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SÍNODO DOS BISPOS

HOMILIA DE D. NIKOLA ETEROVIC
NAS CELEBRAÇÕES DO X ANIVERSÁRIO
DA PUBLICAÇÃO DA «ECCLESIA IN AFRICA»

Iaundé, 17 de Setembro de 2005

Prezados irmãos no Episcopado
Dilectos sacerdotes, religiosos, religiosas, catequistas
e leigos comprometidos
Ilustres Autoridades civis e tradicionais
Queridos irmãos e irmãs

Confiando-nos à oração de Jesus Cristo, único mediador entre Deus e os homens (cf. 1 Tm 2, 5), deste Santuário mariano de Mvokyé elevamos o nosso louvor ao Deus bom e misericordioso, dando-lhe graças por ter dirigido a sua Palavra de Vida à Igreja que está na África (cf. Ap 2, 1). Permito-me relevar alguns aspectos da rica mensagem das leituras que acabámos de ouvir. A Palavra de Deus exorta-nos a todos, membros da Igreja de Jesus Cristo, a tornarmo-nos missionários. Além disso, ela determina a meta da nossa actividade pastoral e define o conteúdo da evangelização.

Depois de ter ensinado os doze Apóstolos, o Senhor Jesus enviou-os em missão. Num primeiro momento, tratava-se do envio para "as ovelhas perdidas do povo de Israel" (Mt 15, 24). Todavia, a missão devia alargar-se ao mundo inteiro, correspondendo à vontade divina da salvação de todos os homens (cf. Tt 2, 11). Com efeito, o Senhor ressuscitado ordenou aos discípulos: "Portanto, ide e fazei com que todos os povos se tornem meus discípulos, baptizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28, 19).

São Paulo Apóstolo tinha uma consciência clara acerca de tal dimensão universal da pregação do Evangelho e da salvação, também para os pagãos. Na carta aos Efésios, ele descreve o conteúdo de uma revelação particular do Espírito Santo, especificando que, "em Jesus Cristo, por meio do Evangelho, os cristãos são chamados a participar da mesma herança, a formar o mesmo corpo e a ser partícipes da mesma promessa" (3, 6).

Os debates sobre a natureza da missão cristã foram objecto do Concílio de Jerusalém (cf. Act 15, 1-21), que aceitou aquilo que o Espírito Santo já estava a realizar, não apenas através de Paulo e de Barnabé, mas também mediante o Apóstolo Pedro e o diácono Filipe que, por inspiração de um anjo do Senhor, baptizou o primeiro cristão africano. Com efeito, ao longo do caminho que desce de Jerusalém para Gaza, depois de lhe ter revelado o sentido da Palavra de Deus, Filipe baptizou "um eunuco etíope, ministro de Candace, rainha da Etiópia" (Act 8, 27), que tinha ido a Jerusalém para prestar culto.

Os grandes beneficiários das decisões conciliares foram os povos pagãos e, entre eles, inclusive os habitantes da África, onde o Cristianismo teve um florescimento exuberante, sobretudo ao longo da bacia do Mediterrâneo, durante os primeiros séculos depois de Cristo. Em virtude de diversas vicissitudes sociais e políticas, as fronteiras da sua extensão mudaram a tal ponto, que se pode falar de três fases da evangelização da África (cf. Ecclesia in Africa, cap. II). No entanto, o Cristianismo permaneceu sempre presente no continente, como testemunha a história da Igreja copta.

