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EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
PÓS-SINODAL
ECCLESIA IN EUROPA
DO SANTO PADRE
JOÃO PAULO II
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E DIÁCONOS
AOS CONSAGRADOS E CONSAGRADAS
E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS
SOBRE
JESUS CRISTO, VIVO NA SUA IGREJA,
FONTE DE ESPERANÇA
PARA A EUROPA

 

INTRODUÇÃO

 

Anúncio de alegria para a Europa

1. A Igreja na Europa, animada por sentimentos de solidariedade, acompanhou os seus Bispos que se reuniram em Sínodo, pela segunda vez, para meditar sobre Jesus Cristo, vivo na sua Igreja, fonte de esperança para a Europa.

Trata-se de um tema que também eu, unido com os meus irmãos Bispos e retomando as palavras da 1ª Carta de S. Pedro, quero proclamar a todos os cristãos da Europa ao início do terceiro milénio: «  Não temais (...), nem vos deixeis perturbar. Mas venerai Cristo Senhor nos vossos corações e estai sempre prontos a responder (...) a todo aquele que vos perguntar a razão da vossa esperança  » (3, 14-15).(1)

Este anúncio ressoou continuamente durante o Grande Jubileu do ano 2000, com o qual está intimamente relacionado o referido Sínodo, tendo sido celebrado nas proximidades da sua abertura como se fosse uma porta que desse para ele.(2) O Jubileu constituiu «  um único e incessante cântico de louvor à Santíssima Trindade  », um autêntico «  caminho de reconciliação  » e um «  sinal de genuína esperança para todos os que levantam seu olhar para Cristo e para a sua Igreja  ».(3) Tendo-nos deixado em herança a alegria do encontro vivificante com Cristo, que «  é o mesmo ontem, hoje e sempre  » (Heb 13, 8), propôs-nos de novo o Senhor Jesus como o fundamento único e indefectível da verdadeira esperança.

O segundo Sínodo para a Europa

2. Desde o princípio, o aprofundamento do tema da esperança constituía o objectivo principal da II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa. Sendo o último na série dos Sínodos de carácter continental celebrados como preparação para o Grande Jubileu do ano 2000,(4) tinha por finalidade analisar a situação da Igreja na Europa e oferecer indicações para promover um novo anúncio do Evangelho, como sublinhei ao tornar pública a sua convocação a 23 de Junho de 1996, no fim da Eucaristia celebrada no Estádio Olímpico de Berlim.(5)

A Assembleia Sinodal não podia deixar de retomar, verificar e desenvolver as conclusões do Sínodo anteriormente dedicado à Europa, que fora celebrado em 1991, logo a seguir à queda dos muros, debruçando-se sobre o tema «  Para sermos testemunhas de Cristo que nos libertou  ». Desta I Assembleia Especial resultou a urgência e a necessidade da «  nova evangelização  », cientes de que «  a Europa, hoje, não deve simplesmente fazer apelo à sua precedente herança cristã: é preciso, de facto, que seja posta em condições de decidir novamente do seu futuro no encontro com a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo  ».(6)

Nove anos mais tarde, a convicção de que «  é tarefa urgente da Igreja oferecer de novo aos homens e às mulheres da Europa a mensagem libertadora do Evangelho  » (7) ressurgiu com a sua força estimuladora. O tema escolhido para a nova Assembleia Sinodal colocava, agora sob a perspectiva da esperança, o mesmo desafio. Tratava-se, por conseguinte, de proclamar este anúncio de esperança a uma Europa que parecia tê-la perdido.(8)

A experiência do Sínodo

3. A Assembleia Sinodal, realizada de 1 a 23 de Outubro de 1999, revelou-se uma preciosa oportunidade de encontro, escuta e confronto: aprofundou-se o conhecimento recíproco entre Bispos de diversas partes da Europa e com o Sucessor de Pedro, e, todos unidos, pudemos edificar-nos mutuamente, graças sobretudo aos testemunhos daqueles que, sob os regimes comunistas passados, tinham suportado duras e prolongadas perseguições pela fé.(9) Vivemos uma vez mais momentos de comunhão na fé e na caridade, animados pelo desejo de realizar um fraterno «  intercâmbio de dons  », enriquecendo-nos mutuamente com a diversidade das experiências de cada um.(10)

Era patente a vontade de acolher o apelo dirigido pelo Espírito às Igrejas da Europa para se empenharem perante os novos desafios.(11) Com um olhar cheio de amor, os participantes no encontro sinodal detiveram-se sem medo a observar a realidade actual do continente, ressaltando as suas luzes e sombras. Daí resultou claramente a noção de que a situação está marcada por graves incertezas a nível cultural, antropológico, ético e espiritual. Com igual nitidez, foi-se afirmando uma vontade crescente de entrar dentro desta situação para interpretá-la e ver as tarefas que esperam a Igreja: daí surgiram «  orientações úteis para tornar cada vez mais visível o rosto de Cristo mediante um anúncio mais incisivo, corroborado por um coerente testemunho  ».(12)

4. Vivendo a experiência sinodal com discernimento evangélico, foi maturando cada vez mais a consciência da unidade que, sem renegar as diferenças resultantes das vicissitudes históricas, entrelaça as várias partes da Europa. É uma unidade que, tendo as suas raízes na inspiração cristã comum, pode conciliar as diversas tradições culturais mas requer, tanto a nível social como eclesial, um contínuo caminhar no conhecimento recíproco procurando uma maior partilha dos valores de cada um.

Ao longo do Sínodo, pouco a pouco foi-se evidenciando um forte pendor para a esperança. Embora aceitando as análises da complexidade que caracteriza o continente, os padres sinodais individuaram, como sendo provavelmente a urgência maior que o atravessa de Leste a Oeste, a necessidade cada vez mais sentida de esperança, que torne possível dar sentido à vida e à história e caminhar de mãos dadas. Todas as reflexões do Sínodo se encaminhavam para dar resposta a esta necessidade, a partir do mistério de Cristo e do mistério trinitário. O Sínodo quis repropor a figura de Jesus, vivo na sua Igreja, revelador do Deus-Amor que é comunhão das três Pessoas divinas.

O ícone do Apocalipse

5. Sinto-me feliz por poder, com a presente Exortação pós-sinodal, partilhar os frutos desta II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa. Pretendo assim corresponder ao desejo que me foi manifestado no termo do encontro sinodal, quando os Pastores me entregaram os textos das suas reflexões com o pedido de oferecer à Igreja peregrina na Europa um documento sobre o próprio tema do Sínodo.(13)

«  Quem tem ouvidos, oiça o que o Espírito diz às Igrejas  » (Ap 2, 7). Ao anunciar à Europa o Evangelho da esperança, terei como guia o livro do Apocalipse, «  revelação profética  » que desvenda à comunidade crente o sentido oculto e profundo das coisas que acontecem (cf. Ap 1, 1). O Apocalipse apresenta-nos uma palavra dirigida às comunidades cristãs, para ajudá-las a interpretar e viver a sua inserção na história, com os seus problemas e tribulações, à luz da vitória definitiva do Cordeiro imolado e ressuscitado. Ao mesmo tempo, encontramo-nos com uma palavra que nos obriga a viver deixando de lado a tentação frequente de construir a cidade dos homens, prescindindo de Deus ou contra Ele. É que, se isto se verificasse, a própria convivência humana acabaria, mais cedo ou mais tarde, por conhecer uma irremediável derrota.

O Apocalipse contém um encorajamento dirigido a todos os crentes: para além de qualquer aparência e apesar de os efeitos não serem ainda visíveis, a vitória de Cristo já se deu e é definitiva. Daí o conselho a olhar as vicissitudes humanas fundamentalmente com uma atitude de confiança, que nasce da fé no Ressuscitado, presente e activo na história.

 

CAPÍTULO I

JESUS CRISTO É NOSSA ESPERANÇA

«  Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último, o Vivente  » (Ap 1, 17-18)

 

O Ressuscitado está sempre connosco

6. Num tempo de perseguição, tribulação e crise para a Igreja como era a época do autor do Apocalipse (cf. 1, 9), a palavra que ressoa na visão é uma palavra de esperança: «  Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último, o Vivente; conheci a morte, mas eis-Me aqui vivo pelos séculos dos séculos. E tenho as chaves da Morte e do Inferno  » (Ap 1, 17-18). Encontramo-nos assim com o Evangelho, o «  feliz anúncio  », que é o próprio Jesus Cristo. Ele é o Primeiro e o Último: n'Ele, toda a história encontra o seu princípio, sentido, direcção e realização; n'Ele e com Ele, na sua morte e ressurreição, já tudo ficou dito. É o Vivente: estava morto, mas agora vive para sempre. Ele é o Cordeiro que está de pé no meio do trono de Deus (cf. Ap 5, 6): aparece imolado, porque derramou o seu sangue por nós no madeiro da cruz; está de pé, porque voltou à vida para sempre e mostrou-nos a omnipotência infinita do amor do Pai. Ele segura firmemente nas suas mãos as sete estrelas (cf. Ap 1, 16), isto é, a Igreja de Deus perseguida, que, embora em luta contra o mal e o pecado, tem motivos para sentir-se alegre e vitoriosa, porque está nas mãos de Cristo que já venceu o mal. Ele caminha no meio dos sete castiçais de ouro (cf. Ap 2, 1): está presente e activo na sua Igreja em oração. Ele é, enfim, «  Aquele que vem  » (Ap 1, 4) através da missão e da acção da Igreja ao longo da história humana; vem como ceifeiro escatológico, no fim dos tempos, para levar à perfeição todas as coisas (cf. Ap 14, 15-16; 22, 20).

 

I. Desafios e sinais de esperança para a Igreja na Europa

O ofuscamento da esperança

7. Esta palavra é dirigida hoje também às Igrejas na Europa, frequentemente provadas por um ofuscamento da esperança. De facto, os nossos dias, com todos os desafios que nos lançam, apresentam-se como um tempo de crise. Muitos homens e mulheres parecem desorientados, incertos, sem esperança; e não poucos cristãos partilham estes estados de alma. Numerosos são os sinais preocupantes que inquietam, ao início do terceiro milénio, o horizonte do continente europeu, o qual, «  apesar de estar na posse plena de imensos sinais de fé e testemunho e no quadro duma convivência sem dúvida mais livre e mais unida, sente todo o desgaste que a história antiga e recente produziu nas fibras mais profundas dos seus povos, dando origem muitas vezes à desilusão  ».(14)

De entre muitos aspectos, amplamente citados também durante o Sínodo,(15) quero recordar a crise da memória e herança cristãs, acompanhada por uma espécie de agnosticismo prático e indiferentismo religioso, fazendo com que muitos europeus dêem a impressão de viver sem substrato espiritual e como herdeiros que delapidaram o património que lhes foi entregue pela história. Por isso, não causam assim tanta maravilha as tentativas de dar um rosto à Europa excluindo a sua herança religiosa, e de modo particular a sua profunda alma cristã, estabelecendo os direitos dos povos que a compõem sem enxertá-los no tronco irrigado pela linfa vital do cristianismo.

No continente europeu, certamente não faltam prestigiosos símbolos da presença cristã, mas, com a afirmação lenta e progressiva do secularismo, correm o risco de reduzirem-se a meros vestígios do passado. Muitos já não conseguem integrar a mensagem evangélica na experiência diária; aumenta a dificuldade de viver a própria fé em Jesus num contexto social e cultural onde é continuamente desafiado e ameaçado o projecto de vida cristã; em vários sectores públicos, é mais fácil definir-se agnóstico do que crente; dá a impressão de que o normal é não crer, enquanto o acreditar teria necessidade de uma legitimação social não óbvia nem automática.

8. Esta crise da memória cristã é acompanhada por uma espécie de medo de enfrentar o futuro. A imagem que se forma do amanhã, aparece muitas vezes vaga e incerta. Do futuro, sente-se mais medo que desejo. Sinais preocupantes disto mesmo são, entre outros, o vazio interior, que oprime muitas pessoas, e a perda do significado da vida. Como manifestações e frutos desta angústia existencial, contam-se, de modo particular, a dramática diminuição da natalidade, a queda das vocações ao sacerdócio e à vida consagrada, a relutância, se não mesmo a recusa, de tomar decisões definitivas na vida inclusive no matrimónio.

Assiste-se a uma generalizada fragmentação da existência; predomina uma sensação de solidão; multiplicam-se as divisões e os contrastes. Entre outros sintomas deste estado de coisas, a situação europeia actual regista o grave fenómeno das crises familiares e do esmorecimento do próprio conceito de família, a persistência ou reabertura de conflitos étnicos, o reaparecimento de alguns comportamentos racistas, as próprias tensões inter-religiosas, o egocentrismo que fecha indivíduos e grupos em si mesmos, o crescimento de uma indiferença ética geral e de uma preocupação obsessiva pelos próprios interesses e privilégios. Na visão de tantos, a globalização em curso, em vez de apontar para uma maior unidade do género humano, arrisca-se a seguir uma lógica que marginaliza os mais débeis e aumenta o número dos pobres da terra.

A par do aumento do individualismo, nota-se um enfraquecimento progressivo da solidariedade interpessoal: se as instituições de assistência continuam a desempenhar um louvável trabalho, observa-se uma atenuação no sentido da solidariedade, pelo que muitas pessoas, embora não lhes falte o necessário a nível material, sentem-se mais sós, deixadas à mercê de si mesmas, sem redes de apoio afectivo.

9. Na raiz da crise da esperança, está a tentativa de fazer prevalecer uma antropologia sem Deus e sem Cristo. Esta forma de pensar levou a considerar o homem como «  o centro absoluto da realidade, fazendo-o ocupar astuciosamente o lugar de Deus e esquecendo que não é o homem que cria Deus, mas é Deus que cria o homem. O ter esquecido Deus levou a abandonar o homem  », pelo que «  não admira que, neste contexto, se tenha aberto amplo espaço ao livre desenvolvimento do niilismo no campo filosófico, do relativismo no campo gnoseológico e moral, do pragmatismo e também do hedonismo cínico na configuração da vida quotidiana  ».(16) A cultura europeia dá a impressão de uma «  apostasia silenciosa  » por parte do homem saciado, que vive como se Deus não existisse.

Neste horizonte, ganham corpo as tentativas, verificadas ainda recentemente, de apresentar a cultura europeia prescindindo do contributo do cristianismo que marcou o seu desenvolvimento histórico e a sua difusão universal. Estamos perante o aparecimento duma nova cultura, influenciada em larga escala pelos mass-media, com características e conteúdos frequentemente contrários ao Evangelho e à dignidade da pessoa humana. Também faz parte de tal cultura um agnosticismo religioso cada vez mais generalizado, conexo com um relativismo moral e jurídico mais profundo que tem as suas raízes na crise da verdade do homem como fundamento dos direitos inalienáveis de cada um. Os sinais da diminuição da esperança manifestam-se às vezes através de formas preocupantes daquilo que se pode chamar uma «  cultura de morte  ».(17)

A nostalgia irreprimível da esperança

10. Todavia, como sublinharam os padres sinodais, «  o homem não pode viver sem esperança: a sua vida perderia o sentido, tornando-se insuportável  ».(18) Muitas vezes pensa-se que é possível satisfazer esta exigência de esperança com realidades efémeras e frágeis. E assim a esperança, confinada num âmbito intramundano fechado à transcendência, acaba por ser identificada, por exemplo, com o paraíso prometido pela ciência e a técnica, com as mais variadas formas de messianismo, com a felicidade de natureza hedonista oferecida pelo consumismo, com o prazer imaginário e artificial gerado por substâncias estupefacientes, com algumas formas de milenarismo, com o fascínio das filosofias orientais, com a busca de formas esotéricas de espiritualidade, nas diversas correntes da New Age.(19)

Tudo isto, porém, se revela profundamente ilusório e incapaz de satisfazer aquela sede de felicidade que o coração do homem continua a sentir em si mesmo. Deste modo permanecem e agravam-se os preocupantes sinais de enfraquecimento da esperança, que às vezes se manifestam mesmo através de formas de agressividade e de violência.(20)

Sinais de esperança

11. Nenhum ser humano pode viver sem perspectivas de futuro. Menos ainda a Igreja, que vive na expectativa do Reino que chega e já está presente neste mundo. Seria injusto não ver os sinais do influxo do Evangelho de Cristo na vida da sociedade. Os padres sinodais encontraram-nos e evidenciaram-nos.

Entre estes sinais, conta-se a recuperação da liberdade da Igreja no Leste europeu, com as novas possibilidades de acção pastoral que lhe foram abertas; a concentração da Igreja na sua missão espiritual e o seu compromisso de viver o primado da evangelização mesmo nas relações com a realidade sócio-política; a ampla tomada de consciência da missão própria de todos os baptizados, na variedade e complementaridade dos respectivos dons e tarefas; a maior presença da mulher nas várias estruturas e sectores da comunidade cristã.

Uma comunidade de povos

12. Olhando para a Europa como comunidade civil, não faltam sinais indicadores de esperança: neles, mesmo entre as contradições da história, podemos com um olhar de fé individuar a presença do Espírito de Deus que renova a face da terra. Os padres sinodais, no termo dos seus trabalhos, descreveram-nos assim: «  Constatamos com alegria a crescente abertura dos povos uns aos outros, a reconciliação entre nações por longo tempo hostis e inimigas, o alargamento progressivo do processo de união aos países do Leste Europeu. Reconhecimentos, colaborações e intercâmbios de todo o tipo estão em desenvolvimento, de maneira que, pouco a pouco, se cria uma cultura, antes, uma consciência europeia, que esperamos possa fazer crescer, especialmente nos jovens, o sentimento da fraternidade e a vontade da partilha. Registamos como positivo o facto de todo este processo se desenvolver segundo métodos democráticos, de modo pacífico e num espírito de liberdade, que respeita e valoriza as legítimas diversidades, suscitando e apoiando o processo de unificação da Europa. Saudamos com satisfação aquilo que foi feito para determinar as condições e as modalidades do respeito dos direitos humanos. Por fim, no contexto da legítima e necessária unidade económica e política na Europa, enquanto registamos os sinais de esperança oferecidos pela consideração dada ao direito e à qualidade de vida, formulamos ardentes votos por que, numa fidelidade criativa à tradição humanista e cristã do nosso continente, seja garantido o primado dos valores éticos e espirituais  ».(21)

Os mártires e as testemunhas da fé

13. Desejo, porém, chamar a atenção especialmente para alguns sinais surgidos na vida eclesial propriamente dita. Antes de mais nada, quero com os padres sinodais apresentar novamente a todos, para que nunca seja esquecido, o grande sinal de esperança constituído por tantas testemunhas da fé cristã que viveram, no último século, tanto no Oriente como no Ocidente. Souberam assumir o Evangelho em situações de hostilidade e perseguição, frequentemente até à prova suprema do sangue.

Estas testemunhas, particularmente as que enfrentaram a prova do martírio, são um sinal eloquente e grandioso, que somos chamados a contemplar e imitar. Atestam-nos a vitalidade da Igreja; apresentam-se como luz para a Igreja e a humanidade, porque, nas trevas, fizeram brilhar a luz de Cristo; pertencendo a diversas confissões cristãs, resplandecem igualmente como sinal de esperança no caminho ecuménico, na certeza de que o seu sangue «  é também linfa de unidade para a Igreja  ».(22)

Mais radicalmente ainda, elas dizem-nos que o martírio é encarnação suprema do Evangelho da esperança. «  De facto, os mártires anunciam este Evangelho e testemunham-no com a sua vida até à efusão do sangue, porque, certos de não poderem viver sem Cristo, estão prontos a morrer por Ele na convicção de que Jesus é o Senhor e o Salvador do homem e que este, por conseguinte, só n'Ele encontra a verdadeira plenitude da vida.

Deste modo, segundo a advertência do apóstolo Pedro, mostram-se prontos a dar a razão da esperança que está neles (cf. 1 Pd 3, 15). Além disso, os mártires celebram o “Evangelho da esperança”, porque a oferta da sua vida é a manifestação maior e mais radical daquele sacrifício vivo, santo e agradável a Deus que constitui o verdadeiro culto espiritual (cf. Rm 12, 1), origem, alma e apogeu de toda a celebração cristã. Por último, eles servem o “Evangelho da esperança”, porque, com o seu martírio, exprimem em sumo grau o amor e o serviço ao homem, enquanto demonstram que a obediência à lei evangélica gera uma vida moral e uma convivência social que honra e promove a dignidade e a liberdade de toda a pessoa  ».(23)

A santidade de muitos

14. Fruto da conversão realizada pelo Evangelho é a santidade de muitos homens e mulheres do nosso tempo; não só daqueles que foram proclamados oficialmente santos pela Igreja, mas também dos que, com simplicidade e no dia a dia da existência, deram testemunho da sua fidelidade a Cristo. Como não pensar aos inumeráveis filhos da Igreja que, ao longo da história do continente europeu, viveram uma santidade generosa e autêntica no mais recôndito da vida familiar, profissional e social? «  Todos eles, como “pedras vivas” aderentes a Cristo “pedra angular”, construíram a Europa como edifício espiritual e moral, deixando aos vindouros a herança mais preciosa. O Senhor Jesus havia prometido: “Aquele que acredita em Mim fará também as obras que Eu faço; e fará obras maiores do que estas, porque Eu vou para o Pai'' (Jo 14, 12). Os santos são a prova viva da realização desta promessa, e ajudam a crer que isto é possível mesmo nos momentos mais difíceis da história  ».(24)

A paróquia e os movimentos eclesiais

15. O Evangelho continua a dar os seus frutos nas comunidades paroquiais, no meio das pessoas consagradas, nas associações de leigos, nos grupos de oração e de apostolado, nas diversas comunidades juvenis, e também através da presença e difusão de novos movimentos e realidades eclesiais. De facto, em cada um deles o mesmo Espírito consegue suscitar renovada dedicação ao Evangelho, generosa disponibilidade ao serviço, vida cristã caracterizada por radicalismo evangélico e zelo missionário.

