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SÍNODO DOS BISPOS

XIII ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA

A NOVA EVANGELIZAÇÃO
PARA A TRANSMISSÃO DA FÉ CRISTÃ

INSTRUMENTUM LABORIS

Cidade do Vaticano

2012

 

ÍNDICE

Prefácio 

Introdução

Pontos de referência
As expectativas em relação ao Sínodo
O tema da Assembleia Sinodal
Do Concílio Vaticano II à Nova Evangelização
A estrutura do Instrumentum laboris

Primeiro Capítulo

Jesus Cristo, Evangelho de Deus para o homem 
Jesus Cristo, o Evangelizador
A Igreja, evangelizada e evangelizadora
O Evangelho, dom para cada homem
O dever de evangelizar
Evangelização e renovação da Igreja  

Segundo Capítulo

Tempo de nova evangelização 
A pergunta sobre a “nova evangelização”
Os cenários da nova evangelização
As novas fronteiras do cenário comunicativo
As mudanças do cenário religioso
Viver como cristãos nestes cenários
Missio ad gentes
, cuidado pastoral, nova evangelização
Transformações da paróquia e nova evangelização
Uma definição e o seu significado  

Terceiro Capítulo

Transmitir a fé 
O primado da fé
A Igreja transmite a fé que ela mesma vive
A pedagogia da fé
Os sujeitos da transmissão da fé
A família, lugar exemplar de evangelização
Chamados a evangelizar
Dar razões da própria fé
Os frutos da fé  

Quarto Capítulo

Reavivar a acção pastoral 
A iniciação cristã, processo evangelizador
A exigência do primeiro anúncio
Transmitir a fé, educar o homem
Fé e conhecimento
O fundamento de toda a pastoral evangelizadora
A centralidade das vocações  

Conclusão 

Jesus Cristo, Evangelho que dá esperança
A alegria de evangelizar


“Aumenta a nossa fé!” (Lc 17,5). É o pedido dos Apóstolos ao Senhor Jesus ao perceberem que somente na fé, dom de Deus, podiam estabelecer uma relação pessoal com Ele e estar à altura da vocação de discípulos. O pedido foi motivado pela experiência dos seus limites. Não se sentiam suficientemente fortes para perdoar ao irmão. A fé é indispensável também para cumprir os sinais da presença do Reino de Deus no mundo. A figueira seca desde as raízes serve a Jesus para encorajar os discípulos: “Tende fé em Deus. Em verdade vos digo, se alguém disser a este monte: ‘Tira-te daí e lança-te ao mar’, e não vacilar em seu coração, mas acreditar que o que diz se vai realizar, assim acontecerá. Por isso, vos digo: tudo quanto pedirdes na oração crede que já o recebestes e haveis de obtê-lo” (Mc 11,22-24). Também o Evangelista Mateus sublinha a importância da fé para cumprir as grandes obras. “Em verdade vos digo: Se tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis o que Eu fiz a esta figueira, mas, se disserdes a este monte: ‘Tira-te daí e lança-te ao mar’, assim acontecerá” (Mt 21,21).

Por vezes o Senhor Jesus advertia “os Doze” pela sua pouca fé. À pergunta por que é que não conseguem expulsar o demónio, o Mestre responde: “Pela vossa pouca fé” (Mt 17,20). No mar de Tiberias, antes de acalmar a tempestade, Jesus diz aos discípulos: “Porque temeis, homens de pouca fé (όλιγόπιστοι) (Mt 8,26). Eles devem confiar em Deus e na providência e não se preocuparem com os bens materiais. “Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã será lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós, homens de pouca fé?” (Δια την όλιγοπιστίαν ύμών) (Mt 6,30; cf. Lc 12,28). Semelhante atitude repete-se antes da multiplicação dos pães. Perante a constatação dos discípulos se terem esquecido de levar o pão ao passarem para a outra margem, o Senhor Jesus disse-lhes: “Homens de pouca fé, porque estais a discorrer entre vós por não terdes trazido pão? Ainda não compreendeis? Não vos recordais dos cinco pães para os cinco mil homens e de quantos cestos recolhestes? (Mt 16,8-9).