Actualmente, a Igreja Católica que peregrina na África está a conhecer um desenvolvimento extraordinário, repleto de promessas. Disto dão testemunho as estatísticas acerca do número de fiéis, que já ultrapassa 144.000.000 de pessoas, e o aumento contínuo de sacerdotes, religiosos, religiosas e catequistas. Todavia, o sinal mais evidente deste florescimento cristão é a mentalidade missionária, que se está a difundir com resultados assaz positivos. A África já não é somente o continente que recebe missionários, provenientes do estrangeiro para anunciar a Boa Nova. Há cada vez mais missionários africanos que ultrapassam as fronteiras dos seus Estados e também dos continentes, para levar o alegre anúncio aos próximos e aos distantes, segundo as necessidades. Damos graças a Deus por esta grande dádiva, implorando da sua bondade outras numerosas vocações ao sacerdócio e à vida consagrada, que se caracterizem pela santidade de vida e sejam animadas pelo zelo apostólico, dispostas a difundir o seu santo Nome em todo o orbe terrestre, em conformidade com as indicações da Igreja.

Ao enviar os seus discípulos em missão, o Senhor Jesus especificou também o conteúdo da mensagem, que eles deviam transmitir. "Ide e anunciai: "O Reino do Céu está próximo"" (Mt 10, 7). A proximidade do Reino coincide com a Pessoa de Jesus. Para fazer parte dele, comendo e bebendo à mesa do seu Reino (cf. Lc 22, 30), é necessário converter-se (cf. Mt 3, 2), viver as bem-aventuranças (cf. Mt 5, 3; Mt 5, 10) e cumprir a vontade de Deus Pai (cf. Mt 7, 21).

Para tornar eficaz o anúncio, o Senhor Jesus concedeu aos discípulos o poder de curar os enfermos, ressuscitar os mortos, purificar os leprosos e expulsar os demónios (cf. Mt 10, 8). Para que fosse evidente que se trata de uma dádiva gratuita de Deus, recebida sem qualquer mérito individual, os discípulos deviam partir em missão despojados de quaisquer meios materiais, excepto do direito à alimentação: "Não leveis nos cintos moedas de ouro, de prata ou de cobre; nem sacola para o caminho, nem duas túnicas, nem calçado e nem bastão" (Mt 10, 9-10).

Já passaram dois mil anos, mas a mensagem do Senhor Jesus permanece idêntica, fecunda na austeridade dos meios. Também hoje, Ele continua a enviar os seus discípulos para anunciar o seu Reino, convidando todos a participarem no seu banquete nupcial (cf. Mt 22, 1-14). O anúncio do Reino de Deus, presente no meio de nós, deve ocupar o primeiro lugar na acção evangelizadora da Igreja, acção esta que sucessivamente suscita várias iniciativas concretas de promoção humana. Deus faz com que este anúncio seja acompanhado sempre de milagres, de sinais e de prodígios (cf. Act 2, 22). Alguns deles são evidentes aos olhos dos fiéis, como resultado da graça sacramental do Baptismo e do sacramento da Penitência, como por exemplo o abandono da vida pecaminosa e a ressurreição dos filhos de Deus para a vida; e a libertação dos influxos negativos de Satanás, da magia e dos poderes ocultos. Outros são o resultado da actividade social da comunidade eclesial, como por exemplo as escolas católicas, onde se promove uma educação integral; as estruturas de assistência médica, onde se curam os doentes e também aqueles que sofrem de enfermidades contagiosas e que não são bem recebidos noutros hospitais. A Palavra de Deus ensina-nos que a verdadeira libertação do homem, tanto na África como alhures, provém da Palavra e da graça de Deus. É essencial conservar intacta esta consciência, sobretudo no mundo contemporâneo, em que o cristão é obrigado a confrontar-se com diversas concepções de libertação e de salvação, próprias das várias religiões e dos diversificados modos de ver o mundo.

Uma das condições para o bom êxito da missão é o apoio da comunidade, expressa também através da hospitalidade. O Senhor Jesus recomendava que os discípulos, ao entrarem em qualquer cidade ou povoado, se informassem "para saber se há alguém que seja digno" (Mt 10, 11), que possa acolhê-los até ao dia da sua partida. Na história da comunidade primitiva, nos Actos dos Apóstolos, lemos com frequência os nomes de algumas pessoas que acolhiam os anunciadores da Boa Nova. Deste modo, eles mesmos foram beneficiados, sendo os primeiros a receber o Baptismo e tornando-se discípulos de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, facilitavam a missão dos Apóstolos, que de tais pessoas recebiam ajuda individual e acolhimento nas suas próprias casas.

