NOTA PRELIMINAR
O estudo do tema "A igreja e as culpas do passado" foi
proposto à Comissão Teológica Internacional pelo seu Presidente, Cardeal J.
Ratzinger, tendo em vista a celebração do Jubileu do ano 2000. Para preparar
este estudo foi constituída uma subcomissão composta pelo Rev. Christopher
Begg, Mons. Bruno Forte (presidente), Rev. Sebastian Karotemprel S.D.B., Mons.
Roland Minnerath, Rev. Thomas Norris, Rev. Rafael Salazar Cardenas M.Sp.S. e
Mons. Anton Strukelj. As discussões gerais sobre este tema desenrolaram-se em
inúmeros encontros da subcomissão e durante as sessões plenárias da mesma
Comissão Teológica Internacional, que tiveram lugar em Roma em 1998 e 1999. O
presente texto foi aprovado sob forma specifica com voto por escrito da
Comissão, e, em seguida, apresentado ao seu presidente, Cardeal J. Ratzinger,
Perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que deu a sua aprovação para
publicação.
INTRODUÇÃO
A bula de proclamação do Ano Santo de 2000, Incarnationis
mysterium (29 de Novembro de 1998), aponta entre os sinais "que
oportunamente podem servir para viver com maior intensidade a insigne graça do
jubileu", a purificação da memória. Esta consiste no processo
destinado a libertar a consciência pessoal e colectiva de todas as formas de
ressentimento ou violência que a herança de culpas do passado pode haver
deixado, mediante uma renovada avaliação histórica e teológica dos
acontecimentos implicados que conduza - se for esse o resultado - ao
correspondente reconhecimento de culpa e contribua para um real caminho de
reconciliação. Semelhante processo pode incidir de modo significativo no
presente, justamente porque as culpas passadas fazem frequentemente sentir ainda
o peso das suas consequências e permanecem como outras tantas tentações
também hoje.
Enquanto tal, a purificação da memória requer "um acto
de coragem e humildade para reconhecer as faltas cometidas por quantos tiveram e
têm o nome de cristãos", e funda-se na convicção de que "por causa
daquele vínculo que nos une uns aos outros no corpo místico, todos nós, não
tendo embora responsabilidade pessoal por isso e sem nos substituirmos ao juízo
de Deus - o único que conhece os corações -, carregamos o peso dos erros e
culpas dos que nos precederam". João Paulo II acrescenta: "Como
sucessor de Pedro, peço que neste ano de misericórdia a Igreja, fortalecida
pela santidade que recebe do seu Senhor, se ajoelhe diante de Deus e implore o
perdão para os pecados passados e presentes dos seus filhos." (1) Para
confirmar que "os cristãos são convidados a assumir, perante Deus e os
homens ofendidos pelos seus comportamentos, as faltas que cometeram", o
Papa conclui: "Façam-no sem nada pedir em troca, animados apenas pelo
'amor de Deus [que] foi derramado em nossos corações' (Rm 5,5)." (2)
Os pedidos de perdão feitos pelo Bispo de Roma neste espírito
de autenticidade e gratuidade, suscitaram diversas reacções: a incondicional
confiança que o Papa demonstrou ter no poder da Verdade encontrou acolhimento
geralmente favorável, dentro e fora da comunidade eclesial. Não poucos
sublinharam a acrescida credibilidade das declarações eclesiais em
consequência deste comportamento. Não faltaram, porém, algumas reservas,
expressão sobretudo da apreensão ligada a particulares contextos históricos e
culturais, em que a mera admissão de faltas cometidas pelos filhos da Igreja
poderia assumir o significado de uma cedência perante as acusações de quem
lhe é preconceituosamente hostil. Entre consenso e apreensão, adverte-se para
a necessidade de uma reflexão que esclareça as razões, condições e exacta
configuração dos pedidos de perdão relativos às culpas do passado. Desta
necessidade entendeu encarregar-se a Comissão Teológica Internacional, na qual
estão representadas diferentes culturas e sensibilidades no interior da única
fé católica, elaborando o presente texto. Nele é oferecida uma reflexão
teológica acerca das condições de possibilidade dos actos de
"purificação da memória", ligados ao reconhecimento das culpas do
passado.
As questões a que se procura responder são: Porquê efectuar
tais actos? Quais os seus sujeitos adequados? Qual o seu objecto e como é ele
determinado, conjugando correctamente juízo histórico e juízo teológico?
Quais são os destinatários? Quais as implicações morais? E quais os
possíveis efeitos na vida da Igreja e na sociedade? O objectivo do texto não
é, portanto, levar a exame casos históricos particulares, mas clarificar os
pressupostos que tornam fundado o arrependimento relativo a culpas passadas.
O haver precisado, desde o início, o género de reflexão aqui
apresentada clarifica também aquilo a que nos referimos quando se fala da
Igreja: não se trata nem só da instituição histórica, nem apenas da
comunhão espiritual dos corações iluminados pela fé. Por Igreja
entender-se-á sempre a comunidade dos baptizados, inseparavelmente visível e
operante na história sob a direcção dos pastores, e unificada na profundidade
do seu mistério pela acção do Espírito vivificante; aquela Igreja que -
segundo as palavras do concílio Vaticano II - "por uma não fraca analogia
é comparada ao mistério do Verbo incarnado. Pois, assim como a natureza
assumida serve ao Verbo divino de instrumento vivo de salvação, a Ele
indissoluvelmente unido, de modo semelhante a estrutura social da Igreja serve
ao Espírito de Cristo, que a vivifica, para o crescimento do corpo (cf. Ef
4,16)" (LG 8). Esta Igreja - que abraça os seus filhos do passado, assim
como os do presente, numa real e profunda comunhão - é a única Mãe na Graça
que carrega em si o peso das culpas também passadas para purificar a memória e
viver a renovação do coração e da vida segundo a vontade do Senhor.Pode
fazê-lo porquanto Jesus Cristo - de que é o Corpo misticamente prolongado na
história - assumiu em si, de uma vez por todas, os pecados do mundo.
A estrutura do texto reflecte as questões colocadas: faz
primeiramente uma breve revisitação histórica do tema (cap. I), para poder
indagar, depois, os fundamentos bíblicos (cap. II) e aprofundar as condições
teológicas dos pedidos de perdão (cap. III). A precisa conjugação de juízo
histórico e juízo teológico é elemento decisivo para chegar a asserções
correctas e válidas, que dêem adequadamente conta dos tempos, dos lugares e
dos contextos em que se situam os actos considerados (cap. IV). Às
implicações morais (cap. V), pastorais e missionárias (cap. VI) destes actos
de arrependimento relativos às culpas do passado, são dedicadas as
considerações finais, que têm naturalmente um valor específico para a Igreja
católica. Mas a consciência de que a exigência de reconhecer as culpas
próprias tem razão de ser para todos os povos e para todas as religiões,
faz-nos desejar que as reflexões propostas ajudem todos a avançar pelo caminho
da verdade, do diálogo fraterno e da reconciliação.
Para concluir esta introdução, não será inútil mencionar de
novo a finalidade última de todo o possível acto de "purificação da
memória" levado a cabo pelos crentes, pois também ele inspirou o trabalho
da Comissão: trata-se da glorificação de Deus, porque viver na obediência à
Verdade divina e às suas exigências leva a confessar, juntamente com as nossas
culpas, a misericórdia e justiça eternas do Senhor. A confessio peccati -
sustentada e iluminada pela fé na Verdade que liberta e salva (confessio
fidei) - torna-se confessio laudis dirigida a Deus, na presença de quem
apenas é possível reconhecer as culpas do passado assim como as do presente,
para nos deixarmos reconciliar n'Ele e com Ele em Jesus Cristo, único Salvador
do mundo, e tornarmo-nos capazes de oferecer o perdão a quantos tivermos
ofendido. Esta oferta de perdão surge particularmente significativa se
pensarmos em tantas perseguições sofridas pelos cristãos ao longo da
história. Nesta perspectiva, os actos realizados e pedidos pelo Papa, em
relação às culpas do passado, apresentam valor exemplar e profético, quer
para as religiões quer para os governos e as nações, para além da Igreja
católica que poderá, desse modo, ser ajudada a viver de maneira mais eficaz o
grande Jubileu da incarnação como acontecimento de graça e de reconciliação
para todos.
1. O PROBLEMA: ONTEM E HOJE
1.1. Antes do Vaticano II
O Jubileu foi sempre vivido na Igreja como um tempo de alegria pela
salvação dada em Cristo e como ocasião privilegiada de penitência e
reconciliação pelos pecados presentes na vida do povo de Deus. Desde a sua
primeira celebração, com Bonifácio VIII, no ano de 1300, a peregrinação
penitencial ao túmulo dos Apóstolos Pedro e Paulo está associada à
concessão de uma indulgência excepcional para obter, com o perdão
sacramental, a remissão total ou parcial das penas temporais devidas aos
pecados.(3) Neste contexto, quer o perdão sacramental quer a remissão das
penas revestem-se de carácter pessoal. Ao longo do "ano do perdão e da
graça",(4) a Igreja dispensa de modo particular o tesouro de graças que
Cristo constituiu em seu favor.(5) Em nenhum dos jubileus celebrados até hoje,
porém, houve uma tomada de consciência das eventuais culpas do passado da
Igreja, nem da necessidade de pedir perdão a Deus por comportamentos do passado
próximo ou remoto.
Deste modo não se encontram, em toda a história da Igreja, precedentes de
pedidos de perdão relativos a culpas do passado, que tenham sido formulados
pelo Magistério. Os concílios e os decretos papais sancionavam, é certo, os
abusos de que fossem dados como culpados clérigos ou leigos, e não eram poucos
os pastores que se esforçavam sinceramente por os corrigir. Foram, porém,
raríssimas as ocasiões em que as autoridades eclesiais - papas, bispos ou
concílios - reconheceram abertamente as culpas ou os abusos de que fossem
culpados eles próprios. Um exemplo célebre é dado pelo papa reformador
Adriano VI que reconhecia publicamente numa mensagem à Dieta de Nuremberga, em
25 de Novembro de 1522, "as abominações, os abusos […] e a
prevaricações" de que era culpada a "corte romana" do seu
tempo, "doença […] profundamente radicada e propagada" que se
estendia "da cabeça aos membros".(6) Adriano VI lamentava as culpas
contemporâneas, precisamente as dos seu imediato predecessor, Leão X, e da sua
cúria, sem, no entanto, lhe associar um pedido de perdão.
Será necessário esperar por Paulo VI para ver um Papa exprimir um pedido de
perdão dirigido quer a Deus quer a um grupo de contemporâneos. No discurso de
abertura da 2ª sessão do Concílio, o Papa "pede perdão a Deus […] e
aos irmãos separados" do Oriente que se sentirem ofendidos "por
nós" (Igreja católica), e declara-se pronto, da sua parte, a perdoar as
ofensas recebidas. Na perspectiva de Paulo VI o pedido e a oferta de perdão
diziam unicamente respeito ao pecado da divisão entre cristãos e pressupunham
reciprocidade.
1.2. Ensinamento do Concílio
O Vaticano II coloca-se na mesma perspectiva de Paulo VI. Pelos erros
cometidos contra a unidade - afirmam os Padres conciliares - "pedimos
perdão a Deus e aos irmãos separados, assim como também perdoamos àqueles
que nos ofenderam" (UR 7). Para além dos erros contra a unidade, o
Concílio assinala outros episódios negativos do passado, nos quais os
cristãos tiveram responsabilidade. Desse modo, "deplora certas atitudes de
espírito que não faltaram mesmo entre os cristãos", que puderam fazer
pensar numa oposição entre ciência e fé (GS 36). Considera, igualmente, que
"na génese do ateísmo", os cristãos podem ter tido "uma certa
reponsabilidade", na medida em que com a sua negligência "antes
esconderam do que revelaram o autêntico rosto de Deus e da religião" (GS
19). Além disso, o Concílio "deplora" as perseguições e
manifestações de anti-semitismo levadas a cabo "seja em que tempo for e
seja por quem for" (NA 4). Contudo, o Concílio não associa um pedido de
perdão aos factos citados.
