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CARTA DO PAPA JOÃO XXIII 
"OMNES SANE"
SOBRE A APROXIMAÇÃO DO
 CONCÍLIO ECUMÊNICO
 

AOS SINGULARES BISPOS DA IGREJA CATÓLICA

 

Venerável e caríssimo irmão

1. Todos, sem dúvida, vêm o quanto seja necessário, avizinhando-se sempre mais o concílio ecumênico vaticano II, que os fiéis rezem com cada vez maior fervor ao Espírito Santo paráclito, a fim de que, com a sua força e sua luz assista e guie aqueles que se preparam e se ocupam deste importantíssimo evento, esperado em todo o mundo com ânimo comovido por aqueles que se orgulham do nome cristão.

2. Por isso, com a recente exortação Sacrae laudis, convidamos todo o clero a recitar o Ofício divino para tal intenção; e as notícias até agora chegadas atestam claramente que dessa exortação os sacerdotes sentiram-se incitados à piedade mais viva. Muito tempo antes, com esse mesmo escopo, havíamos composto também uma oração destinada a ser recitada cotidianamente pelos fiéis. E como sabes, não descuidamos em ocasião alguma de exortar todos os filhos da Igreja, especialmente as crianças, os doentes e os sofredores, a oferecerem generosamente ao Deus benigno suas orações e dores pela mesma intenção.

Os bispos preparam-se para o concílio

3. Todavia, como é justo, cada um dos nossos pensamentos e diligências tende a fazer com que o ânimo dos bispos seja todo absorvido por esse importantíssimo evento, pois cabe a eles, juntamente com o romano pontífice, dedicar atenção ao concílio e carregar os pesos, cada um a sua parte. Ao dar-te esse sinal da nossa benevolência e confidência, o qual, embora estando fora do usual da Sé Apostólica, certamente te agradará, move-nos o desejo de manifestar-te desde já a particular alegria que provaremos no próximo mês de outubro, quando poderemos abraçar paternalmente todos os bispos católicos.

4. Além disso, com esta carta desejamos também exprimir singularmente aos bispos a nossa gratidão por tudo o que fïzeram em preparação ao concílio, testemunhando-o os numerosos volumes da Acta et Documenta. Queremos, igualmente, exortar esses bispos a se prepararem para o concílio sobretudo com a santidade de vida, bem sabendo que também só com isso podem cooperar para o sucesso desta grandiosa incumbência, fazendo, no que lhe concerne, que a Igreja católica se apresente aos homens como a esposa de Cristo "santa e sem mancha" (cf. Ef 5,27).

5. Em verdade, os atos pontifícios, endereçados nesses últimos tempos sobretudo aos bispos, não deixam nunca de incitar a integridade da vida, seja aos sagrados pastores, seja ao rebanho a eles confiado, sempre supondo que, sem dúvida, os pastores já refletem e imitam a viva imagem de Cristo bom pastor, e já são de modelo e exemplo para as suas ovelhas.

Diferentemente das outras, esta carta não se dirige a todos os bispos - em geral -, mas a cada um como um ligame de amizade, como se fosse uma carta familiar.

Relações cordiais do vigário de Cristo com os bispos

6. Fomos sendo encaminhados a isso, venerável irmão, pela experiência de nossa vida passada. Certamente observaste como a tarefa de representante da Santa Sé em várias partes do mundo não está privada de solicitude e dificuldade, e como a cruz, que cada pastor de diocese traz aderente ao próprio peito, não é um puro sinal de honra. Retornando mentalmente aos longos anos transcorridos desde 19 de março de 1925, data de nossa consagração episcopal, e a 28 de outubro de 1958, quando, ainda que sem o merecer, fomos elevados à cátedra de Pedro, somos gratos aos sumos pontífices que, com cartas pessoais e comuns, sustentaram-nos e incitaram-nos no início de nosso ministério episcopal e no seu comprimento. Disso podes facilmente compreender com qual disposição de ânimo teríamos acolhido um tão forte encorajamento para a santidade de vida, no momento em que isso nos tivesse sido dirigido pelo sucessor de Pedro, na iminência de um concílio ecumênico.

7. Pois bem, dirigimos agora esta exortação aos nossos irmãos no episcopado, no oriente e no ocidente. Queira Deus que tal carta possa alcançar a todos os seus destinatários.

Sabemos bem quantos incômodos, cuidados e dificuldades freqüentemente se abatem, por motivo do encargo, sobre o bispo, às vezes até mesmo longe dos amigos aos quais poderia comunicar as próprias agruras. Também não ignoramos como pode acontecer que nem mesmo entre os seus colaboradores o bispo encontre quem lhe dê coragem e o sustente no suportar serenamente a dor, e como ele deva pedir unicamente a Deus ajuda e consolação. Por outro lado, nos mesmos sustentáculos da piedade que o bispo procura junto com os seus sacerdotes - como por exemplo os exercícios espirituais - o mais das vezes não são suficientes às suas necessidades, devendo ele, em tais circunstâncias, ocupar-se mais dos outros do que de si mesmo.

