The Holy See
back up
Search
riga

VIAGEM APOSTÓLICA À ESPANHA
31 DE OUTUBRO - 9 DE NOVEMBRO DE 1982

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
 POR OCASIÃO DO ENCONTRO COM OS TRABALHADORES
 EM BARCELONA

Pavilhão de Exposição Universal de Montjuic
Domingo, 7 de Novembro de 1982

 

Queridos trabalhadores e empresários

1. Estou feliz de me encontrar hoje convosco nesta linda cidade de Barcelona. Saúdo-vos com particular afecto, e agradeço o vosso carinhoso acolhimento, que me faz sentir tão à vontade no meio de vós, como um amigo e irmão. Peço-vos inicialmente que leveis a minha saudação aos vossos filhos e às vossas famílias.

A vós, amadíssimos trabalhadores e trabalhadoras, aos presentes e aos ausentes, aos nativos desta terra ou provenientes de outras regiões, assim como aos de toda a Espanha, venho anunciar-vos o "Evangelho do trabalho".

2. A Igreja considera um dever seu imprenscindível, no campo social, ajudar "a consolidar a comunidade humana segundo a lei divina" (Gaudium et spes, 42), recordando a dignidade e os direitos dos trabalhadores, enfrentando as situações em que estes direitos são violados e favorecendo as transformações que conduzem ao autêntico progresso do homem e da sociedade.

O trabalho responde ao desígnio e à vontade de Deus. As primeiras páginas do Génesis apresentam-nos a criação como obra de Deus, o trabalho de Deus. Por isso, Deus chama o homem a trabalhar, para que se assemelhe a Ele. O trabalho não constitui, pois, um facto acessório nem tão-pouco uma maldição do céu. É, pelo contrário, uma bênção primordial do Criador, uma actividade que permite ao individuo realizar-se e oferecer um serviço à sociedade. E que, além disso, terá um prémio superior, porque "o vosso trabalho no Senhor não é em vão" (1 Cor 15, 58).

Mas a proclamação mais exaustiva do "Evangelho do trabalho" foi feita por Jesus, o Filho de Deus feito homem — e homem do trabalho manual — submetido ao duro esforço. Ele dedicou grande parte da sua vida terrena ao trabalho artesanal e incorporou o mesmo trabalho à sua obra de salvação.

3. Por minha parte, nestes quatro anos de Pontificado não deixei de proclamar, nas minhas Encíclicas e Catequeses, a centralidade do homem, a sua primazia sobre as coisas e a importância da dimensão subjectiva do trabalho, fundada sobre a dignidade da pessoa humana. De facto, o homem é, enquanto pessoa, o centro da criação, porque só ele foi criado à imagem e semelhança de Deus. Chamado a "dominar" a terra (Gén 1, 28) com a perspicácia da sua inteligência e com a actividade das suas mãos, ele converte-se em artífice do trabalho — tanto manual como intelectual — comunicando à sua actividade a mesma dignidade que ele tem.

O conceito cristão do trabalho, amigos e irmãos trabalhadores, vê neste uma chamada a colaborar com o poder e amor de Deus, para manter a vida do homem e fazê-la mais correspondente ao seu desígnio. Assim entendido, o trabalho não é uma necessidade biológica de subsistência, mas um dever moral; é um acto de amor e converte-se em alegria: a alegria profunda de se dar, por meio do trabalho, à própria família e aos demais, a alegria íntima de se entregar a Deus, e de O servir nos irmãos, ainda que tal doação comporte sacrifícios. Por isso o trabalho cristão tem um sentido pascal.

A consequência lógica é que todos temos o dever de fazer bem o nosso trabalho. Se queremos realizar-nos devidamente, não podemos eximir-nos do nosso dever nem conformar-nos em trabalhar mediocremente, sem interesse, só para cumprir uma obrigação.

4. A vossa laboriosidade tenaz e o vosso sentido de responsabilidade fazem que compreendais, queridos irmãos e irmãs, quão longe estão do conceito cristão do trabalho — e até de uma recta visão da ordem social — determinadas atitudes de desinteresse, de perda de tempo e de recursos, que estão a difundir-se nos nossos dias, tanto no sector público como no privado. Para não falar do fenómeno do absentismo, um mal social que não só afecta a produtividade, mas ofende as esperanças e sofrimentos de quem busca e reclama desesperadamente uma ocupação.

