o dever de defender a sua causa: é necessário e urgente encontrar uma solução para a sua impaciência de participar na vida da nação e da Igreja.221

Ao mesmo tempo, porém, desejo dirigir aos próprios jovens um apelo: Queridos jovens, o Sínodo pede-vos para assumirdes o desenvolvimento das vossas nações, amardes a cultura do vosso povo e trabalhardes para a sua revitalização, através da fidelidade à vossa herança cultural, com o aperfeiçoamento do espírito científico e técnico e, sobretudo, pelo testemunho da fé cristã.222

O flagelo da SIDA

116. Neste horizonte de pobreza geral e serviços de saúde inadequados, o Sínodo tomou em consideração o trágico flagelo da SIDA, que semeia sofrimento e morte em numerosas zonas da África. Constatando o papel que comportamentos sexuais irresponsáveis desempenham na difusão dessa doença, formulou esta firme recomendação: « A amizade, a alegria, a felicidade, a paz que o matrimónio cristão e a fidelidade proporcionam, bem como a segurança que a castidade oferece, devem ser continuamente apresentados aos fiéis, particularmente aos jovens ».223

A luta contra a SIDA deve ser assumida por todos. Dando eco à voz dos Padres Sinodais, também eu peço aos obreiros pastorais que levem aos irmãos e irmãs atingidos pela SIDA todo o conforto possível, tanto material como moral e espiritual. Aos cientistas e aos responsáveis políticos de todo o mundo peço, com grande insistência, que, movidos pelo amor e pelo respeito devido a cada pessoa humana, não olhem a despesas na busca dos meios capazes de pôr fim a este flagelo.

« Das espadas, forjai relhas de arado » (cf. Is 2,4): nunca mais a guerra!

117. A tragédia das guerras que dilaceram a África, foi descrita pelos Padres Sinodais com palavras incisivas: « Há alguns decénios que a África é teatro de guerras fratricidas que dizimam as populações e destroem as suas riquezas naturais e culturais ».224 Tão tormentoso fenómeno, além de causas exteriores à África, tem também causas internas como « o tribalismo, o nepotismo, o racismo, a intolerância religiosa, a sede de poder, levada ao extremo nos regimes totalitários que calcam impunemente os direitos e a dignidade do homem. As populações oprimidas e reduzidas ao silêncio suportam, como vítimas inocentes e resignadas, todas estas situações de injustiça ».225

Não posso deixar de unir a minha voz à dos membros da Assembleia Sinodal para deplorar as situações de indescritível sofrimento, provocadas por tantos conflitos em acto ou latentes, e para pedir a quantos tenham possibilidades de o fazer que se empenhem plenamente em pôr termo a semelhantes tragédias.

Além disso, exorto, unido aos Padres Sinodais, a um efectivo empenho por promover condições de maior justiça social e de exercício mais equitativo do poder, no Continente, para preparar assim o terreno para a paz. « Se queres a paz, trabalha pela justiça ».226 É preferível — e inclusive mais fácil — prevenir as guerras que tentar pará-las depois de terem sido desencadeadas. É tempo que os povos quebrem as suas espadas para delas forjarem relhas de arado, e as suas lanças para com elas fazerem foices (cf. Is 2,4).

118. A Igreja em África — particularmente através de alguns dos seus responsáveis — esteve na primeira linha da busca de soluções negociadas para conflitos armados, surgidos em numerosas zonas do Continente. Esta missão de pacificação deverá continuar, estimulada por aquilo que o Senhor promete nas Bem-aventuranças: « Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus » (Mt 5,9).

