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Cardeal Victor Manuel Fernández
Prefeito del Dicastério para a Doutrina da Fé

 

Provocações sobre a teologia contextual

Discurso de abertura na Jornada de Estudos “Marcos da teologia
contextual hoje", Pontifícia Universidade Urbaniana, 12 de maio de 2026.

 

Pediram-me para fazer uma palestra introdutória e não uma conferência; por isso, dado o pouco tempo disponível, pensei em propor apenas algumas reflexões baseadas na minha experiência.

Uma experiência crítica sobre a teologia contextual

Um dos pontos fortes da teologia latino-americana é a importância de assumir o contexto histórico na reflexão teológica. O outro ponto forte é a inculturação, que se manifesta particularmente na piedade popular. É por isso que muitos teólogos latino-americanos não compreenderam algumas afirmações de um documento que o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou em 2006: trata-se da Notificação sobre as obras do jesuíta Jon Sobrino. Não vou me deter neste autor, mas quero apenas destacar que, no número 2 da Notificação, é condenada uma expressão de Sobrino que afirma que, na reflexão latino-americana, os pobres são um lugar teológico que marca a reflexão desde o início. Ele diz: «essa realidade deve estar presente e transfigurar qualquer âmbito conceitual em que se manifeste», porque «os pobres colocam em questão, dentro da comunidade, a fé cristológica e indicam sua orientação fundamental». Essa era uma convicção muito presente em São Oscar Romero, que tinha grande confiança no pensamento de Sobrino.[1]

A Notificação se opõe e sustenta que «o lugar teológico fundamental só pode ser a Fé da Igreja». Até aqui, isso é compreensível, mas depois afirma que «o lugar eclesial» só pode ser «a Fé apostólica transmitida pela Igreja a todas as gerações. O teólogo, de acordo com sua vocação eclesial peculiar, deve ter constantemente presente que a teologia é ciência da fé». E conclui dizendo: «Outros pontos de partida do trabalho teológico correm o risco da arbitrariedade e acabam por desnaturalizar seus conteúdos». Ou seja, como se dissesse: não se pode partir de nenhuma situação, porque o ponto de partida é a fé tradicional. O problema fundamental deste documento é que ele aplica a expressão “a partir de” apenas à tradição eclesial, de tal forma que qualquer expressão como “pensar a partir da experiência pastoral”, “pensar a partir da maternidade”, “pensar a partir do sofrimento dos pobres” é excluída. O que chamamos de “teologia contextual” seria sempre objeto de suspeita.[2]

Isso não incentiva o esforço de levar a sério o contexto em que se dá a reflexão teológica. Parece indicar, ao contrário, que a teologia feita no contexto dos pobres é inadequada e perigosa, ou seja, que a vida dos pobres só pode ocupar um lugar marginal na reflexão da fé. Por esse motivo, em abril de 2007, um mês antes da Conferência de Aparecida, publiquei um artigo[3] no qual recordava o que o Concílio havia solicitado no decreto Ad Gentes: «é necessário que em cada grande espaço socio-cultural, se estimule uma reflexão teológica tal que, à luz da tradição da Igreja universal, as ações e as palavras reveladas por Deus, […], (levem) em conta a filosofia ou a sabedoria dos povos» (AG 22). Atenção: o Concílio afirma que o contexto sociocultural nos leva a submeter a Revelação a novas investigações.  

Além disso, para citar apenas alguns textos, São João Paulo II sustentava que «se verdadeiramente partimos da contemplação de Cristo, devemos saber vê-Lo sobretudo no rosto daqueles com quem Ele mesmo Se quis identificar» (NMI 49). Partimos da contemplação de Cristo, mas só podemos confirmar que isso é real se olharmos ao nosso redor e reconhecermos os pobres que nos põem à prova. Nessa passagem, ele reiterava que, nesse cuidado com os pobres, «não menos do que o faz com a vertente da ortodoxia, a Igreja mede a sua fidelidade de Esposa de Cristo». Bento XVI certamente afirmava que a teologia começa pela Revelação, mas, ao mesmo tempo, afirmava que «fechar os olhos diante do próximo torna(-nos) cegos também diante de Deus» (DCE 16). Portanto, por mais que possamos partir da Revelação, permanecemos cegos se não olharmos também ao nosso redor.

