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COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL
FÉ E INCULTURAÇÃO[1]
(1988)
Introdução
1. NATUREZA, CULTURA E GRAÇA
2. A INCULTURAÇÃO NA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO
2. Jesus Cristo, Senhor e Salvador do mundo
1. A transcendência de Jesus Cristo em relação às culturas
2. A presença de Cristo na cultura e nas culturas
1. A particularidade de Cristo, Senhor e Salvador universal
2. A catolicidade do Único
3. A Igreja dos Apóstolos e o Espírito Santo
1. De Jerusalém às Nações: os começos típicos da inculturação da fé
2. A Tradição Apostólica: inculturação da fé e salvação da cultura
3. PROBLEMAS ATUAIS DA INCULTURAÇÃO
1. A Piedade popular
2. Inculturação da fé e Religiões não cristãs
3. As Igrejas jovens e o seu passado cristão
4. A Fé cristã e a modernidade
CONCLUSÃO
ANEXO
Introdução
1. A Comissão Teológica Internacional teve várias vezes ocasião de refletir
sobre as relações entre fé e cultura.[2]
Em 1984, falou diretamente de inculturação da fé, no estudo sobre o mistério da
Igreja que elaborou para o Sínodo extraordinário de 1985.[3]
Por seu lado, a Comissão Bíblica Pontifícia teve a sua sessão plenária de 1979
sobre o tema A inculturação da fé à luz da Escritura.[4]
2. Hoje, a Comissão Teológica Internacional pretende fazer esta reflexão de modo
mais aprofundado e sistemático, devido à importância que este tema da
inculturação da fé adquiriu em todo o mundo cristão e à insistência com que o
Magistério da Igreja abordou o mesmo tema, após o concílio Vaticano II.
3. A base é fornecida pelos documentos conciliares e pelos textos dos Sínodos
que os prolongaram. Assim, na Constituição
Gaudium et spes, o concílio designou as lições e diretivas que a Igreja colheu das suas
primeiras experiências de inculturação no mundo greco-romano.[5]
Um capítulo inteiro deste documento foi dedicado à promoção da cultura (De
culturae progressu rite promovendo).[6]
Depois de ter descrito a cultura como um esforço para mais humanidade e para um
melhor ordenamento do universo, o concílio considerou longamente as relações
entre a cultura e a mensagem da salvação. Enunciou, ainda, alguns dos mais
urgentes deveres dos cristãos em relação à cultura: defesa do direito de todos à
cultura, promoção de uma cultura integral, harmonização das relações entre
cultura e cristianismo. O Decreto sobre a atividade missionária da Igreja e a
Declaração sobre as religiões não cristãs, retomam algumas destas orientações.
Dois Sínodos ordinários trataram expressamente da evangelização das culturas: o
de 1974, dedicado à evangelização;[7]
e o de 1976, sobre a formação catequética.[8]
O Sínodo de 1985, que celebrava o vigésimo aniversário do encerramento do
concílio Vaticano II, falou da inculturação como “uma íntima transformação dos
autênticos valores culturais mediante a sua integração no cristianismo e a
encarnação do cristianismo nas várias culturas humanas”.[9]
4. O Papa João Paulo II acolheu de maneira especial a evangelização das
culturas: a seus olhos, o diálogo da Igreja e das culturas reveste-se de vital
importância para o futuro da Igreja e do mundo. Para o ajudar nesta grande obra,
o Santo Padre criou um organismo especializado: o Conselho Pontifício para a
Cultura.[10] É, aliás, com este
dicastério que a Comissão Teológica Internacional se alegra de poder refletir
hoje sobre a inculturação da fé.
5. Apoiando-se na convicção de que “a Encarnação do Verbo foi também uma
encarnação cultural”, o Papa afirma que as culturas, analogicamente comparáveis
à humanidade de Cristo naquilo que têm de bom, podem desempenhar uma função
positiva de mediação para a expressão e irradiação da fé cristã.[11]
6. Dois temas essenciais estão ligados a estas perspectivas. Em primeiro lugar,
o da transcendência da Revelação em relação às culturas em que ela se exprime.
Com efeito, a Palavra de Deus não poderia identificar-se ou ligar-se de maneira
exclusiva aos elementos da cultura que a transmite. O Evangelho, onde se
enraíza, impõe muitas vezes uma conversão das mentalidades e uma modificação dos
costumes; o mesmo acontece com as culturas que devem ser purificadas e
restauradas em Cristo.
7. O segundo grande tema do ensinamento de João Paulo II incide sobre a urgência
da evangelização das culturas. Esta empresa supõe que se compreendam e penetrem
com simpatia crítica as identidades culturais particulares e que, numa
preocupação de universalidade em consonância com a realidade propriamente humana
das culturas, se favoreça, entre elas, a troca de experiências. Assim, o Santo
Padre fundamenta a evangelização das culturas numa concepção antropológica
fortemente enraizada no pensamento cristão, na sequência dos Padres da Igreja.
Se a cultura, quando é reta, revela e fortifica a natureza do
homem, a impregnação cristã da cultura supõe a ultrapassagem de todo o
historicismo e de todo o relativismo na concepção do humano. A evangelização das
culturas deve, então, inspirar-se no amor do homem em si mesmo e por si mesmo,
especialmente naqueles aspectos do seu ser e da sua cultura que são atacados ou
ameaçados.[12]
8. À luz deste ensinamento e da reflexão que o tema da inculturação da fé
suscitou na Igreja, proporemos, em primeiro lugar, uma antropologia cristã que
situe em mútua relação a natureza, a cultura e a graça. Veremos, em seguida, o
processo de inculturação na obra da história da salvação: o Israel antigo, a
vida e obra de Jesus, a Igreja das origens. Uma última seção abordará os
problemas que presentemente se põem à fé pelo seu encontro com a piedade
popular, as religiões não-cristãs, a tradição cultural nas jovens Igrejas e,
enfim, os diversos aspectos da modernidade.
1. NATUREZA, CULTURA E GRAÇA
1. Para descrever ou definir a cultura, os antropólogos recorrem de bom grado à
distinção, que por vezes aparece como oposição, entre natureza e cultura. Com
efeito, a significação desta palavra natureza varia segundo as diferentes
concepções das ciências experimentais, da filosofia e da teologia. O Magistério
entende esta palavra num sentido bem preciso: a natureza de um ser é aquilo que
o constitui como tal, com o dinamismo das suas tendências a caminho das suas
próprias finalidades. As naturezas receberam de Deus o seu ser e os seus fins
próprios e, desde esse instante, estão impregnadas de uma significação, em que o
homem, enquanto imagem de Deus, é capaz de ler a “intenção criadora de
Deus”.[13]
2. As inclinações fundamentais da natureza humana, expressas pela lei natural,
surgem assim como uma expressão da vontade do Criador. Esta lei natural declara
as exigências específicas da natureza humana, exigências que são
significativas do desígnio de Deus sobre a sua criatura racional e livre. Deste
modo, fica afastado qualquer mal-entendido que, interpretando a natureza em
sentido unívoco, reduziria o homem à sua natureza material.
