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 SÍNODO DOS BISPOS

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 II ASSEMBLEIA ESPECIAL PARA A ÁFRICA

A Igreja em África
Ao serviço da reconciliação,
da justiça e da paz

«Vós sois o sal da terra …
Vós sois a luz do mundo
» (Mt 5, 13.14)

Lineamenta

Cidade do Vaticano
2006


Índice

Prefácio

Introdução

Capítulo I
A África no início do século XXI

I. A situação do Continente depois da publicação da Ecclesia in Africa.

1. Algumas evoluções positivas
2. Alguns desenvolvimentos negativos
3. A finalidade destes Lineamenta

II. Algumas prioridades

1. O aspecto sócio-político
2. O aspecto sócio-económico 
3. O aspecto sócio-cultural 

III. As religiões ao serviço da reconciliação, da paz e da justiça em África 

1. A Religião Tradicional Africana
2. O Islão 
3. A colaboração com os outros cristãos

IV. A perspectiva: Quo vadis, Africa?

Capítulo II
Jesus Cristo, palavra e pão de vida, nosso reconciliador, nossa justiça e nossa paz

I. Palavra de vida em abundância 

II. Pão de vida 

Capítulo III
A Igreja, sacramento de reconciliação, de justiça e de paz em África

I. A perspectiva missionária de recepção da Igreja-Família de Deus na África contemporânea 

II. A Doutrina social da Igreja e a sua missão evangelizadora

1. Alguns princípios fundamentais da Doutrina social da Igreja

a. O fundamento teológico e antropológico
b. Alguns princípios fundamentais

2. Algumas tentações a vencer

Capítulo IV
O testemunho de uma Igreja que reflecte a luz de Cristo sobre o mundo

I. A Igreja na sua dimensão hierárquica e o seu testemunho no mundo

1. A função do bispo e a das Conferências episcopais
2. As Comissões episcopais «justiça e paz»
3. Os sacerdotes, as pessoas consagradas a as Instituições eclesiais de formação

a. Os sacerdotes
b. As pessoas consagradas
c. As Instituições eclesiais de formação

II. O empenho de todos os fiéis no serviço da reconciliação, da justiça e da paz

1. A identidade e a missão do leigo na Igreja e no mundo
2. Importância da formação dos leigos
3. Alguns aspectos que requerem uma atenção particular

a. A estima e a aceitação recíprocas
b. A reconciliação e o perdão
c. A reconciliação e a cura
d. A violência e a pobreza
e. Para se pôr termo ao comércio das armas e à exploração selvagem dos recursos africanos  
f. O reconhecimento das minorias 
g. As fontes subjectivas e psicológicas da guerra 

Capítulo V
Os recursos espirituais para a promoção da reconciliação, da justiça e da paz em África

I. A originalidade do modo de vida do cristão no mundo

II. A vida litúrgica como base da espiritualidade cristã 

III. Por uma espiritualidade do empenho no mundo, especificamente em África 

1. Uma espiritualidade do trabalho bem executado radicada no amor a Deus e ao próximo 
2. A liberdade cristã e o sentido de família como sinal distintivo desta espiritualidade

Conclusão
Por uma espiritualidade orientada para a comunidade e para o serviço ao mundo

Questionário


Prefácio

Há 12 anos, de 10 de Abril a 8 de Maio de 1994, celebrava-se a Primeira Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos com o tema: «A Igreja em África e a sua missão evangelizadora rumo ao ano 2000: ‘Vós sereis minhas testemunhas’ (Act 1, 8)». A 6 de Janeiro de 1989, o Servo de Deus João Paulo II havia manifestado a sua intenção de convocar essa importante reunião eclesial, dando assim tempo suficiente para preparar a Assembleia. Acolhida com entusiasmo, o processo da Primeira Assembleia Especial para a África punha em movimento todos os membros da Igreja Católica em África, a nível das suas estruturas: dioceses, paróquias e movimentos eclesiais. A ideia teve uma boa aceitação também por parte de membros de outras Igrejas e comunidades cristãs, inclusive representantes de religiões não cristãs e, de um modo mais geral, por homens de boa vontade do inteiro Continente.

Os resultados do conjunto do processo sinodal, desde a preparação à celebração da Assembleia: orações, trocas de informação, partilha de alegrias e sofrimentos relativas às situações eclesiais, culturais, sociais e políticas, reflexões aprofundadas sobre cada um dos temas – tudo num clima de serena comunhão hierárquica, própria dos membros do Corpo episcopal que tem por Cabeça o Bispo de Roma, Presidente do Sínodo e Pastor universal da Igreja–, foram recolhidos na Exortação Apostólica pós-sinodal «Ecclesia in Africa». Publicada a 14 de Setembro de 1995, a Exortação orientaria a actividade pastoral da Igreja Católica em África durante a última década.

Acolhendo favoravelmente o desejo de numerosos bispos, sacerdotes, pessoas consagradas e fiéis leigos, o Papa João Paulo II manifestou a 13 de Novembro de 2004 a sua intenção de convocar uma Segunda Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos. O Santo Padre Bento XVI confirmou o projecto do seu predecessor, comunicando a 22 de Junho de 2005, na presença do Conselho Especial para a África da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, a sua decisão de convocar em Roma a Segunda Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos.

Em colaboração com o sobredito Conselho, Sua Santidade estabeleceu o tema da Reunião sinodal: «A Igreja em África ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz: ‘Vós sois o sal da terra …Vós sois a luz do mundo’ (Mt 5, 13.14)». O tema coloca-se na continuidade da Primeira Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos e prevê uma avaliação dos resultados alcançados a todos os níveis em benefício evidentemente da dimensão eclesial. Depois da última Reunião sinodal, porém, a situação mudou muito. Esta nova realidade requer um profundo exame em ordem a um renovado esforço de evangelização, exigindo que se aprofundem alguns temas específicos, importantes para o presente e futuro da Igreja Católica no vasto Continente Africano.

Graças a Deus, nestes últimos anos, a Igreja Católica, Família de Deus que caminha em África, teve uma nova expansão em todo o Continente, em especial no que concerne o número de fiéis, que, segundo os dados estatísticos de 2004, já atingem um total de 148.817.000, 630 bispos e 31.259 sacerdotes, dos quais 20.358 diocesanos e 10.901 regulares. Além disso, há 7.791 irmãos leigos, 57.475 consagradas e 379.656 catequistas. Crescem também bastante as vocações missionárias africanas que prestam um serviço pastoral a outras Igrejas particulares em África ou noutros Continentes. As actividades de educação e de assistência da Igreja foram determinantes em numerosos países, abrangidos por diversas situações de emergência. Dando graças a Deus por uma situação eclesial tão favorável, a preparação da Segunda Assembleia Especial deveria ser uma ocasião propícia para todo o Povo de Deus se juntar, sob a guia dos Pastores, na oração, na reflexão aprofundada, seguida de iniciativas para progredir no caminho da santidade, seguindo o exemplo de numerosos Pastores e fiéis africanos, que ainda recentemente reafirmaram com o seu martírio a própria fé cristã, contribuindo assim de modo exemplar para que a África se torne cada vez mais «Pátria de Jesus Cristo». O Evangelho que eles proclamaram é o verdadeiro sal da terra, garantia de uma evangelização em profundidade, capaz de resistir a toda a adversidade. A Boa Nova, acompanhada do límpido testemunho do seu serviço eclesial, torna-se luz do mundo, a brilhar nas trevas que, por vezes, se concentram e se adensam sobre grande parte do Continente Africano.

Em união de coração e de espírito com o Santo Padre, os Padres sinodais deveriam enfrentar com as armas da luz (cf. Rom 13, 12) e com uma caridade cristã, consolidada e animada pela esperança dos discípulos do Senhor Jesus Ressuscitado, a actual situação complexa e nem sempre favorável da África. Para além dos obstáculos à evangelização, que podem derivar de razões políticas, religiosas ou sociais, existem graves problemas que interpelam os cristãos e todos os homens de boa vontade. São situações de pobreza, injustiça, doença, exploração, falta de diálogo, divisão, intolerância, violência, terrorismo, e guerra. A Igreja, fiel ao mandato de Jesus Cristo, não abdique de anunciar a Boa Nova para poder oferecer, com o seu capilar serviço pastoral, a perspectiva da reconciliação eclesial e social de Cristo, nossa paz e fonte de verdadeira justiça para o inteiro Continente Africano. A evangelização, tarefa principal do mandato recebido do Divino Mestre (cf. Mt 28, 19), não pode separar-se do empenho dos homens de Igreja de se tornarem samaritanos de tantos irmãos e irmãs, que pedem a sua ajuda e compaixão (cf. Lc 10, 29-37), e de prestarem assistência a tantos pobres e necessitados de calor humano, para dar testemunho do amor de Deus (cf. Mt 25, 31-46). Com o anúncio do Evangelho, com a educação a todos os níveis e as instituições de caridade, a Igreja torna-se cada vez mais activa também na promoção do diálogo, da paz e da justiça na renovada sociedade africana, que com dinamismo avança para o desenvolvimento integral do homem africano, adquirindo assim o digno lugar que lhe pertence no seio da comunidade internacional.

Como é habitual, os Lineamenta, publicados em quatro línguas: francês, inglês, português e italiano, deveriam favorecer um amplo debate sobre o tema sinodal, com a ajuda do Questionário que se encontra no fim do documento. Cabe a cada Conferência Episcopal a tarefa de providenciar a sua tradução nas línguas locais para encorajar uma grande participação comunitária na preparação sinodal. As respostas dos Organismos interessados deveriam chegar antes do fim do mês de Outubro de 2008, para se proceder à elaboração do Instrumentum laboris, documento de trabalho da Segunda Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, cujo longo e, esperamos, fecundo caminho se confia à protecção maternal da Bem-aventurada Virgem Maria, Nossa Senhora da África.

Nikola Eterović
Arcebispo titular de Sisak
Secretário Geral


Introdução

1. Onze anos após a publicação da Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Africa,[1]a Igreja, agradecendo a Deus os muitos benefícios recebidos nesta década, celebra o acontecimento e sente a urgência de empenhar-se totalmente em prol da reconciliação, da justiça e da paz no inteiro Continente. Ao recordar o acontecimento, alegra-nos o acolhimento que lhe foi reservado. Que sentido e conteúdo dar agora a um tal aniversário para conservar toda a sua força e dar um novo dinamismo às nossas comunidades em vista de uma Segunda Assembleia? Esta poderia ser focalizada numa dupla intenção:

  • Uma dimensão de continuidade. Recebemos Ecclesia in Africa como uma herança. Há que fazer, portanto, um inventário e um exame de consciência, ou por outras palavras colocar-nos três questões:

– O que conseguiu a Ecclesia in Africa?
– O que fizemos da Ecclesia in Africa?
– O que na sua linha, falta fazer em função do novo contexto africano?

  • Uma dimensão prática: esboçar uma caminhada sinodal na procura de soluções para sair da crise com que a África se debate; enfrentar os desafios que a situação de desumanização e de opressão que aflige os povos africanos põe à missão evangelizadora da Igreja; suscitar um renovado interesse pelos objectivos que a Exortação propunha e continua a propor aos cristãos e homens de boa vontade.

2. Na Ecclesia in Africa, o Papa João Paulo II propunha, no fim do segundo milénio, um balanço, um diagnóstico, que recapitulasse a história da missão da Igreja em África desde a conversão do Alto funcionário da Rainha Candace até ao momento da formação de autênticas Igrejas locais africanas, plenamente radicadas na catolicidade e plenamente conscientes da sua responsabilidade perante a única missão que Cristo confiou à Igreja-Família de Deus. Sobre essa história, o Papa procurou, à luz das horas sombrias da escravatura e da colonização, à luz das realidades políticas, económicas e sociais, todas elas reveladoras de uma situação alarmante mas rica de promessas, mostrar «como» se chegou a esse ponto e indicar os caminhos que conviria percorrer, segundo o espírito do Evangelho de Cristo, para sair dele: na base de uma visão de Igreja como Família de Deus em África, promover «uma solidariedade pastoral orgânica em todo o território africano e ilhas adjacentes»,[2]procurando soluções e resoluções para os problemas e conflitos que afectam a África. Fazer igualmente a opção da família africana como primeiro lugar de evangelização e lugar, a partir do qual, enfrentar os desafios da evangelização do terceiro milénio: a urgência do anúncio evangélico e da proposta do baptismo; o aprofundamento, indispensável para os baptizados, do sentido da fé; a coragem do testemunho; a escolha do perdão e da reconciliação, inclusive nas situações mais dramáticas; o empenho na promoção da justiça e da paz.

A Exortação apresentava uma espécie de plano de acção pastoral para a Igreja-Família de Deus em África, que lhe permitisse ser fiel à sua vocação e missão e servir a humanidade sofredora de Cristo na carne dos povos africanos. Assim interpretava a situação de desumanização e de opressão que aflige os povos africanos como uma crise e um desafio, e propunha que se os enfrentassem a partir de uma visão da Igreja como Família de Deus.

3. A resposta da Igreja em África a essa Exortação e as vicissitudes recentes do Continente tornaram urgente uma Segunda Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, para examinar mais pormenorizadamente algumas questões já abordadas na Primeira Assembleia, nomeadamente as questões relacionadas com a reconciliação, a justiça e a paz. Foi neste contexto que, fixando o seu olhar em Cristo e desejando discernir os sinais dos novos tempos e reavivar a nossa esperança, o Papa João Paulo II convocava uma Segunda Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos.

Na audiência concedida, a 13 de Novembro de 2004, aos participantes do Simpósio dos Bispos de África e Europa, sobre o tema «comunhão e solidariedade entre a África e a Europa», para comemorar os 1.650 anos do nascimento de Santo Agostinho, ele declarava: «Acolhendo os votos do Conselho pós-sinodal e interpretando os desejos dos pastores africanos, aproveito a ocasião para manifestar a minha intenção de convocar uma Segunda Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos. Confio este projecto à vossa oração, ao mesmo tempo que calorosamente vos convido a todos a implorar do Senhor o dom precioso da comunhão e da paz para a muito amada terra africana».[3]Sua Santidade Bento XVI, desde o início do seu Pontificado, confirmará essa convocação, indicando-lhe o tema: «A Igreja em África ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz: ‘Vós sois o sal da terra […] Vós sois a luz do mundo’ (Mt 5, 13.14)».

Os Padres que se reunirão em Sínodo terão, portanto, que meditar sobre o anúncio do Evangelho num contexto marcado por acontecimentos que exigem respostas activas e fiéis às palavras que Espírito Santo dirige à Igreja-Família de Deus em África nestas horas decisivas da sua história. É nosso dever sublinhar desde já a continuidade de orientação com a Primeira Assembleia, para que todos se esforcem por compreender o alcance espiritual e pastoral dos dois acontecimentos.

4. As duas Assembleias têm em comum a urgência de uma evangelização contínua e profunda no tempo. Neste anúncio do Reino de Deus, trazido por Jesus Cristo, o empenho em favor da reconciliação, da justiça e da paz aparece como lugar de actualização desse Reino de amor: «O Reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo» (Rom 14, 17ss).[4]Nas actuais circunstâncias históricas, sociais, políticas, culturais e religiosas da África, a Igreja-Família de Deus põe em Cristo, Palavra de Deus sempre viva, a sua energia para superar a fadiga e a resignação e libertar-se de toda a espécie de opressão. Cristo convida-a, com efeito, a tomar sobre si o jugo do seu amor. N’Ele, ela recuperará a força para uma nova caminhada, o entusiasmo e a luz para libertar os povos africanos das numerosas trevas que obscurecem o seu caminhar na história.

Para que a luz irradiada da Palavra brilhe totalmente sobre a África inteira, a Igreja oferece o sabor do Pão da vida,[5]com que Cristo opera no interior dos corações humanos a transformação da África. Quanto mais o amor de Cristo se radicar nos corações dos povos africanos, nas culturas e nas instituições africanas, mais o Continente e as suas populações, bem como o mundo inteiro, colherão os frutos da reconciliação, da justiça e da paz. Dada a complexidade do tema, limitar-nos-emos, nestes Lineamenta, a apresentar:

I. A África no início do século XXI.

II. Cristo, Palavra e Pão da vida, nosso Reconciliador, nossa Justiça e nossa Paz.

III. A Igreja, sacramento de reconciliação, de justiça e de paz em África.

IV. O testemunho de uma Igreja que reflecte a luz de Cristo sobre o mundo.

V. Os recursos espirituais para a promoção da reconciliação, da justiça e da paz em África.


Capítulo I

A África no início do século XXI

5. A Primeira Assembleia do Sínodo dos Bispos para a África evidenciou, junto do túmulo de Pedro, o vigor da fé vivida pela Igreja em África. Os Padres sinodais justamente descreveram esse Sínodo como um «Sínodo de ressurreição e de esperança».[6]Passados mais de dez anos da publicação da Exortação Apostólica pós-sinodal, podemos dizer com S. Paulo que «a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações» (Rom 5, 5). Para além dos sofrimentos do momento presente, quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir pode realmente descobrir a obra da Divina Providência em África.