A Notificação parece ignorar o fato de que o Dicastério para a Doutrina da Fé, na época do Cardeal Ratzinger, havia valorizado positivamente a reflexão teológica desenvolvida em diálogo com o contexto: «uma reflexão teológica desenvolvida a partir de uma experiência particular pode constituir uma contribuição muito positiva, já que permite pôr em evidência aspectos da Palavra de Deus cuja riqueza total ainda não tinha sido plenamente percebida». (Instrução, Libertatis Conscientia, 70). Observamos que o texto diz: “a partir de”, referindo-se exatamente ao ponto de partida da reflexão.

Por esse motivo, naquele meu artigo, sustentei que a fé da Igreja é certamente o ponto de partida fundamental, o principal lugar teológico, mas que isso não exclui outros pontos de partida complementares, não alternativos, que colocam em questão toda reflexão “desde o início”. E, nesse sentido, propus falar de um “contexto imediato e ineludível”, intimamente ligado ao ponto de partida fundamental que é a Revelação.

Em 2010, quando o Episcopado argentino me propôs como Reitor da Pontifícia Universidade de Buenos Aires, aquele artigo reapareceu e o Dicastério para a Doutrina da Fé não concedeu imediatamente o nihil obstat. Houve, naquele período, uma troca de cartas com o Dicastério, que me obrigou a publicar um novo artigo no qual eu deveria retratar minhas afirmações. Por isso, publiquei um segundo artigo em 2011,[4] no qual reiterei o que havia dito anteriormente, mas acrescentei frases como estas: “É justamente a fé da Igreja que fornece os fundamentos mais sólidos e profundos para olhar para os pobres como Deus os olha e para se preocupar com a situação deles”; “Ninguém percebe melhor o mal dos ataques à dignidade dos marginalizados do que aquele que se deixa iluminar pela fé da Igreja”.

Além disso, eu continuava a defender que o simples fato de aceitar a tradição da Igreja pode nos deixar indiferentes à história na qual Deus nos inseriu, se, ao mesmo tempo, não mantivermos os olhos abertos para o que acontece ao nosso redor. É por isso que retomei a expressão “contexto imediato e ineludível”, explicando que esse contexto é inelutável porque «quando um teólogo reflete, não pode ignorar completamente ou colocar entre parênteses a situação dolorosa que a maior parte do Povo de Deus suporta no lugar onde vive», e que o contexto «convida quem recebe a Revelação a descobrir outros aspectos de sua riqueza inesgotável».

Os teólogos europeus que falavam de teologias contextuais nem sequer sabiam que esses artigos haviam sido publicados. Mas, anos depois, ouvi essas coisas de um Papa, que considerava que a reflexão só pode ser feita a partir da vida do Povo de Deus. Essa expressão “a partir de” foi fundamental no pensamento do Papa Francisco, como quando ele afirmava que se vê melhor se se olhar das periferias, ou que algumas coisas se compreendem melhor se forem vistas a partir do que os pobres veem. Mas basta-me citar apenas um parágrafo de Francisco:

«A ideia – as elaborações conceituais – está ao serviço da captação, compreensão e condução da realidade. A ideia desligada da realidade dá origem a idealismos e nominalismos ineficazes que, no máximo, classificam ou definem, mas não empenham. O que empenha é a realidade iluminada pelo raciocínio. É preciso passar do nominalismo formal à objetividade harmoniosa. Caso contrário, manipula-se a verdade, do mesmo modo que se substitui a ginástica pela cosmética. Há políticos – e também líderes religiosos – que se interrogam por que motivo o povo não os compreende nem segue, se as suas propostas são tão lógicas e claras. Possivelmente é porque se instalaram no reino das puras ideias (…) importaram de fora uma racionalidade alheia à gente» (EG 232).

Agora, permitam-me desenvolver algumas considerações livres que servem como estímulos para aprofundar este tema. Farei isso sem me sentir obrigado a esclarecer todos os aspectos dessas questões.

Relação entre teologia contextual e inculturação

É preciso fazer uma distinção. A inculturação requer processos humanos e sociais de longo prazo, que exigem uma lenta maturação e penetração na vida de um povo. Quando falamos de teologia contextual, referimo-nos a algo mais imediato, ligado a um evento ou a uma série de eventos que agora estão influenciando a sociedade ou a Igreja. Mas são processos análogos e interligados.