A dignidade episcopal segundo são Paulo

8. Uma vez que a nós, vigário de Cristo na terra, isso foi filialmente confiado pelos mesmos bispos, e isso nos atestaram, pensamos que esta carta paterna os inflamará àquela busca de santidade que tanto convém a eles, sucessores dos apóstolos. Nesse sentido, parece adaptar-se uma passagem do apóstolo Paulo que se lê na missa do primeiro domingo da quaresma: "Na qualidade de colaboradores de Deus, nós vos exortamos a não receber em vão a graça de Deus" (2Cor 6,1); essas palavras exprimem claramente a graça dada aos bispos, por força da qual eles exercitam, na Igreja, suas funções de "ministério", de "magistério" e de "governo". Como diz também santo Inácio de Antioquia: "Obedecei todos ao bispo, como Jesus Cristo ao Pai; obedecei ao sacerdote como aos apóstolos; reverenciai aos diáconos, segundo o preceito de Deus. Separado do bispo ninguém faça nada daquilo que concerne à Igreja" (Smyr., 8,1).

9. Dessas palavras refulge magnificamente a dignidade dos bispos, a quem cabe engrandecê-la, dia a dia. E se, talvez, se encontram sob o peso da adversidade, subjugados pelo temor, como os apóstolos que ficaram espantados diante da paixão e morte de Cristo, ouçam então a advertência de Paulo: "Pois ele [Deus] diz: No tempo favorável, eu te ouvi. E no dia da salvação vim em teu auxílio" (2Cor 6,2), e acrescenta: "Eis agora o tempo favorável por excelência. Eis agora o dia da salvação" (ibid).

O concílio Vaticano, em preparação, exige que os bispos atinjam mais largamente a abundância daquela graça divina, descida do céu no dia de pentecostes, e da qual receberam seguro penhor: "mediante a imposição das mãos" (2Tm 1,6).

10. O apóstolo dos gentios ensina com ponderação, clareza e força persuasiva por quais caminhos os bispos podem conseguir isso; afinal, depois de ter vigiado para distanciar de si, com toda diligência, quanto é contrário à dignidade dos bispos, exorta-os vivamente a dar, ao invés, exemplos daquela virtude conveniente ao seu estado e capazes de mover o coração de quem se distanciou da Igreja: "Mas, em tudo recomendamo-nos como ministros de Deus: por grande perseverança..." (2Cor 6,4). A essas exortações seguem várias outras recomendações, muito frutuosas para quem as medita.

11. Também para os tempos de dificuldade e de sofrimentos, o apóstolo Paulo aconselha muitas coisas, das quais pensamos que, no caso, os bispos podem extrair não pouca consolação, pois nenhum deles, no seu múnus, está isento de "tribulações, necessidades e angústias" (cf. 2Cor 6,4). Pode também ocorrer que, talvez, nos seus arcanos desígnios, Deus permita a ameaça de ruína; todavia, aqueles que nutrem grande fé na ajuda providencial de Deus, parecerão "como tristes e, não obstante, sempre alegres" (2Cor 6,10).

A fonte de um frutuoso ministério pastoral

12. Quaisquer que sejam as circunstâncias dos tempos e das coisas, o ministério dos bispos não poderá nunca produzir frutos abundantes se aqueles que, com justa razão são chamados "responsáveis pelos consagrados", não cuidarem de irrorar os próprios trabalhos com a oração assídua. Antes de tudo é necessário que esses atinjam abundante graça divina do sacrossanto sacrifício do altar, através do qual sobretudo o valor do sangue derramado por Cristo é aplicado às almas. Nesse mesmo sacrifício, por meio do qual cada sacerdote se une num místico abraço com Cristo, o bispo encontrará santa consolação, especialmente se celebra com toda a devoção, preparado-se bem e cumprindo o devido agradecimento ao imortal e clementíssimo Deus. E se bons e piedosos fiéis se distinguem pela sua devoção para com o augustíssimo sacramento da eucaristia, como poderiam os bispos não terem vivíssima devoção em relação a esse mesmo sacramento, para atingir, da principal fonte, consolação, força e serenidade? Como poderiam não aspirar isso, com a totalidade da alma dirigida ao tabernáculo, detendo-se e encontrando repouso em meio às crescentes preocupações e fadigas do seu múnus?

13. Além do divino sacrifício, o bispo pode encontrar estímulos à piedade seja no breviário, a respeito do qual escrevemos a todos os sacerdotes na exortação Sacrae laudis, seja nos piedosos exercícios enumerados no cânon 125 do Código de direito canónico, que, sem dúvida, alimentam e acendem o amor de Deus nos corações.