I. A situação do Continente depois da publicação da «Ecclesia in Africa»

1. Algumas evoluções positivas

6. No tormento dos dolorosos acontecimentos que abalam a África, podemos dizer com Sua Santidade Bento XVI que a África «é a grande esperança da Igreja».[7]Podem efectivamente ver-se sinais de esperança num renascer de um cristianismo fecundo e dinâmico e num aparecimento de sociedades novas: o notável aumento em África do número dos católicos, sacerdotes, pessoas consagradas;[8]o número crescente de missionários africanos na África e fora do Continente, bem como o estabelecimento de uma plataforma continental de consulta para eles; a vitalidade das liturgias africanas e das comunidades eclesiais vivas; a criação e reestruturação das dioceses e dos territórios eclesiásticos; o crescente papel da Igreja na promoção do desenvolvimento do Continente, sobretudo na educação, na saúde, na luta em favor da formação de estados de direito em todo o Continente Africano; e, por fim, apesar de tais fraquezas, o facto de a Igreja continuar a desfrutar de uma grande credibilidade por parte das populações africanas.

Para muitos dos países da África, a Igreja é a única realidade que ainda funciona bem e que permite às populações continuar a viver e a esperar em dias melhores. Ela não só oferece a assistência necessária, garante a coexistência pacífica e contribui para encontrar os caminhos e os meios da reconstrução do Estado, mas é também o lugar privilegiado, onde se começa novamente a falar de reconciliação e de perdão. São motivos para se alegrar no Senhor (cf. Rom 5, 3-4) pelas maravilhas que realizou em África ao longo destes últimos onze anos.

7. Do ponto de vista social, também é possível evidenciar alguns novos progressos: o restabelecimento da paz nalguns países africanos; a forte aspiração da paz, largamente sentida no Continente, sobretudo na região dos Grandes Lagos; a crescente oposição à corrupção; a vigorosa tomada de consciência da necessidade de promover a mulher africana e a dignidade de toda a pessoa humana; o empenhamento dos leigos nas «sociedades civis» em prol da promoção e defesa dos «Direitos do Homem»; o número cada vez maior de políticos africanos, conscientes e determinados a encontrar soluções africanas para os problemas africanos. Nesta perspectiva, a Igreja encoraja os esforços feitos para unir toda a África de Norte a Sul, de Leste a Oeste. A tal propósito, nutre-se a esperança de ver a União Africana tornar-se mais eficiente e eficaz na resolução dos conflitos entre as nações africanas e entre os grupos étnicos.

As mudanças verificadas ao longo destes últimos onze anos oferecem novas oportunidades para a missão da Igreja em África. É necessário fazer com que as grandes forças espirituais do Continente se possam expandir de todo e se criem as condições de um renascer da África a nível religioso, social, económico e político.

2. Alguns desenvolvimentos negativos

8. Por outro lado, não se pode passar em silêncio o facto de, para além destas perspectivas animadoras, muitas situações preocupantes, já denunciadas na Exortação, se terem vindo a agravar, deixando entrever um futuro incerto: «a deterioração generalizada da qualidade de vida, a insuficiência dos meios para a formação dos jovens, a carência de serviços previdenciais e sociais elementares, com a consequente persistência de doenças endémicas, a difusão do flagelo da sida, o peso gravoso e às vezes insuportável da dívida internacional, o horror das guerras fratricidas, alimentadas por um tráfico de armas sem escrúpulos, o espectáculo vergonhoso e lastimável dos deslocados e refugiados».[9]E como não condenar severamente os horríveis massacres perpetrados em certos lugares da África?

Por outro lado, há indicadores e cifras que incessantemente nos interpelam; por exemplo, o facto de a mortalidade infantil não deixar de crescer; há mais de dez anos que os países mais pobres da África se sentem acossados por uma constante degradação das receitas; o acesso à água potável ainda é para muitos uma séria dificuldade; de uma forma global, a grande maioria da população africana vive num estado de carência de bens e serviços de primeira necessidade. A actual situação da África não pode deixar de interpelar as consciências. A África encontra-se hoje, mais do que nunca, dependente dos países ricos, mais vulnerável que qualquer outro Continente às manobras desses países, que procuram dar com uma mão e levar o dobro com a outra e que tendem a condicionar fortemente a vida política, económica, social e até cultural dos países africanos. A África é conscientemente esquecida neste mundo em construção. Só se lembram dela, quando querem alardear as suas misérias ou explorá-la. Que alavanca se deverá accionar para abrir uma brecha de esperança nessa espécie de muro que barra o horizonte sócio-económico africano?

3. A finalidade destes Lineamenta

9. Perante situações tão diversificadas, não é fácil falar da mesma maneira nem esboçar uma solução de valor universal. Não é essa aliás a ambição destes Lineamenta, nem mesmo a sua finalidade. O que com eles se pretende não é dizer tudo, mas estabelecer, a partir do estudo e da acção, algumas prioridades no domínio da reconciliação, da justiça e da paz. Trata-se sobretudo de levantar questões ou incentivar uma busca comunitária de soluções, na perspectiva do processo sinodal iniciado com a Primeira Assembleia.

II. Algumas prioridades

10. Uma reflexão aprofundada do tema da Segunda Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, a saber «A Igreja em África ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz: ‘Vós sois o sal da terra …Vós sois a luz do mundo’ (Mt 5, 13.14)», não pode prescindir de um estudo sobre as razões que possam explicar tantos ódios, injustiças e guerras no Continente. A urgência desta Segunda Assembleia Especial tem a ver, de facto, com o sofrimento dos povos africanos, com a desumanização e opressão que persistem neste Continente. Somos confrontados neste Continente com uma série de conflitos e problemas, que constituem o nó dos desafios à evangelização da África contemporânea.

Na Exortação Apostólica pós-sinodal, o Papa João Paulo II considerava que o maior desafio para realizar a justiça e a paz em África residia na boa gestão dos negócios públicos nos dois domínios interligados da política e da economia.[10] O sofrimento dos povos africanos está em grande parte ligado à gestão desses dois domínios e ao da cultura. Trata-se de um desafio capital para a evangelização, numa África onde a vida e o próprio homem se definem com «relação», «estar com» numa perspectiva fundamentalmente comunitária. É também nessas três dimensões, nomeadamente sócio-política, sócio-económica e sócio-cultural, que nas linhas a seguir entendemos convidar as Igrejas locais da África a meditar e a propor soluções aos problemas relativos à reconciliação, à justiça e à paz.

1. O aspecto sócio-político

11. Um dos maiores desafios da África contemporânea é o insucesso do Estado pós-colonial na grande maioria dos países africanos. Seria demasiado simplista atribuir as causas desse insucesso da política em África à composição pluri-étnica desses Estados ou ainda às fronteiras artificiais herdadas do colonialismo. Para além das diferenças e rivalidades étnicas, os Africanos têm, de facto, uma ideia de nação. Diversamente, como se poderia explicar o apego que todo o Africano tem ao seu país e à sua história? O problema está em transformar a pluralidade num factor positivo, construtivo e não destrutivo. Igualmente, no que se refere às fronteiras artificiais, temos a certeza de que as novas fronteiras «naturais» deixariam de criar problemas? E onde passariam essas fronteiras naturais, não arbitrárias ou melhor não-ideológicas? Quem seria o novo árbitro imparcial que a todos satisfaria com a solução ideal? Não deveríamos ter a sabedoria dos Pais fundadores da Organização da Unidade Africana (O.U.A.), que, em 1963, optaram por não pôr em questão a demarcação existente? O desafio provavelmente reside na boa governação e na formação de uma classe política capaz de recuperar o melhor das tradições ancestrais e integrá-las nos princípios de governação das sociedades modernas. Com isso, não se entende menosprezar o facto de a pluralidade étnica ser muitas vezes fonte de tensões dentro dos Estados, e de verificar-se em muitos Estados africanos uma perda de legitimidade dos governantes aos olhos de uma população que se pergunta para que serve o Estado e uma real destruição do mesmo por parte dos que se supõe estarem ao seu serviço.

12. Em certos países africanos, existem de facto persistentes tensões sociais que bloqueiam o progresso, originando perturbações políticas e conflitos armados. O tribalismo, as disputas de fronteiras e as tentativas de expansão levam a lutas armadas com um pesado tributo em vidas humanas e o esgotamento dos recursos financeiros. Assiste-se, nalguns países africanos, à constante violação dos direitos fundamentais do homem, com todas as consequências que daí possam advir. Neles facilmente se confunde a paz com uma unanimidade ou uma tranquilidade impostas pela força, assegurando a conservação do poder de um grupo de pessoas em prejuízo das populações. Nessas situações, é impossível para os cidadãos participar na vida pública ou tornar operativo o peso da sua opinião colectiva, donde a tendência ao desempenho e ao desinteresse. Enquanto não se conseguir criar estados de direito em África, que sejam governados por Africanos verdadeiramente democráticos, o risco de essa situação se manter é grande.

13. A grande aspiração dos Padres sinodais de ver «estabelecer-se o estado de direito nos nossos países para salvaguarda dos direitos e deveres dos cidadãos»[11]não teve o eco esperado na maior parte dos dirigentes dos países africanos. O não reconhecimento, tanto do indivíduo como da comunidade e das suas recíprocas exigências, leva à discórdia, à guerra e suas consequências. Os estragos da guerra são um claro obstáculo a qualquer processo de desenvolvimento; geram o drama dos refugiados e o contexto de sofrimento provocado pela guerra e pela fome; o sofrimento da nudez e da doença, da tristeza e do medo e das situações humilhantes; destroem a dignidade da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus. Com efeito, na maior parte dos Estados africanos, a atitude das autoridades políticas caracteriza-se por uma grave falta de reconhecimento da pessoa humana e dos seus direitos mais fundamentais e imprescritíveis. A instauração de uma verdadeira democracia, que garanta a segurança dos bens e das pessoas, é condição indispensável para o progresso dos países africanos.

2. O aspecto sócio-económico

14. Se é verdade que a África viveu uma longa e triste história de exploração à mão de outros,[12]há que reconhecer que, com a descolonização, essa situação não terminou. Perdura ainda hoje sob novas formas, como são o peso esmagador da dívida, as condições injustas do comércio, as descargas de produtos tóxicos e as condições excessivamente severas impostas pelos programas de reajustamento estrutural.

15. Na maior parte dos países africanos, apesar dos progressos alcançados nestes últimos anos, a taxa de alfabetização mantém-se entre as mais baixas do mundo. Em numerosos países, o sistema educativo está em constante degradação; o sistema sanitário está em ruínas e a assistência social é quase inexistente. Em tais situações de degradação, as pessoas mais ameaçadas são sempre as mais fracas. Igualmente, do ponto de vista demográfico, não se pode ficar inactivos, quando se toma consciência do risco de desequilíbrio que representa uma população em crescimento anual a nível de recorde mundial e com recursos estagnados, se não em regressão.

Os imensos recursos da África contrastam com o estado de miséria dos pobres em África, tornando-se cada vez mais escandaloso ver a quantidade de riquezas acumuladas nas mãos de uns poucos privilegiados. Perante esta inaceitável situação, a Exortação Apostólica pós-sinodal «Ecclesia in Africa» denuncia «a desonestidade de alguns governantes corruptos, que, coniventes com interesses privados locais ou estrangeiros, desviam para proveito próprio os recursos nacionais, transferindo dinheiro público para contas privadas em Bancos no estrangeiro».[13]Daí a urgência de estudar os caminhos e meios para favorecer o aparecimento de políticos íntegros, determinados a proteger o património comum contra todas as formas de esbanjamento e desvio.

16. Quanto à actividade industrial, esta depende em larga escala da importação dos produtos industriais. Também o número de bens e serviços produzidos em África apresenta um carácter limitado. Em certa medida, é verdade que a África não produz o que consome e consome o que não produz. Como sair então desse paradoxo? Por outro lado, nota-se uma tendência a diminuir o volume desses bens e serviços e uma sua perda de qualidade no contexto dos reajustamentos estruturais e da generalização do desemprego! Notam-se neste campo graves injustiças económicas: o problema da mão-de-obra migratória, dos salários injustos e dos contratos desiguais. A delinquência juvenil, a droga, a corrupção e o desemprego atingiram proporções inaceitáveis nalguns países, tendo como raiz essas injustiças económicas.

As tendências à degradação da situação económica e social mantêm-se, acentuando cada vez mais a crise africana: as técnicas de produção agrícola são em geral rudimentares e a produção agrícola ainda é largamente dependente dos factores naturais – o solo e o clima –, factores que agravam as dificuldades políticas internas e que podem explicar o facto de a produção alimentar do Continente satisfazer apenas a décima parte das suas necessidades. O fracasso das políticas agrícolas, porém, não se explica apenas com essa dificuldade de garantir a segurança alimentar às populações; é também consequência do êxodo rural em massa, sobretudo dos jovens. É importante chamar a atenção dos jovens para o facto de que a urbanização não contribui necessariamente para o desenvolvimento da pessoa. Daí a urgência de novas políticas para valorizar as aldeias e torná-las atractivas aos jovens.

17. Com os problemas económicos está relacionada também a questão do comércio das armas, esse escândalo «que semeia a morte» em África.[14]Aí reside um claro indício do fracasso da política em África, que neste caso já não está ao serviço da edificação da polis (cidade) e da procura do bem comum, mas ao serviço da eliminação do adversário político e da própria cidade.[15]A responsabilidade dessas destruições não cabe só aos beligerantes, mas também aos comerciantes das armas, incluindo potências internacionais, interessadas nos conflitos e que fazem do comércio das armas uma forma de se enriquecer ou inclusive um meio para alimentar uma situação de instabilidade em vista de finalidades geopolíticas, que nada têm a ver com os interesses das populações, ou então de ideologias locais que instrumentalizam o povo, e sobretudo as crianças, para secundar a própria sede de poder.

O comércio internacional das armas continua a manter a África em perene estado de guerra. Não se pode duvidar que, em grande parte, a morte é semeada em África por interesses muito poderosos que dominam o mundo e cujos principais protagonistas se encontram fora dela. Foi isso que levou os Bispos africanos a falar de «guerras por procuração»,[16]para dar a entender que há africanos que destroem os seus países e se matam uns aos outros pelos interesses e lucros «dos outros». Um tal comércio das armas prolifera, graças às tensões e divisões étnicas que se exasperam. A história dos homens e dos povos mostra que a guerra infelizmente não é uma novidade. A radicalidade desse mal na África contemporânea traduz-se numa fúria, muitas vezes expressão de uma vontade de destruir e aniquilar a vida. Nela se exprime uma atitude de fundo, um «espírito»: o esmigalhamento, ou mesmo negação, dos valores, especialmente do valor sagrado da vida humana. A vida, o tesouro mais precioso nas tradições africanas, é destruída com uma superficialidade e facilidade desconcertantes, mesmo em vasta escala, e ainda sem a mínima punição em muitos lugares. Não se poderia portanto passar em silêncio sobre esse outro aspecto do mal, aliás já apontado pelo precedente Sínodo: o das divisões e tensões étnicas,[17] que por vezes levam a crimes nefandos. Muitas vezes, para justificá-los, há quem não hesite em instrumentalizar as culturas africanas. Torna-se hoje urgente repensar os seus enraizamentos com perspectivas abertas para o mundo.

3. O aspecto sócio-cultural

18. Mudar a cultura económica da África não quererá dizer que, em vez de depender unicamente de um mercado mundial, donde está virtualmente excluída, ela deveria antes organizar uma boa remuneração do trabalho da terra? A cultura é o fruto de um paciente amadurecimento das formas de ser e de agir. Não é apenas o espírito do povo a que se pertence e que, por sua vez, impregna o meu mais elevado pensamento e os gestos mais simples da minha existência; é também o campo onde se desenrola a actividade espiritual e criativa do meu ser homem.

19. Dos três elementos que os economistas apontam como factores da produção – o trabalho, a terra e o capital – à África não faltam nem o primeiro, nem a priori mesmo o terceiro, se se considera que este último pode constituir-se a partir dos recursos naturais, que em África até são notoriamente abundantes. Donde provém então esta pobreza? A forma de conceber esses três factores, ou seja, o aspecto cultural, não terá aí um papel importante? Não será que a aplicação africana ao trabalho seja demasiado comedida para poder competir com a dos que, noutros lugares, prestam ao mesmo trabalho um verdadeiro culto? A relação com a terra não terá algo de inferiorizante? Se é verdade que é o preço dos produtos da terra que determina o da própria terra, não será que, entre nós, a terra parece não ter valor por os preços dos produtos agrícolas serem desesperadamente baixos? A África parece ser uma das regiões do mundo onde não se dá a devida atenção os próprios habitantes.

20. Na hora da globalização, como podemos salvaguardar o melhor das culturas africanas, integrando, ao mesmo tempo, nelas o que melhor vem de fora? A tal propósito, Sua Santidade Bento XVI interpela não só os africanos, mas inclusive o mundo ocidental, para assumirem as próprias responsabilidades em relação à África: «Temos que admitir que a Europa exportou, não só a fé em Jesus Cristo, mas também os vícios do Velho Continente. Exportou o sentido da corrupção, a violência que agora está a devastar a África. Devemos reconhecer a nossa responsabilidade em fazer com que a exportação da fé […] seja mais forte que a exportação dos vícios […]. Devemos fazer o possível para enraizar a fé e, com ela, a força de resistir a esses vícios e de reconstruir uma África cristã, que será uma África feliz, um grande Continente do novo humanismo».[18]Se o Ocidente deve interrogar-se sobre as suas responsabilidades, os Africanos devem igualmente assumir as próprias responsabilidades.