Em primeiro lugar, a teologia contextual é uma contribuição positiva para a inculturação. Além disso, uma teologia sempre atenta ao contexto, que é dinâmico e em evolução, permite que o processo de inculturação continue sem enfraquecer. A própria piedade popular é dinâmica e está exposta a riscos. Isso é demonstrado pela perda de católicos pobres em muitos países da América Latina, que encontram respostas nas comunidades evangélicas. Esse fato, por si só, indica que a piedade popular tradicional não foi suficiente para mantê-los no seio da Igreja, pois eles precisavam de novas expressões e respostas.

Poder-se-ia supor que a inculturação ocorra espontaneamente quando o evangelizador cresceu no lugar onde exerce sua atividade evangelizadora. Mas isso não acontece quando alguns evangelizadores não amam o lugar onde vivem, ou têm uma visão desdenhosa das pessoas, ou quando seu modo de ser e de viver são muito diferentes do das pessoas comuns, e se expressam com uma linguagem que ninguém compreende, ou propõem coisas que não interessam a ninguém. Nesse caso, o amor do evangelizador, assim como seu pensamento, não se encarnaram no lugar onde ele evangeliza.

Mas olhemos para Jesus. A relação com sua terra e seu povo caracterizava sua maneira de amar (cf. GS 32). Jesus não era uma pessoa separada dos pobres e dos simples, nem os considerava ignorantes, incultos, imperfeitos, indignos de seu tratamento. De fato, sua relação com as pessoas despertava afeto e admiração. Por outro lado, os Apóstolos não desprezavam seu povo, não permaneciam isolados em pequenos grupos de eleitos, distantes da vida de seu povo. Os Atos insistem em destacar que, embora as autoridades os perseguissem, eles gozavam da simpatia de todo o povo (Atos 2,47; 4,21.33; 5,13). Como afirma o Concílio, todo evangelizador é chamado a aproximar-se do povo «com o mesmo zelo com que Deusveio procurá-los. E assim como Cristo percorria todas as cidades e aldeias, curando todas as doenças e todas as enfermidades, proclamando o advento do reino e Deus, do mesmo modo a Igreja, por meio dos seus filhos, estabelece relações com os homens de qualquer condição» (AG 12).

A cultura de um lugar deve ser entendida em seu sentido mais amplo: diz respeito a muitas histórias que foram vividas apenas ali e que configuraram uma identidade, um conjunto de inclinações, preocupações e interesses comuns; implica também uma língua, símbolos, um código de pensamento e sentimentos. Os habitantes de um determinado lugar compreendem-se facilmente entre si, inclusive com um certo senso de “cumplicidade”. É por isso que, quando se deixa a própria região, seja ela grande ou pequena, tem-se a sensação de não conseguir se entender tão facilmente e espontaneamente com as pessoas de outro lugar, onde certos assuntos se tornam irrelevantes, onde certas expressões não são compreendidas espontaneamente, onde algumas histórias são ignoradas e não provocam ressonâncias emocionais. Nesse sentido, mesmo a população mais pequena possui uma cultura própria, pelo que também nesse lugar o evangelizador deve proceder a uma forma de inculturação.

Um texto dos bispos asiáticos nos ajuda a perceber o valor desse dinamismo de inculturação em nível local. Ele é descrito como um diálogo gentil com a vida de um povo «no meio do qual alguém enraizou profundamente o próprio caminho e cuja história e vida fez sua com alegria»[5]. Enraizar o próprio caminho no meio da vida do povo e fazer sua a sua história com alegria: isso é a inculturação. E, como explicou São Paulo VI, trata-se de integrar-se «não apenas com as pessoas», mas com tudo o que caracteriza um determinado âmbito humano (EN 63).

A inculturação tem dois aspectos. Um é o aspecto “donativo ou centrífugo”, quando a evangelização consegue introduzir o Evangelho em uma cultura. Chama-se “reexpressão”, porque não há uma verdadeira inserção do Evangelho em uma cultura se não houver uma “expressão” nova e original do Evangelho e da Igreja nessa cultura. Essa “reexpressão” não é algo que nasce “fora” de uma cultura e depois é introduzido nela, mas é uma inovação da própria cultura e tem origem em seu interior. A “reexpressão” não consiste apenas nas manifestações exteriores do Evangelho. É muito mais do que uma simples “tradução” comentada. É, em última análise, o Evangelho que, escrito em uma cultura antiga, agora adquire outra “carne” nos ritos populares, imagens veneradas, aforismos e costumes, reflexões, modos de viver a fé, a música, etc. São coisas que um grupo humano percebe como algo próprio e comum, e que transmite espontaneamente. Assim, uma cultura evangelizada começa a transmitir espontaneamente o Evangelho. Nesse sentido, dizemos que o processo de inculturação não começa quando um evangelizador se propõe a pregar em um lugar, mas quando as pessoas daquele lugar começam a reagir positivamente. Os destinatários são o sujeito da inculturação.

