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PAPA JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-Feira, 26 de Maio de 2004

 

Súplica de um doente

1. Um motivo que nos leva a compreender e amar o Salmo 40 que agora ouvimos, é o facto de o próprio Jesus o ter citado:  "Não me refiro a todos vós. Eu bem sei quem escolhi, e há-de cumprir-se a Escritura:  Aquele que come do meu pão levantou contra mim o calcanhar" (Jo 13, 18).

É a última noite da sua vida terrestre e Jesus, no Cenáculo, está prestes a oferecer o pedaço de pão ensopado a Judas, o traidor. O seu pensamento vai a esta frase do Salmo que, na realidade, é a súplica de um homem enfermo abandonado pelos seus amigos. Naquela antiga oração Cristo encontra sentimentos e palavras para expressar a sua profunda tristeza.

Agora,  nós  procuraremos  seguir  e iluminar todo o enredo deste Salmo, que surgiu dos lábios de uma pessoa que sofre, sem dúvida, devido à sua enfermidade,  mas  sobretudo  devido  à cruel ironia dos seus "inimigos" (cf. Sl 40, 6-9) e até pela traição de um "amigo" (cf. v. 10).

2. O Salmo 40 começa com uma bem-aventurança. Ela tem como destinatário o amigo verdadeiro, aquele que "cuida do pobre":  ele será recompensado pelo Senhor no dia do seu sofrimento, quando estiver, por sua vez, "no leito do sofrimento" (cf. vv. 2-4).

Mas o coração da súplica encontra-se na parte seguinte, onde o doente toma a palavra (cf. vv. 5-10). Ele começa o seu discurso pedindo perdão a Deus, segundo a tradicional concepção antico-testamentária que a cada sofrimento fazia corresponder uma culpa:  "Senhor, tem compaixão de mim; cura-me, embora tenha pecado contra ti" (v. 5; cf. Sl 37). Para o antigo hebreu a doença era um apelo à consciência para dar início à conversão.

Mesmo se se trata de uma visão superada por Cristo, Revelador definitivo (cf. Jo 9, 1-3), o sofrimento em si próprio pode esconder um valor secreto e tornar-se um caminho de purificação, de libertação interior, de enriquecimento da alma. Ela convida a vencer a superficialidade, a vaidade, o egoísmo, o pecado e a confiar-se mais intensamente a Deus e à sua vontade savífica.

3. Mas eis que entram em cena os maldosos, aqueles que vieram visitar o doente não para o confortar, mas para o atacar (cf. vv. 6-9). As suas palavras são ásperas e atingem o coração do orante, que experimenta uma maldade que não conhece piedade. Farão a mesma experiência muitos pobres humilhados, condenados a estar sozinhos e a sentir-se um peso para os seus familiares. E se por vezes lhes são destinadas algumas palavras de conforto, sentem imediatamente o tom falso e hipócrita.

Aliás, como se dizia, o orante experimenta a indiferença e a dureza até por parte dos amigos (cf. v. 10), que se transformam em figuras hostis e odiosas. O Salmista usa com eles a expressão de "levantar o calcanhar", o acto ameaçador de quem está para ofender um vencido ou o impulso do cavaleiro que excita o seu cavalo com o calcanhar para fazer com que vença o adversário.

A amargura é profunda, quando quem nos ofende é o "amigo" no qual se tinha confiança, chamado literalmente em hebraico "o homem da paz". O pensamento dirige-se para os amigos de Job que de companheiros de vida se transformam em presenças indiferentes e hostis (cf. Job 19, 1-6). Ressoa no nosso orante a voz de uma multidão de pessoas esquecidas e humilhadas na sua enfermidade e debilidade, também da parte daqueles que deveriam tê-las amparado.

4. Contudo a oração do Salmo 40 não termina com este quadro sombrio. O orante tem a certeza de que Deus se apresentará no seu horizonte, revelando mais uma vez o seu amor (cf. vv. 11-14). Será ele quem oferece o apoio e tomará nos seus braços o doente, o qual voltará "para a presença" do seu Senhor (v. 13), isto é segundo a linguagem bíblica reviverá a experiência da liturgia no templo.