Os africanos sabem sempre fazer uma escolha perante o que nos vem de fora, ou são consumidores passivos de tudo o que mundo dos médias oferece, nomeadamente a violência, o consumismo, a corrupção dos costumes? Como conciliam seu enraizamento na tradição africana e o seu olhar projectado no futuro? Tal olhar exige, ao mesmo tempo, o enraizamento na herança cultural africana, mas também a capacidade crítica e criadora de integrar novos contributos culturais, permitindo que a cultura progrida. Não esqueçamos que o passado das civilizações não é mais que a história de constantes empréstimos feitos umas às outras, ao longo dos séculos, sem por isso perder as próprias peculiaridades e originalidades. Uma tal capacidade de integração e de criatividade precisa de um espírito aberto e crítico. A questão fundamental é então saber como conservar o enraizamento na comunidade, promovendo, ao mesmo tempo, a autonomia necessária para a pessoa se afirmar como actor político, económico e social. Essa é o grande problema que a desejada evolução da cultura africana levanta.

21. Esta autonomia da pessoa é decisiva, mesmo na promoção de uma cultura da escrita. A escrita é, por definição, um acto individual que, tal como a leitura, assegura a autonomia da pessoa e a sua relacionação. Como promover uma cultura da escrita e sistematizar a sua utilização sem perder as raízes na oralidade? Não se pode, com efeito, ignorar que, se o tribalismo perdura no continente, é também por causa do analfabetismo e da negação do indivíduo como protagonista: colocado numa situação de precariedade, esse tende a contar exclusivamente com a solidariedade tribal. Como conciliar o forte sentido da família com uma justa promoção da pessoa? Como conciliar escrita e oralidade no progresso das culturas africanas? Não existe projecto social possível sem uma sólida base cultural.

22. Em certos países, ainda hoje se assiste a uma descriminação sexual que penaliza as mulheres. Estas vêem-se assim privadas de certos direitos que, como tais, pertencem a toda a pessoa humana. Em certas sociedades, chega-se a tratar as mulheres como escravas, atentando assim não só à sua dignidade, mas também ao melhor património da tradição africana, que vê na mulher o símbolo por excelência da vida, dom precioso. Há que condenar toda a forma de violência praticada contra as mulheres. Nesse sentido, não podemos não indignar-nos ao ver que, em certos ambientes, as meninas são marginalizadas desde a mais tenra idade ou consideradas de menor valor.[19]Em certos lugares, são mutiladas no seu corpo e praticamente reduzidas à escravatura. Com tais práticas, atenta-se gravemente à sua dignidade e à inteira família de Deus.

Não se pode, por outro lado, continuar a ignorar as graves injustiças que se cometem contra os anciãos, os órfãos, os doentes e as pessoas de reduzida mobilidade, que cada vez mais são abandonados pelas famílias e comunidades. É uma grave injustiça numa África, onde a pessoa é pela relação e não em função do que tem ou pode fazer; uma traição e injustiça para com a herança comum. Em todas estas situações, os meios de comunicação desempenham um papel deveras especial e de importância capital. Sente-se cada vez mais a urgência de insistir sobre o seu dever de respeitar o melhor das tradições dos antepassados. Os meios de comunicação social devem estar ao serviço da vida e da edificação da pessoa nas suas aspirações, que são as mais profundas, e ao serviço da cultura dos valores.

23. Igualmente, a fuga do país de origem parece constituir para muitas pessoas a única saída, donde o grande número de refugiados e imigrados africanos, que se contam aos milhões no inteiro Continente e fora dele. Os fenómenos dos refugiados e imigrados, bem como o do êxodo rural, são acompanhados de uma tendência a rejeitar a cultura e os valores ancestrais. Daí a necessidade de voltar a insistir sobre o apelo do Papa João Paulo II aos jovens: «Queridos jovens, o Sínodo pede-vos para assumirdes o desenvolvimento das vossas nações, amardes a cultura do vosso povo e trabalhardes para a sua revitalização, através da fidelidade à vossa herança cultural, com o aperfeiçoamento do espírito científico e técnico e, sobretudo, pelo testemunho da fé cristã».[20]Não há progresso económico e técnico sem enraizamento cultural. A reflexão sobre a reconciliação, a justiça e a paz não poderia, portanto, prescindir da componente cultural e religiosa.

III. As religiões ao serviço da reconciliação, da paz e da justiça em África

24. Nesta ordem de ideias, não se pode ignorar as oportunidades e dificuldades que apresenta o diálogo com algumas comunidades muçulmanas e com os adeptos da Religião Tradicional Africana, dispostos a colaborar em favor da reconciliação, da justiça e da paz. É evidente que não haverá paz sem a colaboração com os membros das diversas religiões.

1. A Religião Tradicional Africana

25. Tantas vezes, a Religião Tradicional Africana constitui para os cristãos e muçulmanos africanos o húmus sócio-cultural, a partir do qual é possível entender-se. A «Religião Tradicional Africana oferece, de facto, o contexto religioso e cultural donde provém e ainda vive a maior parte dos cristãos em África».[21]Sendo uma religião que abarca a totalidade da existência, torna-se muitas vezes a fundamental fonte de inspiração para compreender e traduzir em actos o que são a reconciliação, a paz e a justiça. Como tal, é também para cristãos e muçulmanos uma verdadeira passarela na procura de consenso e colaboração.

26. Na tradição religiosa e cultural africana, a reconciliação é muitas vezes entendida como pacificação e referência a uma harmonia vital existencial. Manifesta-se no estado interior e exterior em que uma pessoa se encontra. É a ausência de dureza ou de rudeza; é também uma bondade benfazeja e activa, que deseja e procura o bem-estar do outro.

Não se pode, por outro lado, negar que uma certa forma de justiça social tenha sido uma preocupação das sociedades tradicionais africanas. Muitas vezes, é entendida como uma harmoniosa disposição na posse, protecção e distribuição dos bens que servem para se manter em vida. Os bens só são bens na medida que servem para a realização plena da vida da comunidade. Não se deveria porém esquecer que certas práticas, como o rito contra os sortilégios, possam ter hoje efeitos contrários e acentuar o ressentimento e as divisões na sociedade. Daí a necessidade de uma profunda reflexão para distinguir tudo o que, na Religião Tradicional Africana, promove a paz, a justiça e a reconciliação, e o que é contrário a tais valores. Neste campo, como no do diálogo com o Islão, é necessária uma certa reflexão comum que sirva de base à acção pastoral.

2. O Islão

27. A consideração que aqui fazemos do Islão é em relação com o tema do próximo Sínodo: a reconciliação, a justiça e a paz. Há que compreender o Islão no seu dinamismo actual, com aspectos nem sempre tranquilizadores, como o da intolerância religiosa. Por outro lado, o seu impacto político é de tal maneira diversificado que é difícil estabelecer de forma unívoca a modalidade concreta do diálogo, por isso mesmo indispensável. Daí a necessidade de distinguir entre a sua dimensão política e a sua dimensão religiosa e, no interior desta, entre o Islão e os muçulmanos, de modo a privilegiar o diálogo de vida.

Sob este aspecto, o Islão é muitas vezes um parceiro importante e difícil.[22]É importante, porque, juntamente com os muçulmanos, os cristãos podem elaborar estratégias para uma colaboração frutuosa e pacífica em todos os domínios relacionados com a reconciliação, a justiça e a paz, na promoção de um bom governo da sociedade e na procura de uma posição comum sobre os valores que têm a ver com o carácter geral de um povo. A dedicação desinteressada das pessoas consagradas e o testemunho religioso das suas vidas são em geral muito apreciados nos ambientes muçulmanos. Em numerosos países, cristãos e muçulmanos criaram associações para o diálogo e para a promoção da paz e da justiça. Nalguns lugares, existem mesmo dias comuns de jejum e de oração para cristãos e muçulmanos.

As experiências positivas nas relações com os muçulmanos, em certas regiões da África, mostram que é possível continuar a esperar e rezar para que tais colaborações se multipliquem e se tornem cada mais eficazes. Não se pode todavia esquecer que semelhante tarefa exige estruturas eficazes e competentes de colaboração. Há que reconhecer que, tantas vezes, alguns grupos muçulmanos são parceiros difíceis, que põem entraves à prática comum destes valores.

28. Nesse sentido, mantém-se ainda actual o voto do Papa João Paulo II: «Desejo ardentemente que, como os fiéis muçulmanos justamente encontram hoje nos países de tradição cristã as facilidades essenciais para satisfazer as exigências da sua religião, possam os cristãos da mesma maneira beneficiar de semelhante tratamento em todos os países de tradição islâmica. A liberdade religiosa não pode limitar-se a uma simples tolerância. É uma realidade civil e social, composta de direitos bem definidos, que permitam aos crentes e às suas comunidades testemunhar sem medo a sua fé em Deus e viver todas as suas exigências».[23]O respeito do princípio de reciprocidade é uma condição necessária para todo o progresso na reconciliação, na justiça e na paz.

3. A colaboração com os outros cristãos

29. No empenho em favor da reconciliação, da justiça e da paz, os cristãos não podem esquecer a oração ao seu Senhor e Mestre de vida: «Para que todos sejam um. […] a fim de que o mundo creia que Tu Me enviaste» (Jo 17, 21). O comum fundo cultural africano, enriquecido pela Palavra de Vida, é uma grande vantagem para poder procurar juntos os caminhos e os meios de tornar cada vez mais credível o nosso testemunho evangélico. Cada cristão é chamado a promover toda a iniciativa que favoreça a unidade.

Os esforços na procura das regras comuns para traduzir a Bíblia nas línguas vernáculas, a luta comum para alcançar a paz, a democracia e o respeito dos Direitos do Homem, bem como o empenho comum nos diversos processos de reconciliação, têm largamente contribuído para superar os preconceitos de uns para com os outros. Deve todavia afirmar-se que nenhuma motivação humana é suficiente para pôr termo às divisões e reencontrar a unidade da Igreja. Esta exige uma renovação espiritual para se compreender o que é a verdadeira unidade da Igreja. Revestem-se assim de grande importância os momentos de oração em comum, como o da Semana de oração pela unidade dos cristãos. Como membros da Igreja Católica, não podemos não estar convencidos que é nesta que a Igreja se realiza na sua estrutura fundamental, e continuamos a rezar para que o Senhor suscite em toda a parte a fé, de modo que ela consiga formar uma só Igreja em Cristo.

A Segunda Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos será, bem o esperamos, uma ocasião providencial para apresentar um quadro geral da situação africana, das estratégias e dos objectivos a tomar para que a Igreja no Continente possa eficazmente continuar a promover o Reino de Deus, que é reconciliação, justiça, paz e amor. Neste contexto, o fundo cultural religioso africano pode ser um aliado no diálogo com as outras Religiões e os outros cristãos em vista de uma evangelização em profundidade e da promoção humana, que só se podem alcançar enraizando-se profundamente n’Aquele que é a razão da nossa esperança num renascimento da África. Eis porque ressoa, na conclusão deste capítulo, a questão fundamental: Aonde ir para encontrar as forças e energias desse renascimento?

IV. A perspectiva: Quo vadis, Africa?

30. Em que se basearão as grandes mudanças de comportamento que deverão operar-se para mudar o destino da África e obter assim a reconciliação no meio de tantos ressentimentos e divisões, para que finalmente reinem a paz e a justiça nesta África? Em que campo deverá prioritariamente trabalhar a imaginação para alinhavar os caminhos do futuro? Como anunciar o Evangelho numa África marcada por ódios, guerras e injustiças? Como fazer face aos excessos da globalização? Numa palavra, como ser fiéis ao mandato do Senhor e oferecer o contributo eclesial para a promoção da reconciliação, da paz e da justiça? Perante tais desafios, a Igreja-Família de Deus em África não tem outra resposta senão a de Simão Pedro: «Senhor, aonde iremos? Vós tendes palavras de vida eterna» (Jo 6, 68). Todos estes problemas convidam-nos, portanto, a repartir de Cristo, plenitude de vida, nosso reconciliador, nossa paz e nossa justiça. Cristo é a nossa «esperança» (cf. 1 Tim 1, 1); Ele é a nossa «paz, Ele que de dois povos fez um só, abatendo o muro que os separava, suprimindo na sua carne o ódio» (Ef 2, 14). É toda a Igreja que é convidada a interrogar-se sobre estas verdades da nossa fé, sobre o seu significado e, sobretudo, sobre as suas consequências para a sua missão: o anúncio do Evangelho, que é Jesus Cristo, fonte na nossa plenitude de vida.

31. Sem se deixar seduzir da ingénua perspectiva que para todas estes problemas possa haver uma solução fácil, a Igreja-Família de Deus em África confessa que a solução é uma Pessoa: Jesus Cristo! Eis porque novamente convida a perseverar na esperança n’Ele, o único capaz de nos restituir a dignidade e a verdadeira liberdade. Centrando de novo o seu pensamento e a sua acção em Cristo, dando-O a conhecer e a amar, levando a imitá-l’O numa experiência de encontro pessoal e comunitário com Ele, a Igreja-Família de Deus em África quer iluminar com a vida trinitária e transformar com Cristo, n’Ele e por Ele, a história e as sociedades africanas. É no encontro com o Deus vivo, que Se oferece em Jesus Cristo, que a África encontrará a plenitude de vida a que aspira. É nesta e por esta experiência de encontro com Ele que a nossa fé se torna inquebrantável como a de Moisés: «Permaneceu firme na sua fé, como se tivesse visto o Invisível» (Heb 11, 27). Uma tal fé «vence todos os obstáculos para ir repousar no seio do Amor infinito, que não pode fazer senão uma obra de amor».[24]Tais são o amor, a fé e a esperança em Jesus Cristo que a Segunda Assembleia Especial pretende reavivar no pensamento e no agir dos filhos e filhas da Igreja em África.

Capítulo II

Jesus Cristo, palavra e pão de vida,
nosso reconciliador, nossa justiça e nossa paz

32. «Vinde a Mim, vós todos que andais abatidos e oprimidos e Eu vos aliviarei» (Mt 11, 28). A Igreja-Família de Deus que está em África encontra nestas palavras um convite à confiança, a lançar de novo as raízes em profundidade, ela que, na Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, fazia uma opção preferencial pelos pobres. Assim ela mostrava que a situação de desumanização e de opressão que aflige os povos africanos coloca-a perante uma crise – no sentido verdadeiro e próprio de «juízo» – e perante um desafio: a crise de conversão, de santidade e de integridade; o desafio de desenvolver todas as potencialidades da mensagem evangélica da adopção divina, para libertar os povos africanos do pecado e das «estruturas de pecado»[25]desse pesado fardo que grava sobre eles. Esta crise e este desafio levam-nos a olhar para Aquele que é a nossa vida e a nossa Libertação: Jesus Cristo!

I. Palavra de vida em abundância

33. Diz-nos a Carta aos Hebreus que, «muitas vezes e de muitos modos, falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas; nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo» (Heb 1, 1-2).[26]Este Filho, através do qual Deus nos fala, é Ele próprio a Palavra feita carne: Ele é a prova por excelência da eficácia da Palavra de Deus, tal como é afirmada pelo Profeta: «Assim, a Palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão» (Is 55, 11). Feita carne, esta Palavra está na origem do que somos e fazemos; é o fundamento de toda a vida. Por ela, Deus gera-nos a uma vida nova, na condição que O recebamos. Porque é àqueles que O receberam que «Ele deu o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1, 12). É portanto a partir dela que devemos compreender as tradições africanas, corrigir e adaptar as suas concepções da vida, do homem e da família. Jesus Cristo, Palavra de vida, é a fonte e o aperfeiçoamento de todas as nossas vidas.

34. Na tradição africana, a palavra e a vida estão intimamente ligadas. A palavra é tão eficaz que pode levar à morte ou dar a vida. A Palavra de Deus feita carne assume e eleva o sentido sagrado que a palavra tinha nas tradições africanas, para torná-la salvífica e esvaziá-la da morte e, assim, nenhuma pessoa se venha a perder. Ao ver como o povo africano é manipulado pela palavra monopolizada da rádio e da televisão e pelos discursos políticos, vê-se como a palavra se tornou extremamente mortal, quando o Evangelho de Jesus Cristo elevou infinitamente o seu carácter sagrado e vivificante. Ora, segundo a maior parte das tradições africanas e das ilhas adjacentes, a palavra deveria ser uma interpretação correcta do mundo. Um tal dado cultural e religioso deveria permitir-nos compreender melhor o que significa a nova criatura, inaugurada por Aquele que é a Palavra por excelência e de quem, portanto, passa a emanar tudo o que é vida. Isso exige do cristão uma familiaridade com essa Palavra, para que ela se torne concreta na sua vida do dia a dia. Daí, a importância para o cristão de conhecer essa Palavra; não já um conhecimento puramente intelectual, académico ou «por assim dizer», mas um conhecimento que nasce de um encontro pessoal com Cristo, que nos fala na Sagrada Escritura. É urgente que as nossas comunidades cristãs se tornem cada vez mais esses lugares de profunda escuta da Palavra de Deus, de uma leitura orante da Sagrada Escritura, como nos recorda Sua Santidade Bento XVI: «A leitura da Sagrada Escritura é oração, deve ser oração, deve brotar da oração e levar à oração».[27]É nesta leitura orante e comunitária em Igreja que o cristão encontra Cristo ressuscitado, que lhe fala e lhe restitui a esperança na plenitude da vida que Ele dá ao mundo.