No Evangelho de Mateus, suscita particular atenção a descrição de Jesus que caminha sobre as águas e alcança os apóstolos que estavam na barca. Depois de lhes ter afastado o medo, acolhe a proposta condicionada de Pedro: “Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas” (Mt 14,28). Num primeiro momento, Pedro caminha sem dificuldade sobre as águas, indo até Jesus. “Mas, sentindo a violência do vento, teve medo e, começando a ir ao fundo, gritou: «Salva-me, Senhor!” E imediatamente Jesus “estendeu-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe: ‘Homem de pouca fé, porque duvidaste?’” (Mt 14,30-31). Jesus e Pedro entram juntos na barca e o vento amaina. Os discípulos, testemunhas desta grande manifestação, prostram-se diante do Senhor e fazem a sua plena profissão de fé: “Tu és, verdadeiramente, Filho de Deus” (Mt 14,33).

Na pessoa de Pedro, é possível reconhecer a atitude de muitos fiéis, como também de inteiras comunidades cristãs, sobretudo nos países de antiga evangelização. De facto, várias Igrejas particulares conhecem não só o afastamento dos fiéis, por causa da pouca fé, da vida sacramental e da prática cristã, que algumas até poderiam ser inseridas na categoria dos não-crentes (άπιστοι; cf. Mt 17,17; 13,58). Ao mesmo tempo, várias Igrejas, depois de um primeiro entusiasmo, experimentam também o cansaço, o medo, perante situações bastante complexas do mundo actual. Como Pedro, têm medo do clima hostil, de tentações de varia ordem, de desafios que ultrapassam as suas forças humanas. A salvação para Pedro e também para os fiéis, considerados pessoalmente e como membros da comunidade eclesial, provém somente do Senhor Jesus. Só Ele pode estender a mão e conduzir no caminho da fé até ao lugar seguro.

As breves reflexões sobre a fé nos Evangelhos ajudam-nos a ilustrar o tema da XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos: “A nova evangelização para transmissão da fé cristã”. Em tal contexto, a importância da fé aparece reforçada pela decisão do Santo Padre Bento XVI de proclamar o Ano da Fé a começar de 11 de Outubro de 2012, em memória do 50º aniversário da abertura do Concílio Ecuménico Vaticano II e do 20º aniversário da publicação do Catecismo da Igreja Católica. Ambos os eventos, terão início no decorrer da celebração da Assembleia sinodal. Uma vez mais se verifica a palavra do Senhor Jesus dirigida ao apóstolo Pedro, pedra sobre a qual o Senhor construiu a sua Igreja (Cf. Mt 16,19): “Mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desapareça. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos (Lc 22,32). Novamente se abrirá diante de todos “a porta da fé” (Act 14,27).

Como sempre, também hoje a evangelização tem por finalidade a transmissão da fé cristã. Ela diz respeito, em primeiro lugar, à comunidade dos discípulos de Jesus Cristo, organizados em Igrejas particulares, diocesanas e eparquias, em que os fiéis se reúnem regularmente para as celebrações litúrgicas, escutam a Palavra de Deus e celebram os sacramentos, sobretudo a Eucaristia, preocupando-se em transmitir o tesouro da fé aos membros das suas famílias, das suas comunidades, das suas paróquias. Fazem-no através da proposta e do testemunho de vida cristã, do catecumenado, da catequese e das obras de caridade. Trata-se de evangelização em sentido geral, qual actividade regular da Igreja. Com a ajuda do Espírito Santo, esta evangelização, dita ordinária, deve ser animada por um novo ardor. É necessário procurar novos métodos e novas formas expressivas para transmitir ao homem contemporâneo a perene verdade de Jesus Cristo, sempre novo, fonte de toda a novidade. Somente uma fé sólida e robusta, própria dos mártires, pode dar ânimo a tantos projectos pastorais, a médio e longo prazo, infundir vida às estruturas existentes, suscitar a criatividade pastoral à altura das necessidades do homem contemporâneo e das expectativas das sociedades actuais.

O renovado dinamismo das comunidades cristãs dará um novo impulso também à actividade missionária (missio ad gentes), hoje mais urgente do que nunca, atendendo ao elevado número de pessoas que não conhecem Jesus Cristo não só em terras longínquas, mas também nos Países de antiga evangelização.