Do ponto de vista teológico, o Vaticano II distingue entre a indefectível
fidelidade da Igreja e as fraquezas dos seus membros, clérigos ou leigos, ontem
como hoje (GS 43 §6), e, portanto, entre ela, Esposa de Cristo "sem mancha
nem ruga […] santa e imaculada" (cf. Ef 5,27), e os seus filhos,
pecadores redimidos, chamados à permanente metanoia, à renovação no
Espírito Santo. "A Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio,
simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita
continuamente a penitência e a renovação" (LG 8).(7)
O Concílio elaborou, ainda, alguns critérios de discernimento relativamente
à culpabilidade ou à responsabilidade dos vivos pelos erros passados. De
facto, mencionou, em dois contextos diferentes, a não imputabilidade aos
contemporâneos dos erros cometidos no passado por membros da sua comunidade
religiosa:
- "Tudo quanto foi perpretado na paixão (de Cristo), não pode ser
imputado indistintamente a todos os judeus que então viviam, nem aos judeus do
nosso tempo." (NA 4)
- "Comunidades não pequenas separaram-se da plena comunhão da Igreja
católica, algumas não sem culpa dos homens de um e outro lado. Aqueles,
porém, que agora nascem em tais comunidades e são instruídos na fé de
Cristo, não podem ser acusados do pecado da separação, e a Igreja católica
abraça-os com fraterna reverência e amor." (UR 3)
Ao primeiro Ano Santo celebrado depois do Concílio, em 1975, Paulo VI deu
como tema "renovação e reconciliação",(8) precisando, na
exortação apostólica Paterna cum benevolentia, que a reconciliação
deveria, antes de mais, realizar-se entre os fiéis da Igreja católica.(9) Tal
como, nas suas origens, o Ano Santo permanecia ocasião de conversão e
reconciliação dos pecadores com Deus mediante a economia sacramental da
Igreja.
1.3. Os pedidos de perdão de João Paulo II
João Paulo II não apenas renova o pesar pelas "dolorosas
memórias" que marcam a história das divisões entre cristãos, como
haviam feito Paulo VI e o concílio Vaticano II,(10) mas estende também o
pedido de perdão a uma multitude de factos históricos nos quais a Igreja
enquanto instituição ou grupos particulares de cristãos estiveram implicados
a diferentes títulos.(11) Na carta apostólica Tertio millenio adveniente
(cf. TMA 33-36), o Papa alegra-se que o Jubileu do Ano 2000 seja ocasião para
uma purificação da memória da Igreja de "todas as formas de
contratestemunho e de escândalo" que aconteceram ao longo do milénio
passado (cf. TMA 33).
A Igreja é convidada a "assumir com maior consciência o peso do pecado
dos seus filhos". Ela "reconhece sempre como próprios os filhos
pecadores" e incita-os a "purificarem-se, pelo arrependimento, de
erros, infidelidades, incoerências, retardamentos" (TMA 33). A
responsabilidade dos cristãos nos males do nosso tempo é, de igual modo,
evocada (cf. TMA 36), embora o acento seja colocado particularmente na
solidariedade da Igreja de hoje com os erros passados, alguns dos quais são
explicitamente mencionados, como a divisão entre os cristãos (cf. TMA 34), ou
"os métodos de violência e intolerância" utilizados no passado para
evangelizar (cf. TMA 35).
O próprio João Paulo II estimula o aprofundamento teológico acerca do peso
dos erros do passado e sobre o eventual pedido de perdão aos contemporâneos(12)
quando, na exortação Reconciliatio et paenitentia, afirma que no
sacramento da penitência "o pecador se encontra só perante Deus com a sua
culpa, o seu arrependimento e a sua confiança. Ninguém se pode arrepender em
seu lugar ou pedir perdão em seu nome" (n. 31). O pecado é, pois, sempre
pessoal, mesmo se fere toda a Igreja que, representada pelo sacerdote ministro
da penitência, é mediadora sacramental da graça que reconcilia com Deus.
Também as situações de "pecado social" - que se verificam no
interior das comunidades humanas quando a justiça, a liberdade e a paz são
lesadas - "são sempre fruto, acumulação e concentração de pecados
pessoais". No momento em que a responsabilidade moral se diluísse em
causas anónimas, não se poderia falar de pecado social senão por analogia
(cf. RP 16). Daí resulta que a imputabilidade de uma culpa não possa ser
estendida para lá do grupo de pessoas que nela consentiram voluntariamente,
mediante acções ou omissões, ou por negligência.
1.4. Questões que se colocam
A Igreja é uma sociedade viva que atravessa os séculos. A sua memória não
é apenas constituída pela tradição que remonta aos Apóstolos, normativa
para a sua fé e a sua própria vida, mas é também rica na variedade de
experiências históricas, positivas ou negativas, que ela viveu. O passado da
Igreja estrutura em larga medida o seu presente. A tradição doutrinal,
litúrgica, canónica, ascética alimenta a vida própria da comunidade crente,
oferecendo-lhe um incomparável mostruário de modelos a imitar. Ao longo de
toda a peregrinação terrena, no entanto, o grão bom permanece sempre
misturado com o joio, a santidade está lado a lado com a infidelidade e o
pecado (cf. Mt 13,24-30.36-43).(13) E é assim que a recordação dos
escândalos do passado pode criar obstáculos ao testemunho da Igreja de hoje, e
o reconhecimento dos erros cometidos pelos filhos da Igreja de ontem pode
favorecer a renovação e reconciliação no presente.
A dificuldade que se apresenta é a de definir os erros passados, devido,
antes de mais, ao juízo histórico que isso exige, porque naquilo que aconteceu
é sempre distinta a responsabilidade ou a culpa que se pode atribuir aos
membros da Igreja enquanto crentes, daquilo que é relativo à sociedade dos
séculos chamados "de cristandade" ou às estruturas de poder nas
quais o temporal e o espiritual estavam então intimamente entrelaçados. Uma
hermenêutica histórica é, portanto, tanto mais necessária para fazer uma
adequada distinção entre a acção da Igreja enquanto comunidade de fé e a da
sociedade, nas épocas de osmose entre ambas.
Os passos dados por João Paulo II para pedir perdão pelos erros do passado
foram entendidos em inúmeros ambientes, eclesiais e não, como sinais de
vitalidade e autenticidade da Igreja, assim como para reforçar a sua
credibilidade. É justo, aliás, que a Igreja contribua para modificar imagens
de si falsas e inaceitáveis, particularmente em domínios em que, por
ignorância ou má-fé, alguns sectores de opinião se comprazem em
identificá-la com o obscurantismo ou a intolerância. Os pedidos de perdão
formulados pelo Papa também suscitaram um estímulo positivo no âmbito
eclesial e para lá dele. Chefes de Estado ou de governo, sociedades privadas e
públicas, comunidades religiosas pedem actualmente perdão por episódios ou
períodos históricos assinalados por injustiças. Esta prática é tudo menos
retórica, tanto que alguns hesitam em dar-lhe acolhimento, calculando os custos
consequentes - entre outros no plano judicial - a um reconhecimento de
solidariedade com erros passados. Também deste ponto de vista, é urgente,
pois, um rigoroso discernimento.
Não faltam, todavia, fiéis desconcertados, porquanto a sua fidelidade à
Igreja parece ficar abalada. Alguns interrogam-se como transmitir o amor da
Igreja às jovens gerações se essa mesma Igreja é acusada de crimes e
pecados. Outros observam que o reconhecimento dos erros é no mais das vezes
unilateral e é explorado pelos detractores da Igreja, satisfeitos por a verem
confirmar preconceitos que têm a seu respeito. Outros, ainda, chamam a
atenção para o perigo de se culpabilizarem arbitrariamente as actuais
gerações de crentes por faltas a que não deram a sua anuência de modo
nenhum, embora se declarem prontos a assumir a sua responsabilidade na medida em
que grupos humanos se sintam ainda hoje tocados pelas consequências de
injustiças cometidas pelos seus predecessores noutros tempos. Alguns, também,
julgam que a Igreja poderá purificar a sua memória a respeito dos actos
ambíguos nos quais esteve implicada no passado, simplesmente tomando parte no
trabalho crítico sobre a memória desenvolvido na nossa sociedade. Desse modo,
ela poderia afirmar que partilha com os seus contemporâneos a recusa daquilo
que a consciência moral actual reprova, sem se propor como única culpada e
responsável dos males do passado, e procurando, ao mesmo tempo, o diálogo no
recíproco entendimento com quantos se sintam ainda hoje feridos por actos
passados imputáveis aos filhos da Igreja. Por fim, deve esperar-se que alguns
grupos possam reclamar um pedido de perdão nos seus confrontos, ou por analogia
com outros ou porque julgam ter sofrido injustiças. Em todo o caso, a
purificação da memória não poderá de modo algum significar que a Igreja
renuncie a proclamar a verdade revelada que lhe foi confiada, quer no campo da
fé quer no da moral.
Apresentam-se, assim, diversas interrogações: pode-se investir a
consciência actual de uma "culpa" associada a fenómenos históricos
irrepetíveis, como as cruzadas ou a inquisição? Não é mesmo demasiado
fácil julgar os protagonistas do passado com a consciência actual (como faziam
os escribas e fariseus, segundo Mt 23,29-32), como se a consciência moral não
estivesse situada no tempo? E, por outro lado, pode porventura negar-se que o
juízo ético está sempre em jogo, pelo simples facto de que a verdade de Deus
e suas exigências morais têm valor permanente? Qualquer que seja a atitude a
adoptar, ela deverá ter em conta estas questões, e procurar respostas que
sejam fundadas na revelação e na sua transmissão viva na fé da Igreja. A
questão prioritária é, assim, a de esclarecer em que medida os pedidos de
perdão pelos erros do passado, sobretudo se dirigidos a grupos humanos de hoje,
se situam no horizonte bíblico e teológico da reconciliação com Deus e com o
próximo.
2. ASPECTOS BÍBLICOS
É possível desenvolver de vários modos uma pesquisa sobre o reconhecimento
que Israel faz das suas faltas no Antigo Testamento e acerca do tema da
confissão das culpas tal como se apresenta nas tradições do Novo Testamento.(14)
A natureza teológica da reflexão aqui conduzida leva a privilegiar uma
aproximação de género prevalentemente temático, partindo da seguinte
questão: que penhor oferece o testemunho da Sagrada Escritura ao convite que
João Paulo II faz à Igreja para confessar os erros do passado?
2.1. Antigo Testamento
Confissões de pecados associadas a pedidos de perdão encontram-se em toda a
Bíblia, tanto nas narrativas do Antigo Testamento, como nos Salmos, nos
Profetas e nos Evangelhos, assim como - mais esporadicamente - na literatura
sapiencial e nas cartas do Novo Testamento. Dada a abundância e difusão destes
testemunhos, coloca-se a questão de saber como seleccionar e catalogar um
conjunto de textos significativos. Pode-se interrogar a esse respeito os textos
bíblicos relativos à confissão dos pecados: quem confessa o quê (e que tipo
de erro) a quem? Colocar deste modo a questão ajuda a distinguir duas
categorias principais de "textos de confissão", cada um dos quais
compreendendo diversas subcategorias: a) textos de confissão de pecados
individuais e b) textos de confissão de pecados de todo o povo (e dos seus
antepassados). Em relação à recente prática eclesial que determina a nossa
pesquisa é conveniente restringir a análise à segunda categoria.
