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EXORTAÇÃO APOSTÓLICA REDEMPTIONIS
DONUM DE SUA SANTIDADE O PAPA JOÃO PAULO II AOS
RELIGIOSOS E ÀS RELIGIOSAS SOBRE A SUA CONSAGRAÇÃO À
LUZ DO MISTÉRIO DA REDENÇÃO
Caríssimos Irmãos e Irmãs em Cristo Jesus:
I
SAUDAÇÃO
1. O dom da Redenção, que este Ano Jubilar extraordinário
põe especialmente em relevo, comporta em si mesmo um chamamento
particular à conversão e à reconciliação com
Deus em Jesus Cristo. Se bem que o motivo exterior deste Jubileu extraordinário
seja de carácter histórico - celebra-se, efectivamente, o 1950°
aniversário dos acontecimentos da Cruz e da Ressurreição -
simultaneamente prevalece nele um motivo interior, conjunto à própria
profundeza do mistério da Redenção. A Igreja nasceu deste
mistério; e vive dele ao longo de toda a sua história. O tempo do
Jubileu extraordinário tem um carácter excepcional. O chamamento à
conversão e à reconciliação com Deus significa que
devemos meditar mais a fundo na nossa vida e na nossa vocação
cristã à luz do mistério da Redenção, a fim
de as arraigar cada vez mais nele.
Se este chamamento é para todos os filhos da Igreja, ele diz-vos
respeito de maneira especial a vós, Religiosos e Religiosas,
que, pela consagração a Deus, mediante o voto dos conselhos evangélicos,
tendeis a uma particular plenitude de vida cristã. A vossa vocação
peculiar e o conjunto da vossa vida na Igreja e no mundo vão haurir o seu
carácter e a sua força espiritual na própria
profundidade do mistério da Redenção. Ao seguirdes
Cristo pela «porta estreita ... e pelo caminho apertado», (1) vós
experimentais de um modo extraordinário quanto é «abundante a
Redenção que n'Ele se encontra»: copiosa apud eum
redemptio. (2)
2. Por isso, quando este Ano Santo já se encaminha a passos largos
para a sua conclusão, desejo dirigir-me de maneira particular a todos vós,
Religiosos e Religiosas: aos que vos dedicais inteiramente à contemplação,
bem como aos que vos devotais às diversas obras de apostolado. Já
o fiz em numerosos lugares e em diversas circunstâncias, confirmando e
prolongando o ensino do Evangelho, expresso em toda a Tradição da
Igreja e especialmente visível no Magistério do recente Concílio
Ecuménico, desde a Constituição dogmática Lumen
Gentium até ao Decreto Perfectae Caritatis, e no espírito
das orientações da Exortação Apostólica Evangelica
Testificatio do meu Predecessor Paulo VI. O Código de Direito Canónico,
que recentemente entrou em vigor e que pode ser considerado, de alguma maneira,
o último dos Documentos conciliares, será para todos vós um
auxiliar precioso e um guia seguro, facultando determinar em concreto os meios
para viverdes fiel e generosamente a vossa magnífica vocação
eclesial.
Saúdo-vos com afecto na qualidade de Bispo de Roma e de Sucessor de São
Pedro, com o qual as vossas Comunidades permanecem unidas dum modo característico.
Também desta mesma Sede Romana, como que em eco incessante, se fazem
ouvir as palavras de São Paulo: desposei-vos «com um único
esposo, como virgem pura oferecida a Cristo». (3) A Igreja, que é
depositária, a partir do tempo dos Apóstolos, do tesouro das núpcias
com o Esposo divino, olha com grande amor para todos os seus filhos e para todas
as suas filhas que, pela sua mediação, com a profissão
dos conselhos evangélicos firmaram uma aliança privilegiada
com o Redentor do mundo.
Acolhei, pois, esta palavra do Ano Jubilar da Redenção como
uma palavra de amor, dita para vós pela Igreja! Acolhei-a onde quer que
vos encontreis: na clausura das Comunidades contemplativas, ou na dedicação
ao multiforme serviço apostólico - nas Missões, na
Pastoral, nos Hospitais ou noutros lugares análogos onde é servido
o homem que sofre, nas Instituições de educação, nas
Escolas ou nas Universidades, enfim, em cada uma das vossas Casas, onde
perseverais «reunidos em nome de Cristo», com a convicção
de que o Senhor está «no meio de vós». (4)
Que esta palavra de amor, que vos é dirigida no decorrer do
Jubileu da Redenção, da parte da Igreja, seja o reflexo
daqueloutra palavra de amor que o próprio Cristo dirigiu a cada um e a
cada uma de vós, segredando-vos um dia aquele misterioso «segue-me»,
(5) no qual teve início a vossa vocação na Igreja.
II
VOCAÇÃO
«Jesus fitou-o com amor...»
3. «Jesus fitou-o com amor» (6) e disse-lhe: «Se queres ser
perfeito, vai, vende o que tens e dá-o aos pobres e terás um
tesouro no Céu. Depois vem e segue-me». (7) Embora saibamos que
estas palavras, ditas ao jovem rico, não foram acolhidas por ele, como «chamado»,
o seu conteúdo no entanto, merece uma atenta reflexão; elas
apresentam, de facto, a estrutura interior da vocação.
«Jesus fitou-o com amor ...». Está aqui estampado o amor do
Redentor: aquele amor que brota de toda a profundeza divino-humana da Redenção.
Nele reflecte-se o eterno amor do Pai, que «amou tanto o mundo que
deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que crê n'Ele não
pereça, mas tenha a vida eterna». (8) O Filho, imbuído por
este amor, aceitou a missão do Pai no Espírito Santo e tornou-se o
Redentor do mundo. E o amor do Pai revelou-se no Filho como amor que salva.
É este amor precisamente que constitui o verdadeiro preço da Redenção
do homem e do mundo. Os Apóstolos de Cristo falam com profunda emoção
de tal preço da Redenção: «... não fostes
resgatados... a preço de coisas corruptíveis, como a prata e o
ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem
mácula», escreve São Pedro. (9) «Na verdade, fostes
comprados por elevado preço», diz também São Paulo.
(10)
O chamamento para seguir o caminho dos conselhos evangélicos nasce
do encontro íntimo com o amor de Cristo, que é amor
redentor. É com este amor, exactamente, que Cristo chama. Na estrutura da
vocação, o encontro com este amor torna-se algo especificamente
pessoal. Quando Cristo, «depois de vos ter fitado, vos amou», chamando
cada um e cada uma de vós, amados Religiosos e Religiosas, aquele seu
amor redentor foi dirigido a uma determinada pessoa, adquirindo ao mesmo tempo
características esponsais: tornou-se amor de eleição.
Tal amor abrange a pessoa toda, alma e corpo, seja homem ou mulher, com o seu único
e irrepetível «eu» pessoal. Aquele que, doado eternamente ao
Pai, «se dá» a si próprio no mistério de Redenção,
eis que chama o homem, a fim de que este, por sua vez, se dê inteiramente
a um serviço particular da obra da Redenção, mediante a
agregação a uma Comunidade fraterna, reconhecida e aprovada pela
Igreja. Não serão, porventura, um eco deste chamamento as palavras
de São Paulo: «Não sabeis que o vosso corpo é templo
do Espírito Santo ... e que vós não sois senhores de vós
mesmos? Na verdade, fostes comprados por elevado preço». (11)
Sim: o amor de Cristo assenhoreou-se de cada um e de cada uma de vós,
amados Religiosos e Religiosas, por aquele mesmo «preço» da
Redenção. E em consequência disso, vós
apercebestes-vos de que já não pertenceis a vós mesmos,
mas a Ele. Esta nova consciência foi o fruto do «olhar amoroso»
de Cristo no íntimo dos vossos corações. E vós
correspondestes a esse olhar escolhendo Aquele que primeiro vos escolheu a cada
um e a cada uma de vós, chamando-vos com a imensidade do seu amor
redentor. Chamando «pelo nome», o seu chamamento faz sempre apelo àliberdade
do homem. Cristo diz: «Se queres ...». A resposta a este
chamamento, portanto, é uma escolha livre. Escolhestes a Jesus de Nazaré,
o Redentor do mundo, ao escolherdes o caminho que Ele vos indicou.
«Se queres ser perfeito ...»
