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VIAGEM APOSTÓLICA À SARAJEVO

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
NO ENCONTRO COM OS BISPOS
DA BÓSNIA-HERZEGÓVINA

 

 

Senhor Cardeal Venerados Irmãos no Episcopado

1. Desejei ardentemente viver convosco este encontro fraterno e estou grato a Deus por poder celebrar convosco a divina Eucaristia, momento culminante na vida da Igreja. A união à volta do altar torna mais evidente o vínculo que nos liga a Cristo e fundamenta a comunhão existente entre nós e com o povo de Deus.

Saúdo-o, Senhor Cardeal Vinko Puljić que, coadjuvado por D. Pero Sudar, apascenta com coragem e sabedoria a grei da Igreja de Vrhbosna-Sarajevo; saúdo-o, D. Franjo Komarica, Bispo forte da atribulada Igreja de Banja Luka; saúdo-o, D. Ratko Perić, que com zelo preside à Igreja de Mostar-Duvno e é o Administrador Apostólico de Trebinje- Mrkan. Desejo agradecer a cada um de vós o testemunho intrépido oferecido perante a Igreja de Deus durante o recente conflito quando, não obstante os graves perigos e a difícil situação, permanecestes sempre vigilantes e solícitos com as vossas comunidades, compartilhando os seus sofrimentos, as suas calamidades e todos os géneros de privação.

Ao manifestar-vos, Pastores, os meus sentimentos de afecto, desejo fazer chegar os bons votos mais sentidos às Igrejas que vos estão confiadas: aos vossos sacerdotes, às pessoas consagradas, aos fiéis leigos, especialmente a quantos são afligidos no corpo e no espírito, em virtude das consequências do doloroso período da recente guerra. O Sucessor de Pedro está no meio de vós. Conhece os vossos sofrimentos e os vossos esforços, e encoraja-vos na vossa fé olhando para Cristo, nosso advogado junto do Pai e nossa paz segura.

 2. A divina Providência escolheu-vos para apascentar o povo de Deus, constituindo- vos modelos do rebanho (cf. 1 Ped. 5, 2-3). Mediante o vosso ministério e em comunhão com o Sucessor de Pedro, perpetuais a obra de Cristo, eterno Pastor das almas, que ensina todos os povos e santifica com o dom dos Sacramentos quantos acolhem com fé a Sua palavra.

Nesta tarefa que Deus vos confiou, não estais sozinhos. No exercício do governo das vossas Igrejas em comunhão entre vós e com o Bispo de Roma, Sucessor de Pedro, sois constituídos membros do Corpo episcopal e por isso mesmo chamados a participar na solicitude da Igreja universal (cf. Lumen gentium, 22; Christus Dominus, 4).

Sede solertes, venerados Irmãos, na preservação da comunhão com os Bispos do mundo inteiro, a começar por aqueles desta região e, em particular, da Croácia. Sede também assíduos na caridade recíproca, no diálogo franco e cordial, na ajuda mútua. O amor que reina entre vós seja exemplo para os sacerdotes que vos coadjuvam, para os fiéis que vos consideram guias iluminadas, e para os próprios homens de boa vontade que, não raro, procuram nas vossas palavras a na vossa autoridade um encorajamento para construir uma sociedade verdadeiramente inspirada nos valores da paz, da concórdia e da justiça.

3. O conflito que teve lugar na vossa região durante cinco longuíssimos anos põe-vos diante de problemas certamente não fáceis. Tendo o fragor das armas cessado, agora a vontade de construir a paz deve adquirir cada vez maior vigor. A primeira tarefa que vos espera, nesta árdua vereda, é curar os espíritos provados pela dor e, às vezes, empedernidos por sentimentos de ódio ou vingança. Trata-se de um processo que exige todas as vossas energias, corroboradas pela fé em Cristo, Senhor da vida e médico do espírito. Este é o objectivo que vos propusestes inclusivamente na vossa carta pastoral do passado mês de Fevereiro.

Sois chamados a ser os portadores de uma nova cultura que, nascendo do inesgotável manancial do Evangelho, anuncia o respeito de cada um por todos; invoca a recíproca remissão das culpas como pressuposto do renascimento da vivência civil; combate com as armas do amor para que se afirme cada vez mais o desejo de cooperar para a promoção do único bem comum.

Isto não vos exime de elevar a voz profética para denunciar as violências, desmascarar as injustiças, chamar por nome o que é mal, defender com todos os meios legítimos as comunidades que vos são confiadas. Isto é particularmente necessário quando as intemperanças, que brotam de almas exacerbadas pelas recentes violências, tendem a atingir directamente os crentes e a Igreja com intimidações ou actos de intolerância. Não tenhais medo de fazer escutar a vossa voz com todos os instrumentos legítimos à vossa disposição, sem vos deixar atemorizar por qualquer poder terreno.

4. Agora, depois das recentes violências, trata-se de reedificar não apenas a comunidade cristã, mas inclusivamente a sociedade civil, atingida e dispersa por tantas calamidades. Nesta tarefa, Deus não vos deixa sozinhos. Colocou ao vosso lado sacerdotes, pessoas consagradas e leigos activamente empenhados, que sustentam os vossos esforços e estão prontos a escutar a vossa voz, para fazer com que novamente floresçam o anúncio que salva, a caridade que alivia, a solidariedade que une todos. Enquanto dais graças ao Senhor por tais dádivas, sabei valorizar as energias de cada um para que o caminho da nova evangelização prossiga com vigor renovado.