Embora carecida de constante renovação,(25) a paróquia continua ainda hoje a deter e a realizar na Europa, tanto nos países pós-comunistas como no Ocidente, uma missão indispensável e de grande actualidade no âmbito pastoral e eclesial. É capaz ainda de proporcionar aos fiéis o espaço para um real exercício da vida cristã e ser lugar também de autêntica humanização e sociabilização, quer no contexto dispersivo e anónimo típico das grandes cidades modernas quer em zonas rurais com pouca população.(26)

16. Com os padres sinodais, ao mesmo tempo que exprimo a minha grande estima pela presença e a acção das diversas associações e organizações apostólicas, em particular da Acção Católica, desejo pôr em relevo a específica contribuição que podem, nunca isolando-se mas em comunhão com as outras realidades eclesiais, oferecer os novos movimentos e as novas comunidades eclesiais. De facto, estes últimos «  ajudam os cristãos a viverem mais radicalmente segundo o Evangelho; são berço de diversas vocações e geram novas formas de consagração; promovem sobretudo a vocação dos leigos e levam-na a exprimir-se nos diversos âmbitos da vida; favorecem a santidade do povo; podem ser anúncio e exortação para muitos que de outro modo não se cruzariam com a Igreja; frequentemente apoiam o caminho ecuménico e abrem sendas para o diálogo inter-religioso; servem de antídoto contra a difusão das seitas; são de grande ajuda para irradiar vitalidade e alegria na Igreja  ».(27)

O caminho ecuménico

17. Damos graças ao Senhor pelo grande e reconfortante sinal de esperança constituído pelos progressos que o caminho ecuménico pôde realizar sob o signo da verdade, da caridade e da reconciliação. Trata-se de um dos grandes dons do Espírito Santo para um continente, a Europa, que deu origem às graves divisões entre os cristãos no segundo milénio e sofre ainda muito com as consequências das mesmas.

Recordo com emoção alguns momentos de grande intensidade vividos durante os trabalhos sinodais e a convicção unânime, afirmada também pelos delegados fraternos, de que o caminho ecuménico – não obstante os problemas que ainda restam e os novos que vão surgindo – não pode ser interrompido, mas deve continuar com renovado ardor, com mais profunda determinação e com a humilde disponibilidade de todos para o perdão recíproco. De bom grado faço minhas algumas expressões dos padres sinodais, porque «  o progresso no diálogo ecuménico, que tem o seu fundamento mais profundo no próprio Verbo de Deus, constitui um sinal de grande esperança para a Igreja actual: o crescimento da unidade entre os cristãos é efectivamente de mútuo enriquecimento para todos  ».(28) É preciso «  considerar com alegria os progressos até agora obtidos no diálogo tanto com os irmãos das Igrejas Ortodoxas como com os irmãos das comunidades eclesiais oriundas da Reforma, reconhecendo nisso um sinal da acção do Espírito pelo qual devemos louvar e agradecer ao Senhor  ».(29)

 

II. Voltar a Cristo, fonte de toda a esperança

Confessar a nossa fé

18. Da Assembleia Sinodal saiu, clara e veemente, a certeza de que a Igreja tem para oferecer à Europa o bem mais precioso, que ninguém mais lhe pode dar: é a fé em Jesus Cristo, fonte da esperança que não desilude,(30) um dom que está na origem da unidade espiritual e cultural dos povos europeus e pode constituir, também hoje e no futuro, um contributo essencial do seu progresso e integração. Sim, passados vinte séculos, a Igreja apresenta-se no início do terceiro milénio com o mesmo anúncio de sempre, que constitui o seu único tesouro: Jesus Cristo é o Senhor; só há salvação n'Ele, e em mais ninguém (cf. Act 4, 12). A fonte da esperança, para a Europa e para o mundo inteiro, é Cristo; «  e a Igreja é o canal pelo qual passa e se difunde a onda de graça que brotou do Coração trespassado do Redentor  ».(31)

Fundamentada nesta confissão de fé, brota do nosso coração e dos nossos lábios «  uma jubilosa confissão de esperança: Vós, ó Senhor, ressuscitado e vivo, sois a esperança sempre nova da Igreja e da humanidade; Vós sois a única e verdadeira esperança do homem e da história; Vós sois entre nós “a esperança da glória” (Col 1, 27) já nesta nossa vida e para além da morte. Em Vós e Convosco, nós podemos alcançar a verdade, a nossa existência tem um sentido, a comunhão é possível, a diversidade pode tornar-se riqueza, a força do Reino está em acção na história e ajuda na edificação da cidade do homem, a caridade dá valor perene aos esforços da humanidade, o sofrimento pode tornar-se salvífico, a vida vencerá a morte, a criação participará na glória dos filhos de Deus  ».(32)

Jesus Cristo nossa esperança

19. Jesus Cristo é a nossa esperança, porque Ele, o Verbo eterno de Deus que está desde sempre no seio do Pai (cf. Jo 1, 18), amou-nos até ao ponto de assumir em tudo, excepto no pecado, a nossa natureza humana tornando-Se participante da nossa vida, para nos salvar. A confissão desta verdade encontra-se mesmo no âmago da nossa fé. A perda da verdade sobre Jesus Cristo ou uma má compreensão da mesma impede de penetrar no próprio mistério do amor de Deus e da comunhão trinitária.(33)

Jesus Cristo é a nossa esperança, porque Ele revela o mistério da Santíssima Trindade. Este constitui o centro da fé cristã, que pode oferecer ainda, como o fez até agora, um grande contributo para a edificação de estruturas que, inspirando-se nos grandes valores evangélicos ou confrontando-se com eles, promovam a vida, a história e a cultura dos diversos povos do continente.

Múltiplas são as raízes que com a linfa dos seus ideais contribuíram para o reconhecimento do valor da pessoa e da sua dignidade inalienável, o reconhecimento do carácter sagrado da vida humana e do papel central da família, da importância da instrução e da liberdade de pensamento, de palavra, de religião, e contribuíram também para a tutela legal dos indivíduos e dos grupos, a promoção da solidariedade e do bem comum, o reconhecimento da dignidade do trabalho. Tais raízes favoreceram a subordinação do poder político à lei e ao respeito dos direitos da pessoa e dos povos. Importa recordar aqui o espírito da Grécia antiga e da romanidade, os contributos dos povos celtas, germânicos, eslavos, ugro-finlandeses, da cultura hebraica e do mundo islâmico. No entanto há que reconhecer que historicamente estas inspirações acharam, na tradição judaico-cristã, uma força capaz de as harmonizar, consolidar e promover. É um facto que não se pode ignorar; pelo contrário, é preciso reconhecer, no processo da construção da «  casa comum europeia  », que este edifício deve assentar também sobre valores que encontram na tradição cristã a sua plena epifania. Reconhecê-lo é vantajoso para todos.

Não sendo «  sua atribuição manifestar preferência por uma ou outra solução institucional ou constitucional  » da Europa, a Igreja coerentemente deseja respeitar a legítima autonomia da ordem civil.(34) Mas, é sua missão reavivar nos cristãos da Europa a fé na Santíssima Trindade, bem sabendo que uma tal fé é prenúncio de autêntica esperança para o continente. Muitos dos grandes paradigmas de referimento atrás mencionados, que estão na base da civilização europeia, têm as suas raízes últimas na fé trinitária. Esta contém uma extraordinária força espiritual, cultural e ética, capaz, para além do mais, de esclarecer inclusive algumas das grandes questões que hoje se levantam na Europa, tais como a desagregação social e a perda de uma referência que dê sentido à vida e à história. Daí a necessidade de uma renovada meditação teológica, espiritual e pastoral do mistério trinitário.(35)

20. As Igrejas particulares da Europa não são simplesmente entidades ou organizações privadas. Na realidade, elas trabalham no quadro duma dimensão institucional específica, que merece ser juridicamente valorizada no pleno respeito dos justos ordenamentos civis. Quando reflectem sobre si mesmas, as comunidades cristãs devem sentir-se como um dom de Deus para o enriquecimento dos povos que vivem no continente. Tal é o jubiloso anúncio que são chamadas a levar a cada pessoa. Quando aprofundam a sua dimensão missionária, elas devem testemunhar constantemente que Jesus Cristo «  é o Mediador único e constitutivo de salvação para a humanidade inteira: só n'Ele é que a humanidade, a história e o universo encontram definitivamente o seu significado positivo e se realizam totalmente; Ele tem em Si mesmo, na sua acção e na sua pessoa, as razões definitivas da salvação; Ele não é apenas um mediador de salvação, mas é a própria fonte da salvação  ».(36)

No contexto do pluralismo ético e religioso actual que vai caracterizando cada vez mais a Europa, é preciso, por conseguinte, confessar e repropor a verdade de Cristo como único Mediador entre Deus e os homens e único Redentor do mundo. Por isso, como fiz no termo da Assembleia Sinodal, com toda a Igreja convido os meus irmãos e irmãs na fé a procurarem constantemente e com confiança abrir-se a Cristo e a deixarem-se renovar por Ele, anunciando, unicamente com a força da paz e do amor, a todas as pessoas de boa vontade que, quem encontra o Senhor, conhece a Verdade, descobre a Vida, acha o Caminho que a ela conduz (cf. Jo 14, 6; Sal 16/15, 11). A partir do teor de vida e do testemunho da palavra dos cristãos, os habitantes da Europa poderão descobrir que Jesus Cristo é o futuro do homem. Segundo a fé da Igreja, de facto, «  não há debaixo do céu qualquer outro nome dado aos homens que nos possa salvar  » (Act 4, 12).(37)

21. Para os crentes, Jesus Cristo é a esperança da humanidade, porque dá a vida eterna. Ele é «  o Verbo da vida  » (1 Jo 1, 1), que veio ao mundo para que os homens «  tenham vida, e a tenham em abundância  » (Jo 10, 10). Deste modo Ele mostra-nos como o verdadeiro sentido da vida do homem não está confinado ao horizonte terreno, mas abre-se para a eternidade. É missão de cada Igreja particular da Europa ter em conta a sede de verdade dos indivíduos e a necessidade de valores autênticos que animem os povos do continente. Com renovada energia, ela deve repropor a novidade que a anima; trata-se de concretizar uma acção cultural e missionária bem articulada, capaz de demonstrar com gestos e argumentos convincentes que a nova Europa precisa de reencontrar as suas raízes últimas. Neste âmbito, todos aqueles que se inspiram nos valores evangélicos têm uma função essencial a desempenhar e que diz respeito ao fundamento sólido sobre o qual se há-de edificar uma convivência mais humana e pacífica porque respeitadora de todos e de cada um.

É necessário que as Igrejas particulares da Europa saibam devolver à esperança a sua fundamental componente escatológica.(38) De facto, a verdadeira esperança cristã é teologal e escatológica, fundada sobre Jesus ressuscitado, que de novo há-de vir como Redentor e Juiz e nos chama à ressurreição e ao prémio eterno.

Jesus Cristo vivo na Igreja

22. Voltando a Cristo, os povos europeus poderão reencontrar a única esperança que lhes dá plenitude de sentido à vida. Também hoje O podem encontrar, porque Jesus está presente, vive e actua na sua Igreja: Ele está na Igreja e a Igreja está n'Ele (cf. Jo 15, 1ss.; Gal 3, 28; Ef 4, 15-16; Act 9, 5). Nela, em virtude do dom do Espírito Santo, continua incessantemente a sua obra salvífica.(39)

Com os olhos da fé, somos capazes de ver a presença misteriosa de Jesus nos diversos sinais que nos deixou. Está presente antes de mais nada na Sagrada Escritura, que fala d'Ele em todas as suas páginas (cf. Lc 24, 27. 44-47); de modo verdadeiramente único, porém, Ele está presente sob as espécies eucarísticas. Esta «  presença chama-se “real” não a título exclusivo como se as outras presenças não fossem “reais”, mas por excelência, porque é substancial, e porque por ela se torna presente Cristo completo, Deus e homem  ».(40) De facto, na Eucaristia «  estão contidos, verdadeira, real e substancialmente, o corpo e o sangue, conjuntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, Cristo completo  ».(41) «  Verdadeiramente a Eucaristia é mysterium fidei, mistério que supera os nossos pensamentos e só pode ser aceite pela fé  ».(42) Real é também a presença de Jesus nas outras acções litúrgicas da Igreja, que esta celebra em seu nome. Entre elas, contam-se os sacramentos, acções de Cristo, que Ele realiza por meio dos homens.(43)

Jesus está verdadeiramente presente no mundo ainda de outros modos, especialmente nos seus discípulos que, fiéis ao duplo mandamento da caridade, adoram Deus em espírito e verdade (cf. Jo 4, 24) e testemunham com a vida o amor fraterno que os identifica como discípulos do Senhor (cf. Mt 25, 31-46; Jo 13, 35; 15, 1-17).(44)

 

CAPÍTULO II

O EVANGELHO DA ESPERANÇA CONFIADO À IGREJA DO NOVO MILÉNIO

«  Desperta e reanima o resto que está para morrer  » (Ap 3, 2)

 

I. O Senhor chama à conversão

Jesus fala hoje às nossas Igrejas

23. «  Isto diz Aquele que tem na sua mão direita as sete estrelas e caminha no meio dos sete castiçais de ouro [...], o Primeiro e o Último, que esteve morto e reviveu [...], o Filho de Deus  » (Ap 2, 1. 8. 18). É o próprio Jesus que fala à sua Igreja. A sua mensagem é dirigida a todas e cada uma das Igrejas particulares e diz respeito à sua vida interna, a qual regista às vezes a presença de concepções e mentalidades incompatíveis com a tradição evangélica, suporta frequentemente diversas formas de perseguição e, pior ainda, é tentada por preocupantes sintomas de mundanização, perda da fé primitiva, cedência à lógica do mundo. Não é raro ver as comunidades já sem o amor de outrora (cf. Ap 2, 4).

É fácil constatar fraquezas, cansaços, contradições com que se debatem as nossas comunidades eclesiais. Também elas têm necessidade de ouvir de novo a voz do Esposo, que as convida à conversão, desafia-as a ousarem coisas novas e chama-as a comprometerem-se na grande obra da «  nova evangelização  ». A Igreja deve submeter-se constantemente ao julgamento da palavra de Cristo e viver a sua dimensão humana num estado de purificação para tornar-se cada vez mais e melhor a Esposa sem mancha nem rugas, adornada com uma veste de linho puro e resplandecente (cf. Ef 5, 27; Ap 19, 7-8).

Deste modo Jesus Cristo chama as nossas Igrejas na Europa à conversão e estas, com o seu Senhor e a força da sua presença, tornam-se fonte de esperança para a humanidade.

A acção do Evangelho ao longo da história

24. A Europa foi ampla e profundamente penetrada pelo cristianismo. «  Não há dúvida que, na complexa história europeia, o cristianismo representa um elemento central e qualificador, consolidado sobre a base firme da herança clássica e das numerosas contribuições fornecidas pelos diversos fluxos étnico-culturais verificados ao longo dos séculos. A fé cristã plasmou a cultura do continente e entrelaçou-se inextricavelmente com a sua história, de tal forma que esta não seria compreensível se não se referisse aos acontecimentos que caracterizaram primeiro o grande período da evangelização e, depois, os longos séculos em que o cristianismo, apesar da dolorosa divisão entre Oriente e Ocidente, se confirmou como religião dos próprios europeus. Mesmo no período moderno e contemporâneo em que a unidade religiosa se fragmentou ainda mais, tanto pelas novas divisões havidas entre os cristãos como pelos processos que levaram a cultura a separar-se do horizonte da fé, o papel desta última continuou a ser de grande relevo  ».(45)

25. O interesse que a Igreja nutre pela Europa nasce da sua própria natureza e missão. Ao longo dos séculos, de facto, a Igreja manteve laços muito estreitos com o nosso continente, de tal modo que o rosto espiritual da Europa se foi formando graças aos esforços de grandes missionários, ao testemunho de santos e mártires e ao trabalho incansável de monges, religiosos e pastores. Da concepção bíblica do homem, a Europa tirou o melhor da sua cultura humanista, recebeu inspiração para as suas criações intelectuais e artísticas, elaborou normas de direito e, não menos importante, promoveu a dignidade da pessoa, fonte de direitos inalienáveis.(46) Deste modo a Igreja, enquanto depositária do Evangelho, concorreu para difundir e consolidar aqueles valores que tornaram universal a cultura europeia.

Consciente disso, a Igreja actual sente, com renovada responsabilidade, a urgência de não dissipar este precioso património mas ajudar a Europa a construir-se a si mesma revitalizando as raízes cristãs que lhe deram origem.(47)

Para realizar um verdadeiro rosto de Igreja

26. Que a Igreja inteira da Europa sinta dirigida a si mesma este mandamento e convite do Senhor: arrepende-te, converte-te, «  desperta e reanima o resto que está para morrer  » (Ap 3, 2)! É uma exigência que nasce também da observação do tempo actual: «  A grave situação de indiferença religiosa de tantos europeus, a presença de muitos que, mesmo no nosso continente, ainda não conhecem Jesus Cristo e a sua Igreja nem são baptizados, o secularismo que contagia uma ampla faixa de cristãos que habitualmente pensam, decidem e vivem “como se Cristo não existisse”, longe de extinguirem a nossa esperança, tornam-na mais humilde e mais capaz de confiar só em Deus. Da sua misericórdia recebemos a graça e o empenho da conversão  ».(48)

27. Apesar de poder parecer às vezes, como sucedeu no episódio evangélico da tempestade acalmada (cf. Mc 4, 35-41; Lc 8, 22-25), que Cristo dorme e deixa a sua barca à mercê das ondas impetuosas, é pedido à Igreja da Europa que cultive a certeza de que o Senhor, através do dom do seu Espírito, está sempre presente e activo nela e na história da humanidade. Ele prolonga no tempo a sua missão, fazendo da Igreja uma corrente de vida nova que flui dentro da vida da humanidade como sinal de esperança para todos.

Num contexto onde é fácil sentir a tentação do activismo mesmo a nível pastoral, é pedido aos cristãos da Europa que continuem a ser uma transparência real do Ressuscitado, vivendo em comunhão íntima com Ele. Há necessidade de comunidades que, contemplando e imitando a Virgem Maria, figura e modelo da Igreja na fé e na santidade,(49) preservem o sentido da vida litúrgica e da vida interior. Deverão antes de mais nada e sobretudo louvar o Senhor, invocá-Lo, adorá-Lo e escutar a sua Palavra. Só assim poderão assimilar o seu mistério, vivendo totalmente orientadas para Ele, como membros da sua Esposa fiel.

28. Perante os repetidos incitamentos à divisão e hostilidade, as várias Igrejas particulares da Europa, fortalecidas nomeadamente pela sua união com o Sucessor de Pedro, devem esforçar-se por ser um verdadeiro espaço e instrumento de comunhão de todo o povo de Deus na fé e no amor.(50) Por isso, cultivem um clima de caridade fraterna, vivida na sua radicalidade evangélica em nome de Jesus e no seu amor; criem um ambiente impregnado de relações amigas, intercomunicação, corresponsabilidade, solidariedade, consciência missionária, atenção e serviço; sejam animadas por atitudes de estima, acolhimento e correcção mútua (cf. Rm 12, 10; 15, 7-14), e atitudes também de serviço e apoio recíproco (cf. Gl 5, 13; 6, 2), de perdão (cf. Col 3, 13) e edificação mútua (cf. 1 Ts 5, 11); empenhem-se na realização duma pastoral que, valorizando todas as legítimas diversidades, promova também uma cordial colaboração entre todos os fiéis e as suas associações; relancem os organismos de participação enquanto preciosos instrumentos de comunhão para uma harmónica acção missionária, suscitando a presença de agentes pastorais adequadamente preparados e qualificados. Deste modo as próprias Igrejas, animadas pela comunhão que é manifestação do amor de Deus, fundamento e razão da esperança que não desilude (cf. Rm 5, 5), serão reflexo mais esplendoroso da Santíssima Trindade e também sinal que interpela e convida a crer (cf. Jo 17, 21).

29. Para que a comunhão da Igreja possa ser vivida mais plenamente, é preciso valorizar a variedade dos carismas e das vocações de modo que convirjam cada vez mais para a unidade e possam enriquecê-la (cf. 1 Cor 12). Nesta perspectiva, é necessário por um lado que os novos movimentos e as novas comunidades eclesiais, «  pondo de parte toda a tentação de reivindicar direitos de primogenitura e toda a incompreensão mútua  », avancem pelo caminho duma comunhão mais autêntica entre si e com todas as outras realidades eclesiais e «  vivam com amor e em plena obediência aos Bispos  »; e por outro lado que os Bispos, «  manifestando-lhes aquela paternidade e aquele amor que são próprios dos pastores  »,(51) saibam reconhecer, valorizar e coordenar os seus carismas e a sua presença em ordem à edificação da única Igreja.

De facto, com o crescimento da colaboração entre as diversas realidades eclesiais sob a guia amorosa dos pastores, a Igreja inteira poderá apresentar a todos um rosto mais belo e credível, transparência mais clara do rosto do Senhor, e assim contribuir para dar esperança e consolação quer àqueles que a procuram quer a quantos, mesmo não a buscando, carecem dela.