Quando isso é transferido para o que chamamos de “teologia contextual”, podemos observar que essa teologia exige necessariamente incorporar os outros na reflexão; ninguém pode pretender desenvolver uma teologia em diálogo com o contexto se o fizer sozinho, exclusivamente do ponto de vista pessoal e partindo de suas próprias experiências. É necessário, ao contrário, um intercâmbio rico, uma encarnação naquela situação, um processo de diálogo e uma rede de pensamento.

Mas há também o aspecto “receptivo” da inculturação. São João Paulo II deixou isso claro ao indicar que a inculturação não é apenas «a encarnação do Evangelho nas culturas autóctones», mas também «a introdução dessas culturas na vida da Igreja» (Enc. Slavorum Apostoli, 21; cfr. RMi 53). Esse aspecto receptivo poderia ser chamado de “introculturação”, pois a expressão “inculturação”, por si só, conota principalmente o dinamismo centrífugo da inserção em uma cultura.[6] Mas há algo que a Igreja recebe e que a enriquece quando o Evangelho se encarna em uma cultura. A Igreja, e com ela a teologia, adquire um novo rosto, mas também um crescimento de si mesma, de sua reflexão, de sua vida. Se isso for transferido para a teologia contextual, implica que o teólogo, nesse processo, é instruído, amadurecido e moldado por meio do diálogo com esse contexto. A teologia cresce e amadurece nesse diálogo. Por isso, sua palavra adquire um aroma e um sabor local que permite tornar mais explícitos certos aspectos da Revelação que não são facilmente percebíveis em outros contextos.

Certamente, dentro da Igreja, há também necessidade de um diálogo intercontextual que permita o enriquecimento mútuo. Mas essa universalidade rica em nuances empobrece se a teologia, em todos os lugares da terra, em todos os momentos históricos, não se deixar estimular a desenvolver novos aspectos. O Concílio explica que essa dimensão receptiva da inculturação só pode ser realizada se a Igreja, ao inculturar o Evangelho, «assume as qualidades, as riquezas, os costumes e o modo de ser dos povos, na medida em que são bons» (LG 13). Ela própria se enriquece, pois «cada uma das partes traz às outras e a toda a Igreja os seus dons particulares, de maneira que o todo e cada uma das partes aumentem pela comunicação mútua entre todos e pela aspiração comum à plenitude na unidade» (LG 13). Ao procurar ligar o Evangelho a uma cultura ou a uma situação humana ou social, todo evangelizador promove «um intercâmbio vivo entre a Igreja e as diversas culturas dos diferentes povos» (GS 44). Assim, a Igreja «torna-se mais plenamente a Igreja do mundo, a Igreja dos povos».[7]

Por fim, é preciso reconhecer que, ao lado das grandes culturas dos povos, existem também as chamadas “subculturas”, como as culturas juvenis, as culturas periféricas, as culturas das minorias, que exigem uma certa teologia em diálogo com esses contextos e um consequente caminho de inculturação. A inculturação no seio da cultura mais ampla de um povo é um processo muito lento. Ao contrário, em grupos humanos mais restritos, mesmo pequenos progressos na expressão do Evangelho podem levar, em tempos mais curtos, ao surgimento de novas formas expressivas, que tais grupos reconhecem como próprias e que, ao mesmo tempo, refletem aspectos autênticos da mensagem evangélica.