Nela podem-se identificar diversas possibilidades, conforme quem faz a
confissão dos pecados do povo e quem é associado pelo menos à culpa
colectiva, prescindindo da presença da consciência de uma responsabilidade
pessoal (amadurecida apenas progressivamente: cf. Ez 14,12-23; 18,1-32;
33,10-20). Na base destes critérios podem distinguir-se os seguintes casos,
aliás com uma certa fluidez:
- Uma primeira série de textos representa o povo inteiro (por vezes
personificado num simples "Eu") que, num particular momento da sua
história, confessa ou alude aos seus pecados contra Deus sem qualquer
referência (explícita) aos erros das gerações precedentes.(15)
- Um outro grupo de textos coloca a confissão - dirigida a Deus - dos
pecados actuais do povo nos lábios de um ou mais chefes (religiosos) que possam
pelo menos ser incluídos explicitamente no povo pecador para quem pregam.(16)
- Um terceiro grupo de textos apresenta o povo ou um dos seus chefes no acto
de evocar os pecados dos antepassados, sem contudo mencionar os da geração
presente.(17)
- Mais frequentemente, as confissões que mencionam os erros dos antepassados
associam-nos expressamente aos pecados da geração presente.(18)
Dos testemunhos recolhidos resulta que, em todos os casos em que são
mencionados os "pecados dos pais", a confissão é unicamente dirigida
a Deus e os pecados confessados pelo povo ou ao povo são os cometidos
directamente contra Ele, mais do que os cometidos (também) contra outros seres
humanos (só em Nm 21,7 se faz referência a alguém humano lesado, Moisés).(19)
Surge a questão por que razão os escritores bíblicos não sentiram
necessidade de pedidos de perdão dirigidos a interlocutores presentes a
respeito de erros cometidos pelos pais, apesar do seu forte sentido de
solidariedade entre gerações no bem e no mal (pense-se na noção de
"personalidade corporativa"). Poder-se-iam avançar várias hipóteses
em resposta a esta questão. Há, antes de mais, o difuso teocentrismo da
Bíblia, que dá a precedência ao reconhecimento quer individual quer nacional
dos pecados cometidos contra Deus. Demais, actos de violência perpretados por
Israel contra outros povos, que pareceriam exigir um pedido de perdão àqueles
mesmos povos ou aos seus descendentes, são entendidos como execução de
directivas divinas a respeito deles, como p. ex. Js 2-11 e Dt 7,2 (o extermínio
dos cananeus), ou 1Sam 15 e Dt 25,19 (a destruição dos amalecitas). Em tais
casos, o mandato divino implicado parece excluir qualquer possibilidade de
pedido de perdão a fazer.(20) As experiências de maus tratos sofridas por
Israel, por parte de outros povos, e a animosidade assim suscitada poderiam
também ter militado contra a ideia de pedir perdão a esses povos pelos males
por eles trazidos.(21)
De qualquer modo, permanece relevante, no testemunho bíblico, o
sentido da solidariedade intergeracional no pecado (e na graça), que se exprime
na confissão diante Deus dos "pecados dos antepassados", tanto que
João Paulo II pôde afirmar, citando a extraordinária oração de Azarias:
" 'Bendito e louvado sejas, Senhor, Deus dos nossos pais […] pecámos,
prevaricámos, afastámo-nos de Ti; em tudo temos procedido mal; e não
observámos os teus mandamentos. (Dn 3,26.29).' Assim rezavam os hebreus depois
do exílio (cf. também Bar 2,11-13), carregando o peso dos erros cometidos por
seus pais. A Igreja imita o seu exemplo e pede perdão pelos pecados igualmente
históricos de seus filhos."(22)
2.2. Novo Testamento
Um tema fundamental, relacionado com a ideia de culpa e largamente presente
no Novo Testamento, é a da absoluta santidade de Deus. O Deus de Jesus é o
Deus de Israel (cf. Jo 4,22), invocado como "Pai santo" (Jo 17,11),
chamado "o Santo" em 1Jo 2,20 (cf. Ap 6,10). A tripla proclamação de
Deus como "santo" de Is 6,3 regressa em Ap 4,8, enquanto 1Pd 1,16
insiste no facto de que os cristãos devem ser santos "pois está escrito:
Sede santos, porque Eu sou santo' " (cf. Lv 11,44-45; 19,2). Tudo isto
reflecte a noção veterotestamentária da absoluta santidade de Deus. Contudo,
para a fé cristã, a santidade divina entrou na história na pessoa de Jesus de
Nazaré: a noção veterotestamentária não foi abandonada, mas é desenvolvida
no sentido de que a santidade de Deus se torna presente na santidade do Filho
incarnado (cf. Mc 1,24; Lc 1,35; 4,34; Jo 6,69; Act 3,14; 4,27.30; Ap 3,7); e a
santidade do Filho é dada a participar aos "seus" (cf. Jo 17,16-19),
tornados filhos no Filho (cf. Gl 4,4-6; Rm 8,14-17). Não pode, porém, haver
qualquer aspiração à filiação divina em Jesus enquanto não houver amor ao
próximo (cf. Mc 12,29-31; Mt 22,37-38; Lc 10,27-28).
Este motivo, decisivo no ensinamento de Jesus, torna-se o "mandamento
novo" no Evangelho de João: os discípulos deverão amar como Ele amou
(cf. Jo 13,34-35; 15,12.17), isto é, perfeitamente, "até ao fim" (Jo
13,1). O cristão é chamado a amar e a perdoar segundo uma medida que
transcende toda a medida humana de justiça, e produz uma reciprocidade entre os
seres humanos, que reflecte a que existe entre Jesus e o Pai (cf. Jo 13,34s;
15.1-11; 17,21-26). Nesta perspectiva, é dado grande relevo ao tema da
reconciliação e do perdão das ofensas. Aos seus discípulos, Jesus pede que
estejam sempre prontos a perdoar quantos os ofenderam, assim como o próprio
Deus oferece sempre o Seu perdão: "Perdoa-nos as nossas ofensas, como nós
perdoamos aos que nos ofenderam." (Mt 6,12.15) Quem está em posição de
perdoar ao próximo mostra ter compreendido a necessidade que pessoalmente tem
do perdão de Deus. O discípulo é convidado a perdoar "até setenta vezes
sete" quem o ofende, mesmo que este não tenha pedido perdão (cf. Mt 18,
21-22).
Jesus insiste na atitude exigida à pessoa ofendida nos confrontos com os
seus ofensores: ela é chamada a dar o primeiro passo, anulando a ofensa
mediante o perdão oferecido "de coração" (cf. Mt 18,35; Mc 11,25),
consciente de ser ela mesma pecadora diante de Deus que nunca recusa o perdão
pedido com sinceridade. Em Mt 5, 23-24, Jesus pede ao ofensor que vá
"reconciliar-se com o irmão que tenha alguma coisa contra ele" antes
de apresentar a sua oferta sobre o altar: não agrada a Deus o acto de culto de
quem não queira primeiro reparar o dano causado ao próprio próximo. Aquilo
que conta é transformar o próprio coração e mostrar de modo adequado que se
quer realmente a reconciliação. De qualquer modo, o pecador, na consciência
de que os seus pecados ferem ao mesmo tempo a sua relação com Deus e com o seu
próximo (cf. Lc 15,21), pode esperar apenas o perdão de Deus, porque só Deus
é sempre misericordioso e pronto a apagar os pecados. É este também o
significado do sacrifício de Cristo que, de uma vez por todas, nos purificou
dos nossos pecados (cf. Hb 9,22; 10,18). Desta maneira, o ofensor e o ofendido
são reconciliados por Deus na Sua misericórdia que a todos acolhe e perdoa.
Neste quadro, que poderia ser ampliado mediante a análise das cartas de
Paulo e das epístolas católicas, não há qualquer indício de que a Igreja
das origens tenha voltado a sua atenção para os pecados passados para pedir
perdão. Isso pode ser explicado pela forte consciência da novidade cristã,
que projecta a comunidade mais para o futuro que para o passado. Encontra-se,
contudo, uma mais ampla e subtil insistência que domina o Novo Testamento: nos
Evangelhos e nas cartas, a ambivalência própria da esperança cristã é
amplamente reconhecida. Para Paulo, p. ex., a comunidade cristã é um povo
escatológico que vive já a "nova criação" (cf. 2Co 5,17; Gl 6.15),
mas esta experiência, tornada possível pela morte e ressurreição de Jesus
(cf. Rm 3,21-26; 5,6-11; 8,1-11; 1Co 15,54-57), não nos liberta da inclinação
para o pecado, presente no mundo por causa da queda de Adão. Como resultado da
intervenção de Deus nela, e através da morte e ressurreição de Jesus, são
agora dois os cenários possíveis: a história de Adão e a de Cristo. Elas
decorrem lado a lado, e o crente deve contar com a morte e ressurreição do
Senhor Jesus (cf., p. ex., Rm 6,1-11; Gl 3,27-28; Cl 3,10; 2Co 5,14-15) para ser
parte da história em que "superabunda a graça" (cf. Rm 5,12-21).
Uma semelhante releitura teológica do acontecimento pascal de Cristo mostra
como a Igreja nascente tinha uma aguda consciência das possíveis faltas dos
baptizados. Poder-se-ia dizer que o inteiro corpus paulinum chama os crentes a
um reconhecimento pleno da sua dignidade, mas na viva consciência da
fragilidade da sua condição humana: "Foi para a liberdade que Cristo nos
libertou. Permanecei, pois, firmes, e não vos sujeiteis outra vez ao jugo da
escravidão." (Gl 5,1) Um motivo análogo pode encontrar-se nas narrativas
dos Evangelhos. Emerge incisivamente em Marcos, onde as faltas dos discípulos
de Jesus são um dos temas dominantes da narrativa (cf. Mc 4,40-41; 6,36-37,
51-52; 8,14-21, 31-33; 9,5-6, 32-41; 10,32-45; 14,10-11, 17-21, 27-31, 50;
16,8).
Não há, todavia, nenhum explícito chamamento endereçado aos primeiros
cristãos para confessarem os erros do passado, embora seja sem dúvida muito
significativo o reconhecimento da realidade do pecado e do mal também entre o
povo chamado à existência escatológica própria da condição cristã
(pense-se apenas nas repreensões contidas nas cartas às sete Igrejas do
Apocalipse). Segundo a petição que se encontra na oração do Senhor, este
povo invoca: "Perdoa-nos os nossos pecados, assim como nós perdoamos aos
que nos ofenderam." (Lc 11,4; cf. Mt 6,12) Em suma, os primeiros cristãos
mostram estar bem conscientes de poder agir de maneira que não corresponda à
vocação recebida, não vivendo o baptismo da morte e ressurreição de Jesus
em que foram baptizados.
2.3. Jubileu bíblico
Um significativo antecedente bíblico da reconciliação ligada à
superação de situações passadas é representado pela celebração do
Jubileu, tal como está regulada no livro do Levítico (cap. 25). Numa estrutura
social composta por tribos, clãs e famílias, inevitavelmente se criavam
situações de desordem quando indivíduos ou famílias em condições difíceis
tinham de "resgatar-se" a si mesmas das próprias dificuldades,
entregando a posse das terras ou casa, ou de servos ou filhos, àqueles que se
encontravam em melhores condições que as suas. Semelhante sistema tinha como
efeito que alguns israelitas acabavam por sofrer intoleráveis situações de
dívidas, pobreza e escravidão, naquela mesma terra que lhes havia sido dada
por Deus, em proveito de outros filhos de Israel. Tudo isto podia levar a que,
por períodos mais ou menos longos de tempo, um território ou um clã caísse
nas mãos de poucos ricos, enquanto o resto das famílias do clã acabava por se
encontrar numa dada forma de dívida ou de servidão, como a de viver em total
dependência dos mais abastados.
A legislação de Lv 25 constitui uma tentativa de inverter tudo isto (de tal
modo que se pode duvidar que alguma vez tenha sido plenamente posta em
prática!). Convocava a celebração do Jubileu, de 50 em 50 anos, a fim de
preservar o tecido social do povo de Deus e restituir a independência mesmo à
mais pequena família do país. É decisiva para Lv 25 a regular repetição da
confissão de fé de Israel no Deus que libertou o Seu povo mediante o Êxodo:
"Eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos fez sair da terra do Egipto, para vos
dar a de Canaã, a fim de ser o vosso Deus." (Lv 25,38; cf. vv. 42, 45) A
celebração do Jubileu era uma implícita admissão de culpa e uma tentativa de
restabelecer uma ordem justa. Todo o sistema que alienasse um qualquer
israelita, outrora escravo mas agora libertado pelo braço poderoso de Deus,
vinha de facto desmentir a acção salvífica divina no Êxodo e através dele.
A libertação das vítimas e dos que sofrem torna-se parte do mais amplo
programa dos profetas. O Dêutero-Isaías, nos Cânticos do Servo sofredor (Is
42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 52,13-53,12), desenvolve estas alusões à prática do
Jubileu com os temas do resgate e da liberdade, do regresso e da redenção. Is
58 é um ataque contra a observância ritual que não olhe à justiça social,
é uma exigência de libertação dos oprimidos (Is 58,6), centrada
especificamente nas obrigações de parentesco (v. 7). Mais claramente, Is 61
utiliza as imagens do Jubileu para fazer o retrato do Ungido como arauto de Deus
enviado para "evangelizar" os pobres, proclamar a liberdade aos
prisioneiros e anunciar o ano da graça do Senhor. De modo significativo, é
justamente este texto, com uma alusão a Is 58,6, que Jesus usa para apresentar
a missão da sua vida e do seu ministério em Lc 4,17-21.