Para poder responder ao apelo do Evangelho à conversão, «  é necessário que todos juntos façamos um humilde e corajoso exame de consciência para reconhecer os nossos temores e os nossos erros, para confessar com sinceridade as nossas lentidões, omissões, infidelidades e culpas  ».(52) Longe de favorecer atitudes abdicadoras que levam ao desânimo, o reconhecimento evangélico das próprias culpas não poderá deixar de suscitar na comunidade a mesma experiência que sente o indivíduo baptizado: a alegria duma profunda libertação e a graça dum recomeço, que permite prosseguir com maior vigor no caminho da evangelização.

Para avançar rumo à unidade dos cristãos

30. O Evangelho da esperança é também estímulo e apelo à conversão no âmbito ecuménico. Na certeza de que a unidade dos cristãos corresponde à vontade do Senhor, tendo Ele rezado «  para que todos sejam um só  » (cf. Jo 17, 11), e de que aquela aparece actualmente como uma necessidade para haver maior credibilidade na evangelização e um contributo para a unidade da Europa, é preciso que todas as Igrejas e Comunidades eclesiais «  sejam ajudadas e estimuladas a considerar o caminho ecuménico como um “caminhar juntos” para Cristo  » (53) e para a unidade visível por Ele desejada, de tal modo que a unidade na diversidade brilhe na Igreja como dom do Espírito Santo, artífice de comunhão.

Para que isto se torne realidade, é preciso um esforço paciente e constante de todos, animado por uma esperança autêntica e simultaneamente um sóbrio realismo, tendente à «  valorização do que já nos une, à sincera estima recíproca, à eliminação dos preconceitos, ao conhecimento e amor mútuos  ».(54) Nesta linha, para que o trabalho pela unidade esteja apoiado em alicerces sólidos, há-de incluir a busca apaixonada da verdade, através de um diálogo e confronto que, reconhecendo os resultados alcançados até agora, saiba valorizá-los como estímulo para prosseguir na superação das divergências que ainda dividem os cristãos.

31. Impõe-se continuar com determinação o diálogo, sem render-se às dificuldades e cansaços: o diálogo seja realizado «  sob vários aspectos (doutrinal, espiritual e prático) e segundo a lógica de intercâmbio dos dons que o Espírito suscita em cada Igreja, educando as comunidades e os fiéis, principalmente os jovens, a viverem momentos de encontro e a fazerem do ecumenismo, rectamente entendido, uma dimensão ordinária da vida e da acção eclesial  ».(55)

Este diálogo constitui uma das principais preocupações da Igreja, sobretudo nesta Europa que, depois de ter visto nascer demasiadas divisões entre os cristãos no passado milénio, se encaminha hoje para uma maior unidade. Não podemos deter-nos neste caminho, nem voltar para trás! Temos de continuar o diálogo e vivê-lo com confiança porque a estima recíproca, a busca da verdade, a colaboração na caridade e sobretudo o ecumenismo da santidade não poderão deixar de dar, com a ajuda de Deus, os seus frutos.

32. Apesar das inevitáveis dificuldades, convido todos a reconhecerem e valorizarem, com amor e fraternidade, o contributo que as Igrejas Católicas Orientais podem oferecer para uma efectiva edificação da unidade pelo simples facto da sua presença, a riqueza da sua tradição, o testemunho da sua «  unidade na diversidade  », a inculturação por elas realizada no anúncio do Evangelho, a diversidade dos seus ritos.(56) Ao mesmo tempo, desejo uma vez mais asseverar aos pastores, aos irmãos e irmãs das Igrejas Ortodoxas que a nova evangelização não deve de modo algum ser confundida com o proselitismo, sem com isto negar o dever do respeito da verdade, liberdade e dignidade de cada pessoa.

II. A Igreja inteira enviada em missão

33. Servir o Evangelho da esperança com uma caridade que evangeliza é obrigação e responsabilidade de todos. De facto, seja qual for o carisma e o ministério de cada um, a caridade é a estrada mestra apontada a todos e que todos podem percorrer: é a estrada que toda a comunidade eclesial é chamada a percorrer seguindo as pegadas do seu Mestre.

O empenho dos ministros ordenados

34. Em virtude do seu ministério, os sacerdotes são chamados de um modo especial a celebrar, ensinar e servir o Evangelho da esperança. Graças ao sacramento da Ordem que os configura com Cristo, Cabeça e Pastor, os Bispos e os sacerdotes devem conformar toda a sua vida e actividade com Jesus; mediante a pregação da Palavra, a celebração dos sacramentos e a condução da comunidade cristã, tornam presente o mistério de Cristo e, através do próprio exercício do seu ministério, «  são chamados a prolongar a presença de Cristo, único e sumo Pastor, actualizando o seu estilo de vida e tornando-se como que a sua transparência no meio do rebanho a eles confiado  ».(57)

Inseridos «  no  » mundo mas não sendo «  do  » mundo (cf. Jo 17, 15-16), os sacerdotes são chamados, na actual situação cultural e espiritual do continente europeu, a ser sinal de contradição e de esperança para uma sociedade que sofre de horizontalismo e necessita de abrir-se ao Transcendente.

35. Neste quadro, adquire importância também o celibato sacerdotal, sinal de uma esperança deposta totalmente no Senhor. Não se trata de simples disciplina eclesiástica imposta pela autoridade; pelo contrário, aquele é primariamente uma graça, um dom inestimável de Deus à Igreja, valor profético para o mundo actual, fonte de intensa vida espiritual e de fecundidade pastoral, testemunho do Reino escatológico, sinal do amor de Deus por este mundo e ainda do amor indiviso do sacerdote para com Deus e o seu povo.(58) Vivido como resposta ao dom de Deus e superação das tentações duma sociedade hedonista, o celibato não só favorece a realização humana de quem é chamado, mas revela-se um factor de crescimento também para os outros.

Considerado em toda a Igreja como conveniente ao sacerdócio,(59) exigido como obrigação pela Igreja Latina,(60) sumamente respeitado pelas Igrejas Orientais,(61) o celibato revela-se, no âmbito da cultura actual, um sinal eloquente que deve ser preservado como bem precioso para a Igreja. Uma revisão da disciplina actual em tal matéria não permitiria resolver a crise de vocações ao presbiterado que se verifica em muitas partes da Europa.(62) Um empenho ao serviço do Evangelho da esperança requer também que, na Igreja, se tenha a peito apresentar o celibato em toda a sua riqueza bíblica, teológica e espiritual.

36. Não podemos ignorar que actualmente o exercício do ministério sagrado encontra não poucas dificuldades, devidas quer à cultura reinante quer à diminuição numérica dos próprios presbíteros com o aumento de encargos pastorais e o cansaço que isso pode comportar. Consequentemente, são ainda mais dignos de estima, gratidão e solidariedade os sacerdotes que vivem, com dedicação e fidelidade admirável, o ministério que lhes foi confiado.(63)

Retomando as palavras escritas pelos padres sinodais, desejo fazer-lhes chegar, com confiança e gratidão, o meu encorajamento: «  Não desanimeis, nem vos deixeis dominar pelo cansaço; em plena comunhão connosco, os Bispos, em jubilosa fraternidade com os outros presbíteros, em cordial corresponsabilidade com os consagrados e todos os fiéis-leigos, continuai a vossa obra preciosa e insubstituível  ».(64)

Com os presbíteros, desejo recordar também os diáconos, que, embora em grau diverso, participam do mesmo sacramento da Ordem. Colocados ao serviço da comunhão eclesial, exercem, sob a guia do Bispo e com o seu presbitério, a «  diaconia  » da liturgia, da palavra e da caridade.(65) E desta forma que lhes é própria, também eles estão ao serviço do Evangelho da esperança.

O testemunho dos consagrados

37. Particularmente eloquente é o testemunho das pessoas consagradas. A este respeito, há que reconhecer antes de mais nada o papel fundamental que teve o monaquismo e a vida consagrada na evangelização da Europa e na construção da sua identidade cristã.(66) O seu contributo não deve faltar hoje, num tempo em que é urgente uma «  nova evangelização  » do continente e em que a edificação de estruturas e laços mais complexos o obriga a uma viragem delicada. A Europa tem sempre necessidade da santidade, da profecia, da actividade de evangelização e serviço das pessoas consagradas. É de assinalar também o contributo específico que os Institutos Seculares e as Sociedades de Vida Apostólica podem oferecer na sua aspiração de transformar o mundo a partir de dentro através da força das bem-aventuranças.

38. O contributo específico que as pessoas consagradas podem oferecer ao Evangelho da esperança tem como ponto de partida alguns aspectos que caracterizam a actual fisionomia cultural e social da Europa.(67) Assim, a busca de novas formas de espiritualidade, que hoje surge na sociedade, deve encontrar uma resposta no reconhecimento do primado absoluto de Deus, vivido pelos consagrados através da sua doação total e da conversão permanente duma existência oferecida como verdadeiro culto espiritual. Num meio contaminado pelo secularismo e dominado pelo consumismo, a vida consagrada, dom do Espírito Santo à Igreja e pela Igreja, torna-se sinal de esperança na medida em que testemunha a dimensão transcendente da existência. Por outro lado, na situação pluricultural e plurirreligiosa de hoje, urge o testemunho da fraternidade evangélica que caracteriza a vida consagrada, fazendo dela um estímulo para a purificação e a integração de valores diversos através da superação dos contrastes. A presença de novas formas de pobreza e marginalização deve suscitar a criatividade no cuidado pelos mais necessitados, que caracterizou muitos fundadores de institutos religiosos. Por último, uma certa tendência a fechar-se sobre si mesmo precisa de encontrar um antídoto na disponibilidade das pessoas consagradas a continuarem a obra de evangelização noutros continentes, apesar da diminuição numérica que se verifica em vários Institutos.

O cuidado das vocações

39. Uma vez que é determinante o serviço dos ministros ordenados e dos consagrados, não se pode ignorar a carência inquietante de seminaristas e de aspirantes à vida religiosa, sobretudo na Europa ocidental. Esta situação requer o esforço de todos para uma adequada pastoral das vocações. Sabemos que, «  quando é apresentada aos jovens a pessoa de Jesus Cristo em toda a sua plenitude, acende-se neles uma esperança que os impele a deixarem tudo para O seguir, respondendo à sua chamada, e dar testemunho d'Ele aos seus coetâneos  » .(68) Por isso, o cuidado das vocações é um problema vital para o futuro da fé cristã na Europa e, consequentemente, para o progresso espiritual dos próprios povos que nela habitam; é passagem obrigatória numa Igreja que deseje anunciar, celebrar e servir o Evangelho da esperança.(69)

40. Para desenvolver uma pastoral vocacional como é necessário, ocorre explicar aos fiéis a fé da Igreja sobre a natureza e a dignidade do sacerdócio ministerial; encorajar as famílias a viverem como verdadeiras «  igrejas domésticas  », para que nelas seja possível ouvir, acolher e seguir as diferentes vocações; realizar uma acção pastoral que ajude, sobretudo os jovens, a fazer opções por uma vida radicada em Cristo e totalmente dedicada à Igreja.(70)

Na certeza de que o Espírito Santo continua ainda hoje operante, não faltando os sinais da sua presença, trata-se antes de mais nada de introduzir o anúncio vocacional nos sulcos da pastoral ordinária. Por isso, é necessário «  reavivar, sobretudo nos jovens, uma profunda nostalgia de Deus, criando assim o contexto adequado para o desabrochar de generosas respostas vocacionais  »; é urgente que um grande movimento de oração atravesse as Comunidades eclesiais do continente europeu, porque «  as novas condições históricas e culturais exigem que a pastoral das vocações seja vista como um dos objectivos primários de toda a comunidade cristã  ».(71) E é indispensável que os próprios sacerdotes vivam e actuem de forma coerente com a sua verdadeira identidade sacramental. De facto, se a imagem que dão de si mesmos for opaca ou esvaída, como poderão atrair os jovens ao mesmo estilo de vida?

A missão dos leigos

41. É imprescindível o contributo dos fiéis-leigos para a vida eclesial; têm na verdade um lugar insubstituível no anúncio e serviço do Evangelho da esperança, porque, «  por meio deles, a Igreja de Cristo torna-se presente nos mais diversos sectores do mundo, como sinal e fonte de esperança e de amor  ».(72) Participantes de pleno direito na missão da Igreja no mundo, os fiéis-leigos são chamados a mostrar como a fé cristã constitui a única resposta cabal às questões que a vida põe a todo o homem e a cada sociedade, e a introduzir no mundo os valores do Reino de Deus, promessa e garantia duma esperança que não desilude.

A Europa de ontem e de hoje conhece presenças significativas e exemplos luminosos de tais figuras laicais. Como sublinharam os padres sinodais, hão-de ser recordados com gratidão, entre outros, os homens e mulheres que testemunharam e testemunham Cristo e o seu Evangelho através do serviço à vida pública e às responsabilidades que esta comporta. É de importância capital «  suscitar e apoiar vocações específicas para o serviço do bem comum: pessoas que, a exemplo e com o estilo de quantos são chamados “pais da Europa”, saibam ser artífices da sociedade europeia de amanhã, fundamentando-a sobre as bases sólidas do espírito  ».(73)

Apreço igual é devido à obra prestada por leigas e leigos cristãos, passando frequentemente despercebida na vida ordinária, em serviços humildes mas capazes de anunciar a misericórdia de Deus àqueles que sofrem a pobreza; devemos ser-lhes gratos pelo corajoso testemunho de caridade e perdão, valores estes que evangelizam os amplos horizontes da política, da realidade social, da economia, da cultura, da ecologia, da vida internacional, da família, da educação, das profissões liberais, do emprego e do sofrimento.(74) Para isso, são precisos itinerários pedagógicos que tornem os fiéis-leigos idóneos a aplicarem a fé nas realidades temporais. Tais percursos baseados sobre tirocínios sérios de vida eclesial e de modo especial sobre o estudo da doutrina social, devem poder fornecer-lhes não apenas doutrina e motivações, mas também adequadas linhas de espiritualidade que animem o compromisso vital como autêntico caminho de santidade.

O papel da mulher

42. A Igreja está ciente do contributo específico da mulher para o serviço do Evangelho da esperança. A história da comunidade cristã atesta que as mulheres sempre tiveram um lugar de relevo no testemunho do Evangelho. Recorde-se tudo o que elas fizeram, muitas vezes em silêncio e sem dar nas vistas, para acolher e transmitir o dom de Deus, seja mediante a maternidade física e espiritual, a acção educativa, a catequese, a realização de grandes obras de caridade, seja através da vida de oração e contemplação, das experiências místicas e da redacção de escritos ricos de sabedoria evangélica.(75)

À luz dos valiosos testemunhos do passado, a Igreja exprime a sua confiança naquilo que as mulheres podem fazer hoje pelo crescimento da esperança a todos os níveis. Há aspectos da sociedade europeia contemporânea que constituem um desafio para a capacidade tenaz e desinteressada que as mulheres têm de acolher, partilhar e gerar no amor. Basta pensar, por exemplo, na generalizada mentalidade técnico

científica que deixa na sombra a dimensão afectiva e a função dos sentimentos, na carência de generosidade, no frequente receio de dar a vida a novas criaturas, na dificuldade de viver uma relação de reciprocidade com o outro e de acolher quem é diverso. É neste contexto que a Igreja espera das mulheres o contributo vivificante duma nova onda de esperança.

43. Mas para que isto se verifique, é necessário, a começar pela Igreja, que seja promovida a dignidade da mulher, porque são idênticas a dignidade da mulher e a do homem, criados ambos à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 27) e enriquecidos cada um de dons próprios e particulares.

Para favorecer a plena participação da mulher na vida e missão da Igreja, como foi sublinhado no Sínodo, é desejável que os seus dotes sejam mais intensamente valorizados nomeadamente pela assunção das funções eclesiais reservadas por direito aos leigos. Há-de ser valorizada adequadamente também a missão da mulher como esposa e mãe e a sua dedicação à vida familiar.(76)

A Igreja não deixa de levantar a sua voz para denunciar as injustiças e violências perpetradas contra as mulheres, sejam quais forem o lugar e as circunstâncias em que aconteçam. Pede que sejam realmente aplicadas as leis que protegem a mulher e sejam adoptadas medidas eficazes contra o uso humilhante de imagens femininas na publicidade e contra o flagelo da prostituição; espera que o serviço prestado pela mãe – e de igual forma o que presta o pai – na vida doméstica seja considerado como contributo para o bem comum, através mesmo de formas de retribuição económica.

 

CAPÍTULO III

ANUNCIAR O EVANGELHO DA ESPERANÇA

«  Toma o livro aberto (...) e come-o  » (Ap 10, 8. 9)

 

I. Proclamar o mistério de Cristo

 

A Revelação dá sentido à história

44. A visão do Apocalipse fala-nos de «  um livro em forma de rolo, escrito por dentro e por fora, selado com sete selos  », que estava «  na mão direita d'Aquele que estava sentado sobre o trono  » (Ap 5, 1). Este texto contém o plano criador e salvador de Deus, o seu projecto detalhado sobre a realidade inteira, sobre as pessoas, as coisas, os acontecimentos. Nenhum ser criado, terrestre ou celeste, é capaz de «  abrir o livro e lê-lo  » (Ap 5, 3), ou seja, de compreender o seu conteúdo. No meio da confusão dos acontecimentos humanos, ninguém sabe indicar a direcção e o sentido último das coisas.

Só Jesus Cristo entra na posse do livro selado (cf. Ap 5, 6-7); apenas Ele é «  digno de tomar o livro e de abrir os seus selos  » (Ap 5, 9). De facto, Jesus é o único capaz de revelar e actuar o projecto de Deus, lá encerrado. Abandonado a si mesmo, o esforço do homem não consegue dar um sentido à história e às suas vicissitudes: a vida fica sem esperança. Só o Filho de Deus é capaz de dissipar as trevas e indicar a estrada.

O livro aberto é entregue a João e, através dele, à Igreja inteira. João é convidado a tomar o livro e comê-lo: «  Vai e toma o livro aberto da mão do anjo que está de pé sobre o mar e sobre a terra. (...) Toma, come-o  » (Ap 10, 8-9). Só depois de o ter assimilado em profundidade, é que poderá comunicá-lo adequadamente aos outros, aos quais é enviado com a ordem de «  profetizar outra vez a muitos povos, nações, línguas e reis  » (Ap 10, 11).

Necessidade e urgência do anúncio

45. O Evangelho da esperança, entregue à Igreja e por ela assimilado, precisa de ser diariamente anunciado e testemunhado. Esta é a vocação própria da Igreja em todos os tempos e lugares. Esta é também a missão da Igreja hoje na Europa. «  Evangelizar constitui, de facto, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar, ou seja, para pregar e ensinar, ser o canal do dom da graça, reconciliar os pecadores com Deus e perpetuar o sacrifício de Cristo na Santa Missa, que é o memorial da sua Morte e gloriosa Ressurreição  ».(77)

Igreja na Europa, a «  nova evangelização  » é a tarefa que te espera! Possas tu reaver o entusiasmo do anúncio! Sente dirigida a ti hoje, ao início do terceiro milénio, a súplica ouvida já nos alvores do primeiro milénio quando em visão apareceu a Paulo um macedónio que lhe pedia: «  Passa à Macedónia e vem ajudar-nos!  » (Act 16, 9). Mesmo não formulada ou até reprimida, esta é a súplica mais profunda e verdadeira que brota do coração dos europeus do nosso tempo, sedentos duma esperança que não desiluda. A ti, foi dado o dom desta esperança para que, por tua vez, a comuniques alegremente em todo o tempo e latitude. O anúncio de Jesus, que é o Evangelho da esperança, seja por conseguinte o teu título de glória e a tua razão de ser. Persevera, com renovado ardor, no mesmo espírito missionário que, a partir da pregação dos apóstolos Pedro e Paulo e ao longo destes vinte séculos, animou tantos santos e santas, autênticos evangelizadores do continente europeu.

Primeiro anúncio e anúncio renovado

46. Em várias partes da Europa, há necessidade do primeiro anúncio do Evangelho: aumenta o número das pessoas não baptizadas, seja pela consistente presença de imigrantes que pertencem a outras religiões, seja também porque famílias de tradição cristã não baptizaram os filhos devido ao jugo comunista ou a uma generalizada indiferença religiosa.(78) Com efeito, a Europa faz parte já daqueles espaços tradicionalmente cristãos, onde, para além duma nova evangelização, se requer em determinados casos a primeira evangelização.

A Igreja não pode subtrair-se ao dever dum corajoso diagnóstico, que lhe permita predispor as terapias mais oportunas. Mesmo no «  velho  » continente existem extensas áreas sociais e culturais, onde se torna necessária uma verdadeira e própria missio ad gentes.(79)

47. Depois, por toda a parte há necessidade de um renovado anúncio, mesmo para quem já está baptizado. Muitos europeus contemporâneos pensam que sabem o que é o cristianismo, mas realmente não o conhecem. Frequentemente ignoram os próprios rudimentos da fé. Muitos baptizados vivem como se Cristo não existisse: repetem-se gestos e sinais da fé sobretudo por ocasião das práticas de culto, mas sem a correlativa e efectiva aceitação do conteúdo da fé e adesão à pessoa de Jesus. Em muita gente, as grandes certezas da fé foram substituídas por um sentimento religioso vago e pouco empenhativo; difundem-se várias formas de agnosticismo e de ateísmo prático que concorrem para agravar a divergência entre a fé e a vida; muitos há que se deixaram contagiar pelo espírito de um humanismo imanentista que enfraqueceu a sua fé, levando-os com frequência, infelizmente, a abandoná-la completamente; assiste-se a uma espécie de interpretação secularista da fé cristã, que a corrói, suscitando uma profunda crise da consciência e da prática moral cristã.(80) Os grandes valores, que inspiraram amplamente a cultura europeia, foram separados do Evangelho, perdendo assim a sua alma mais profunda e dando lugar a vários desvios.