4. Este caminho também é chamado caminho da perfeição.
Conversando com o jovem, Cristo diz: «Se queres ser perfeito ...»; de
tal maneira que o conceito de «caminho da perfeição» tem
a sua razão de ser na fonte do próprio Evangelho. Não
ouvimos nós, de resto, no Sermão da Montanha: «Sede, pois,
perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celeste»? (12) O
chamamento do homem à perfeição foi pressentido, de
alguma maneira, pelos pensadores e moralistas do mundo antigo e também
sucessivamente, nas diversas épocas da história. O chamamento bíblico,
porém, reveste-se de uma sua característica absolutamente
original, e apresenta-se particularmente exigente, quando aponta ao homem a
perfeição à semelhança do próprio Deus. (13)
Sob esta forma, precisamente, o chamamento corresponde a toda a lógica
interna da Revelação, segundo a qual o homem foi criado àimagem
e semelhança do próprio Deus. Por conseguinte, deve buscar a
perfeição que lhe é própria na linha desta imagem e
semelhança. Escreverá São Paulo na Carta aos Efésios:
«Sede, pois, imitadores de Deus, como convém a filhos muito amados;
caminhai na caridade a exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se
entregou a si mesmo a Deus, como oferenda e sacrifício de agradável
odor». (14)
O chamamento à perfeição, portanto, pertence à
própria essência da vocação cristã. E é
sobre a base deste chamamento que é preciso compreender também as
palavras de Cristo dirigidas ao jovem do Evangelho. Elas estão ligadas de
modo especial ao mistério da Redenção do homem e do mundo.
Esta, de facto, restitui a Deus a obra da Criação contaminada pelo
pecado, indicando a perfeição que tem tudo o que foi criado e, de
modo particular, o homem, no pensamento e na intenção do mesmo
Deus. O homem, especialmente, deve ser doado e restituído a
Deus, para poder ser restituído a si mesmo. Donde o eterno
chamamento: «Volta para mim, pois te resgatei». (15) Assim, as
palavras de Cristo: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens e dá-o
aos pobres ...» introduzem-nos, sem dúvida, no âmbito do
conselho evangélico da pobreza, que pertence à própria essência
da vocação e da profissão religiosa.
Estas palavras podem ser entendidas ainda de uma maneira mais ampla e, em
certo sentido, essencial. O Mestre de Nazaré convida o seu interlocutor
a renunciar a um programa de vida no qual emerge, em primeiro plano, a
categoria da posse, a categoria do «ter»; e, em vez disso, a aceitar
um outro programa centrado no valor da pessoa humana, no «ser»
pessoal, com toda a transcendência que lhe é própria.
Uma compreensão assim das palavras de Cristo constitui como que um
plano de base mais amplo para o ideal da pobreza evangélica,
especialmente daquela pobreza que, enquanto conselho evangélico, pertence
ao conteúdo essencial das vossas núpcias místicas com o
Esposo divino na Igreja. Ao lermos as palavras de Cristo à luz do princípio
da superioridade do «ser» sobre o «ter» - especialmente
quando este último é entendido no sentido materialista e
utilitarista - nós atingimos quase as próprias bases antropológicas
da vocação como resultam no Evangelho.
Na perspectiva do desenvolvimento da civilização contemporânea,
está nisto uma descoberta particularmente actual. E por isso, a própria
vocação ao «caminho da perfeição», tal
como foi traçado pelo próprio Cristo, apresenta-se também
actual. Dado que no âmbito da civilização hodierna,
especialmente no contexto do mundo do bem-estar da sociedade de consumo, o homem
sente profunda e dolorosamente a deficiência essencial de «ser»
pessoal, que resulta para a sua humanidade da abundância do multiforme «ter»,
então ele passa a estar mais disposto para acolher esta verdade sobre a
vocação, que foi expressa de uma vez para sempre no Evangelho.
Sim, o chamamento que vós acolheis, amados Irmãos e Irmãs,
quando entrais pelo caminho da profissão religiosa, toca as próprias
raízes da humanidade, as raízes do destino do homem no mundo
temporal. O «estado de perfeição» evangélico não
vos separa destas raízes. Pelo contrário, é algo que vos
permite ancorar mais seguramente naquilo por que o homem é homem,
impregnando esta humanidade, entorpecida pelo pecado de diversas maneiras, com o
fermento divino-humano do mistério da Redenção.
«Terás um tesouro no céu»
5. A vocação encerra em si a resposta à pergunta: para
quê ser homem - e como sê-lo? Esta resposta confere à
vida toda uma nova dimensão e determina o seu sentido definitivo. Este
sentido emerge no horizonte do paradoxo evangélico acerca da vida que se
perde quando se quer salvá-la, e que, ao contrário, se salva
perdendo-a «por causa de Cristo e do Evangelho», como lemos em São
Marcos. (16)
À luz destas palavras reveste-se de plena evidência o
chamamento de Cristo: «vai, vende o que tens e dá-o aos pobres e terás
um tesouro no céu. Depois vem e segue-me». (17) Entre o termo «vai»
e o sucessivo «vem e segue-me» estabelece-se uma relação
íntima. Pode-se dizer que estas últimas palavras determinam a própria
essência da vocação; com efeito, trata-se de seguir as
pegadas de Cristo (sequi = palavra latina, de onde vem a sequela
Christi). Os termos «vai ... vende ... dá-o» parecem
determinar bem a condição que precede a vocação. No
entanto, esta condicão não é, por outro lado, algo que
esteja «fora» da vocação; mas já se encontra «no
interior» da mesma. O homem, efectivamente, faz a descoberta do novo
sentido da própria humanidade, não apenas para «seguir»
a Cristo, mas na medida em que O segue. Quando «vende o que
possui» e «o dá aos pobres», é então que ele
descobre que aqueles bens e aquela «vida na abundância», de que
já dispunha, não constituíam o tesouro junto do qual
pudesse aquietar-se: o tesouro está no seu coração,
por Cristo feito capaz de «dar» aos outros, dando-se a si próprio.
Rico não é aquele que possui; mas sim aquele que «dá»,
aquele que é capaz de dar.
Aqui neste ponto o paradoxo evangélico adquire uma expressividade
particular. Torna-se um programa do ser: ser pobre, no sentido dado a
este «ser» pelo Mestre de Nazaré, significa tornar-se um
dispensador de bem com a própria humanidade. Isto quer dizer, igualmente,
descobrir «o tesouro». Este tesouro é indestrutível.
Conjuntamente ao homem ele prolonga-se na dimensão da eternidade,
pertence à escatologia divina do mesmo homem. Mediante este tesouro o
homem passa a ter o seu futuro definitivo em Deus. Cristo disse: «terás
um tesouro no céu». E este tesouro não é «um prémio»
somente, depois da morte, pelas boas obras praticadas a exemplo do divino
Mestre; mas é sobretudo o completamento escatológico
daquilo que se escondia por detrás dessas boas obras, já aqui na
terra, no «tesouro» interior do coração. O próprio
Cristo, aliás, no Sermão da Montanha, (18) ao exortar a angariar
tesouros no céu, acrescentava: «onde está o teu tesouro, ai
estará também o teu coração». (19) Estas
palavras indicam o carácter escatológico da vocação
cristã e, mais ainda, o carácter escatológico da vocação
que se realiza seguindo o caminho das núpcias espirituais com Cristo,
mediante a prática dos conselhos evangélicos.
6. A estrutura desta vocação, conforme se depreende
das palavras dirigidas ao jovem nos Evangelhos sinópticos, (20)
configura-se mediante a descoberta do tesouro fundamental da própria
humanidade, na perspectiva daqueloutro «tesouro» que o homem «terá
no céu». E com esta perspectiva o tesouro substancial da própria
humanidade fica associado ao facto de «ser dando-se a si próprio».
O ponto de referência directo para uma vocação assim é
a pessoa viva de Jesus Cristo. O chamamento ao caminho da perfeição
recebe a sua configuração d'Ele e por Ele no Espírito
Santo, o qual vai recordando sempre a pessoas diversas - homens e
mulheres, em diferentes momentos da sua vida, mas prevalentemente na juventude -
tudo o que Cristo «disse», (21) em particular aquilo que «disse»
ao jovem que Lhe perguntava: Mestre, que devo eu fazer de bom, para obter a vida
eterna?». (22) Mediante a resposta de Cristo, que «fitou com amor»
o seu interlocutor, o fermento forte do mistério da Redenção
penetra na consciência, no coração e na vontade de todo o
homem que busca com verdade e sinceridade.
Deste modo, o chamamento a percorrer o caminho dos conselhos evangélicos
tem sempre o seu início em Deus: «Não fostes vós que
me escolhestes a mim: fui eu que vos escolhi a vós e vos constituí
para que vades e produzais fruto e para que o vosso fruto seja duradouro»,
(23) A vocação, na qual o homem descobre totalmente a lei evangélica
da doação inscrita na própria humanidade, é também
ela um dom! É um dom repleto do conteúdo mais profundo do
Evangelho; um dom em que se reflecte o perfil divino-humano do mistério
da Redenção do mundo. «Nisto consiste o amor: não
fomos nós que amámos a Deus; mas foi Ele que nos amou e nos enviou
o seu Filho em expiação dos nossos pecados». (24)
III
CONSAGRAÇÃO
A profissão religiosa é «uma expressão
mais perfeita» da consagração baptismal
7. A vocação, amados Irmãos e Irmãs, levou-vos à
profissão religiosa, graças à qual vós fostes
consagrados a Deus, mediante o ministério da Igreja; e, ao mesmo tempo,
fostes incorporados na vossa Família religiosa. Por isso, a Igreja pensa
em vós, em primeiro lugar enquanto sois pessoas «consagradas»:
consagradas a Deus em Jesus Cristo para lhe pertencerdes exclusivamente.