No Novo Testamento, é descrita oportunamente a hospitalidade que o Menino Jesus recebeu na África. Quando foi obrigado a fugir da ira do rei Herodes, a Sagrada Família de Maria, José e Jesus encontrou abrigo no Egipto (cf. Mt 2, 14-15), regressando à Palestina somente depois da morte do tirano.

Também numerosos missionários, ao virem para este continente, beneficiaram de tal valor tradicional africano. É lícito pensar que também por este motivo, Deus abençoou os habitantes da África, implantando aqui a Igreja de maneira estável. Ela parece-se cada vez mais com uma frondosa "árvore plantada junto da água corrente: dá fruto no tempo devido e as suas folhas nunca murcham. Tudo o que faz é bem sucedido" (Sl 1, 3).

No momento presente, a hospitalidade torna-se urgente sobretudo no que se refere aos irmãos e às irmãs em dificuldade que, por causa de várias espécies de violência, em particular de guerras e de calamidades naturais, buscam refúgio junto dos seus irmãos. A este propósito, os cristãos e todos os homens de boa vontade deveriam pôr em prática a virtude da hospitalidade, tendo presente o facto de que a ela está vinculada a recompensa reservada pelo Senhor Jesus às pessoas que lhe permaneceram fiéis: "Eu estava com fome e destes-me de comer; estava com sede e destes-me de beber; era estrangeiro e recebestes-me na vossa casa" (Mt 25, 35).

Àqueles que os acolheram, os discípulos de Jesus Cristo levaram a paz. A paz é a dádiva do Senhor ressuscitado que, depois de ter derrotado a morte, saúda os seus: "A paz esteja convosco!" (Jo 20, 19). O mundo não pode dar esta paz (cf. Jo 14, 27). No entanto, o mundo tem necessidade urgente da paz em toda a parte, sobretudo na África, desolada por numerosos conflitos de várias intensidades. Portanto, uma das tarefas principais do cristão consiste em viver a bem-aventurança da paz (cf. Mt 5, 9) e em difundir os seus efeitos benéficos em toda a parte. Sem a paz, não pode existir a justiça, nem o desenvolvimento harmonioso dos povos e dos continentes.

Iluminados pela fé, os cristãos sabem que a paz é o resultado do coração contrito, que recebe a força de perdoar e de pedir perdão. Para poder influenciar a sociedade, esta atitude não deve ser promovida apenas pelas pessoas individualmente, mas inclusive pelos grupos influentes e, na medida do possível, aceite a nível de todas as nações. Só deste modo se poderá combater com eficácia, ou pelo menos limitar, os grandes males que afligem a África, oportunamente descritos na Ecclesia in Africa: a pobreza, a corrupção, a urbanização, a dívida internacional, o comércio das armas, o problema dos refugiados e dos deslocados, as questões demográficas e as ameaças que pesam sobre a família, a emancipação das mulheres, a propagação da Sida, a sobrevivência da prática da escravatura, o etnocentrismo e as oposições tribais (cf. Ecclesia in Africa, cap. II, sobretudo n.51).

Estimados irmãos e irmãs, mediante a feliz expressão Ex Africa lux ("Da África, a luz"), o servo de Deus João Paulo II manifestou o seu amor pela África, dando graças à Providência pelo grande testemunho cristão de santo Agostinho, Bispo de Hipona, excelente Africano de estatura universal (cf. Homilia pronunciada em Iaundé, em: Insegnamenti di Giovanni Paolo II [1995], pág. 552).
Fazendo minha esta expressão, também eu desejo dar graças a Deus Pai, Filho e Espírito Santo, pela contribuição oferecida pela Igreja Católica na África à Igreja universal e ao mundo inteiro. Trata-se também dos meus bons votos, a fim de que os valores da cultura africana, elevados pela graça do Evangelho, resplandeçam ainda mais no meio dos outros povos e nações.