«  Quando o Filho do Homem voltar, encontrará fé sobre a terra?  » (Lc 18, 8). Encontrá-la-á sobre estas terras da nossa Europa de antiga tradição cristã? É uma questão em aberto que indica claramente a profunda dramaticidade de um dos mais sérios desafios que as nossas Igrejas são chamadas a enfrentar. Pode-se dizer, como foi sublinhado no Sínodo, que frequentemente este desafio não consiste tanto em baptizar os novos convertidos, mas em levar os baptizados a converterem-se a Cristo e ao seu Evangelho: (81) nas nossas comunidades, é preciso preocupar-se seriamente em levar o Evangelho da esperança àqueles que estão longe da fé ou se afastaram da prática cristã.

Fidelidade à única mensagem

48. Para se poder anunciar o Evangelho da esperança, é necessária uma sólida fidelidade ao próprio Evangelho. Por isso, a pregação da Igreja, em todas as suas formas, deve ser cada vez mais centrada sobre a pessoa de Jesus e orientar sempre mais para Ele. É preciso vigiar para que seja apresentado na sua integridade: não só como modelo ético, mas primariamente como o Filho de Deus, o Salvador único e necessário de todos, que vive e actua na sua Igreja. Para que a esperança seja autêntica e inabalável, a «  pregação íntegra, clara e renovada de Jesus Cristo ressuscitado, da ressurreição e da vida eterna  »(82) deverá constituir uma prioridade na acção pastoral dos próximos anos.

Se o Evangelho a anunciar é idêntico em todos os tempos, são diversos os modos como tal anúncio pode ser realizado. Por conseguinte, cada um é convidado a «  proclamar  » Jesus e a fé n'Ele, em todas as circunstâncias; «  atrair  » os outros à fé, adoptando modos de vida pessoal, familiar, profissional e comunitária conformes ao Evangelho; «  irradiar  » alegria, amor e esperança ao seu redor, para que muitos, vendo as suas boas obras, glorifiquem o Pai que está nos Céus (cf. Mt 5, 16) e acabem «  contagiados  » e conquistados; tornar-se «  fermento  » que transforma e anima a partir de dentro toda a expressão cultural.(83)

Com o testemunho da vida

49. A Europa exige evangelizadores credíveis, cuja vida, em sintonia com a cruz e a ressurreição de Cristo, irradie a beleza do Evangelho.(84) Tais evangelizadores hão-de ser adequadamente formados.(85) Hoje torna-se ainda mais necessária a consciência missionária em todos os cristãos, a começar pelos Bispos, presbíteros, diáconos, consagrados, catequistas e professores de religião: «  Cada baptizado, enquanto testemunha de Cristo, deve obter a formação adequada à sua condição, não só para evitar que a fé definhe por falta de cuidado num ambiente hostil como é o do mundo, mas também para dar apoio e impulso ao testemunho evangelizador  ».(86)

O homem contemporâneo «  escuta com maior benevolência as testemunhas do que os mestres, ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas  ».(87) Por isso, são decisivas a presença e os sinais da santidade: esta é pressuposto essencial para uma autêntica evangelização, capaz de devolver a esperança. Precisa-se de testemunhos fortes, pessoais e comunitários, de vida nova em Cristo. É que não basta oferecer a verdade e a graça através da proclamação da Palavra e da celebração dos Sacramentos; é necessário acolhê-las e vivê-las em cada circunstância concreta, no modo de ser dos cristãos e das comunidades eclesiais. Esta é uma das maiores apostas que esperam a Igreja que está na Europa, neste início do novo milénio.

Formar para uma fé adulta

50. «  A situação cultural e religiosa actual da Europa exige a presença de católicos adultos na fé e de comunidades cristãs missionárias que testemunhem a caridade de Deus a todos os homens  ».(88) Por conseguinte, o anúncio do Evangelho da esperança supõe que haja o cuidado de promover a passagem de uma fé apoiada na tradição social, e que tem o seu valor, a uma fé mais pessoal e adulta, esclarecida e convicta.

Por isso, os cristãos são chamados a possuir uma fé que lhes permita confrontar-se criticamente com a cultura actual resistindo às suas seduções; influir eficazmente nos sectores culturais, económicos, sociais e políticos; mostrar que a comunhão entre os membros da Igreja Católica e com os outros cristãos é mais forte do que qualquer vínculo étnico; transmitir com alegria a fé às novas gerações; construir uma cultura cristã que possa evangelizar a cultura mais ampla em que vivemos.(89)

51. Além de cuidarem de que o ministério da Palavra, a celebração da liturgia e o exercício da caridade tenham em vista a edificação e fortalecimento duma fé matura e pessoal, é preciso que as comunidades cristãs procurem propor uma catequese adaptada aos diferentes itinerários espirituais dos fiéis segundo as respectivas idades e estados de vida, prevendo-se ainda adequadas formas de acompanhamento espiritual e de redescoberta do próprio baptismo.(90) Obviamente um ponto fundamental de referência neste trabalho há-de ser o Catecismo da Igreja Católica.

De modo particular, dada a sua inegável prioridade na acção pastoral, é preciso cultivar, e eventualmente reintroduzir, o ministério da catequese enquanto educação e desenvolvimento da fé de cada pessoa, para que a semente, lançada pelo Espírito Santo e transmitida no Baptismo, cresça e chegue à maturação. Referida constantemente à Palavra de Deus, conservada na Sagrada Escritura, proclamada na Liturgia e interpretada pela Tradição da Igreja, uma catequese orgânica e sistemática constitui, sem sombra de dúvida, um instrumento essencial e primário de formação dos cristãos para uma fé adulta.(91)

52. Nesta mesma linha, há que assinalar também a função importante da teologia. De facto, existe um nexo intrínseco e indivisível entre a evangelização e a reflexão teológica, porque esta, apesar de ciência com um estatuto e metodologia próprios, vive da fé da Igreja e está ao serviço da sua missão.(92) Nasce da fé e é chamada a interpretá-la, mantendo a sua ligação imprescindível com a comunidade cristã em todas as suas articulações; posta ao serviço do crescimento espiritual de todos os fiéis,(93) a teologia introdu-los na compreensão profunda da mensagem de Cristo.

No cumprimento da sua missão de anunciar o Evangelho da esperança, a Igreja na Europa vê com apreço e gratidão a vocação dos teólogos, valoriza e promove o seu trabalho.(94) Com estima e afecto, convido-os a perseverarem no serviço que realizam, unindo sempre pesquisa científica e oração, mantendo um diálogo atencioso com a cultura contemporânea, aderindo fielmente ao Magistério e colaborando com ele em espírito de comunhão na verdade e na caridade, respirando o sensus fidei do povo de Deus e ajudando a alimentá-lo.

 

II. Dar testemunho na unidade e no diálogo

A comunhão entre as Igrejas particulares

53. O anúncio do Evangelho da esperança será mais forte e eficaz, se puder contar com o testemunho duma profunda unidade e comunhão na Igreja. Cada uma das Igrejas particulares não pode enfrentar sozinha o desafio que a espera. Há necessidade duma autêntica colaboração entre todas as Igrejas particulares do continente, que seja expressão da sua comunhão essencial; colaboração essa requerida também pela nova realidade europeia.(95) Coloca-se neste âmbito o contributo dos organismos eclesiais do continente, a começar pelo Conselho das Conferências Episcopais Europeias. Trata-se dum instrumento eficaz para uma busca conjunta do caminhos mais idóneos para evangelizar a Europa.(96) Com o «  intercâmbio dos dons  » entre as diversas Igrejas particulares, põem-se em comum as experiências e reflexões da Europa do Ocidente e do Oriente, do Norte e do Sul, assumindo orientações pastorais comuns; por isso, o referido Conselho tem-se revelado uma expressão sempre mais significativa do sentimento colegial entre os Bispos do continente, para juntos anunciarem, com ousadia e fidelidade, o nome de Jesus Cristo, única fonte de esperança para todos na Europa.

Unidos com todos os cristãos

54. Ao mesmo tempo, apresenta-se como um imperativo irrenunciável o dever duma fraterna e convicta colaboração ecuménica.

O êxito da evangelização está estreitamente relacionado com o testemunho de unidade que todos os discípulos de Cristo conseguirem dar: «  Todos os cristãos são chamados a desempenhar esta missão de acordo com a própria vocação. A tarefa da evangelização compreende o comportamento de um com o outro e o comportamento conjunto dos cristãos, que deve partir do interior; evangelização e unidade, evangelização e ecumenismo estão indissoluvelmente ligados entre si  ».(97) Lembro aqui as palavras escritas por Paulo VI ao Patriarca ecuménico Atenágoras I: «  Possa o Espírito Santo guiar-nos no caminho da reconciliação, para que a unidade das nossas Igrejas se torne um sinal cada vez mais luminoso de esperança e de conforto para toda a humanidade  ».(98)

Em diálogo com as outras religiões

55. Como sucede em todo o serviço da «  nova evangelização  », também é necessário, no anúncio do Evangelho da esperança, que se procure instaurar um profundo e lúcido diálogo inter-religioso, de modo particular com o hebraísmo e o islamismo. Este diálogo, «  entendido como método e meio para um conhecimento e enriquecimento recíproco, não está em contraposição com a missão ad gentes; pelo contrário, tem laços especiais com ela e constitui uma sua expressão  ».(99) Praticar o referido diálogo não significa deixar-se conquistar por uma «  mentalidade de indiferentismo, muito difundida infelizmente também entre os cristãos, frequentemente radicada em concepções teológicas incorrectas e geradora de um relativismo religioso que leva a pensar que “tanto vale uma religião como outra”  ».(100)

56. Trata-se, antes, de tomar uma consciência mais viva dos laços que unem a Igreja ao povo hebreu e do papel singular de Israel na história da salvação. Como se dissera já na I Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa e foi reiterado no último Sínodo, é preciso reconhecer as raízes comuns que existem entre o cristianismo e o povo hebreu, chamado por Deus a uma aliança que permanece irrevogável (cf. Rm 11, 29),(101) tendo alcançado a sua plenitude definitiva em Cristo.

Por isso, é necessário promover o diálogo com o hebraísmo, sabendo que isso tem uma importância fundamental tanto para a autoconsciência cristã como para a superação das divisões entre as Igrejas, e trabalhar para que floresça uma nova primavera no relacionamento recíproco. Isto exige que cada comunidade eclesial procure, na medida em que as circunstâncias lho permitirem, praticar o diálogo e a colaboração com os crentes da religião hebraica. Uma tal prática requer, para além do mais, que «  se recorde a parte de responsabilidade que os filhos da Igreja possam ter tido na origem e difusão duma atitude antisemita na história e que se peça perdão a Deus disso mesmo, promovendo na medida do possível encontros de reconciliação e de amizade com os filhos de Israel  ».(102) Mas, neste contexto, é forçoso lembrar também os numerosos cristãos que, sobretudo em períodos de perseguição e por vezes à custa da própria vida, ajudaram e salvaram estes seus «  irmãos mais velhos  ».

57. Trata-se ainda de deixar-se estimular a um melhor conhecimento das outras religiões, para se poder instaurar um colóquio fraterno com as pessoas que aderem a elas e vivem actualmente na Europa. De modo particular, é importante um correcto relacionamento com o islamismo. Tal relacionamento, como várias vezes ao longo destes anos se deram conta os Bispos europeus, «  deve ser conduzido com prudência, com clareza de ideias acerca das suas possibilidades e dos seus limites, e com confiança no plano salvífico de Deus em relação a todos os seus filhos  ».(103) Para além do mais, é preciso ter consciência da notável diferença existente entre a cultura europeia, que tem profundas raízes cristãs, e o pensamento muçulmano.(104)

A tal propósito, é necessário preparar adequadamente os cristãos, que vivem diariamente em contacto com os muçulmanos, para conhecerem de modo objectivo o islamismo e saberem relacionar-se com ele; essa preparação deve ser dada particularmente aos seminaristas, aos presbíteros e a todos os agentes pastorais. Além disso é compreensível que a Igreja, quando pede às instituições europeias que tenham a peito promover a liberdade religiosa na Europa, insista ao mesmo tempo com países de diversa tradição religiosa, onde os cristãos são minoria, para uma reciprocidade de tratamento, isto é, ver lá garantida e observada a liberdade religiosa.(105)

Neste âmbito, «  compreende-se a desilusão e o sentimento de frustração dos cristãos que acolhem, por exemplo na Europa, crentes de outras religiões dando-lhes a possibilidade de exercerem o seu culto, e que se vêem proibidos de exercer o culto cristão  » (106) nos países onde tais crentes são a maioria tendo feito da sua religião a única autorizada e promovida. A pessoa humana tem direito à liberdade religiosa e, em qualquer parte do mundo, todos «  devem estar livres de coacção, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana  ».(107)

 

III. Evangelizar a vida social

 

Evangelização da cultura e inculturação do Evangelho

58. O anúncio de Jesus Cristo deve alcançar também a cultura europeia contemporânea. A evangelização da cultura deve mostrar que hoje, nesta Europa, também é possível viver em plenitude o Evangelho enquanto itinerário que dá sentido à existência. Para isso, a pastoral deve assumir a tarefa de plasmar uma mentalidade cristã na vida ordinária: na família, na escola, na comunicação social, no mundo da cultura, do trabalho e da economia, na política, nos tempos livres, na saúde e na doença. É preciso fazer uma serena análise crítica da situação cultural actual da Europa, avaliando as tendências salientes, os factos e as situações de maior relevância do nosso tempo à luz da centralidade de Cristo e da antropologia cristã.

Recordando a fecundidade cultural do cristianismo ao longo da história da Europa, também hoje é preciso mostrar a perspectiva evangélica, teórica e prática, da realidade e do homem. Além disso, considerando a grande relevância que têm as ciências e as realizações técnicas na cultura e na sociedade da Europa, a Igreja, através dos seus instrumentos de aprofundamento teórico e de iniciativa prática, é chamada a apresentar as suas sugestões acerca dos conhecimentos científicos e das suas aplicações, indicando o carácter insuficiente e inadequado duma concepção inspirada pelo cientismo, que pretende reconhecer como objectivamente válido apenas o saber experimental, e oferecendo os critérios éticos que o homem possui inscritos na sua natureza.(108)

59. No caminho da evangelização da cultura, coloca-se o importante serviço que realizam as escolas católicas. Há que trabalhar para que seja reconhecida uma efectiva liberdade de educação e a igualdade jurídica entre escolas estatais e não estatais. Estas são às vezes o único meio para apresentar a tradição cristã àqueles que andam longe da Igreja. Aos fiéis empenhados no mundo da escola, exorto-os a perseverarem na sua missão, irradiando a luz de Cristo Salvador nas suas específicas actividades educativas, científicas e académicas.(109) De modo particular, há que valorizar o contributo dos cristãos que se consagram à pesquisa e à docência nas Universidades: com o «  serviço do pensamento  », eles transmitem às jovens gerações os valores dum património cultural enriquecido por dois milénios de experiência humanista e cristã. Convicto da importância das instituições académicas, peço ainda que, nas diversas Igrejas particulares, seja promovida uma adequada pastoral universitária, favorecendo deste modo a resposta às necessidades culturais actuais.(110)

60. Não se pode esquecer também o contributo positivo da valorização dos bens culturais da Igreja. De facto, podem constituir um factor peculiar para suscitar de novo um humanismo de inspiração cristã. Com a sua adequada conservação e lúcido aproveitamento, tais bens, enquanto testemunho vivo da fé professada ao longo dos séculos, podem tornar-se um válido instrumento para a nova evangelização e a catequese, convidando a redescobrir o sentido do mistério.

Ao mesmo tempo, sejam promovidas novas expressões artísticas da fé, através de um diálogo assíduo com os cultores da arte.(111) Com efeito, a Igreja tem necessidade da arte, literatura, música, pintura, escultura e arquitectura, porque «  deve tornar perceptível e até o mais fascinante possível o mundo do espírito, do invisível, de Deus  » (112) e porque a beleza artística, como reflexo do Espírito de Deus, é um cifrado do mistério, um convite a buscar o rosto de Deus que se tornou visível em Jesus de Nazaré.

A educação dos jovens para a fé

61. Encorajo, depois, a Igreja na Europa a prestar crescente atenção à educação dos jovens para a fé. Quando se perscruta o futuro, o nosso pensamento não pode deixar de fixar-se neles: devemos encontrar-nos com a inteligência, o coração, o carácter dos jovens, para lhes oferecer uma sólida formação humana e cristã.

Em qualquer ocasião que registe a participação de muitos jovens, não é difícil descobrir a presença de diversas atitudes neles. Constata-se o desejo de estarem juntos para saírem do isolamento, uma sede mais ou menos consciente de absoluto; encontra-se neles uma fé secreta que pede para ser purificada pois deseja seguir o Senhor; intui-se a decisão de continuarem o caminho já abraçado e a exigência de partilharem a fé.

62. Para tal, é preciso renovar a pastoral juvenil, estruturando-a segundo as faixas etárias, adaptando-a às exigências próprias de crianças, adolescentes e jovens. Além disso, é necessário torná-la mais orgânica e coerente com as questões dos jovens ouvidos pacientemente para serem protagonistas da evangelização e da edificação da sociedade.

Neste caminho, devem-se promover ocasiões de encontro entre os jovens, nos quais se favoreça um clima de escuta mútua e de oração. Não é preciso ter medo de ser exigentes com eles no que se refere ao seu crescimento espiritual. Seja-lhes indicado o caminho da santidade, animando-os a tomarem decisões empenhativas no seguimento de Jesus, sustentados por uma intensa vida sacramental. Assim, poderão resistir às seduções duma cultura, que muitas vezes lhes propõe apenas valores efémeros ou mesmo contrários ao Evangelho, e tornarem-se eles próprios capazes de mostrar uma mentalidade cristã em todos os âmbitos da existência, incluindo os de divertimento e passatempo.(113)

Tenho ainda vivos nos olhos os rostos felizes de tantos jovens, verdadeira esperança da Igreja e do mundo, sinal eloquente do Espírito que não Se cansa de suscitar novas energias. Encontrei-os quer no meu peregrinar pelos vários países quer nas inesquecíveis Jornadas Mundiais da Juventude.(114)

A solicitude pelos mass-media

63. Vista a importância dos meios de comunicação social, a Igreja na Europa não pode deixar de reservar uma particular atenção ao variegado mundo dos mass-media. Isso comporta, para além do mais, a adequada formação dos cristãos que trabalham nos mass-media e dos seus utentes tendo por objectivo um bom domínio das novas linguagens. Há-de pôr-se um cuidado especial na escolha de pessoas preparadas para a comunicação da mensagem através dos mass-media. Será muito útil também um intercâmbio entre as Igrejas de informações e estratégias sobre os diversos aspectos e iniciativas relativos a tal comunicação. E não se deve transcurar a criação de meios locais, mesmo a nível paroquial, de comunicação social.

Ao mesmo tempo, é preciso entrar dentro dos processos da comunicação social, para torná-la mais respeitadora da verdade da informação e da dignidade da pessoa humana. A este propósito, convido os católicos a tomarem parte na elaboração de um código deontológico para todos os que trabalham no sector da comunicação social, deixando-se guiar pelos critérios recentemente indicados pelos organismos competentes da Santa Sé (115) e que os Bispos assim tinham elencado no Sínodo: «  Respeito pela dignidade da pessoa humana, pelos seus direitos, incluindo o direito à própria privacidade; serviço à verdade, à justiça e aos valores humanos, culturais e espirituais; estima pelas diversas culturas, evitando que se dissolvam na massa, tutela dos grupos minoritários e dos mais débeis; busca do bem comum, acima dos interesses particulares ou do predomínio de critérios meramente económicos  ».(116)

A missão «  ad gentes  »

64. Um anúncio de Jesus Cristo e do seu Evangelho, que se limitasse unicamente ao âmbito europeu, acusaria sintomas de uma inquietante carência de esperança. A obra de evangelização é animada por verdadeira esperança cristã, quando se abre para os horizontes universais, levando a oferecer gratuitamente a todos aquilo que, por nossa vez, tínhamos recebido em dom. A missão «  ad gentes  » torna-se assim expressão duma Igreja plasmada pelo Evangelho da esperança, que se renova e rejuvenesce sem cessar. Ao longo dos séculos, foi esta a consciência da Igreja na Europa: multidões sem conta de missionários e missionárias, saindo ao encontro de outros povos e civilizações, anunciaram o Evangelho de Jesus Cristo às nações do mundo inteiro.

Igual ardor missionário deve animar a Igreja na Europa actual. A diminuição do número de presbíteros e consagrados, em certos países, não deve impedir qualquer Igreja particular de assumir as exigências da Igreja universal. Cada uma procurará favorecer a preparação para a missão ad gentes, a fim de poder responder generosamente à solicitação que ainda se levanta de muitos povos e nações, desejosos de conhecer o Evangelho. As Igrejas doutros continentes, sobretudo da Ásia e da África, têm os olhos postos ainda nas Igrejas da Europa, esperando que elas continuem a cumprir a sua vocação missionária. Os cristãos na Europa não podem falhar à sua história.(117)

O Evangelho: livro para a Europa de hoje e de sempre

65. Ao cruzar a Porta Santa na abertura do Grande Jubileu do ano 2000, tinha bem erguido à vista da Igreja e do mundo o livro do Evangelho. Possa este gesto, realizado também por cada Bispo nas respectivas catedrais do mundo, indicar o compromisso que espera hoje e sempre a Igreja no nosso continente.

