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VIAGEM APOSTÓLICA DO SANTO PADRE
À REPÚBLICA FEDERAL DA ALEMANHA
(15-18 DE NOVEMBRO DE 1980)

CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA
PARA OS SACERDOTES E OS SEMINARISTAS

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II

Catedral de Fulda
Segunda-feira, 17 de Novembro de 1980

 

1. Veneráveis Irmãos, Cardeais, Arcebispos e Bispos,
que constituís o Episcopado da vossa pátria!
Meus amados sacerdotes em Cristo, do presbitério de cada diocese alemã!
Dilectos diáconos!
Dilectos alunos dos seminários, dilectos estudantes de teologia!

As palavras do apóstolo Pedro, que hoje ouvimos na segunda Leitura da celebração litúrgica, parece-me assumirem, aqui em Fulda, diante do túmulo de São Bonifácio, um tom particular: "Aos presbíteros, que estão entre vós, rogo eu, presbítero como eles, testemunha dos sofrimentos de Cristo, e particularmente da glória que se há-de manifestar: Apascentai o rebanho que Deus vos confiou!" (1 Ped 5, 1-2).

Passaram já 19 séculos desde que foram escritas estas palavras, e mesmo assim falam-nos ainda hoje com o mesmo vigor e força; parece-me até que nos anunciam uma especial mensagem neste momento em que, aqui em frente do túmulo do bispo e mártir, padroeiro da Alemanha, vos encontrais precisamente vós, a quem se dirige a exortação de Pedro, sem dúvida em medida diferente: "Apascentai o rebanho de Deus". Pedro, que foi o primeiro a ouvir de Jesus, o Bom Pastor, esta exortação: "Apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21, 16) dirige-se "como primeiro entre os iguais" a todos aqueles que eram pastores com ele, da Igreja do seu tempo. Com quanta comoção ouvimos este apelo, porque nós somos hoje os pastores da Igreja, no segundo milénio do cristianismo que está prestes a concluir-se! Vós que, segundo o grau diferente do vosso serviço, como bispos, sacerdotes ou diáconos sois os pastores da Igreja na vossa pátria! E também vós que ouvistes o chamamento de Cristo e vos preparastes para o serviço pastoral dos anos futuros!

"Apascentai o rebanho de Deus". Sede pastores dos vossos irmãos e das vossas irmãs na fé, na vossa graça baptismal e na vossa, esperança na bem-aventurada participação da graça e do amor eternos!

2. Pedro recorda-nos na sua carta os sofrimentos de Cristo e também o mistério pascal, de que se tornou testemunha. A este testemunho da cruz e da ressurreição une ele, depois, também a esperança de participar "da glória que se há-de manifestar" (1 Ped 5. 1).

A vocação para pastores da Igreja e o vosso multíplice serviço, têm sempre e em toda a parte a sua raiz no mistério de Cristo que tudo abraça: dele começais e para ele retornais, e nele encontrais força para o crescimento e para um sólido conforto; servi-lo com o fruto do vosso trabalho.

Este mistério é acolhido realmente na fé quando aqueles que o servem são semelhantes a homens "que esperam o seu Senhor, ao voltar do seu noivado, a fim de lhe abrirem a porta, assim que ele chegar e bater" (Lc 12, 36).

O serviço portanto é este: estar vigilante para o retorno do Senhor.

Quando Jesus começou a sua paixão, levou consigo os apóstolos para o jardim do Getsémani, e conduziu três ainda mais para a frente e pediu-lhes que estivessem vigilantes. Quando todavia adormeceram, vencidos pelo cansaço, voltou junto deles e disse: "Vigiai e orai para não cairdes em tentação" (Mt 26, 41).

O serviço que prestamos, dilectos irmãos, é pois o de estarmos vigilantes pelo Senhor. Vigilar significa velar pelo bem confiado. O bem que nos está confiado é infinitamente precioso. Devemos perseverar constantemente nisto. Devemos aprofundar cada vez mais as raízes da nossa fé, da nossa esperança e da nossa caridade "nas maravilhas de Deus" (Act 2, 11); devemos identificar-nos cada vez mais com a Manifestação do Pai em Cristo; devemos, por fim, tornar-nos cada vez mais sensíveis às obras do Espírito Santo, que o Senhor nos deu e através de nós quer continuar a dar, mediante o nosso serviço, a nossa santidade e a nossa identidade sacerdotal.

Do mesmo modo devemos ter um sentimento cada vez mais profundo da grandeza do homem, como nos foi manifestada no mistério da Encarnação e da Redenção: como é preciosa a alma de cada homem e como são ricos os tesouros da graça e do amor!