Esta consagração determina o vosso lugar na ampla Comunidade da
Igreja, do Povo de Deus; ao mesmo tempo, introduz na missão universal
deste Povo recursos especiais de energia espiritual e sobrenatural: uma peculiar
forma de vida, de testemunho e de apostolado, na fidelidade à missão
do vosso Instituto, à sua identidade e ao seu património
espiritual. A missão universal do Povo de Deus está radicada na
missão messiânica do próprio Cristo - Profeta, Sacerdote e
Rei - na qual todos participam de diversas maneiras. A forma de
participação própria das pessoas «consagradas»
corresponde à forma do vosso enraizamento em Cristo. E é
precisamente a profissão religiosa que determina a profundidade e o vigor
deste enraizamento.
A mesma profissão cria um vínculo novo do homem com Deus uno e
trino, em Jesus Cristo. Este ligame tem fundamento e é acréscimo
daquele vínculo original, que se estabeleceu no sacramento do
Baptismo. A profissão religiosa «tem as suas raízes
profundas na consagração do Baptismo e exprime-a mais
perfeitamente». (25) Deste modo, ela torna-se, no seu conteúdo
constitutivo, uma nova consagração: a consagração e
a doação da pessoa humana a Deus, amado sobre todas as coisas. O
compromisso assumido mediante os votos de pôr em prática os
conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência, segundo
as disposições próprias das vossas Famílias
religiosas, conforme se encontram determinadas nas respectivas Constituições,
representa a expressão de uma consagração total a
Deus e, conjuntamente, o meio que leva à sua realização.
Aqui vão buscar também a própria forma o testemunho e o
apostolado peculiar das pessoas consagradas. Importa, no entanto, procurar a
raiz desta consagração consciente e livre e da subsequente entrega
de si mesmo a Deus para Ihe pertencer no Baptismo, sacramento que nos conduz
ao mistério pascal, como vértice e centro da Redenção
realizada por Cristo.
Por conseguinte, quando se quer pôr totalmente em realce a realidade
da profissão religiosa, é necessário referir-se às
vibrantes palavras de São Paulo na Carta aos Romanos: «Ou
ignorais, porventura, que todos os que fomos baptizados em Cristo Jesus,
fomos imersos à semelhança da sua morte? Por meio do
Baptismo fomos, pois, sepultados juntamente com Ele, à semelhança
da morte, para que, assim como Jesus Cristo... assim caminhemos, nós também,
numa nova vida». (26) «O nosso homem velho foi crucificado com Ele...
a fim de já não sermos escravos do pecado». (27) «Do
mesmo modo, vós também, considerai-vos mortos para o pecado e
vivos para Deus em Jesus Cristo». (28)
A profissão religiosa - assente na base sacramental do Baptismo, em
que está radicada - é uma «nova sepultura na morte de Cristo»:
nova, pela consciência e pela escolha; nova, mediante o amor e a vocação;
nova, enfim, mediante a incessante «conversão». Essa «sepultura
na morte» faz com que o homem «sepultado juntamente com Cristo», «caminhe
como Cristo numa vida nova». Em Cristo crucificado vão encontrar
o seu fundamento último quer a consagração baptismal, quer
a profissão dos conselhos evangélicos; esta, na palavra do Concílio
Vaticano II, «constitui uma consagração especial». É
simultaneamente morte e libertação. São Paulo
escreve: «considerai-vos mortos para o pecado»; ao mesmo tempo, porém,
chama a esta morte «libertação da escravatura do pecado».
A consagração religiosa, todavia, sobre a base sacramental do
santo Baptismo, constitui sobretudo uma vida nova «para Deus em Cristo
Jesus».
E eis que assim, conjuntamente à profissão dos conselhos evangélicos,
dum modo muito mais amadurecido e mais cônscio é «deposto
o homem velho»; e, da mesma maneira, é «revestido o
homem novo, criado à imagem de Deus na justiça e na santidade
verdadeira», querendo usar, uma vez mais, as palavras da Carta aos Efésios.
(29)
Aliança do amor esponsal
8. Portanto, amados Irmãos e Irmãs, todos os que na Igreja
inteira viveis a aliança da profissão dos conselhos evangélicos,
renovai neste Ano Santo da Redenção a consciência
da vossa participação especial na morte do
Redentor na Cruz; a consciência daquela participação
mediante a qual ressuscitastes, juntamente com Ele, e ressuscitais
constantemente para uma vida nova. O Senhor fala a cada um e a cada uma de vós,
como certa vez falou por meio do profeta Isaías:
«Não temas, porque eu te resgatei, chamei-te pelo
nome; tu és meu». (30)
O chamamento evangélico: «se queres ser perfeito ... segue-me»
(31) guia-nos com a luz das palavras do Divino Mestre. O chamamento de Cristo
chega das profundezas da Redenção e de tais profundezas atinge a
alma do homem; e, em virtude de graça da Redenção,
esse chamamento salvífico concretiza-se na forma real da profissão
dos conselhos evangélicos na alma de quem é chamado. Nesta forma,
pois, está contida a vossa resposta ao chamamento do amor redentor; e
também é uma resposta de amor: amor de doação,
que é a alma da consagração, isto é, da
consagração da pessoa. As palavras de Isaías: «eu
te resgatei tu és meu» parecem sigilar
exactamente este amor, que é amor total e exclusivo de uma consagração
a Deus.
É deste modo que se estabelece a aliança particular do
amor esponsal, na qual parecem repercutir, num eco incessante, as palavras
relativas a Israel, que o Senhor «escolheu ... para sua possessão»,
(32) Em cada pessoa consagrada, de facto, é escolhido o «Israel»
da nova e eterna Aliança. É todo o Povo messiânico, a Igreja
inteira, que é eleita em todas e cada uma das pessoas que o
Senhor escolhe no meio deste Povo: em cada pessoa que se consagra por todos
a Deus, como propriedade exclusiva. Efectivamente, se é verdade que
nenhum homem, nem sequer o mais santo, pode repetir as palavras de Cristo: «eu
consagro-me a mim mesmo por eles», (33) entretanto, atendendo ao poder
redentor próprio destas mesmas palavras, ao oferecer-se a Deus como
propriedade exclusiva, mediante o amor de doação, cada um pode
achar-se, por meio da fé, abrangido pelo alcance de tais palavras.
Porventura, não nos chamam a atenção para isto as
palavras do Apóstolo na Carta aos Romanos, que nós
repetimos e meditamos com tanta frequência: «Exorto-vos, pois, irmãos,
pela misericórdia de Deus, a oferecer os vossos corpos como hóstia
viva, santa e agradável a Deus; este é o culto racional que lhe
deveis prestar»? (34) Nestas palavras repercute-se um certo eco longínquo
d'Aquele que, vindo ao mundo e fazendo-se homem, disse ao Pai: «... Formastes-me
um corpo... Eis-me aqui... para fazer, ó Deus, a tua vontade».
(35)
Rememoramos, por conseguinte neste contexto particular do Ano do
Jubileu da Redenção o mistério do corpo e da alma de
Cristo, como sujeito integral do amor redentor e esponsal: esponsal, porque
redentor. Por amor ofereceu-se a si mesmo; por amor, ainda, deu o seu
corpo «pelos pecados do mundo». Ao mergulhardes, mediante a consagração
dos votos religiosos, no mistério pascal do Redentor, vós, com o
amor de uma doação total, manifestais o desejo de que as vossas
almas e os vossos corpos sejam compenetrados pelo espírito de sacrifício,
daquele modo que São Paulo vos convida a fazê-lo, com as palavras
da Carta aos Romanos, que acabamos de citar: «oferecei os vossos
corpos como hóstia». (36) Desta maneira, imprime-se na profissão
religiosa a semelhança com aquele amor que no Coração
de Cristo é redentor e, conjuntamente, esponsal. E um amor assim deve
brotar em cada um de vós, amados Irmãos e Irmãs, da própria
fonte daquela consagração particular que assente na
base sacramental do santo Baptismo é o início da
vossa vida nova em Cristo e na Igreja: é o início da
nova criação.
