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PEREGRINAÇÃO APOSTÓLICA DO SANTO PADRE
À ÁSIA ORIENTAL OCEANIA E AUSTRÁLIA

(25 DE NOVEMBRO A 5 DE DEZEMBRO DE 1970)

RADIOMENSAGEM DO PAPA PAULO VI
A TODOS OS POVOS DA ÁSIA ATRAVÉS
DA «RÁDIO VERITAS» DE MANILA

Domingo, 29 de Novembro de 2012

 

Para os inumeráveis milhões de homens e mulheres, Nossos irmãos e irmãs, que vivem na Ásia, este cruzamento de culturas antigas e modernas, e especialmente para os que são Nossos Filhos em Cristo, pedimos a Bênção de Deus, Paz duradoura e Fraternidade!

Sentimo-Nos feliz em poder dirigir-vos estas palavras, na inauguração da Rádio-Veritas, que desejamos encorajar a uma actividade cada vez mais esclarecida, generosa e fecunda. Também exprimimos o Nosso reconhecimento a todos que tornaram possível a realização desta importante obra. Formulamos votos por que, por meio dela, possam chegar até vós os ecos dos ensinamentos de Cristo, a fim de elevardes as vossas almas para o Deus do amor e da verdade. Esperamos que ela possa estreitar, entre os seus ouvintes, os laços do amor evangélico, para que, ao conhecerdes « as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres...» (Gaudium et Spes n. 1), possais empreender, em conjunto, a edificação de uma sociedade mais justa e mais solidária.

É a primeira vez, Irmãos, que o Chefe da Igreja Católica vem a esta parte do vosso Continente. A Providência destinou para isso a Nossa humilde pessoa. Sentimo-Nos grato, porque olhamos para a Ásia com amor e respeito, pela sua venerável antiguidade e pela riqueza da sua cultura milenária. Esta imensa terra deu origem a grandes civilizações, foi o berço de religiões mundiais e o cofre da antiga sabedoria. Encontramo-Nos agora numa região onde as remotas correntes do Oriente e as mais recentes do Ocidente se fundiram, com recíproco enriquecimento.

Ao dirigir-vos a Nossa palavra, não podemos deixar de fazer uma reflexão, óbvia e ao mesmo tempo merecedora de ser recordada. O vosso Continente, que se estende dos confins da velha Europa e da África até ao Pacífico, ocupando quase um terço da terra, oferecida ao homem como casa, é habitado por mais da metade da humanidade inteira. Este facto, só por si, dá uma ideia das proporções dos problemas que se apresentam aos vossos povos e, simultâneamente, da importância — do peso, diríamos — que a Ásia tem para o presente e, ainda mais, para o futuro do mundo inteiro. Observamos este duplo aspecto, com um grande interesse e respeito por todos que têm a missão de assegurar, com previdente discernimento, que o desenvolvimento se possa verificar com a necessária solicitude, sem desordens tumultuosas e perigosas, mas de maneira benéfica e racional. O Nosso interesse aumenta progressivamente com os Nossos melhores votos e com a Nossa disposição de contribuir o mais possível para este fim, sendo acompanhado de uma grande esperança.

Ninguém mais sinceramente do que Nós deseja ver-vos ocupar aquele lugar que vos compete no mundo e receber a vossa legítima parte nos meios e nos benefícios do bem-estar económico e social. Ninguém mais do que Nós é consciente e deplora as situações de desenvolvimento incompleto ou de distribuição injusta, ainda existentes entre vós, nas relações de uma Nação com outra, ou entre cidadãos da mesma Nação. Ninguém mais do que Nós — por razões de justiça, por estima pelas vossas populações, sem distinções e sem preferências, a não ser em favor dos mais fracos e dos mais necessitados, pelo próprio interesse da convivência pacífica e da boa e frutuosa cooperação, no interior dos vossos países, na sua vastíssima área e até fora dela — ninguém mais do que Nós, dizíamos, deseja, com os seus votos, que estas situações sejam superadas o mais depressa possível e da forma mais completa, de acordo com os direitos naturais de cada um dos indivíduos, dos vários grupos e de todos os povos.

Sabemos que as dificuldades de ordem técnica são muitas. Estas dificuldades não podem ser vencidas sem uma colaboração a nível mundial e sem uma assistência recíproca e desinteressada. Felizmente, a consciência desta necessidade vai conquistando terreno, ao mesmo tempo em que se começa a fazer sentir, cada vez mais imperioso, o dever de solidariedade entre as nações do mundo. Exortamo-vos a agir, com generosidade, neste grande movimento ; e exortamos, igualmente, todos aqueles que, fora do Continente asiático, têm a possibilidade e o dever de o fazer, a darem uma cooperação ainda mais ampla para o desenvolvimento integral de todos.