Igreja na Europa, entra no novo milénio com o Livro do Evangelho! Todos os fiéis acolham esta exortação conciliar: «  Aprendam “a sublime ciência de Jesus Cristo” (Fil 3, 8) com a leitura frequente das divinas Escrituras, porque “a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo”  ».(118) Que a Bíblia Sagrada continue a ser um tesouro para a Igreja e para cada cristão: no estudo cuidadoso da Palavra, encontraremos alimento e força para realizar quotidianamente a nossa missão.

Tomemos este Livro nas nossas mãos! Recebamo-lo do Senhor, que continuamente no-lo oferece através da sua Igreja (cf. Ap 10, 8). Comamo-lo (cf. Ap 10, 9), para que se torne vida da nossa vida. Saboreemo-lo profundamente: embora sem nos poupar canseiras, conseguirá dar-nos alegria porque é doce como o mel (cf. Ap 10, 9-10). Ficaremos cheios de esperança e capazes de comunicá-la a todo o homem e mulher que encontrarmos no nosso caminho.

 

CAPÍTULO IV

CELEBRAR O EVANGELHO DA ESPERANÇA

«  Ao que está sentado sobre o trono
 e ao Cordeiro sejam dadas
acções de graças, honra, glória e poder
para todo o sempre  »
(Ap 5, 13)

Uma comunidade orante

66. O Evangelho da esperança, anúncio da verdade que liberta (cf. Jo 8, 32), deve ser celebrado. Diante do Cordeiro do Apocalipse, tem início uma solene liturgia de louvor e de adoração: «  Ao que está sentado sobre o trono e ao Cordeiro sejam dadas acções de graças, honra, glória e poder para todo o sempre  » (Ap 5, 13). A própria visão, que revela Deus e o sentido da história, tem lugar «  no dia do Senhor  » (Ap 1, 10), o dia da ressurreição recordado pela assembleia dominical.

A Igreja, que acolhe esta revelação, é uma comunidade que reza. Ao rezar, escuta o seu Senhor e aquilo que o Espírito lhe diz (cf. Ap 2, 1-3. 22); adora, louva, agradece, e também implora a vinda do Senhor: «  Vem, Senhor Jesus!  » (Ap 22, 1620), afirmando deste modo que só d'Ele espera a salvação.

Também é pedido a ti, Igreja de Deus que vives na Europa, para seres comunidade que reza, celebrando o teu Senhor através dos sacramentos, da liturgia e da vida inteira. Na oração, descobrirás a presença vivificante do Senhor. Deste modo, enraizando n'Ele toda a tua acção, poderás propor de novo aos europeus o encontro com Ele mesmo, esperança verdadeira e única capaz de satisfazer plenamente o anseio de Deus, oculto nas diversas formas de busca religiosa que surgem na Europa contemporânea.

 

I. Redescobrir a liturgia

O sentido religioso na Europa actual

67. Apesar de haver vastas áreas de descristianização no continente europeu, existem todavia sinais que ajudam a esboçar o rosto de uma Igreja que, acreditando, anuncia, celebra e serve o seu Senhor. De facto, não faltam exemplos de cristãos autênticos que vivem momentos de silêncio contemplativo, participam fielmente em iniciativas espirituais, vivem na sua existência diária o Evan- gelho e testemunham-no nos vários sectores das suas obrigações. Além disso, podem-se divisar manifestações de um «  povo santo  » que demonstram como também é possível na Europa actual viver o Evangelho a nível pessoal e numa autêntica experiência comunitária.

68. A par de muitos exemplos de fé genuína, existe na Europa também uma religiosidade vaga e, por vezes, insidiosa. Os seus sinais são frequentemente genéricos e superficiais, se não mesmo contraditórios nas próprias pessoas que os fornecem. Trata-se de fenómenos evidentes de fuga para o espiritualismo, sincretismo religioso e esotérico, procura de factos extraordinários a todo o custo, chegando-se mesmo a opções transviadas, como a adesão a seitas perigosas ou a experiências pseudo-religiosas.

O generalizado desejo de alimento espiritual deve ser acolhido com compreensão e purificado. Ao homem que se dá conta, embora confusamente, de não poder viver só de pão, é necessário que a Igreja possa testemunhar de forma persuasiva a resposta que Jesus deu ao tentador: «  Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus  » (Mt 4, 4).

Uma Igreja que celebra

69. No contexto da sociedade actual, frequentemente fechada à transcendência, sufocada por comportamentos consumistas, presa fácil de antigas e novas idolatrias e, ao mesmo tempo, sedenta de algo que ultrapasse o imediato, a tarefa que espera a Igreja na Europa é simultaneamente árdua e entusiasmante. Tal tarefa consiste em redescobrir o sentido do «  mistério  »; renovar as celebrações litúrgicas para que sejam sinais mais eloquentes da presença de Cristo Senhor; proporcionar novos espaços de silêncio, oração e contemplação; voltar aos sacramentos, sobretudo à Eucaristia e à Penitência, como fontes de liberdade e de nova esperança.

Por isso, a ti, Igreja que vives na Europa, dirijo um premente convite: sê uma Igreja que reza, louva a Deus, reconhece-Lhe o primado absoluto e exalta-O com jubilosa fé. Redescobre o sentido do mistério: vive-o com humilde gratidão; testemunha-o com alegria convicta e contagiante. Celebra a salvação de Cristo: acolhe-a como um dom que faz de ti seu sacramento; faz da tua vida o verdadeiro culto espiritual agradável a Deus (cf. Rm 12, 1).

O sentido do mistério

70. Alguns sintomas revelam uma atenuação do sentido do mistério nas próprias celebrações litúrgicas, quando o objectivo destas é precisamente reforçá-lo. Por isso, é urgente que se reavive na Igreja o autêntico sentido da liturgia. Esta, como foi recordado pelos padres sinodais,(119) é instrumento de santificação, celebração da fé da Igreja, meio de transmissão da fé. Constitui, juntamente com a Sagrada Escritura e os ensinamentos dos Padres da Igreja, uma fonte viva de autêntica e sólida espiritualidade. Como bem salienta a tradição das venerandas Igrejas do Oriente, os fiéis, através da liturgia, entram em comunhão com a Santíssima Trindade, experimentando como dom da graça a sua participação na natureza divina. Ela torna-se assim antecipação da Bem-aventurança final e participação na glória celeste.

71. Nas celebrações, é preciso pôr novamente ao centro Jesus, para deixar-se iluminar e guiar por Ele. Podemos encontrar aqui uma das respostas mais eficazes que as nossas Comunidades são chamadas a dar a uma religiosidade vaga e inconsistente. A liturgia da Igreja não tem como objectivo aplacar os desejos e os medos do homem, mas escutar e acolher Jesus, o Vivente, que honra e louva o Pai, para louvá-Lo e honrá-Lo com Ele. As celebrações eclesiais proclamam que a nossa esperança vem de Deus, por meio de Jesus nosso Senhor.

Trata-se de viver a liturgia como obra da Santíssima Trindade. Nos mistérios celebrados, é o Pai que trabalha para nós; é Ele que nos fala, perdoa, escuta, dá o seu Espírito; a Ele nos dirigimos, a Ele escutamos, louvamos, invocamos. É Jesus que actua para a nossa santificação, tornando-nos participantes do seu mistério. É o Espírito Santo que age com a sua graça e faz de nós o Corpo de Cristo, a Igreja.

A liturgia deve ser vivida como anúncio e antecipação da glória futura, meta última da nossa esperança. De facto, como ensina o Concílio, «  pela liturgia da terra participamos, saboreando-a já, na liturgia celeste celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos dirigimos, (...) até Nosso Senhor Jesus Cristo aparecer como nossa vida e nós aparecermos com Ele na glória  ».(120)

Formação litúrgica

72. Se já tanta estrada se fez depois do Concílio Ecuménico Vaticano II para viver o sentido autêntico da liturgia, resta ainda muita por fazer. São necessárias uma contínua renovação e uma constante formação de todos: ordenados, consagrados e leigos.

A verdadeira renovação, longe de servir-se de actos arbitrários, consiste em desenvolver cada vez melhor a consciência do sentido do mistério, para fazer das liturgias momentos de comunhão com o mistério grande e sagrado da Santíssima Trindade. Celebrando as acções sagradas como relacionamento com Deus e acolhimento dos seus dons, expressão de autêntica vida espiritual, a Igreja na Europa poderá verdadeiramente alimentar a sua esperança e oferecê-la a quem a perdeu.

73. Para isso, é necessário um grande esforço de formação. Tendo como finalidade favorecer a compreensão do verdadeiro sentido das celebrações da Igreja e ainda uma adequada instrução sobre os ritos, tal formação requer uma autêntica espiritualidade e a educação para vivê-la em plenitude.(121) Por conseguinte, há que promover ainda mais uma verdadeira «  mistagogia litúrgica  », com a participação activa de todos os fiéis, cada qual segundo as próprias competências, nas acções sagradas, particularmente na Eucaristia.

 

II. Celebrar os sacramentos

74. Um lugar de grande relevo há-de ser reservado à celebração dos sacramentos, enquanto actos de Cristo e da Igreja, ordenados a prestar culto a Deus, à santificação dos homens e à edificação da Comunidade eclesial. Sabendo que neles age o próprio Cristo por meio do Espírito Santo, sejam celebrados com o máximo cuidado e criando as condições adequadas. As Igrejas particulares do continente terão a peito reforçar a sua pastoral dos sacramentos para dar a conhecer a sua verdade profunda. Os padres sinodais puseram em evidência esta necessidade, para contrastar dois perigos: por um lado, certos ambientes eclesiais parecem ter perdido o genuíno sentido do sacramento e poderiam banalizar os mistérios celebrados; por outro, muitos baptizados, seguindo costumes e tradições, continuam a recorrer aos sacramentos em momentos significativos da sua existência, mas não vivem de acordo com as indicações da Igreja.(122)

A Eucaristia

75. A Eucaristia, dom supremo de Cristo à Igreja, torna sacramentalmente presente o sacrifício de Cristo oferecido pela nossa salvação: «  Na santíssima Eucaristia, está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa  ».(123) Nela, «  fonte e centro de toda a vida cristã  »,(124) bebe a Igreja, na sua peregrinação, achando lá a fonte de toda a esperança. De facto, a Eucaristia «  dá estímulo à nossa caminhada na história, lançando uma semente de activa esperança na dedicação diária de cada um aos seus próprios deveres  ».(125)

Todos somos convidados a confessar a fé na Eucaristia, «  penhor da glória futura  », seguros de que a comunhão com Cristo, agora vivida como peregrinos na existência mortal, antecipa o encontro supremo daquele dia em que «  seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele é  » (1 Jo 3, 2). A Eucaristia é uma «  amostra de eternidade no tempo  », é presença divina e comunhão com ela; memorial da Páscoa de Cristo, é por sua natureza portadora da graça na história humana. Abre para o futuro de Deus; sendo comunhão com Cristo, com o seu Corpo e o seu Sangue, ela é participação na vida eterna de Deus.(126)

A Reconciliação

76. Juntamente com a Eucaristia, deve desempenhar papel fundamental na recuperação da esperança o sacramento da Reconciliação: «  De facto, a experiência pessoal do perdão recebido de Deus por cada um de nós é fundamento essencial de esperança para o nosso futuro  ».(127) Uma das raízes para o desânimo que hoje invade a muitos, há que buscá-la na incapacidade de se reconhecerem pecadores e de se deixarem perdoar; tal incapacidade fica-se a dever frequentemente à solidão de quem, vivendo como se Deus não existisse, não tem ninguém a quem pedir perdão. Ao invés, quem se reconhece pecador e se entrega à misericórdia do Pai celeste, experimenta a alegria duma verdadeira libertação e pode prosseguir ao longo do caminho da vida sem se fechar na própria miséria.(128) Deste modo, recebe a graça de um novo início e reencontra motivos para esperar.

Por isso, é necessário que o sacramento da Reconciliação seja revitalizado na Igreja da Europa. Há que reafirmar, porém, que a forma deste sacramento é a confissão pessoal dos pecados seguida da absolvição individual. Tal encontro do penitente com o sacerdote deve ser promovido de todas as formas previstas no rito do Sacramento. Perante a perda generalizada do sentido do pecado e o acentuar-se de uma mentalidade eivada de relativismo e subjectivismo em campo moral, é preciso que cada comunidade eclesial providencie uma séria formação das consciências.(129) Os padres sinodais insistiram para que seja claramente reconhecida a verdade do pecado pessoal e a necessidade do perdão pessoal de Deus através do ministério do sacerdote. As absolvições colectivas não são uma forma alternativa de administrar o sacramento da Reconciliação.(130)

77. Dirijo-me aos sacerdotes, exortando-os a disponibilizarem-se generosamente para atender de confissão e a darem eles mesmos o exemplo aproximando-se regularmente do sacramento da Penitência. Recomendo-lhes que tenham o cuidado de actualizar-se no campo da teologia moral, para poderem enfrentar com competência as problemáticas ultimamente surgidas no âmbito da moral pessoal e social. Além disso, prestem particular atenção às condições concretas de vida em que se encontram os fiéis e procurem pacientemente levá-los a reconhecerem as exigências da lei moral cristã, ajudando-os a viverem o sacramento como um encontro feliz com a misericórdia do Pai celeste.(131)

Oração e vida

78. A par da celebração eucarística, é preciso promover também outras formas de oração comunitária,(132) ajudando a descobrir a ligação que existe entre elas e a oração litúrgica. De modo particular, conservando viva a tradição da Igreja latina, sejam promovidas as diversas manifestações do culto eucarístico fora da Missa: adoração pessoal, exposição e procissão, entendidas como expressão de fé na presença real do Senhor que permanece no Sacramento do Altar.(133) Na celebração pessoal e comunitária da Liturgia das Horas, que se reveste de singular valor mesmo para os fiéis-leigos, como lembrou o Concílio Vaticano II,(134) procure-se ensinar a ver a referida conexão com o mistério eucarístico. As famílias sejam incitadas a reservar espaço para a oração feita em comum, podendo assim interpretar à luz do Evangelho toda a existência matrimonial e familiar. Deste ponto de partida e escutando a Palavra de Deus, formar-se-á aquela liturgia doméstica que acompanhará os sucessivos momentos da família.(135)

Qualquer forma de oração comunitária pressupõe a oração individual. É entre a pessoa e Deus que nasce aquele colóquio autêntico que se exprime no louvor, na acção de graças, na súplica dirigida ao Pai por Jesus Cristo e no Espírito Santo. Nunca seja transcurada a oração pessoal, que é de algum modo a respiração do cristão. Na educação para ela, leve-se também a descobrir a sua ligação com a oração litúrgica.

79. Reserve-se uma especial atenção também à piedade popular.(136) Esta, presente em larga escala nas diversas regiões da Europa através das confrarias, das peregrinações e procissões nos numerosos santuários, enriquece o caminho do ano litúrgico, inspirando usos e costumes familiares e sociais. Todas estas formas devem ser objecto duma cuidadosa pastoral de promoção e renovamento, ajudando a desenvolver tudo o que nelas seja genuína expressão da sabedoria do povo de Deus. Tal é, sem dúvida, o santo rosário. Neste ano que lhe é dedicado, apraz-me recomendar mais uma vez a sua recitação, porque «  o rosário, quando descoberto no seu pleno significado, conduz ao âmago da vida cristã, oferecendo uma ordinária e fecunda oportunidade espiritual e pedagógica para a contemplação pessoal, a formação do povo de Deus e a nova evangelização  ».(137)

No campo da piedade popular, é preciso vigiar constantemente sobre aspectos ambíguos de determinadas manifestações, preservando-as de desvios secularistas, de consumismos imprudentes ou mesmo de riscos de superstição, para mantê-las sob formas maturas e autênticas. Há que realizar uma obra pedagógica, explicando como a piedade popular deve ser vivida sempre de harmonia com a liturgia da Igreja e em conexão com os sacramentos.

80. Não se pode esquecer que o «  culto espiritual agradável a Deus  » (cf. Rm 12, 1) realiza-se sobretudo na existência quotidiana, vivida na caridade através do dom livre e generoso de si mesmo, inclusive em momentos de aparente impotência. Assim, a vida é animada por uma esperança inabalável, porque assente apenas na certeza do poder de Deus e da vitória de Cristo: é uma vida repleta das consolações de Deus, com as quais somos chamados, por nossa vez, a consolar aqueles que encontrarmos no nosso caminho (cf. 2 Cor 1, 4).

 

O dia do Senhor

81. Momento paradigmático e altamente evocativo para a celebração do Evangelho da esperança é o dia do Senhor.

No contexto actual, as circunstâncias tornam precária a possibilidade de os cristãos viverem plenamente o domingo como dia do encontro com o Senhor. Não é raro acontecer que fique reduzido a «  fim de semana  », a mero tempo de evasão. Por isso, é preciso uma acção pastoral articulada a nível educativo, espiritual e social, que ajude a viver o seu verdadeiro sentido.

82. Renovo, pois, o convite para se recuperar o significado mais profundo do dia do Senhor: (138) seja santificado com a participação na Eucaristia e com um repouso rico de alegria cristã e de fraternidade. Seja celebrado como centro de todo o culto, incessante prenúncio da vida sem fim, que reaviva a esperança e anima a caminhar. Por isso, não haja medo de defendê-lo contra qualquer ataque e esforçar-se por que seja salvaguardado na organização do trabalho, para que possa ser um dia para o homem a bem da sociedade inteira. De facto, se o domingo for privado do seu significado originário e deixar de haver nele possibilidade de dar espaço adequado à oração, ao repouso, à união e à alegria, pode acontecer que «  o homem permaneça encerrado num horizonte tão restrito, que já não lhe permite ver o “céu”. Então, mesmo bem trajado, torna-se intimamente incapaz de “festejar”  ».(139) E, sem a dimensão da festa, a esperança não encontraria uma casa onde habitar.

 

CAPÍTULO V

SERVIR O EVANGELHO DA ESPERANÇA

«  Conheço as tuas obras, a tua caridade,
o teu serviço, a tua fé, a tua paciência  »
(Ap 2, 19)

O caminho do amor

83. A palavra que o Espírito diz às Igrejas contém um juízo sobre a sua vida. Este debruça-se sobre factos e comportamentos: «  Conheço as tuas obras  » é a introdução que, à maneira de um refrão e com poucas variações, aparece nas cartas escritas às sete Igrejas. As obras revelam-se positivas, quando são fruto do esforço, da paciência, das provas suportadas, da tribulação, da pobreza, da fidelidade nas perseguições, da caridade, da fé, do serviço. Neste sentido, podem ser lidas como a descrição duma Igreja que, além de anunciar e celebrar a salvação que lhe vem do Senhor, também a «  vive  » na sua existência concreta.

Para servir o Evangelho da esperança, é pedido também à Igreja na Europa que percorra a estrada do amor. Trata-se duma estrada que passa através da caridade evangelizadora, do empenho multiforme no serviço, da opção por uma generosidade sem tréguas nem confins.

 

I. O serviço da caridade

Na comunhão e solidariedade

84. A caridade, recebida e oferecida, é para qualquer pessoa a experiência originária donde nasce a esperança. «  O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se não o experimenta e não o assume, se não participa nele vivamente  ».(140)

Por isso, à Igreja na Europa actual põe-se o desafio de ajudar o homem contemporâneo a experimentar o amor de Deus Pai e de Cristo no Espírito Santo, através do testemunho da caridade, a qual por si mesma possui uma intrínseca força evangelizadora.

O «  Evangelho  », este anúncio feliz para todo o homem, consiste em última análise nisto: Deus amou-nos primeiro (cf. 1 Jo 4, 10.19); Jesus amou-nos até ao fim (cf. Jo 13, 1). Por intermédio do dom do Espírito, é oferecida aos crentes a caridade de Deus, tornando-os participantes da sua própria capacidade de amar: a caridade preme no coração de cada discípulo e da Igreja inteira (cf. 2 Cor 5, 14). Precisamente porque dada por Deus, a caridade torna-se mandamento para o homem (cf. Jo 13, 34).

Viver na caridade torna-se, assim, um anúncio feliz para toda a pessoa, tornando visível o amor de Deus, que não abandona ninguém. Enfim, significa dar ao homem perdido verdadeiras razões para continuar a esperar.

85. É vocação da Igreja, enquanto «  sinal credível – embora sempre inadequado – do amor concreto, fazer encontrar os homens e mulheres com o amor de Deus e de Cristo, que vem à procura deles  ».(141) «  Sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano  »,(142) a Igreja confirma-se como tal quando as pessoas, as famílias e as comunidades vivem intensamente o Evangelho da caridade. Por outras palavras, as nossas comunidades eclesiais são chamadas a ser verdadeiras escolas de comunhão.

Por sua própria natureza, o testemunho da caridade deve estender-se para além das fronteiras da comunidade eclesial, envolvendo toda a pessoa, de tal modo que o amor por todos os homens se torne estímulo de autêntica solidariedade em toda a vida social. Quando a Igreja serve a caridade, simultaneamente faz crescer a «  cultura da solidariedade  », concorrendo assim para dar nova vida aos valores universais da convivência humana.