Que se aprofunde em cada um e cada uma de vós, juntamente com este
amor, a alegria de pertencerdes exclusivamente a Deus, de serdes uma
herança particular da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito
Santo. Procurai repetir, de vez em quando, com o Salmista as palavras
inspiradas:
«Quem, fora de vós, há para mim no céu? Nem na
terra outra coisa desejo. Desfalece a minha carne e o meu coração, mas
a rocha do meu coração e a minha herança é Deus
para sempre». (37)
Ou então estas outras:
«Digo a Deus: Senhor o meu bem sois vós; nenhum outro
fora de vós ... O Senhor é a porção da minha
herança e o meu cálice: vós sois o que tendes na mão
a minha sorte». (38)
Que a consciência de pertencerdes ao próprio Deus em Jesus
Cristo, Redentor do mundo e Esposo da Igreja, marque sempre os vossos corações,
(39) todos os vossos pensamentos, palavras e obras, com o sinal distintivo da
esposa bíblica. Este conhecimento de Cristo, ardente e profundo, como vós
sabeis, exercita-se e aprofunda-se cada dia mais, por meio da vida de oração
pessoal, comunitária e litúrgica, própria de cada uma das
vossas Famílias religiosas. Também nisto, e sobretudo nisto, os
Religiosos e as Religiosas que se dedicam essencialmente à contemplação
constituem para os seus irmãos e irmãs que se entregam às
obras de apostolado, uma ajuda válida e um apoio estimulante. Que esta
consciência de pertencer a Cristo abra os vossos corações,
pensamentos e obras, com a chave do mistério da Redenção, a
todos os sofrimentos, a todas as necessidades e a todas as esperanças dos
homens e do mundo, no meio dos quais a vossa consagração evangélica
foi enxertada, como um sinal particular da presença de Deus «para o
qual todos vivem», (40) abrangidos pelas dimensões invisíveis
do seu Reino.
A palavra «segue-me», dita por Cristo, quando «fitou e amou»
cada um e cada uma de vós, amados Irmãos e Irmãs, tem este
significado também: participa, da maneira mais completa e mais radical
possível, na formação daquela «nova criatura»
(41) que deve resultar da redenção do mundo, mediante o poder do
Espírito de Verdade, que opera pela abundância do mistério
pascal de Cristo.
IV
CONSELHOS EVANGÉLICOS
9. Mediante a profissão abre-se diante de cada um e de cada uma de vós
o caminho dos conselhos evangélicos. Há no Evangelho muitas
recomendações que excedem a medida do mandamento, indicando não
apenas o que é «necessário», mas aquilo que é «melhor».
Assim, por exemplo: a exortação a não julgar, (42) a
emprestar «sem nada esperar em troca», (43) a satisfazer todas as exigências
e desejos do próximo, (44) a convidar para a própria mesa os
pobres, (45) a perdoar sempre (46) e muitas outras semelhantes. O facto de se
ter concentrado nos três pontos da castidade, pobreza e obediência
a profissão dos conselhos evangélicos, seguindo a Tradição,
é um costume que parece pôr em relevo, de maneira suficientemente
clara, a importância dos mesmos, como elementos-chave de toda a economia
da Salvação, como elementos que, em certo sentido, a «resumem».
Tudo aquilo que no Evangelho é conselho entra, indirectamente, no
programa daquele caminho para o qual Cristo chama, quando diz: «segue-me».
Mas a castidade, a pobreza e a obediência dão a este caminho uma
característica cristocêntrica particular e imprimem nele um
sinal específico da economia da Redenção.
É essencial para esta «economia» a transformação
de todo o cosmos através do coração do homem, a
partir de dentro: «A criação atende ansiosamente a revelação
dos filhos de Deus ... na esperança de que as próprias criaturas
serão libertadas da escravatura da corrupção, para
participar na gloriosa liberdade dos fiIhos de Deus». (47) Tal transformação
vai de par com o amor que o chamamento de Cristo difunde no coração
do homem, com aquele amor que constitui a própria substância da
consagração; ou seja, daquele acto pelo qual o homem ou a mulher
se devotam a Deus na profissão religiosa, sobre o fundamento da consagração
sacramental do Baptismo. Nós podemos descobrir as bases da economia da
Redenção lendo as palavras da primeira Carta de São João:
«Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o
mundo, não está nele o amor do Pai. Porque todas as coisas do
mundo a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e
a soberba da vida não provêm do Pai, mas do mundo. Ora o
mundo passa e também a sua concupiscência; mas quem faz a vontade
de Deus permanece eternamente». (48)
A profissão religiosa põe no coração de cada um
e de cada uma de vós, amados Irmãos e Irmãs, o amor do
Pai; aquele amor que está no coração de Jesus Cristo,
Redentor do mundo. É um amor que abrange o mundo e tudo aquilo
que nele
provém do Pai; e é o mesmo amor que tende a debelar no
mundo tudo aquilo que não provém do Pai. Ele tende, pois,
a vencer a tríplice concupiscência. «A concupiscência da
carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida» encontram-se
latentes no íntimo do homem, como herança do pecado original,
em consequência do qual a relação com o mundo, criado por
Deus e dado ao homem para que ele o submeta, (49) veio a encontrar-se deformada,
de diversas maneiras, no coração humano. Os conselhos evangélicos
de castidade, pobreza e obediência constituem, na economia da Redenção,
os meios mais radicais para transformar no coração do homem essa
relação com «o mundo»: com o mundo exterior e com o próprio
«eu» que, em certo sentido, é a parte central «do mundo»
no significado bíblico, na medida em que nele tem a sua origem aquilo que
«não provém do Pai».
No contexto das frases acabadas de citar da primeira Carta de São
João, não é difícil advertir a importância
fundamental dos três conselhos evangélicos em toda a economia da
Redenção. Com efeito, a castidade evangélica
ajuda-nos a transformar na nossa vida interior tudo o que tem a sua fonte na
concupiscência da carne; a pobreza evangélica, o que tem a
sua origem na concupiscência dos olhos; e, por fim, a obediência
evangélica permite-nos transformar, de modo radical, aquilo que no
coração humano procede da soberba da vida. É de propósito
que falamos aqui da superação como de uma transformação,
porque toda a economia da Redenção se enquadra na moldura daquelas
palavras dirigidas por Cristo ao Pai na Oração sacerdotal: «Não
peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal». (50) Os conselhos
evangélicos na sua finalidade essencial servem para o «renovamento
da criação»: «O mundo», graças a eles, deve
ser submetido ao homem e a ele restituído, de maneira a fazer com que o
mesmo homem seja perfeitamente restituído a Deus.
Participação no aniquilamento de Cristo
10. A finalidade intrínseca dos conselhos evangélicos conduz
ainda à descoberta de outros aspectos, que põem em relevo a sua
relação íntima com a economia da Redenção.
Como é sabido, esta tem o seu ponto culminante no mistério pascal
de Jesus Cristo, no qual se conjungem o aniquílamento mediante a
morte e o nascimento para uma vida nova mediante a ressurreição.
A prática dos conselhos evangélicos comporta em si mesma um
profundo reflexo desta dualidade pascal: (51) o aniquilamento inevitável
daquilo que em cada um de nós é o pecado com a sua herança,
e a possibilidade de renascer cada dia para um bem mais profundo,
escondido na alma humana. Este bem manifesta-se sob a acção da graça,
em relação à qual a práctica da castidade, da
pobreza e da obediência torna particularmente sensível a alma do
homem. Toda a economia da Redenção se realiza precisamente
mediante esta sensibilidade à acção misteriosa do Espírito
Santo, obreiro directo de toda a santidade. É nesta linha que a
profissão dos conselhos evangélicos abre em cada um e em cada uma
de vós, amados Irmãos e Irmãs, um espaço amplo para
a «nova criatura», (52) que emerge no vosso «eu» humano
exactamente da economia da Redenção; e, através deste «eu»
humano, também nas dimensões interpessoais e sociais.
Emerge, portanto, ao mesmo tempo na humanidade, como parte do mundo criado por
Deus: daquele mundo que o Pai amou «de novo» no Filho eterno, Redentor
do mundo.
Deste Filho diz São Paulo que «subsistindo na natureza de
Deus... despojou-se a si mesmo, assumindo a condição de
servo e tornando-se semelhante aos homens». (53) A característica do
aniquilamento contida na prática dos conselhos evangélicos,
portanto, é uma característica completamente cristocêntrica.
E por isso o Mestre de Nazaré também indica explicitamente a
Cruz como condição para seguir os seus passos. Aquele que
alguma vez disse a cada um e a cada uma de vós «segue-me»,
disse-vos também: «Quem quiser vir após mim, renuncie a si
mesmo, tome a sua cruz e siga-me» ( = caminhe pelas minhas pegadas). (54) E
dizia isto a todos os seus ouvintes, não apenas aos discípulos. A
lei da renúncia, portanto, pertence à própria essência
da vocação cristã. Mas pertence de modo especial à
vocação ligada à profissão dos conselhos evangélicos.