Deixando-se vivificar pelo Espírito Santo, os cristãos serão mais sensíveis a tantos irmãos e irmãs que, embora sendo baptizados, se afastaram da Igreja e da prática cristã. A eles, de modo particular, se querem dirigir com a nova evangelização, para lhes fazer redescobrir a beleza da fé cristã e a alegria do encontro pessoal com Senhor Jesus, na Igreja, comunidade dos fiéis.    

Sobre tais temáticas se debruça o Instrumentum Laboris agora publicado. Agenda para a próxima Assembleia sinodal, ele é o resultado da síntese das respostas aos Lineamenta, vindas dos Sínodos dos Bispos das Igrejas Orientais Católicas sui iuris, das Conferências Episcopais, dos Dicastérios da Curia Romana e da União dos Superiores Gerais, como também de parte de outras instituições, de comunidades e de fiéis, que quiseram participar na reflexão eclesial sobre a temática sinodal. Com a ajuda do Conselho Ordinário, a Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, valendo-se também do contributo de válidos peritos, redigiu o presente documento, no qual estão recolhidos muitos aspectos promissores da actividade evangelizadora da Igreja em todos os cinco continentes. Ao mesmo tempo são indicados vários temas para aprofundar, de modo que a Igreja possa continuar a desenvolver adequadamente a sua obra evangelizadora, tendo presente os muitos desafios e dificuldades do momento actual. Fortalecidos pela palavra do Senhor: “Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus; crede também em mim (Gv 14,1) e sob a iluminada presidência do Santo Padre Bento XVI, os Padres sinodais estão dispostos a reflectir num ambiente de oração, de escuta e de comunhão afectiva e efectiva. Em tal missão, não estarão sós, porque estarão acompanhados por tantas pessoas que continuam a rezar pelos trabalhos sinodais. Os membros da XIII Assembleia Geral Ordinária, voltando também o olhar para a comunhão da Igreja glorificada, esperam na intercessão de todos os santos e, em particular, da Virgem Maria, feliz porque “acreditou no cumprimento de tudo o que o Senhor lhe disse” (Lc 1,45).

Deus, bom e misericordioso, constantemente estende a sua mão ao homem e à Igreja, sempre disposto a fazer justiça aos seus eleitos. Eles, porém, são convidados a agarrar a sua mão e com fé pedir-Lhe ajuda. Tal condição não é óbvia, como se pode perceber pela densa pergunta de Jesus: “Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?” (Lc 18,8). Por esse motivo, também hoje a Igreja e os cristãos devem repetir assiduamente a súplica: “eu creio, ajuda a minha pouca fé!” (Mc 9,24).

Para que a Assembleia sinodal possa corresponder a tais expectativas e necessidades da Igreja no nosso tempo, invocamos a graça do Espírito Santo, que “Ele derramou abundantemente sobre nós por Jesus Cristo, nosso Salvador” (Tt 3,6), suplicando mais uma vez ao Senhor Jesus: ““Aumenta a nossa fé!” (Lc 17,5).

 

Nikola Eterović
Arcebispo titular de Cibale
Secretário Geral do Sínodo dos Bispos

 

 

Vaticano,27 de Maio de 2012
Solenidade de Pentecostes

 


INTRODUÇÃO

1. A próxima Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que se realizará de 7 a 28 de Outubro de 2012, tem como tema «A nova evangelização para a transmissão da fé cristã», tal como o Papa Bento XVI anunciou, ao encerrar os trabalhos da Assembleia Especial para o Médio Oriente do Sínodo dos Bispos. Com o intuito de facilitar a preparação específica deste evento foram preparados os Lineamenta. Aos Lineamenta e aos questionários responderam as Conferências Episcopais, os Sínodos dos Bispos das Igrejas Católicas Orientais sui iuris, os Dicastérios da Cúria romana e da União dos Superiores Gerais. Acresce também as observações de Bispos, sacerdotes, membros de institutos de vida consagrada, leigos, associações e movimentos eclesiais. Um processo de preparação muito participado que confirma quanto este tema escolhido pelo Santo Padre está no coração dos cristãos e da Igreja hodierna. Todos os pareceres e as reflexões alcançadas foram recolhidas e sintetizadas neste Instrumentum laboris.