Nesta perspectiva, é preciso redescobrir o sentido autêntico do voluntariado cristão. Este, nascido da fé e por ela continuamente alimentado, deve saber conjugar capacidade profissional e amor genuíno, impelindo aqueles que o praticam a «  elevarem os sentimentos de simples filantropia até à altura da caridade de Cristo; a reavivarem diariamente, por entre fadigas e cansaços, a consciência da dignidade de cada homem; a irem à procura das carências das pessoas, iniciando – se necessário – novos caminhos em lugares onde a necessidade é mais urgente, e a atenção e o apoio menos consistentes  ».(143)

 

II. Servir o homem na sociedade

Devolver a esperança aos pobres

86. Pede-se, à Igreja inteira, para dar novamente esperança aos pobres. Acolhê-los e servi-los significa, para ela, acolher e servir Cristo (cf. Mt 25, 40). O amor preferencial pelos pobres é uma dimensão necessária do ser cristão e do serviço do Evangelho. Amá-los e testemunhar-lhes que são particularmente amados por Deus significa reconhecer que as pessoas valem por si mesmas, independentemente das condições económicas, culturais, sociais em que se encontrem, ajudando-as a valorizarem as suas potencialidades.

87. Depois, é preciso deixar-se interpelar pelo fenómeno do desemprego, que constitui um grave flagelo social em muitas nações da Europa. A isto, há que acrescentar os problemas ligados ao aumento dos fluxos migratórios. À Igreja, pede-se que continue a recordar que o trabalho constitui um bem pelo qual se deve responsabilizar toda a sociedade.

Ao propor os critérios éticos que devem guiar o mercado e a economia segundo um escrupuloso respeito da centralidade do homem, a Igreja não desistirá de procurar dialogar com as pessoas empenhadas a nível político, sindical e empresarial.(144) Tudo isto deve tender à edificação de uma Europa vista como comunidade de povos e de pessoas, uma comunidade solidária na esperança, não se deixando sujeitar exclusivamente às leis do mercado, mas decididamente intencionada a salvaguardar a dignidade do homem mesmo nas relações económicas e sociais.

88. Seja dado adequado relevo também à pastoral dos doentes. Considerando que a doença é uma situação que levanta questões essenciais sobre o sentido da vida, «  numa sociedade do progresso e da eficiência, numa cultura caracterizada pela idolatria do corpo, pela remoção do sofrimento e da dor e pelo mito da perene juventude  »,(145) o cuidado dos doentes deve ser tido como uma das prioridades. Com tal finalidade, há que promover, por um lado, uma conveniente presença pastoral nos diversos centros do sofrimento, por exemplo através da solicitude de capelães hospitalares, de membros de associações de voluntariado, de instituições sanitárias eclesiásticas; e, por outro, um apoio às famílias dos doentes. Além disso, será necessário acompanhar o pessoal médico e paramédico com meios pastorais adequados, que o sustente na exigente vocação ao serviço dos doentes. Com efeito, na sua actividade os agentes sanitários prestam diariamente um nobre serviço à vida. Deles se espera que dêem aos seus pacientes também aquele apoio espiritual especial que supõe o calor dum autêntico contacto humano.

89. Por último, não se pode esquecer que às vezes é feito um uso indevido dos bens da terra. De facto, faltando à sua missão de cultivar e guardar a terra com sabedoria e amor (cf. Gn 2, 15), o homem tem em muitas regiões devastado bosques e planuras, poluído as águas, tornado irrespirável o ar, alterado os sistemas hidrogeológicos e atmosféricos e desertificado imensas extensões.

Neste caso, servir o Evangelho da esperança significa empenhar-se de modo novo num correcto uso dos bens da terra,(146) estimulando uma atenção tal que, além de tutelar os habitat naturais, defenda a qualidade da vida das pessoas, preparando para as gerações futuras um ambiente mais harmonioso com o projecto do Criador.

A verdade do matrimónio e da família

90. A Igreja na Europa, em todas as suas articulações, deve propor sem cessar e fielmente a verdade do matrimónio e da família.(147) É uma necessidade que sente arder-lhe dentro, porque sabe que um tal dever é qualificante para ela em virtude da missão evangelizadora que lhe foi confiada pelo seu Esposo e Senhor, e que hoje se apresenta com excepcional premência. De facto, não poucos factores culturais, sociais e políticos concorrem para desencadear uma crise cada vez mais evidente da família. Tais factores comprometem de várias formas a verdade e a dignidade da pessoa humana e põem em discussão, desfigurando-o, o próprio conceito de família. O valor da indissolubilidade matrimonial é ignorado sempre mais; reclamam-se formas de reconhecimento legal para as convivências de facto, equiparando-as aos matrimónios legítimos; não faltam tentativas para serem aceites modelos com casais onde a diferença sexual não resulta essencial.

Neste contexto, pede-se à Igreja que anuncie com renovado vigor aquilo que diz o Evangelho sobre o matrimónio e a família, para individuar o seu significado e valor no desígnio salvífico de Deus. É preciso, de modo particular, reiterar que ambas as instituições são realidades que derivam da vontade de Deus. Impõe-se redescobrir a verdade da família, enquanto íntima comunhão de vida e de amor,(148) aberta à geração de novas pessoas; e também a sua dignidade de «  igreja doméstica  » e a sua participação na missão da Igreja e na vida da sociedade.

91. Segundo os padres sinodais, é necessário reconhecer que muitas famílias, pela sua existência vivida quotidianamente no amor, são testemunhas visíveis da presença de Jesus que as acompanha e sustenta com o dom do seu Espírito. Para apoiá-las no seu caminho, dever-se-á aprofundar a teologia e a espiritualidade do matrimónio e da família; proclamar, com firmeza, integralmente e mediante exemplos eficazes, a verdade e a beleza da família baseada no matrimónio, visto como união estável e fecunda dum homem e duma mulher; promover, em cada comunidade eclesial, uma pastoral familiar adequada e orgânica. Ao mesmo tempo é preciso prestar, com materna solicitude por parte da Igreja, uma ajuda àqueles que se encontram em situações difíceis, como, por exemplo, mães solteiras, pessoas separadas, divorciadas, filhos abandonados. Em todas as circunstâncias é necessário estimular, guiar e apoiar o devido protagonismo das famílias, singularmente ou associadas, na Igreja e na sociedade, e diligenciar para que se promovam políticas familiares autênticas e adequadas por parte dos diversos Estados e da própria União Europeia.(149)

92. Um cuidado particular deve ser reservado à educação para o amor nos jovens e noivos, através de específicos itinerários de preparação para a celebração do sacramento do matrimónio, ajudando-os a viverem castamente até esse momento. Na sua obra educadora, a Igreja estenderá a sua solicitude aos recém-casados, acompanhando-os também depois da celebração das núpcias.

93. Finalmente, a Igreja é chamada a atender, com materna bondade, àquelas situações matrimoniais onde a esperança facilmente sucumbe. Em particular, «  diante de inúmeras famílias desfeitas, a Igreja sente-se chamada, não a exprimir um juízo severo e insensível, mas antes a fazer penetrar dentro de tantos dramas humanos a luz da palavra de Deus, acompanhada pelo testemunho da sua misericórdia. É com este espírito que a pastoral familiar procura ocupar-se também das situações dos crentes que se divorciaram e voltaram a casar pelo civil. Eles não estão excluídos da comunidade; pelo contrário, são convidados a participar na sua vida, percorrendo um caminho de crescimento no espírito das exigências evangélicas. Sem esconder a verdade da desordem moral objectiva em que se encontram e das consequências que daí derivam para a prática sacramental, a Igreja pretende mostrar-lhes toda a sua solidariedade materna  ».(150)

94. Se, para servir o Evangelho da esperança, é necessário reservar uma adequada e prioritária atenção à família, inegável é também que as próprias famílias têm uma tarefa insubstituível a desempenhar relativamente ao mesmo Evangelho da esperança. Por isso, com confiança e afecto, renovo a todas as famílias cristãs, que vivem nesta Europa, este convite: «  Famílias, tornai-vos naquilo que sois!  ». E vós sois uma reposição viva da caridade de Deus: de facto, tendes a «  missão de guardar, revelar e comunicar o amor, qual reflexo vivo e participação real do amor de Deus pela humanidade e do amor de Cristo Senhor pela Igreja, sua esposa  ».(151)

Vós sois o «  santuário da vida (...); o lugar onde a vida, dom de Deus, pode ser convenientemente acolhida e protegida contra os múltiplos ataques a que está exposta, e pode desenvolver-se segundo as exigências de um crescimento humano autêntico  ».(152)

Vós sois o fundamento da sociedade, enquanto lugar primeiro de «  humanização  » da pessoa e da vida civil,(153) modelo para a instauração de relações sociais vividas no amor e na solidariedade.

Sede vós mesmas testemunhas credíveis do Evangelho da esperança! É que vós sois «  Gaudium et spes  »,(154) alegria e esperança.

Servir o Evangelho da vida

95. O envelhecimento e diminuição da população que se verifica em diversos países da Europa não pode deixar de ser motivo de preocupação; de facto, a queda da natalidade é sintoma de uma relação não serena com o próprio futuro; é uma manifestação clara de falta de esperança, é sinal daquela «  cultura da morte  » que atravessa a sociedade actual.(155)

A par da queda da natalidade, há que recordar outros sinais que concorrem para se formar o eclipse do valor da vida e desencadear uma espécie de conjura contra a mesma. Entre eles, conta-se antes de mais a difusão do aborto, recorrendo inclusive a preparados químico-farmacológicos que tornam possível praticá-lo sem ter de recorrer ao médico e subtraindo-se a qualquer forma de responsabilidade social; isto é favorecido pela presença no ordenamento de muitos Estados do continente de legislações permissivas de um acto que permanece um «  crime abominável  »(156) e sempre constitui uma desordem moral grave. Não se podem esquecer também os atentados perpetrados através de «  intervenções sobre embriões humanos, que, apesar de visar objectivos em si legítimos, implicam inevitavelmente a sua morte  », ou por meio do emprego desonesto das técnicas de diagnóstico pré-natal, postas ao serviço não de possíveis terapias precoces, mas de «  uma mentalidade eugenista que aceita o aborto selectivo  ».(157)

Há que mencionar ainda a tendência, que se regista em algumas partes da Europa, a considerar que se possa permitir pôr fim conscientemente à vida própria ou de outro ser humano: daí a difusão da eutanásia, mascarada ou actuada às claras, não faltando solicitações e tristes exemplos de legalização dela.

96. À vista deste estado de coisas, é necessário «  servir o Evangelho da vida  » nomeadamente através de «  uma mobilização geral das consciências e um esforço ético comum, para se actuar uma grande estratégia a favor da vida. Todos juntos devemos construir uma nova cultura da vida  ».(158) Este é um desafio imenso que temos a responsabilidade de enfrentar, sabendo que «  o futuro da civilização europeia depende muito duma decidida defesa e promoção dos valores da vida, núcleo do seu património cultural  »; (159) trata-se efectivamente de restituir à Europa a sua verdadeira dignidade, ou seja, a dignidade de ser um lugar onde toda a pessoa veja afirmada a sua incomparável dignidade.

De bom grado faço minhas estas palavras dos padres sinodais: «  O Sínodo dos Bispos europeus incita as comunidades cristãs a fazerem-se evangelizadoras da vida. Encoraja os esposos e as famílias cristãs a apoiarem-se mutuamente na fidelidade à sua missão de colaboradores de Deus na geração e educação de novas criaturas; vê com apreço toda a generosa tentativa de reagir contra o egoísmo no âmbito da transmissão da vida, que é alimentado por falsos modelos de segurança e felicidade; pede aos Estados e à União Europeia que actuem políticas de longo alcance, que promovam as condições concretas de habitação, emprego e serviços sociais, idóneas para favorecer a constituição da família que realize a sua vocação à maternidade e à paternidade, e assegurem assim à Europa de hoje o recurso mais precioso: os europeus de amanhã  ».(160)

 Construir uma cidade digna do homem

97. A caridade operosa obriga-nos a apressar o Reino futuro. Por isso mesmo, colabora na promoção dos valores autênticos que estão na base duma civilização digna do homem. De facto, como recorda o Concílio Vaticano II, «  os cristãos, peregrinos da cidade celestial, devem buscar e saborear as coisas do alto. Mas, com isso, de modo algum diminui, antes aumenta a importância do seu dever de colaborar com todos os outros homens na edificação dum mundo mais humano  ».(161) A expectativa dos novos céus e da nova terra, longe de afastar da história, intensifica a solicitude pela realidade presente onde já cresce a novidade que é germe e figura do mundo que há-de vir.

Animados por tais certezas de fé, trabalhamos para a construção duma cidade digna do homem. Embora não seja possível construir na história uma ordem social perfeita, todavia sabemos que todo o esforço sincero por construir um mundo melhor é acompanhado pela bênção de Deus e que qualquer germe de justiça e de amor plantado no tempo presente floresce para a eternidade.

98. Ao construir esta cidade digna do homem, sirva de inspiração a doutrina social da Igreja. De facto, através dela, a Igreja coloca ao continente europeu a questão da qualidade moral da sua civilização. Tal doutrina nasce do encontro da mensagem bíblica com a razão, por um lado, e, por outro, com os problemas e as situações referentes à vida do homem e da sociedade. Com o conjunto dos princípios que oferece, contribui para pôr bases sólidas para uma convivência à medida do homem, na justiça, verdade, liberdade e solidariedade. Tendo em vista defender e promover a dignidade da pessoa, fundamento não só da vida económica e política, mas também da justiça social e da paz, ela é capaz de sustentar as colunas mestras do futuro do continente.(162) A doutrina em questão contém também as referências para se poder defender a estrutura moral da liberdade, de modo a salvaguardar a cultura e a sociedade europeia da utopia totalitária tanto da «  justiça sem liberdade  », como da «  liberdade sem verdade  » à qual aparece associado um falso conceito de «  tolerância  », ambas elas prenúncio de erros e de horrores para a humanidade, como tristemente dá testemunho a história recente da própria Europa.(163)

99. A doutrina social da Igreja, pela sua ligação intrínseca com a dignidade da pessoa, pode ser compreendida também pelos que não pertencem à comunidade dos crentes. Por isso, é urgente divulgar o seu conhecimento e estudo, vencendo a ignorância que há dela mesmo entre os cristãos. Exige-o a nova Europa em vias de construção, carecida de pessoas educadas segundo tais valores, prontas a trabalhar pela realização do bem comum. Para isso é necessária a presença de leigos cristãos nas diversas responsabilidades da vida civil, da economia, da cultura, da saúde, da educação e da política, actuando de modo a poder permeá-las com os valores do Reino.(164)

Em prol duma cultura do acolhimento

100. Entre os desafios que hoje se apresentam no serviço ao Evangelho da esperança, conta-se o fenómeno crescente das migrações, que interpela a capacidade da Igreja para acolher toda a pessoa, qualquer que seja o povo ou a nação a que pertença. E impele também toda a sociedade europeia com as suas instituições a procurarem uma ordem justa, formas de convivência respeitosas de todos e da legalidade também, num processo que leve à integração possível.

Considerando o estado de miséria, de subdesenvolvimento ou mesmo de insuficiente liberdade, que infelizmente ainda caracteriza diversos países, entre as causas que constrangem muitos a deixar a própria terra, é preciso um corajoso empenhamento de todos para realizar uma ordem económica internacional mais justa, que seja capaz de promover o autêntico desenvolvimento de todos os povos e países.

101. O fenómeno migratório põe à prova a capacidade que tem a Europa de dar espaço a formas de acolhimento e hospitalidade inteligente. Exige-o a visão «  universalista  » do bem comum: é necessário alongar o olhar até abraçar as exigências da família humana inteira. O próprio fenómeno da globalização reclama abertura e partilha, se não quiser ser raiz de exclusão e marginalização mas sim de participação solidária de todos na produção e intercâmbio dos bens.

Cada um deve trabalhar para o crescimento duma cultura do acolhimento perfeita, que, tendo em conta a dignidade igual de toda a pessoa e o dever da solidariedade para com os mais débeis, pretende que sejam reconhecidos a cada imigrante os direitos fundamentais. É responsabilidade das autoridades públicas controlar os fluxos migratórios segundo as exigências do bem comum. O acolhimento deve realizar-se sempre no respeito das leis, comportando consequentemente, quando necessário, a firme repressão dos abusos.

102. É necessário ainda empenhar-se por individuar possíveis formas de genuína integração dos imigrados legitimamente acolhidos no tecido social e cultural das diversas nações europeias. Uma tal integração requer, por um lado, que não se deva ceder ao indiferentismo quanto aos valores humanos universais e, por outro, que se tenha a peito salvaguardar o património cultural próprio de cada nação. Uma convivência pacífica e um intercâmbio recíproco das riquezas interiores tornará possível a edificação duma Europa que saiba ser casa comum, na qual cada um possa sentir-se acolhido, ninguém se veja discriminado, todos sejam tratados e vivam responsavelmente como membros de uma única e grande família.

103. A Igreja, por sua vez, é chamada a «  prosseguir na sua acção de criar e melhorar cada vez mais os seus serviços de acolhimento e os seus cuidados pastorais em favor dos imigrantes e dos refugiados  »,(165) fazendo com que se respeitem a sua di- gnidade e liberdade e seja favorecida a sua integração.

De forma particular, reserve-se um específico cuidado pastoral à integração dos imigrantes católicos, respeitando a sua cultura e a originalidade da sua tradição religiosa. Para isso, procurem-se favorecer contactos entre as Igrejas de origem dos imigrantes e as de acolhimento para se estudar formas de ajuda que possam mesmo prever a presença, junto dos imigrantes, de presbíteros, consagrados e agentes pastorais adequadamente formados originários dos seus países.

Além disso, o serviço do Evangelho exige que a Igreja, defendendo a causa dos oprimidos e marginalizados, peça às autoridades políticas dos diversos Estados e aos responsáveis das instituições europeias para reconhecerem a condição de refugiados àqueles que fogem do seu país de origem porque corre perigo a sua própria vida, ou então favorecerem o regresso aos respectivos países; e criarem também as condições para seja respeitada a dignidade de todos os imigrantes e sejam defendidos os seus direitos fundamentais.(166)

 

III. Decidamo-nos pela caridade!

104. O apelo, dirigido pelos padres sinodais a todos os cristãos do continente europeu para viverem a caridade operosa,(167) representa a síntese feliz dum autêntico serviço ao Evangelho da esperança. Agora proponho-o de novo a ti, Igreja de Cristo que vives na Europa. As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos europeus de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, sejam também as tuas alegrias e as tuas esperanças, as tuas tristezas e as tuas angústias, e nada do que é genuinamente humano deixe de ter eco no teu coração. Olha para a Europa e o seu caminho com a simpatia de quem aprecia todo o elemento positivo, mas conjuntamente sem fechar os olhos sobre o que há de incoerente com o Evangelho, denunciando-o com vigor.

105. Igreja da Europa, acolhe todos os dias, com renovada pujança, o dom da caridade que o teu Senhor te oferece e do mesmo te torna capaz. Aprende d'Ele os conteúdos e a medida do amor. E sê Igreja das bem-aventuranças, continuamente configurada com Cristo (cf. Mt 5, 1-12).

Livre de entraves e sujeições, sê pobre e amiga dos mais pobres, acolhedora para com toda a pessoa e atenta a qualquer forma, antiga ou nova, de pobreza.

Purificada continuamente pela bondade do Pai, reconhece no comportamento de Cristo, que sempre defendeu a verdade mostrando-Se ao mesmo tempo misericordioso para com os pecadores, a norma suprema da tua acção.

Em Jesus, em cujo nascimento foi anunciada a paz (cf. Lc 2, 14), n'Ele que abateu com a sua morte o muro da inimizade (cf. Ef 2, 14) e deu a paz verdadeira (cf. Jo 14, 27), sê artífice de paz, convidando os teus filhos a deixarem purificar o coração de toda a hostilidade, egoísmo e parcialidade, favorecendo em qualquer circunstância o diálogo e o respeito mútuo.

Em Jesus, justiça de Deus, nunca te canses de denunciar qualquer forma de injustiça. Vivendo no mundo segundo os valores do Reino futuro, serás Igreja da caridade, darás o teu indispensável contributo para edificar na Europa uma civilização sempre mais digna do homem.

 

 

CAPÍTULO VI

O EVANGELHO DA ESPERANÇA PARA UMA EUROPA NOVA

«  Vi a cidade santa, a nova Jerusalém,
que descia do Céu  »
(Ap 21, 2)

 

A novidade de Deus na história

106. O Evangelho da esperança, que ressoa no Apocalipse, abre o coração para a contemplação da novidade realizada por Deus: «  Vi, depois, um novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra haviam desaparecido, e o mar já não existia  » (Ap 21, 1). Deus em pessoa o afirma, com uma palavra que dá a explicação da visão agora descrita: «  Eu renovo todas as coisas  » (Ap 21, 5).

A novidade de Deus – plenamente compreensível no horizonte das coisas velhas, feitas de lágrimas, luto, pranto, aflições, morte (cf. Ap 21, 4) – consiste em sair do pecado e das suas consequências em que se encontra a humanidade; é o novo céu e a nova terra, a nova Jerusalém, em contraposição a um céu e uma terra velhos, a uma ordem antiquada de coisas e uma vetusta Jerusalém, conturbada pelas suas rivalidades.