Sentimos também o dever urgente de exortar todos os responsáveis a combaterem, decididamente, as injustiças que se possam verificar nas situações e nas relações dos vários grupos sociais e a darem um impulso cada vez mais forte, com a mente e o coração abertos e também com mão firme, à promoção humana de todos os cidadãos, dispensando particular atenção às necessidades e aos direitos dos mais pobres e abandonados, dos operários que aspiram ao salário justo, e dos trabalhadores da terra, que muitas vezes requerem uma sapiente reforma agrária.

Ao fazermos estas exortações, anima-Nos uma grande esperança. Esta esperança, desejamos dizê-lo claramente, está fundada na ajuda de Deus e no empenho responsável de todos vós, desde os mais humildes aos que ocupam funções elevadas; e, além disto, na certeza das virtudes e qualidades naturais, que — apesar das múltiplas diferenças entre cada povo — são comuns às vossas estirpes, constituindo, algumas delas, um traço característico.

Considerando, Irmãos, o passado das vossas nações, ficamos impressionado sobretudo pelo sentido dos valores espirituais que domina o pensamento dos vossos sábios e a vida dos vossos povos. A disciplina dos vossos ascetas, o profundo espírito religioso das vossas populações, a piedade filial e a dedicação à própria família, bem como o culto dos antepassados, manifestam o primado do espírito e demonstram a vossa incessante busca de Deus, a vossa fome do sobrenatural.

Estas características não têm valor sòmente para a vossa vida espiritual. No seu conjunto, elas não só não representam um obstáculo para a conquista daqueles progressos técnicos, económicos e sociais, a que as vossas inumeráveis populações aspiram justamente, mas também fornecem uma base de valor inestimável, para que o progresso se possa verificar em plenitude e de modo a não ficarem sacrificados os valores mais profundos e preciosos, que fazem do homem aquele ser afagado pelo sopro do espírito, o senhor, ao menos potencialmente, do cosmos e das suas forças, e, além disso, dominador de si mesmo.

A ciência e a tecnologia constituem uma prova da conquista da ordem material, por parte do espírito humano. Todavia, é exactamente à sombra destas conquistas que o materialismo se mantém escondido, e procura insinuar-se onde a tecnologia se aplica em larga escala. Entretanto, com a visão espiritual que caracteriza as vossas tradições, com o vosso sentido de disciplina e de moralidade e com a integridade da vossa vida familiar, estais, sem dúvida, em condições de vos opordes ao materialismo, de modo a ajudardes a civilização ocidental a superar os perigos que o seu próprio progresso encerra.

O materialismo, porém, com todas as suas consequências negativas, não passa de um sintoma externo de um mal-estar mais profundo, que, nos nossos dias, aflige vastos sectores da família humana: um enfraquecimento da fé em Deus, ou até mesmo a sua perda total. E, quando o ateísmo se torna militante e agressivo, como tem acontecido, então transforma-se num perigo ainda mais grave, para os indivíduos e para as nações. Todos os povos do vosso Continente que temem a Deus, e também os seus dirigentes religiosos, devem enfrentar este perigo comum. A Ásia, que viu nascer grandes religiões mundiais, não se deve deixar sucumbir sob a impiedade. Dirigimo-vos o Nosso convite para vos unirdes à Nossa oração, a fim de que a luz e o amor de Deus preservem os vossos povos de um perigo como este.

Aqui, impõe-se-Nos dizer uma palavra acerca da presença e da acção da Igreja Católica entre vós. E dizemo-la de muito bom grado, daqui, desta terra das Filipinas, onde, há séculos, a mesma Igreja se encontra como se estivesse em sua casa, o que não acontece só aqui, mas também em todas as vossas nações. O que ela tem para vos trazer, a Mensagem de Cristo, não é imposto a quem a ouve, mas simplesmente anunciado, com palavras francas e fraternas, e oferecido ao conhecimento e à meditação das vossas consciências, sem, porém, anular ou diminuir, de modo algum, os valores culturais e espirituais que constituem a vossa preciosa herança.

Cristo é a luz, a verdade e a vida; e anunciamo-lo, como Ele se apresenta à certeza da Nossa fé; cumpridores do encargo que Nos deu e do Seu mandato — ide, pregai a todas as gentes a boa e alegre Nova, ensinando-lhes a Minha doutrina de amor e de vida. Fazemo-lo, irmãos e irmãs, com amor humilde por vós, com profundo respeito por vós e pelas vossas antigas e veneráveis tradições.