Morto e ressuscitado, Jesus é confirmado como fonte e perfeição de toda a vida: Ele é o Princípio de toda a vida nova, porque, n’Ele e por Ele, Deus dá ao mundo a Palavra de vida e passa a reconciliar todos os seres «estabelecendo a paz pelo sangue da sua cruz» (Col 1, 20; cf. Col 1, 18ss) e tornando-se a justificação de todos. Ele dá-nos esta justificação e esta paz ao longo dos tempos no Pão partido que concretiza em nós a sua Palavra, tornando-a Carne com a nossa carne, Corpo com o nosso corpo, para que, unidos a Ele, reflictamos a sua luz, a sua presença no mundo; demos ao mundo a salvação divina.

II. Pão de vida

35. É pelo Pão partido que «Cristo torna presente, no curso do tempo, o seu mistério de morte e ressurreição».[28]No Pão partido, Cristo «em pessoa é recebido como ‘pão vivo descido do céu’ (Jo 6, 51) e, com ele, é-nos dado o penhor da vida eterna, em virtude do qual, se saboreia antecipadamente o banquete eterno da Jerusalém celeste».[29]Neste festim pascal, o próprio Deus vem ao nosso encontro; vem procurar-nos no quotidiano das nossas situações ordinárias e unir-nos no mistério do dom do seu amor, antecipando assim a união definitiva com Ele. A Eucaristia projecta-nos para o futuro, para a última vinda de Cristo; dirige a nossa atenção para a espera do regresso do Senhor. Esta espera introduz-nos numa dinâmica que nos põe em caminho e que dá ao nosso caminhar na história o sopro da esperança.

O Esperado não está entrementes ausente da história, porque a Eucaristia torna-O verdadeiramente presente. Na realidade do seu Corpo e Sangue, Cristo torna-Se todo inteiro realmente presente nas nossas vidas,[30]realiza a sua promessa de estar connosco todos os dias da nossa vida até ao fim dos tempos (cf. Mt 28, 20) e remete-nos para as nossas realidades quotidianas, para que possamos enchê-las com a sua presença, que irradia do nosso encontro com Ele. É esta relação íntima e recíproca com Ele que, de certa maneira, permite-nos antecipar o céu sobre a terra. A Eucaristia põe bem em evidência que a vida é relação de comunhão com Deus, com os nossos irmãos e irmãs e com a criação inteira. A Eucaristia torna-nos Igreja, sinal e instrumento do seu amor que transforma o mundo.

36. O que há, com efeito, de mais dramático no actual contexto sócio-político e económico do Continente africano que a luta muitas vezes sangrenta pela vida e pela sobrevivência? Tendo a Primeira Assembleia Especial para a África de 1994 insistido sobre a Igreja-Família de Deus, qual poderá ser agora o seu contributo para a construção de uma África sedenta de reconciliação e em busca de justiça e de paz? As guerras étnicas ou regionais, os massacres e os genocídios que campeiam livremente no Continente devem interpelar-nos de modo muito especial: se é verdade que, em Jesus Cristo, pertencemos à mesma família e partilhamos da mesma Palavra de vida e do mesmo Pão de vida, se é assim verdade que partilhamos da mesma Vida, por o mesmo Sangue de Cristo circular nas nossas veias, tornando-nos filhos de Deus e membros da Família de Deus, não deveria então haver mais ódios, injustiças e guerras entre irmãos. Daí a necessidade de aprofundar e incarnar na vida o que é o mistério de uma Igreja-Família.

Capítulo III

A Igreja, sacramento de reconciliação,
de justiça e de paz em África

37. Definida como Igreja-Família, a Igreja em África a todos quer recordar que são irmãs e irmãos (cf. Mt 23, 8) e que é dever de todos procurar em tudo o que contribui para construir a fraternidade, a paz (cf. Rom 14, 19) e a justiça. No desígnio de Deus, a Igreja não é um meio que possamos utilizar em função de qualquer ideologia. Muito pelo contrário, no mistério da comunicação do amor de Deus à humanidade, ela é o sinal e o instrumento[31] da comunhão da família humana com o próprio Deus e da comunhão entre os homens e com toda a criação. No seio da família humana, ela é a portadora da Palavra e do Pão de vida, Palavra e Pão de amor.

I. A perspectiva missionária de recepção da Igreja-Família de Deus na África contemporânea

38. O sentido da fraternidade, que supera os limites da própria família, da própria tribo ou etnia, é um valor que se encontra profundamente enraizado nos meios africanos; é a fonte de inspiração dos comportamentos de solidariedade que levaram muita gente a morrer, por se terem negado a participar na violência praticada pelos seus grupos contra outros ou por terem protegido e defendido pessoas que os seus grupos pretendiam eliminar.

39. É nesta tradição, marcada pela sacralidade da vida, pela fraternidade e pelo sentido da palavra, que se inscreve a definição da Igreja como Família de Deus. Ela é o lugar da fraternidade; ela que recebemos de Cristo, plenitude de vida, nosso irmão mais velho, primogénito de entre os mortos; ela que vive da Palavra viva do Pai Eterno. Sendo Mãe, que no baptismo nos gera para a vida em Deus, deve também ela ser o lugar por excelência da vida e não da morte. É pelo seu Sangue derramado, a jorrar do seu lado sobre a cruz, que Jesus nos faz irmãos e irmãs, unidos pelo vínculo do seu Sangue, que da Eucaristia passa para as nossas veias. A vida, recebida no baptismo e que cada um de nós, por sua vez, é chamado a fazer crescer, pela participação nos sacramentos, especialmente na Eucaristia, deve ser em todos e por todos contemplada como sagrada e, por conseguinte, respeitada e protegida. Uma vez que é já o mesmo Sangue de Cristo que circula em cada um de nós e nos constitui Igreja-Família de Deus no Corpo e Sangue de Cristo, derramar o sangue do seu irmão é derramar o próprio sangue, o Sangue de Cristo; é matar a sua vida em nós. Ninguém está autorizado a atentar à vida. Só Deus é o seu dono. Todos nós recebemo-la d’Ele e nas suas mãos devemos pô-la. A Eucaristia dá particular realce a este carácter sagrado da vida e à nossa comum responsabilidade no que lhe diz respeito.

40. A missão de uma Igreja que pretende ser Família de Deus em África já não se poderá compreender senão a partir desta comunicação da vida; senão a partir da unidade-fraternidade que promana da paz que o Sangue de Cristo derramado por nós nos dá. O anúncio desta paz aos povos dilacerados pelos conflitos e guerras ressoa nos nossos corações nestes termos: «Todos vós sois irmãos» (Mt 23, 8); acabai com as guerras! Aí se encontra uma das declarações fundamentais do ConcílioVaticano II: «A actividade missionária da Igreja […] tem uma conexão íntima também com a natureza humana e com as suas aspirações»;[32]e com maior precisão acrescenta: «O Evangelho […] apresenta-se sempre como o fermento da fraternidade, da unidade e da paz».[33]Por conseguinte, ninguém deve ter prazer em destruir, matar a sua irmã ou irmão, espoliar a própria família, privá-la das necessárias forças vitais. Pode-se assim dizer, na linha deste mistério da Igreja-Família de Deus, que se a África é vítima da pobreza, da corrupção, da injustiça e da violência, a Igreja deve ser uma comunidade que cura, reconcilia, perdoa e encoraja; em resumo, uma Igreja evangelizadora e empenhada na promoção humana, como nos recorda Sua Santidade o Papa Bento XVI: «A Igreja é a família de Deus no mundo. Nesta família, não deve haver ninguém que sofra por falta do necessário».[34]A Segunda Assembleia Especial deverá permitir-nos crescer na consciência deste vínculo estreito entre missão e promoção humana; traduzir na quotidianeidade a Doutrina social da Igreja.

II. A Doutrina social da Igreja e a sua missão evangelizadora

41. Para a Igreja-Família de Deus em África, o vínculo que existe entre a missão evangelizadora e a promoção humana é um vínculo inseparável do seu ser e da sua missão,[35]uma vez que a salvação em Jesus Cristo que ela anuncia diz respeito ao homem como um todo. Para ela, «evangelizar é desenvolver o homem em todas as dimensões da sua vocação de filho de Deus».[36]Este vínculo concretiza-se nos actos de empenho em favor da promoção humana, como são a educação, a saúde, a assistência aos necessitados, os projectos de desenvolvimento, a defesa dos Direitos do Homem e o compromisso na instauração da democracia e dos estados de direito. Separar a promoção humana do amor evangélico que a inclui, é negar a unidade profunda do empenhamento humano, onde efectivamente se revela a profunda identidade do cristão.

1. Alguns princípios fundamentais da Doutrina social da Igreja

a. O Fundamento teológico e antropológico

42. Com a sua Doutrina social, a Igreja é fiel à realização da sua missão específica: a de ser no mundo o reflexo do amor de Deus para todo o ser humano. No anúncio e actualização do Evangelho, a Igreja «proclama ao homem, em nome de Cristo, a sua dignidade própria e a sua vocação à comunhão das pessoas; ensina-lhe as exigências da justiça e da paz, conformes à sabedoria divina».[37]A Igreja exprime a sua proximidade ao homem, enquanto ser de relação, graças à sua Doutrina social.[38]Revela-lhe que é um ser espiritual e corporal, em relação com Deus, com os seus irmãos e irmãs na humanidade e com todas as outras criaturas. É portanto o homem, tomado na sua dimensão histórica, que está no coração da Doutrina social da Igreja.[39]Esta recebe as suas orientações a partir do princípio da dignidade da pessoa humana.[40]

43. Do homem e das realidades terrenas, se ocupam já as primeiras páginas da Sagrada Escritura. Desde o princípio, o homem, criado à imagem de Deus (cf. Gen 1, 27), é colocado como guardião da criação (cf. Gen 2, 15; Salmo 8; Sab 9, 1-5; Sir 17, 1-4). Esta missão de guardião é acompanhada do dever de cultivar a terra. O trabalho revela-se como o lugar, a partir do qual o homem assume a sua missão de guardião. Assim, S. Paulo pode dizer aos Tessalonicenses: «Tende como ponto de honra viver em paz, ocupando-vos dos vossos assuntos e trabalhando com as vossas próprias mãos, como vos ordenámos» (1 Tes 4, 11; cf. Ef 4, 28; 2 Tes 3, 10). O trabalho é evidenciado não só como uma necessidade, como um meio de assegurar a própria subsistência e a dos outros, mas como aquilo que dá dignidade ao homem e, portanto, o liberta para ser o guardião da criação e usufruir dos frutos da mesma (cf. 2 Tim 2, 6). Ao mesmo tempo, os textos sagrados chamam a nossa atenção para a caducidade das realidades terrenas (cf. 1 Tim 6, 6-10; 1 Cor 7, 29-31). É a partir desta perspectiva escatológica que se medem e avaliam todas as realidades terrenas e a relação do homem com elas.

b. Alguns princípios fundamentais

44. No centro desta missão de guardião e deste dever de trabalhar e usufruir dos frutos do seu trabalho, os textos sagrados insistem sobre a solidariedade de todo o criado como um princípio fundamental que garante a unidade, a justiça e a paz. S. Paulo lembra que todos são chamados a pôr à disposição dos outros os seus próprios bens (cf. 1 Tim 6, 17-19).[41]Não se trata de tirar a uns o que lhes é devido, mas procurar que se introduza no seio da criação o princípio da equidade (cf. 2 Cor 8, 13-15); que a abundância de uns supra a carência dos outros. Uma tal partilha deve procurar, não encorajar o parasitismo, mas criar uma verdadeira cultura do trabalho e da solidariedade.

Com este princípio de solidariedade está intimamente ligado o princípio do destino universal dos bens: «Deus destinou a terra e tudo o que ela contém para uso de todos os homens e de todos os povos, de sorte que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos, segundo a justiça, inseparável da caridade».[42]Este princípio está na base do direito de servir-se dos bens. Todo o ser humano deve ter a possibilidade de usufruir do bem que é necessário ao seu pleno desenvolvimento. O destino universal dos bens exige de todos o esforço de alcançar para toda a pessoa humana e para todos os povos as condições necessárias para um desenvolvimento integral. Por conseguinte, a Igreja considera o direito à propriedade privada como estando subordinado ao direito do uso comum e ao princípio do destino universal dos bens.[43]Com isso, entende-se sublinhar o facto que o homem deve considerar os bens que possui, não só como sua propriedade, mas também como sendo comuns, no sentido que podem sempre servir também aos outros.[44]Em base ao princípio do destino universal dos bens, a Igreja põe em evidência a sua opção preferencial pelos pobres,[45]que investe todo o cristão das suas responsabilidades sociais, qual testemunho do primado da caridade de Cristo. O mesmo vale também no âmbito dos bens culturais.

45. Os novos conhecimentos técnicos e científicos devem ser postos ao serviço das necessidades primárias do homem. A Igreja em África une-se à voz de Papa João Paulo II para exigir que se ponha termo «às barreiras e monopólios que deixam tantos povos à margem do progresso e se garantam a todos – indivíduos e nações – as condições basilares que lhes permitam participar no desenvolvimento».[46]A Igreja, por outro lado, não nega o direito à propriedade privada. Esta garante à pessoa humana o espaço necessário para a sua autonomia pessoal e familiar, e pode considerar-se como um prolongamento da liberdade humana. Ao mesmo tempo, é um estimulante para o sentido do dever e da responsabilidade.[47]Por outro lado, ela não pode ser considerada um bem absoluto; é relativa ao bem comum.

46. O bem comum pode ser entendido como a dimensão social e comunitária do bem moral. Da mesma maneira como o agir moral da pessoa se realiza no cumprimento do bem, o agir social alcança a sua plenitude na realização do bem comum.[48]A responsabilidade do bem comum cabe não só ao Estado, mas também aos indivíduos.

O Estado deve, com efeito, garantir a coesão, a unidade e organização da sociedade, de que é expressão, de forma que todos os seus cidadãos possam contribuir para o bem comum. Assim, deve harmonizar com justiça os diferentes interesses sectoriais e compor os diferendos. A justa ordem da sociedade e do Estado é o dever essencial do político.[49]Para realizá-la, é importante que o político respeite e faça respeitar os valores fundamentais da vida social, tais como a boa governação, a verdade, a liberdade e a justiça.

47. A obtenção desta ordem exige a colaboração e participação de todos os componentes da sociedade. Eis porque a Igreja insiste sobre o respeito e aplicação do princípio de subsidiariedade, segundo o qual, todas as sociedades de ordem superior devem ter uma atitude de apoio, suporte, promoção e ajuda (subsidium) em relação às sociedades de ordem inferior. Com isso, a Igreja entende dizer que, se o Estado entende promover a dignidade da pessoa humana, deve encorajar, apoiar, promover e desenvolver «as iniciativas que nascem das diversas forças sociais e conjugam espontaneidade e proximidade aos homens carecidos de ajuda».[50]Na base deste princípio, a Igreja é contrária a toda a forma de excesso de centralização, de burocratização, de presença do Estado e do aparelho administrativo. Inversamente, pode notar-se, em certos países africanos, a ausência de um Estado que garanta a segurança dos bens e das pessoas e que seja capaz de apoiar e promover as iniciativas vindas da base.

Uma das consequências do princípio de subsidiariedade é precisamente a participação. Esta exprime-se essencialmente «através de uma série de actividades, no seio das quais o cidadão, como indivíduo ou em associação com outros […] contribui para a vida cultural, económica, social e política da comunidade civil a que pertence».[51]Nenhum cidadão se pode subtrair a esse dever de participação. A Igreja, fazendo próprias as alegrias e os sofrimentos do povo de Deus, não pode subtrair-se a esse dever de participação.

2. Algumas tentações a vencer

48. Nesse sentido, a Igreja não ignora que os fiéis que formam a Igreja de hoje estão também marcados pelo espírito do tempo; partilham as alegrias e os sofrimentos dos homens de hoje.[52]A realização da sua missão de dar forma concreta ao Reino de Deus na história exige da Igreja essa solidariedade com toda a criação, mas, antes de tudo, uma constante conversão. A exemplo de Cristo, só seremos fiéis a essa missão operando uma conversão contínua ao Pai, fonte de toda a vida verdadeira, a única capaz de nos libertar do mal, de toda a tentação e de nos conservar no seu Espírito, mesmo no meio do combate contra as forças do mal.

49. Segundo o Evangelho de S. Lucas, não podemos esquecer que a primeira tentação é a de transformar as pedras em pão (cf. Lc 4, 1-5). Empenhando-nos na luta contra a fome, não nos deixemos afastar da trajectória originária: Cristo como verdadeiro Pão de vida. Ao concentrar, no meio das angústias, a atenção na esperança de dias melhores, donde serão banidas a penúria, os conflitos, as divisões e violências, não esqueçamos de escutar o que é anunciado como forma fundamental de toda a verdadeira libertação: o apelo de Jesus à conversão (cf. Mt 4, 17). Não cedamos à tentação de um messianismo que elimina magicamente a penúria, como se a economia, o trabalho que esta supõe e a inventiva que requer não passassem de infelizes acidentes da nossa condição. Possa a Segunda Assembleia Especial ser um tempo de forte reflexão para encontrar os caminhos e os meios de relançar as nossas economias e criar uma verdadeira e sólida cultura do trabalho bem realizado.