O Salmo, marcado pelo sofrimento, termina contudo num raio de luz e de esperança. Nesta perspectiva consegue-se compreender como Santo Ambrósio, ao comentar a bem-aventurança inicial (cf. v. 2), tenha visto profeticamente nela um convite a meditar sobre a paixão salvífica de Cristo que conduz à resurreição. De facto, o Padre da Igreja sugere que nos introduzamos da seguinte maneira na leitura do Salmo:  "Bem-aventurados aqueles que pensam na miséria e na pobreza de Cristo, o qual, sendo rico, se fez pobre por nós. Rico no seu Reino, pobre na carne, porque assumiu sobre si esta carne de pobres... Portanto, não sofreu na sua riqueza, mas na nossa pobreza. Não foi então a plenitude da divindade que sofreu... mas a carne... Procura, pois, penetrar o sentido da pobreza de Cristo, se queres ser rico! Procura penetrar o sentido da sua debilidade, se desejas obter a saúde! Procura penetrar o sentido da sua cruz, se não te queres envergonhar dela; o sentido da sua ferida, se queres curar as tuas; o sentido da sua morte, se desejas alcançar a vida eterna; o sentido da sua sepultura, se desejas encontrar a ressurreição" (Comentário a doze salmos:  Saemo, VIII, Milão-Roma 1980, pp. 39-41).

 


 Saudações

Aos peregrinos vindos do Brasil e dos restantes países de língua portuguesa, com destaque para o grupo das Filhas de Maria Auxiliadora, dirijo uma afectuosa saudação de boas-vindas, agradecido pela sua presença e comunhão de oração. Sobre todos, derrame o Espírito Santo os seus dons, para que a vida de cada um não pare de florir e frutificar lá onde Deus o colocou. E mesmo quando a vida lhes fizer mal, não deixem de sorrir... ao menos para Deus, que tanto bem lhes quer.

Saúdo cordialmente os peregrinos lituanos. O Senhor ilumine constantemente os vossos corações, para que vós possais ser testemunhas do Evangelho de Cristo.
Louvado seja Jesus Cristo!

Saúdo cordialmente os peregrinos de língua francesa, aqui presentes na manhã de hoje, em particular os membros do Instituto europeu dos altos estudos internacionais, de Nice; os peregrinos da Diocese de Duala, nos Camarões; e os músicos do Quebeque.

A luz do Espírito Santo vos ilumine e vos fortaleça para serdes testemunhas de Cristo ressuscitado!

Saúdo cordialmente os fiéis húngaros, especialmente os Hússares, com quem recordamos que os Hússares húngaros acompanharam o meu predecessor há 190 anos, no caminho de regresso à Sé petrina.

De coração, concedo-vos a todos a Bênção Apostólica.

Louvado seja Jesus Cristo!

Dirijo as minhas boas-vindas aos peregrinos de língua inglesa, hoje aqui presentes, inclusivamente aos membros do Coro de Jovens da Austrália e aos demais grupos oriundos da Inglaterra, Sri Lanka e Estados Unidos da América. Invoco a graça e a paz de nosso Senhor sobre todos vós, e desejo-vos uma feliz estadia em Roma.

É de coração que saúdo os peregrinos da Espanha e da América Latina. Como expressa o Salmo hoje meditado, recordai-vos sempre da bem-aventurança prometida aos que ajudam os pobres e cuidam dos enfermos, porque o Senhor será a sua recompensa.

Saúdo cordialmente todos os meus compatriotas. De modo particular, quero saudar os peregrinos vindos de Slupsk. Estou grato às autoridades e aos habitantes daquela cidade pela sua benevolência e por terem desejado atribuir-me o título de "cidadão honorário". Retribuo esta sua benevolência com a oração.

Além disso, saúdo ainda o grupo da Associação  "Podhale"  de  Chicago, acompanhado da Directoria, vindos a Roma para celebrar o 75º aniversário de fundação. Agradeço-vos a vosso compromisso em vista de salvaguardar as raízes cristãs da cultura e das tradições polacas  no  meio  dos  imigrantes  na América.

Celebra-se no dia de hoje o 25º aniversário do dia em que, pela primeira vez como Papa, beijei a terra polaca. Volto sempre com o pensamento àqueles dias e agradeço a Deus o sopro do Espírito Santo, que passou através daquela terra, suscitando uma profunda mudança.

Peço a Deus que abençoe a nossa Pátria e todos os polacos.

Deus vos abençoe!

Agora, saúdo os jovens, os doentes e os novos casais. No início do mês de Junho, dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, convido-vos a contemplar o mistério do Amor divino.

Formulo-vos votos, caros jovens, a fim de que vos prepareis, na escola do Coração de Cristo, para enfrentar com seriedade as responsabilidades que vos esperam. Estimados doentes, que o Senhor vos conceda cumprir a sua vontade, unindo-vos no seu sacrifício do amor. E vós, dilectos novos casais, permanecei fiéis ao amor de Deus, dando-lhe  testemunho  com  o  vosso  amor conjugal.

 



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