Relação com a questão do desenvolvimento do dogma

A Comissão Teológica Internacional, em seu texto A interpretação dos dogmas (1990), acolheu os critérios de São João Henrique Newman. Vale a pena retomar o terceiro critério, chamado “poder de assimilação”, que se expressa assim: «Uma ideia viva mostra a sua força através da sua capacidade de penetrar na realidade, de assimilar outras ideias, de estimular o pensamento e de se desenvolver sem perder a sua unidade interior. Esse poder de integração é um critério legítimo de desenvolvimento».[8] Isso é exatamente o que se manifesta em uma teologia desenvolvida em um determinado contexto. Quando Newman fala da necessidade de tempo para o amadurecimento das ideias teológicas, reafirma a importância de cada momento histórico com suas características, para tornar possível o desenvolvimento da compreensão da Igreja:

«Esta é a natureza do espírito humano: ele precisa de tempo para compreender profundamente as ideias e levá-las à perfeição. As verdades mais solenes e maravilhosas, embora tenham sido explicitadas ao mundo de uma vez por todas pelos mestres inspirados, não poderiam ter sido rapidamente compreendidas por aqueles a quem foram transmitidas [...]. Elas precisaram de mais tempo e de uma revisão mais profunda para serem plenamente esclarecidas».[9]

Consequentemente, dizemos que cada momento histórico que a Igreja vive permite-lhe tornar mais explícito algum aspecto da riqueza inesgotável da verdade revelada. Mas se, em cada contexto histórico, a teologia não for capaz de penetrar, de mergulhar, de se encher de perguntas diante do que está acontecendo, então essa fase histórica não contribuirá em nada para o desenvolvimento da teologia, pelo que será um momento morto na história da teologia.

Alguns exemplos e preocupações sinceras

O contexto histórico e sociopolítico implica uma reflexão sobre os eventos atuais que influenciam as sociedades e que apresentam novos desafios à teologia. A teologia não pode permanecer imutável se não quiser se tornar insignificante. Consideremos, por exemplo, a doutrina da guerra justa. É verdade que essa doutrina contém elementos ainda atuais. O problema é que hoje existem grupos católicos inseridos na política que, movidos por padres, usam essa doutrina para justificar todas as guerras como formas de “legítima defesa”. Com base em uma suposta necessidade urgente de defesa, eles relativizam ou interpretam de forma muito ampla os requisitos para uma guerra justa. Isso mostra a necessidade de adaptar essa doutrina ao contexto atual, de repensá-la e torná-la muito mais precisa e verdadeiramente significativa.

Outra questão a ser considerada é que, na realidade, o pensamento teológico está, de certa forma, bloqueado em torno de dois eixos: a teologia romana clássica e a teologia da Europa setentrional. Todos os continentes estão sob a forte e hegemônica influência desses esquemas teológicos. Nas Faculdades de Teologia de outros continentes, um grande número de professores formou-se em Roma ou em outros países europeus e levou a teologia europeia para seus próprios países. Portanto, mesmo que os estudantes permaneçam estudando em seu país, é provável que recebam dos professores locais uma teologia de matriz europeia, com algumas nuances, mas sempre com uma estrutura, uma forma mentis e uma sensibilidade europeias. Às vezes é preciso um louco, loucamente apaixonado por sua terra e por seu povo, capaz de distinguir o Evangelho de certas camadas culturais que nele se sedimentaram e que não constituem parte essencial de sua mensagem, e, portanto, de relê-lo à luz do que seu povo vive. Trata-se, então, de provocar o que chamaríamos não apenas de um “evento espiritual”, mas também de um “evento cultural e linguístico” que permita ao povo sentir-se plenamente expresso na proposta do Evangelho. Recordemos, como explica Evangelii Gaudium, que na evangelização «não é indispensável impor uma determinada forma cultural, por mais bela e antiga que seja, juntamente com a proposta do Evangelho […]. Não podemos pretender que todos os povos dos vários continentes, ao exprimir a fé cristã, imitem as modalidades adoptadas pelos povos europeus num determinado momento da história» (EG 117-118).

Não nego que vir a Roma por dois anos para obter um diploma de graduação ou iniciar um doutorado possa nos enriquecer com uma visão da Igreja universal, mas é preciso superar a ideia de que africanos, asiáticos ou latino-americanos devam vir a Roma para evitar desvios locais. Há algum tempo, no Dicastério para a Doutrina da Fé, a orientação dada aos Núncios nesses países era que eles deveriam estar atentos para controlar possíveis desvios e os perigos da inculturação. Agora, porém, pede-se que eles incentivem iniciativas e processos de inculturação na terra onde desempenham o papel de Representantes Pontifícios.