Aqueles que alimentam as guerras em África, por meio do tráfico de armas, são cúmplices de odiosos crimes contra a humanidade. A este propósito, faço minhas as recomendações do Sínodo que, depois de ter declarado que « o comércio de armas que semeia a morte é um escândalo », fez apelo a todos os países que vendem armas à África implorando-lhes que « acabem com este comércio », e pediu aos Governos africanos que « renunciem aos excessivos gastos militares, a fim de consagrarem maiores recursos à educação, à saúde e ao bem-estar dos seus povos ».227

A África deve continuar a procurar meios pacíficos e eficazes para que os regimes militares passem o poder aos civis. Contudo, é verdade igualmente que os militares estão chamados a desempenhar a sua função peculiar no país. Por isso, o Sínodo ao mesmo tempo que elogia « os irmãos militares pelo serviço que prestam em nome dos respectivos povos »,228 logo os adverte seriamente de que « deverão responder diante de Deus por todo o acto de violência contra a vida dos inocentes ».229

Refugiados e deslocados

119. Um dos frutos mais amargos das guerras e das dificuldades económicas é o triste fenómeno dos refugiados e deslocados, fenómeno que atingiu, como recorda o Sínodo, dimensões trágicas. A solução ideal acha-se no restabelecimento de uma paz justa, na reconciliação e no desenvolvimento económico. É urgente, pois, que as organizações nacionais, regionais e internacionais resolvam, de forma equitativa e duradoura, os problemas dos refugiados e deslocados.230 Entretanto, porém, dado que o Continente continua a sofrer migrações de refugiados em massa, lanço um premente apelo a fim de que lhes seja levado auxílio material e oferecido apoio pastoral nos lugares onde se encontram, em África ou noutros continentes.

O peso da dívida internacional

120. A questão da dívida das nações pobres às ricas é objecto de grande preocupação para a Igreja, como resulta de numerosos documentos oficiais e de várias intervenções da Santa Sé em diversas ocasiões.231

Retomando agora as palavras dos Padres Sinodais, sinto, em primeiro lugar, o dever de exortar « os Chefes de Estado e os seus Governos, em África, a que não oprimam o povo com dívidas internas e externas ».232 Em seguida, dirijo um premente apelo « ao Fundo Monetário Internacional, ao Banco Mundial, bem como a todos os credores, para que amortizem as dívidas que sufocam os países africanos ».233 Peço, enfim, com insistência « às Conferências Episcopais dos países industrializados para se fazerem advogados desta causa junto dos seus Governos e dos organismos envolvidos ».234 A situação de numerosos países africanos é tão dramática que não consente atitudes de indiferença ou desinteresse.

Dignidade da mulher africana

121. Um dos sinais típicos da nossa época é a crescente tomada de consciência da dignidade da mulher e do seu papel específico na Igreja e na sociedade em geral. « Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou varão e mulher » (Gn 1,27).

Eu mesmo afirmei, em várias ocasiões, a igualdade fundamental e a complementaridade enriquecedora, que existe entre o homem e a mulher.235 O Sínodo aplicou estes princípios à condição das mulheres em África. Os seus direitos e deveres relativamente à edificação da família e à plena participação no desenvolvimento da Igreja e da sociedade foram vigorosamente salientados. Concretamente no que se refere ao âmbito eclesial, é oportuno que as mulheres, uma vez adequadamente formadas, se tornem participantes, segundo níveis apropriados, da actividade apostólica da Igreja.

Na medida em que estejam ainda presentes nas sociedades africanas, a Igreja deplora e condena todos « os costumes e práticas que privam as mulheres dos seus direitos e do respeito que lhes é devido ».236 Muito desejável é que as Conferências Episcopais instituam comissões especiais para aprofundar o estudo dos problemas da mulher, em colaboração com as agências governamentais interessadas, onde seja possível.237

II. Comunicar a boa nova

Seguir Cristo, Comunicador por excelência

122. O Sínodo teve muito a dizer sobre o tema da comunicação social no campo da evangelização da África, à luz das actuais circunstâncias. O ponto teológico de partida é Cristo, o Comunicador por excelência, que participa àqueles que crêem n'Ele a verdade, a vida e o amor partilhado com o Pai celeste e o Espírito Santo. Por isso, « a Igreja toma consciência do dever de promover a comunicação social ad intra e ad extra. É sua intenção favorecer a comunicação no seu seio, por uma melhor difusão da informação entre os seus membros ».238 Isto facilitar-lhe-á a comunicação ao mundo da Boa Nova do amor de Deus, revelado em Jesus Cristo.