Dentro do esforço que estimula crentes e homens de boa vontade para a obtenção de uma sociedade verdadeiramente humana, a Igreja quer estar presente por fidelidade ao Evangelho — "Boa Nova" de salvação para todos, mas de modo especial para os pobres e os oprimidos — recordando os ensinamentos que provêm da palavra do Senhor:

— O trabalho é sem dúvida um bem do homem e para o homem. A este respeito, na Encíclica Laborem exercens, sublinhei que "o trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho" (n. 6). A medula da doutrina Social Cristã sobre o trabalho será centralizada aqui: não se chega ao recto conceito do trabalho se não se está em estreita dependência com o recto conceito do homem.

— O trabalho e a laboriosidade constituem um dever e um serviço à célula familiar, à sua vida, unidade, desenvolvimento e aperfeiçoamento. Por isso, "a razão de ser da família — dizia eu há três anos aos trabalhadores polacos — é um dos factores fundamentais que determinam a economia e a política do trabalho".

— A natureza do trabalho rectamente entendida não apenas respeita as exigências do bem comum, mas dirige e transforma toda a actividade laboral em cooperação eficaz ao bem de todos, enriquecendo assim o património da família humana.

5. O que eu disse antes leva-me a tocar brevemente um problema que não é exclusivo da Espanha, mas que a afecta em boa parte: refiro-me ao desemprego.

A falta de trabalho vai contra o "direito ao trabalho", entendido — no contexto global dos demais direitos fundamentais — como uma necessidade primária, e não um privilégio, de satisfazer as necessidades vitais da existência humana mediante a actividade laboral.

É um problema urgente e que deve impelir cada cristão a assumir as suas responsabilidades em nome do Evangelho, e da sua mensagem de justiça, de solidariedade e de amor.

De um prolongado desemprego nasce a insegurança, a falta de iniciativa, a frustração, a irresponsabilidade, a desconfiança na sociedade e em si mesmo; atrofiam-se deste modo as capacidades de desenvolvimento; perde-se o entusiasmo, o amor ao bem; surgem as crises familiares, ás desesperadas situações pessoais, e descamba-se então, de modo fácil —. sobretudo os jovens — para a droga, o alcoolismo e a criminalidade.

Seria falaz e enganoso considerar este angustioso fenómeno, que já se tornou endémico no mundo, como produto de circunstâncias passageiras ou como um problema meramente económico ou sócio-politico. Em realidade constitui um problema ético, espiritual, porque é sintoma da presença de uma desordem moral existente na sociedade quando se infringe a hierarquia dos valores.

6. A Igreja, mediante o seu Magistério Social, recorda que as vias de solução justa deste grave problema exigem hoje uma revisão da ordem económica no seu conjunto. É necessária uma planificação global e não simplesmente sectorial da produção económica: é necessária uma correcta e racional organização do trabalho, não apenas a nível nacional, mas também internacional; é necessária a solidariedade de todos os homens do trabalho.

O Estado não pode resignar-se a ter que suportar cronicamente um forte desemprego: a criação de novos postos de trabalho deve constituir para ele uma prioridade tanto económica como politica. Mas também os empresários e os trabalhadores devem favorecer a superação da falta de postos de trabalho: mantendo uns o ritmo de produção nas suas empresas, e rendendo outros com a devida eficiência no seu trabalho, dispostos a renunciar, por solidariedade, ao "duplo" emprego e ao sistemático recurso ao trabalho "extraordinário", que reduzem de facto as possibilidades de admissão para os desocupados.

Deve-se criar com todos os meios possíveis uma economia que está ao serviço do homem. Para superar os contrastes de interesses privados e colectivos; para vencer os egoísmos na luta pela subsistência, impõe-se em todos uma verdadeira "mudança de atitudes", de estilo de vida, de valores; impõe-se uma autêntica conversão de corações, de mentes e de vontades: a conversão ao homem, à verdade pelo homem.

Deti-me especialmente neste argumento tão actual. Sei que vos preocupam muitos outros problemas referentes ao salário, condições higiénico-sanitárias no trabalho, protecção contra acidentes do trabalho, o papel do sindicato, a participação na direcção e nos benefícios da empresa, e a adequada protecção aos trabalhadores vindos de outras partes.