Conclusão
Do que foi dito, pode-se concluir que o apelo dirigido por João Paulo II à
Igreja para que marque o ano jubilar com uma admissão de culpa por todos os
sofrimentos e ofensas pelos quais os seus filhos foram responsáveis no passado
(cf. TMA 33-36), assim como a prática a ela associada, não tem uma
correspondência unívoca no testemunho bíblico. Contudo, ele está fundado em
quanto a Sagrada Escritura afirma a respeito da santidade de Deus, da
solidariedade intergeracional do Seu povo e do reconhecimento do seu ser
pecador. O apelo do Papa, além disso, apreende correctamente o espírito do
Jubileu bíblico, que pede sejam cumpridos actos com vista a restabelecer a
ordem do originário desígnio de Deus sobre a criação. Isso exige que a
proclamação do "hoje" do Jubileu, iniciada por Jesus (cf. Lc 4,21),
seja prosseguida na celebração jubilar da Sua Igreja. Esta singular
experiência de graça, além do mais, leva o inteiro povo de Deus, como cada um
dos baptizados, a tomar ainda maior consciência do mandato recebido do Senhor,
de estarmos sempre prontos a perdoar as ofensas recebidas.
3. FUNDAMENTAÇÃO TEOLÓGICA
"Assim, quando o segundo milénio já se encaminha para o seu termo, é
justo que a Igreja assuma com maior consciência o peso do pecado dos seus
filhos, recordando todas aquelas circunstâncias em que, no arco da história,
eles se afastaram do espírito de Cristo e do seu Evangelho, oferecendo ao
mundo, em vez do testemunho de uma vida inspirada nos valores da fé, o
espectáculo de modos de pensar e agir que eram verdadeiras formas de
antitestemunho e de escândalo. Embora sendo santa pela sua incorporação
em Cristo, a Igreja não se cansa de fazer penitência: ela reconhece sempre
como próprios, diante de Deus e dos homens, os filhos pecadores."
(TMA 33) Estas palavras de João Paulo II sublinham como a Igreja é tocada pelo
pecado dos seus filhos: santa, enquanto tornada tal pelo Pai mediante o
sacrifício do Filho e o dom do Espírito, ela é de certo modo também
pecadora, porquanto assume realmente em si o pecado daqueles que ela própria
gerou no baptismo, tal como Jesus Cristo assumiu o pecado do mundo (cf. Rm 8,3;
2Co 5,21; Gl 3,13; 1Pd 2,24).(23) Pertence, aliás, à mais profunda
autoconsciência eclesial existindo no tempo, a convicção de que a Igreja não
é só uma comunidade de eleitos mas tem no seu seio os justos e os pecadores do
presente, assim como os do passado, na unidade do mistério que a constitui. De
facto, na graça como na ferida do pecado, os baptizados de hoje estão
próximos e solidários dos de ontem. Por isso se pode dizer que a Igreja - una
no tempo e no espaço em Cristo e no Espírito - é verdadeiramente "santa
e simultaneamente sempre necessitada de purificação" (LG 8). Deste
paradoxo - característico do mistério eclesial - nasce a interrogação sobre
como se conciliam os dois aspectos: por um lado, a afirmação de fé na
santidade da Igreja e, por outro, a sua contínua necessidade de penitência e
purificação.
3.1. Mistério da Igreja
"A Igreja está na história mas, ao mesmo tempo, transcende-a. Apenas
'com os olhos da fé' se pode divisar na sua realidade visível uma realidade
contemporaneamente espiritual, portadora da vida divina." (CIC 770) O
conjunto dos aspectos visíveis e históricos relaciona-se com o dom divino, do
mesmo modo que no Verbo de Deus incarnado a humanidade assumida é sinal e
instrumento do agir da Pessoa divina do Filho: as duas dimensões do ser
eclesial formam "uma única realidade complexa, formada pelo duplo elemento
humano e divino" (LG 8), numa comunhão que participa da vida trinitária e
faz com que os baptizados se sintam unidos entre si, mesmo na diversidade dos
tempos e dos lugares da história. Por força desta comunhão, a Igreja
apresenta-se como sujeito absolutamente único do acontecimento humano, de modo
a poder assumir os dons, os méritos e as culpas dos seus filhos actuais como
dos de ontem.
A não fraca analogia com o mistério do Verbo incarnado implica, todavia,
também uma fundamental diferença: "Enquanto Cristo, 'santo, inocente,
imaculado' (Hb 7,26), não conheceu o pecado (cf. 2Co 5,21) mas veio apenas
expiar os pecados do povo (cf. Hb 2,17), a Igreja, contendo pecadores no seu
próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação,
exercita continuamente a penitência e a renovação." (LG 8; cf. UR 3 e 6)
A ausência de pecado no Verbo incarnado não pode ser atribuída ao Seu Corpo
eclesial, no interior do qual, ao contrário, cada um - partícipe da graça
dada por Deus - nem por isso deixa de ter necessidade de vigilância e
incessante purificação e de estar solidário com a fraqueza dos outros:
"Todos os membros da Igreja, incluindo os seus ministros, devem
reconhecer-se pecadores (cf. 1Jo 1,8-10). Em todos, até ao fim dos tempos, a
cizânia do pecado se encontra ainda misturada com o grão bom do Evangelho (cf.
Mt 13,24-30). A Igreja reúne, portanto, pecadores atingidos pela salvação de
Cristo, mas sempre em vias de santificação."(CIC 827)
Já Paulo VI havia solenemente afirmado que "a Igreja é santa, embora
incluindo no seu seio pecadores, já que ela não possui outra vida senão a da
graça […] Por isso, a Igreja sofre e faz penitência por tais pecados, dos
quais, aliás, ela tem o poder de curar os seus filhos com o sangue de Cristo e
o dom do Espírito Santo".(24) A Igreja é, em suma, no seu
"mistério", encontro de santidade e de fraqueza, continuamente
redimida e sempre de novo necessitada da força da redenção. Como ensina a
liturgia, verdadeira lex credendi, o fiel particular e o povo dos santos rogam a
Deus que o Seu olhar se dirija à fé da Sua Igreja e não aos pecados dos
indivíduos que são a negação desta fé vivida: Ne respicias peccata
nostra, sed fidem Ecclesiae Tuae! Na unidade do mistério eclesial através
do tempo e do espaço, é possível agora considerar o aspecto da santidade, a
necessidade de arrependimento e reforma, e a sua articulação no agir da Igreja
Mãe.
3.2. Santidade da Igreja
A Igreja é santa porque, santificada por Cristo que a obteve entregando-se
à morte por ela, é mantida na santidade pelo Espírito Santo que a penetra
incessantemente: "Nós cremos que a Igreja é indefectivelmente santa. Com
efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai e o Espírito 'o único Santo',
amou a Igreja como esposa, entregou-se por ela, para a santificar (cf. Hb
5,25-26), e uniu-a a si como seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito
Santo, para glória de Deus. Por isso, todos na Igreja são chamados à
santidade." (LG 39) Neste sentido, desde as origens os membros da Igreja
são chamados os "santos" (cf. Act 9,13; 1Co 6,1s; 16,1). Pode-se
distinguir, contudo, a santidade da Igreja da santidade na Igreja. A
primeira - fundada na missão do Filho e do Espírito - garante a continuidade
da missão do povo de Deus até ao fim dos tempos e estimula e ajuda os crentes
a perseguir a santidade subjectiva e pessoal. Na vocação que cada um recebe
está, ao invés, radicada a forma de santidade que lhe foi dada e que dele se
exige, enquanto pleno cumprimento da própria vocação e missão. A santidade
pessoal é em todo o caso projectada para Deus e para os outros e, por isso, tem
um carácter essencialmente social: é santidade "na Igreja",
orientada ao bem de todos.
À santidade da Igreja deve, assim, corresponder a santidade na
Igreja: "Os seguidores de Cristo, chamados por Deus e justificados no
Senhor Jesus, não por merecimento próprio mas pela vontade e graça de Deus,
são feitos, pelo Baptismo da fé, verdadeiramente filhos e participantes da
natureza divina e, por conseguinte, realmente santos. É necessário, portanto,
que com o auxílio divino conservem e aperfeiçoem, vivendo-a, esta santidade
recebida." (LG 40) O baptizado é chamado a tornar-se, em toda a sua
existência, aquele em que se transformou por força da consagração baptismal:
e isso não acontece sem o assentimento da sua liberdade e a ajuda da Graça que
vem de Deus. Quando isso acontece, a humanidade nova segundo Deus deixa-se
reconhecer na história: ninguém se torna tão plenamente ele mesmo quanto o
santo que acolhe o plano divino e, com a ajuda da graça, conforma todo o seu
próprio ser ao projecto do Altíssimo! Neste sentido, os santos como luzes
suscitadas pelo Senhor no meio da sua Igreja para a iluminar, são profecia para
o mundo inteiro.
3.3. Necessidade de contínua renovação
Sem ofuscar esta santidade, deve reconhecer-se que, devido à presença do
pecado, existe a necessidade de contínua renovação e constante conversão no
povo de Deus: a Igreja na terra está "aureolada de uma santidade
verdadeira" embora "imperfeita" (LG 48). Observa St. Agostinho
contra os pelagianos: "A Igreja no seu conjunto afirma: Perdoai-nos os
nossos pecados! Ela, portanto, tem manchas e rugas. Mas, mediante a confissão
as rugas são removidas, mediante a confissão as manchas são lavadas. A Igreja
está em oração para ser purificada pela confissão, e enquanto os homens
viverem na terra isto será assim."(25) E S. Tomás de Aquino precisa que a
plenitude da santidade pertence ao tempo escatológico, enquanto a Igreja
peregrinante não se deve enganar a si mesma afirmando ser sem pecado: "Que
a Igreja seja gloriosa, sem mácula nem ruga, é o objectivo final para o qual
tendemos em virtude da paixão de Cristo. Isto apenas existirá, no entanto, na
pátria eterna, e não já na peregrinação; aqui […] enganar-nos-íamos se
disséssemos não ter qualquer pecado."(26) De facto, "embora
revestidos da veste baptismal, não cessamos de pecar, de nos afastarmos de
Deus. Ora, com o pedido 'perdoai-nos os nossos pecados', regressamos a Ele, como
o filho pródigo (cf. Lc 15,11-32), e reconhecemo-nos pecadores diante d'Ele,
como o publicano (cf. Lc 18,13). O nosso pedido inicia-se com a nossa
'confissão', com a qual confessamos a um tempo a nossa miséria e a Sua
misericórdia" (CIC 2839).
Por isso, é a Igreja inteira que, mediante a confissão dos pecados dos seus
filhos, confessa a sua fé em Deus e celebra a sua infinita bondade e capacidade
de perdão: graças ao vínculo estabelecido pelo Espírito Santo, a comunhão
que existe entre todos os baptizados no tempo e no espaço é tal, que nela cada
um é ele mesmo, mas ao mesmo tempo está condicionado pelos outros e exerce
neles uma influência no intercâmbio vital dos bens espirituais. Deste modo, a
santidade de uns influencia o crescimento no bem de outros, mas também o pecado
deixa de ter apenas relevância exclusivamente individual, pois pesa e opõe
resistência ao caminho da salvação de todos e, nesse sentido, toca
verdadeiramente a Igreja na sua totalidade, por meio da variedade dos tempos e
dos lugares. Esta convicção leva os Padres da Igreja a afirmações claras
como esta de St. Ambrósio: "Estamos bem atentos a que a nossa queda não
se torne uma ferida da Igreja."(27) Esta, sendo santa pela sua
incorporação em Cristo, não se cansa de fazer penitência; e reconhece sempre
como seus, perante Deus e os homens, os filhos pecadores" (TMA 33), os de
hoje e os de ontem.