3. Simultaneamente, deve considerar-se a natureza humana segundo o seu
desenvolvimento concreto no tempo da história. Dotado de uma liberdade falível
e, tantas vezes, escrava das paixões, que fez o homem da sua humanidade? Esta
herança transmitida às novas gerações comporta, a par de tesouros imensos de
sabedoria, arte e generosidade, uma parte considerável de desvios e perversões.
A atenção vai, então, centrar-se conjuntamente sobre a natureza humana e sobre a
condição humana, expressão esta que integra dados existenciais, entre os quais
alguns, como o pecado e a graça, se encontram ligados à história da salvação.
Assim, se utilizamos a palavra cultura, em primeiro lugar, num sentido positivo,
enquanto sinônimo de desenvolvimento, por exemplo, (como o fizeram o Vaticano II
e os papas recentes), não esquecemos também que as culturas podem perpetuar e
favorecer opções do orgulho e do egoísmo.
4. A cultura insere-se no prolongamento das exigências da natureza humana, como
realização das suas finalidades; é o ensinamento da Constituição
Gaudium et spes. “É próprio da pessoa humana não ter acesso verdadeiro e pleno à humanidade,
senão pela cultura, isto é, cultivando os bens e valores da natureza... A
palavra cultura, no sentido lato, designa tudo aquilo com que o homem
apura e desenvolve os inúmeros dotes do corpo e do espírito”.[14]
Surgem-nos, assim, diversos campos da cultura: pelo conhecimento e pelo
trabalho, o homem aplica-se a submeter o universo; humaniza a vida social pelo
progresso dos costumes e das instituições; por fim, traduz, comunica e conserva
pelas suas obras e no decurso dos tempos, as grandes experiências espirituais e
as maiores aspirações do homem, a fim de que sirvam para o progresso de um
grande número e mesmo de todo o gênero humano.
5. O sujeito primordial da cultura é a pessoa humana, considerada em todas as
dimensões do seu ser. O homem cultiva-se, aqui reside a finalidade primeira da
cultura, mas faz isso graças às obras de cultura e graças a uma memória
cultural. A cultura designa ainda o meio no qual, e graças ao qual, as
pessoas podem crescer.
6. A pessoa humana é um ser de comunhão; ela realiza-se dando e recebendo. É,
portanto, em solidariedade com os outros e através dos laços sociais que a
pessoa progride. Também estas realidades sociais que são a nação, o povo, a
sociedade, com o seu patrimônio cultural, constituem para o desenvolvimento da
pessoa “um determinado meio histórico, no qual todo o homem se insere e do qual
tira os valores que lhe permitem promover a civilização.”[15]
7. A cultura, que é sempre uma cultura concreta e particular, é uma abertura aos
valores superiores, comuns a todos os homens. A originalidade de uma cultura não
é caracterizada por uma inclinação sobre si mesma, mas pela contribuição para
uma riqueza que é o bem de todos os homens. O pluralismo cultural não deverá,
assim, interpretar-se como a justaposição de universos fechados, mas como a
participação no conjunto de realidades orientadas para os valores universais da
humanidade. Os fenômenos de penetração recíproca das culturas, frequentes na
história, ilustram esta abertura fundamental das culturas particulares aos
valores comuns de todos os homens e, consequentemente, a sua abertura mútua.
8. O homem é um ser naturalmente religioso. A orientação para o Absoluto está
inscrita no mais profundo do seu ser. A religião, em sentido lato, é parte
integrante da cultura, onde se radica e desenvolve. As grandes culturas
possuem, como complemento do edifício que constituem, a dimensão religiosa,
inspiradora das grandes realizações que marcaram a história milenária das
civilizações.
9. Na origem das grandes religiões está o movimento ascendente do homem à
procura de Deus. Este movimento deve ser objeto de um respeito sincero (uma vez
purificado dos seus desvios), pois é nele que se virá a manifestar o dom da fé
cristã. E o que distingue a fé cristã é o fato de ela ser livre adesão à
proposta de amor gratuito de Deus que se revelou a nós, que nos deu o seu Filho
único para nos libertar do pecado e que difundiu o seu Espírito nos nossos
corações. É neste dom que Deus faz de si mesmo à humanidade, que reside, face a
todas as aspirações, anseios, conquistas e aquisições da natureza, a radical
originalidade cristã.
10. Porque transcende toda a ordem da natureza e da cultura, a fé cristã é, por
um lado, compatível com todas as culturas na medida em que estas se conformam
com a reta razão e a vontade honesta; e, por outro lado, é um privilegiado fator
de dinamização de cultura. Há um princípio que clarifica o conjunto das relações
da fé e da cultura: a graça respeita a natureza, ela cura-a das feridas do
pecado, conforta-a e eleva-a. A elevação à vida divina é a finalidade específica
da graça, mas ela não se poderá realizar sem que a natureza esteja sarada e sem
que a elevação à ordem sobrenatural conduza a natureza, no seu próprio domínio,
a uma plenitude de perfeição.
11. O processo de inculturação pode ser definido como o esforço da Igreja
para fazer penetrar da mensagem de Cristo um determinado meio sociocultural,
convidando-o a crescer segundo os seus próprios valores, desde que estes sejam
conciliáveis com o Evangelho. O termo inculturação inclui a ideia de
crescimento e de enriquecimento mútuo das pessoas e dos grupos, pelo fato do
encontro do Evangelho com um meio social. “A inculturação é a encarnação
do Evangelho nas culturas autóctones e, simultaneamente, a introdução destas
culturas na vida da Igreja”.[16]
2. A INCULTURAÇÃO NA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO
Javé e o povo da Aliança
Jesus Cristo, Senhor e Salvador do mundo
O Espírito Santo e a Igreja dos Apóstolos
1. Consideremos as relações da natureza, da cultura e da graça na história
concreta da aliança de Deus com a humanidade. Iniciada com um povo particular e
culminando num filho deste povo que é também Filho de Deus, esta história
prolonga-se, a partir dele, a todas as nações da terra e mostra “a admirável
‘condescendência’ da eterna Sabedoria”.[17]
1. Israel, o povo da Aliança
2. Israel compreendeu-se a si próprio como um povo formado de maneira imediata
por Deus. Também o Antigo Testamento, a Bíblia do Israel antigo, é testemunha
permanente da revelação do Deus vivo aos membros de um povo escolhido. Na sua
forma escrita, esta revelação contém ainda a marca das experiências culturais e
sociais do milênio em que este povo e as civilizações circundantes se
encontraram na história. O Israel antigo, que nasceu num mundo onde se haviam já
manifestado grandes culturas, cresceu em ligação com elas.