Formas tradicionais de comunicação

123. As formas tradicionais de comunicação social não devem, em caso algum, ser subestimadas. Em numerosos ambientes africanos, revelam-se ainda muito úteis e eficazes. Além disso, são « menos caras e mais acessíveis ».239 Nelas se incluem os cânticos e a música, as mímicas e o teatro, os provérbios e os contos. Enquanto veículos da sabedoria e do espírito popular, constituem uma fonte preciosa de conteúdos e de inspiração, inclusive para os meios modernos.

Evangelização do mundo dos meios de comunicação

124. Os modernos mass-media não constituem apenas instrumentos de comunicação; são também um mundo a evangelizar. Quanto às mensagens por eles transmitidas, é preciso certificar-se de que sejam propostas no respeito do bem, do verdadeiro e do belo. Dando eco à preocupação dos Padres do Sínodo, exprimo a minha inquietude quanto ao conteúdo moral de muitíssimos programas que os meios de comunicação social difundem no Continente Africano; de modo particular, acautelo contra a pornografia e a violência, com que se procura invadir as nações pobres. Por outro lado, justamente o Sínodo deplorou « o retrato tão negativo que os mass-media fazem do africano e pede a sua imediata cessação ».240

Todo o cristão se deve preocupar por que os meios de comunicação sejam veículo de evangelização. Mas o cristão que actua como profissional neste sector, tem um papel especial a desempenhar. De facto, é sua obrigação fazer com que os princípios cristãos influam no exer- cício da profissão, inclusive no sector técnico e administrativo. Para que possam desempenhar adequadamente tal missão, é preciso proporcionar-lhes uma sã formação humana, religiosa e espiritual.

Uso dos meios de comunicação social

125. A Igreja de hoje pode dispor de uma certa variedade de meios de comunicação social, tanto tradicionais como modernos. É seu dever fazer o melhor uso deles para difundir a mensagem da salvação. Pelo que diz respeito à Igreja em África, numerosos obstáculos lhe dificultam o acesso a esses meios, não sendo o último o seu elevado preço. Em muitas partes, além disso, existem normas governamentais que impõem, a tal respeito, um controle indevido. É necessário realizar todos os esforços para remover esses obstáculos: os meios de comunicação, privados ou públicos que sejam, devem estar ao serviço de todas as pessoas, sem excepção. Convido, pois, as Igrejas particulares de África a realizarem tudo o que esteja ao seu alcance para conseguir tal objectivo.241

Colaboração e coordenação dos mass-media

126. Os meios de comunicação, sobretudo nas suas formas mais modernas, exercem uma influência que supera qualquer fronteira; neste âmbito, torna-se, pois, necessária uma estreita coordenação que consinta uma colaboração mais eficaz a todos os níveis: diocesano, nacional, continental e universal. Na África, a Igreja tem muita necessidade da solidariedade das Igrejas irmãs dos países mais ricos e avançados do ponto de vista tecnológico. Sempre neste Continente, alguns programas de colaboração continental já em acção, como por exemplo o « Comité Episcopal Pan-Africano de Comunicações Sociais », deveriam ser encorajados e revitalizados. E, como sugeriu o Sínodo, será preciso estabelecer uma colaboração mais estreita noutros sectores como a formação profissional, as estruturas produtoras da rádio e da televisão, e as emissoras de alcance continental.242

CAPÍTULO VII

« VÓS SEREIS MINHAS TESTEMUNHAS ATÉ AOS CONFINS DO MUNDO »