Terão algo a dizer àqueles que se encontram no caminho desta vocação,
com uma linguagem compreensível, também aquelas difíceis
expressões que podemos ler na Carta aos Filipenses: por Ele «renunciei
a todas as coisas e considero-as como lixo, a fim de ganhar Cristo e ser
encontrado unido a Ele». (55)
Impõe-se, portanto, renúncia - reflexo do mistério do
Calvário - para alguém «se encontrar» mais plenamente em
Cristo crucificado e ressuscitado; renúncia, para reconhecer n'Ele
totalmente o mistério da própria humanidade e confirmá-lo,
fazendo a caminhada daquele processo admirável de que fala o mesmo Apóstolo
numa outra passagem: «... ainda que o homem exterior se vá
desfazendo em nós, o nosso homem interior vai-se renovando de dia para
dia». (56) Deste modo, a economia da Redenção transfere o
poder do mistério pascal para o terreno da humanidade, dócil ao
chamamento de Cristo à vida de castidade, de pobreza e de obediência,
ou seja, à vida segundo os conselhos evangélicos.
V
CASTIDADE - POBREZA - OBEDIÊNCIA
Castidade
11. O aspecto pascal desse chamamento pode ser reconhecido, em relação
a cada um dos conselhos, sob diversos pontos de vista.
Assim, é segundo a medida da economia da Redenção que
se tem de avaliar e praticar aquela castidade, que cada um e cada uma de
vós prometeu pelo voto, juntamente com a pobreza e com a obediência.
Nisso está contida a resposta às conhecidas palavras de Cristo,
que são ao mesmo tempo um apelo: «Há eunucos, que
tais se fazem a si mesmos, por amor do Reino dos céus. Quem for
capaz de compreender, compreenda». (57) Anteriormente Cristo havia frisado
bem: «Nem todos compreendem esta doutrina; mas só aqueles aos quais
foi concedido». (58) Estas últimas palavras põem claramente
em evidência que este apelo é um conselho. O Apóstolo São
Paulo também dedicou a este ponto uma apropriada reflexão na primeira
Carta aos Coríntios. (59)
Ora este conselho é dirigido de modo especial ao amor do coração
humano. Ele põe em relevo sobretudo o carácter esponsal
deste amor; ao passo que a pobreza e mais ainda a obediência parecem realçar
primariamente o aspecto do amor redentor contido na consagração
religiosa. Trata-se aqui, como é sabido, da castidade no sentido de «fazer-se
eunuco por amor do Reino dos céus»; ou seja, trata-se da virgindade
como expressão do amor esponsal pelo próprio Redentor. Neste
sentido, o Apóstolo ensina que «procede bem» quem escolhe o
matrimónio; mas «procede melhor» quem opta pela virgindade.
(60) «Quem não é casado é todo solicitude pelas
coisas do Senhor, procura agradar ao Senhor»; (61) e «a mulher que
não é casada, bem como a virgem, anda solícita pelas coisas
do Senhor, a fim de ser santa de corpo e de espírito». (62)
Não está aqui incluído nem nas palavras de
Cristo nem nas de São Paulo nenhum menosprezo do matrimónio.
O conselho evangélico da castidade é só uma indicação
daquela particular possibilidade que constitui o amor esponsal do próprio
Cristo, de Jesus «Senhor», para o coração humano,
quer do homem quer da mulher. O «fazer-se eunuco por causa do Reino dos céus»
não é, efectivamente, apenas uma renúncia livre ao matrimónio
e à vida de família, mas é uma escolha carismática
de Cristo como Esposo exclusivo. Esta escolha não só permite «preocupar-se»
unicamente com as coisas do Senhor, mas feita «por causa do Reino
dos céus» aproxima este Reino escatológico de Deus
da vida de todos os homens, nas condições da temporalidade, e
torna-o presente, de alguma maneira, no meio do mundo.
As pessoas consagradas realizam, mediante isso, a finalidade interior de
toda a economia da Redenção. Esta finalidade, de facto, exprime-se
no tornar próximo o Reino de Deus com a sua dimensão definitiva,
escatológica. Pelo voto de castidade, as pessoas consagradas participam
na economia da Redenção, por um lado, mediante a livre renúncia
às alegrias temporais da vida matrimonial e familiar; e, por outro lado,
precisamente pelo facto de se fazerem eunucos por causa do Reino dos céus»,
levam para o meio do mundo que passa o anúncio da ressurreição
futura (63) e da vida eterna: da vida em união com o próprio
Deus mediante a visão beatífica e o amor que compreende em si e
penetra intimamente todos os outros amores do coração humano.
Pobreza
12. Em matéria de pobreza são muito expressivas as palavras da
segunda Carta aos Coríntios, que constituem uma síntese
precisa de tudo aquilo que lemos no Evangelho sobre este mesmo tema: «Conheceis
muito bem a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico,
fez-se pobre por vosso amor, a fim de enriquecer-vos com a sua pobreza».
(64) Segundo estas palavras, a pobreza entra na estrutura interna da própria
graça redentora de Jesus Cristo. Sem a pobreza não é possível
compreender o mistério da doação da divindade ao homem,
doação que se realizou precisamente em Jesus Cristo. É
também por isso que ela se encontra mesmo ao centro do Evangelho,
no princípio da mensagem das oito Bem-aventuranças: «Bem-aventurados
os pobres em espírito». (65) A pobreza evangélica abre diante
do olhar da alma humana a perspectiva de todo o mistério «oculto
desde todos os séculos em Deus». (66) Só aqueles que são
«pobres» desta maneira é que são também
interiormente capazes de compreender a pobreza d'Aquele que é
infinitamente rico. A pobreza de Cristo esconde em si essa riqueza
infinita de Deus; ou melhor, é uma expressão infalível
dessa riqueza. Com efeito, uma riqueza assim, como é a própria
Divinidade, não poderia ter sido exprimida adequadamente em nenhum bem
criado. Ela pode ser exprimida somente na pobreza. Por isso, pode ser compreendida
de modo exacto somente pelos pobres, pelos pobres em espírito.
Cristo, homem-Deus, é o primeiro destes pobres: Aquele que, «sendo
rico, se fez pobre», não é apenas o Mestre, mas é também
o porta-voz e o garante daquela pobreza salvífica, que
corresponde à infinita riqueza de Deus e ao poder inesgotável da
sua graça.
Por conseguinte, também é verdade como escreve o Apóstolo
que «mediante a sua pobreza nos tornamos ricos». É o
Mestre e o porta-voz da pobreza Quem nos enriquece. Por este motivo
exactamente, Ele dizia ao jovem nos Evangelhos sinópticos: «vende o
que tens e dá-o ... e terás um tesouro no céu». (67) Há
nestas palavras um chamamento para enriquecer os outros por meio da própria
pobreza; mas no mais íntimo deste chamamento encontra-se escondido o
testemunho da riqueza infinita de Deus que, transferida para a alma humana, pelo
mistério da graça, cria no mesmo homem, precisamente mediante a
pobreza, uma fonte para enriquecer os outros, que não se pode comparar
com quaisquer recursos de ordem material: é um manancial para beneficiar
os outros à semelhança do próprio Deus. Esta largueza em
dar realiza-se no âmbito do mistério de Cristo, que «nos
tornou ricos por meio da sua pobreza». Sabemos como este processo de
enriquecimento se apresenta nas páginas do Evangelho; ele tem o seu ponto
culminante no acontecimento pascal: Cristo, o mais pobre de todos os pobres, na
sua morte de Cruz, é ao mesmo tempo Aquele que nos enriquece
infinitamente com a plenitude da vida nova, mediante a Ressurreição.
Amados Irmãos e Irmãs, pobres em espírito pela profissão
evangélica, adoptai em toda a vossa vida este modelo salvífico
da pobreza de Cristo! Procurai, dia a dia, um amadurecimento cada vez maior
na vossa condição de pobres! Procurai, acima de tudo, «o
reino de Deus e a sua justiça», e todas as outras coisas «vos
serão dadas por acréscimo». (68) Que em vós e por meio
de vós se realize a bem-aventurança evangélica que está
reservada aos pobres, (69) aos pobres em espírito! (70)
Obediência
13. Cristo, «subsistindo na natureza de Deus, não julgou o ser
igual a Deus um bem a que não devesse nunca renunciar; mas despojou-se a
si mesmo, tomando a natureza de servo e tornando-se semelhante aos homens; e,
reconhecido como homem por todo o seu exterior, humilhou-se, fazendo-se
obediente até à morte e à morte de cruz». (71)
Tocamos aqui, por estas palavras da Carta de São Paulo aos
Filipenses, a própria essência da Redenção. Nesta
realidade está inscrita, primária e constitutivamente, a abediência
de Cristo. Confirmam este dado também aqueloutras palavras do mesmo Apóstolo,
que encontramos desta vez na Carta aos Romanos: «Assim como pela
desobediência de um só homem todos foram constituídos
pecadores, assim também, pela obediência de um só
todos serão constituidos justos». (72)
O conselho evangélico da obediência é o chamamento que
promana desta obediência de Cristo «até à morte».