3. As mais antigas instituições de Israel (por exemplo, a circuncisão, o
sacrifício da primavera, o repouso do shabbat) não lhe são específicas,
adquiriu-as dos povos vizinhos. Uma grande parte da cultura de Israel tem origem
semelhante. No entanto, o povo da Bíblia introduziu profundas mudanças nestas
aquisições quando as incorporou na sua fé e na sua prática religiosa. Passou-as
ao crivo da fé no Deus pessoal de Abraão (livre criador, e sábio ordenador do
universo, no qual o pecado e a morte não poderiam encontrar a sua origem). É o
encontro deste Deus, encontro vivido na Aliança, que permite compreender o homem
e a mulher como seres pessoais, e assim rejeitar comportamentos inumanos
inerentes a outras culturas.
4. Os autores bíblicos utilizaram e, simultaneamente, transformaram as culturas
do seu tempo não só para divulgar, através da história de um povo, a ação
salvífica que Deus fará culminar em Jesus Cristo, mas também para unir os povos
de todas as culturas, chamados a formar um só corpo, de que Cristo é a cabeça.
5. No Antigo Testamento, culturas absorvidas e transformadas são postas ao
serviço da revelação do Deus de Abraão, vivida na Aliança e consignada na
Escritura. No plano cultural e religioso, foi uma preparação única para a vinda
de Jesus Cristo. No Novo Testamento, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, mais
profundamente revelado e manifestado na plenitude do Espírito, convida todas as
culturas a deixarem-se transformar pela vida, pela palavra, pela morte e pela
ressurreição de Jesus Cristo.
6. Se os pagãos estão “enxertados em Israel”,[18]
deve sublinhar-se que o plano original de Deus incide sobre toda a criação.[19]
Com efeito, é concluída uma aliança, por intermédio de Noé, com todos os povos
da terra que aceitem viver na justiça.[20]
Esta aliança é anterior às realizadas com Abraão e Moisés. De notar, enfim, o
fato de Israel, a partir de Abraão, ter sido convidado a partilhar com todas as
famílias da terra, as bênçãos que ele próprio havia recebido.[21]
7. Assinalemos, por outro lado, que, dos diversos aspectos da cultura de Israel,
nem todos mantiveram as mesmas relações com a revelação divina. Muitos deles
atestam mesmo uma resistência à Palavra de Deus, enquanto outros exprimem a sua
aceitação. Destes últimos, é necessário ainda distinguir o provisório
(prescrições rituais e judiciais) e o permanente, de incidência universal.
Certos elementos na “Lei de Moisés, os profetas e os salmos”[22]
têm como significação o serem, precisamente, a pré-história de Jesus.
2. Jesus Cristo, Senhor e Salvador do mundo
1. A transcendência de Jesus Cristo em relação às culturas
8. Uma convicção domina a pregação de Jesus: nele, Jesus, na sua palavra e na
sua pessoa, Deus completa os dons que havia já feito a Israel e ao conjunto das
nações, superando-os.[23] Jesus é a
luz soberana e a verdadeira sabedoria para todas as nações e todas as culturas.[24]
Na sua própria atividade, Jesus mostra que o Deus de Abraão, previamente
reconhecido por Israel como criador e senhor,[25]
não só se dispõe a reinar sobre todos os que hão de crer no Evangelho, como
efetivamente, e por Jesus, já reina.[26]
9. O ensinamento de Jesus, principalmente nas parábolas, não se priva de
corrigir ou mesmo de contestar várias ideias, que a história, a religião
efetivamente praticada e a cultura inspiraram aos seus contemporâneos sobre a
natureza de Deus e o seu agir.[27]
10. A intimidade filial de Jesus com Deus e a obediência amorosa que o levou a
oferecer ao Pai a sua vida e morte,[28]
comprovam que, nele, o desígnio original de Deus sobre a criação, viciada pelo
pecado, foi restaurado.[29] Estamos
perante uma nova criação, a do novo Adão.[30]
As relações com Deus são, em muitos aspectos, profundamente modificadas.[31]
A novidade é tal, que a maldição que atinge o Messias crucificado se transforma
em bênção para todos os povos[32]
e o regime da Lei é substituído pela fé em Jesus Salvador.[33]
11. A morte e a ressurreição de Jesus, pelas quais o Espírito foi infundido no
coração dos homens, mostraram as insuficiências da sabedoria e da moral
puramente humanas, e mesmo da própria Lei, embora dada por Deus a Moisés, porque
se limitavam a dar o conhecimento do bem sem oferecer a força para o praticar, e
o conhecimento do pecado sem o poder para, a ele, se subtrair.[34]
2. A presença de Cristo na cultura e nas culturas
1. A particularidade de Cristo, Senhor e Salvador universal
12. A encarnação do Filho de Deus, porque integral e concreta, foi uma
encarnação cultural. “Cristo aceitou, pela sua encarnação, as condições sociais
e culturais dos homens com quem conviveu”.[35]
13. O Filho de Deus quis ser um judeu de Nazaré, na Galileia, falando aramaico,
obedecendo a pais piedosos de Israel, acompanhando-os ao Templo de Jerusalém,
onde o encontraram “sentado no meio dos doutores, escutando-os e
interrogando-os”.[36] Jesus cresceu
entre os costumes e instituições da Palestina do primeiro século e iniciou-se
nos ofícios próprios da sua época, observando o comportamento dos pescadores,
dos camponeses e dos comerciantes. As cenas e as paisagens que alimentaram a
imaginação do futuro rabi são as de um determinado país e de uma determinada
época.
14. Alimentado pela piedade de Israel, formado pelo ensinamento da Lei e dos
profetas, Jesus, a quem uma singular experiência de Deus como Pai confere
profundidade insondável, situa-se numa tradição espiritual bem determinada, a do
profetismo judaico. Como os profetas de antanho, ele é a boca de Deus que apela
à conversão. Os modos de expressão são igualmente típicos, o vocabulário, os
géneros literários, os processos de estilo, e recordam a linhagem de Elias e
Eliseu no paralelismo bíblico, nos provérbios, paradoxos, admoestações,
bem-aventuranças e até nas ações simbólicas.
15. Jesus está de tal modo ligado à vida de Israel que o povo e a tradição
religiosa onde se situa, possuem, por este fato, algo de singular na história da
salvação dos homens; o povo eleito e a tradição que nos deixou por herança têm
um significado permanente para toda a humanidade.
16. É que a Encarnação nada tem de improvisado. O Verbo de Deus entra numa
história que o prepara, o anuncia e o prefigura. Em primeiro lugar, pode
dizer-se que Cristo se incorpora no povo que Deus formou para si, tendo
precisamente em vista o dom que havia de fazer do seu Filho. Todas as palavras
proferidas pelos profetas anunciam a Palavra subsistente que é o Filho de Deus.