Pontos de referência

2. A convocação da próxima Assembleia sinodal acontece num momento particularmente significativo para a Igreja católica. Durante o seu decorrer, realiza-se o quinquagésimo aniversário da abertura do Concílio Ecuménico Vaticano II, o vigésimo aniversário da publicação do Catecismo da Igreja Católica, e abre-se o Ano da Fé, proclamado pelo Papa Bento XVI[1]. O Sínodo será, por isso, uma ocasião propícia para enfatizar a questão da conversão e da exigência de santidade que todos estes aniversários suscitam; o Sínodo será o lugar para tomar a sério e relançar o convite a redescobrir a fé que, depois de ter sido germinado no Concílio Vaticano II, e retomado pela primeira vez no Ano da Fé proclamado pelo Papa Paulo VI, nos foi proposto novamente pelo Papa Bento XVI. É dentro deste quadro que o Sínodo trabalhará o tema da nova evangelização.

3. O arco temporal que assim se veio a gerar contém outros pontos de referência que se revelaram essenciais quer para este momento de preparação quer para a sucessiva reflexão sinodal. Para além da referência directa e explícita ao magistério do Concílio Vaticano II, não se pode hoje reflectir, por exemplo, sobre a evangelização, prescindindo das palavras proferidas sobre este tema pelo Papa Paulo VI, na exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, e pelo Papa João Paulo II, na encíclica Redemptoris missio, e na Carta Apostólica Novo millennio ineunte. De modo unânime, estes textos, em muitas respostas recebidas, foram assumidos como ponto de confronto e de verificação.

As expectativas em relação ao Sínodo

4. Muitas respostas sublinharam a urgência de nos encontrarmos para discernir como a Igreja vive hoje a sua originária vocação evangelizadora, em virtude dos desafios com os quais é chamada a avaliar-se, para evitar o risco da dispersão e da fragmentarização. Muitas Igrejas particulares (Dioceses, Eparquias, Igrejas sui iuris), assim como diversas Conferências Episcopais e Sínodos da Igrejas Orientais estão desde há muito empenhadas na realização de uma verificação das suas práticas de anúncio e de testemunho da fé. As respostas deram a este respeito um elenco verdadeiramente impressionante de iniciativas desenvolvidas pelas diversas realidades eclesiais: em nome da evangelização e para o seu relançamento nos últimos decénios nas várias Igrejas particulares foram escritos documentos e pensados projectos pastorais, imaginaram-se iniciativas (diocesanas, nacionais, continentais) de sensibilização e de apoio, criaram-se lugares de formação para os cristãos chamados a empenharem-se nestes projectos.

5. Diante de uma tal riqueza de iniciativas, contada em tonalidades contrastantes, no sentido de que nem todas as iniciativas produziram o êxito esperado, a convocação sinodal foi vista como uma ocasião propícia para criar um momento unitário e católico de escuta, de discernimento, e sobretudo para dar unidade às escolhas que somos chamados a fazer. Augura-se que a próxima Assembleia sinodal seja um evento capaz de infundir vitalidade às comunidades cristãs e, ao mesmo tempo, seja capaz de dar também repostas concretas às muitas perguntas que surgem hoje na Igreja, no que diz respeito à sua capacidade de evangelizar. Espera-se encorajamento, mas também confronto e condivisão de instrumentos de análise e de exemplos de acção.

O tema da Assembleia Sinodal

6. Ao anunciar a convocação da XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, o Papa Bento XVI quis chamar as comunidades cristãs à prioridade da missão confiada à Igreja neste início do novo milénio. Na linha do seu predecessor, o Beato João Paulo II, que tinha visto no Jubileu de 2000, celebrado a trinta e cinco anos do Concílio Vaticano II, um estímulo para assumir com renovado entusiasmo da parte da Igreja a sua missão evangelizadora, o Papa Bento XVI dá também consecutivamente enfâse a esta missão, sublinhando o carácter de novidade. A missão recebida dos Apóstolos de ir e fazer discípulos em todos os povos, baptizando-os e formando-os para o testemunho (cf. Mt 28, 19-20); a missão que a Igreja cumpriu e à qual permaneceu fiel ao longo dos séculos, é chamada hoje a confrontar-se com as transformações sociais e culturais que estão a modificar profundamente a percepção que o homem tem de si e do mundo, gerando repercussões também sobre o seu modo de acreditar em Deus.