50. A segunda tentação (cf. Lc 4, 5-9) evoca a nossa relação com a evolução da África: o elemento político. Na resposta de Jesus a essa tentação aparece uma crítica ao político: à sua pretensão de querer ser o mediador exclusivo da libertação e de tornar-se, portanto, num Absoluto, excluindo toda a dimensão religiosa. Ora, o Estado não pode ignorar nem pretender desfazer-se da Religião. A realização de uma sociedade justa não pode dar-se sem a componente do amor. Como nos lembra Sua Santidade Bento XVI, todo aquele que quer desfazer-se do amor acaba por se desfazer do homem.[53]O político africano não está certamente imune dessa tentação. Nota-se, efectivamente, em muitos dos nossos políticos a tendência a ignorar a Religião ou a querer desfazer-se dela. Mais que procurar a verdade de Deus, são os próprios ídolos que contam. Os ídolos não têm senão um poder imaginário ou de fascinação; não cuidam do ser humano, pois só existem no desejo extraviado ou perverso do mesmo. Há só um que garante a vida, e que não é um ídolo, mas o verdadeiro Deus. Jesus desmistifica o político; denuncia-o como uma grande tentação e dá-lhe a sua verdadeira dimensão: ser o vector privilegiado de uma história reconciliada. A reconciliação é, acima de tudo, um dom que nos vem de Deus, o Único que actua no profundo dos corações.

A atitude do cristão perante a tentação do político, que tende a arvorar-se em mestre da vida, só pode ser a dos Reis Magos (cf. Mt 2, 12.16-18), que se solidarizam com o Menino Jesus e sua família, empenhando-se a proteger a todo o custo a sua vida. Da mesma maneira se opõem os cristãos aos modernos feiticeiros e feiticeiras que semeiam por toda a parte em África a miséria e a morte, com as suas armas e políticas criminais. Pelo Baptismo e pela Celebração eucarística, o cristão recebe a vida de Deus e empenha-se em fazê-la crescer em si, mas também em deixá-la crescer nos outros. Este acolher a vida de Cristo em nós deve levar-nos a resistir a toda a mensagem e a toda a autoridade contrárias à vida. O massacre dos inocentes do tempo de Jesus, estando ele pacificamente protegido pelos Reis Magos, foi a consequência da decisão sangrenta de Herodes. A partir de então, quantos mártires – homens e mulheres –, na história do Cristianismo, não pagaram com a sua vida essa resistência iniciada com a fidelidade ao Evangelho e à pessoa de Cristo?

51. A história recente da África também o testemunha. É o caso, não só de mártires como os da Uganda, a Beata Annuarite Nengapeta e o Beato Isidoro Bakanja, mas também de certos testemunhas da fé, como os do Beato Cipriano Miguel Iwene Tansi e do Servo de Deus Júlio Nyerere e de todos esses numerosos cristãos que foram presos, torturados e despojados dos seus haveres por causa do Evangelho. Como não mencionar igualmente todas as vítimas da história recente dos nossos países, homens e mulheres brutalmente crivados pelas balas dos ditadores africanos e estrangeiros, pelo único crime de exigirem paz, mais justiça e dignidade humana para os seus concidadãos e concidadãs oprimidos.

Muitas vezes, são os cristãos que tomam parte bastante activa na organização do destino político e económico dos seus povos. Não é raro, porém, que também eles se encontrem na origem das divisões, das guerras inter-étnicas, da corrupção e de outros males que agitam o Continente. Assim procedendo, não só atraiçoam o Evangelho de Cristo, mas também desprezam até a sua tradição ancestral, que desejaria que cada um se empenhasse no crescimento da vida de cada qual e de toda a comunidade. Como conseguir manter sempre viva a consciência de que a natureza da missão da Igreja exige dela a unidade e a fidelidade ao ensinamento do Mestre?

52. A terceira tentação (cf. Lc 4, 9-13) ilustra as razões da ilusões económica e política: servir-se do poder divino para fins que contradizem a vontade de Deus e a sua acção; construir um divino à medida do desejo do homem. A lógica cristã é, ao contrário, a de se interrogar sobre o destino da fé neste mundo: o Reino está presente, e é aqui e agora que se deve vê-lo e vivê-lo. Eis porque a Exortação Apostólica proclama, em alto e bom som, que «é impossível aceitar que a obra da evangelização possa e deva alhear-se dos problemas extremamente graves, e hoje tão sentidos, relacionados com a justiça, a libertação, o desenvolvimento e a paz no mundo».[54]Como conceber a partir daí a vinda do Reino como reconciliação, justiça e paz?

A Segunda Assembleia Especial é uma oportunidade para reflectir e encontrar, à luz do Espírito, os caminhos e meios de um testemunho cristão fecundo e eficaz no mundo da política e da economia em África. Um melhor funcionamento desses dois domínios muito dependerá da capacidade dos Africanos de se reconciliarem e de restabelecerem a paz e a justiça. É extremamente urgente, porque a situação actual no que diz respeito à reconciliação, à justiça e à paz na maior parte dos países africanos pode classificar-se como preocupante nalguns e desastrosa noutros.

Capítulo IV

O testemunho de uma Igreja
que reflecte a luz de Cristo sobre o mundo

53. A missão da Igreja é a de anunciar a boa nova da salvação; uma salvação que liberta o homem, o homem todo, o homem em todas as suas dimensões: espiritual, moral, cultural, económica e social. É esta a missão que cabe à Igreja-Família de Deus em África; uma missão que interpela todos os membros da Igreja, cada qual no seu nível e ambiente de vida.

I. A Igreja na sua dimensão hierárquica e o seu testemunho no mundo

1. A função do bispo e a das Conferências episcopais

54. Ao bispo, como primeiro pastor da Igreja local, cabe assumir em primeira pessoa uma tal responsabilidade e procurar encontrar o método e as atitudes adequadas para ensinar e traduzir em actos esta mensagem doutrinal e pastoral. Isso exige que ele tenha de manifestar uma ampla solidariedade para com o povo e uma grande sensibilidade para com os problemas que tocam a vida do povo de Deus que lhe está confiado.[55]Deve demonstrar uma vontade real de encontrar soluções para esses problemas, descobrindo as verdadeiras causas dos mesmos. Deve estar sempre pronto a tomar posição, quando os direitos humanos fundamentais são desprezados, inspirando-se na Doutrina social da Igreja, e a exigir o respeito pelos princípios da boa governação da parte da classe política. Deve, por conseguinte, ter o cuidado de formar cristãos capazes de superar a dicotomia entre consciência individual e pertença ao grupo.

O bispo deve reconciliar; não deve tomar partido. Nos conflitos que abalam a África, a Igreja deve ser um árbitro, cuja imparcialidade não deve ser posta em discussão. As tomadas de posição do bispo devem ser imparciais diante do poder político e das ideologias das diferentes formações de carácter político ou tribal. Tal imparcialidade deveria permitir-lhe estar em posição favorável para denunciar os abusos desse mesmo poder, bem como as manipulações do povo por parte de certos políticos, e para defender com energia as pessoas sem peso que, impotentes, vêem espezinhar os seus direitos.

55. É na colegialidade e solidariedade com os irmãos no Episcopado que a acção do bispo deve encontrar a sua eficácia. A unidade no seio da Conferência episcopal é de importância capital, sobretudo em situação de crise social e política. É essa unidade que fará com que a acção da Igreja seja credível e promissora de um futuro melhor. Uma tal unidade não se esgota no interior de um país; deverá caracterizar também as relações com as outras Conferências episcopais regionais e continental. Isso exige da parte de cada bispo um profundo e autêntico sentido eclesial e uma fidelidade indefectível ao Evangelho na procura das soluções para os problemas comuns.

56. As Conferências episcopais deveriam relançar e tornar verdadeiramente operacionais as diversas Comissões «justiça e paz». Deveriam igualmente apoiá-las e dotá-las de todos os meios necessários para permitir-lhes desempenhar eficazmente o seu papel. Estas deveriam ser os lugares de estudo dos problemas com que as sociedades africanas se debatem, para depois ajudar a encontrar-lhes soluções adequadas. Daí a necessidade, por parte dos bispos e das Conferências episcopais, de uma sensibilização, se não de uma aprendizagem, para debater os problemas da sociedade à luz da Palavra de Deus, da Doutrina social da Igreja e das mensagens pontifícias, nomeadamente as do Dia mundial da paz. Isso, por sua vez, exige que se preparem adequadamente os agentes pastorais para uma tal missão.

Nesse sentido, cada Conferência episcopal deveria organizar uma pastoral especial para responder às exigências das diferentes categorias que compõem a sociedade: as forças armadas, os movimentos armados e as milícias, os políticos, os intelectuais e os funcionários, os refugiados no estrangeiro e os deslocados no interior do país. Dado o papel que todas estas categorias desempenham ou são chamadas a desempenhar para que haja paz e justiça em África, é de todo indispensável que passem a estar no centro da atenção dos pastores da Igreja. Cada Conferência episcopal deveria pensar em criar equipas de especialistas, encarregados de elaborar sérios projectos pastorais que respondam às exigências de cada uma dessas categorias sociais. Seria igualmente necessário dotar essas equipas de especialistas de suficientes meios e dos instrumentos necessários para poderem trabalhar como se deve nesses sectores.

2. As Comissões episcopais «justiça e paz»

57. Toda a Conferência episcopal, e se necessário toda a diocese, deveria ter uma Comissão episcopal «justiça e paz». Esta deve ser o olho vigilante da Igreja local no seio da sociedade, no que toca todos os problemas espinhosos com que ela se debate, de modo especial os relativos à justiça social, à equidade, aos direitos do homem, à promoção do bem comum, à coexistência democrática, à reconciliação, ao desenvolvimento. Deveria ser um órgão de estudo e de reflexão no quadro da pastoral de conjunto definida pela Conferência episcopal e em relação com o Pontifício Conselho «justiça e paz». Como tal, essa comissão deve ser concebida como uma obra da Igreja que pensa em Igreja e para a Igreja. Deseja-se uma comissão para a promoção da justiça e da paz segundo o espírito do Evangelho e do ensinamento da Igreja sobre tais valores. É um instrumento indispensável para a execução de uma pastoral específica em matéria de reconciliação, justiça e paz.

3. Os sacerdotes, as pessoas consagradas e as Instituições eclesiais de formação

a. Os sacerdotes

58. A missão específica do sacerdote na Igreja, como nos lembra o Concílio Vaticano II, não é de ordem política, económica ou social, mas religiosa.[56]Todavia, na perspectiva do seu ministério, ele pode e deve contribuir para a instauração de uma ordem secular mais justa. Com efeito, a Palavra do Evangelho que anuncia em nome de Cristo e da sua Igreja, a graça eficaz da vida sacramental que administra e o testemunho da sua caridade devem contribuir para libertar o homem dos seus egoísmos pessoais e sociais, e promover entre os homens as condições de justiça, que são sinais da Caridade de Cristo presente entre nós.[57]O contributo dos agentes pastorais no progresso da reconciliação, da paz e da justiça em África enquadrar-se-á nas pregações, catequeses, cartas pastorais e, de modo especial, numa pastoral familiar bem adaptada a tais desafios.

b. As pessoas consagradas

59. Da mesma maneira, as pessoas consagradas são chamadas a trabalhar pelo advento da reconciliação, da justiça e da paz em África, vivendo profundamente o seu carisma e os conselhos evangélicos no seio das próprias comunidades e no mundo. Com efeito, é testemunhando uma vida de serviço, de aceitação da diversidade, de perdão e reconciliação, que serão no mundo «sinal» e «instrumento» do Reino que há-de vir. Pela simplicidade do seu estilo de vida casta, sinal visível da sua doação total a Cristo e à sua Igreja, pelo espírito evangélico de desapego e honestidade no uso dos bens deste mundo, e de obediência ao seu superior, darão testemunho «das maravilhas que Deus realiza na frágil humanidade das pessoas que Ele chama a segui-l’O de uma maneira toda especial».[58]O empenho em favor da reconciliação, da justiça e da paz é intrínseco à sua vocação. As pessoas consagradas, com efeito, deveriam ser de certa forma a memória viva da convicção de todo o cristão de não «ter uma morada estável, definitiva» sobre a terra (Heb 13, 14) ou, melhor ainda, de não pertencer a nenhuma tribo, raça e povo sobre a terra e, por conseguinte, de ser apenas um cidadão à procura da realização definitiva do Reino de Deus, cuja vinda incessantemente invocam.

c. As Instituições eclesiais de formação

60. Uma prévia preparação, não só daqueles que no futuro se empenharão na pastoral eclesial, mas também de todos os que são formados nas Instituições eclesiais (Universidades e Institutos Superiores católicos, etc.), é mais que necessária. Daí a necessidade de introduzir no programa de formação dos agentes pastorais e das pessoas consagradas, bem como no programa de formação das Instituições eclesiais de formação, cursos e seminários de formação sobre a educação à paz e aos temas da justiça. Tratar-se-á de fornecer-lhes instrumentos de grande utilidade para a análise das realidades sócio-políticas do meio em que serão chamados a operar.

As Instituições educativas católicas são chamadas a prestar um serviço formativo precioso, promovendo o encontro fecundo entre o Evangelho e os diferentes ramos do saber.[59]A formação dos cristãos leigos deverá, por conseguinte, procurar, em primeiro lugar, torná-los capazes de enfrentar com eficácia as tarefas quotidianas nos domínios cultural, social, económico e político, desenvolvendo neles o sentido do dever cumprido ao serviço do bem comum. Um segundo aspecto dessa formação consistirá numa formação da consciência política para preparar os cristãos leigos ao exercício do poder político.[60]Devem eles, com efeito, adquirir um conhecimento de qualidade da doutrina e da acção pastoral da Igreja no campo social e um vivo interesse pelas questões sociais do nosso tempo.

II. O empenho de todos os fiéis ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz

1. A identidade e a missão do leigo na Igreja e no mundo

61. Chegou o momento de os leigos cristãos africanos se empenharem de forma maciça e resoluta na vida da Igreja e do Estado. A missão dos leigos pertence à própria natureza da Igreja. Hoje em África, ela reveste-se de uma actualidade e necessidade deveras particulares. Esta actualidade e necessidade não se justificam tanto por ter crescido a convicção da responsabilidade e participação dos leigos no agir da Igreja no mundo, mas pela consciência da verdadeira natureza da missão da Igreja no mundo.

Para melhor compreender esta actualidade e necessidade da missão do leigo dentro da única missão da Igreja, há que partir novamente da compreensão da Igreja como família, como «lugar de entreajuda e disponibilidade para o serviço»;[61]como comunidade de vida, onde existe diversidade de talentos, de carismas, de ministérios e funções, de deveres e serviços, contribuindo cada um, à sua maneira, para a edificação da obra comum. A Igreja é composta de muitos membros, mas é unida; é o corpo de Cristo, o povo de Deus.

62. É a partir desta referência a Cristo e a Deus, este revelado por aquele como amor, que tudo se compreende e justifica. Estamos todos ao seu serviço, contribuindo cada um à sua maneira para a edificação do seu Corpo. A esse serviço se destinam os dons recebidos por Deus (cf. 1 Cor 7, 7; Ef 4, 13.16) e do Senhor Jesus Cristo (cf. Ef 4, 7). Através deles, cada membro participa, à sua maneira, no poder e na missão de Cristo.[62] Sem prejuízo dessa unidade interior fundamental, a Igreja deve, perante as diferentes situações históricas, reagir sempre de maneira contextualizada, tendo sempre presente que tem uma única missão:[63] deve revelar o mistério de Deus e oferecer ao mundo a salvação em Jesus Cristo. Deve realizar a sua missão com todos os seus membros. Quando se quer falar do seu serviço ao mundo, é forçoso dizer que o leigo é o especialista dessa missão.

É este carácter secular que determina a especificidade do leigo.[64] Ele exerce a sua missão cristã no meio do mundo, nas normais condições da vida familiar e da sociedade.[65]É um cristão no mundo. É verdade que os clérigos e os consagrados também estão no mundo, mas a sua missão cristã não toca directamente a edificação das realidades terrenas. Os leigos, ao contrário, têm por missão específica a existência terrena. O papel dos leigos é, por conseguinte, o de construir o Reino de Deus na administração e organização das realidades terrenas segundo o desígnio divino. Guiados pelo espírito do Evangelho, devem ser no seio do mundo como fermento na massa,[66]sal e luz (cf. Mt 5, 13.14).

63. O serviço do leigo no mundo não é, por conseguinte, única e simplesmente um serviço terreno; é um serviço salvífico, que é ao mesmo tempo um serviço eclesial. Estando a Igreja no mundo e para o mundo, o serviço terreno do leigo é ao mesmo tempo um serviço eclesial. Através deles, o Evangelho e a realidade salvífica do Cristianismo tornam-se presentes no mundo, do mesmo modo que os problemas do mundo tornam-se presentes no seio da Igreja. Através deles, deveria ser possível integrar Cristianismo e cultura, e igualmente incarnar o Cristianismo no mundo do nosso tempo. O serviço secular do leigo participa portanto do carácter sacramental da Igreja, que é sacramento da salvação.

Na base desta concepção do leigo no seio da Igreja, pode-se conceber a relação Igreja-mundo em dois planos: o lugar do leigo na Igreja e o leigo como mensageiro da Boa Nova no mundo. Ele é chamado a ser testemunha no casal e na família, no trabalho e na profissão, na ciência e na economia, na cultura e na política. É chamado, precisamente na base do seu carácter laical,[67]a santificar o mundo e a inserir nele o espírito do Evangelho.[68]É neste contexto que se inscreve o empenho que, em nome do Evangelho, deve prestar ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz.