Os que acolhem tal chamamento, expresso pela palavra «segue-me»,
decidem-se como diz o Concilio Vaticano II a seguir Cristo,
«que redimiu e santificou os homens pela sua obediência até
à morte de Cruz». (73) Ao porem em prática o conselho evangélico
da obediência, eles atingem a essência profunda de toda a economia
da Redenção. Ao cumprirem este conselho, demonstram o desejo de
obter uma participação especial na obediência daquele «um
só», por cuja obediência «todos serão constituídos
justos».
Pode-se dizer, portanto, que aqueles que decidem viver segundo o conselho da
obediência se colocam, de uma maneira singular, entre o mistério
do pecado (74) e o mistério da justificação e da
graça salvífica. Passam a estar nessa «situação»
com todo o estrato pecaminoso subjacente na própria natureza humana, com
toda a herança da «soberba da vida» e com todas as tendências
egoístas para dominar e para não servir; e decidem-se, exactamente
mediante o voto de obediência, a transformar-se à semelhança
de Cristo, que «redimiu e santificou os homens pela sua obediência».
No conselho da obediência desejam encontrar o próprio papel na obra
da Redenção de Cristo e o próprio caminho de santificação.
Foi este o caminho que Cristo traçou no Evangelho, ao falar muitas
vezes do cumprimento da vontade de Deus e da busca incessante da
mesma. «O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou a
realizar a sua obra». (75) «Porque eu não busco a minha
vontade, mas a vontade daquele que me enviou». (76) «Aquele que me
enviou está comigo; e não me deixou só, porque eu faço
sempre o que é do seu agrado». (77) «Porque desci do céu,
não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou».
(78) Este cumprimento constante da vontade do Pai faz-nos pensar também
naquela confissão messiânica do Salmista da Antiga Aliança: «Num
livro está escrito de mim: cumprir a vossa vontade; meu Deus,
isto eu quero e a vossa lei tenho-a fixa no íntimo do meu coração».
(79)
Esta obediência do Filho repassada de alegria atinge o
seu auge perante a Paixão e a Cruz: «Pai, se quiseres, afasta de mim
este cálice; não seja, porém, a minha vontade a fazer-se,
mas a tua». (80) Desde a oração no Getsémani por
diante, a disponibilidade de Cristo para fazer a vontade do Pai foi sendo
plenamente actuada, até ao extremo limite do sofrimento; e traduz-se
naquela obediência «até à morte e morte de Cruz»,
de que fala São Paulo.
As pessoas consagradas, com o voto de obediência decidem-se a imitar
com humildade a obediência do Redentor de um modo especial. Com efeito, se
bem que a submissão à vontade de Deus e a obediência à
sua lei sejam para todos os estados condição para levar vida
cristã, contudo, no «estado religioso», no «estado de
perfeição», o voto de obediência cria no coração
de cada um e de cada uma de vós, amados Irmãos e Irmãs,
o dever de uma referência especial a Cristo «obediente até
a morte». E uma vez que esta obediência de Cristo constitui o núcleo
essencial da obra da Redenção, como resulta das palavras do Apóstolo
acima citadas, também na observância do conselho evangélico
da obediência se há-de vislumbrar um momento particular
daquela «economia da Redenção» que impregna totalmente a
vossa vocação na Igreja.
Daqui deriva aquela «disponibilidade total ao Espírito Santo»,
que age primeiro que tudo na Igreja, como se exprime o meu Predecessor Paulo VI
na Exortação Apostólica Evangelica Testificatio;
(81) e como, aliás, estará bem claro nas Constituições
dos vossos Institutos. Daqui dimana também aquela religiosa submissão
que, com espírito de fé, as pessoas consagradas hão-de
demonstrar para com os próprios Superiores legítimos, que ocupam o
lugar de Deus. (82) Na Carta aos Hebreus encontramos, acerca deste
ponto, uma indicação muito significativa: «Sede obedientes e
submissos aos vossos superiores, pois eles velam pelas vossas almas, pelas quais
terão de dar contas». E o Autor da Carta acrescenta: Obedecei, para
que eles façam «isto com alegria e não gemendo, coisa que não
redundaria em vossa utilidade». (83)
Os Superiores, por seu turno, recordando-se de que têm o dever de
excercer com espírito de serviço o múnus que lhes foi
conferido, mediante o ministério da Igreja, mostrem-se sempre disponíveis
para ouvir os próprios irmãos, a fim de poderem discernir melhor
aquilo que o Senhor pede a cada um, salvaguardada sempre a autoridade que lhes
compete para decidir e mandar o que julgarem oportuno.
A par com a submissão-obediência, concebida deste modo, anda a
atitude de serviço, que informará toda a vossa vida,
seguindo o exemplo do Filho do homem, o qual «não veio para
ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos». (84)
E a sua Mãe, no momento decisivo da Anunciação-Encarnação,
penetrando desde o início em toda a economia salvífica da Redenção,
disse: «Eis a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra».
(85)
Recordai ainda, amados Irmãos e Irmãs, que a obediência à
qual vos comprometestes, consagrando-vos a Deus sem reservas, mediante a profissão
dos conselhos evangélicos, constitui uma particular expressão
de liberdade interior, assim como a expressão definitiva da liberdade
de Cristo foi a sua obediência «até à morte»: «eu
dou a minha vida, para retomá-la depois. Ninguém ma pode tirar,
mas sou eu que a dou por mim mesmo». (86)
VI
AMOR À IGREJA
Testemunho
14. No Ano Jubilar da Redenção a Igreja toda deseja renovar
o seu amor a Cristo, Redentor do homem e do mundo, seu Senhor e ao mesmo
tempo seu Esposo divino. E por isso, neste Ano Santo, ela tem os olhos postos em
vós, com singular atenção, amados Irmãos e Irmãs,
pois, como pessoas consagradas, nela ocupais um lugar especial: quer na
Comunidade universal do Povo de Deus, quer em cada uma das Comunidades locais.
Ao desejar que, mediante a graça do Jubileu extraordinário se renove
também o vosso amor por Cristo, a Igreja ao mesmo tempo está
plenamente cônscia de que este amor constitui um bem especial de todo
o Povo de Deus. Sim, a Igreja tem consciência de que, no amor que
Cristo recebe da parte das pessoas consagradas, o amor de todo o Corpo se dirige
de uma maneira especial e excepcional ao Esposo, que ao mesmo tempo é a
Cabeça deste Corpo.
Por isso, a Igreja, amados Irmãos e Irmãs, exprime-vos a sua
gratidão pela consagração e pela profissão dos
conselhos evangélicos, que são um particular testemunho de
amor. Ao mesmo tempo ela reconfirma a sua grande confiança em vós,
que escolhestes um estado de vida que é um dom especial de Deus à
mesma Igreja. Esta conta com a vossa colaboração total e generosa,
para que, enquanto fiéis administradores de um dom tão precioso, vós
«sintais com a Igreja» e sempre colaboteis com ela, em conformidade
com os ensinamentos e com as directrizes do Magistério de Pedro e dos
Pastores em comunhão com ele, cultivando, a nível pessoal e
comunitário, uma renovada consciência eclesial. Simultaneamente, a
Igreja reza por vós, a fim de que o vosso testemunho de amor jamais
esmoreça; (87) e pede-vos que acolhais com este espírito a
presente mensagem do Ano Jubilar da Redenção.
O Apóstolo, na sua Carta aos Filipenses, orava precisamente
neste sentido, assim: «Que a vossa caridade cresça, ainda mais e
mais, no conhecimento perfeito e em todo o género de discrição,
a fim de que possais discernir o que é melhor, e assim vos tornardes
puros e irreprensíveis para o dia de Cristo, repletos do fruto de justiça...».
(88)
Pela Redenção operada por Cristo, «o amor de Deus
encontra-se largamente difundido nos nossos corações pelo Espírito
Santo, que nos foi dado». (89) Eu peço incessantemente ao Espírito
Santo que conceda a cada um e a cada uma de vós dar, «segundo o
seu dom particular», (90) um testemunho excelente desse amor. Que prevaleça
em vós, de maneira digna da vossa vocação «a lei do
Espírito que dá a vida em Jesus Cristo ...», aquela lei que
nos libertou «da lei ... da morte». (91) Procurai viver, portanto,
desta vida nova, segundo a medida da vossa consagração e
também segundo a medida dos diversos dons de Deus, que
correspondem à vocação de cada uma das Famílias
religiosas.