Poderemos então corresponder às exortações de Pedro, o qual nos recomenda que realizemos o nosso serviço "não constrangidos, mas de boa vontade... com dedicação... (como) modelo do vosso rebanho" (1 Ped 5, 2.3).

3. Vemos aqui reunidos muitos eminentes bispos e sacerdotes, provenientes deste País; nomearei só alguns da história mais recente: os bispos von Ketteler e Adolf Kolping os Cardeais von Galen, Frings, Döpfner e Bengsch — o Padre Alfred Delp
e os sacerdotes recentemente ordenados Karl Leisner — Karl Sonnenschein e o Padre Tupert Mayer — Romano Guardini e o Padre Kentenich.

Olhemos para eles mais atentamente: todos nos mostram o que significa esta "vigília"; que significa "estarem cingidos os rins" e "acesas as lâmpadas" (Lc 12, 35); de que maneira "se pode ser o servo fiel e prudente, que o Senhor pôs à frente dos seus criados para lhes dar de comer a seu tempo" (Mt 24, 45).

Estes e muitos outros sacerdotes exemplares da Igreja do vosso País podem fazer-nos ver como o fundamento da nossa vocação e de todo o nosso serviço de bispos, sacerdotes ou diáconos é aquele esplêndido mistério do coração humano: o mistério da amizade com Cristo, e como através da força desta amizade cresce o verdadeiro amor de pastor pelo homem, amor puro e desinteressado de que o mundo de hoje está tão sequioso, e de modo particular a, nova geração.

Sei que inúmeros sacerdotes da Igreja do vosso País experimentam a alegria e a felicidade desta profunda afinidade espiritual com Jesus Cristo. Mas sei também que pertencem igualmente à vida hodierna dos sacerdotes as horas de tribulação, cansaço e perplexidade, de ambição excessiva e desilusão. Estou persuadido de que isto faz parte também da vida daqueles sacerdotes que procuram com todas as suas forças ser fiéis à própria missão, que desempenham as tarefas do seu ministério com muita consciência. Devemos porventura admirar-nos que aquele, que está tão profundamente unido a Jesus Cristo na sua missão, tenha parte também nas horas de Jesus no Monte das Oliveiras?

4. Que remédio posso oferecer-vos nesta situação? Nem um aumento exterior de actividade, nem esforços arrojados, mas aprofundada meditação sobre o sentido da vossa vocação, sobre aquela amizade com Cristo e sobre a amizade entre vós. Mediante vós o próprio Cristo quer tornar-se visível como amigo de todos no meio de vós e no meio das vossas comunidades. "Já não vos chamo servos, mas amigos".! (Jo 15, 15). Esta palavra, que ressoa ainda no âmago da vossa ordenação sacerdotal, deve; ser a nota fundamental da vossa vida. Ao amigo posso dizer tudo, posso confiar-lhe pessoalmente tudo: todas as preocupações e necessidades até os problemas inexplicáveis e as experiências dolorosas comigo mesmo. Posso viver da sua palavra, do sacramentos da Eucaristia e não está em último lugar o da Penitência. Este é o terreno sobre o qual estais erguidos. Tende confiança em Jesus Cristo, confiai que Ele não vos abandona, que faz frutificar o vosso ministério, mesmo onde exteriormente não vedes algum progresso imediato. Crede n'Ele; crede que espera tudo de vós, precisamente o que um amigo espera dos amigos.

A amizade por Jesus tem como fruto e consequência a amizade de uns pelos outros. Os sacerdotes constituem um presbitério em redor do seu bispo. O bispo é aquele que representa de maneira especial Cristo por vós e convosco. Quem é amigo de Cristo não pode deixar de ter em conta a missão do bispo. Muito mais, torna-se sensível à necessidade de não opor as próprias opiniões e os próprios critérios à missão dada por Cristo ao bispo. A unidade com o bispo e a unidade com o sucessor de Pedro são o fundamento sólido de uma fé que não pode ser vivida sem a amizade de Cristo. Esta unidade é também uma premissa para que o nosso ministério, o ministério dos bispos, e o ministério do Papa, possa exercer-se, no que vos diz respeito, numa doação aberta, fraterna e compreensiva.

Todavia esta amizade requer ainda mais. Requer aquela abertura fraterna, com o auxílio a levar a carga dos outros, aquele testemunho comum em que são superados juízos, pensamentos de prestígio e desconfianças. Estou convencido que, se realizardes o vosso ministério com espírito de amizade e de fraternidade, conseguireis muito mais do que se cada um quiser trabalhar sozinho. Com a força de uma amizade como esta para com o Senhor podereis "vigiar", como o Senhor do Evangelho espera do "bom servo".