3.4. Maternidade da Igreja
A certeza de que a Igreja pode carregar o peso do pecado dos seus filhos por
força da solidariedade existente entre eles no tempo e no espaço, graças à
sua incorporação em Cristo e à obra do Espírito Santo, é expressa de modo
particularmente eficaz pela ideia de "Igreja Mãe" (Mater ecclesia),
que "na concepção protopatrística é o conceito central de todo o anseio
cristão":(28) a Igreja - afirma o Vaticano II -, "pela fiel
recepção da Palavra de Deus, torna-se ela própria mãe pois que pela
pregação e o baptismo gera, para vida nova e imortal, os filhos concebidos por
acção do Espírito Santo e nascidos de Deus" (LG 64). À vastíssima
tradição de que estas ideias são eco, dá voz, p. ex., St. Agostinho com as
seguintes palavras: "Esta mãe santa digna de veneração, a Igreja, é
igual a Maria: ela dá à luz e é virgem, dela vós nascestes e ela gera
Cristo, pois vós sois os membros de Cristo."(29) S. Cipriano de Cartago
afirma claramente: "Não pode ter Deus por pai quem não tem a Igreja como
mãe."(30) E Paulino de Nola canta, deste modo, a maternidade da Igreja:
"Como mãe recebe a semente da Palavra eterna, traz os povos no seio e
dá-os à luz."(31)
Segundo esta perspectiva, a Igreja realiza-se continuamente no intercâmbio e
na comunicação do Espírito, dos crentes uns aos outros, como ambiente gerador
de fé e santidade na comunhão fraterna, na unanimidade orante, na
participação solidária da Cruz, no testemunho comum. Por força desta
comunicação vital cada baptizado pode ser considerado, ao mesmo tempo, filho
da Igreja, enquanto gerado nela para a vida divina, e Igreja Mãe, enquanto
coopera com a sua fé e caridade a gerar novos filhos para Deus: é tanto mais
Igreja Mãe quanto maior for a sua santidade, e mais ardente o esforço de
comunicar aos outros o dom recebido. Por outro lado, não deixa de ser filho da
Igreja o baptizado que, devido ao pecado, se separe dela pelo coração; ele
poderá sempre de novo aceder às fontes da graça e remover o peso que a sua
culpa faz carregar à inteira comunidade da Igreja Mãe. Esta, por sua vez, como
verdadeira mãe, não poderá deixar de ser ferida pelo pecado dos seus filhos
de hoje como dos de ontem, continuando sempre a amá-los, a ponto de carregar,
em todos os tempos, o peso produzido pelos seus pecados: enquanto tal, a Igreja
aparece ao Pai como Mãe das dores, não só por causa das perseguições de
fora, mas sobretudo pelas traições, as quedas, os atrasos e as corrupções
dos seus filhos.
A santidade e o pecado na Igreja reflectem-se, assim, nos seus efeitos
sobre toda a Igreja, mesmo se é convicção da fé que a santidade é mais
forte que o pecado enquanto fruto da graça divina; disso são prova luminosa as
figuras dos santos, reconhecidos como modelo e ajuda para todos! Entre a graça
e o pecado não existe paralelismo, nem uma espécie de simetria ou de relação
dialéctica; a influência do mal não poderá nunca vencer a força da graça e
a irradiação do bem, mesmo o mais escondido! Neste sentido, a Igreja
reconhece-se existencialmente santa nos seus santos; mas, ao mesmo tempo que se
regozija desta santidade e dela sente o benefício, não deixa de se confessar
pecadora, não como sujeito do pecado mas enquanto assume com solidariedade
materna o peso das culpas dos seus filhos, para cooperar na sua superação pela
via da penitência e da novidade de vida. Por isso, a Igreja santa sente o dever
"de lastimar profundamente as fraquezas de tantos filhos seus que lhe
deturparam o rosto, impedindo-a de reflectir plenamente a imagem do seu Senhor
crucificado, testemunha insuperável de amor paciente e de humilde
mansidão" (TMA 35).
Isto pode ser feito de modo particular por quem, pelo seu carisma e
ministério, exprima da forma mais densa a comunhão do povo de Deus: em nome
das Igrejas locais poderão dar voz a eventuais confissões de culpa e pedidos
de perdão os respectivos pastores; em nome de toda a Igreja, una no tempo e no
espaço, poderá pronunciar-se aquele que exerce o ministério universal de
unidade, o Bispo da Igreja "que preside no amor",(32) o Papa. Eis
porque é particularmente significativo que tenha vindo dele próprio o convite
a que "a Igreja tome a seu cargo, com a mais viva consciência, o pecado
dos seus filhos" e reconheça a necessidade de "emenda, invocando com
força o perdão de Cristo" (TMA 34).
4. JUÍZO HISTÓRICO E JUÍZO TEOLÓGICO
A determinação das culpas do passado que devemos reconhecer implica, antes
de mais, um correcto juízo histórico que esteja também na base da avaliação
teológica. Deve-se perguntar: Que aconteceu realmente? Que foi propriamente
dito e feito? Só quando for dada resposta adequada a estas questões, fruto de
rigoroso juízo histórico, se poderá também perguntar se o que aconteceu, o
que foi afirmado ou feito, pode ser interpretado como estando conforme ou não
ao Evangelho e, caso não esteja, se os filhos da Igreja que agiram desse modo,
poderiam ter-se dado conta disso a partir do contexto em que agiam. Apenas
quando se chega à certeza moral de que quanto foi feito contra o Evangelho por
alguns filhos da Igreja e em seu nome, poderia ter sido compreendido por eles
como tal e evitado, pode ter significado para a Igreja de hoje reconhecer os
erros do passado.
A relação entre "juízo histórico" e "juízo
teológico" é, portanto, tão complexa quanto necessária e determinante.
Por isso, deve ser posta em prática sem erros de uma e outra parte; é
necessário evitar quer uma apologética que queira tudo justificar, quer uma
indevida culpabilização fundada na atribuição de responsabilidade
historicamente insustentável. João Paulo II, referindo-se à avaliação
histórico-teológica da acção da Inquisição, afirmou: "O magistério
eclesial não pode certamente propor-se levar a cabo um acto de natureza ética,
como é o pedido de perdão, sem primeiro estar rigorosamente informado acerca
da situação daquele tempo. Mas também não pode apoiar-se nas imagens do
passado veiculadas pela opinião pública, pois estão frequentemente
sobrecarregadas de uma emotividade passional que impede a diagnose serena e
objectiva […] Por isso, o primeiro passo consiste em interrogar os
historiadores, aos quais não é pedido um juízo de natureza ética - que
ultrapassaria o âmbito das suas competências -, mas, antes, que ajudem à
reconstrução o mais rigorosa possível dos acontecimentos, costumes e
mentalidade de então, à luz do contexto histórico da época."(33)
4.1. Interpretação da história
Quais são as condições de uma correcta interpretação do passado, na
perspectiva do saber histórico? Para as determinar, deve-se ter presente a
complexidade da relação que existe entre o sujeito que interpreta e o passado
objecto de interpretação;(34) em primeiro lugar, sublinhe-se o recíproco alheamento
entre eles. Acontecimentos ou palavras do passado são, antes de mais,
"passados"; como tal não são totalmente redutíveis às actuais
instâncias, mas têm uma espessura e complexidade objectivas que impedem que
deles se possa dispor de maneira apenas funcional aos interesses do presente.
Desse modo, é necessário aproximar-nos deles mediante uma pesquisa
histórico-crítica que vise utilizar todas as informações acessíveis, tendo
em vista a reconstrução do ambiente, dos modos de pensar, dos condicionamentos
e do processo vital em que aqueles acontecimentos e aquelas palavras estão
inseridos, para assim verificar os conteúdos e desafios que - justamente na sua
diversidade - eles propõem ao nosso presente.
Em segundo lugar, entre quem interpreta e o que é interpretado deve
reconhecer-se uma certa pertença comum, sem a qual nenhum laço e
nenhuma comunicação poderia subsistir entre passado e presente. Este laço
comunicativo funda-se no facto de que todo o ser humano de ontem e de hoje se
situa num complexo de relações históricas, e precisa, para o viver, da
mediação linguística, sempre historicamente determinada. Todos pertencemos à
história! Manifestar a compertença entre o intérprete e o objecto de
interpretação - que deve ser alcançado através das múltiplas formas como o
passado deixou testemunho (textos, monumentos, tradições, etc.) - significa
avaliar a correcção das possíveis correspondências e das eventuais
dificuldades de comunicação com o presente, resultantes da própria
inteligência das palavras ou dos acontecimentos passados; isso exige ter em
conta as interrogações que motivam a investigação, e sua incidência nas
respostas obtidas, o contexto vital em que se actua, e a comunidade
interpretante cuja linguagem se fala e à qual se pretende falar. Para este fim,
é necessário tornar o mais possível reflectida e consciente a
pré-compreensão que, de facto, faz sempre parte de toda a interpretação,
para medir e temperar a sua real incidência no processo interpretativo.
Por fim, entre quem interpreta e o passado objecto de interpretação dá-se,
por um esforço cognoscitivo e de avaliação, uma osmose ("fusão
de horizontes"), na qual consiste justamente o acto de compreensão. Nela
se exprime aquela que se julga ser a inteligência correcta dos acontecimentos
ou das palavras do passado; o que equivale a apreender o significado que podem
ter para o intérprete e o seu mundo. Graças a este encontro de mundos vitais,
a compreensão do passado traduz-se na sua aplicação ao presente; o passado é
tomado na potencialidade que manifesta, no estímulo que oferece para modificar
o presente. A memória torna-se capaz de suscitar um novo futuro.
Alcança-se a osmose fecunda com o passado por meio do entrelaçamento de
algumas operações hermenêuticas fundamentais, correspondentes aos momentos
indicados pelo alheamento, pela compertença e pela verdadeira e recta
compreensão. Em relação a um "texto" do passado - entendido em
geral como testemunho escrito, oral, monumental ou figurativo -, estas
operações podem ser expressas do seguinte modo: "1) Perceber o texto, 2)
ajuizar da correcção da própria inteligência do texto e 3) exprimir aquela
que se julga ser a inteligência correcta do texto."(35) Compreender o
testemunho do passado significa alcançá-lo o mais possível na sua
objectividade, mediante todas as fontes de que é possível dispor; ajuizar da
correcção da própria interpretação, quer dizer verificar com honestidade e
rigor em que medida ela pode ter sido orientada ou de algum modo condicionada
pela pré-compreensão e possíveis preconceitos do intérprete; exprimir a
interpretação a que se chegou equivale a tornar os outros participantes no
diálogo entretecido com o passado, quer para verificar a sua relevância quer
para se expor ao confronto com outras eventuais interpretações.
4.2. Investigação histórica e avaliação teológica
Se estas operações estão presentes em todo o acto hermenêutico, elas não
podem também faltar na interpretação em que juízo histórico e juízo
teológico se venham a integrar. Isso exige, primeiramente, que neste tipo de
interpretação se preste a máxima atenção aos elementos de diferenciação
e alheamento entre presente e passado. Em particular, quando se pretende
ajuizar de possíveis culpas do passado, deve ter-se presente que são diversos
os tempos históricos, diversos os tempos sociológicos e culturais do agir
eclesial, pelo que paradigmas e juízos próprios de uma sociedade e de uma
época poderão ser erroneamente aplicados na avaliação de outras fases da
história, gerando não poucos equívocos; diversas são as pessoas, as
instituições e as suas respectivas competências; diversas as formas de pensar
e diversos os condicionamentos. Deste modo, são precisadas as responsabilidades
pelos acontecimentos e pelas palavras ditas, tendo em conta que o facto de um
pedido de perdão da Igreja compromete o mesmo sujeito teológico - a Igreja -
na multiplicidade de modos e graus em que os indivíduos representam a
comunidade eclesial, e na diversidade de situações históricas e geográficas,
frequentemente muito diferentes entre si. Toda a generalização deve ser
evitada. Todas as eventuais declarações actuais devem ser situadas e devem ser
produzidas pelos sujeitos mais propriamente vocacionados para o fazer (Igreja
universal, episcopados nacionais, Igrejas particulares, etc.).
Em segundo lugar, a correlação de juízo histórico e juízo teológico
deve ter em conta o facto de que, para a interpretação da fé, o laço
entre passado e presente não é apenas motivado pelo interesse actual e
pela comum pertença de cada ser humano à história e suas mediações
expressivas, mas se funda também na acção unificadora do Espírito de Deus e
na identidade permanente do princípio constitutivo da comunhão dos crentes,
que é a revelação. A Igreja - por força da comunhão nela produzida pelo
Espírito de Cristo no tempo e no espaço - não pode deixar de reconhecer-se no
seu princípio sobrenatural, presente e operante em todos os tempos, enquanto
sujeito de certa forma único, chamado a responder ao dom de Deus em modos e
situações diversas através das escolhas dos seus filhos, mesmo com todas as
carências que possam tê-las caracterizado. A comunhão no único Espírito
Santo funda também diacronicamente uma comunhão dos "santos", por
força da qual os baptizados de hoje se sentem unidos aos baptizados de ontem,
e, tal como beneficiam dos seus méritos e se alimentam do seu testemunho de
santidade, sentem-se também no dever de assumir o eventual peso presente das
suas culpas, depois de haver sido feito atento discernimento histórico e
teológico.