127. Durante a Assembleia Especial, os Padres Sinodais examinaram profundamente a situação africana no seu conjunto, para encorajar a um testemunho de Cristo cada vez mais concreto e credível, no seio de cada Igreja local, de cada nação, de cada região, e no Continente Africano inteiro. Em todas as reflexões e recomendações feitas pela Assembleia Especial, transparece preponderante o desejo de testemunhar Cristo. Nisto, vi presente o espírito do que disse a um grupo de Bispos, em África: « Respeitando, preservando e favorecendo os valores próprios e as riquezas da herança cultural do vosso povo, vós sereis capazes de guiá-lo para uma melhor compreensão do mistério de Cristo, que deve ser vivido nas nobres, concretas e quotidianas experiências da vida africana. Não se trata de adulterar a Palavra de Deus ou de esvaziar a Cruz do seu poder (cf. 1 Cor 1,17), mas antes de levar Cristo precisamente ao coração da vida africana e de erguer até Cristo a vida africana inteira. Assim, não só o cristianismo aparece importante para a África, mas o próprio Cristo, nos membros do seu Corpo, é africano ».243

Abertos à missão

128. A Igreja em África não está chamada a testemunhar Cristo apenas no continente; de facto, também a ela é dirigida a palavra do Senhor ressuscitado: « Vós sereis minhas testemunhas (...) até aos confins do mundo » (Act 1,8). Por isso mesmo, durante os debates sobre o tema do Sínodo, os Padres evitaram cuidadosamente toda a tendência de isolamento por parte da Igreja em África. A Assembleia Especial sempre permaneceu na perspectiva do mandato missionário, que a Igreja recebeu de Cristo para O testemunhar pelo mundo inteiro.244 Os Padres Sinodais reconheceram o chamamento que Deus dirige à África para que exerça cabalmente, à escala mundial, o seu papel no plano da salvação do género humano (cf. 1 Tim 2,4).

129. Precisamente em função deste compromisso pela catolicidade da Igreja, já os Lineamenta da Assembleia Especial para a África declaravam: « Nenhuma Igreja particular, nem mesmo a mais pobre, poderá ser dispensada da obrigação de partilhar os seus recursos espirituais, temporais e humanos com outras Igreja particulares e com a Igreja Universal (cf. Act 2,44-45) ».245 Por seu lado, a Assembleia Especial sublinhou intensamente a responsabilidade da África pela missão « até aos confins do mundo », nos seguintes termos: « A frase profética de Paulo VI — "vós, Africanos, sois chamados a ser missionários de vós mesmos" — há-de ser entendida deste modo: "sois missionários pelo mundo inteiro" (...). Às Igrejas particulares da África, foi lançado um apelo para a missão fora dos limites das próprias dioceses ».246

130. Aprovando com alegria e gratidão esta declaração da Assembleia Especial, desejo repetir a todos os meus irmãos Bispos da África as palavras que disse, há alguns anos: « A obrigação que a Igreja de África tem de ser missionária no seu próprio interior e de evangelizar o continente, requer a cooperação entre as Igrejas particulares no contexto de cada país africano, no contexto das diferentes nações do continente e também de outros continentes. É assim que a África se integrará plenamente na actividade missionária ».247 E num apelo dirigido anteriormente a todas as Igrejas particulares, de fundação recente ou antiga, eu dizia que « o mundo vai-se unificando cada vez mais, o espírito evangélico deve levar à supressão de barreiras culturais e nacionalistas, evitando qualquer isolamento ».248

A corajosa determinação, manifestada pela Assembleia Especial, de comprometer as jovens Igrejas de África na missão « até aos confins do mundo », reflecte o desejo de seguir, o mais generosamente possível, uma das importantes directrizes do Concílio Vaticano II: « Para que este zelo missionário comece a florescer entre os naturais do país, convém absolutamente que as Igrejas jovens participem efectivamente na missão universal da Igreja, enviando elas também missionários a anunciar o Evangelho por toda a terra, ainda que elas sofram de falta de clero. A comunhão com a Igreja inteira estará, de certo modo, consumada quando, também elas, tomarem parte activa na acção missionária junto de outros povos ».249