Trata-se de uma problemática complexa e vital para vós; mas quero repetir-vos uma vez mais: não esqueçais que o trabalho tem como característica primordial a de unir os homens: "nisto consiste a sua força social: a força de construir uma comunidade" (Laborem exercens, 20). Insisti nela e nos grandes valores cristãos que vos animam. Levai a vossa serenidade e confiança ao lugar de trabalho. Iluminai de caridade e esperança os vossos ambientes: assim vos será mais fácil encontrar soluções justas.

7. Permiti-me agora, queridos trabalhadores e trabalhadoras, que dirija a minha palavra à outra classe de trabalhadores da Espanha: os empresários, industriais, altos dirigentes, conselheiros qualificados da vida sócio-económica e promotores de complexos industriais.

Saúdo e rendo homenagem, em vós, aos criadores de postos de trabalho, emprego, serviços e ensino profissional; a todos os que nesta querida Espanha dão trabalho e sustento a um grande número de trabalhadores e trabalhadoras. O Papa expressa a sua estima e gratidão a vós pela alta função que cumpris ao serviço do homem e da sociedade. Também a vós anuncio o "Evangelho do trabalho".

E ao convidar-vos a reflectir sobre a concepção cristã da empresa, quereria antes de mais recordar-vos que, além dos seus aspectos técnicos e económicos — em que sois mestres — há um mais profundo: o da sua dimensão moral. Economia e técnica, com efeito, não têm sentido se não são referidas ao homem, a quem devem servir.

De facto, o trabalho é para o homem, e não o homem para o trabalho; por conseguinte, também a empresa é para o homem, e não o homem para a empresa.

Superar a inatural e ilógica antinomia entre capital e trabalho — agravada muitas vezes artificialmente por uma luta de classes programada — é, para uma sociedade que quer ser justa, uma exigência indispensável, fundada sobre a primazia do homem sobre as coisas. Somente o homem — empresário ou trabalhador — é sujeito do trabalho e é pessoa; o capital não é mais que "um conjunto de coisas" (Laborem exercens, 12).

8. O mundo económico — bem o sabeis — está sofrendo há tempos uma grande crise. A questão social, de um problema "de classes" transformou-se num problema "mundial". A evolução das fontes de energia e a incidência de fortes interesses políticos neste campo, criaram novos problemas, provocando colocarem-se em dúvida certas estruturas económicas até agora consideradas indispensáveis e intocáveis, e tornando cada vez mais difícil a sua direcção.

Diante de tais dificuldades, não vacileis; não duvideis de vós mesmos; não vos deixeis cair na tentação de abandonar a empresa, para vos dedicardes a actividades profissionais egoisticamente mais tranquilas e menos comprometedoras. Superai estas tentações de evasão e continuai com coragem no vosso posto, esforçando-vos em dar uma feição cada vez mais humana à empresa, pensando no grande contributo que ofereceis ao bem comum quando abris novas possibilidades de trabalho.

No desenvolvimento da Revolução Industrial cometeram-se no passado, também por parte dos empresários, erros não pequenos. Não por isso se deve deixar de reconhecer e louvar publicamente, queridos industriais, o vosso dinamismo e espirito de iniciativa, a vossa férrea vontade e capacidade de criatividade e de risco, que fizeram de vós uma figura-chave na história económica e diante do futuro.

9. Pela sua mesma dinâmica intrínseca a empresa é chamada a realizar, sob o vosso impulso, uma função social — que é profundamente ética —: a de contribuir para o aperfeiçoamento do homem, de cada homem, sem nenhuma discriminação, criando as condições que tornam possível um trabalho no qual, ao mesmo tempo que se desenvolvem as capacidades pessoais, se consiga uma eficaz e razoável produção de bens e de serviço, e se torne o trabalhador consciente de trabalhar realmente "em algo próprio".

A empresa é, portanto, não só um organismo, uma estrutura de produção, mas deve transformar-se em comunidade de vida, num lugar onde o homem convive e se relaciona com os seus semelhantes, e onde o desenvolvimento pessoal não só é permitido mas fomentado. O inimigo principal da concepção cristã da empresa, não é talvez um certo funcionalismo que faz da eficácia o postulado único e imediato da produção e do trabalho?