64. Na procura da reconciliação e na consolidação da paz e da justiça não se deveria dispensar o contributo dos fiéis leigos, uma vez que, de facto, são eles os seus principais protagonistas. Para vencer esta aposta, todos eles devem empenhar-se em combater toda a espécie de discriminação, em construir a sociedade sobre o princípio da igualdade e da equidade, em desmistificar a etnia, em manter viva a memória de tudo o que nas tradições africanas contribuía e contribui para promover a paz, a justiça e a reconciliação; em empenhar-se numa dinâmica de reconciliação e em empreender o caminho da não-violência. Esta missão do leigo no mundo exige dele uma boa preparação científica, doutrinal e espiritual.

2. A importância da formação dos leigos

65. A história da evangelização em África revela um importante empenho missionário na educação. A escola foi entre as Instituições mais importantes – muitas vezes a mais importante – na pastoral missionária. O caso do Congo-Belga é neste campo bastante eloquente. O governo belga confiou todo o sector da educação à missão católica, de que resultaram muitos efeitos positivos. Há que reconhecer que se deveu ao trabalho desses missionários o arranque de muitos dos países da África, embora se deva também reconhecer que o período pós-colonial deixou degradarem-se progressivamente as boas bases que eles haviam lançado. Até nos momentos de crise, em muitos países africanos, a educação só pôde em grande parte funcionar graças às Instituições eclesiais. O humilde reconhecimento do trabalho realizado não nos dispensa de reflectir profundamente sobre os caminhos e meios para relançar o sistema educativo naqueles países.

66. As Igrejas Particulares na África devem interrogar-se sobre os esforços a empreender para assegurar uma melhor consciência da responsabilidade dos leigos no domínio da vida económica e política. Têm também o dever de pôr à disposição os instrumentos de formação de que os leigos precisam para que os seus empenhos temporais sejam inspirados no Evangelho e na Doutrina social. É com pena que se pode constatar como, em certos lugares, a Igreja por muito tempo negligenciou a formação e educação dos leigos que os tornassem capazes de apelar para os seus direitos cívicos, políticos e sociais em situações de opressão ou contestação dos mesmos. Se é verdade que, na sequência do impulso dado pelo Concílio Vaticano II, hoje nota-se nalguns países uma maior atenção da Igreja à formação dos leigos e à criação de escolas profissionais e de universidades católicas, há que reconhecer também que nalguns países dá-se muito pouca atenção à formação de uma elite católica competente, fiel a Cristo e fortemente empenhada no social.

Para um contributo eficaz da Igreja no renascimento autêntico e dinâmico da África, é preciso valorizar o património da Igreja e ver como pô-lo a render, como geri-lo e conservá-lo e assim reforçar a eficácia e a competência na formação de uma elite cristã, capaz de exercer uma forte influência na transformação positiva da África. Devemos fazê-lo com a firme convicção de dar um novo contributo à causa da formação dos leigos. Não basta formar pessoas; é preciso também conceber e, se necessário, criar empregos. A Igreja, com efeito, «quer servir a formação da consciência na política e ajudar a crescer a percepção das verdadeiras exigências da justiça e, simultaneamente, a disponibilidade de agir com base nas mesmas».[69]O objectivo é conseguir, não só produzir competências capazes de inventiva, mas também experimentar formas de ensinamento que preparem os Africanos a produzirem eles próprios melhores condições de vida material e espiritual, a sobreviverem e, inclusive, a prosperarem num mundo de ciência e de tecnologia.

Uma tal formação não poderia negligenciar alguns elementos fundamentais, tais como: a estima e a aceitação recíprocas, a exigência de incarnar nas culturas dos povos africanos as realidades da fé, o vínculo que existe entre pobreza e violência, a exigência de uma boa gestão dos recursos africanos, o reconhecimento das minorias, as fontes subjectivas e psicológicas das guerras.

3. Alguns aspectos que requerem uma atenção especial

a. A estima e a aceitação recíprocas

67. Um dos remédios a opor a esse «vírus»mortal da descriminação é, sem dúvida, a adesão firme e convicta à cultura da estima e da aceitação recíprocas. O leigo é, antes de mais, chamado a ser neste contexto um mensageiro e testemunho empenhado na procura dos caminhos e meios para convencer todo o africano que a etnia, a religião ou a ideologia não são valores absolutos e que, portanto, não devem constituir a principal referência para o comportamento e acção de uns e de outros. Todo o cristão africano é convidado a apoiar toda a iniciativa que vise favorecer a aceitação recíproca, a coexistência pacífica na estima recíproca.

Tal visão do Cristianismo exige que se rompa com as solidariedades negativas, ou seja, as que nascem precisamente da cristalização da etnia. Quer isso dizer que se deve solidarizar com os da própria etnia no bem, mas não solidarizar-se com eles no mal. As solidariedades positivas, não só entre membros de uma mesma etnia, mas também entre os que pertencem a etnias diferentes, são as bases sobre que fundar o optimismo para sair da engrenagem do ódio e da destruição dos povos. Os testemunhos que se verificaram nos momentos de crise, onde pessoas de uma tribo salvaram os de uma tribo inimiga devem servir de exemplo para encarar o presente e o futuro com optimismo. Reforçar tais solidariedades positivas é uma tarefa que consistirá em repor no devido lugar os valores sociais, de modo especial a justiça, a equidade, a estima recíproca e a coabitação pacífica. O enraizamento na própria cultura vivido positivamente pode ser enriquecedor para a reconciliação, a justiça e a paz.

b. A reconciliação e o perdão

68. A palavra reconciliação pode significar muitas realidades. Na experiência sul-africana, por exemplo, descobre-se uma dupla conotação do termo: por um lado, o termo tende a significar simplesmente um acordo, um consenso ou ainda a resolução de um problema ou de um diferendo; por outro lado, indica a eliminação da inimizade ou o fim da violência. Assim, o termo não significa necessariamente o restabelecimento da paz nos corações; o que importa é o restabelecimento de uma relação normal, da comunicação e, portanto, a superação do diferendo. Nesse sentido, a reconciliação tem um carácter pragmático e é uma linguagem para aprender e viver com e na pluralidade, para gerir pacificamente os conflitos. É aqui onde se reveste de todo o seu significado, para uma prática da reconciliação em África, a forte afirmação de Sua Santidade Bento XVI: «O sangue derramado não brada por vingança, mas apela para o respeito da vida e para a paz».[70]Convém aqui notar a diferença entre reconciliação e perdão.

O perdão põe em evidência sobretudo o trabalho interior da pessoa para reencontrar a paz, cicatrizar a ferida. Em ambos os casos, o problema fundamental está na memória. É no perdão que se oferece a possibilidade de uma verdadeira purificação da memória e de uma paz sólida: «O pedido de perdão e o dom do perdão […] são dois elementos fundamentais para a paz. A memória é então purificada, o coração pacificado, e então o olhar torna-se límpido sobre o que a verdade exige para se nutrirem pensamentos de paz. Não posso não relembrar as palavras iluminadoras de João Paulo II: ‘Não há paz sem justiça, da mesma maneira como não há justiça sem perdão’».[71]Isso exige da parte da Igreja uma pastoral dinâmica para levar os culpados a um processo de conversão e de reconhecimento dos próprios erros e crimes, mas também para ajudar as vítimas a dar generosamente o seu perdão, também nos casos em que os responsáveis de crimes são justamente castigados pelos tribunais competentes.

69. Aceitar enveredar pelo caminho da reconciliação não significa, portanto, deixar de honrar a memória colectiva das vítimas inocentes. Essa memória porém não nos exige que fiquemos constantemente a remoer os rancores. Existe, com efeito, uma prática nociva da memória. Há que saber libertar-se e esquecer, e seguir o exemplo do Mestre de vida que sobre a Cruz dá superabundantemente o seu perdão aos seus algozes: «Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem»(Lc 23, 34).

Se Jesus Cristo é plenitude de vida, Ele passa a unificar as etnias e os povos, reconciliando-os no seu Sangue. Faz deles uma só família que vive do seu testamento, que é a sua última palavra: «amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei» (Jo 13, 34; cf. 15, 12). É o seu amor derramado nos nossos corações que é capaz de nos reconciliar uns com os outros. Tirar o sofrimento causado por tantas inimizades significa reconciliação. É uma tarefa árdua, não fácil. Perante os horríveis dramas que a África acaba de viver, deverá redescobrir o sentido profundo da oração do Pai Nosso: «Perdoai as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido». É verdade que o perdão nesta África dominada pela violência não é fácil. Por isso, Deus pede para perdoar. Não exige de nós o esquecimento, mas a reconciliação com os algozes. Só a vítima pode dar o primeiro passo; só ela pode perdoar. O perdão é algo de divino, e talvez seja no perdão onde o homem mais se parece com Deus.

70. Com o tema da reconciliação está relacionado o problema da cura, que na África negra é de importância capital. Na África, a doença é vista como o resultado de uma falta de harmonia na esfera das relações, e é sobretudo a esse nível que se deve agir, se se quer restituir a saúde. Dependerá muito da qualidade das relações no seio da comunidade.

c. A reconciliação e a cura

71. Se os novos movimentos religiosos que surgem de toda a parte ou se as Igrejas africanas independentes têm hoje um grande sucesso, em parte deve-se ao facto de as pessoas se sentirem, nessas Igrejas e novos movimentos religiosos, tomadas mais a sério, até na sua dimensão terapêutica. Não há nada mais evidente nos Evangelhos que o ministério de Jesus como «Aquele que cura». Curava as doenças e, com essas curas, manifestava a chegada do Reino de Deus. Também a missão que confiou aos seus discípulos, segundo S. Lucas, foi a de «proclamar o Reino de Deus e fazer curas» (Lc 9, 2). A Igreja, ao longo dos tempos, assumiu sempre a pastoral dos doentes como uma das suas preocupações fundamentais. O Concílio Vaticano II pôs em evidência a dimensão integral da salvação em Jesus Cristo, pondo nela o fundamento da estreita relação entre a salvação escatológica e a cura física: «É a pessoa humana que precisa salvar, é a sociedade humana que se deve renovar. É portanto o homem, na sua unidade e na sua totalidade, com o seu corpo e a sua alma, com o seu coração e a sua consciência, com o seu pensamento e a sua vontade, que será o eixo de toda a nossa exposição».[72]É esta perspectiva que estabelece também a maneira de a Igreja se apresentar em África.

A cura na sua dimensão sócio-religiosa e espiritual

72. Em África, a Igreja quer ser fundamentalmente uma família. A salvação que ela proclama abarca o homem na sua totalidade, e não pode ser reduzida unicamente à salvação da alma. Do ponto de vista humano e racional, há que dizer que o grau de santidade da Igreja depende da qualidade das relações interpessoais no seu interior de família. Numa comunidade onde não há entendimento e tudo se guerreia, todos se tornam doentes e curandeiros para todos. Daí que se justifique a redescoberta de Cristo que cura, como Palavra vivificadora que conduz à palavra reconciliadora e que intervém com os remédios eficazes, nomeadamente os sacramentos, que criam a unidade familiar. Quando se fala de sacramentos, não se entende apenas o sacramento da penitência; todos os sacramentos têm a ver com o processo de cura. Cristo intervém em tudo como alguém que cura, não somente em relação à saúde espiritual, mas também corporal. Os sacramentos, mais especificamente a Eucaristia, transformam-nos em sinais e instrumentos que libertam dos males que corroem os membros da comunidade, e fazem da Igreja uma mensageira de reconciliação (cf. 2 Cor 5, 20).

73. O papel da Igreja nesta África dividida só pode ser o de reunir os irmãos e irmãs africanos, mesmo não baptizados, sob Cristo, árvore de vida e Palavra reconciliadora. É assim que ela poderá tornar claro o facto de Jesus Cristo ter morrido «para reunir na unidade os filhos de Deus que andam dispersos» (Jo 11, 52), e de Ele ser a Palavra de vida por excelência, que dá a vida em abundância e reconcilia tudo com o sangue da sua cruz (cf. Jo 1, 10 e Col 1, 20). A exemplo de Cristo, Palavra de vida, os cristãos são chamados a pronunciar apenas palavras vivificantes, as que se tornam carne, criando a unidade e humanizando o mundo. Na África, com efeito, a vida está na palavra. Com ela tanto se pode matar, como também dar vida, reconciliar, construir a unidade.

A cura na sua relação com a política, a economia e a cultura

74. Se Cristo cura e nos envia para, por nossa vez, salvar e curar os outros (cf. Lc 9, 6; Mc 16, 15-20), não é unicamente para transmitir os bens espirituais e salvar a alma sem o corpo. A missão de Cristo e do cristão é, como já foi dito, salvar o homem todo (cf. Lc 4, 18ss). Precisamente na África de hoje, o homem deve ser salvo, não só com a libertação espiritual, mas também com a extirpação da guerra, da exploração económica interna e externa, da fome, da doença, do tribalismo e de toda a injustiça, da ditadura e da corrupção de toda a espécie. A problemática da cura não se circunscreve, portanto, apenas à esfera religiosa, mas inclui e pressupõe as esferas política, económica e cultural.

Existem diferentes tipos de cura. No empenho político, como em todo o empenho para melhorar as nossas condições de vida e de saúde, bem como para aperfeiçoar a cultura dos nossos povos, recorremos a um leque de curas para os nossos povos. Ora, Cristo só poderá ser visto como Aquele que cura, se os cristão se empenharem nos diferentes domínios em libertar a África moderna de todos os males que tentam sufocar o Continente, de modo especial o mal da guerra.

d. A violência e a pobreza

75. Muitas vezes, a violência que vem dos ambientes pobres é uma reacção à crescente marginalização social e também a uma sociedade cada vez mais injusta e discriminatória. Se assim não é, como podemos explicar o drama das crianças-soldado e das crianças-feiticeiro? Não se extirpará a violência enquanto não se mudarem estruturalmente as condições sociais que provocam o crescente empobrecimento de uns e o escandaloso enriquecimento de outros, o êxodo rural e o desemprego.

76. É claro que a verdadeira solução para a violência não reside só na justiça social. A violência é também um elemento cultural e é necessário trabalhar para recriar uma cultura da paz. A violência e a guerra são, com efeito, como que o produto cultural nascido no quotidiano da sociedade, baseado num paradigma belicoso que nos educa à violência.

Mesmo se a violência vem dos homens, não estamos condenados a ela, nem a que ela se torne uma fatalidade inexorável. A não-violência e a paz são entidades culturais e, portanto, a construir, a ensinar e a aprender. Têm algo a ver com a política, a economia, a organização social, mas também com a educação e a religião. A paz não será realizada, se não se tornar o acto do sujeito colectivo, que é a comunidade inteira: a paz para todos, a paz por todos. A Paz faz apelo a um ministério da Palavra: Cristo, Príncipe da Paz, que é a nossa Paz (cf. Ef 2, 14). Mas esta Palavra de Deus é-nos dada em Igreja e pela Igreja. Com efeito, é em Igreja e com a Igreja que ela se constrói, porque, antes de tudo, ela é dom de Deus. É portanto no seio do povo de Deus que se hão-de encontrar os critérios fundamentais e colectivos de uma afirmação ou de uma acção cristã no campo da paz. Se a Igreja, como é sua vocação, quer ser sinal e sacramento da paz no mundo e para o mundo, deve empenhar-se na educação à paz.

77. A composição não-violenta dos conflitos não é uma utopia ou uma ficção; jamais pode significar submissão, passividade ou resignação.[73]Trata-se realmente de estabelecer uma palavra verdadeira, ou seja, decidir a partir de um diálogo e de uma procura séria e constante do consenso. Uma tal dinâmica pressupõe a capacidade de perdoar e uma visão ético-moral do perdão, como opção do coração, uma escolha pessoal, antes de ser um facto social. O Papa João Paulo II insistiu sobre o facto de que não existe desenvolvimento possível dos povos sem a paz, e que uma paz verdadeira só é possível através do perdão.[74]Este pode revelar-se a curto prazo um fracasso, mas, na realidade e a longo prazo, é um enorme ganho. Longe de diminuir o homem, eleva-o.

e. Para se pôr termo ao comércio das armas e à exploração selvagem dos recursos africanos

78. Para a Igreja-Família de Deus em África, exigir a paz é exigir que se acabe com o comércio das armas nas zonas de conflito. Sabe-se como as partes em conflito se fornecem de armamento. Com ele, comete-se uma grande injustiça e um roubo: os recursos dos países pobres são sistematicamente pilhados para alimentar o comércio das armas. Há que exigir que à força material das armas se substitua a força moral do direito.

Dar aos direitos as suas possibilidade supõe que, antes de mais, se os institua. Com efeito, se em muitos Estados africanos, o direito está escrito nas legislações, o que muitas vezes falta são instituições independentes capazes de fazê-lo respeitar conforme a justiça. A instituição do direito supõe o reconhecimento do direito à dissensão: a possibilidade teórica e prática de pôr uma objecção de consciência de tipo civil, de praticar a desobediência civil em relação a certas leis ou ideologias totalitárias, invocando o princípio: «mais vale obedecer a Deus que aos homens» (Act 5, 29); o reconhecimento do direito a uma própria visão do mundo e à liberdade de educação.

f. O reconhecimento das minorias

79. Exigir a paz é exigir também que se reconheça o direito das minorias. As guerras em África muitas vezes nascem da falta do respeito das minorias ou ainda da arrogância de algumas minorias no poder que se julgam superiores aos outros. A obrigação universal de compreender e respeitar a variedade e a riqueza dos outros povos, sociedades, culturas e religiões, assenta sobre dois princípios fundamentais. O primeiro é a dignidade inalienável de toda a pessoa, independentemente das suas origens nacional, cultural, étnica ou racial, ou da sua crença religiosa; esta dignidade significa que, quando pessoas se constituem em grupo, têm o direito de usufruir de uma identidade colectiva. Assim, as minorias têm o direito de existir, dentro de um país, com a sua língua, a sua cultura e as suas tradições próprias, e o Estado é moralmente obrigado a dar espaço a essas identidades e a essas expressões particulares. O segundo, consiste na unidade fundamental da raça humana, que tem a sua origem em Deus criador de todas as coisas. Esta unidade implica que nenhum grupo possa sentir-se superior a um outro. Implica igualmente que a integração se possa construir sobre uma solidariedade efectiva, isenta de qualquer discriminação. Por conseguinte, o Estado tem o dever de respeitar e defender as diferenças que existem entre os cidadãos, e fazer com que a sua diversidade sirva ao bem comum. A experiência mostra, com efeito, que a paz e a segurança não podem ser garantidas senão no respeito dos direitos de todos aqueles de quem o Estado tem responsabilidade.

