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VIAGEM APOSTÓLICA A PORTUGAL

HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II
AOS FIÉIS DE FUNCHAL NA ILHA DA MADEIRA

12 de Maio de 1991

 

Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e volto para o Pai” (Io. 16, 28).

1. São palavras pronunciadas por Cristo, no dia anterior à Sua paixão e morte na cruz, quando, no Cenáculo, se despedia dos Apóstolos. “A estes, se apresentou vivo depois da Sua paixão, com muitas provas incontestáveis: durante quarenta dias, apareceu-lhes e falou-lhes do que dizia respeito ao Reino de Deus”(Act. 1, 3). Hoje a Igreja celebra solenemente a memória do Quadragésimo dia, actualizada nesta Liturgia da Ascensão, como o Salmo Responsorial nos convidava a proclamar: “Deus sobe por entre aclamações”(Ps. 47 (46), 6)

A partida de Cristo para o Pai é descrita concisamente pelos Autores sagrados. “O Senhor Jesus - diz São Marcos - foi arrebatado ao céu e sentou-se à direita do Pai” (Marc. 16, 19). Nos Actos dos Apóstolos, o evangelista São Lucas escreve: “Elevou-se à vista (dos discípulos) e uma nuvem subtraiu-O a seus olhos”(Act 1, 9). A nuvem era, no Antigo Testamento, um sinal da presença de Deus (Cfr. Ex. 13, 21-22; 40, 34-35), pelo que Jesus Cristo, saindo do meio do mundo visível, é abraçado por essa presença divina. Terminada a existência visível na terra, o Filho Unigénito humanado vive no seio Trinitário com o Pai e o Espírito Santo.

São Paulo na Carta aos Efésios, por sua vez, comenta deste modo o mistério de Ascensão: “Que quer dizer "subiu", senão que primeiro desceu aqui abaixo à terra? Aquele que desceu é também O que subiu ao mais alto dos céus, a fim de preencher todas as coisas”. Assim se cumpriram as palavras do Senhor: “Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e volto para o Pai”.

2. Na Ascensão, Jesus Cristo “sobe” a fim de preencher todas as coisas (Eph. 4, 9-10): o mundo inteiro, todas as criaturas, a história do homem.

Nesta perspectiva, se explica o último mandato, dado por Jesus aos Apóstolos antes de partir para o Pai: “Ide pelo mundo inteiro e pregai o Evangelho a toda a criatura” (Marc. 16, 15). Assim escreve o Evangelista São Marcos, enquanto, nos Actos dos Apóstolos, São Lucas refere: “Sereis Minhas testemunhas - diz o Senhor - em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e até aos confins do mundo” (Act. 10, 38).

Pregar o Evangelho quer dizer dar testemunho de Cristo: d’Aquele que “passou fazendo o bem” a todos (Cfr. ibid.), d’Aquele que foi crucificado pelos pecados do mundo, d’Aquele que ressuscitou e vive para sempre.

A pregação do Evangelho, isto é, o dar testemunho de Cristo é dever de todas as pessoas baptizadas no Espírito Santo. Antes da Sua partida, o Senhor Jesus sublinha exactamente este facto, ao ordenar aos Apóstolos que esperassem o cumprimento da promessa do Pai: “João baptizou com água, mas vós sereis baptizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias... Recebereis uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis Minhas testemunhas” (Act. 1, 5. 8).

A Igreja, só com a força do Espírito Santo; é que pode dar testemunho de Cristo. Apenas com a Sua força, pode pregar eficazmente o Evangelho a toda a criatura.

A Ascensão do Senhor está intimamente ligada ao Pentecostes, e a Igreja preenche anualmente os dias intermédios entre uma e outro com a Novena do Espírito Santo, cujo início teve lugar no Cenáculo de Jerusalém. Os primeiros a fazerem esta Novena foram os próprios Apóstolos reunidos com a Mãe do Senhor.

3. Jesus Cristo subiu ao mais alto dos céus, para preencher todas as coisas. Esta plenitude do mundo criado realiza-se pela força do Espírito Santo. Esta obra tem lugar na história terrena dos homens e das nações: o Espírito Santo plasma, de modo invisível mas real, o que o Apóstolo São Paulo chama o Corpo de Cristo, referindo-se-lhe nos seguintes termos: “Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só baptismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, actua em todos e em todos se encontra” (Eph 4, 4-6).