As relações de trabalho são, antes de tudo, relações entre seres humanos e não podem medir-se com o único método da eficácia. Vós mesmos, queridos empresários presentes, se quereis que a vossa actividade profissional seja coerente com a vossa fé, não vos conformeis com que "as coisas caminhem", que sejam eficazes, produtivas e eficientes, mas buscai antes que os resultados da empresa redundem em benefício de todos por meio da global promoção humana e do aperfeiçoamento pessoal daqueles que trabalham ao vosso lado e colaboram convosco.

Sei que a realidade sócio-económica é por sua mesma natureza bastante complexa, até ao ponto de parecer dificilmente governável nos momentos de crises agudas, sobretudo quando adquire proporções planetárias. Contudo, é precisamente em tais situações que convém deixar-se guiar por um grande sentido de justiça e por uma total confiança em Deus. Nos tempos difíceis e duros para todos — como são os das crises económicas — não se pode abandonar os trabalhadores à própria sorte, sobretudo os que — como os pobres, os imigrantes — só têm os seus braços para se manter. Convém recordar sempre um princípio importante da Doutrina Social Cristã: "a hierarquia dos valores e o sentido profundo do trabalho exigem que o capital esteja em função do trabalho e não o trabalho em função do capital" (Laborem exercens, 23).

10. E agora, ao finalizar o nosso encontro, quero dizer-vos uma última palavra, queridos irmãos trabalhadores e queridos empresários da Espanha:

Sede solidários!

O tempo em que vivemos exige com urgência que na convivência humana, nacional e internacional, cada pessoa e grupo superem as suas posições inamovíveis e os pontos de vista unilaterais que tendem a tornar mais difícil o diálogo e ineficaz o esforço de colaboração.

A Igreja não ignora a presença de tensões e até mesmo de conflitos no mundo do trabalho. Mas não é com os antagonismos ou com a violência que se resolvem as dificuldades! Porque não buscar vias de solução entre as partes? Porque recusar o diálogo paciente e sincero? Porque não recorrer à boa vontade de escuta, ao mútuo respeito, ao esforço de busca leal e perseverante, aceitando acordos inclusivamente parciais, mas portadores sempre de novas esperanças?

O trabalho tem em si uma força, que pode dar vida a uma comunidade: a solidariedade. A solidariedade do trabalho, que de modo espontâneo se desenvolve entre os que compartilham o mesmo tipo de actividade ou profissão, para abraçar com os interesses dos indivíduos e dos grupos o bem comum de toda a sociedade. A solidariedade com o trabalho, isto é, com cada homem que trabalha, a qual — superando todo o egoísmo de classe ou interesses políticos unilaterais — assume o drama de quem está desocupado ou se encontra em difícil situação de trabalho. Finalmente, a solidariedade no trabalho: uma solidariedade sem fronteiras, porque está baseada na natureza do trabalho humano, ou seja, sobre a prioridade da pessoa humana às coisas.

Tal solidariedade, aberta, dinâmica, universal por natureza, nunca será negativa, uma "solidariedade contra", mas positiva e construtiva, uma "solidariedade para"; para o trabalho, a justiça, a paz, o bem-estar e a verdade na vida social.

11. Amadíssimos irmãos e irmãs!

A vossa sensibilidade de crentes, a vossa fé de cristãos ajuda a viverdes a Boa Nova, o "Evangelho do trabalho". Sede conscientes da vossa dignidade de trabalhadores manuais ou intelectuais. Colaborai com espírito de solidariedade nos problemas sociais que vos assediam. Sede fermento e presença cristã em qualquer parte da Espanha.

A Igreja confia em vós, acompanha-vos, apoia-vos, ama-vos: sede sempre dignos das vossas tradições religiosas e familiares.

Permiti-me recordar-vos, de modo particular, que por causa do trabalho não descuideis a vossa família e os vossos filhos. E utilizai o descanso festivo para o renovado encontro com Deus e para a sã diversão.

Confio à Mãe de Monserrate as vossas pessoas, filhos e famílias.

Estimados trabalhadores e empresários: Que Deus vos ajude a interessar-vos no bem de todos os homens, vossos irmãos.

 

© Copyright 1982 - Libreria Editrice Vaticana

 

 

top