5. Esta "vigia" do servo — do amigo — à espera do Senhor refere-se à futura vinda definitiva e ao mesmo tempo ao curso desta história, a cada instante. O Senhor pode vir "na segunda ou na terceira vigília" (Lc 12, 38).

Através deste ensinamento do Concílio Vaticano II toda a Igreja tornou evidente que a vossa missão é dirigida ao momento presente, ou seja a um mundo que se desenvolve constantemente, e de modo especial é dirigida às expectativas do homem neste mundo: à sua alegria e esperança, mas também aos seus erros e às suas culpas (cf. Gaudium et Spes, n. 1).

O ministério do pastor desperto e vigilante significa, portanto, também ter os olhos bem abertos para tudo aquilo que é bom e puro, para tudo o que é verdadeiro e belo, mas também para tudo o que é difícil e doloroso na vida dos homens; e significa fazer isto com pleno amor e plena disponibilidade, estarmos próximos e solidários até ao ponto de oferecer a própria vida (cf. Tg 10, 11).

O serviço vigilante do pastor significa também a disponibilidade para defender contra o lobo feroz como na parábola do Bom Pastor ou contra o ladrão, para que não arrombe a casa (cf. Lc 12, 39). Com isto não quero dizer um pastor de almas que guarde o rebanho, que lhe foi confiado, com olhar rígido e duro e grande desconfiança, mas um pastor que deseja libertar do pecado e da culpa com o anúncio da reconciliação, que dá aos homens sobretudo o sacramento da reconciliação, o sacramento da penitência. "No lugar de Cristo" o sacerdote pode e deve bradar a um mundo não reconciliado e que parece irreconciliável: "reconciliai-vos com Deus!" (2 Cor 5, 20). Manifestamos assim aos homens o coração de Deus, do Pai, e somos portanto imagem de Cristo, o Bom Pastor. A nossa vida inteira pode então tornar-se sinal e instrumento da reconciliação, "sacramento" da unidade entre Deus e os homens.

Juntamente comigo deveis todavia constatar com dolorosa preocupação que a frequência pessoal ao sacramento da Penitência nas vossas comunidades diminuiu muito nestes últimos anos. Peço-vos, pois, do íntimo do coração, ou melhor exorto-vos a fazerdes todo o possível para que a frequência ao sacramento da Penitência na confissão pessoal se torne novamente habitual para todos os baptizados. A isto querem levar as liturgias penitenciais que assumem um lugar muito importante na praxe penitencial da Igreja, mas que em condições normais não podem substituir a recepção pessoal do sacramento da Penitência. Preocupai-vos no entanto, também vós próprios, por um regular acolhimento do sacramento da Penitência.

6. A vigilância do bom pastor é esperada de vós como ponto central de toda a actividade sacerdotal, a celebração da Sagrada Liturgia. Precisamente depois da ampla reforma das funções religiosas deparam-se-vos importantes tarefas espirituais. Deveis antes de tudo familiarizar-vos vós próprios com cada, um dos ritos aprovados, mediante o estudo e atento exercício. Deveis estar em condições, como liturgistas, de servir no sentido de se alcançar fé mais profunda, uma esperança mais sólida e maior caridade no povo de Deus. Quero agradecer-vos todos os esforços que fizestes até agora por estes importantes objectivos, cujos bons frutos eu próprio já pude constatar entre vós. E ainda mais lamentável, que a festividade do mistério de Cristo, em vez de criar unidade e obter conquistas entre vós, provoque às vezes divisões e litígios. Nada é mais contrário do que isto à vontade e ao espírito de Cristo.

Peço-vos, pois, meus irmãos e amigos no sacerdócio; que sigais responsavelmente e mantenhais livre de todos os subjectivismos deformadores o caminho da Igreja, que ela decidiu seguir hoje na fidelidade à sua antiga tradição. Quereria todavia acentuar também que as normas litúrgicas particulares, pedidas pelos bispos alemães por motivações pastorais, foram concedidas pela Sé Apostólica e por conseguinte são lícitas.

Esforçai-vos sobretudo, de acordo com a comunidade inteira da Igreja, por anunciar, com uma celebração reverente e devota do Oficio Divino, Jesus Cristo, a quem vós próprios estais ligados por amizade.

7. Dilectos irmãos, dilectos filhos no Senhor!

Quanto devemos amar o nosso ministério e a nossa vocação! Quero dizer isto a todos vós: a vós mais velhos; que talvez já estejais cansados e gastos sob a carga do trabalho, a vós que estais ainda no vosso pleno vigor, e a vós que estais precisamente agora para começar o vosso caminho sacerdotal. Refiro-me também a vós discípulos, que ouvis a chamada misteriosa de Cristo: quero encorajar-vos a acolher esta chamada ainda mais sólida e profundamente na vossa vida e a segui-la definitivamente e para sempre.