Não é indiferente, para a construção da cidade do homem, a imagem da nova Jerusalém, que desce «  do céu, de junto de Deus, bela como uma esposa que se ataviou para o seu esposo  » (Ap 21, 2), aludindo directamente ao mistério da Igreja. É uma imagem que fala duma realidade escatológica: esta situa-se para além de tudo o que o homem possa fazer; é um dom de Deus que se realizará nos últimos tempos. Mas não é uma utopia: é realidade já presente. Indica-o o verbo no presente usado por Deus – «  Eu renovo todas as coisas  » (Ap 21, 5) – com a especificação que vem depois: «  Está feito!  » (Ap 21, 6). Efectivamente Deus já está agindo para renovar o mundo; a Páscoa de Cristo é já a novidade de Deus, que faz nascer a Igreja, anima a sua existência, renova e transforma a história.

107. Esta novidade começa a tomar forma primariamente na comunidade cristã, que é já agora «  o tabernáculo de Deus entre os homens  » (cf. Ap 21, 3), em cujo seio Deus já actua, renovando a vida daqueles que se deixam conduzir pelo sopro do Espírito. A Igreja é para o mundo sinal e instrumento do Reino que se realiza primariamente nos corações. Um reflexo da mesma novidade manifesta-se também em qualquer forma de convivência animada pelo Evangelho. Trata-se de uma novidade que interpela a sociedade em todos os momentos da história e em todos os lugares da terra, e de modo particular a sociedade europeia que escuta, desde há tantos séculos, o Evangelho do Reino inaugurado por Jesus.

 

I. A vocação espiritual da Europa

A Europa promotora dos valores universais

108. A história do continente europeu está marcada pelo influxo vivificante do Evangelho. «  Se olharmos para os séculos passados, não podemos deixar de dar graças ao Senhor porque o cristianismo foi no nosso continente um factor primário de unidade entre os povos e as culturas e de promoção integral do homem e dos seus direitos  ».(168)

Certamente não se pode pôr em dúvida que a fé cristã pertence, de modo radical e determinante, aos fundamentos da cultura europeia. De facto, o cristianismo deu forma à Europa, imprimindo-lhe alguns valores fundamentais. Mesmo a modernidade europeia, que deu ao mundo o ideal democrático e os direitos humanos, recebe os seus próprios valores da herança cristã. A Europa é qualificada, não tanto pelo espaço geográfico, como sobretudo por «  um conceito prevalentemente cultural e histórico, que caracteriza uma realidade nascida como continente em virtude também da força unificadora do cristianismo, que soube integrar entre si povos e culturas diversas e está intimamente ligado a toda a cultura europeia  ».(169)

Todavia a Europa actual, precisamente quando está a reforçar e ampliar a sua união económica e política, parece sofrer de uma profunda crise de valores. Embora dispondo de meios mais abundantes, dá a impressão de carecer do ímpeto necessário para incrementar um projecto comum e dar razões de esperança aos seus cidadãos.

O novo rosto da Europa

109. No processo de transformação em curso, a Europa é chamada antes de mais nada a reencontrar a sua verdadeira identidade. De facto, não obstante a realidade intensamente variegada de que se foi compondo, ela deve construir um modelo novo de unidade na diversidade, uma comunidade de nações reconciliadas aberta aos outros continentes e envolvida no processo actual de globalização.

Para dar novo impulso à sua história, a Europa deve «  reconhecer e recuperar, com fidelidade criativa, aqueles valores fundamentais, adquiridos com o contributo determinante do cristianismo, que se podem compendiar na afirmação da di- gnidade transcendente da pessoa humana, do valor da razão, da liberdade, da democracia, do Estado de direito e da distinção entre política e religião  ».(170)

110. A União Europeia continua a alargar-se. Num prazo mais ou menos breve, estão chamados a fazer parte dela todos os povos que partilham a mesma herança fundamental. Espera-se que um tal alargamento se verifique no respeito de todos, valorizando as peculiaridades históricas e culturais, as identidades nacionais e a riqueza dos contributos que poderão advir dos novos membros, para além de dar uma actuação mais perfeita aos princípios de subsidiariedade e de solidariedade.(171) No processo de integração do continente, é de importância capital ter presente que a união não terá consistência se ficar reduzida apenas às dimensões geográficas e económicas; mas deve consistir em primeiro lugar num consenso sobre os valores a exprimir no direito e na vida.

Promover solidariedade e paz no mundo

111. Dizer «  Europa  » deve querer dizer «  abertura  ». Apesar de experiências e sinais contrários que também não faltaram, é a sua própria história que o exige: «  Na realidade, a Europa não é um território fechado ou isolado; construiu-se partindo, para além dos mares, ao encontro de outros povos, outras culturas, outras civilizações  ».(172) Por isso, deve ser um continente aberto e acolhedor, continuando a realizar, na globalização actual, formas de cooperação não só económica mas também social e cultural.

Para que o seu rosto seja verdadeiramente novo, o continente deve corresponder positivamente a esta exigência: «  A Europa não pode fechar-se sobre si mesma. Não pode nem deve desinteressar-se do resto do mundo; pelo contrário, deve ter plena consciência do facto que outros países, outros continentes esperam dela iniciativas corajosas capazes de oferecer aos povos mais pobres os meios para o seu desenvolvimento e a sua organização social, e de edificar um mundo mais justo e fraterno  ».(173) Para realizar adequadamente esta missão, é necessária «  uma revisão da cooperação em termos de uma nova cultura de solidariedade. Concebida como semente de paz, a cooperação não pode reduzir-se só à ajuda e assistência – quem sabe se a pensar nas vantagens que advirão dos recursos postos à disposição! Mas deve traduzir-se num compromisso concreto e palpável de solidariedade, de modo que torne os pobres protagonistas do seu desenvolvimento e consinta ao maior número possível de indivíduos dar asas, nas circunstâncias económicas e políticas concretas onde vivem, à criatividade típica da pessoa humana, de que depende também a riqueza das nações  ».(174)

112. Além disso, a Europa deve participar activamente na promoção e realização duma globalização «  na  » solidariedade. Esta supõe, como sua condição, uma espécie de globalização «  da  » solidariedade e valores anexos da equidade, justiça e liberdade, na firme convicção de que o mercado requer que seja «  oportunamente controlado pelas forças sociais e do Estado, de modo a garantir a satisfação das exigências fundamentais de toda a sociedade  ».(175)

A Europa, tal como a história no-la apresenta, viu, sobretudo no último século, consolidarem-se ideologias totalitárias e nacionalismos exacerbados que, obscurecendo a esperança dos homens e dos povos do continente, alimentaram conflitos quer no seio das nações quer entre nações, o que levou à enorme tragédia das duas guerras mundiais.(176) E mesmo os conflitos étnicos mais recentes, que de novo ensanguentaram o continente europeu, fizeram ver a todos como é frágil a paz, quanta necessidade ela tem do empenho efectivo de todos e como só pode ser garantida abrindo novas perspectivas de intercâmbio, perdão e reconciliação entre as pessoas, os povos e as nações.

Sendo assim, a Europa, com todos os seus habitantes, deve empenhar-se incansavelmente na construção da paz dentro das suas fronteiras e no mundo inteiro. A este respeito, importa recordar, «  por um lado, que as diferenças nacionais devem ser mantidas e cultivadas como fundamento da solidariedade europeia e, por outro, que a própria identidade nacional só se realiza na abertura aos outros povos e através da solidariedade com eles  ».(177)

 

II. A construção europeia

O papel das instituições europeias

113. No caminho que leva a desenhar o novo rosto da Europa, é determinante sob muitos aspectos o papel das instituições internacionais, ligadas e operantes sobretudo no território da Europa, cuja contribuição tem marcado o curso histórico dos acontecimentos, sem se empenharem em operações de carácter militar. A tal propósito, desejo mencionar, em primeiro lugar, a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa, empenhada na manutenção da paz e da estabilidade, nomeadamente através da defesa e promoção dos direitos humanos e das liberdades fundamentais, e também na cooperação económica e ambiental.

Temos depois o Conselho da Europa, do qual fazem parte os Estados que subscreveram a Convenção Europeia de 1950 para a salvaguarda dos direitos humanos fundamentais e a Carta Social de 1961. Anexo a ele, existe o Tribunal Europeu dos direitos do homem. Estas duas instituições, através da cooperação política, social, jurídica e cultural, e ainda da promoção dos direitos humanos e da democracia, visam a realização da Europa da liberdade e da solidariedade. Por último, aparece a União Europeia, com o seu Parlamento, o Conselho de Ministros e a Comissão, que propõe um modelo de integração que se vai aperfeiçoando tendo em vista adoptar um dia uma carta fundamental comum. A finalidade de tal organismo é realizar uma maior unidade política, económica, monetária entre os Estados-membros, quer os actuais quer os que virão a fazer parte dele. Na sua diversidade e a partir da identidade específica de cada uma, as referidas instituições promovem a unidade do continente e, mais profundamente, estão ao serviço do homem.(178)

114. Às próprias instituições europeias e aos diferentes Estados da Europa, peço, juntamente com os padres sinodais,(179) para reconhecerem que um bom ordenamento da sociedade deve radicar-se em autênticos valores éticos e civis, compartilhados o mais possível pelos cidadãos, observando ainda que tais valores são património em primeiro lugar dos vários corpos sociais. É importante que as instituições e os diferentes Estados reconheçam que, entre tais corpos sociais, se incluem também as Igrejas, as Comunidades eclesiais e as outras organizações religiosas. Com maior razão quando existem já antes da fundação das nações europeias, elas não são redutíveis a meras entidades privadas, mas actuam com um espessor institucional específico, que merece ser tomado em séria consideração. No desempenho das suas competências, as diversas instituições estatais e europeias devem agir com a consciência de que os seus ordenamentos jurídicos serão plenamente respeitosos da democracia, se previrem formas de «  sã cooperação  » (180) com as Igrejas e as organizações religiosas.

À luz daquilo que acabo de assinalar, desejo uma vez mais dirigir-me aos redactores do futuro tratado constitucional europeu, para que seja inserida nele uma referência ao património religioso, especialmente cristão, da Europa. No pleno respeito da laicidade das instituições, espero que sejam reconhecidos sobretudo três elementos complementares: o direito de as Igrejas e comunidades religiosas se organizarem livremente, de acordo com os respectivos estatutos e convicções; o respeito da identidade específica das Confissões religiosas e a previsão dum diálogo estruturado entre a União Europeia e as citadas Confissões; o respeito do estatuto jurídico de que já gozam as Igrejas e instituições religiosas em virtude das legislações dos Estados-membros da União.(181)

115. As instituições europeias têm como finalidade explícita a tutela dos direitos da pessoa humana. Nesta missão, elas contribuem para construir a Europa dos valores e do direito. Os padres sinodais lançaram aos responsáveis europeus este apelo: «  Erguei a voz quando são violados os direitos humanos dos indivíduos, das minorias e dos povos, a começar pelo direito à liberdade religiosa; reservai a maior atenção a tudo o que se refere à vida humana, desde a sua concepção até à morte natural, e à família fundada sobre o matrimónio: são estas as bases sobre as quais se apoia a casa comum europeia; (...) enfrentai, segundo a justiça e a equidade e com sentido de grande solidariedade, o crescente fenómeno das migrações, tornando-as novo recurso para o futuro europeu; envidai todo o esforço para que aos jovens seja garantido um futuro deveras humano com o trabalho, a cultura, a educação para os valores morais e espirituais  ».(182)

A Igreja ao serviço da nova Europa

116. A Europa tem necessidade de uma dimensão religiosa. Para ser «  nova  », de modo análogo ao que se diz da «  nova cidade  » do Apocalipse (cf. 21, 2), a Europa deve deixar-se penetrar pela acção de Deus. De facto, a esperança de construir um mundo mais justo e mais digno do homem não pode ignorar que de nada servirão os  esforços humanos, se não forem assistidos pelo apoio divino, porque, «  se não for o Senhor a edificar a casa, em vão trabalham os construtores  » (Sal 127/126, 1). Para que a Europa possa ser edificada sobre bases sólidas, é necessário apoiar-se sobre os valores autênticos, que têm o seu fundamento na lei moral universal, inscrita no coração de cada homem. «  Os cristãos não só podem unir-se a todos os homens de boa vontade para trabalhar na construção deste grande projecto, mas mais ainda são convidados a ser de algum modo a sua alma, mostrando o verdadeiro sentido da organização da cidade terrena  ».(183)

Una e universal, embora presente na multiplicidade das Igrejas particulares, a Igreja Católica pode dar um contributo único para a edificação duma Europa aberta ao mundo. É que, da Igreja Católica, deriva um modelo de unidade essencial na diversidade das expressões culturais, a consciência de pertencer a uma comunidade universal que se radica mas não se esgota nas comunidades locais, a sensação de que aquilo que une supera o que diferencia.(184)

117. Nas suas relações com os poderes públicos, a Igreja não pede um regresso a formas de Estado confessional. Ao mesmo tempo, deplora todo o tipo de laicismo ideológico ou de separação hostil entre as instituições civis e as confissões religiosas.

Por sua vez, na lógica de uma sã cooperação entre comunidade eclesial e sociedade política, a Igreja Católica está convencida de que pode dar um contributo singular em ordem à unificação, oferecendo às instituições europeias, em continuidade com a sua tradição e coerentemente com as indicações da sua doutrina social, a ajuda de comunidades crentes que procuram realizar o compromisso de humanização da sociedade a partir do Evangelho vivido sob o signo da esperança. Nesta perspectiva, é necessária uma presença de cristãos adequadamente formados e competentes nas várias instâncias e instituições europeias, que concorram, no respeito dos correctos dinamismos democráticos e através do confronto das propostas, para delinear uma convivência europeia cada vez mais respeitosa de todo o homem e mulher e, por isso, conforme ao bem comum.

118. A Europa, que está a ser construída como «  união  », impele também os cristãos à unidade para serem verdadeiras testemunhas de esperança. Neste âmbito, há que continuar e intensificar aquele intercâmbio de dons que registou, neste último decénio, significativas expressões. Realizado entre comunidades com histórias e tradições diferentes, leva a estreitar vínculos mais duradouros entre as Igrejas nos vários países e ao seu recíproco enriquecimento através de encontros, diálogos e mútuas ajudas. Em especial, há que valorizar o contributo da tradição cultural e espiritual oferecido pelas Igrejas Católicas Orientais.(185)

Um papel importante no crescimento desta unidade podem-no desempenhar os organismos continentais de comunhão eclesial, que esperam ver-se mais valorizados.(186) Entre eles, ocupa um lugar significativo o Conselho das Conferências Episcopais Europeias, chamado, a nível do continente inteiro, a «  prover à promoção de uma comunhão cada vez mais intensa entre as dioceses e entre as Conferências Episcopais Nacionais, ao incremento da colaboração ecuménica entre os cristãos e à superação dos obstáculos que ameaçam o futuro da paz e do progresso dos povos, ao robustecimento da colegialidade afectiva e efectiva e da “communio” hierárquica  ».(187) Juntamente com ele, há que reconhecer também o serviço da Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia, que, acompanhando o processo de consolidação e alargamento da União Europeia, fornece recíproca informação e coordena as iniciativas pastorais das Igrejas europeias implicadas.

119. O fortalecimento da união no âmbito do continente europeu estimula os cristãos a cooperarem com todas as suas forças no processo de integração e de reconciliação através do diálogo teológico, espiritual, ético e social.(188) De facto, «  na Europa a caminho para a unidade política, porventura podemos nós admitir que seja precisamente a Igreja de Cristo um factor de desunião e de discórdia? Não seria este um dos maiores escândalos do nosso tempo?  ».(189)

Do Evangelho, um novo impulso para a Europa

120. A Europa precisa de fazer um salto qualitativo na tomada de consciência da sua herança espiritual. O estímulo para isso só lhe pode vir de uma nova escuta do Evangelho de Cristo. Compete a todos os cristãos empenharem-se para satisfazer esta fome e sede de vida.

Por isso, «  a Igreja sente o dever de renovar com vigor a mensagem de esperança que Deus lhe confiou  » e que repete à Europa: «  “O Senhor, teu Deus, está no meio de ti como poderoso Salvador! ” (Sof 3, 17). O seu convite à esperança não se fundamenta numa ideologia utópica (...). Pelo contrário, trata-se da imorredoura mensagem de salvação proclamada por Cristo (cf. Mc 1, 15). Com a autoridade que lhe advém do seu Senhor, a Igreja repete à Europa de hoje: Europa do terceiro milénio, “não deixes cair os teus braços ” (Sof 3, 16); não cedas ao desânimo, não te resi- gnes a formas de pensar e de viver que não têm futuro, porque não assentam na sólida certeza da Palavra de Deus  ».(190)

Retomando este convite à esperança, repito também hoje a ti, Europa, que estás no início do terceiro milénio: «  Volta a encontrar-te. Sê tu mesma. Descobre as tuas origens. Reaviva as tuas raízes  ».(191) No decurso dos séculos, recebeste o tesouro da fé cristã. Este funda a tua vida social sobre os princípios tirados do Evangelho e divisam-se os seus traços nas artes, na literatura, no pensamento e na cultura das tuas nações. Mas esta herança não pertence só ao passado; é um projecto para o futuro que deve ser transmitido às novas gerações, porque constitui a matriz da vida das pessoas e dos povos que forjaram unidos o continente europeu.

121. Não temas! O Evangelho não é contra ti, mas a teu favor. Confirma-o a constatação de que a inspiração cristã pode transformar a agregação política, cultural e económica numa convivência onde todos os europeus se sintam em casa própria e formem uma família de nações, na qual se possam frutuosamente inspirar outras regiões do mundo.

Tem confiança! No Evangelho, que é Jesus, encontrarás a esperança sólida e duradoura por que anseias. É uma esperança fundada na vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. Esta vitória, quis Ele que te pertencesse para tua salvação e alegria.

Podes estar certa! O Evangelho da esperança não desilude! Nas vicissitudes da história de ontem e de hoje, é luz que ilumina e orienta o teu caminho; é força que te sustenta nas provações; é profecia de um mundo novo; é indicação de um novo início; é convite a todos, crentes e não crentes, para traçarem caminhos sempre novos que desemboquem na «  Europa do espírito  » a fim de fazer dela uma verdadeira «  casa comum  » onde haja alegria de viver.

 

CONCLUSÃO

ENTREGA A MARIA

«  Apareceu um grande sinal no céu:
uma mulher revestida de sol  »
(Ap 12, 1)

A mulher, o dragão e o menino

122. A existência histórica da Igreja é ilustrada por «  sinais  », que estão à vista de todos mas que requerem uma interpretação. Entre eles, o Apocalipse coloca o «  grande sinal  » visto no céu, que fala de luta entre a mulher e o dragão.

Na mulher revestida de sol, que, aflita com as dores de parto, está para dar à luz (cf. Ap 12, 1-2), pode-se ver o Israel dos profetas que gera o Messias destinado a «  reger todas as nações com ceptro de ferro  » (Ap 12, 5). Mas é também a Igreja, povo da nova Aliança, à mercê da perseguição e todavia protegida por Deus. O dragão é «  a antiga serpente, o Diabo ou Satanás, como lhe chamam, o sedutor do mundo inteiro  » (Ap 12, 9). A luta é desigual: parece avantajado o dragão, tal é a sua arrogância frente à mulher inerme e atribulada. Na realidade, sai vencedor o filho que a mulher deu à luz. Nesta luta, uma coisa é certa: o grande dragão já foi derrotado, «  foi precipitado na terra, juntamente com os seus anjos  » (Ap 12, 9). Venceram-no Cristo, Deus feito homem, com a sua morte e ressurreição, e os mártires «  pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho (Ap 12, 11). E, mesmo se o dragão continuar com a sua hostilidade, não há que temer, porque a sua derrota já se deu.

123. Esta é a certeza que anima a Igreja no seu caminho, pois, na mulher e no dragão, revê a sua história de todos os tempos. A mulher, que dá à luz o filho varão, lembra-nos também a Virgem Maria, sobretudo quando, trespassada de dores ao pé da cruz, gera novamente o Filho, como vencedor do príncipe deste mundo. Ela é entregue a João que, por sua vez, é entregue a Ela (cf. Jo 19, 26-27), tornando-Se deste modo Mãe da Igreja. Através do vínculo que une Maria à Igreja e a Igreja a Maria, esclarece-se melhor o mistério da mulher: «  Maria, de facto, presente na Igreja como Mãe do Redentor, participa maternalmente naquele duro combate contra o poder das trevas, que se trava ao longo de toda a história humana. E, em virtude desta sua identificação eclesial com a “mulher revestida de sol” (Ap 12, 1), pode dizer-se que a Igreja alcançou já na Virgem Santíssima aquela perfeição, pela qual ela se apresenta sem mancha nem ruga  ».(192)

124. Por isso, toda a Igreja tem os olhos postos em Maria. Devido aos inúmeros santuários marianos espalhados por todas as nações do continente, a devoção a Maria é muito viva e generalizada entre os povos europeus.

Igreja na Europa, continua, pois, a contemplar Maria, reconhecendo que Ela está «  presente como Mãe e participa nos múltiplos e complexos problemas que hoje acompanham a vida dos indivíduos, das famílias e das nações  », e é o «  auxílio do povo cristão, na luta incessante entre o bem e o mal, para que não caia ou, se caiu, para que ressurja  ».(193)

Súplica a Maria, Mãe da esperança

125. Nesta contemplação, animada por autêntico amor, vemos Maria como figura da Igreja, que, alimentada pela esperança, reconhece a acção salvífica e misericordiosa de Deus, à luz da qual lê o seu próprio caminho e toda a história. Também hoje Ela nos ajuda a interpretar as nossas vicissitudes na perspectiva do seu Filho Jesus. Criatura nova plasmada pelo Espírito Santo, Maria faz crescer em nós a virtude da esperança.