Sabei compreender com bondade paterna as dificuldades que os vossos colaboradores mais directos encontram na vida quotidiana; sustentai-os com a vossa oração e com o vosso coração bondoso, estimulando-os a recorrerem às energias que brotam do encontro quoti-diano com Cristo, sumo e eterno Sacerdote, especialmente na oração e na celebração da Eucaristia. A vossa solicitude de Pais na fé saiba valorizar o melhor de todos, de tal forma que as dádivas de cada um beneficiem a comunidade cristã e a sociedade civil.

Não deverá faltar a colaboração de todos no projecto e na execução dos programas pastorais de cada uma das dioceses, sob a vossa guia e no respeito das especificidades de cada carisma, quer dos sacerdotes seculares, quer dos religiosos, de forma que o recíproco intercâmbio de dons aumente a caridade, atenue as tensões e se ponha ao serviço da unidade. Em conformidade com estes critérios e valores, educai também os vossos seminaristas a fim de que se forme neles a clarividente consciência de que um dia serão chamados a servir a Igreja com sacrifício, convicção, generosidade, na obediência ao legítimo Pastor.

5. A principal obra a que não deveis cansar de vos dedicar é «a oração e o serviço da Palavra» (cf. Act. 6, 4), para que o Evangelho de Cristo continue a ser anunciado nesta região, e a benéfica «palavra de vida» possa transmitir esperança e consolação aos povos da Bósnia- Herzegovina.

É através da presidência da assembleia litúrgica, especialmente na sagrada Eucaristia, que distribuís as dádivas de Deus para a nutrição dos fiéis, depois de os ter instruído abertamente acerca da «verdade que conduz à piedade e se fundamenta sobre a esperança da vida eterna. Deus, que não mente, prometeu-nos essa vida antes dos tempos eternos» (Tit. 1, 1-2).

A Igreja, no término deste milénio e já no limiar do próximo, deve prosseguir com perseverança na sua missão de proclamar a Boa Nova, a fim de que «todos os homens sejam salvos» (1 Tim. 2, 4). O triénio de preparação para o Grande Jubileu do Ano 2000 encontre-vos assíduos na pregação, segundo as indicações que eu mesmo propus na Carta Apostólica Tertio millennio adveniente. Ao buscardes todos estes objectivos, edificais o Corpo de Cristo (cf. Ef. 4, 12) nestas terras, em comunhão com toda a Igreja.

6. Apesar da sua pobreza, a Igreja que está na Bósnia Herzegovina não deve esquecer os pobres que batem à sua porta. As devastações deixadas pelo recente conflito legaram-vos famílias destruídas, viúvas e órfãos, prófugos e deslocados, mutilados e aflitos. É preciso permanecer ao seu lado, levando-lhes o alívio da vossa caridade concreta e da vossa solicitude pastoral. A este propósito, não posso deixar de reservar uma especial menção honrosa aos organismos da Cáritas que, em cada uma das dioceses, muito realizaram e realizam para aliviar os sofrimentos de quantos estão em dificuldade.

O testemunho da caridade favorece uma maior compreensão entre as várias culturas e religiões que florescem nesta região, porque a dor e a necessidade não conhecem fronteiras. Através do amável gesto da caridade, contribuís para o diálogo sincero com todos os vossos conterrâneos, buscando a construção da civilização do amor. Assim, perdoando e pedindo perdão, será possível sair da espiral de recriminações recíprocas e empreender com decisão a via da reedificação moral e civil. «Cada um perdoe ao outro, do mesmo modo que o Senhor vos perdoou» (Col. 3, 13).

Além disso, o método do diálogo, perseguido com perseverança e em profundidade, deve caracterizar em primeiro lugar a relação com os irmãos ortodoxos e com os outros irmãos cristãos, aos quais estamos unidos mediante não poucos vínculos de fé. Com palavras cordiais e atitude sincera, procurai também motivos de encontro e de compreensão com os sequazes do Islão, a fim de que se possa construir uma convivência pacífica no respeito recíproco dos direitos de cada indivíduo e de cada povo.

7. Venerados Irmãos, enquanto o Sucessor de Pedro deseja confirmar-vos hoje nos vossos bons propósitos, quer também repetir-vos que não estais sozinhos no vosso caminho. Estamos convosco e estaremos sempre convosco, apoiando os esforços que realizais, a fim de que se consolide em toda a Igreja «o amor, que é o laço da perfeição» (Col. 3, 14).

Confio os vossos esforços apostólicos à materna protecção de Maria, Mãe da Igreja e Rainha da Paz que vós, juntamente com as comunidades a vós confiadas, honrais com grande devoção. A Mãe de Deus, modelo de perfeição para toda a Igreja, vos sustente nos vossos trabalhos e projectos, de tal forma que continue a ressoar nas vossas terras o hino pascal: «Scimus Christum surrexisse a mortuis vere. Tu nobis, victor Rex, miserere!»

Com estes sentimentos, concedo a cada um de vós, como penhor do meu afecto, uma especial Bênção apostólica, que de bom grado faço extensiva aos sacerdotes, aos religiosos, às religiosas e a todos os fiéis a quem dedicais os vossos cuidados pastorais.

 

 

 

 

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