Devido a este fundamento objectivo e transcendente da comunhão do povo de
Deus nas suas múltiplas situações históricas, a interpretação crente
reconhece ao passado da Igreja um significado para o presente muito peculiar: o
encontro com ele, efectivado no acto da interpretação, pode revelar-se
carregado de particulares valências para o presente, rico de uma eficácia
"performativa" nem sempre previamente calculável. Naturalmente, a
forte unidade do horizonte hermenêutico e do sujeito eclesial interpretante
expõe mais facilmente o olhar teológico ao risco de ceder a leituras
apologéticas ou instrumentais; é aqui que o exercício hermenêutico dedicado
a entender acontecimentos e palavras do passado e a medir a correcção da sua
interpretação para o presente é tanto mais necessário. Com esse fim, a
leitura crente servir-se-á de todos os possíveis contributos oferecidos pelas
ciências históricas e pelos métodos interpretativos. O exercício da
hermenêutica histórica não deverá, porém, impedir a avaliação da fé de
interpelar os textos segundo a peculiaridade que a caracteriza e, portanto,
fazendo interagir presente e passado na consciência da fundamental unidade do
sujeito eclesial neles implicado. Isto põe-nos de sobreaviso contra todo o
historicismo que relativize o peso das culpas passadas e que considere que a
história tudo justifica. Como observa João Paulo II, "um correcto juízo
histórico não pode prescindir da atenta consideração dos condicionalismos
culturais da época […] Mas a consideração das circunstâncias atenuantes
não exonera a Igreja do dever de lastimar profundamente as fraquezas de tantos
filhos seus." (TMA 35) A Igreja, em suma, "não teme a verdade que
emerge da história, e está pronta a reconhecer os erros onde eles se
verificaram, sobretudo quando se trata do respeito devido às pessoas e às
comunidades. Está disposta a desconfiar das sentenças generalizadas de
absolvição ou condenação relativas às várias épocas históricas. Confia a
investigação do passado à paciente e honesta reconstrução científica,
liberta de preconceitos de tipo confessional ou ideológico, quer no que diz
respeito às acusações que lhe são feitas quer às injustiças por ela
suportadas."(36) Os exemplos apresentados no capítulo seguinte poderão
dar-nos disso uma demonstração concreta.
5. DISCERNIMENTO ÉTICO
Para que a Igreja realize um apropriado exame de consciência histórico na
presença de Deus, com vista à própria renovação interior e ao crescimento
na graça e na santidade, é necessário que ela saiba reconhecer as
"formas de contratestemunho e escândalo" que se apresentam na sua
história, em particular durante este milénio. Não é possível cumprir tal
tarefa sem estar consciente da sua relevância moral e espiritual. Isso exige a
definição de alguns termos chave, além da formulação de algumas precisões
necessárias no plano ético.
5.1. Alguns critérios éticos
No plano moral, o pedido de perdão pressupõe sempre uma admissão de responsabilidade,
precisamente da responsabilidade relativa a um erro cometido contra outros. A responsabilidade
moral normalmente refere-se à relação entre a acção e a pessoa que a
realiza; estabelece a pertença de um acto, a sua atribuição a determinada
pessoa ou a mais pessoas. A responsabilidade pode ser objectiva ou subjectiva:
a primeira refere-se ao valor moral do acto em si mesmo enquanto bom ou mau e,
portanto, à imputabilidade da acção; a segunda diz respeito à efectiva
percepção por parte da consciência individual da bondade ou malícia do acto
realizado. A responsabilidade subjectiva cessa com a morte de quem realizou o
acto, isto é, não se transmite por geração; por isso, os descendentes não
herdam a responsbilidade (subjectiva) dos actos dos seus antepassados. Neste
sentido, pedir perdão pressupõe uma contemporaneidade entre aqueles que
são ofendidos por uma acção e aqueles que a realizaram. A única
responsabilidade capaz de continuar na história só pode ser a de tipo
objectivo, à qual se pode sempre livremente aderir pelo menos subjectivamente.
Assim, o mal que foi feito frequentemente sobrevive a quem o praticou, através
das consequências dos comportamentos que podem tornar-se um fardo pesado na
consciência e memória dos descendentes.
Neste contexto, pode-se falar de uma solidariedade que une o passado e
o presente numa relação de reciprocidade. Em determinadas situações, o peso
que sobrecarrega a consciência pode ser de tal modo pesado que constitua uma
espécie de memória moral e religiosa do mal provocado, que, por sua natureza,
é uma memória colectiva. Ela testemunha de modo eloquente a
solidariedade existente entre aqueles que fizeram o mal no passado e os seus
herdeiros no presente. É então que se torna possível falar de responsabilidade
comum objectiva. Do peso de uma tal responsabilidade libertamo-nos, antes de
mais, implorando o perdão de Deus pelos erros do passado e, depois, quando for
o caso, através da "purificação da memória", culminando no perdão
recíproco dos pecados e ofensas no presente.
Purificar a memória significa eliminar da consciência pessoal e colectiva
todas as formas de ressentimento ou violência que a herança do passado aí
tenha deixado, na base de um novo e rigoroso juízo histórico-teológico que
funde um consequente e renovado comportamento moral. Isso acontece todas as
vezes que se atribui a actos históricos passados uma diferente qualidade,
comportando uma sua nova e diversa incidência no presente com vista ao
crescimento da reconciliação, na verdade, na justiça e na caridade entre os
seres humanos e, em particular, entre a Igreja e as diversas comunidades
religiosas, culturais ou civis com que tem relações. Modelos emblemáticos
desta incidência que um posterior juízo interpretativo autorizado pode ter na
inteira vida da Igreja, são a recepção dos concílios ou actos como a
abolição de recíprocos anátemas, o que exprime uma nova qualificação da
história passada de modo a produzir uma diversa caracterização das relações
vividas no presente. A memória das divisões e contraposições é purificada e
substituída por uma memória reconciliada, a que todos na Igreja são
convidados a abrir-se e a adequar-se.
A combinação de juízo histórico e juízo teológico no processo de
interpretação do passado salda-se aqui pelas repercussões éticas que pode
ter no presente e que implicam alguns princípios, correspondentes, no plano
moral à fundação hermenêutica da relação entre juízo histórico e juízo
teológico. São os seguintes:
a. O princípio de consciência. A consciência, quer enquanto
"juízo moral" quer enquanto "imperativo moral", constitui a
avaliação última de um acto em relação à sua bondade ou malícia perante
Deus. Com efeito, só Deus conhece o valor moral de cada acto humano, mesmo se a
Igreja, como Jesus, pode e deve classificar, julgar e por vezes condenar alguns
tipos de acções (cf. Mt 18,15-18).
b. O princípio de historicidade. Justamente na medida em que cada
acto humano pertence a quem o pratica, toda a consciência individual e toda a
sociedade escolhe e age no interior de um determinado horizonte de tempo e
espaço. Para compreender verdadeiramente os actos humanos ou as dinâmicas a
eles associadas, devemos, por isso, entrar no mundo daqueles que os realizaram,
pois só assim poderemos chegar a conhecer as suas motivações e os seus
princípios morais. Esta afirmação é feita sem prejuízo da solidariedade que
liga os membros de uma comunidade específica no decurso do tempo.
c. O princípio de mudança de "paradigma". Enquanto antes
do Iluminismo existia uma espécie de osmose entre Igreja e Estado, entre fé e
cultura, moralidade e lei, a partir do sec. XVIII esta relação foi
consideravelmente alterada. O resultado foi a transição de uma sociedade
sacral para uma sociedade pluralista ou, como aconteceu em alguns casos, para
uma sociedade secular. Os modelos de pensamento e acção, os chamados
"paradigmas" de actuação e avaliação mudaram. Semelhante
transição tem um impacto directo sobre os juízos morais, mesmo se esta
influência não justifica, de modo algum, uma ideia relativista dos princípios
morais ou da natureza da própria moralidade.
O inteiro processo de purificação da memória, porém, enquanto exige a
correcta combinação de avaliação histórica e olhar teológico, é vivido
por parte dos filhos da Igreja não só com o rigor que dê conta precisamente
dos critérios e princípios morais, mas também na contínua invocação da
assistência do Espírito Santo, para que não se caia no ressentimento ou na
autoflagelação mas, ao contrário, se chegue à confissão do Deus cuja
"misericórdia se estende de geração em geração" (Lc 1,50), que
quer a vida e não a morte, o perdão e não a condenação, o amor e não o
temor. Saliente-se aqui o carácter de exemplaridade que a honesta
admissão dos erros passados pode exercer sobre a mentalidade na Igreja e na
sociedade civil, solicitando um renovado empenho de obediência à Verdade, e de
consequente respeito pela dignidade e os direitos dos outros, sobretudo os mais
fracos. Neste sentido, os inúmeros pedidos de perdão formulados por João
Paulo II constituem um exemplo, que põe em evidência um bem e estimula à
imitação, chamando os indivíduos e os povos a um exame de consciência
honesto e frutuoso tendo em vista os caminhos da reconciliação.
À luz destes esclarecimentos no plano ético, pode-se agora aprofundar
alguns exemplos - entre os mencionados pela carta apostólica Tertio
millennio adveniente (cf. 34-36) - de situações nas quais o comportamento
dos filhos da Igreja parece ter contrariado, de maneira relevante, o Evangelho
de Jesus Cristo.
5.2. A divisão dos cristãos
A unidade é a lei da vida do Deus trinitário, revelada ao mundo por seu
Filho (cf. Jo 17,21) que, pelo poder do Espírito Santo, amando até ao fim (Jo
13,1) faz participar esta vida aos seus. Esta unidade deverá ser a fonte e a
forma da comunhão de vida da humanidade com o Deus trino. Se os cristãos
viverem nesta lei de amor recíproco, para serem um, "assim como o Pai e o
Filho são um", daí resultará que o "mundo acreditará que o Filho
foi enviado pelo Pai" (Jo 17,21), e "todos saberão que eles são seus
discípulos" (Jo 13,35). Infelizmente assim não aconteceu em particular no
milénio que chega ao fim, no qual surgiram grandes divisões entre os
cristãos, em aberta contradição com a vontade explícita de Cristo, como se
Ele próprio estivesse dividido (cf. 1Co 1,13). O concílio Vaticano II ajuíza
sobre este facto do seguinte modo: "Esta divisão contradiz abertamente a
vontade de Cristo e é escândalo para o mundo, como também prejudica a
santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura." (UR 1)
As principais cisões que durante este milénio "ferem a túnica
inconsútil de Cristo" (UR 13)37 são o cisma entre as Igrejas do Oriente e
do Ocidente no início do milénio e, no Ocidente - quatro séculos depois -, a
laceração causada pelos acontecimentos "comummente conhecidos com o nome
de Reforma" (UR 13). É verdade que "estas diversas divisões diferem
muito entre si, não apenas em razão da origem, lugar e tempo, mas
principalmente pela natureza e gravidade das questões relativas à fé e à
estrutura da Igreja" (UR 13). No cisma do sec. XI, factores culturais e
históricos desempenharam papel importante, ao passo que o aspecto doutrinal
dizia respeito à autoridade da Igreja e ao Bispo de Roma, assunto que naquele
momento não havia alcançado a clareza com que se apresenta hoje graças ao
desenvolvimento doutrinal deste milénio. Com a Reforma, ao contrário, outros
domínios da revelação e da doutrina foram objecto de controvérsia.
O caminho aberto para superar estas diferenças é o do diálogo doutrinal,
encorajado pelo amor recíproco. Comum a ambas as dilacerações parece ter sido
a falta de amor sobrenatural, de ágape. A partir do momento em que esta
caridade é o mandamento supremo do Evangelho, sem o qual tudo o resto é apenas
"bronze que soa ou címbalo que retine" (1Co 13,1), uma tal falta é
tomada em toda a sua seriedade diante do Ressuscitado, Senhor da Igreja e da
história. Devido ao reconhecimento desta falta, o Papa Paulo VI pediu perdão a
Deus e aos "irmãos separados" que se sentissem ofendidos "por
nós" (Igreja católica).(38)
Em 1965, no clima criado pelo Concílio Vaticano II, o Patriarca Atenágoras,
no seu diálogo com Paulo VI, salientou o tema da restauração (apokatástasis)
do amor recíproco, essencial após uma história tão carregada de
contradições, de mútua desconfiança e de antagonismos.(39) O que estava em
jogo era um passado ainda influente através da memória: os acontecimentos de
1965 (que culminaram a 7 de Dezembro de 1965, com a abolição dos anátemas de
1054 entre Oriente e Ocidente) representam uma confissão da culpa contida na
anterior exclusão recíproca, de modo a purificar a memória e a partir daí
gerar uma nova. O fundamento desta nova memória só pode ser o amor
recíproco ou, melhor, o renovado empenho em vivê-lo. É este o mandamento ante
omnia (1Pd 4,8) para a Igreja, quer no Oriente quer no Ocidente. De tal modo
a memória liberta da escravidão do passado e convida católicos e ortodoxos,
assim como católicos e protestantes, a serem os arquitectos de um futuro mais
conforme ao mandamento novo. O testemunho dado a esta nova memória pelo Papa
Paulo VI e pelo Patriarca Atenágoras é, neste sentido, exemplar.