17. Também a história da aliança concluída com Abraão e, por Moisés, com o povo
de Israel, e os livros que contam e iluminam esta história, têm a função de uma
indispensável e insubstituível pedagogia para os fiéis de Jesus. Aliás, a
eleição deste povo do qual saiu Jesus nunca viria a ser revogada. “Os que são do
mesmo sangue que eu, segundo a carne, que são israelitas”, diz S. Paulo, a esses
“pertencem a filiação adotiva, a glória, as alianças, a legislação, o culto, as
promessas; dos quais são os patriarcas e dos quais nasceu Cristo, segundo a
carne, o qual está sobre todas as coisas, Deus bendito por todos os séculos!
Amém”.[37] A boa oliveira não
perdeu os seus privilégios em favor da oliveira brava que foi enxertada sobre
ela.[38]
2. A catolicidade do Único
18. Por muito particular que seja a condição do Verbo feito carne, e,
consequentemente, a cultura que o acolhe, o forma e o prolonga, não foi a esta
particularidade que o Filho de Deus se uniu em primeiro lugar. Foi porque se
fez homem que Deus assumiu, de certa maneira, uma raça, um país, uma época.
“Porque n'Ele a natureza humana foi assumida, não absorvida, por isso mesmo esta
natureza foi elevada, também em nós, a uma dignidade sem par. Com efeito, pela
Sua Encarnação, o Filho de Deus uniu-se de algum modo a todo o homem”.[39]
19. Portanto a transcendência de Cristo não o isola acima da família humana,
antes o torna presente a todo o homem, para além de todo e qualquer
particularismo. “Não pode ser considerado estranho a ninguém nem em nenhuma
parte”.[40] “Não há judeu nem
grego; não há servo nem livre; não há homem nem mulher, pois todos vós sois um
em Cristo”.[41] Cristo vem ao nosso
encontro, tanto na unidade que formamos, como na multiplicidade e diversidade
dos indivíduos em que se realiza a nossa natureza comum.
20. E, no entanto, Cristo não viria ao nosso encontro na verdade da nossa
humanidade concreta, se não nos atingisse na diversidade e na complementaridade
das nossas culturas. Porque são as culturas, língua, história, atitude perante a
vida, instituições diversas, que, para o melhor ou para o pior, nos acolhem na
vida, nos formam, nos acompanham e nos prolongam. Se a totalidade do cosmos é,
misteriosamente, o lugar da graça e do pecado, como o não serão também as nossas
culturas que são os frutos e os germes da atividade propriamente humana?
21. No Corpo de Cristo, as culturas, animadas e renovadas pela graça e pela fé,
são complementares. Elas permitem ver a fecundidade multiforme que possuem os
ensinamentos e energias do mesmo Evangelho, e que são os mesmos princípios de
verdade, de justiça, de amor e liberdade, quando revestidos pelo Espírito de
Cristo.
22. Por último, devemos lembrar que não é por qualquer estratégia de interesses
que a Igreja, esposa do Verbo encarnado, se preocupa com as culturas da
humanidade. A Igreja quer animar interiormente, proteger, libertar do erro e do
pecado com que os corrompemos, estes recursos de verdade e de amor que Deus
dispôs, como semina Verbi, na sua criação. O Verbo de Deus não vem a uma
criação que lhe fosse estranha. “Tudo foi criado por Ele e para Ele; Ele existe
antes de todas as coisas e todas têm n'Ele a sua subsistência”.[42]
3. A Igreja dos Apóstolos e o Espírito Santo
1. De Jerusalém às Nações: os começos típicos da inculturação da fé
23. No dia de Pentecostes, a irrupção do Espírito Santo inaugura a relação da fé
cristã e das culturas, como acontecimento de perfeita realização e de plenitude:
a promessa da salvação, realizada por Cristo ressuscitado, enche o coração dos
crentes pela efusão do próprio Espírito Santo. As “maravilhas de Deus” serão,
daqui em diante, “publicadas” a todos os homens de todas as línguas e de todas
as culturas.[43] Quando a
humanidade vive sob o signo da divisão de Babel, o dom do Espírito Santo é-lhe
oferecido como a graça, transcendente e tão humana, da sinfonia dos
corações. A Comunhão divina (koinonia)[44]
recria uma nova Comunidade entre os homens, penetrando, sem o destruir, esse
sinal da sua divisão: as línguas.
24. O Espírito Santo não instaura uma super-cultura, mas constitui o princípio
pessoal e vital que vivificará a nova Comunidade em sinergia com os seus
membros. O dom do Espírito Santo não é da ordem das estruturas, mas a Igreja de
Jerusalém que ele forma é koinonia de fé e de ágape, que se
comunica na pluralidade sem se dividir; é Corpo de Cristo cujos membros
estão unidos sem uniformidade. A primeira prova de catolicidade surge
quando as diferenças ligadas à cultura (conflito entre helenos e hebreus)
ameaçam a Comunhão.[45] Os
Apóstolos não suprimem as diferenças, mas darão desenvolvimento a uma função
essencial ao Corpo eclesial: a diaconia ao serviço da koinonia.
25. Para que a Boa Nova seja anunciada às nações, o Espírito Santo
suscita um novo discernimento em Pedro e na Comunidade de Jerusalém:[46]
a fé em Cristo não exige dos novos crentes o abandono da sua cultura para adotar
a Lei do povo judeu; todos os povos são chamados a beneficiar da Promessa e a
partilhar da herança confiada para eles ao Povo da Aliança.[47]
Portanto, “nada para além do necessário”, segundo a decisão da assembleia
apostólica.[48]
26. Mas, sendo escândalo para os Judeus, o mistério da Cruz é loucura para os
pagãos. Aqui, a inculturação da fé opõe-se ao pecado radical que “sufoca”[49]
a verdade de uma cultura que não é assumida por Cristo: a idolatria.
Enquanto o homem estiver “privado da Glória de Deus”,[50]
tudo o que ele “cultiva” é imagem opaca de si próprio. O querigma paulino parte,
assim, da Criação e da vocação à Aliança, denuncia as perversões morais da
humanidade e anuncia a salvação em Cristo crucificado e ressuscitado.
27. Depois da prova de catolicidade entre comunidades cristãs culturalmente
diferentes, depois das resistências do legalismo judaico e da idolatria, a fé
enfeuda-se à cultura no gnosticismo. O fenômeno surge na época das
últimas cartas de Paulo e João, e alimentará a maior parte das crises doutrinais
dos séculos seguintes. Aqui, a razão humana, ferida pelo pecado, recusa a
loucura da Encarnação do Filho de Deus e procura recuperar o Mistério
acomodando-o à cultura reinante. Ora “a fé não se apoia na sabedoria dos homens,
mas no poder de Deus”.[51]
2. A Tradição Apostólica: inculturação da fé e salvação da cultura
28. Nos “últimos tempos”, inaugurados com o Pentecostes, Cristo ressuscitado,
Alfa e Ômega, entra na história dos povos: a partir daí, o sentido da história,
e, portanto, também o da cultura, é “aberto”;[52]
o Espírito Santo revela-o, atualizando-o e comunicando-o a todos. A Igreja é o
sacramento desta Comunhão; do novo centro a toda a cultura em que Cristo
é acolhido, colocando-a no eixo do “mundo que vem”, e restaura a Comunhão
destruída pelo “príncipe deste mundo”. A cultura está, assim, em situação
escatológica porque tende para a sua realização em Cristo, mas não pode ser
salva senão associando-se ao repúdio do mal.