A Ela, Mãe da esperança e da consolação, dirijamos confiadamente a nossa súplica; entreguemos-Lhe o futuro da Igreja na Europa e o de todas as mulheres e homens deste continente:

Maria, Mãe da esperança,
caminhai connosco!

Ensinai-nos a anunciar o Deus vivo;
ajudai-nos a dar testemunho de Jesus,
o único Salvador;
tornai-nos serviçais com o próximo,
acolhedores com os necessitados,
obreiros de justiça,
construtores apaixonados
dum mundo mais justo;
intercedei por nós que agimos na história
certos de que o desígnio do Pai se realizará.

Aurora dum mundo novo,
mostrai-Vos Mãe da esperança e velai por nós!
Velai pela Igreja na Europa:
que ela seja transparência do Evangelho;
seja autêntico espaço de comunhão;
viva a sua missão
de anunciar, celebrar e servir
o Evangelho da esperança
para a paz e a alegria de todos.

Rainha da paz,
protegei a humanidade do terceiro milénio!
Velai por todos os cristãos:
que eles prossigam cheios de confiança
no caminho da unidade,
como fermento para a concórdia
do continente.
Velai pelos jovens,
esperança do futuro:
que eles respondam generosamente
ao chamamento de Jesus.

Velai pelos responsáveis das nações:
que eles se empenhem na construção
duma casa comum,
onde sejam respeitados a dignidade
e o direito de cada um.
Maria, dai-nos Jesus!
Fazei que O sigamos e amemos!
Ele é a esperança da Igreja,
da Europa e da humanidade.
Ele vive connosco, entre nós, na sua Igreja.
Convosco dizemos:
«  Vem, Senhor Jesus  » (Ap 22, 20)!
Que a esperança da glória,
por Ele infundida nos nossos corações,
produza frutos de justiça e de paz!

 

Dado em Roma, junto de S. Pedro, no dia 28 de Junho – vigília da Solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo – do ano 2003, vigésimo quinto de Pontificado.

 

JOANNES PAULUS PP. II

 

 


Notas

 

(1)Cf. II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Mensagem final, 3: L'Osservatore Romano (ed. port. de 30/X/1999), 566.

(2)Cf. II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Instrumentum laboris, 90-91: L'Osservatore Romano (06/VIII/1999 - Supl.), 17-18.

(3)João Paulo II, Bula Incarnationis mysterium (29 de Novembro de 1998), 3-4: AAS 91 (1999), 132-133.

(4)Cf. João Paulo II, Carta ap. Tertio millennio adveniente (10 de Novembro de 1994), 38: AAS 87 (1995), 30.

(5)Cf. Alocução do «  Angelus  », 2: L'Osservatore Romano (ed. port. de 06/VII/1996), 329.

(6)I Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Declaração final (13 de Dezembro de 1991), 2: L'Osservatore Romano (ed. port. de 29/XII/1991), 692.

(7) Ibid., 3: o.c., 692.

(8)Cf. II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Instrumentum laboris, 3: L'Osservatore Romano (06/VIII/1999 - Supl.), 3.

(9)Cf. João Paulo II, Homilia durante a Missa de encerramento da II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa (23 de Outubro de 1999), 1: AAS 92 (2000), 177.

(10)Cf. II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Mensagem final, 2: L'Osservatore Romano (ed. port. de 30/X/1999), 566.

(11)Cf. João Paulo II,  Homilia durante a Missa de encerramento da II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa (23 de Outubro de 1999), 4: AAS 92 (2000), 179.

(12) Ibid.

(13)Cf. Propositio 1.

(14)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Instrumentum laboris, 2: L'Osservatore Romano (06/VIII/1999 - Supl.), 2-3.

(15)Cf. ibid., 12-13.16-19: o.c., 4-6; Idem, Relatio ante disceptationem, I: L'Osservatore Romano (ed. port. de 09/X/1999), 501-502; Idem, Relatio post disceptationem, II-A: L'Osservatore Romano (11-12/X/1999), 10.

(16)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Relatio ante disceptationem, I, 1. 2: L'Osservatore Romano (ed. port. de 09/X/1999), 501.

(17)Cf. Propositio 5a.

(18)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Mensagem final, 1: L'Osservatore Romano (ed. port. de 30/X/1999), 566.

(19)Cf. Propositio 5a; Pont. Cons. da Cultura e Pont. Cons. para o Diálogo Inter-Religioso, Jesus Cristo portador da água viva. Uma reflexão cristã sobre a New Age (Cidade do Vaticano 2003).

(20)Cf. Propositio 5a.

(21)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Mensagem final, 6: L'Osservatore Romano (ed. port. de 30/X/1999), 567.

(22)João Paulo II, Alocução do «  Angelus  » (25 de Agosto de 1996), 2: L'Osservatore Romano (ed. port. de 31/VIII/1996), 397; cf. Propositio 9.

(23)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Instrumentum laboris, 88: L'Osservatore Romano (06/VIII/1999 - Supl.), 17.

(24)João Paulo II,  Homilia durante a Missa de encerramento da II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa (23 de Outubro de 1999), 4: AAS 92 (2000), 179.

(25)Cf. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Christifideles laici (30 de Dezembro de 1988), 26: AAS 81 (1989), 439.

(26)Cf. Propositio 21.

(27) Ibid.

(28) Propositio 9.

(29) Ibid.

(30)Cf. Propositio 4, 1.

(31)João Paulo II,  Homilia durante a Missa de encerramento da II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa (23 de Outubro de 1999), 2: AAS 92 (2000), 178.

(32)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Mensagem final, 2: L'Osservatore Romano (ed. port. de 30/X/1999), 566.

(33)Cf. Propositio 4, 2.

(34)João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 47: AAS 83 (1991), 852.

(35)Cf. Propositio 4, 1.

(36)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Instrumentum laboris, 30: L'Osservatore Romano (06/VIII/1999 - Supl.), 8.

(37)Cf. João Paulo II,  Homilia durante a Missa de encerramento da II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa (23 de Outubro de 1999), 3: AAS 92 (2000), 178; Congr. da Doutrina da Fé, Decl. Dominus Iesus (6 de Agosto de 2000), 13: AAS 92 (2000), 754.

(38)Cf. Propositio 5.

(39)Cf. João Paulo II, Carta enc. Dominum et vivificantem (18 de Maio de 1986), 7: AAS 78 (1986), 816; Congr. da Doutrina da Fé, Decl. Dominus Iesus (6 de Agosto de 2000), 16: AAS 92 (2000), 756-757.

(40)Paulo VI, Carta enc. Mysterium fidei (3 de Setembro de 1965): AAS 57 (1965), 762-763; cf. Sagr. Congr. dos Ritos, Instr. Eucharisticum mysterium (25 de Maio de 1967), 9: AAS 59 (1967), 547; Catecismo da Igreja Católica, 1374.

(41)Conc. Ecum. de Trento, Decretum de ss. Eucharistia, cân. 1: DS 1651; cf. ibid., cap. 3: o.c., 1641.

(42)João Paulo II, Carta enc. Ecclesia de Eucharistia (17 de Abril de 2003), 15: L'Osservatore Romano (ed. port. de 19/IV//2003), 218.

(43)Cf. S. Agostinho, In Ioannis Evangelium, Tractatus VI, cap. I, n. 7: PL 35, 1428; S. João Crisóstomo, Sobre a traição de Judas, 1, 6: PG 49, 380C.

(44)Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada liturgia Sacrosanctum Concilium, 7; Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 50; Paulo VI, Carta enc. Mysterium fidei (3 de Setembro de 1965): AAS 57 (1965), 762-763; Sagr. Congr. dos Ritos, Instr. Eucharisticum mysterium (25 de Maio de 1967), 9: AAS 59 (1967), 547; Catecismo da Igreja Católica, 1373-1374.

(45)João Paulo II, Motu proprio Spes aedificandi para a proclamação de três co-Padroeiras da Europa (1 de Outubro de 1999), 1: AAS 92 (2000), 220.

(46)Cf. João Paulo II, Discurso na sede do Parlamento Polaco (Varsóvia, 11 de Junho de 1999), 6: L'Osservatore Romano (ed. port. de 19/VI/1999), 314.

(47)Cf. João Paulo II, Discurso na cerimónia de despedida (Aeroporto de Cracóvia, 10 de Junho de 1997), 4: L'Osservatore Romano (ed. port. de 28/VI/1997), 302.

(48)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Mensagem final, 4: L'Osservatore Romano (ed. port. de 30/X/1999), 566.

(49)Cf. Propositio 15, 1; Catecismo da Igreja Católica, 773; João Paulo II, Carta ap. Mulieris dignitatem (15 de Agosto de 1988), 27: AAS 80 (1988), 1718.

(50)Cf. Propositio 15, 1.

(51) Propositio 21.

(52)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Mensagem final, 4: L'Osservatore Romano (ed. port. de 30/X/1999), 566.

(53) Propositio 9.

(54) Ibid.

(55) Ibid.

(56)Cf. Propositio 22.

(57)João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Pastores dabo vobis (25 de Março de 1992), 15: AAS 84 (1992), 679-680.

(58)Cf. ibid., 29: o.c., 703-705; Propositio 18.

(59)Cf. Código dos Cânones das Igrejas Orientais, cân. 373.

(60)Cf. Código de Direito Canónico, cân. 277, § 1.

(61)Cf. Paulo VI, Carta enc. Sacerdotalis coelibatus (24 de Junho de 1967), 40: AAS 59 (1967), 673.

(62)Cf. Propositio 18.

(63)Cf. ibid.

(64)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Mensagem final, 4: L'Osservatore Romano (ed. port. de 30/X/1999), 567.

(65)Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 29.

(66)Cf. Propositio 19.

(67)Cf. ibid.

(68)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Relatio ante disceptationem, III: L'Osservatore Romano (ed. port. de 09/X/1999), 506.

(69)Cf. Propositio 17.

(70)Cf. ibid.

(71)João Paulo II, Discurso aos participantes no Congresso sobre «  Novas vocações para uma nova Europa  » (9 de Maio de 1997), 1. 3: L'Osservatore Romano (ed. port. de 24/V/1997), 235.

(72)João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Christifideles laici (30 de Dezembro de 1988), 7: AAS 81 (1989), 404.

(73)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Instrumentum laboris, 82: L'Osservatore Romano (06/VIII/1999 - Supl.), 16.

(74)Cf. Propositio 29.

(75)Cf. Propositio 30.

(76)Cf. ibid.

(77)Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), 14: AAS 68 (1976), 13.

(78)Cf. Propositio 3b.

(79)Cf. João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990), 37: AAS 83 (1991), 282-286.

(80)Cf. II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Relatio ante disceptationem, I, 2: L'Osservatore Romano (ed. port. de 09/X/1999), 502.

(81)Cf. Propositio 3a.

(82)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Relatio ante disceptationem, III, 1: L'Osservatore Romano (ed. port. de 09/X/1999), 505.

(83)Cf. II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Instrumentum laboris, 53: L'Osservatore Romano (06/VIII/1999 - Supl.), 12.

(84)Cf. Propositio 4, 1.

(85)Cf. Propositio 26, 1.

(86)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Relatio ante disceptationem, III, 1: L'Osservatore Romano (ed. port. de 09/X/1999), 505.

(87)Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), 41: AAS 68 (1976), 31.

(88)Propositio 8, 1.

(89)Cf. Propositio 8, 2.

(90)Cf. Propositiones 8, 1a-b. 6.

(91)Cf. João Paulo II, Exort. ap. Catechesi tradendae (16 de Outubro de 1979), 21: AAS 71 (1979), 1294-1295.

(92)Cf. Propositio 24.

(93)Cf. Propositio 8, 1c.

(94)Cf. Propositio 24.

(95)Cf. Propositio 22.

(96)Cf. João Paulo II, Discurso aos Presidentes das Conferências Episcopais da Europa (16 de Abril de 1993), 1: AAS 86 (1994), 227.

(97)João Paulo II, Discurso durante a Celebração Ecuménica da Palavra (Catedral de Paderborn, 22 de Junho de 1996), 5: L'Osservatore Romano (ed. port. de 29/VI/1996), 317.

(98)Paulo VI, Carta de 13 de Janeiro de 1970: Tomos agapis (Roma-Istambul, 1971), 610-611; cf. João Paulo II, Carta enc. Ut unum sint (25 de Maio de 1995), 99: AAS 87 (1995), 980.

(99)João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de Dezembro de 1990), 55: AAS 83 (1991), 302.

(100) Ibid., 36: o.c., 281.

(101)Cf. I Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Declaração final (13 de Dezembro de 1991), 8: L'Osservatore Romano (ed. port. de 29/XII/1991), 694; II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Instrumentum laboris, 62: L'Osservatore Romano (06/VIII/1999 - Supl.), 13; Propositio 10.

(102) Propositio 10; cf. Comissão para as Relações Religiosas com o hebraísmo, Documento «  Nós recordamos: uma Reflexão sobre o Shoah  » (16 de Março de 1998): L'Osservatore Romano (ed. port. de 21/III/1998), 144-145.

(103)I Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Declaração final (13 de Dezembro de 1991), 9: L'Osservatore Romano (ed. port. de 29/XII/1991), 694.

(104)Cf. Propositio 11.

(105)Cf. ibid..

(106)João Paulo II, Discurso ao Corpo Diplomático (12 de Janeiro de 1985), 3: AAS 77 (1985), 650.

(107)Conc. Ecum. Vat. II, Decl. sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanae, 2.

(108)Cf. Propositio 23.

(109)Cf. Propositiones 25; 26, 2.

(110)Cf. Propositio 26, 3.

(111)Cf. Propositio 27.

(112)João Paulo II, Carta aos artistas (4 de Abril de 1999), 12: AAS 91 (1999), 1168.

(113)Cf. Propositio 7b-c.

(114)Cf. João Paulo II, Discurso durante a Vigília de Oração na XV Jornada Mundial da Juventude (Tor Vergata, 19 de Agosto de 2000), 6: L'Osservatore Romano (ed. port. de 26/VIII/2000), 383.

(115)Cf. Pont. Cons. para as Comunicações Sociais, Ética nas Comunicações Sociais (4 de Junho de 2000): L'Osservatore Romano (ed. port. de 10/VI/2000), 277-280.

(116) Propositio 13.

(117)Cf. Propositio 12.

(118)Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei Verbum, 25.

(119)Cf. Propositio 14.

(120)Const. sobre a sagrada liturgia Sacrosanctum Concilium, 8.

(121)Cf. Propositio 14; II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Relatio ante disceptationem, III-2: L'Osservatore Romano (ed. port. de 09/X/1999), 505.

(122)Cf. Propositio 15, 2a.

(123)Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o ministério e a vida dos sacerdotes Presbyterorum Ordinis, 5.

(124)Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 11.

(125)João Paulo II, Carta enc. Ecclesia de Eucharistia (17 de Abril de 2003), 20: L'Osservatore Romano (ed. port. de 19//IV/2003), 219.

(126)Cf. João Paulo II, Discurso na Audiência Geral (25 de Outubro de 2000), 2: L'Osservatore Romano (ed. port. de 28/X//2000), 504.

(127) Propositio 16.

(128)Cf. II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Relatio ante disceptationem, III, 2: L'Osservatore Romano (ed. port. de 09/X/1999), 505.

(129)Cf. Propositio 16.

(130)Cf. João Paulo II, Motu proprio Misericordia Dei (7 de Abril de 2002), 4: AAS 94 (2002), 456-457.

(131)Cf. Propositio 16; João Paulo II, Carta aos sacerdotes por ocasião da Quinta-feira Santa de 2002 (17 de Março de 2002), 4: AAS 94 (2002), 435-436.

(132)Cf. Propositio 14c.

(133)Cf. ibid.

(134)Cf. Const. sobre a sagrada liturgia Sacrosanctum Concilium, 100.

(135)Cf. Propositiones 14c. 20.

(136)Cf. Propositio 20.

(137)João Paulo II, Carta ap. Rosarium Virginis Mariae (16 de Outubro de 2002), 3: AAS 95 (2003), 7.

(138)Cf. Propositio 14.

(139)João Paulo II, Carta ap. Dies Domini (31 de Maio de 1998), 4: AAS 90 (1998), 716.

(140)João Paulo II, Carta enc. Redemptor hominis (4 de Março de 1979), 10: AAS 71 (1979), 274.

(141)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Instrumentum laboris, 72: L'Osservatore Romano (06/VIII/1999 - Supl.), 15.

(142)Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 1.

(143)João Paulo II, Carta enc. Evangelium vitæ (25 de Março de 1995), 90: AAS 87 (1995), 503.

(144)Cf. Propositio 33.

(145)Propositio 35.

(146)Cf. Propositio 36.

(147)Cf. Propositio 31.

(148)Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 48.

(149)Cf. Propositio 31.

(150)João Paulo II, Discurso no III Encontro Mundial das Famílias, por ocasião do seu Jubileu (14 de Outubro de 2000), 6: L'Osservatore Romano (ed. port. de 21/X/2000), 481 e 484.

(151)João Paulo II, Exort. ap. Familiaris consortio (22 de Novembro de 1981), 17: AAS 74 (1982), 99-100.

(152)João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 39: AAS 83 (1991), 842.

(153)Cf. João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Christifideles laici (30 de Dezembro de 1988), 40: AAS 81 (1989), 469.

(154)Cf. João Paulo II, Discurso no I Encontro Mundial das Famílias (8 de Outubro de 1994), 7: AAS 87 (1995), 587.

(155)Cf. Propositio 32.

(156)Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 51.

(157)João Paulo II, Carta enc. Evangelium vitæ (25 de Março de 1995), 63: AAS 87 (1995), 473.

(158) Ibid., 95: o.c., 509.

(159)João Paulo II, Discurso ao novo Embaixador da Noruega junto da Santa Sé (25 de Março de 1995): L'Osservatore Romano (ed. port. de 15/IV/1995), 177.

(160) Propositio 32.

(161)Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 57.

(162)Cf. Propositio 28; I Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Declaração final (13 de Dezembro de 1991), 10: L'Osservatore Romano (ed. port. de 29/XII/1991), 695-696.

(163)Cf. Propositio 23.

(164)Cf. Propositio 28.

(165) Propositio 34.

(166)Cf. Congr. dos Bispos, Instr. Nemo est (22 de Agosto de 1969), 16: AAS 61 (1969), 621-622; Código de Direito Canónico, cân. 294 e 518; Código dos Cânones das Igrejas Orientais, cân. 280-§ 1.

(167)Cf. II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Mensagem final, 5: L'Osservatore Romano (ed. port. de 30/X/1999), 567.

(168)João Paulo II, Homilia durante a Missa de encerramento da II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa (23 de Outubro de 1999), 5: AAS 92 (2000), 179.

(169) Propositio 39.

(170) Ibid.

(171)Cf. ibid.; Propositio 28.

(172)João Paulo II, Carta ao Cardeal Miloslav Vlk, Presidente do Conselho das Conferências Episcopais Europeias (16 de Outubro de 2000), 7: Insegnamenti, XXIII/2 (2000), 628.

(173)Ibid.

(174)João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2000 (8 de Dezembro de 1999), 17: AAS 92 (2000), 367-368.

(175)João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 35: AAS 83 (1991), 837.

(176)Cf. Propositio 39.

(177)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Instrumentum laboris, 85: L'Osservatore Romano (06/VIII/1999 - Supl.), 17; cf. Propositio 39.

(178)Cf. João Paulo II, Discurso aos membros da Mesa de Presidência do Parlamento Europeu (5 de Abril de 1979): L'Osservatore Romano (ed. port. de 22/IV/1979), 3.

(179)Cf. Propositio 37.

(180)Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 76.

(181)Cf. João Paulo II, Discurso ao Corpo Diplomático (13 de Janeiro de 2003), 5: L'Osservatore Romano (ed. port. de 18/I//03), 27.

(182)II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Mensagem final, 6: L'Osservatore Romano (ed. port. de 30/X/1999), 567.

(183)João Paulo II, Carta ao Cardeal Miloslav Vlk, Presidente do Conselho das Conferências Episcopais Europeias (16 de Outubro de 2000), 4: Insegnamenti, XXIII/2 (2000), 626.

(184)Cf. I Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa, Declaração final (13 de Dezembro de 1991), 10: L'Osservatore Romano (ed. port. de 29/XII/1991), 695-696.

(185)Cf. Propositio 22.

(186)Cf. ibid., 22.

(187)João Paulo II, Discurso aos presidentes das Conferências Episcopais da Europa (16 de Abril de 1993), 5: AAS 86 (1994), 229.

(188)Cf. Propositio 39d.

(189)João Paulo II, Homilia durante a celebração ecuménica por ocasião da I Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa (7 de Dezembro de 1991), 6: L'Osservatore Romano (ed. port. de 15/XII/1991), 650.

(190)João Paulo II, Homilia durante a Missa de abertura da II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa (1 de Outubro de 1999), 3: AAS 92 (2000), 174-175.

(191)Discurso no «  Acto Europeísta  » com a presença de Autoridades Europeias e Presidentes das Conferências Episcopais da Europa (Santiago de Compostela, 9 de Novembro de 1982), 4: AAS 75 (1983), 330.

(192)João Paulo II, Carta enc. Redemptoris Mater (25 de Março de 1987), 47: AAS 79 (1987), 426.

(193)Ibid., 52: o.c., 432; cf. Propositio 40.

 

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