Ex Africa lux: o sentido inato de Deus e do sagrado. Num mundo muitas vezes indiferente aos valores transcendentais, os cristãos da África, juntamente com os irmãos de outras denominações religiosas, sobretudo das religiões tradicionais e do Islão, transmitam ao mundo o sentido de Deus.

Ex Africa lux: a alegria perante o mistério da vida, a capacidade de se alegrar juntamente com os irmãos pelos dons, pequenos e grandes, da Providência divina e da benevolência do próximo. Não faltam países, cujos habitantes se tornaram em boa parte escravos da mentalidade consumista, perdendo o sentido e a alegria da vida que, ao contrário, deveriam voltar a descobrir no contacto com os cristãos africanos.

Ex Africa lux: a elevada percentagem dos cristãos na África, presentes na celebração eucarística do domingo, dia do Senhor, assim como das festas de preceito, sirva de exemplo para os numerosos fiéis que, noutras regiões do mundo, parecem estar a abandonar tal prática, chegando a afastar-se também da Igreja.

Ex Africa lux: o respeito pela família, instituição fundamental da sociedade e da Igreja. Abertura religiosa à vida, o respeito pela vida em todas as suas etapas, desde a concepção até à morte natural. Neste campo, a família africana, elevada ao ideal pronunciado pelo Senhor Jesus Cristo no Evangelho, deveria contribuir para a oposição, entre outras coisas, aos chamados matrimónios entre pessoas homossexuais, e ao abominável crime do aborto. A concepção da Igreja, como Família de Deus, pode constituir uma contribuição específica da cultura africana cristã para a Igreja universal.

Ex Africa lux: o diálogo, a tolerância, a abertura e o respeito pelo próximo caracterizaram a cultura religiosa africana. Trata-se de valores ainda hoje actuais, capazes de derrotar várias espécies de fundamentalismo, de terrorismo e de proselitismo que, infelizmente, continuam a manifestar-se em diversas regiões do mundo.

Ex Africa lux: numerosos santos, os melhores filhos e filhas da África, caracterizaram cada uma das fases da evangelização do continente. É suficiente recordar aqui santo Atanásio, são Cirilo, são Cipriano, santo Agostinho, os santos do deserto, Paulo, Antão e Pacómio, e são Frumêncio, assim como as santas Felicidade e Perpétua, santa Mónica e santa Tecla (cf. Ecclesia in Africa, 31). A eles, acrescentam-se agora os santos mártires de Uganda, canonizados pelo Papa Paulo VI, assim como numerosos outros santos e beatos proclamados durante o Pontificado de João Paulo II (cf. Ecclesia in Africa, 33-34). Eles são o sinal da vitalidade da Igreja Católica presente na África, fermento de uma sociedade nova, mais justa e mais próspera, na África e no mundo inteiro.

Ex Africa lux: Jesus Cristo, Luz do mundo (cf. Jo 8, 12). Que Ele vença as trevas do pecado, do egoísmo, de toda a escravidão e exploração, através da renovação moral e espiritual dos cristãos da África, o terceiro milénio do Cristianismo seja assinalado por um grande impulso missionário, que se difunda a partir deste abençoado continente para o mundo inteiro, como germe de edificação de uma sociedade mais justa e mais hospitaleira, construída no respeito pela lei de Deus e pelos direitos inalienáveis de cada pessoa humana.

Confiemos esta nossa oração à Virgem Maria, venerada em tantos Santuários deste continente, a ponto de podermos denominá-la Mãe da África. Que Ela, Mãe de Deus e nossa Mãe, interceda por nós e implore todas as graças necessárias para podermos, com as palavras e sobretudo com o testemunho da nossa vida cristã, entoar sempre cânticos de louvor a Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

Amém!

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