7. O resultado de todas estas transformações é a difusão de uma desorientação que se traduz em formas de desconfiança relativamente a tudo quanto nos foi transmitido acerca do sentido da vida e numa relutância para aderir total e incondicionalmente àquilo que nos foi dado como revelação da verdade profunda do nosso ser. É o fenómeno do distanciamento da fé que progressivamente se manifesta nas sociedades e nas culturas que desde há muito apareciam impregnadas pelo Evangelho. Considerada cada vez mais como um elemento da esfera íntima e individual das pessoas, a fé tornou-se também uma condição para muitos cristãos que continuaram a preocupar-se com as justas consequências sociais, culturais e políticas da pregação do Evangelho, mas que não foram suficientemente trabalhados para manter viva a sua fé e das suas comunidades; fé que, como uma chama invisível com a sua caridade, alimentava e dava força a todas as outras acções da vida. Assim procedendo, o risco de uma fé enfraquecida, e com ela o perigo de se esmorecer a capacidade de dar testemunho do Evangelho, tornou-se infelizmente uma realidade em muitas nações onde a fé cristã contribuiu ao longo dos séculos para a edificação da cultura e da sociedade.

8. Reagir a esta situação é um imperativo com o qual o Papa Bento XVI se tem debatido desde o início do seu Pontificado, como teve oportunidade de afirmar: «A Igreja no seu conjunto, e os Pastores nela, como Cristo, devem pôr-se a caminho, para conduzir os homens para fora do deserto, para os lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que dá a vida, a vida em plenitude».[2] A Igreja sente como seu dever ser capaz de imaginar novos instrumentos e novas palavras para tornar audível e compreensível também nos novos desertos do mundo a palavra da fé que nos regenerou para a vida verdadeira em Deus. 

9. A convocação do Sínodo sobre a nova evangelização e a transmissão da fé situa-se dentro desta vontade de relançar o fervor da fé e do testemunho dos cristãos e das suas comunidades. A decisão de concentrar a reflexão sinodal sobre este tema é de facto um elemento a ser lido no interior de um projecto unitário, que tem como suas etapas recentes a criação de um dicastério para a promoção da nova evangelização e a proclamação do Ano da Fé. A partir da celebração do Sínodo espera-se, por isso, que a Igreja multiplique a coragem e as energias em favor de uma nova evangelização que leve a redescobrir a alegria de acreditar e ajude a encontrar o entusiasmo em comunicar a fé. Não se trata apenas de imaginar qualquer coisa de novo ou de lançar iniciativas inéditas para a difusão do Evangelho, mas de viver a fé na dimensão do anúncio de Deus: «a missão […] renova a Igreja, revigoriza a fé e a identidade cristã, dá novo entusiasmo e novas motivações. A fé reforça-se oferecendo-a!». [3]

Do Concílio Vaticano II à nova evangelização

10. Se o projecto de lançamento da acção evangelizadora da Igreja tem as suas últimas expressões nas decisões do Papa Bento XVI que ainda agora evocámos, as origens de um tal projecto são mais profundas e radicais: este projecto, de facto, animou o magistério e o ministério apostólico do Papa Paulo VI e do Papa João Paulo II. Mais ainda, a origem de todo este projecto encontra-se no Concílio Vaticano II, e na sua vontade de dar respostas à desorientação experimentada também pelos cristãos diante das fortes transformações e lacerações que o mundo conhecia naquele período; respostas não marcadas pelo pessimismo ou pela renúncia[4] mas assinaladas pela força recriadora do chamamento universal à salvação[5] que Deus quis para todo homem.