Deste modo a Ascensão do Senhor não é meramente uma saída. Antes, é o início de uma nova presença e de um novo operar salvífico: “Meu Pai trabalha sempre e Eu também trabalho” (Io. 5, 17). Este actuar com a força do Espírito Santo, descido no Pentecostes, do Espírito Paráclito, dá a força divina à vida terrena da humanidade na Igreja visível. Com a força do Espírito Santo, Cristo glorificado à direita do Pai, o Senhor da Igreja estabelece “a uns como apóstolos, a outros como profetas, a outros ainda como evangelistas, pastores e doutores, para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo” (Eph. 4,11-12).

4. Estes são os critérios essenciais da constante vitalidade da Igreja. Nessas palavras da Carta paulina, deve reencontrar a sua identidade mais profunda a Igreja de todo o tempo e lugar. Nelas se revê esta veneranda Igreja do Funchal, que foi, durante tantos anos, mãe das comunidades cristãs que se iam construindo nos territórios aonde chegavam os missionários português: na África, no Oriente, no Brasil. Da Igreja catedral do Funchal nasceram, nesses anos, numerosas Igrejas locais que continuaram, ao longo dos séculos, e continuam ainda a proclamar o Evangelho e a tornar Jesus Cristo presente no mundo.

O Papa traz hoje o Seu abraço cordial a esta querida diocese do Funchal, que há tantos anos - recordava-se há momentos - o esperava, bem como a todos os presentes. Apresento a minha saudação deferente e agradecida às autoridades presentes, em especial ao Senhor Presidente da República e aos Órgãos do Poder Regional. Saúdo o vosso Pastor, Dom Teodoro, em venerável amizade e profunda gratidão pelo seu convite e pelas significativas palavras de Boas-Vindas que me dirigiu, no início desta celebração. Saúdo afectuosamente os sacerdotes, religiosos e religiosas, os fiéis leigos, todos os filhos deste Arquipélago da Madeira, que vivem aqui ou emigraram para longe.

Centro de turismo mundialmente conhecido como a “Pérola do Atlântico”, pela beleza apreciável de que o Criador revestiu os cenários destas ilhas, pelos corações hospitaleiros dos residentes, e pelo dom do repouso e da saúde aqui reencontrada, a vossa terra é procurada por grande número de homens e mulheres de diversa proveniência, tradição e crença, dando-vos ocasião para presenteardes essas vidas, em seu tempo livre, com o Absoluto de Deus, com “as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus” (Col 3, 1). De facto, os cristãos têm nisto um papel indispensável a desempenhar, cabendo-lhes contribuir para assegurar ao uso do tempo livre o seu verdadeiro enquadramento ético e espiritual: um tempo propício ao desenvolvimento dos valores humanos e à procura e contemplação de Deus.

5. Não é certamente desprovido de significado que o Senhor da História tenha permitido à humanidade deste século entrar na “civilização do lazer”, possibilitando a muita gente um novo espaço de vida, paralelo ao período de trabalho, ou seja, o tempo livre, que, em muitos países, devido à era tecnológica, já supera em extensão e importância o tempo de trabalho.

O homem criado à imagem de Deus, é chamado a realizar na sua vida tanto a dimensão operativa do Criador como a do encontro tranquilo, jubiloso e festivo com as Suas obras: “Deus viu tudo o que tinha feito; era muito bom….Concluída, no sétimo dia, toda a obra que havia feito, Deus repousou, no sétimo dia, do trabalho por Ele realizado” (Gen. 1, 31; 2, 2). Poderíamos dizer que o nosso século se revelou portentoso na primeira dimensão, mas altamente empobrecedor na segunda. Com efeito, o progresso, criado pela técnica, limitou-se quase exclusivamente a “dominar” a natureza e os seus produtos, mas não progrediu de igual modo no “domínio” que o homem é chamado a ter sobre o seu destino. Pelo contrário, verifica-se uma acentuada perda de consciência de si próprio e da sua dignidade.

Infelizmente certas formas de trabalho produtivo, tendem a despojar o próprio trabalho da sua dimensão humana, a favor da sua eficiência técnica, apresentando-se como uma experiência árida, reduzida ao automatismo de gestos e movimentos mecânicos cadenciados num ritmo obrigatório, privada de relacionamentos humanos e no seio da qual se torna difícil exprimir a própria identidade. Urge que o tempo livre readquira as dimensões de humanização que o trabalho perdeu.