Solidariedade pastoral orgânica

131. No início desta Exortação, frisei que, ao anunciar a convocação da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, tinha em vista a promoção de « uma solidariedade pastoral orgânica no âmbito de todo o continente africano e das ilhas contíguas ».250 Tenho a satisfação de constatar que a Assembleia demandou corajosamente tal objectivo. Os debates no Sínodo revelaram a atenção e generosidade dos Bispos por esta solidariedade pastoral e pela partilha dos seus recursos com outros, mesmo quando eles próprios tinham falta de missionários.

132. A propósito disto e precisamente aos meus irmãos Bispos que « são directamente responsáveis comigo pela evangelização do mundo, quer como membros do Colégio Episcopal, quer como Pastores das Igrejas particulares »,251 desejo dirigir uma palavra especial. Na dedicação quotidiana ao rebanho que lhes está confiado, não devem nunca perder de vista as necessidades da Igreja no seu conjunto. Enquanto Bispos católicos, eles não podem deixar de sentir aquela solicitude por todas as Igrejas, que ardia no coração do Apóstolo (cf. 2 Cor 11,28). Não podem deixar de a sentir, sobretudo quando reflectem e decidem juntos como membros das respectivas Conferências Episcopais, que, através dos organismos de interligação a nível regional e continental, são capazes de perceber e avaliar melhor as urgências pastorais que se levantam noutras partes do mundo. Os Bispos realizam, depois, uma sublime expressão de solidariedade apostólica no Sínodo: este, « entre os assuntos de importância geral, deve atender de modo especial à actividade missionária, que é o principal e o mais sagrado dever da Igreja ».252

133. Além disso, a Assembleia Especial fez justamente notar que, para preparar uma solidariedade pastoral de conjunto em África, é necessário promover a renovação da formação dos sacerdotes. Nunca será demais meditar estas palavras do Concílio Vaticano II: « O dom espiritual, recebido pelos presbíteros na ordenação, não os prepara para uma missão limitada e determinada, mas sim para a missão imensa e universal da salvação, "até aos confins do mundo" (Act 1,8) ».253

Por este motivo, eu próprio exortei os sacerdotes a « estarem concretamente disponíveis ao Espírito Santo e ao Bispo, para serem enviados a pregar o Evangelho para além das fronteiras do seu país. Isto exigir-lhes-á não apenas maturidade na vocação, mas também uma capacidade fora do comum para se afastarem da própria pátria, etnia e família, bem como uma particular idoneidade para se inserirem, com inteligência e respeito, nas outras culturas ».254

Sinto-me profundamente grato a Deus por saber que sacerdotes africanos, em número sempre maior, têm respondido ao apelo de ser testemunhas « até aos confins do mundo ». Espero ardentemente que esta tendência seja estimulada e consolidada em todas as Igrejas particulares da África.

134. Outro motivo de grande conforto é saber que os Institutos Missionários, presentes em África há muito tempo, « acolhem hoje, numa medida sempre maior, candidatos provenientes das jovens Igrejas que eles fundaram »,255 permitindo, assim, a estas mesmas Igrejas participarem na actividade missionária da Igreja Universal. Igualmente exprimo a minha grata complacência aos novos Institutos Missionários que surgiram no Continente e que hoje enviam os seus membros ad gentes. É um desenvolvimento providencial e maravilhoso, que manifesta a maturidade e o dinamismo da Igreja que está em África.