Relativamente ao caminho em direcção à unidade dos cristãos, pode
resultar particularmente relevante a tentação de se ser guiado, ou até
deteminado, por factores culturais, condicionalismos históricos ou
preconceitos, que alimentam a separação e desconfiança recíproca entre
cristãos, ainda que nada tenham a ver com matérias de fé. Os filhos da Igreja
devem examinar a sua consciência com seriedade, para verem se estão
activamente empenhados em obedecer ao imperativo da unidade e se vivem a
"conversão interior", "pois o desejo de unidade nasce e
amadurece a partir da renovação da mente, da abnegação de si mesmo e da
libérrima efusão da caridade" (UR 7). No tempo passado entre a conclusão
do Concílio e hoje, a resistência oposta à sua mensagem entristeceu
certamente o Espírito de Deus (cf. Ef 4,30). Na medida em que alguns católicos
se comprazem em permanecer associados às divisões do passado, nada fazendo
para remover os obstáculos que impedem a unidade, dever-se-ia justamente falar
de solidariedade no pecado da divisão (1Co 1,10-16). Neste contexto, podem ser
atendidas as palavras do Decreto sobre o Ecumenismo: "Pedimos
humildemente perdão a Deus e aos irmãos separados, assim como também nós
perdoamos àqueles que nos ofenderam." (UR 7)
5.3. Uso da violência ao serviço da verdade
Ao contratestemunho da divisão entre os cristãos é necessário acrescentar
o das várias ocasiões em que, ao longo deste milénio, foram empregues meios
duvidosos para atingir fins justos, que são quer a pregação do Evangelho quer
a defesa da unidade da fé: "Outro capítulo doloroso sobre o qual os
filhos da Igreja não podem deixar de reflectir, com espírito aberto ao
arrependimento, é a condescendência manifestada, especialmente nalguns
séculos, perante métodos de intolerância ou até mesmo de violência
no serviço à verdade." (TMA 35) Referem-se aqui as formas de
evangelização que utilizaram instrumentos impróprios para anunciar a verdade
revelada, ou que não operaram um adequado discernimento evangélico dos valores
culturais dos povos, ou não respeitaram a consciência das pessoas a quem a fé
era apresentada, além das formas de violência exercidas na repressão e
correcção dos erros.
Análoga atenção é reservada às possíveis omissões das quais os filhos
da Igreja se tornaram responsáveis nas mais diversas situações da história,
respeitando à denúncia de injustiças e violências: "Há, depois, o
falhado discernimento de não poucos cristãos a respeito de situações de
violação dos direitos humanos fundamentais. O pedido de perdão é válido por
tudo quanto foi omitido ou calado, por fraqueza ou errada avaliação, pelo que
foi feito ou dito de modo indeciso ou pouco idóneo."(40)
Como sempre, é decisivo estabelecer, mediante a investigação
histórico-crítica, a verdade histórica. Estabelecidos os factos, será
necessário avaliar o seu valor espiritual e moral, como também o seu
significado objectivo. Só assim será possível evitar toda a espécie de
memória mítica e aceder a uma justa memória crítica, capaz - à luz da fé -
de produzir frutos de conversão e renovação: "Desses momentos dolorosos
do passado deriva uma lição para o futuro, que deve induzir todo o cristão a
manter-se bem firme sobre aquela regra áurea ditada pelo Concílio: 'A verdade
não se impõe de outro modo senão pela sua própria força que penetra nos
espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte' (DH 1)." (TMA 35)
5.4. Cristãos e judeus
Um dos domínios que exige particular exame de consciência é a relação
entre cristãos e judeus.(41) A relação da Igreja com o povo hebraico é
diferente da que tem com todas as outras religiões. (42) Contudo, "a
história das relações entre judeus e cristãos é uma história tormentosa […]
Com efeito, o balanço destas relações durante os dois milénios tem sido
predominantemente negativo".(43) A hostilidade ou a desconfiança de
inúmeros cristãos para com os hebreus ao longo dos tempos é um facto
histórico doloroso e causa de profundo pesar para os cristãos conscientes do
facto de "que Jesus era um descendente de David; que do povo hebraico
nasceram a Virgem Maria e os Apóstolos; que a Igreja é sustentada pelas
raízes daquela boa oliveira em que foram enxertados os ramos da oliveira brava
dos gentios (cf. Rm 11,17-24); que os judeus são nossos caros e amados irmãos
e que, em certo sentido, são verdadeiramente os "nossos irmãos mais
velhos".(44)
A Shoah foi certamente resultado de uma ideologia pagã, como era o nazismo,
animada de um cruel anti-semitismo, a qual não só desprezava a fé mas também
negava a própria dignidade humana do povo hebraico. Contudo, "deve-se
perguntar se a perseguição do nazismo nos confrontos com os judeus não foi
facilitada por preconceitos antijudaicos presentes nas mentes e corações de
alguns cristãos […] Ofereceram os cristãos toda a assistência possível aos
perseguidos e, em particular, aos judeus?" (45) Sem dúvida que foram
muitos os cristãos que arriscaram a vida para salvar e assistir os judeus seus
conhecidos. Parece, porém, igualmente verdade que "ao lado destes
corajosos homens e mulheres, a resistência espiritual e a acção concreta de
outros cristãos não foi aquela que se poderia esperar de discípulos de
Cristo".(46) Este facto constitui um apelo à consciência de todos os
cristãos, hoje, exigindo "um acto de arrependimento (teshuva)",(47)
e tornando-se um estímulo a que redobrem os seus esforços para serem
"transformados, adquirindo uma nova mentalidade" (Rm 12,2) e para
manterem uma "memória moral e religiosa" da ferida infligida aos
judeus. Nesta área, o muito que já foi feito poderá ser consolidado e
aprofundado.
5.5. A nossa responsabilidade pelos males de hoje
"A época actual, a par de muitas luzes, apresenta também muitas
sombras." (TMA 36) Entre estas, pode-se assinalar em primeiro plano o
fenómeno da negação de Deus nas suas múltiplas formas. O que fere
particularmente é ser esta negação, em especial nos seus aspectos mais
teóricos, um processo surgido no mundo ocidental. Relacionado com o eclipse de
Deus encontra-se, em seguida, uma série de fenómenos negativos, como a
indiferença religiosa, a difusa ausência do sentido transcendente da vida
humana, um clima de secularismo e relativismo ético, a negação do direito à
vida da criança não nascida, que chega a ser sancionado nas legislações em
favor do aborto, e uma grande indiferença perante o grito dos pobres em vastos
sectores da família humana.
A inquietante questão que se coloca é em que medida os crentes serão eles
mesmos responsáveis por estas formas de ateísmo, teórico e prático. A Gaudium
et spes responde com palavras cuidadosamente escolhidas: "Os próprios
crentes, muitas vezes, têm responsabilidade neste ponto. Com efeito, o ateísmo
considerado no seu conjunto não é um fenómeno originário, antes resulta de
várias causas, entre as quais se conta também a reacção crítica contra as
religiões e, nalguns países, principalmente contra a religião cristã. Pelo
que os crentes podem ter tido parte não pequena na génese deste
ateísmo." (19)
A partir do momento em que o rosto autêntico de Deus foi revelado em Jesus
Cristo, aos cristãos é oferecida a graça incomensurável de conhecer este
Rosto: mas têm, igualmente, a responsabilidade de viverem de modo a
manifestar aos outros o verdadeiro Rosto do Deus vivo. São chamados a difundir
no mundo a verdade que "Deus é amor (ágape)" (1Jo 4,8.16).
Porque Deus é amor, Ele é Trindade de Pessoas, cuja vida consiste na
recíproca comunicação infinita no amor. Deste modo se conseguirá que a vida
melhore, pois os cristãos difundem que a verdade do Deus amor é o amor
recíproco: "Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos:
se vos amardes uns aos outros." (Jo 13,35) E isto até ao ponto de se poder
dizer que muitas vezes os cristãos "pela negligência na educação da sua
fé, ou por exposições falaciosas da doutrina, ou ainda pelas deficiências da
sua vida religiosa, moral e social, antes esconderam do que revelaram o
autêntico rosto de Deus e da religião" (GS 19).
Sublinhe-se, por fim, que mencionar estas culpas dos cristãos do passado
não é apenas confessá-las a Cristo Salvador, mas também louvar o Senhor da
história pelo Seu amor misericordioso. Os cristãos, de facto, não crêem
apenas na existência do pecado, mas também e sobretudo no "perdão dos
pecados". Além disso, mencionar estas culpas quer dizer também afirmar a
nossa solidariedade com aqueles que no bem e no mal nos precederam na via da
verdade, oferecer no presente um forte motivo de conversão às exigências do
Evangelho, e proporcionar o necessário prelúdio ao pedido de perdão a Deus
que abre caminho à recíproca reconciliação.
6. PERSPECTIVAS PASTORAIS E MISSIONÁRIAS
À luz das considerações feitas, é possível agora perguntar: quais as
finalidades pastorais que levam a Igreja a assumir o peso das culpas, cometidas
no passado pelos seus filhos em seu nome, e a reconhecê-las como tais? Quais as
implicações desta atitude na vida do povo de Deus? E quais as suas
ressonâncias em relação à missão da Igreja e ao seu diálogo com as
diversas culturas e religiões?
6.1. Finalidades pastorais
Entre as múltiplas finalidades pastorais do reconhecimento dos erros do
passado, podem salientar-se as seguintes:
- em primeiro lugar, estes actos tendem à purificação da memória
que, como foi dito, é o processo de renovada avaliação do passado, capaz de
uma não desprezível incidência no presente, pois os pecados passados fazem,
com frequência, ainda sentir o seu peso e permanecem também hoje como outras
tantas tentações. Sobretudo se amadurecida no diálogo e na paciente procura
da reciprocidade com quem se possa sentir ofendido por acontecimentos ou
palavras do passado, a remoção da memória pessoal e colectiva de todas as
causas de possível ressentimento pelo mal sofrido e de toda a influência
negativa daquele facto, pode contribuir para fazer crescer a comunidade eclesial
em santidade, pela via da reconciliação e da paz na obediência à Verdade.
"Reconhecer as fraquezas de ontem - sublinha o Papa - é acto de
lealdade e coragem que ajuda a reforçar a nossa fé, tornando-nos atentos e
prontos para enfrentar as tentações e dificuldades de hoje." (TMA 33) É
exactamente com tal fim que a memória da culpa deve abranger todas as
possíveis faltas cometidas, mesmo se apenas algumas são hoje mais
frequentemente mencionadas. De qualquer modo, nunca se pode esquecer também o
preço pago por tantos cristãos pela sua fidelidade ao Evangelho e ao serviço
do próximo na caridade.(48)
- Uma segunda finalidade pastoral, estreitamente ligada à anterior, pode ser
reconhecida na promoção da perene reforma do povo de Deus: "se, em
vista das circunstâncias das coisas e dos tempos houve deficiências, quer na
moral, quer na disciplina eclesiástica, quer também no modo de enunciar a
doutrina - modo que deve cuidadosamente distinguir-se do próprio depósito da
fé - tudo seja recta e devidamente restaurado no momento oportuno" (UR 6).(49)
Todos os baptizados são chamados a "examinar a sua fidelidade à vontade
de Cristo acerca da Igreja e, na medida da necessidade, empreender com vigor a
obra de renovação e reforma" (UR 4: opus renovationis nec non
reformationis). O critério da verdadeira reforma e da autêntica renovação
só pode ser a fidelidade à vontade de Deus respeitante ao Seu povo,(50) que
supõe um esforço sincero por libertar-se de tudo o que afasta dela, quer se
trate de culpas presentes quer diga respeito a heranças do passado.