29. Cada Igreja local ou particular é chamada a ser, no Espírito Santo, o
sacramento que manifesta Cristo, crucificado e ressuscitado, na carne de
uma cultura particular:
a) A cultura de uma Igreja local, jovem ou antiga, participa no dinamismo das
culturas e nas suas vicissitudes; mesmo em situação escatológica, permanece
submetida a provações e a tentações.[53]
b) A “novidade cristã” gera, nas Igrejas locais, expressões culturalmente
tipificadas (modalidades de formulações doutrinais, simbolismos litúrgicos,
tipos de santidade, diretivas canônicas etc.). Mas a Comunhão entre as Igrejas
exige constantemente que a “carne” cultural de cada uma não impeça o
reconhecimento mútuo na fé apostólica, bem como a solidariedade no amor.
c) Qualquer Igreja enviada às nações só testemunha o seu Senhor quando, nas suas
ligações culturais, se conforma a Ele na kénosis primeira da sua
Encarnação e na humilhação última da sua Paixão vivificante. A inculturação da
fé é uma das expressões da Tradição apostólica, cujo caráter dramático Paulo
sublinha por várias vezes.[54]
30. Os escritos apostólicos e os testemunhos patrísticos não limitam a sua visão
da cultura ao serviço da evangelização; integram-na na totalidade do Mistério
de Cristo. Para eles, a criação é o reflexo da Glória de Deus, o homem é o
seu ícone vivo, e é em Cristo que nos é feito o dom da semelhança de Deus. A
cultura é o lugar em que o homem e o mundo são chamados a encontrar-se na Glória
de Deus. Na medida em que o homem é pecador, o encontro, ou não se realiza, ou é
obscurecido. No interior da criação cativa vive-se a gestação do “novo
universo”;[55] a Igreja está “em
trabalho de parto”.[56] Nela e por
ela, as criaturas deste mundo podem viver a sua redenção e a sua transfiguração.
3. PROBLEMAS ATUAIS DA INCULTURAÇÃO
A piedade popular
O encontro com as religiões não-cristãs
Jovens Igrejas, passado cristão e cultura ancestral
A fé cristã e a modernidade
1. A inculturação da fé, que primeiro consideramos de um ponto de vista
filosófico (natureza, cultura e graça) e, depois, do ponto de vista da história
e do dogma (a inculturação na história da salvação), põe ainda problemas
consideráveis à reflexão teológica e à ação pastoral. No século XVI, a
descoberta de novos mundos levantou interrogações que continuam a preocupar-nos.
Como conciliar a fé com as expressões espontâneas da religiosidade dos povos?
Que atitude adotar perante as religiões não-cristãs, principalmente as que estão
“ligadas ao progresso da cultura”?[57]
Novas questões surgem também no nosso tempo. Como é que as “jovens Igrejas”,
nascidas da indigenização de comunidades cristãs já existentes, devem considerar
o seu passado cristão e a história cultural dos seus respectivos povos?
Finalmente, como é que o Evangelho deve animar, purificar e fortificar o mundo
novo que nos trouxe a industrialização e a urbanização? Estas quatro questões
parecem impor-se a quem reflete nas condições atuais da inculturação da fé.
1. A Piedade popular
2. Por piedade popular, nos países que foram tocados pelo Evangelho,
entende-se a união da fé e piedade cristãs, por um lado, com a cultura profunda
e as formas da religião anterior das populações, por outro. Trata-se daquelas
inúmeras devoções pelas quais os cristãos exprimem o seu sentimento religioso em
formas simples de linguagem, como as da festa e da romaria, da dança e dos
cantares. Para falar desta piedade que une “o corpo e o espírito, a comunhão
eclesial e a instituição, o indivíduo e a comunidade, a fé cristã e o amor à
pátria, a inteligência e a afetividade”,[58]
usou-se a expressão de síntese vital. A qualidade da síntese advém não só
da antiguidade e profundidade da evangelização, mas ainda da compatibilidade dos
antecedentes religiosos e culturais com a fé cristã.
3. Na exortação apostólica
Evangelii nuntiandi, Paulo VI ratificou e encorajou uma nova apreciação da piedade popular. “Estas
expressões (particulares da procura de Deus e da fé), consideradas durante muito
tempo como menos puras e que foram, por vezes, até desdenhadas, são hoje, um
pouco por toda a parte, objeto de uma nova descoberta”.[59]
4. “Se é bem orientada, principalmente por uma pedagogia de evangelização,
continuava Paulo VI, (a piedade popular) é rica em valores. Ela traduz uma sede
de Deus que só os simples e os pobres podem conhecer; quando se trata de
manifestar a fé, é capaz de generosidade e sacrifício até ao heroísmo; possui
apurado sentido dos atributos profundos de Deus, como a paternidade, a
providência, a presença amável e constante; gera atitudes interiores raramente
observadas, com tal intensidade, fora deste domínio, paciência, sentido da cruz
na vida quotidiana, desprendimento, abertura aos outros, devoção”.[60]
5. A força e a profundidade das raízes da piedade popular manifestaram-se,
claramente, neste longo período de descrédito de que falava Paulo VI. As
expressões da piedade popular sobreviveram às numerosas predições de
desaparecimento que a modernidade e os progressos do secularismo pareciam
caucionar, e conservaram a atração que exercem sobre as multidões,
desenvolvendo-a mesmo em muitas regiões do globo.
6. Denunciaram-se, várias vezes, os limites da piedade popular por causa de
certo simplismo, fonte de diversas deformações da religião e até de
superstições. Fica-se, neste caso, ao nível das manifestações culturais, sem que
haja um comprometimento na verdadeira adesão de fé e na expressão dessa fé no
serviço do próximo. Mal orientada, a piedade popular pode mesmo conduzir à
formação de seitas e pôr em perigo a verdadeira comunidade eclesial; corre ainda
o risco de ser manipulada, quer pelos poderes políticos, quer por forças
religiosas estranhas à fé cristã.
7. A consciência destes perigos convida à prática de uma catequese inteligente,
rendida aos méritos de uma piedade popular autêntica e, simultaneamente, capaz
de discernimento. A integração de uma fé muito pura e das formas tradicionais da
vida religiosa dos povos requere ainda uma liturgia viva e adaptada. A piedade
popular pode, sem qualquer dúvida, trazer insubstituível contribuição para uma
antropologia cultural cristã que permita reduzir a distância, por vezes trágica,
entre a fé dos cristãos e certas instituições socioeconômicas, de orientação bem
diferente, que regem a sua vida quotidiana.