A Igreja, efectivamente, em virtude da sua essencial catolicidade, não pode sentir indiferença por qualquer nação ou povo; é obrigada a encarnar-se em todo e qualquer clima, cultura e raça. Onde quer que esteja, deve firmar as suas raízes no solo espiritual e cultural do lugar e assimilar todos os seus valores genuínos. Os Nossos Predecessores, o II Concílio do Vaticano e Nós próprio, não só temos encorajado este movimento, mas também lhe temos dado as necessárias directivas. Assim, ao mesmo tempo que se preserva a riqueza cultural e a individualidade de cada nação, a Igreja poderá comunicar a todas elas o que possui um cunho de valor universal em cada uma delas, para enriquecimento comum.

Cristo e a sua mensagem exercem uma fascinação divina, que o Oriente, profundamente religioso, certamente estará em condições de apreciar. A vossa fé e a vossa caridade, derramando-se nas actividades da vossa vida quotidiana, podem tornar esta mensagem e o próprio Cristo visíveis e aceitáveis por parte dos vossos compatriotas, de um modo que nenhuma outra pregação consegue.

Esta missão de levar Cristo e a sua Igreja a aproximarem-se dos homens da Ásia não compete só à Hierarquia, aos sacerdotes, aos religiosos e às religiosas, mas também a cada um de vós, Nossos dilectos Filhos Católicos das várias nações, às quais Nos estamos a dirigir.

Todos juntos formais o Povo de Deus e juntos deveis manifestar Cristo aos outros. A imitação do Senhor Jesus, que passou fazendo o bem (cfr. Act 10, 38), os cristãos são os melhores amigos do homem e a sua fé deve levá-los a trabalharem pela santificação do mundo (cfr. Lumen Gentium, n. 31) e a pôr-se na vanguarda deste indispensável movimento de solidariedade fraterna, que deve proporcionar a todos os homens a satisfação das suas necessidades: o pão, o emprego, a habitação, a educação e a resposta às suas aspirações, à responsabilidade, à liberdade, à justiça e às virtudes morais, numa palavra, a um humanismo pleno (cfr. Populorum Progressio, n. 42).

Não podemos terminar sem dirigir uma saudação cheia de pesar e de particular afecto aos povos do vosso Continente sobre os quais pesa a tragédia da guerra. O Nosso coração sente-se oprimido, ao pensar nos milhares de vítimas dos conflitos ainda em curso, nos órfãos e nas viúvas que ficaram abandonados, nas casas e nas aldeias destruídas, nos campos devastados, nos ódios disseminados que, ainda hoje, explodem em acções bélicas ou actos de terrorismo, a que também estão expostas tantas e tantas vidas inocentes e inermes.

Não deixamos nem deixaremos de erguer a Nossa voz, em público e nos Nossos encontros com homens responsáveis, para que sejam infatigàvelmente procurados, com boa-vontade sapiente e tenaz, os caminhos para a suspensão das hostilidades e para, afinal, se chegar a uma paz justa e honrosa, que possa garantir, a todas as populações interessadas, tranquilidade, liberdade e possibilidades de uma existência digna e serena.

Hoje, mais uma vez, queremos solenemente renovar este apelo e este pedido. A todos os que sofrem, os que se esforçam por lhes aliviar os sofrimentos e os que trabalham em favor da paz, formulamos os Nossos mais sinceros votos de felicidade.

Também renovamos cordialmente a expressão da Nossa participação profunda no gravíssimo luto que, precisamente nestas últimas semanas, atingiu um grande e querido país, o Paquistão, vítima de uma catástrofe natural, como talvez não haja memória nos séculos passados mais recentes.

Para terminar, invocamos do Altíssimo, sobre todos os povos da Ásia, os seus Chefes de Estado e governantes, que respeitosamente saudamos, sapiência, boa-vontade e forças suficientes, para assegurarem o feliz e rápido desenvolvimento das suas respectivas nações em todo o Continente. Aos Chefes das religiões da Ásia e aos seus fiéis, exprimimos igualmente a Nossa estima, pelo sentido religioso que cultivam com empenho, para o bem-estar dos seus irmãos. Aos Nossos Filhos Católicos, que mais uma vez recordamos com paterno afecto, concedemos, com os Nossos votos de felicidade, a Nossa Bênção.

 

 

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