- Uma ulterior finalidade pode ser vista no testemunho que, desse
modo, a Igreja dá do Deus da misericórdia e da Sua Verdade que liberta e
salva, a partir da experiência que d'Ele fez e faz na história; e no serviço
que, desse modo, presta nos confrontos da humanidade para contribuir à
superação dos males presentes. João Paulo II afirma que "um sério exame
de consciência foi desejado por numerosos cardeais e bispos, principalmente sobre
a Igreja de hoje. No limiar do novo milénio, os cristãos devem pôr-se
humildemente diante do Senhor, interrogando-se sobre as responsabilidades que
lhes cabem também nos males do nosso tempo" (TMA 36), e para
contribuir, por consequência, ao seu superamento na obediência ao esplendor da
Verdade salvífica.
6.2. Implicações eclesiais
Que implicações tem um acto eclesial de pedido de perdão na vida da
própria Igreja? Emergem vários aspectos:
- Impõe-se, antes de mais, ter em conta os processos diversificados de recepção
dos actos de arrependimento eclesial, pois esses variam consoante os contextos
religiosos, culturais, políticos, sociais, pessoais, etc.. A esta luz tome-se
em consideração que acontecimentos ou palavras ligados a uma história
contextualizada não têm necessariamente alcance universal e, vice-versa, que
actos condicionados por determinada perspectiva teológica e pastoral trouxeram
consequências de grande peso na difusão do Evangelho (pense-se, p. ex., nos
vários modelos históricos da teologia da missão). Além disso, tenha-se em
conta a relação entre benefícios espirituais e possíveis custos de
semelhantes actos, considerando-se também as acentuações indevidas que os
media podem dar a alguns aspectos das declarações eclesiais; tenha-se sempre
presente o conselho do apóstolo Paulo de acolher, considerar e apoiar com
prudência e amor os "fracos na fé" (cf. Rm 14,1). Em particular,
impõe-se prestar atenção à história, à identidade e aos contextos das
Igrejas orientais e das Igrejas que actuam em continentes ou países em que a
presença cristã é largamente minoritária.
- É necessário precisar o sujeito adequado chamado a pronunciar-se
em relação a culpas passadas, quer se trate de pastores locais, pessoal ou
colegialmente considerados, quer se trate do Pastor universal, o Bispo de Roma.
Nesta perspectiva é oportuno ter em conta - no reconhecimento das culpas
passadas e dos agentes actuais que melhor poderão tomar isso a seu cargo - a
distinção entre Magistério e autoridade na Igreja. Nem todo o acto de
autoridade tem valor de Magistério, pelo que um comportamento contrário ao
Evangelho da parte de uma ou mais pessoas revestidas de autoridade não implica
de per si um envolvimento do carisma magisterial, confirmado pelo Senhor aos
pastores da Igreja, e não requer por consequência nenhum acto magisterial de
reparação.
- Sublinhe-se que o destinatário de todo o possível pedido de
perdão é Deus e que eventuais destinatários humanos, sobretudo se colectivos,
dentro ou fora da comunidade eclesial, devem ser determinados com oportuno
discernimento histórico e teológico, quer para se realizarem convenientes
actos de reparação quer para se lhes testemunhar a boa vontade e o amor à
verdade dos filhos da Igreja. Isto será feito tanto melhor quanto mais diálogo
houver e reciprocidade entre as partes em causa num eventual caminho de
reconciliação, ligado ao reconhecimento das culpas e arrependimento por elas,
sem ignorar que a reciprocidade - por vezes impossível por causa das
convicções religiosas do interlocutor - não pode ser, todavia, considerada
condição indispensável e que a gratuidade do amor se exprime frequentemente
numa iniciativa unilateral.
- Os eventuais gestos de reparação estão associados ao
reconhecimento de uma responsabilidade que perdura no tempo, e poderão tanto
ter um carácter simbólico-profético como um valor de efectiva reconciliação
(p. ex., entre os cristãos divididos). Também na definição destes actos é
desejável uma procura comum com os eventuais destinatários, ouvindo os
legítimos pedidos que eles possam apresentar.
- No plano pedagógico é oportuno evitar a perpetuação de imagens
negativas do outro, assim como activar processos de autoculpabilização
indevida; enfatizando que o carregar o fardo das culpas passadas é, para quem
crê, um modo de participação no mistério de Cristo crucificado e
ressuscitado que carregou as culpas de todos. Esta perspectiva pascal revela-se
particularmente apta a produzir frutos de libertação, reconciliação e
alegria para todos aqueles que, com fé viva, estão implicados no pedido de
perdão, seja como sujeitos seja como destinatários.
6.3. Implicações no plano do diálogo e da missão
São diversas as implicações previsíveis no plano do diálogo e da
missão, em consequência de um reconhecimento eclesial de culpas passadas:
- No plano missionário deve-se, antes de mais, evitar que actos
semelhantes contribuam para inibir o impulso da evangelização mediante o
exacerbar dos aspectos negativos. Do mesmo modo, deve-se tomar em consideração
o facto de que estes mesmos actos poderão fazer crescer a credibilidade da
mensagem, se nascerem da obediência à verdade e tenderem a dar efectivos
frutos de reconciliação. Em particular, os missionários ad gentes terão o
cuidado de contextualizar a proposta destes temas em relação à efectiva
capacidade da sua recepção nos ambientes em que trabalham (assim, p. ex.,
aspectos da história da Igreja na Europa poderão ser pouco significativos para
muitos povos não europeus).
- No plano ecuménico, a finalidade de eventuais actos de eclesiais de
arrependimento só pode ser a unidade querida pelo Senhor. Nesta perspectiva é
tanto mais desejável que eles se efectuem na reciprocidade, mesmo que por vezes
gestos proféticos possam reclamar uma iniciativa unilateral e absolutamente
gratuita.
- No plano inter-religioso é oportuno salientar como, para os crentes
em Cristo, o reconhecimento das culpas passadas por parte da Igreja está
conforme às exigências da fidelidade ao Evangelho e, portanto, constitui um
luminoso testemunho da sua fé na verdade e na misericórdia do Deus revelado
por Jesus. Deve evitar-se que actos semelhantes sejam tomados equivocamente como
confirmação de eventuais preconceitos nos confrontos do cristianismo. Seria,
além disso, desejável que estes actos de arrependimento estimulassem também
os fiéis de outras religiões a reconhecerem as culpas do seu próprio passado.
Tal como a história da humanidade está cheia de violências, genocídios,
violações dos direitos humanos e dos povos, exploração dos mais fracos e
divinização dos poderosos, assim também a das várias religiões está
coberta de intolerância, superstição, conivência com poderes injustos e
negação da dignidade e liberdade das consciências. Os cristãos não foram
excepção, e estão conscientes de como todos são pecadores perante Deus!
- No diálogo com as culturas deve-se, antes de mais, ter presente a
complexidade e pluralidade das mentalidades com que se dialoga a respeito da
ideia de arrependimento e perdão. Em todo o caso, o facto de a Igreja assumir
as culpas do passado é esclarecido à luz da mensagem evangélica e, em
particular, da apresentação do Senhor crucificado, revelação da
misericórdia e fonte de perdão, para além da peculiar natureza da comunhão
eclesial, una no tempo e no espaço. Onde haja uma cultura de todo alheia à
ideia de um pedido de perdão, devem ser oportunamente apresentadas as razões
teológicas e espirituais que motivam este acto a partir da mensagem cristã,
tendo em conta o seu carácter crítico-profético. Sempre que se tenha de fazer
face a uma preconceituosa indiferença para com a palavra da fé, tome-se em
consideração o duplo efeito possível destes actos de arrependimento eclesial
que se, por um lado, podem confirmar preconceitos negativos ou atitudes de
desprezo e hostilidade, por outro, participam da misteriosa atracção
característica do "Deus crucificado".(51) Além disso, considere-se o
facto de que no actual contexto cultural, sobretudo no Ocidente, o convite à
purificação da memória envolve num comum empenhamento crentes e não crentes.
Este empreendimento comum constitui já testemunho positivo de docilidade à
verdade.
- Em relação à sociedade civil, por fim, tenha-se em conta a
diferença que existe entre a Igreja, mistério de graça, e uma qualquer
sociedade temporal; mas não deve ser menos sublinhado o carácter de
exemplaridade que o pedido eclesial de perdão pode apresentar e o consequente
estímulo que pode oferecer a se efectuarem análogos passos de purificação da
memória e reconciliação nas mais diversas situações em que poderá ser
reconhecida a sua urgência. Afirma João Paulo II: "O pedido de perdão […]
diz respeito, em primeiro lugar, à vida da Igreja, à sua missão de anúncio
da salvação, ao seu testemunho de Cristo, ao seu empenhamento pela unidade,
numa palavra, à coerência que deve marcar a existência cristã. Mas, a luz e
a força do Evangelho de que a Igreja vive, têm a capacidade de iluminar e
sustentar, como por superabundância, as escolhas e acções da sociedade civil,
no pleno respeito da sua autonomia […] No limiar do terceiro milénio, é
legítimo esperar que os responsáveis políticos e os povos, sobretudo aqueles
envolvidos em conflitos dramáticos, alimentados pelo ódio e pela lembrança de
feridas frequentemente antigas, se deixem guiar pelo espírito de perdão e
reconciliação de que a Igreja dá testemunho, e se esforcem por resolver as
oposições mediante um diálogo leal e aberto."(52)
CONCLUSÃO
A concluir a reflexão feita, é oportuno salientar, uma vez mais, como em
todas as formas de arrependimento pelas culpas do passado e em cada um dos
gestos a ele ligados, a Igreja se dirige antes de tudo a Deus, querendo
glorificá-l'O e à Sua misericórdia. Justamente desse modo ela sabe celebrar
também a dignidade da pessoa humana, chamada à plenitude da vida na aliança
fiel com o Deus vivo: "A glória de Deus é o homem vivo; a vida do homem
é a visão de Deus."(53) Agindo assim, a Igreja dá testemunho também da
sua confiança no poder da Verdade que nos torna livres (cf. Jo 8,32). O seu
"pedido de perdão não deve ser entendido como ostentação de dissimulada
humildade, nem como negação da sua história bimilenária, claramente rica de
méritos nas áreas da caridade, cultura e santidade. Ela responde, ao
contrário, à irrenunciável exigência de verdade a qual, a par dos aspectos
positivos, reconhece os limites e as fraquezas humanas das várias gerações de
discípulos de Cristo".(54) E a Verdade reconhecida é fonte de
reconciliação e de paz, pois, como afirma o mesmo Papa, "o amor da
verdade, procurada com humildade, é um dos grandes valores capazes de reunir os
homens de hoje através das várias culturas".(55) Também pela sua
responsabilidade para com a Verdade, a Igreja "não pode transpor o limiar
do novo milénio sem incitar os seus filhos à purificação, pelo
arrependimento, dos erros, infidelidades, incoerências, atrasos. Reconhecer as
quedas de ontem é acto de lealdade e coragem" (TMA 33). O que abre para
todos um novo amanhã.
Siglas
AAS Acta Apostolicae Sedis
CIC Catecismo da Igreja Católica
CTI Comissão Teológica Internacional
DH Dignitatis humanae
GS Gaudium et spes
LG Lumen gentium
NA Nostra aetate
RP Reconciliatio et paenitentia
TMA Tertio millennio adveniente
UR Unitatis redintegratio
Notas
1. Incarnationis mysterium 11.
2. Ibid. Já em várias intervenções e, em particular, no n. 33 da
carta apostólica Tertio millennio adveniente (TMA), o Papa havia
indicado à Igreja o caminho a seguir para purificar a própria memória
relativamente às culpas do passado e para dar o exemplo de arrependimento aos
indivíduos e às sociedades civis.
3. Cf. Extravagantes communes, lib. V, tit. IX, c. 1 (A. Friedberg, Corpus
iuris canonici, t. II, c. 1304).
4. Cf. CLEMENTE XIV, Carta Salutis nostrae (30 de Abril de 1774), §
2.
5. Neste sentido vai a definição de indulgência que Clemente VI dá ao
instituir, em 1343, a periodicidade do jubileu de 50 em 50 anos. Clemente VI vê
no jubileu eclesial "o cumprimento espiritual" do "jubileu de
remissão e júbilo" do Antigo Testamento (Lv 25).
6. "Cada um de vós deve examinar em que é que caiu e examinar-se a si
mesmo mais rigorosamente de quanto o será por Deus no dia da Sua cólera",
in: Deutsche Reichstagsakten, n. série, III 390-399, Gotha 1893.
7. Cf. UR