2.Inculturação da fé e Religiões não cristãs
8. As religiões não cristãs. Desde as suas origens, a Igreja
defrontou-se, a muitos níveis, com a questão da pluralidade de religiões. Ainda
hoje, os cristãos constituem apenas um terço da população mundial, pelo que
terão de viver num mundo que manifesta uma crescente simpatia pelo pluralismo em
matéria religiosa.
9. Tendo em conta o lugar importante da religião na cultura, uma Igreja local ou
particular implantada num meio sociocultural não cristão, deve ter seriamente em
conta os elementos religiosos desse meio, avaliando-lhes a profundidade e a
vitalidade.
10. Se for permitido tomar como exemplo um continente, falaremos da Ásia, que
viu nascer algumas das grandes correntes religiosas do mundo: o hinduísmo, o
budismo, o Islã, o confucionismo, o taoísmo e o xintoísmo. Estes sistemas
religiosos, ainda que em diferentes partes do continente, estão profundamente
enraizados nos povos e demonstram muito vigor. A vida pessoal e a atividade
social e comunitária foram marcadas, de forma decisiva, por estas tradições
religiosas e espirituais. As Igrejas da Ásia consideram da maior importância e
urgência a questão das religiões não-cristãs, tomando-a como objeto daquela
forma privilegiada de relação que é o diálogo.
11. O diálogo das religiões. O diálogo com as outras religiões é parte
integrante da vida dos cristãos. Quer se processe pela troca de impressões, pelo
estudo, ou pelo trabalho em comum, este diálogo, além de fomentar o crescimento
na piedade, contribui para uma melhor inteligência da religião do outro.
12. Para a fé cristã, a unidade de todos os cristãos na sua origem e no seu
destino, ou seja, na criação e na comunhão com Deus em Jesus Cristo, é assistida
pela presença e ação universais do Espírito Santo. A Igreja em diálogo escuta e
aprende. “A Igreja Católica não rejeita absolutamente nada daquilo que há de
verdadeiro e santo nessas religiões. Considera com sincero respeito esses modos
de agir e de viver, esses preceitos e doutrinas que, embora em muitos pontos
estejam em discordância com aquilo que ela afirma e ensina, muitas vezes
refletem um raio daquela Verdade que ilumina todos os homens”.[61]
13. Este diálogo tem qualquer coisa de original, visto que, a história das
religiões o atesta, a pluralidade das religiões gerou muitas vezes discriminação
e ciúme, fanatismo e despotismo, tudo coisas que valeram à religião a acusação
de ser fonte de divisão na família humana. A Igreja, “sacramento universal da
salvação”, ou seja, “sinal e instrumento da união íntima com Deus e da unidade
de todo o gênero humano”,[62] é
chamada por Deus a ministrar e veicular a unidade em Jesus Cristo, para todos os
homens e para todos os povos.
14. A transcendência do Evangelho em relação à cultura. Não podemos, no
entanto, esquecer a transcendência do Evangelho em relação a todas as culturas
humanas, em que a fé cristã está vocacionada a enraizar-se e a desenvolver-se
com todas as suas virtualidades. Por muito grande que deva ser o respeito por
tudo o que é verdadeiro e santo na herança cultural de um povo, esta atitude não
vai até a exigência de conferir um caráter absoluto a essa herança cultural.
Ninguém pode esquecer que, desde a origem, o Evangelho foi “escândalo para os
judeus e loucura para os pagãos”.[63]
A inculturação que busca a via do diálogo entre as religiões nunca poderá
apadrinhar o sincretismo.
3. As Igrejas jovens e o seu passado cristão
15. A Igreja prolonga e atualiza o mistério do Servo de Javé, a quem foi
prometido que seria “luz das nações para que a salvação atinja os limites da
terra”,[64] e que seria “a Aliança
do povo”.[65] Esta profecia
realiza-se na última Ceia, quando, na véspera da sua Paixão, Cristo, rodeado
pelos Doze, lhes deu o seu corpo e o seu sangue em alimento e bebida da Nova
Aliança, assimilando-os assim ao seu próprio corpo. Nascia então a Igreja, povo
da Nova Aliança. No Pentecostes receberá o Espírito de Cristo, o Espírito do
Cordeiro imolado desde as origens, e que atuava já para acolher este voto tão
profundamente enraizado nos seres humanos: a união mais radical, no mais radical
respeito pela diversidade.
16. Em virtude da comunhão católica, que une todas as Igrejas particulares numa
mesma história, as jovens Igrejas consideram o passado das Igrejas que lhes
deram origem como parte da sua própria história. Mas o ato interpretativo que
sobretudo assinala a sua maturidade espiritual, consiste no reconhecimento desta
anterioridade como originária e não apenas como histórica. Isto significa que,
ao acolher na fé o Evangelho que lhes foi transmitido pelos seus antepassados,
as jovens Igrejas acolheram “o próprio iniciador da fé”[66]
e toda a Tradição em que a fé foi testemunhada, bem como a capacidade de
produzir formas originais em que se afirmará a fé única e comum. Iguais em
dignidade, vivendo do mesmo mistério, autênticas Igrejas irmãs, as jovens
Igrejas manifestam, de harmonia com os seus antepassados, a plenitude do
mistério de Cristo.
17. Como povo da Nova Aliança, evocando a memória do mistério pascal e
anunciando sem cessar a volta do Senhor, pode dizer-se que a Igreja é a
escatologia iniciada das tradições culturais dos povos, com a condição, como é
evidente, de essas tradições terem sido submetidas à lei purificadora da morte e
ressurreição de Jesus Cristo.
18. Como S. Paulo no areópago de Atenas, a jovem Igreja faz uma leitura nova e
criativa da cultura ancestral; quando esta cultura passa a pertencer a Cristo,
“o véu cai”.[67] No tempo de
incubação da fé, esta Igreja tinha já descoberto Cristo como “exegeta e
exegese” do Pai, no Espírito;[68] e
não cessa, aliás, de o contemplar como tal. Agora descobre-o também como
“exegeta e exegese” do homem, fonte e destinatário da cultura. Ao Deus
desconhecido revelado na cruz, corresponde o homem desconhecido que a jovem
Igreja anuncia, na sua qualidade de mistério vivo pascal, inaugurado, pela
graça, na antiga cultura.
19. A jovem Igreja esforça-se por descobrir, ao tornar presente a salvação,
todos os vestígios da solicitude de Deus por um grupo humano particular, os
semina Verbi. O que diz o prólogo da Epístola aos Hebreus sobre os Pais e os
Profetas, pode afirmar-se também em relação a Jesus Cristo; e é ainda válido,
analogicamente, para toda a cultura humana no que possui de reto e verdadeiro e
no que contém de sabedoria.
4. A Fé cristã e a modernidade
20. As mutações técnicas que provocaram a revolução industrial e, mais tarde, a
revolução urbana, afetaram a alma profunda das populações, beneficiárias, mas
quantas vezes igualmente vítimas, dessas transformações. Por isso se impõe aos
crentes a urgente e difícil tarefa de compreender a cultura moderna nos seus
traços característicos, mas também nas suas expectativas e necessidades em
relação à salvação trazida por Jesus Cristo.