A profissão dos conselhos evangélicos indica a cada um e a
cada uma de vós a maneira como podeis «fazer morrer, com o auxílio
do Espírito Santo», (92) tudo aquilo que é contrário à
vida e que serve ao pecado e à morte, tudo aquilo que se opõe ao
verdadeiro amor de Deus e dos homens. O mundo tem necessidade da genuína «contradição»
da consagração religiosa, que seja para ele um permanente fermento
de renovação salvífica. «Não vos conformeis
com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa
mente, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é
bom, aceito ao mesmo Deus e perfeito». (93)
Passado o período especial de experiência e de actualização,
previsto pelo Motu-proprio Ecclesiae Sanctae, os vossos Institutos
receberam há pouco, ou estarão para receber, a aprovação
da parte da Igreja das Constituições renovadas. Que este dom da
Igreja vos estimule a conhecê-las e, sobretudo, a vivê-las com
fidelidade e com generosidade, tendo presente que a obediência é
uma manifestação não equívoca do amor.
É precisamente deste testemunho de amor que o mundo de hoje e a
humanidade têm necessidade. Sim, têm necessidade do testemunho
da Redenção, tal como ela está impressa na profissão
dos conselhos evangélicos. Estes conselhos, cada um segundo a maneira que
lhe é peculiar e todos conjuntamente na sua conexão íntima,
«dão testemunho» da Redenção que, pelo poder da
Cruz e da Ressurreição de Cristo, encaminha o mundo e a humanidade
no Espírito Santo para aquela definitiva realização
plena, que o homem e, pelo homem, toda a criação encontram em
Deus, e somente em Deus. O vosso testemunho, portanto, é inestimável.
É preciso aplicar-se, com constância, para que ele seja plenamente
transparente e plenamente frutuoso no meio dos homens. Para isso poderá
servir, realmente, a observância fiel das normas da Igreja que dizem
respeito à manifestação também externa da vossa
consagracão e do vosso compromisso de pobreza. (94)
Apostolado
15. Deste testemunho de amor esponsal a Cristo, através do qual toda
a verdade salvífica do Evangelho se torna particularmente visível
entre os homens, nasce ainda, amados Irmãos e Irmãs, como algo próprio
da vossa vocação, a participação no apostolado
da Igreja, na sua missão universal, que se realiza simultaneamente no
seio de todas nas nações, de muitas maneiras diversas e mediante a
multiplicidade dos dons concedidos por Deus. A vossa missão específica
procede harmoniosamente de par com a missão dos Apóstolos,
que o Senhor enviou «por todo o mundo» para «ensinar todas as
gentes»; (95) e, mais ainda, está unida a esta missão
que incumbe à ordem hierárquica. No apostolado que as
pessoas consagradas desenvolvem, o seu amor esponsal por Cristo torna-se, de
modo quase orgânico, amor pela Igreja enquanto Corpo de Cristo,
pela Igreja como Povo de Deus, pela Igreja que é também Esposa e Mãe.
Seria difícil descrever e até mesmo simplesmente enumerar as múltiplas
maneiras diferentes pelas quais as pessoas consagradas põem em prática,
mediante o apostolado, o seu amor para com a Igreja. Esse apostolado
nasceu sempre daquele dom particular dos vossos Fundadores que, recebido de
Deus e aprovado pela Igreja, se tornou um carisma para a inteira Comunidade.
Tal dom divino corresponde às diversas necessidades da Igreja e do mundo,
em cada época da história; e, seguidamente, prolonga-se e
consolida-se na vida das comunidades religiosas como um dos elementos perduráveis
da vida e do apostolado da mesma Igreja.
Em cada um destes elementos, em todas as suas expressões quer
na da
contemplação fecunda para o apostolado, quer na da actividade
directamente apostólica acompanha-vos a bênção
constante da Igreja; e, simultaneamente, a sua solicitude pastoral e materna,
pelo que respeita à identidade da vossa vida espiritual e em ordem ao
acerto da vossa actuação, no seio da grande Comunidade universal
das vocações e dos carismas de todo o Povo de Deus. Tanto
por cada um dos Institutos, tomados separadamente como pela sua integração
orgânica, é no contexto de toda a missão da Igreja que é
sempre posta particularmente em realce aquela economia da Redenção,
de cuja marca profunda cada um e cada uma de vós, amados Irmãos
e Irmãs, é portador em si mesmo, em virtude da própria
consagração e da profissão dos conselhos evangélicos.
E por conseguinte, embora sejam sumamente importantes as múltiplas
obras de apostolado a que vos dedicais, todavia a obra de apostolado fundamental
continua sempre a ser aquilo que vós sois (e ao mesmo tempo quem
vós sois) na Igreja. Podem repetir-se de cada um e de cada uma de vós,
com especial razão, as palavras do Apóstolo: «Vós
estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus».
(96) E contudo, o facto de «estardes escondidos com Cristo em Deus»
permite que se vos apliquem as palavras do próprio Mestre: «Assim
brilhe a vossa luz diante dos homens, a fim de que vendo as vossas boas obras,
glorifiquem a vosso Pai que está nos céus». (97)
Para haver esta luz, pela qual vós deveis resplandecer «diante
dos homens», é importante entre vós o testemunho da caridade
mútua, a que anda ligado o espírito fraterno de todos na
Comunidade, uma vez que o Senhor disse: «Nisto precisamente todos
reconhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos
outros». (98)
A natureza fundamentalmente comunitária da vossa vida religiosa,
alimentada pela doutrina do Evangelho, pela sagrada Liturgia e, sobretudo, pela
Eucaristia, constitui um modo privilegiado para realizar esta dimensão
interpessoal e social. Usando de delicadeza e tendo atenções mútuas
e levando o peso uns dos outros, vós manifestais, pela vossa unidade, que
Cristo vive no meio de vós. (99)
Para o vosso apostolado na Igreja é importante que sejais muito
sensíveis às necessidades e aos sofrimentos do homem, que se
apresentam tão claramente e de maneira tão impressionante no mundo
de hoje. O Apóstolo, efectivamente, ensina: «Levai os fardos uns dos
outros e desse modo cumprireis a lei de Cristo»; (100) e diz ainda que «o
cumprimento perfeito da lei é a caridade». (101)
A vossa missão deve ser visível! O vínculo que a
une à Igreja deve ser profundo, muito profundo. (102) Através
de tudo o que fazeis e, principalmente, através daquilo que vós
sois, que seja proclamada e confirmada constantemente a verdade de que «Cristo
amou a Igreja e se entregou a si mesmo por ela», (103) verdade que está
na base de toda a economia da Redenção. E que de Cristo, Redentor
do mundo, brote também a fonte inexaurível do vosso amor pela
Igreja.
VII
CONCLUSÃO
Iluminados os olhos da vossa inteligência
16. Esta Exortação que vos dirijo pela Solenidade da
Anunciação do Senhor, no Ano Jubilar da Redenção,
desejaria ser uma expressão do amor que a Igreja nutre pelos Religiosos e
pelas Religiosas. Com efeito, vós, amados Irmãos e Irmãs,
sois um bem especial da Igreja. E é um bem que se torna mais
compreensível através da meditação da realidade da
Redenção; e para isto, o corrente Ano Santo proporciona uma ocasião
constante e um estímulo favorável. Procurai reconhecer, pois, sob
esta luz, a vossa identidade e a vossa dignidade. E que o Espírito
Santo por obra da Cruz e da Ressurreição de Cristo «ilumine
os olhos da vossa inteligência, a fim de que possais saber qual é a
esperança a que sois chamados, quais as riquezas da sua herança
gloriosa que vos prepara entre os santos». (104)
Estes «olhos iluminados da vossa inteligência» é o
que a Igreja pede sem cessar para cada um e cada uma de vós, os que já
entrastes no caminho da profissão dos conselhos evangélicos. E
estes «olhos assim, igualmente iluminados», é o que a Igreja,
juntamente convosco, pede para muitos outros cristãos, especialmente para
a juventude masculina e feminina, a fim de poderem descobrir este caminho e
não terem receio de se comprometer a segui-lo, e para que
mesmo no meio das circunstâncias adversas da vida de hoje possam
ouvir o «segue-me» de Cristo. (105)
Vós deveis, realmente, aplicar-vos a este objectivo, pela vossa oração
e também com o vosso testemunho daquele amor mútuo, pelo qual «Deus
permanece em vós, e o seu amor é perfeito em vós».
(106) Que este testemunho se torne presente em toda a parte e universalmente legível!