6. Em particular, o tempo livre deverá permitir ao homem achar a possibilidade de realização do verdadeiro humanismo, qual é o do “homem pascal”, que a Igreja anuncia e testemunha, resplandecente da Vida Nova, que o livra do pecado e lha abre os horizontes da eternidade, encontrando em Deus o repouso à medida do seu coração inquieto (Cfr. S. Augustini Confessiones, I, 1). Na verdade, o Senhor, enquanto ser absolutamente bom, repousa em Si próprio, na Sua plenitude; o homem, imagem de Deus, só poderá repousar em Deus, em Quem encontra o seu significado e a sua santidade.

O “homem pascal” não tem necessidade de falsos infinitos, ou de superlativos do mais belo, do maior e do mais emocionante, porque ele sabe que a sua ilimitada liberdade está contida e guardada na celebração do Acontecimento Pascal: a Páscoa tem e dá a liberdade que anima o tempo livre como o seu princípio mais íntimo. Desta liberdade pascal brota aquela soberania de vida cristã que difunde e dá tranquilidade, ou seja, que leva ao repouso e o suscita. Porque “remido por Cristo e tornado nova criatura no Espírito Santo, o homem pode e deve amar as coisas criadas por Deus. Recebeu-as de Deus e considera-as e respeita-as como vindas da mão do Senhor. Dando por elas graças ao Benfeitor, e usando e aproveitando as criaturas em pobreza e liberdade de espírito, é introduzido no verdadeiro senhorio do mundo, como quem nada tem e tudo possui. "Todas as coisas são vossas; mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus"(1Cor 3, 22-23) ”. (Gaudium et Spes, 37)

Assim o homem novo em dignidade, contemplação e adoração, entrega-se confiante a Deus, numa grande festa de toda a criação restaurada. Celebra-se o esplendor renovado e a bondade plena do mundo em Deus: Cristo ressuscitado, na Sua graça infinita, liberta o homem dos seus limites. A Páscoa é a nova criação do mundo e do homem. Tudo isto o celebramos na Eucaristia dominical: o novo, o criativo, o repousante até “à última Vinda de Cristo Salvador” (“Ordinarium Missae”, Embolismus ad “Pater Noster”).

7. “Homens da Galileia, porque estais a olhar para o céu? Esse Jesus, que vos foi arrebatado para o céu, virá da mesma maneira como agora O vistes partir”(Act. 1, 11).

Com estas palavras, termina o relato da Ascensão do Senhor. Antes o próprio Cristo dissera: “Náo vos deixarei órfãos, voltarei para vós” (Io. 14, 18), afirmação que poderíamos julgar referida apenas às aparições naqueles 40 dias, após a ressurreição. Mas não! De facto, quando já subia definitivamente para o Pai, disse: “Eu estou convosco todos os dias, até ao fim do mundo” (Matth. 28, 20).

Este “Eu estou” tem a força do Nome de Deus. “Eu estou” como Filho no Pai (ou, à direita do Pai), e “estou convosco” (quer dizer, com a Igreja e o mundo), no poder do Espírito Santo. Graças a este poder, o nosso permanecer na fé cristã tem carácter de expectativa pela Sua Vinda: a Segunda e definitiva Vinda de Cristo Salvador.

Esta expectativa, porém, não é passiva: ela constitui a edificação do Corpo de Cristo. A humanidade deve dar este “Corpo” definitivo e escatológico Àquele que assumiu o corpo, fazendo-se Homem no seio da Virgem Maria. Não fiquemos, pois, passivamente à sua espera! Por todo o lado, no trabalho ou no tempo livre, na tua terra ou viajando por outros lugares, quando acolhes o outro ou aceitas a sua hospedagem, tu és arauto itinerante de Cristo! É que devemos chegar “todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus”. Devemos chegar “ao estado do homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” (Eph. 4, 13).

A Ascensão do Senhor é, à luz da Liturgia de hoje, a solenidade da maturação no Espírito Santo para “a Plenitude de Cristo”. Jesus conduz-nos ao Pai: Ele próprio permanece o Pastor Eterno das nossas almas (Cfr. 1Petr. 2, 25). Louvado seja Ele para sempre. Amém.

 

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