11. É assim que a acção evangelizadora é apresentada por este Concílio Ecuménico entre as temáticas centrais: em Cristo, luz dos povos[6], toda a humanidade encontra a sua identidade originária e verdadeira[7], que o pecado contribuiu para obscurecer; e a Igreja, em cujo rosto se reflecte esta luz, tem a tarefa de continuar a missão evangelizadora de Jesus Cristo[8], tornando-a presente e actual, dentro das condições do mundo de hoje. Nesta perspectiva, a evangelização torna-se um dos principais desafios apresentados pelo Concílio, que conduz a um novo relançamento e fervor nesta missão. Para os ministros ordenados: a evangelização é o dever dos bispos[9] e dos presbíteros. [10] Para além disso, esta missão fundamental da Igreja é dever de cada cristão baptizado[11]; e a evangelização, enquanto conteúdo principal da missão da Igreja, ficou bem explícita em todo o decreto Ad gentes, que mostra como a evangelização edifica o corpo das Igrejas particulares e mais em geral de cada comunidade cristã. Assim entendida, a evangelização não se reduz a uma simples acção entre tantas, mas, no dinamismo eclesial, é a força que permite à Igreja viver o seu objectivo: responder ao chamamento universal da santidade. [12]

12. Na esteira do Concílio, o Papa Paulo VI observava com clarividência que o empenho da evangelização estava relançado com força e grande urgência, atendendo à descristianização de muitas pessoas, que, não obstante o baptismo, vivem fora da vida cristã; gente simples que tem uma certa fé e conhece mal os fundamentos. Cada vez mais as pessoas sentem a necessidade de conhecer Jesus Cristo com uma luz diversa do ensinamento recebido na sua infância[13]. E, fiel ao ensinamento conciliar[14], acrescentava que a acção evangelizadora da Igreja «deve procurar constantemente os meios e a linguagem adequados para lhes propor ou repropor a revelação de Deus e a fé em Jesus Cristo».[15]

13. O Papa João Paulo II fez deste compromisso um dos marcos do seu longo Magistério, sintetizando no conceito de nova evangelização, que ele aprofundou sistematicamente em numerosas intervenções, a tarefa que espera à Igreja de hoje, em particular nas regiões de antiga cristianização. Tal programa diz respeito directamente à sua relação com o exterior, mas pressupõe, antes de tudo, um constante renovamento no seu interior, um contínuo passar, por assim dizer, de evangelizada a evangelizadora. Basta recordar algumas das suas palavras: «Países inteiros e nações, onde a religião e a vida cristã foram em tempos tão prósperas e capazes de dar origem a comunidades de fé viva e operosa, encontram-se hoje sujeitos a dura prova, e, por vezes, até são radicalmente transformados pela contínua difusão do indiferentismo, do secularismo e do ateísmo. É o caso, em especial, dos países e das nações do chamado Primeiro Mundo, onde o bem-estar económico e o consumismo, embora à mistura com tremendas situações de pobreza e de miséria, inspiram e permitem viver «como se Deus não existisse”. […] Noutras regiões ou nações, porém, conservam-se bem vivas ainda tradições de piedade e de religiosidade popular cristã; mas, esse património moral e espiritual corre hoje o risco de esbater-se sob o impacto de múltiplos processos, entre os quais sobressaem a secularização e a difusão das seitas. Só uma nova evangelização poderá garantir o crescimento de uma fé límpida e profunda, capaz de converter tais tradições numa força de liberdade autêntica. É urgente, sem dúvida, refazer em toda a parte o tecido cristão da sociedade humana. Mas, a condição é a de se refazer o tecido cristão das próprias comunidades eclesiais que vivem nesses países e nessas nações».[16]

14. O Concílio Vaticano II e a nova evangelização são temas recorrentes também no magistério de Bento XVI. No seu discurso de felicitações natalícias à Cúria Romana em 2005 – coincidindo com os quarenta anos do encerramento do Concílio – ele sublinhou, perante uma “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”, a importância da «”hermenêutica da reforma”», da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja, que o Senhor nos concedeu; é um sujeito que cresce no tempo e se desenvolve, permanecendo, porém, sempre o mesmo, único sujeito do Povo de Deus a caminho».[17] Ao proclamar o Ano da Fé, o Santo Padre augurou que tal acontecimento possa «ser uma ocasião propícia para compreender que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato João Paulo II, ”não perdem o seu valor nem a sua beleza”». E afirma ainda: «Quero aqui repetir com veemência as palavras que disse a propósito do Concílio poucos meses depois da minha eleição para Sucessor de Pedro: «se o lermos e recebermos guiados por uma justa hermenêutica, o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja».[18] Portanto, como realçavam algumas respostas aos Lineamenta, as referidas orientações de Bento XVI, em sintonia com os seus predecessores, são um guia seguro para afrontar o tema da transmissão da fé na nova evangelização, numa Igreja atenta aos desafios do mundo actual, mas firmemente ancorada na sua tradição viva, da qual faz parte o Concílio Vaticano II.