80. Nesse sentido, a liberdade dos indivíduos e das comunidades de professar e praticar a sua religião é um elemento essencial para a coexistência pacífica. A liberdade de consciência e a liberdade de procurar a verdade e de agir de acordo com a própria crença religiosa pessoal são de tal modo fundamentais para o ser humano que toda a tentativa de restringi-los leva inevitavelmente a conflitos implacáveis.

Quando as relações forem feridas entre os grupos de uma nação, o diálogo e a reconciliação são os caminhos obrigatórios para a paz. Só um diálogo sincero, aberto às legítimas reivindicações de todas as partes, pode construir um edifício de real justiça, onde todos poderão trabalhar pelo verdadeiro bem da pátria e do seu povo. A reconciliação, de acordo com a justiça, e o respeito das legítimas aspirações de todos os sectores da comunidade nacional devem ser a regra. A garantia da participação das minorias na vida política é sinal de uma sociedade moralmente adulta, que honra os países onde todos os cidadãos são livres de participar na vida nacional num clima de justiça e de paz.

g. As fontes subjectivas e psicológicas da guerra

81. Sem deixar de atacar as causas objectivas dos conflitos e da insatisfação geral, afigura-se indispensável descobrir as fontes subjectivas e psicológicas da guerra. Citam-se entre elas, os tradicionais conflitos entre tribos, a falta de grandes causas mobilizadoras, a projecção dos próprios males ou dos ressentimentos do sujeito sobre a colectividade, a radicalização da desconfiança. Existem também frustrações que estão na origem de explosões sociais: a desigualdade de acesso à instrução; a falta de participação, de direito ou de facto, no poder económico ou político; a necessidade de consideração e de identidade: ser conhecido e reconhecido pela sociedade; a sede de calor humano, de amor e de festa.

Para sair de uma tal situação, é necessário realizar uma transformação espiritual. Para ser actor da paz, há que realizá-la dentro de si mesmo. A paz do mundo passa pela conversão do indivíduo.

Capítulo V

Os recursos espirituais para a promoção da reconciliação,
da justiça e da paz em África

I. A originalidade do modo de vida do cristão no mundo

82. «Vós sois o sal da terra...vós sois a luz do mundo» (Mt 5, 13.14). O Senhor exorta os seus discípulos a serem sal da terra e luz do mundo. Ele mesmo determina qual a missão dos seus discípulos no mundo: são o sal da terra e a luz do mundo, e só poderão sê-lo na medida que neles habitar a presença real do Deus vivo, que Se doa no corpo e sangue d’Aquele que é Palavra de vida. Sendo a Palavra de Deus fiel e eficaz, o discípulo encontra nela não só sabor e luz, mas também garantia de salvação.

83. Falando da luz, Jesus serve-Se também de uma antiga imagem: Sião, a cidade colocada sobre o monte (cf. Is 2, 1ss). Atraídos pela luz, os povos a ela acorrem de todas as partes. Do país das sombras da morte e da guerra (cf. Is 9, 1ss), acorrem a Sião para obterem a vida e a paz a partir das indicações do Senhor.

Onde está o discípulo, os outros devem poder estar à vontade. Estar à vontade no próprio mundo significa encontrar a Luz, a salvação, a sabedoria e a libertação das trevas, a libertação de toda a espécie de marginalização; encontrar o conforto, a consolação, para todo o coração ferido. O evangelista põe o acento sobre «todos» os que são discípulos: «Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus» (Mt 5, 16). Nisso consiste a vocação fundamental de todo o cristão no mundo: fazer brilhar no mundo a Luz de Cristo que está nele. A luz actua, produz obras, boas obras. É nesse empenhamento que ele dá sabor cristão e luz de Cristo ao mundo africano. Daí a exigência de uma espiritualidade do empenho cristão na política, no mundo do trabalho e no meio profissional. Uma tal espiritualidade radica-se no ministério sacerdotal de todos os fiéis.

II. A vida litúrgica como base da espiritualidade cristã

84. A razão de ser da Igreja no mundo é tornar visível a presença real da acção salvífica de Deus no tempo e no espaço. É abrir o mundo à acção de Deus, à vida de Deus em nós. E é precisamente a presença eucarística que ensina e concretiza o facto de a salvação ter como ponto de partida a aceitação gratuita e cheia de amor de toda a pessoa e de todas as coisas como dom de Deus. Sua Santidade Bento XVI bem o lembra: «O novo culto tem o seu fundamento na anterioridade do Dom que Deus nos concede para que, repletos desse Dom, nos tornemos seus: a criação volta ao seu Criador».[75]É este Dom que faz do cristão alguém que vive do amor que recebe de Deus Uno e Trino.

É na fé em um só Deus em três Pessoas que o cristão vai buscar a convicção de que todos os homens são irmãos e irmãs, para além de toda a distinção de raça ou sexo, de classe social ou cultura, e de que o mistério da identidade de todo o ser humano reside na relação. Esta convicção encontra-se, em última análise, confirmada e definida pelo Mistério eucarístico, que é, antes de mais, acolhimento da vida de Deus em nós, do dom do seu ser que Ele nos faz em Jesus Cristo. Enviado como presença suprema do amor do Pai pela humanidade inteira, Jesus exprime e realiza totalmente na Eucaristia essa lógica do dom de si, do acolhimento e da escuta. Por conseguinte, toda a acção e todo o pensamento cristão só se compreendem a partir deste mistério de acolhimento do dom de Deus.

85. O testemunho do cristão não é só coerência, mas antecipação, realização no tempo e no espaço, do dom de Deus, que transforma o mundo. Daí que a diaconia que a Igreja deve exercer no mundo seja, antes de mais, um serviço de acolhimento e de escuta das necessidades de todos e, de modo especial, dos que não têm voz para se fazer ouvir ou peso político para se fazer valer. Treinada no acolhimento e escuta do seu Salvador, que Se dá no silêncio eucarístico, a Igreja, mais ainda que na privação de bens e de meios, manifesta a sua pobreza na sua capacidade de escutar toda a necessidade humana, por mais humilde que seja, e de apresentá-la ao Pai, fonte de todo o bem. Aí ela realiza o duplo movimento fundamental da Eucaristia: elevação em, com e por Cristo, do homem e do seu mundo a Deus, e dom de Deus ao mundo em, com e por Cristo. Assim se compreendem a necessidade e urgência da Eucaristia na vida quotidiana do cristão. Com efeito, é por ela e nela que o cristão realiza quotidianamente o seu ser mais profundo: ser dom para as mulheres e homens do nosso tempo. Na celebração eucarística dá-se a realização fundamental dessa doação através de uma dinâmica que se efectua sob quatro modalidades: adoração, acção de graças, oração propiciatória e oração impetratória.

86. Na adoração, o cristão exprime com a máxima evidência a sua dependência total de Deus, cuja absoluta soberania proclama como fonte de todo o bem e de toda a vida. Por sua vez, o culto cristão de adoração valoriza também o homem, pois adorar a Deus significa glorificá-l’O, e a glória de Deus é o homem vivo.[76]A adoração a Deus exprime, com efeito, a fidelidade de Deus para com o homem, uma vontade de libertar o homem de dependências humilhantes e degradantes. A Eucaristia torna-se a expressão mais clara da síntese glória de Deus-libertação-elevação do homem.

A Eucaristia dá ao crente, por um lado, a convicção de viver como que mergulhado num universo de gratuidade: tudo é graça, porque tudo é dom do Pai de todo o bem; e, por outro, dá-lhe a consciência de ser chamado pelo Pai a iluminar, com a realidade recebida, os valores positivos que a mesma encerra, para testemunhar e tornar perceptível a bondade e gratuidade dos dons divinos. Para pô-lo em prática, o cristão deve utilizar os dons recebidos na mesma lógica de gratuidade, que foi a de Deus. O homem que utiliza as coisas numa atitude de posse egoísta não dá graças a Deus. Uma espiritualidade eucarística faz nascer uma humanidade fraterna.

87. Metendo em evidência a relação íntima que une a glória de Deus ao aperfeiçoamento de toda a realidade criada, a Eucaristia confirma a ideia cristã de que o pecado tem sempre e simultaneamente uma dimensão vertical (ofensa a Deus) e horizontal (desordem cósmica). Mas ela também ensina que a propiciação comporta, juntamente com a justa aceitação da soberania divina, uma exigência de reforma do mundo e da história. Por conseguinte, a penitência cristã e o empenho de conversão exigem que se elimine o mal e se faça um esforço constante de progressão no bem.

A renovação quotidiana da oração eucarística não tem por finalidade dobrar a vontade divina com a insistência da nossa prece, mas abrir pacientemente a nossa inteligência e o nosso coração a uma progressiva compreensão do grande dom que é Cristo, plenitude de vida, e empenhar a nossa vontade em amar e querer o que em Cristo Deus amou e quis. Nesse sentido, a necessidade, não só da oração eucarística quotidiana, mas também de uma prática regular da Liturgia das Horas e de um acesso constante e frequente aos sacramentos e sacramentais, muito longe de ser uma tentativa alienante de remeter a solução dos nossos problemas para a omnipotência divina, é ao contrário uma assunção de responsabilidade em vista de um empenhamento ainda mais profundo de transformar as nossas realidades quotidianas em oferendas agradáveis a Deus em Cristo.

III. Por uma espiritualidade do empenhamento no mundo

88. Quando os Padres da Igreja falam do ministério sacerdotal de todos os fiéis crentes, entendem com isso o culto da vida cristã, que consiste na orientação total do próprio ser para Deus e para o próximo:[77]fazer da própria vida um serviço generoso a Deus e ao próximo, que às vezes pode pedir a suprema oferta da própria vida, com o martírio. S. Tomás de Aquino, sintetizando a tradição patrística, afirma que o carácter sacramental recebido no baptismo e na confirmação deve entender-se como participação no sacerdócio de Jesus Cristo e como orientação para o culto. Por culto, deve entender-se «o culto orientado pela vida cristã».[78]Para S. Tomás, o culto em questão não é um rito exterior, nem mesmo uma organização exterior, mas o rito da vida cristã. Todo o cristão é chamado a testemunhar, acima de tudo, não propriamente com o que diz e faz, mas com o que é e vive: a sua relação com Cristo, pois é ela que determina o que ele diz e faz. O que ele diz e faz deve ser expressão da sua gratidão para com o Pai, que nos cumula de todos os bens em Jesus Cristo.

1. Uma espiritualidade do trabalho bem executado enraizada no amor a Deus e ao próximo

89. Esta atitude de gratidão exprime-se também no cuidado que o homem tem pela criação, através de um trabalho bem executado e contínuo, assíduo e árduo. Na verdade, Deus fez para Adão este mundo tão maravilhoso, para que o cultivasse e fosse o seu guardião (cf. Gen 2, 15). Devemos portanto ter plena convicção de que é no trabalho assíduo e bem executado que o homem se realiza (cf. Job 5, 7) e participa no poder criador de Deus. Esta participação no poder criador de Deus exige do cristão um cuidado todo especial no desempenho das suas tarefas individuais: que ele santifique as suas tarefas, executando-as com amor até nos mínimos pormenores.

O trabalho profissional torna-se assim uma lâmpada que ilumina os que nos rodeiam e encontramos, do mesmo modo que dá sabor, alegria de viver, a quantos beneficiam dos frutos do nosso trabalho. O cristão é, assim, chamado a aprender bem o seu ofício, a esmerar-se na sua execução, nisso consistindo a santificação do trabalho. A santificação do trabalho quotidiano é, por assim dizer, a charneira da verdadeira espiritualidade do cristão mergulhado nas realidades temporais. Tal santificação só é possível, quando nos dedicamos com amor a todos os nossos deveres profissionais; quando fazemos tudo por amor, como nos exorta Sua Santidade o Papa Bento XVI: «Devem ser pessoas movidas, antes de mais, pelo amor de Cristo, pessoas cujo coração Cristo conquistou com o seu amor, nele manifestando o amor ao próximo».[79]É o caminho que nos levará a poder contemplar as maravilhas, de que o trabalho é a fonte, precisamente porque amamos, mesmo que aí se venha a beber a amargura da incompreensão, da injustiça, da ingratidão e mesmo do fracasso humano: são frutos saborosos, semente de eternidade! Um segundo elemento característico desta espiritualidade é a liberdade cristã.

2. A liberdade cristã e o sentido de família como sinal distintivo desta espiritualidade

90. O cristão encontra-se hoje na encruzilhada da realidade salvífica com a realidade do mundo, com tudo o que essa encruzilhada comporta de conflito e tensão. A existência cristã insere-se neste contexto como unidade feita de tensão entre martírio e diálogo, orientação para o mundo e testemunho como sinal de contradição que emana da realidade da cruz. Impõe-se aqui um discernimento dos espíritos. O melhor serviço que a Igreja pode prestar é a oferta de uma formação qualificada da consciência e na fé. Muitas confusões nascem, de facto, de uma grande carência de suficiente informação em matéria de fé e de boa consciência. A renovação e aprofundamento de uma catequese contínua e de qualidade para os adultos é um pressuposto indispensável para uma renovação do apostolado e da espiritualidade dos cristãos.

Um terceiro aspecto pode ser tirado do ensinamento bíblico e patrístico da comunhão dos membros do único Corpo de Cristo. Só nos tornamos cristãos no conjunto com os outros cristãos, na grande comunhão dos santos. Com isso, é sublinhada a dimensão comunitária da nossa liberdade e do nosso empenhamento. Ninguém se salva isoladamente; Cristo salva-nos em conjunto para fazer de nós a família de Deus, unida no seu corpo e no seu sangue. A comunhão apela para a comunicação. Isso é possível a diversos níveis: nos grupos de trabalho, de encontro, de intercâmbio e partilha, nas associações, na família, no trabalho e nos círculos de amigos. O cristão é um homem que sabe trabalhar em equipa, na colaboração, na amizade sincera com os outros. Onde quer que actue, procura criar um clima familiar. O lugar mais fundamental para exprimir essa dimensão comunitária é sempre o quadro da família.

Conclusão

Por uma espiritualidade orientada
para a comunidade e para o serviço ao mundo

91. No contexto africano, certos movimentos espirituais e as comunidades eclesiais vivas desempenham, neste campo, um grande papel. São uma esperança para a Igreja. Não obstante as dificuldades para transformar estas comunidades eclesiais vivas em verdadeiros instrumentos de reconciliação, justiça e paz, há todavia que admitir que as mesmas são sinais importantes do espírito de Deus, do espírito de comunhão. São sinais da fisionomia concreta que hoje tem de assumir o apostolado dos leigos. É nestas comunidades que se abordam os verdadeiros problemas da reconciliação, da justiça e da paz, e é nelas que aos poucos se encontrarão as respostas para os problemas reais das comunidades. É aqui, com efeito, que o empenho e a responsabilidade dos leigos se exercem com maior intensidade.

Os movimentos espirituais podem também tornar-se nos pequenos focos, a partir dos quais o Evangelho fecunda a realidade do mundo. Os fiéis leigos são convidados a estar atentos aos dons do Espírito, que inspira e suscita no seio da sua Igreja iniciativas novas e incarnadas nas nossas realidades para fazer face aos grandes desafios contemporâneos. A África não deve contentar-se de beneficiar dos movimentos espirituais que o mesmo Espírito suscitou noutros contextos culturais; deve também ser capaz de suscitá-los e difundi-los em toda a Igreja, como sinal da sua maturidade espiritual e da sua escuta atenta às Palavras que o Espírito dirige às Igrejas.

92. «Vós sois o sal da terra…vós sois a luz do mundo» na África e no mundo! É o convite do Senhor que empenha todos os seus discípulos, na diversidade das suas vocações, a serem os obreiros da reconciliação e da paz, os promotores da justiça: desde os bispos aos leigos, com a ajuda das estruturas complementares que formam o tecido eclesial. Trata-se de trabalhar para a vinda do Reino de Deus, de contribuir para a realização de uma África nova, para que, com a ajuda da Graça, prevaleçam sempre a justiça, a paz e o bem comum das nações.