Freqüentemente, venerável irmão, deves lembrar ao teu clero essas sapientíssimas normas, nas quais se revela a materna solicitude da Igreja, por demais desejosa que os seus ministros sejam santos e santificadores. A experiência te ensina que essas exortações dirigidas ao clero freqüentemente foram um suave estímulo para um mais atento controle de ti mesmo.

14. É grande a consolação dos sacerdotes e dos fiéis a ti confiados quando vêem o seu pastor dedicar-se com todas as forças à santidade, precedendo os outros com o exemplo. É incumbência sua, afinal, representar o rebanho no altar de Deus, e em seu nome oferecer a Deus dons e orações "em suave perfume". Um bispo santo conduzirá, sem dúvida, os seus sacerdotes à santidade; e, de outra parte, os santos costumes do clero não deixam de contribuir para o progresso religioso de toda a diocese. Mesmo se não sempre podem ser vistos os frutos salutares, segundo aquela sentença do Senhor Jesus: "Um é o que semeia, outro o que ceifa" (Jo 4,37), todavia grande é a alegria preparada no céu a quem, no pranto, semeou na terra.

Desejos conclusivos e exortações

15. Aproximamo-nos da quinta-feira santa que, devido a instituição do sacerdócio católico, realizada naquele dia, foi denominado "dia sacerdotal". Mas nós achamos que poderia ser definido mais exatamente "dia episcopal", tendo então Cristo conferido a consagração episcopal aos seus apóstolos, dos quais os pastores da Igreja são legítimos sucessores. Por isso atribuímos ao amável desígnio da providência divina o poder conferir por nossa mão a dignidade episcopal a doze membros do sagrado colégio cardinalício, pertencentes à ordem dos diáconos. Essa dignidade episcopal mostrará, certamente, de modo mais manifesto, a nubilidade e a grandeza dos encargos confiados à tríplice ordem própria dos cardeais, em auxílio ao vigário de Cristo no governo da Igreja universal.

16. Nós saboreamos já antecipadamente a grande alegria daquela jornada: antes, se não tivesse dissuadido a longa duração dos sagrados ritos, teria sido nosso desejo ajoelhar-nos diante dos doze novos bispos e, seguindo o exemplo de Cristo Senhor, lavar seus pés.

Naquele dia, venerável irmão, recordar-nos-emos também de ti confiando que também tu, circundado dos teus sacerdotes, desejarás juntar as tuas orações àquelas do sucessor de Pedro, e do mesmo modo suplicar ao Senhor por aqueles bispos, cuja ação pastoral, por causa das tristes condições de seus países, é exercida com perigo ou obstaculizada.

17. Queremos finalizar esta carta com as palavras do apóstolo Paulo: "Nós vos falamos com toda a liberdade, ó coríntios; o nosso coração se dilatou" (2Cor 6,11). Nosso ânimo consola-se observando aquele maravilhoso espetáculo de unidade, de generosidade e de zelo pastoral oferecido aos bispos de todo o mundo católico ao aproximar-se do concílio.

Não faltavam, é verdade, motivos de preocupação e dificuldade com os quais a providência de Deus permite que sejam provados os seus eleitos, para melhor purificá-los; todavia, hoje pode-se constatar o grande prestígio desfrutado, junto a todos, pela Igreja una, santa, católica e apostólica, como também a unidade da fé que nela reluz, enquanto os seus filhos mais devotos excelem maravilhosamente na obediência e na caridade.

18. Isso quisemos dizer-te, venerável irmão. E rezamos à Virgem Mãe de Deus e nossa Mãe celeste, por nós invocada "auxílio dos cristãos, auxílio dos bispos", para que sejam postos em prática os conselhos que te demos nesta carta; recordamos também a intercessão de são José, patrono da Igreja universal e do próximo concílio.

E, finalmente, bem sabendo como as nossas forças sejam frágeis diante de tão empenhativa tarefa, dirigimonos suplicantes a Deus onipotente, fazendo nossa a oração da Imitação de Cristo, adaptando-a à necessidade dos bispos; "Ajude-nos a tua graça, ó Deus onipotente, afim de que nós, que recebemos o múnus episcopal, possamos digna e devotamente, servir-te com toda a pureza e boa consciência. E se não podemos viver com aquela inocência de vida que se deveria, concede-nos ao menos chorar, como é devido, as culpas cometidas, e servir-te mais fervorosamente no futuro, com espírito de humildade e no propósito de boa vontade" (Cf. Imitação de Cristo, I. N, c. XI, 7).

Implorando a celeste ajuda concedemos, com generosidade de coração, a bênção apostólica, venerável irmão, a ti, ao clero e ao povo comados à tua vigilância, para os quais são dirigidas as orações tua e nossas.

Roma, junto a São Pedro, no dia 15 de abril, Domingo de Ramos, do ano de 1962, IV do nosso Pontificado.

 

JOÃO PP. XXIII

 

 

 

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