21. A revolução industrial foi também uma revolução cultural. Valores até aí
assegurados, como o sentido do trabalho pessoal e comunitário, a relação direta
do homem com a natureza, a pertença a uma família de apoio (na coabitação como
no trabalho), o enraizamento em comunidades locais e religiosas de dimensão
humana, a participação em tradições, ritos, cerimônias e celebrações que dão
sentido aos grandes momentos da existência, foram postos em causa. A
industrialização, provocando acumulação desordenada das populações, atingiu
gravemente estes valores seculares, sem suscitar comunidades capazes de integrar
novas culturas. Quando os povos mais desfavorecidos buscam um modelo de
desenvolvimento apropriado, as vantagens, mas também os riscos e os custos
humanos da industrialização são mais bem apreendidos.
22. Realizaram-se grandes progressos em muitos domínios da vida: alimentação,
saúde, educação, transportes, acesso a bens de consumo de toda a espécie. No
entanto, surgem inquietações profundas no inconsciente coletivo. Em muitos
países, a ideia de progresso deu lugar ao desencanto, sobretudo depois da
segunda guerra mundial. A racionalidade em matéria da produção e administração,
quando esquece o bem das pessoas, trabalha contra a razão. A emancipação das
comunidades de pertença lançou o homem na multidão solitária. Os novos meios de
comunicação tanto quebram estruturas como podem unir. A ciência, através das
suas criações técnicas, revela-se simultaneamente criadora e homicida. Muitos
desesperam da modernidade e falam de uma nova barbárie. Apesar de tantos erros e
insucessos, é necessário ter esperança num sobressalto moral qualitativo de
todas as nações, ricas e pobres. Se o Evangelho for pregado e ouvido, é possível
uma conversão cultural e espiritual que apele à solidariedade, à preocupação
pelo bem integral da pessoa, à promoção da justiça e da paz, à adoração do Pai
de quem procede todo o bem.
23. A inculturação do Evangelho nas sociedades modernas exigirá um esforço
metódico de pesquisa e ação concertadas. Este esforço requererá dos responsáveis
pela evangelização: 1) uma atitude de acolhimento e de discernimento crítico, 2)
a capacidade de captar os anseios espirituais e as aspirações humanas das novas
culturas, 3) a aptidão para a análise cultural em vista de um encontro efetivo
com o mundo moderno.
24. Com efeito, é necessária uma atitude de acolhimento para quem quiser
compreender e evangelizar o mundo deste tempo. A modernidade surge acompanhada
de progressos inegáveis em vários domínios materiais e culturais: bem-estar,
mobilidade humana, ciência, investigação, educação, novo sentido da
solidariedade. Além disso, a Igreja do Vaticano II tomou consciência das novas
condições em que deve exercer a sua missão, porque é nas culturas da modernidade
que se construirá a Igreja de amanhã. A propósito do discernimento, aplica-se a
recomendação tradicional, retomada por Pio XII: “É preciso compreender mais
profundamente a civilização e as instituições dos diversos povos, e cultivar as
suas melhores qualidades e os seus melhores dons. Tudo aquilo que, nos costumes
dos povos, não estiver ligado indissoluvelmente a superstições e a erros, deve
ser examinado com benevolência e, se possível, conservado intacto”.[69]
25. O Evangelho suscita questões fundamentais a quem reflete sobre o
comportamento do homem moderno. Como fazer compreender a este homem a
radicalidade da mensagem de Cristo: a caridade incondicional, a pobreza
evangélica, a adoração do Pai e o consentimento constante à sua Vontade? Como
educar no sentido cristão do sofrimento e da morte? Como suscitar a fé e a
esperança na obra de ressurreição realizada por Jesus Cristo?
26. É necessário desenvolver uma capacidade de analisar as culturas e de
lhes captar as incidências morais e espirituais. Impõe-se uma mobilização de
toda a Igreja, para que a tarefa extremamente complexa da inculturação do
Evangelho no mundo moderno seja empreendida com sucesso. Nesta linha, é
necessário que partilhemos a preocupação de João Paulo II: “Desde o início do
meu pontificado, considerei que o diálogo da Igreja com as culturas do nosso
tempo era um domínio vital onde se joga o destino do mundo neste fim do século
XX”.[70]
CONCLUSÃO
1. Depois de afirmar que “importava atingir e remodelar, pela força do
Evangelho, os critérios de apreciação, os valores determinantes, os centros de
interesse, as linhas de pensamento, as fontes de inspiração e os modelos de vida
que não estão de acordo com a palavra de Deus e os desígnios da salvação”, Paulo
VI pedia “para se evangelizar, não de forma decorativa, como verniz superficial,
mas de modo vital, em profundidade, e até às raízes, a cultura e as culturas do
homem, no sentido rico e amplo que estes termos possuem na
Gaudium et spes... O Reino que o Evangelho anuncia é vivido por homens profundamente ligados a uma
cultura; a construção do Reino não pode dispensar os elementos da cultura e das
culturas humanas”.[71]
2. “Neste final do século XX, dizia, por seu lado, João Paulo II, a Igreja deve
fazer-se tudo para todos, acolhendo com simpatia as culturas hodiernas. Existem
ainda meios e mentalidades, assim como países e regiões inteiras por
evangelizar, o que supõe um longo e corajoso processo de inculturação, a
fim de que o Evangelho penetre a alma das culturas vivas, respondendo aos seus
mais elevados anseios, e as faça crescer até à própria dimensão da fé, da
esperança e da caridade cristãs... Por vezes, as culturas só foram atingidas
superficialmente; e, de qualquer modo, como se encontram em incessante
transformação, exigem uma aproximação renovada... E sempre aparecem novos
setores de cultura, com objetivos, métodos e linguagens diversos”.[72]
ANEXO
Documento elaborado pela Comissão Teológica Internacional durante sua sessão
plenária em dezembro de 1987, amplamente aprovado in forma specifica na
sessão plenária de outubro de 1988 e publicado mediante placet de Sua
Eminência o Cardeal Joseph Ratzinger, Presidente da Comissão. Abaixo
encontram-se os nomes dos membros que, mais particularmente, contribuíram para a
elaboração deste texto.
O texto em latim deste documento foi publicado sob o título “Fides et
inculturatio” em Gregorianum 70 (1989), p. 625–646. O texto aqui apresentado foi
traduzido a partir do francês (em La Documentation catholique 86 (1989),
p. 281–289, com correções, diversas modificações e adaptações editoriais) e
cotejado com o italiano (CivCatt 140 (1989), I,158-177).