135. De modo particular, desejo fazer minha a recomendação explícita dos Padres Sinodais a que se estabeleçam as quatro Obras Missionárias Pontifícias em cada Igreja particular e em cada país, como meio para realizar uma solidariedade pastoral orgânica em prol da missão « até aos confins do mundo ». Obras do Papa e do Colégio Episcopal, elas ocupam, com todo o direito, o primeiro lugar, « uma vez que são meios quer para dar aos católicos um sentido verdadeiramente universal e missionário logo desde a infância, quer para promover colectas eficazes de subsídios para bem de todas as missões, segundo as necessidades de cada uma ».256 Um fruto significativo da sua actividade é o « suscitar vocações ad gentes por toda a vida, tanto nas Igrejas antigas com nas mais jovens. Recomendo que orientem cada vez mais para esse fim, o seu serviço de animação ».257

Santidade e missão

136. O Sínodo reafirmou que todos os filhos e filhas da África são chamados à santidade e a ser testemunhas de Cristo em qualquer canto do mundo. « A lição da história confirma que, pela acção do Espírito Santo, a evangelização se realiza sobretudo por meio do testemunho de caridade, do testemunho de santidade ».258 Por isso, desejo repetir a todos os cristãos da África as palavras que escrevi, há alguns anos: « Todo o missionário só o é autenticamente, se se empenhar no caminho da santidade. (...) Todo o fiel é chamado à santidade e à missão. (...) O renovado impulso para a missão ad gentes exige missionários santos. Não basta renovar os métodos pastorais, nem organizar e coordenar melhor as forças eclesiais, nem explorar com maior perspicácia as bases bíblicas e teológicas da fé: é preciso suscitar um novo "ardor de santidade" entre os missionários e em toda a comunidade cristã ».259

Agora, como então, dirijo-me aos cristãos das jovens Igrejas para os colocar diante das suas responsabilidades: « Vós sois hoje a esperança desta nossa Igreja, que tem já dois mil anos: sendo jovens na fé, deveis ser como os primeiros cristãos, irradiando entusiasmo e coragem, numa generosa dedicação a Deus e ao próximo; numa palavra, deveis seguir pelo caminho da santidade. Só assim podereis ser sinal de Deus no mundo e reviver em vossos países a epopeia missionária da Igreja primitiva. E sereis também fermento de espírito missionário para as Igrejas mais antigas ».260

137. A Igreja que está em África, partilha com a Igreja Universal « a vocação sublime de realizar, em primeiro lugar em si mesma, a unidade do género humano para além das diferenças étnicas, culturais, nacionais, sociais e outras, para significar precisamente a caducidade destas diferenças abolidas pela cruz de Cristo ».261 Correspondendo à sua vocação de ser no mundo o povo redimido e reconciliado, a Igreja contribui para o fomento de uma coexistência fraterna entre os povos, transcendendo as distinções de raça e nação.

Dada a vocação específica confiada à Igreja pelo seu divino Fundador, peço insistentemente à Comunidade católica em África que ofereça à humanidade inteira um autêntico testemunho do universalismo cristão que brota da paternidade de Deus. « Todos os homens criados em Deus têm a mesma origem; qualquer que seja a sua dispersão geográfica ou a acentuação das suas diferenças, no decurso da história, eles estão destinados a formar uma só família, segundo o desígnio de Deus estabelecido "ao princípio" ».262 A Igreja em África é chamada a ir amorosamente ao encontro de todo o ser humano, acreditando com vigor que « pela sua Encarnação, o Filho de Deus uniu-Se de certo modo a cada homem ».263

De forma particular, a África deve oferecer o próprio contributo para o movimento ecuménico, cuja urgência, em vista do terceiro milénio, de novo sublinhei recentemente na Carta encíclica Ut unum sint.264 Aquela pode certamente prestar uma ajuda importante também no diálogo entre as religiões, sobretudo cultivando relações amistosas com os muçulmanos e promovendo um deferente respeito pelos valores da religião tradicional africana.