Como dissemos anteriormente, uma teologia desenvolvida criativamente em um diálogo aberto com um contexto permite que o processo de inculturação se mantenha vivo e ativo. Dessa forma, a teologia alimenta, reafirma e renova o processo de inculturação. Ela o sustenta, impedindo que se torne insignificante para a geração atual. É por isso que é necessário reconhecer que uma determinada cultura ou subcultura é uma realidade viva, dinâmica e em constante mudança e, portanto, suas expressões religiosas devem estar abertas também a novos desenvolvimentos.

Às vezes, ocorre um desenvolvimento diante de ataques externos àquela cultura, de colonizações que pretendem destruí-la ou modificá-la. Mas, nesses casos, pode acontecer algo inédito em uma cultura viva e saudável, isto é, que a cultura popular assuma “à sua maneira” o que pode ser positivo e útil nesses ataques externos e, em certo sentido, que os “devorem” e assimilem sem deixar de ser ela mesma. Um teólogo argentino, já falecido, o padre Rafael Tello, explicou muito bem essa dinâmica. Lembro-me de um exemplo que ele deu: houve um período na Argentina, no final do século XIX, em que um governo com mentalidade iluminista desprezava profundamente a cultura popular. Considerava o povo católico crente como uma massa de animais ignorantes e supersticiosos a serem domados e instruídos. Por isso, trouxe muitos professores da Inglaterra. Mas, ao mesmo tempo, isso determinou uma proliferação de escolas que o povo introduziu espontaneamente em sua cultura. As mães começaram a ver nessas escolas uma oportunidade de crescimento e desenvolvimento para seus filhos, e a escola acabou se tornando um dos valores centrais da cultura popular. As classes mais pobres conservaram sua própria cultura, fortalecendo suas raízes; no entanto, mesmo em meio ao desprezo e às humilhações, souberam integrá-la com as contribuições que lhes eram oferecidas. Nessa perspectiva, uma teologia aberta ao diálogo, que promove novos processos de inculturação, não pode ignorar os grandes desafios da globalização contemporânea e deve enfrentá-los com mente aberta, pronta para captar os aspectos positivos de uma realidade que inevitavelmente continuará a fazer parte de nossas sociedades.

Antigamente, insistia-se que a evangelização da cultura deveria purificá-la, assim como uma teologia contextual deveria julgar, curar e sanar o próprio contexto. Na América Latina, isso levou a afirmar — e sobretudo os missionários europeus o faziam — que a piedade popular devia ser purificada, educada, libertada de expressões consideradas pagãs e adequadamente formada. Ela não era reconhecida como uma expressão — um rosto — do Evangelho e da graça, mas sim considerada um mal a ser superado. Por esse motivo, na Conferência de Aparecida (2007), também por insistência do então cardeal Bergoglio, evitou-se falar de “purificação”. Preferiu-se recorrer às expressões “amadurecimento”, “crescimento”, “desenvolvimento”, pois é justamente o fortalecimento dos aspectos positivos e seu enriquecimento que protegem contra os negativos. Por exemplo, o Documento, após destacar os numerosos aspectos positivos da piedade popular, convida a colocá-la cada vez mais em relação direta com a Palavra, a Eucaristia e a solidariedade. Dessa forma, mais do que purificá-la, visa-se «aproveitar ainda mais o rico potencial de santidade e justiça social que a mística popular encerra» (DA 262).

Isso, contudo, diz respeito à piedade popular, na medida em que é uma realidade já permeada pelo Evangelho. Se falamos das culturas em geral, é verdade que a primeira atitude é a da proximidade amorosa; no entanto, a necessidade de uma purificação não pode ser excluída. Pense-se, por exemplo, em contextos em que — em alguns países africanos, no Sri Lanka e em outros lugares — existem costumes e até mesmo normas que prevêem violência ou prisão contra pessoas homossexuais, mesmo na ausência de crimes. Em certos casos, chega-se até a admitir a tortura e a pena de morte. Tudo isso está muito longe do que a Igreja entende quando expressa sua rejeição às uniões homossexuais. Essa criminalização é algo «contrário à dignidade humana» (Dignitas infinita, p. 55). O fato de tais práticas violentas serem percebidas como normais evidencia um aspecto dessas culturas que, no encontro com o Evangelho, requer um processo de purificação. Outro exemplo é o tratamento que os imigrantes recebem em alguns lugares, onde são vistos quase como animais, como seres de nível inferior, e isso não apenas por parte dos políticos, mas também das populações católicas. É verdade que existem medos compreensíveis, mas também é verdade que o Evangelho nos convida a uma atitude diferente em relação a um ser humano que tem a mesma dignidade que qualquer outro. Nesses casos, assim como no uso indevido da doutrina da guerra justa, pode acontecer que a própria teologia precise ser purificada, porque se deixou penetrar e absorver por convicções culturais que ainda são pagãs ou expressões de neopaganismo. Algo semelhante aconteceu com a poligamia, ou na América Latina com o tráfico de drogas às vezes ligado à religião, ou com a máfia na Itália, frequentemente ligada a uma devoção mariana.