Das maravilhas desta vocação, fala-nos hoje de maneira particularmente clara a primeira Leitura da Liturgia, tirada do livro do Profeta Jeremias. Um diálogo misterioso mas real entre Deus e o homem. Deus-Javé diz: "Antes que fosses formado no ventre de tua Mãe, Eu já te conhecia; antes que saísses do seio materno, Eu te consagrei, e te constitui profeta entre as nações".

O homem-Jeremias, responde: "Ah! Senhor Javé, não sei falar, porque sou ainda uma criança".

Deus-Javé replica: "Não digas: sou ainda uma criança por quanto irás aonde Eu te enviar, e dirás o que Eu te mandar. Não os temas, porque estarei contigo para te livrar" (Jer. 1, 5-8).

Quão profunda é a verdade que se encontra neste diálogo!

Deveríamos, certamente fazer dela a verdade da nossa própria vida! Deveríamos agarrá-la com as duas mãos e com todo o coração, vivê-la, fazer dela o objecto da nossa oração e tornarmo-nos uma só coisa com ela.

É-nos aqui enunciada ao mesmo tempo a verdade teológica e psicológica da nossa vida: o homem, que reconhece a sua vocação e a sua missão, fala a Deus da própria fraqueza.

8. Os vários propugnadores de uma imagem do sacerdócio que se diferencia daquela imagem desenvolvida pela Igreja e conservada principalmente na tradição ocidental, parece hoje fazerem desta fraqueza princípio fundamental de todas as outras coisas, quase declarando que é um direito do homem.

Cristo, pelo contrário, ensinou-nos que o homem tem antes de tudo direito à própria grandeza, direito àquilo que o supera. De facto, precisamente aqui se revela a sua particular dignidade; assim se manifesta o maravilhoso poder da graça: a nossa verdadeira grandeza é um dom da força do Espírito Santo.

Em Cristo, o homem tem hoje direito a tal grandeza: E a Igreja, mediante o mesmo Cristo, tem direito à oferta deste homem: oferta, mediante a qual o homem se dá totalmente. a Deus, e na qual escolhe também o celibato "pelo reino dos Céus" (Mt 19, 12), a fim de se tornar o servo de todos.

O homem e a Igreja têm direito a isto. Não devemos enfraquecer em nós tal consciência e tal convicção! Não podemos anular esta sublime herança da Igreja nem dificultá-la nos corações dos jovens. Não abandoneis a confiança em Deus e em Cristo! O Senhor diz: "não os temas, porque estarei contigo para te livrar" (Jer 1, 8). Depois destas palavras o Senhor toca nos lábios do homem e diz: "Eis que ponho as Minhas palavras nos teus lábios" (Jer 1, 9). Não experimentámos porventura nós exactamente a mesma coisa? Não põe acaso nos nossos lábios as suas palavras —  as palavras da consagração eucarística — durante a ordenação sacerdotal? Não sigila por acaso os nossos lábios e o homem inteiro com a força da sua graça?

Connosco estão também os santos da Igreja: os padroeiros das vossas dioceses, os grandes pastores de almas do vosso País, as mulheres famosas no amor pelo próximo e especialmente Maria, Mãe da Igreja.

Quando o evangelista Lucas, depois da Ascensão do Senhor, descreve a comunidade dos apóstolos, a sua ora perseverante e concorde, recorda explicitamente que estavam "com Maria, a Mãe de Jesus" (Act 1, 14). Ela, a Mãe do Senhor, a Mãe de todos os crentes, a Mãe também dos sacerdotes, quer estar connosco, para que possamos ser sempre mandados de novo no Espírito Santo a este mundo e aos homens com as suas necessidades.

9. Dilectos irmãos, dilectos filhos no Senhor!

As leituras da Liturgia desta festividade. falam-nos por fim também do prémio para os pastores que estavam vigilantes. O apóstolo Pedro fala da "coroa de glória que jamais se ofuscará" (1 Ped 5, 4).

Ainda mais impressionantes são contudo as palavras de Cristo na parábola dos servos vigilantes: "felizes aqueles servos que o senhor, quando vier, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á, mandará que se ponham à mesa e servi-los-á. E se vier na segunda ou na terceira vigília e assim os encontrar, felizes serão eles! (Lc 12, 37-38).

Prometei-me nada tirar nem acrescentar a estas palavras. Quero confiar-me todavia à vossa oração e à vossa consideração do profundo da alma. Assim seja.

 

© Copyright 1980 - Libreria Editrice Vaticana

 

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