Praticar a solidariedade

138. Ao testemunhar Cristo « até aos confins do mundo », a Igreja em África sentir-se-á motivada, seguramente, pela convicção do « valor positivo e moral » que representa « a consciência crescente da interdependência entre os homens e as nações. O facto de os homens e as mulheres, em várias partes do mundo, sentirem como próprias as injustiças e as violações dos direitos humanos cometidas em países longínquos, que talvez nunca visitem, é mais um sinal de uma realidade interiorizada pela consciência, adquirindo assim uma conotação moral ».265

Faço votos de que os cristãos em África se tornem cada vez mais conscientes desta interdependência entre os indivíduos e entre as nações, e estejam prontos a corresponder-lhe pela prática da virtude da solidariedade. O fruto da solidariedade é a paz, bem tão precioso para os povos e as nações de qualquer canto do mundo. Com efeito, precisamente através de meios capazes de promover e reforçar a solidariedade, a Igreja pode prestar um contributo específico e determinante para uma verdadeira cultura da paz.

139. Relacionando-se, sem qualquer discriminação, com os povos do mundo, em diálogo com as várias culturas, a Igreja aproxima uns dos outros, e ajuda cada qual a assumir na fé os valores autênticos dos outros.

Pronta a cooperar com todo o homem de boa vontade e com a comunidade internacional, a Igreja em África não procura vantagens para si própria. A solidariedade que manifesta, « tende a superar-se a si mesma, a revestir as dimensões especificamente cristãs da gratuidade total, do perdão e da reconciliação ».266 A Igreja procura contribuir para a conversão da humanidade, levando-a a abrir-se ao plano salvífico de Deus por meio do testemunho evangélico, acompanhado pela actividade caritativa ao serviço dos pobres e dos marginalizados. E ao fazê-lo, não perde nunca de vista o primado do transcendente e daquelas realidades espirituais que constituem as primícias da salvação eterna do homem.

Durante os debates relativos à solidariedade da Igreja com os povos e as nações, os Padres Sinodais sempre estiveram conscientes de que « o progresso terreno se deve cuidadosamente distinguir do crescimento do Reino de Cristo », mas, « na medida em que pode contribuir para a melhor organização da sociedade humana, interessa muito ao Reino de Deus ».267 Por isso mesmo, a Igreja em África está convencida — e o trabalho da Assembleia Especial demonstrou-o claramente — que a expectativa do regresso final de Cristo « nunca poderá ser uma desculpa para nos desinteressarmos dos homens, na sua situação pessoal concreta e na sua vida social, nacional e internacional »,268 já que as condições terrenas influenciam a peregrinação do homem rumo à eternidade.

CONCLUSÃO

Rumo ao novo milénio cristão

140. Reunidos ao redor da Virgem Maria como que em novo Pentecostes, os membros da Assembleia Especial examinaram profundamente a missão evangelizadora da Igreja em África, no limiar do terceiro milénio. Ao concluir esta Exortação Apostólica pós-sinodal, onde se apresentam os frutos dessa Assembleia à Igreja que está em África, Madagáscar e ilhas contíguas, e a toda a Igreja Católica, dou graças a Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, que nos concedeu o privilégio de viver esse autêntico « momento de graça » que foi o Sínodo. Estou profundamente agradecido ao Povo de Deus em África por tudo quanto fez pela Assembleia Especial. Este Sínodo foi preparado com zelo e entusiasmo, como atestam as respostas ao questionário anexo ao documento preliminar (Lineamenta), e as reflexões recolhidas no documento de trabalho (Instrumentum laboris). As comunidades cristãs da África rezaram fervorosamente pelo bom êxito dos trabalhos da Assembleia Especial, que foi largamente abençoada pelo Senhor.

141. Uma vez que o Sínodo foi convocado para consentir que a Igreja em África assumisse, de maneira tão eficaz quanto possível, a sua missão evangelizadora com vista ao terceiro milénio cristão, com esta Exortação convido o Povo de Deus em África — Bispos, sacerdotes, pessoas consagradas e leigos — a orientar-se resolutamente para o Grande Jubileu, que será celebrado dentro de poucos anos. No caso dos povos de África, a melhor preparação para o novo milénio não pode ser senão o firme compromisso de actuarem, com grande fidelidade, as decisões e orientações que, com a autoridade apostólica de Sucessor de Pedro, apresento nesta Exortação. Trata-se de decisões e orientações que se inscrevem na genuína linha dos ensinamentos e directrizes da Igreja e, especialmente, do Concílio Vaticano II que foi a principal fonte de inspiração da Assembleia Especial para a África.

