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MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II
 PARA O III DIA MUNDIAL DO TURISMO 1982

 

Ilustres Senhores

1. Agradeço-vos esta visita que se torna tão significativa, seja pela vossa qualificada presença como operadores públicos e particulares do sector turístico, seja pela feliz coincidência da presente data, em que se celebra o Dia Mundial do Turismo. Desejastes esta Audiência para prestar homenagem, mediante a minha pessoa, à Sé Apostólica e à Igreja que dedicam viva atenção e contínuos desvelos aos problemas do turismo, realidade de alcance planetário; enquanto quereis ao mesmo tempo, analisar as vossas particulares responsabilidades por um fenómeno social, cujo recto desenvolvimento não pode prescindir do respeito dos valores morais e espirituais.

A Santa Sé, enquanto se reconhece não directamente competente acerca dos aspectos técnico-profissionais, está habilitada a seguir a dialéctica dos vossos debates e a pronunciar uma orientadora palavra a respeito, precisamente porque o turismo, elevado a tal importância de ser indicado como um dos "sinais dos tempos", é realidade capaz de modificar de maneira profunda as condições sociais, a mentalidade e os costumes da presente geração. Por este motivo, sinto-me feliz de desenvolver juntamente convosco algumas reflexões.

2. Importante componente do tempo livre, o turismo nos seus múltiplos aspectos, comporta — seja da parte de quem o usufrui como da parte de quantos o organizam — livres escolhas, que serão moralmente positivas se conformes ao correcto uso da liberdade. Um turismo digno do homem não pode nunca ser evasão dos deveres morais; e o cristão é obrigado a realizar o ideal evangélico "em" e "mediante" todos os momentos da existência (cf. Heb 12,15). Reflectindo bem, o tempo livre assim como todo o tempo instaurado por Cristo, é escatológico, uma vez que é tempo último e definitivo (cf. 1 Cor 10, 11); ele deve ser, portanto, ordenado à salvação eterna (cf. Lumen gentium, 48) com empenho constante, porque "único é o curso da vida terrena" (ibid.).

Por isso, à vossa consciência compete favorecer a promoção do tempo livre em tempo de valorização dos recursos naturais e espirituais em benefício da inteira comunidade (cf. Directório Geral Peregrinam in terra Ecclesia para a Pastoral do Turismo, 1969, 4).

3. O turismo, além disso, é reconhecido factor de encontro e de paz entre os povos (cf. Declaração de Manila, 1980). Da vossa parte, requer-se por conseguinte o empenho de unir tal fenómeno social e a intenção de construir naquela paz que é fruto do respeito e do amor pelos irmãos, mediante cristã coerência de propósitos e de obras. Antes, sois já benfeitores da humanidade se, em espírito de serviço, vos propondes incrementar o turismo como causa concomitante daquela difundida transformação sócio-cultural, pela qual cada um, hoje mais do que nunca, se sente "cidadão do mundo" (cf. Gaudium et spes, 43). Com efeito, deve-se também ao turismo se esta nossa Terra — embebida do sangue de Cristo para a salvação universal — parece sempre mais "a casa de todos" (João Paulo II, saudação ao Secretário-Geral da ONU, 2 de Outubro de 1979).

Daqui a positiva tensão para uma certa comunidade universal que o turismo pode desenvolver como meio de regeneração psicofísica, de promoção de novas fontes de trabalho, e sobretudo de humana compreensão o de encontro de culturas.

4. O fim último do desenvolvimento turístico não consiste portanto numa vantagem económica, mesmo se em escala nacional, mas antes no serviço que se estende ao bem da pessoa integralmente considerada, isto é, tendo em conta as suas necessidades tanto de ordem material como espiritual. Compreende-se, então, que o turismo seja considerado não só uma "conquista" mas também um "direito", cuja correcta fruição exige adequada preparação, como foi reconhecido pela recente "Reunião Mundial do Turismo" (Acapulco, 1982); preparação que todas as instâncias educativas (Familia-Escola-Igreja-Estado) são obrigadas a dispensar conforme a parte que lhes compete, a fim de que o conhecimento de um direito "seja aliado da consciência" (João Paulo II, Discurso à UNESCO, 2 de Junho de 1980).

Se é justo, com efeito, que o homo faber tenha a possibilidade de se tornar — em determinados momentos — homo ludens, não se deve esquecer que um e outro se completam no homo sapiens (cf. Summa Theologica, II-II; q. 164; aa. 2-4). Só mediante uma válida formação pessoal que previna manipulações nocivas, o turismo se transformará num "otium" verdadeiramente criativo e não conhecerá o perigo de dissipar o tempo, nem de transformar o lazer em intemperança, o desejo cultural em curiosidade doentia, a necessidade de socialidade em encontros desprovidos de ideal; o conjunto numa triste ausência, às vezes ostentada, de preocupação religiosa e moral.

5. Nesta óptica de autêntico humanismo cristão, não se poderá não prestar cuidadosa atenção, a fim de que os gastos mantidos pelo turismo não constituam um ultraje à pobreza, mas antes ajudem o desenvolvimento dos valores que ele pode realizar em benefício do individuo e da sociedade.

Compete, pois, aos responsáveis promover um sadio "turismo social" não só em favor dos jovens, dos menos dotados e dos deficientes, organizando de maneira que desenvolva os valores fundamentais da pessoa, mas também como instrumento de permanente educação para a Terceira Idade (cf. UNESCO, III Conferência sobre a educação dos adultos, Tóquio, 25 de Julho - 7 de Agosto de 1972), em sintonia com as exigências de uma autêntica "democratização" do empenho educativo.

Como conclusão destas minhas considerações, seja-me consentido exprimir um desejo que brota do meu coração de Pastor. Se se quer que o homem seja na verdade o "protagonista das suas férias", como foi desejado também pela Itália na citada Conferência de Manila, é oportuno entre outras coisas, que se chegue, também mediante o vosso empenho, a uma colaboração mais estreita entre as Autoridades civis e eclesiásticas acerca de alguns sectores do turismo, em vista da obtenção das elevadas metas supramencionadas. Tal colaboração deverá ser estreita e contínua para se tornar fecunda de bem.

Ao renovar a sentida expressão do meu aprazimento por esta vossa visita, faço votos de maneira muito viva e cordial por que o turismo, também pelo sábio trabalho dos Responsáveis é dos Organizadores, contribua sempre mais para glorificar a Deus, Criador do universo, valorizar a dignidade humana e incrementar o conhecimento recíproco, a confraternização espiritual e o descanso do corpo e do espírito.

Com estes votos e em penhor dos favores da assistência divina, concedo-vos a vós e a quantos representais, bem como às respectivas famílias a minha cordial Bênção Apostólica.

 

 

© Copyright 1982 - Libreria Editrice Vaticana

 

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