93. A forma de actuar do Espírito leva os cristãos e os homens de boa vontade, nas suas acções quotidianas, individuais ou colectivas, a recusar o egoísmo, o pecado e toda a violação da paz e da justiça, e a trabalhar activamente para a reconciliação com Deus e com os irmãos. Maria, Templo do Espírito, Rainha da Paz, Protectora da África, mostra-nos Cristo, nossa Reconciliação, nossa Justiça e nossa Paz, para que, sob a sua protecção maternal, a Igreja em África faça brilhar cada vez mais a luz que irradia da Glória do Pai, o Cristo. A Ela, confiamos a preparação e os frutos dos trabalhos da Segunda Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos:

94. Santa Maria,
Mãe de Deus, Protectora da África,
destes ao mundo a Luz verdadeira, Jesus Cristo.
Com a vossa obediência ao Pai e a graça do Espírito Santo,
destes-nos a fonte da nossa reconciliação e da nossa alegria.

Mãe de ternura e de sabedoria,
mostrai-nos Jesus, vosso Filho e Filho de Deus;
amparai-nos no caminho da conversão
para que Jesus faça brilhar em nós e sobre nós
a sua Glória em todos os lugares da nossa vida pessoal, familiar e social.

Mãe, cheia de Misericórdia e de Justiça,
pela vossa docilidade ao Espírito Consolador,
alcançai-nos a graça de sermos testemunhas do Senhor Ressuscitado,
para sermos cada vez mais o sal da terra e a luz do mundo.

Mãe do Perpétuo Socorro,
à vossa intercessão maternal confiamos
a preparação e os frutos do Segundo Sínodo para a África.
Rainha da Paz, rogai por nós!
Nossa Senhora da África, rogai por nós!


Questionário

Introdução

1. O que é que aproveitámos da Ecclesia in Africa, da sua preparação e aplicação, para a vida das nossas Igrejas particulares e dos nossos povos ?
2. O que falta ainda fazer em prol do novo contexto africano?

Capítulo I

3. Quais são as evoluções positivas que se verificaram na Igreja e na sociedade depois da Ecclesia in Africa

a) em relação ao tema da reconciliação,
b) em relação ao tema da justiça,
c) em relação à questão da paz?

4. Quais são as dificuldades com que a vossa Igreja particular e a vossa sociedade se defrontaram na vossa região

a) no plano sócio-político,
b) no plano sócio-económico,
c) no plano sócio-cultural,
d) no plano eclesial,
e) na colaboração com os muçulmanos em temas de justiça, de paz e de reconciliação,
f) na colaboração com os adeptos da R.T.A. no plano da justiça, da paz e da reconciliação,
g) na colaboração com os outros cristãos?

5. Como enfrentastes essas dificuldades, tanto as provocadas pelos próprios Africanos como as resultantes das desordens internacionais?

Capítulo II

6. Qual é o impacto da vossa fé em Cristo na vossa vida quotidiana?
7. A Palavra de Deus encontra-se verdadeiramente no centro da vida da vossa família, da vossa comunidade eclesial viva, da vossa paróquia?
8. De que modo a nossa fé em Cristo Salvador nos ajudou a promover as acções úteis para a Igreja e para a sociedade?

Capítulo III

9. A Igreja é verdadeiramente uma família no seio da vossa comunidade eclesial viva? 10. Que fazeis para realizar e viver, no seio da vossa comunidade, essa dimensão familiar que transcende e une todas as tribos e raças?
11. Como nos ajuda a Eucaristia a viver os nossos empenhos em favor da paz, da reconciliação e da justiça, e aceitar os sacrifícios que isso comporta (Mane nobiscum Domine, 26 e 27)?
12. A imagem da Igreja-Família de Deus, dada pela Ecclesia in Africa, ajudou-nos a ser testemunho da reconciliação, da justiça e da paz? De que modo a vossa Igreja particular pode, ao seu nível, dar esse testemunho? O que faz ela pela reconciliação, pela justiça e pela paz?
13. A Doutrina social da Igreja é suficientemente conhecida na vossa Igreja particular? Existem iniciativas para difundi-la e dá-la a conhecer? Quais iniciativas?

Capítulo IV

14. Que resposta damos todos nós (bispos, sacerdotes, pessoas consagradas, leigos e instituições eclesiais de formação) ao apelo à santidade?
15. Existem na vossa Igreja particular Comissões «justiça e paz»? São eficazes?
16. Existem na vossa Igreja particular programas de formação?
17. Qual pode ser o contributo próprio dos bispos, das Conferências episcopais, dos sacerdotes, das pessoas consagradas, dos institutos religiosos, das universidades católicas, dos seminários maiores e dos catequistas, nestes temas da reconciliação, da justiça e da paz?
18. Qual é a responsabilidade específica dos leigos nos seguintes domínios: política, forças armadas, mundo da economia, educação da juventude, campo da saúde, família, grandes meios da cultura, mass-media, organismos internacionais e a nível de Igreja universal?
19. Na actual situação da África, que sentido têm para vós os apelos de Jesus: «vós sois o sal da terra…vós sois a luz do mundo»?
20. Qual é a situação actual na vossa Igreja particular (diocese e país) no que concerne

a) a saúde, a educação e as estruturas sociais,
b) os direitos do homem e a democracia,
c) as relações entre os diferentes grupos étnicos e religiosos?

Que pode fazer a vossa Igreja para melhorar o sistema escolar e sanitário, de modo a torná-los mais eficazes? Que pode ela fazer para melhorar a situação dos direitos do homem e promover a democracia?
23. Para preparar os cristãos à vida civil e política?
24. Perante as violências e ódios provocados pelas guerras, que iniciativas foram tomadas na vossa região?
25. Quais as causas profundas dessas violências e ódio e desses atentados aos direitos do homem?
26. Para fazer face a tais desafios, que colaborações são possíveis com as Igrejas dos outros Continentes, com os outros crentes do Continente Africano e com os adeptos dos novos grupos ou movimentos religiosos?
27. Que experiências positivas da vossa região nos domínios da reconciliação, da justiça e da paz, conviria dar a conhecer aos outros Continentes?
28. Que recursos encontrais nas culturas africanas para fazer frente a estes desafios: tensões étnicas e religiosas, corrupção, desprezo da vida, atentados perpetrados contra a dignidade da mulher, recrutamento de crianças para a luta armada, situação dos refugiados e dos migrantes, etc.?
29. Como avaliais a evangelização do Continente em termos quer da sua difusão quer da sua qualidade?

Capítulo V

30. Como pensais promover, no vosso meio de vida, uma sólida cultura do trabalho assíduo e bem executado?
31. Na vossa região, existem outras questões ou experiências relativas à reconciliação, à justiça e à paz, que gostaríeis de tratar no Sínodo?

Em geral

32. Que outros pontos importantes, relativos ao tema escolhido, mereceriam ser postos à atenção do Sínodo?


Notas

[1] João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Africa (14.09.1995): AAS 88 (1996) 5-82.

[2] Ibid., 5: AAS 88 (1996) 7.

[3] João Paulo II, Alocução aos membros do Sínodo da África e Europa (13.11.2004), 5: L’Osservatore Romano, Edição semanal em português [E.S.P.] (20.11.2004), p. 10.

[4] A prática da caridade é uma nota constitutiva da Igreja da mesma maneira que o anúncio do Evangelho e a administração dos sacramentos. Cf. Bento XVI, Encíclica Deus caritas est (25.12.2005), 32: L’Osservatore Romano, E.S.P. (28.01.2006), p. 5-12.

[5] Cf. João Paulo II, Carta Apostólica Mane nobiscum Domine (07.10.2004), 2: AAS 97 (2005) 337.

[6] Sínodo dos Bispos, Assembleia Especial para a África, Mensagem, 2: L’Osservatore Romano (08.05.1994), p. 4.

[7] Bento XVI, Alocução ao clero da Diocese de Roma (02.03.2006), 9: L’Osservatore Romano, E.S.P. (11.03.2006), p. 3.

[8] De 1978 a 2004, o número dos católicos africanos passou de 55 a 149 milhões. Também no que diz respeito às vocações para o sacerdócio e a vida consagrada, verifica-se, no mesmo período, um notável aumento: cf. Secretaria Status Rationarium Generale Ecclesiæ, Annuarium statisticum Ecclesiæ 2004, Cidade do Vaticano 2006, p. 18.

[9] João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Africa (14.09.1995), 114: AAS 88 (1996) 68.

[10]Cf. Ibid., 110: AAS 88 (1996) 65.

[11] Sínodo dos Bispos, Assembleia Especial para a África, Proposição n. 56.

[12] Cf. João Paulo II, Homilia de abertura da Assembleia sinodal (10.04.1994), 7: L’Osservatore Romano, E.S.P.(16.04.1994), p. 1.

[13] João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Africa (14.09.1995), 113: AAS 88 (1996) 67.

[14] Ibid.,118: AAS 88 (1996) 70.

[15] Cf. Bento XVI, Encíclica Deus caritas est (25.12.2005), 28a: L’Osservatore Romano, E.S.P. (28.01.2006), p. 5-12.

[16] Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagascar (S.C.E.A.M.),Église-Famille de Dieu: lieu et sacrement de pardon, de réconciliation et de paix en Afrique. ‘Christ est notre Paix’(Ep 2, 14): Documentation Catholique 2262 (20.01.2002) 64-84.

[17] Cf. Sínodo dos Bispos, Assembleia Especial para a África, Instrumentum laboris, 118; João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Africa (14.09.1995), 51.117: AAS 88 (1996) 32.69.

[18] Bento XVI, Alocução ao clero de Roma (13.05.2005): L’Osservatore Romano, E.S.P. (21.05.2005), p. 6.

[19] Cf. João Paulo II, Mensagem para o Dia mundial da paz (08.12.1994), 8: AAS 87 (1995) 363.

[20] João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Africa (14.09.1995), 115: AAS 88 (1996) 69.

[21] Sínodo dos Bispos, Assembleia Especial para a África, Lineamenta, 69.

[22] Cf. Sínodo dos Bispos, Assembleia Especial para a África, Instrumentum laboris, 97.

[23] João Paulo II, Discurso ao Corpo Diplomático(13.01.1990): L’Osservatore Romano, E.S.P. (21.01.1990), p. 1. Ou ainda sobre a necessidade de promover a liberdade religiosa e o princípio de reciprocidade cf. Bento XVI, Discurso ao Corpo Diplomático (09.01.2006):L’Osservatore Romano, E.S.P. (14.01.2006),p. 4-5: «Nenhum governo pode abdicar da sua função de garantir aos seus cidadãos as apropriadas condições de liberdade».

[24] B. Isabel da trindade, Traités spirituels. I. Le ciel dans la foi. Œuvres complètes, édition critique de Conrad de Meester, Paris 1996, p. 111.

[25] João Paulo II, Alocução proferida na segunda sessão da celebração da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, Johannesburg [África do Sul] (17.09.1995), 3: L’Osservatore Romano, E.S.P. (30.09.1995), p. 3.

[26] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição dogmática sobre a revelação divina Dei Verbum, 2.

[27] Bento XVI, Homilia da Missa crismal (13.04.2006): L’Osservatore Romano, E.S.P. (22.04.2006), p. 3.

[28] João Paulo II, Carta Apostólica Mane nobiscum Domine (07.10.2004), 3: AAS 97 (2005) 338.

[29] Ibid.

[30] Cf. ibid., 16: AAS 97 (2005) 344.

[31] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição dogmática sobre a Igreja Lúmen gentium, 1.

[32] Concílio Ecuménico Vaticano II, sobre a atividade missionáriada Igreja Ad gentes, 8.

[33] Idem.

[34] Bento XVI, Encíclica Deus caritas est (25.12.2005), 25b: L’Osservatore Romano, E.S.P. (28.01.2006), p. 5-12.

[35] Cf. Pontifício Conselho «justiça e paz», Compêndio da Doutrina social da Igreja, Cidade do Vaticano 2004, n. 66.

[36] Sympósio das Conferências Episcopais da África e Madagáscar(S.C.E.A.M.), Actas da VII Assembleia Plenária (Kinshasa 1984): La voix du S.C.E.A.M., Accra 1987, p. 161.

[37] Catecismo da Igreja Católica, n. 2419.

[38] Cf. João Paulo II, Encíclica Centesimus annus (01.05.1961), 54: AAS 83 (1991) 859.

[39] Cf. ibid, 11: AAS 83 (1991) 807.

[40] Cf. B. João XXIII, Encíclica Mater et magistra (15.05.1961): AAS 53 (1961) 453, 459.

[41] É bom lembrar aqui a noção de «comunidade de bens»e a disponibilidade para a partilha das primeiras comunidades cristãs: Didaché I, 5: SC 248, 144: «Dá a quem te pede»; cf. Carta a Barnabé, 19, 8: SC 172, 206; Hermas, O Pastor, Preceito II, 4-5: SC 53, 146-148; Tertuliano, Apologeticum XXXIX, 11: rec. P. Frassinetti, Augustæ Taurinorum 1965, p.92.

[42] Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 69.

[43] Cf. João Paulo II, Encíclica Laborem exercens (14.12.1981), 14: AAS 73 (1981) 616.

[44] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 69.

[45] Cf. João Paulo II, Carta Apostólica Novo millennio ineunte (06.01.2001), 49-50: AAS 93 (2001) 302-303; Encíclica Sollicitudo rei socialis (30.12.1987), 42: AAS 80 (1998) 572.

[46] João Paulo II, Encíclica Centesimus annus (01.05.1991), 35: AAS 83 (1991) 837.

[47] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium e spes, 71.

[48] Cf. Pontifício Conselho «justiça e paz», Compêndio da Doutrina social da Igreja, Cidade do Vaticano 2004, n. 164.

[49] Cf. Bento XVI, Encíclica Deus caritas est (25.12.2005), 28a: L’Osservatore Romano, E.S.P. (28.01.2006), p. 5-12.

[50] Ibid., 28b: L’Osservatore Romano, E.S.P. (28.01.2006), p. 5-12.

[51] Pontifício Conselho «justiça e paz», Compêndio da Doutrina social da Igreja, Cidade do Vaticano 2004., n. 189.

[52] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 1

[53] Cf. Bento XVI, Encíclica Deus caritas est (25.12.2005), 28b: L’Osservatore Romano, E.S.P. (28.01.2006), p. 5-12.

[54] João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Africa (14.09.1995), 68: AAS 88 (1996) 42-43.

[55] Cf. Bento XVI, Encíclica Deus caritas est (25.12.2005), 32:L’Osservatore Romano, E.S.P. (28.01.2006), p. 5-12.

[56] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 42.

[57] Cf. ibid., 58; cf. Bento XVI, Encíclica Deus caritas est (25.12.2005), 29: L’Osservatore Romano, E.S.P. (28.01.2006), p. 5-12.

[58] João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Vita consecrata (25.03.1996), 20: AAS 88 (1996) 393; cf. ibid, 26: AAS 88 (1996) 399-400.

[59] Cf. Pontifício Conselho «justiça e paz», Compêndio da Doutrina social da Igreja, Cidade do Vaticano 2004, n. 532.

[60] Cf. ibid., n.531.

[61] Bento XVI, Encíclica Deus caritas est (25.12.2005), 32: L’Osservatore Romano, E.S.P. (28.01.2006), p. 5-12.

[62] Cf. Documentos doConcílio Ecuménico Vaticano II. Para o bispo: Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, 21; para o sacerdote: Decreto sobre o ministério e a vida dos sacerdotes Presbyterorum ordinis, 21; para o leigo: Decreto sobre o apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem, 29 e Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, 30 ss.

[63] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, 41 e Decreto sobre a apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem, 2.

[64] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, 31; Decreto sobre o apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem, 2.4.7; Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 43; Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi (08.12.1975), 70-72: AAS 68 (1976) 59-61.

[65] Cf. Bento XVI, Encíclica Deus caritas est (25.12.2005), 29:L’Osservatore Romano,E.S.P. (28.01.2006), p. 5-12.

[66] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, 31.36; Decreto sobre o apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem, 2.5.7.

[67] Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Christifideles laici (30.12.1988), 15-17: AAS 81 (1989) 413-421.

[68] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Decreto sobre o apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem, 4; João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Christifideles laici (30.12.1988), 44: AAS 81 (1989) 479-480.

[69] Bento XVI, Encíclica Deus caritas est, 28a: L’Osservatore Romano, E.S.P. (28.01.2006), p. 5-12

[70] Bento XVI, Discurso ao Corpo Diplomático (09.01.2006):L’Osservatore Romano, E.S.P. (14.01.2006),p. 4-5.

[71] Idem.

[72] Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 3.

[73] Cf. Paulo VI, Mensagem para o Dia mundial da paz (08.12.1968): AAS 60 (1968) 771; Mensagem para o Dia mundial da paz (08.12.1974): AAS 67 (1975) 65; Mensagem para o Dia mundial da paz (08.12.1977): AAS 70 (1978) 49.

[74] Cf. João Paulo II, Mensagem para o Dia mundial da paz «Não há paz sem justiça; não há paz sem perdão»(08.12.2001): AAS 94 (2002) 132-140.

[75] Bento XVI, Homilia da Missa crismal (13.04.2006): L’Osservatore Romano, E.S.P. (22.04.2006), p. 3.

[76] Cf. S. Ireneu de Lião, Adversus hæreses, IV, 20, 7: SC 100/2, p. 648, 180-181.

[77] Cf. S. Agostinho, De civitate Dei, 10, 5-6: PL 41, 283; S. Leão Magno, De natali ipsius, sermo 4, 1: SC 200, 266.

[78] S. Tomás de Aquino, Summa Theologica III, q. 63, a. 1-6.

[79] Bento XVI, Encíclica Deus caritas est (25.12.2005), 33: L’Osservatore Romano,E.S.P. (28.01.2006), p. 5-12.

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