142. O meu convite ao Povo de Deus que está em África para se preparar para o Grande Jubileu do ano 2000, pretende ser também um vibrante apelo à alegria cristã. « A grande alegria anunciada pelo Anjo, na noite de Natal, é verdadeiramente para todo o povo (cf. Lc 2,10). (...) Foi-o, em primeiro lugar, para a Virgem Maria, que tinha recebido o seu anúncio do anjo Gabriel, e o seu Magnificat constituia já o hino de exultação de todos os humildes. Os mistérios gozosos, todas as vezes que rezámos o Terço, tornam a colocar-nos perante o inefável acontecimento que é centro e ápice da História: a vinda à terra do Emanuel, o Deus-connosco ».269

É o bimilenário de tal acontecimento, rico de alegria, que nos preparamos para celebrar com o próximo Grande Jubileu. Naturalmente a África — que « constitui, em certo sentido, a "segunda pátria" de Jesus de Nazaré, [porque] foi lá que Ele, menino pequeno, encontrou refúgio contra a crueldade de Herodes » 270 — é chamada à alegria. Ao mesmo tempo, « tudo deverá apontar para o objectivo prioritário do Jubileu que é o revigoramento da fé e do testemunho dos cristãos ».271

143. Por causa das numerosas dificuldades, crises e conflitos que geram tanta miséria e sofrimento no Continente, há Africanos que, por vezes, são tentados a pensar que o Senhor os tenha abandonado, que Ele os tenha esquecido (cf. Is 49,14)! Mas « Deus responde com as palavras do grande Profeta: "Acaso pode uma mulher esquecer-se do menino que amamenta, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria. Eis que Eu te gravei nas palmas das minhas mãos" (Is 49,15-16). Sim, nas palmas das mãos de Cristo, trespassadas pelos cravos da crucifixão! O nome de cada um de vós, [Africanos], está escrito nestas mãos. Portanto, com grande confiança, digamos: "O Senhor é a minha força e o meu escudo; n'Ele confiou o meu coração; fui socorrido e, por isso, o meu coração exulta" (Sal 2827,7) ».272

Oração a Maria, Mãe da Igreja

144. Reconhecido pela graça deste Sínodo, dirijo-me a Maria, Estrela da evangelização, e, com o terceiro milénio já próximo, confio-Lhe a África e a sua missão evangelizadora. Dirijo-me a Ela com os pensamentos e sentimentos expressos na oração que os meus irmãos Bispos compuseram, na conclusão da Fase de trabalho do Sínodo, em Roma:

Ó Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja,
graças a Vós, no dia da Anunciação,
ao alvorecer dos novos tempos,
todo o género humano com as suas culturas,
se alegrou por se saber capaz do Evangelho.
Na vigília de um novo Pentecostes
para a Igreja de África,
Madagáscar e ilhas contíguas,
o Povo de Deus com os seus Pastores
dirige-se a Vós e, juntamente convosco, implora:
a efusão do Espírito Santo
faça das culturas africanas
lugares de comunhão na diversidade,
transformando os habitantes
deste grande Continente
em filhos generosos da Igreja,
que é Família do Pai
Fraternidade do Filho,
Imagem da Trindade,
gérmen e início na terra
daquele Reino eterno
que terá a sua plenitude
na Cidade que tem Deus como construtor:
Cidade de justiça, de amor e de paz.

Dado em Yaoundé, Camarões, no dia 14 de Setembro, Festa da Exaltação da Santa Cruz, do ano 1995, décimo sétimo de Pontificado.

 

Copyright 1995 © Libreria Editrice Vaticana

 

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