Relação das diferentes comunicações preparatórias
Foi a partir destes trabalhos (que permanecem propriedade dos seus autores, que
os escreveram sob a sua própria responsabilidade), que Gilles Langevin, SJ,
presidente da subcomissão e redator principal, compôs a síntese que a Comissão
Teológica Internacional aprovou em três votações sucessivas, depois de as duas
primeiras versões terem sofrido as significativas emendas. Elenco dos assuntos
tratados:
I - Diversos aspectos da reflexão e da ação da Igreja sobre o problema da
inculturação:
1. Estado da questão no que respeita ao Magistério
1.1. O Concílio Vaticano II e os Sínodos (Philippe Delhaye)
1.2. As alocuções pontifícias (André-Jean Léonard)
2. A Teologia e a ação pastoral:
2.1. na Ásia (Peter Miyakawa)
2.2. na África (James Okoye)
2.3. na América Latina (José Miguel Ibánez Langlois)
2.4. no Mundo Atlântico (Giuseppe Colombo)
II - Sagrada Escritura e Teologia
1. O Pai: Antigo Testamento e Judaísmo (Hans Urs von Balthasar)
2. Jesus Cristo:
2.1. A assunção da natureza humana (Gilles Langevin)
2.2. A salvação e a divinização (Francis Moloney)
3. O Espírito Santo e a Igreja (Jean Corbon)
III - Antropologia
A natureza criada, decaída e resgatada (Georges Cottier)
IV - Eclesiologia
1. As religiões não-cristãs (Félix Wilfred)
2. As relações das jovens Igrejas com as antigas tradições eclesiásticas
(Barthélemy Adoukonou)
Documento em forma de Conclusão pastoral: A modernidade (Hervé Carrier).
[1]Documento elaborado pela Comissão Teológica Internacional durante sua sessão
plenária em dezembro de 1987, amplamente aprovado in forma specifica na
sessão plenária de outubro de 1988 e publicado mediante placet de Sua
Eminência o Cardeal Joseph Ratzinger, Presidente da Comissão. No anexo encontram-se os nomes dos membros que, mais particularmente, contribuíram
para a elaboração deste texto. O texto em latim deste documento foi publicado
sob o título “Fides et inculturatio” em Gregorianum 70 (1989), p. 625–646. (La Documentation catholique 86 [1989], p. 281-289 [com correções, diversas modificações e adaptações editoriais;
CivCatt 140 [1989], I,158-177).
[2]O pluralismo teológico
(1972), A promoção humana e a salvação cristã (1976), A doutrina
católica sobre o sacramento do matrimónio (1977), Questões escolhidas de
cristologia (1979). Estes textos poderão ser consultados na sua
edição oficial (em latim e tradução italiana): Commissio Theologica
Internationalis, Comissione Teologica Internazionale, Documenta, Documenti
(1969-1985), Libreria Editrice Vaticana, 1988; ou na publicação francesa:
Commission Théologique Internationale, Textes et Documents (1969-1985),
Paris, Cerf, 1988.
[3]CTI,
Temas seletos de eclesiologia por ocasião do vigésimo aniversário do Concílio
Vaticano II(1984). Cf. nota anterior.
[4]Comissão Bíblica Pontifícia,
Fede e cultura alla luce della Bibbia. Foi et
culture à la lumière da la Bible, Torino, Editrice Elle Di Ci, 1981.
[5]GS 44.
[6]Ibidem, n. 53-62.
[7]Paulo VI, EN 18-20.
[8]João Paulo II,
CT 53.
[9]Sínodo Extraordinário por ocasião do 20° aniversário do encerramento do Concílio
Vaticano II, Relatório final votado pelos Padres, 7 de Dezembro de
1985.
[10]João Paulo II,
Carta autografa de fundação do Conselho Pontifício para a Cultura, 20 de Maio de 1982, em
Acta Apostolicae Sedis, 74 (1983)
683-688.
[11]João Paulo II,
Mensagem aos intelectuais proferida na Universidade de Coimbra, 15 de Maio de 1982.
[12]João Paulo II,
Discurso aos membros do Conselho Pontifício para a Cultura,
18 de Janeiro de 1983.
[13]Paulo VI, HV 10.
[14]GS 53.
[15]Ibidem.
[16]João Paulo II,
Encíclica “Slavorum Apostoli” por ocasião do 11.° centenário da obra de evangelização dos santos Cirilo e
Metódio, 2 de Junho 1985, n. 21.
[17]DV 13.
[18]Cf. Rom 11,11-24.
[19]Gn 1,1-2.4a.
[20]Cf. Gn 9,1-17; Sr 44,17-18.
[21]Gn 12,1-5; Jr 4,2; Sr 44,21.
[22]Lc 24,27.44.
[23]Mc 13,10; Mt 12,21; Lc 2,32.
[24]Mt 11,19; Lc 7,35.
[25]Sl 93,1-4; Is 6,1.
[26]Mc 1,15; Mt 12,29; Lc 11,20; 17,21.
[27]Mt 20,1-16; Lc 15,11-32; 18,9-14.
[28]Mc 14,36.
[29]Mc 1,14-45; 10,2-9; Mt 5,21-48.
[30]Rm 5,12-19; 1Cor 15,20-22.
[31]Mc 8,27-33; 1Cor 1,18-25.
[32]Gl 3,13; Dt 21,22-23.
[33]Gl 3,12-14.
[34]Rm 7,16ss.; 3,20; 7,7; 1Tm 1,8.
[35]AG 10.
[36]Lc 2,46.
[37]Rm 9,3-5.
[38]Rm 11,24.
[39]GS 22.
[40]AG 8.
[41]Gl 3,28.
[42]Cl 1,16-17.
[43]At 2,11.
[44]At 2,42.
[45]At 6,1ss.
[46]At 10-11.
[47]Ef 2,14-15.
[48]At 15,28.
[49]Rm 1,18.
[50]Rm 3,23.
[51]1Cor 2,4
s.
[52]Ap 5,1-5.
[53]Cf. Ap 2-3.
[54]1Cor e 2Cor
passim.
[55]Ap 21,5.
[56]Cf. Rm 8,18-25.
[57]NA 2.
[58]Documento de Puebla 448.
[59]Paulo VI, EN
48.
[60]Ibidem.
[61]NA 2.
[62]LG 1.
[63]1Cor 1,23.
[64]Is 49,6.
[65]Is 49,8.
[66]Hb 12,2.
[67]2Cor 3,16.
[68]Cf. Henri de Lubac,
Exegese médievale, t. I, Collection Théologie, n. 41,
Paris, Aubier, 1959, p. 322-324.
[69]Pio XII, Encíclica “Summi Pontificatus” sob o signo de Cristo-Rei, 20 de Outubro
de 1939, em La Documentation catholique, 40, 5
décembre 1939, c. 1261.
[70]João Paulo II,
Carta autografa de fundação do Conselho Pontifício para a Cultura, 20 de Maio de 1982, em
la Documentation catholique, 79, 20 junho 1982,
p. 604.
[71]Paulo VI, EN 19-20.
[72]João Paulo II,
Discurso aos membros do Conselho Pontifício para a Cultura,
18 de Janeiro de 1983, em La Documentation Catholique, 80, 6 fevereiro
1983, p. 147.
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