Que o homem dos nossos tempos, cansado espiritualmente, encontre nesse
testemunho apoio e esperança. Por conseguinte, servi aos vossos irmãos,
com a alegria que nasce de um coração habitado por Cristo. «Que
o mundo do nosso tempo ... possa receber a Boa Nova, não de
evangelizadores tristes e desalentados, mas sim de ministros do Evangelho cuja
vida irradie o fervor de quem já recebeu primeiro, em si mesmo, a alegria
de Cristo». (107)
A Igreja, com o muito amor que tem por vós, não cessa «
de dobrar os joelhos diante do Pai», (108) para que sejais «corroborados
... na vitalidade do homem interior»; (109) e para que, do mesmo modo que vós,
o sejam igualmente muitos outros nossos irmãos e irmãs baptizados,
especialmente jovens, a fim de poderem encontrar também eles o mesmo
caminho da santidade. Ao longo da história, este caminho foi percorrido
por muitas gerações que, unidas com Cristo Redentor do
mundo e Esposo das almas deixaram atrás de si, não raro, o
clarão intenso da luz de Deus, sobre o fundo cinzento e mesmo de trevas
da existência humana.
Para todos vós, os que na fase actual da história da Igreja e
do mundo percorreis tal caminho, vão os mais ardentes votos do Ano
Jubilar da Redenção, para que «radicados e alicerçados
na caridade, sejais capazes de compreender, com todos os santos, qual seja a
largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Cristo e conhecer a
sua caridade, que excede toda a ciência, para que sejais cheios de toda a
plenitude de Deus». (110)
Mensagem da Solenidade da Anunciação do Senhor
17. Na festividade da Anunciação deste Ano Santo, quero depor
a presente Exortação no Coração da Virgem
Imaculada. Entre todas as pessoas consagradas sem reservas a Deus, Ela é
a primeira. Ela a Virgem de Nazaré é também
a mais plenamente consagrada a Deus, consagrada da maneira mais
perfeita. O seu amor esponsal atinge o ponto mais alto na maternidade divina
pelo poder do Espírito Santo. Ela, que como Mãe, leva Cristo nos
braços, ao mesmo tempo corresponde do modo mais perfeito ao seu
chamamento: «segue-me». E segue-o Ela, a Mãe
como seu Mestre em castidade, em pobreza e em obediência.
Quanto foi dedicada a Virgem de Nazaré, durante toda a sua
vida terrena, à causa do Reino dos céus, por amor castíssimo!
Quanto foi pobre na noite de Belém e se mostrou pobre no Calvário!
Quanto foi obediente na altura da Anunciação e depois
aos pés da Cruz obediente até ao ponto de
consentir na morte do Filho, que se tinha feito «obediente até à
morte»!
Se para a Igreja toda Maria é o primeiro modelo, com muito
mais razão Ela tem de o ser para vós, pessoas e comunidades
consagradas no interior da Igreja. No dia que nos traz à lembrança
a abertura do Jubileu da Redenção, que se verificou no ano
passado, dirijo-me a vós com a presente mensagem, para vos convidar a que
reaviveis a vossa consagração religiosa segundo o modelo da
consagração da própria Mãe de Deus.
Queridos Irmãos e Irmãs: «fiel é Deus que vos
chamou à comunhão de seu Filho, Jesus Cristo». (111)
Perseverando, pois, na fidelidade Aquele que é fiel, esforçai-vos
por buscar um apoio especialíssimo em Maria. Com efeito,
Ela foi chamada por Deus à comunhão mais perfeita possível
com o seu Filho. Que seja Ela, a Virgem fiel, também para vós, a Mãe
da vossa caminhada evangélica! Que Ela vos ajude a experimentar e a
mostrar diante do mundo quanto o próprio Deus é infinitamente
fiel.
Ao formular estes votos, abençôo-vos de todo o coração.
Dado no Vaticano, no dia 25 de Março do Ano Jubilar da Redenção
de 1984, sexto do meu Pontificado.
1. Cf. Mt 7, 14.
2. Sl 130 [129], 7.
3. Cf. 2 Cor 11, 2.
4. Cf. Mt 18, 20.
5. Cf. Mt 19, 21; Mc 10, 21; Lc 18, 22.
6. Mc 10, 21.
7. Mt 19, 21.
8. Jo 3,16.
9. 1 Pdr 1, 18
10. 1 Cor 6, 20.
11. 1 Cor 6, 19-20.
12. Mt 5, 48.
13. Lc 19, 2, 11, 44
14. Ef 5, 1-2.
15. Is 44, 22.
16. Mc 8, 35; cf. Mt 10 39; Lc 9, 24.
17. Mt 19, 21.
18. Cf. Mt 6, 19-20.
19. Mt 6, 21.
20. Cf. Mt 19, 21; Mc 10, 21; Lc 18, 22.
21. Cf. Jo 14, 26.
22. Mt 19, 16.
23. Jo 15, 16.
24. 1 Jo 4, 10.
25. Cf. CONC. ECUM. VATICANO II, Decr. Perfectae Caritatis, 5; cf.
também o Documento da Congregação para os Religiosos e os
Institutos Seculares - « Elementi essenziali dell'insegnamento della Chiesa
sulla vita religiosa » (21 de Maio de 1983), nn. 5 ss.
26. Rom 6, 34.
27. Rom 6, 6.
28. Rom 6, 11.
29. Cf. Ef 4, 22-24
30. Is 43, 1.
31. Mt 19, 21.
32. Sl 135 [134], 4.
33. Jo 17, 19.
34. Rom 12,1.
35. Hebr 10, 5. 7.
36. Rom 12,1.
37. Sl 73 [72], 25-26.
38. Sl 16 [15], 2. 5.
39. Cf. Cânt 8, 6.
40. Cf. Lc 20, 38.
41. 2 Cor 5, 17.
42. Cf. Mt 7, 1.
43. Lc 6, 35.
44. Cf. Mt 5 40-42.
45. Cf. Lc 14, 13-14.
46. Cf. Mt 6, 14-15.
47. Rom 8, 19-21.
48. 1 Jo 2, 15-17: segundo o texto da antiga Vulgata, que inspirou
uma longa tradição patrística e ascética.
49. Gén 1, 28.
50. Jo 17, 15.
51. Cf. CONC. ECUM. VATICANO II, Decr. Perfectae Caritatis, 5.
52. 2 Cor 5, 17.
53. Flp 2, 6-7.
54. Mc 8, 34; Mt 16, 24.
55. Flp 3, 8-9.
56. 2 Cor 4 ,16
57. Mt 19, 12.
58. Mt 19, 11.
59. Cf. 1 Cor 7, 28-40.
60. Cf. 1 Cor 7, 38.
61. 1 Cor 7, 32.
62. 1 Cor 7, 34.
63. Cf. Lc 20, 34-36; Mt 22, 30; Mc 12, 25.
64. 2 Cor 8, 9.
65. Mt 5, 3.
66. Ef 3, 9
67. Mt 19, 21; cf. Mc 10, 21; Lc 18, 22.
68. Mt 6. 33.
69. Lc 6, 20.
70. Mt 5, 3.
71. Flp 2, 6-8.
72. Rom 5, 19.
73. CONC. ECUM. VATICANO II, Decr. Perfectae Caritatis, 1.
74. «Mysterium iniquitatis»: cf. 2 Tess 2, 7.
75. Jo 4, 34.
76. Jo 5,30.
77. Jo 8, 29.
78. Jo 6,38.
79. Sl 40 [39], 8-9, Cf. Hebr 10, 7.
80. Lc 22, 42; Cf. Mc 14, 36; Mt 26, 42.
81. Cf. Evangelica Testificatio, 6: AAS 63 (1971), p. 500.
82. Cf. CONC. ECUM. VATICANO II, Decr. Perfectae Caritatis, 14.
83. Hebr 13, 17.
84. Mc 10, 45
85. Lc 1, 38.
86. Jo 10, 17-18.
87. Cf. Lc 22, 32
88. Flp 1, 9-11.
89. Rom 5, 5
90. Cf. 1 Cor 7, 7.
91. Rom 8, 2.
92. Cf. Rom 8, 13.
93. Rom 12, 2.
94. Cf. C.I.C. cân. 669.
95. Cf. Mt 28, 19.
96. Col 3, 3.
97. Mt 5, 16.
98. Jo 13, 35.
99. Cf. CONC. ECUM. VATICANO II. Decr. Perfectae Caritatis 15.
100. Gál 6, 2.
101. Rom 13, 10.
102. Isto mesmo é recordado explicitamente pelo Código de
Direito Canónico, a propósito da actividade apostólica: cf.
cân. 675, § 3.
103. Cf. Ef 5, 25.
104. Ef 1, 18.
105. Lc 5, 27.
106. 1 Jo 4, 12.
107. PAULO PP. VI, Exort Apost. Evangelii Nuntiandi, 80: AAS
68 (1976), p. 75.
108. Cf. Ef 3, 14.
109. Cf. Ef 3,16.
110. Ef 3, 17-19.
111. 1 Cor 1, 9.
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