Nesses casos, uma teologia contextual bem fundamentada deveria saber identificar, dentro desses contextos, elementos que permitam um desenvolvimento, de modo que os aspectos mais problemáticos ainda presentes possam ser progressivamente superados. É preciso observar com atenção que o trabalho não consiste apenas em uma intervenção direta vinda de fora, que às vezes não produz resultados duradouros. O grande gênio de um teólogo reside, antes, em saber reconhecer, dentro desse contexto, alguns elementos — mesmo que apenas em forma embrionária — que, se desenvolvidos à luz do Evangelho, possam se tornar um contrapeso aos aspectos anti-evangélicos. Por exemplo, justamente a partir da fé mariana do povo, deveriam ser explicitados elementos que nos permitam contrariar o engano da máfia que se proclama mariana, mostrando que o amor a Maria e a confiança nela não toleram o crime organizado que prejudica tantos filhos da Virgem.

Por fim, o diálogo da teologia com o contexto e todo esforço de inculturação devem partir do coração do Evangelho, o kerygma, e não de verdades periféricas. Essa primeira proclamação não se encontra apenas no início, quando o Evangelho é levado a uma pessoa pela primeira vez. É transversal, deve atravessar toda a catequese e toda a teologia, em todos os seus temas, como fio condutor central e constante (cf. EN 164-165). É o anúncio que desperta a experiência do encontro com o Cristo vivo. Daí brota todo processo de encontro do Evangelho com o contexto de um determinado lugar.

Víctor Manuel Card. Fernández

 


[1] Em sua carta a Kolvenbach, Superior da Companhia de Jesus, Sobrino relata: «Quanto ao arcebispo Romero, poucos meses depois ele me pediu que escrevesse para ele o discurso que proferiu na Universidade de Lovaina em 2 de fevereiro de 1980. Em 1977, eu já havia escrito para ele a segunda carta pastoral “A Igreja, Corpo de Cristo na História”. Escrevi o discurso de Lovaina. Ele o achou muito bom, leu-o na íntegra e me agradeceu»: J. Sobrino, Carta ao Padre Geral da Companhia de Jesus, 13 de março de 2007.

[2] Na carta mencionada, Sobrino apresenta uma resposta do padre Sesboué após este ter lido os textos de Sobrino: «Minha intenção é mostrar o eixo central da obra [...] Não quis responder com demasiada precisão ao documento da CDF, que também se refere ao primeiro livro de Sobrino e me parece tão exagerado que não vale nada. Talleyrand tinha este ditado: “O que é exagerado é insignificante!” Com este método deliberadamente suspeito, posso ler muitas heresias nas encíclicas de J.P. II!»: J. Sobrino, Carta ao Padre Geral, cit.

[3] Los pobres y la teología en la Notificación sobre las obras de Jon Sobrino, em Teología 92, abril de 2007, 143-150.

[4] Pensar a partir dos pobres, em Universitas 6 (2011), 49-53.

[5] “O seu Evangelho aos nossos povos”. Testi, documenti e altri documenti dalla Federazione delle Conferenze Episcopali Asiatiche in relazione al Terzo Sinodo Generale dei Vescovi, Roma 1974, vol. 2, 332.

[6] Cf. E-J. Pénoukou, Inculturação, em J.-Y. Lacoste, Dicionário crítico de teologia, tr. Paulo Meneses (et al.) São Paulo 2004, 885-890.

[7]Y. Congar, Romanité et Catholicité, em Revue des Sciences Philosophiques et Théologiques 71 (1987) 189.

[8] Commissione Teologica Internazionale, L’interpretazione dei dogmi, Roma 1990, 3, 3, 5.

[9] J. H. Newman, Lo sviluppo della dottrina cristiana, Milano 2020, 66.