A estrutura do Instrumentum laboris

15. Da reflexão sinodal espera-se, por isso, um desenvolvimento e um aprofundamento do trabalho que a Igreja desenvolveu nestes decénios. A grande quantidade de iniciativas e de documentos já produzidos em nome da evangelização, do seu relançamento, permitiu dizer a muitas Igrejas particulares que a expectativa não é principalmente sobre as coisas a fazer mas muito mais sobre a possibilidade de haver um espaço que permita compreender o quanto e como foi feito até ao momento. Mais de uma resposta refere que só o simples anúncio do tema e o trabalho sobre os Lineamenta permitiu às comunidades cristãs perceber, de modo mais incisivo e empenhado, o carácter urgente de que se reveste hoje o dever da nova evangelização; e de beneficiar, como consequente ganho, de um ambiente de comunhão que permite olhar para os desafios do presente com um espírito diversificado.

16. Em muitas respostas não se esconde a preocupação da Igreja ser chamada enfrentar o desafio da nova evangelização com a consciência de que as transformações não apenas interessam ao mundo e à cultura mas tocam em primeira pessoa também a ela mesma, as suas comunidades, as suas acções, a sua identidade. O discernimento é visto então como um instrumento necessário, um estímulo para afrontar com mais coragem e com maior responsabilidade a situação actual. Colocando-se nesta linha, o presente Instrumentum laboris está elaborado em quatro capítulos, úteis para dar os conteúdos fundamentais e os instrumentos que favoreçam uma semelhante reflexão e um tal discernimento.

17. Um primeiro capítulo será assim dedicado à redescoberta do coração da evangelização, ou da experiência da fé cristã: encontro com Jesus Cristo, Evangelho de Deus Pai para o homem, que nos transforma, nos reúne e nos introduz, graças ao dom do Espírito Santo, numa vida nova, da qual fazemos já experiência no presente, precisamente ao sentirmo-nos reunidos em Igreja, e pela qual nos sentimos enviados com alegria pelas estradas do mundo, na esperança do cumprimento do Reino de Deus, testemunhas e anunciadores alegres do dom recebido. No capítulo seguinte, o segundo, o texto desenvolve a reflexão sobre o discernimento de evidenciar as transformações que interessam à nossa forma de viver a fé, e que influenciam as nossas comunidades cristãs. São analisados os motivos da difusão do conceito de nova evangelização, os diferentes modos das Igrejas particulares de nele se reconhecerem nele. No terceiro capítulo, faz-se a análise dos lugares fundamentais, dos instrumentos, dos sujeitos e das acções, graças aos quais a fé cristã – que deve ser professada, celebrada, vivida e rezada –, é transmitida: na liturgia, na catequese e na caridade. Nesta mesma linha, por fim, no quarto e último capítulo, discute-se sobre os sectores da acção pastoral especificamente dedicados ao anúncio do Evangelho e à transmissão da fé. Trata-se daqueles clássicos, aprofundaremos os mais recentes, que surgiram para responder aos estímulos e às solicitações que a reflexão sobre a nova evangelização coloca às comunidades cristãs e à sua forma de viver a fé.

 

PRIMEIRO CAPÍTULO

JESUS CRISTO, EVANGELHO DE DEUS PARA O HOMEM

«Completou-se o empo e o Reino de Deus está próximo:
arrependei-vos e acreditai no Evangelho»
 (Mc 1,15)

 

18. A fé cristã não é somente uma doutrina, uma sabedoria, um conjunto de regras morais, uma tradição. A fé cristã é um encontro real, uma relação com Jesus Cristo. Transmitir a fé significa criar em cada lugar e em cada tempo as condições para que este encontro entre os homens e Jesus aconteça. O objectivo de toda a evangelização é a realização deste encontro, que é ao mesmo tempo íntimo e pessoal, público e comunitário. Como reafirmou o Papa Bento XVI «ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. […] Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um “mandamento”, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro»[19]. No âmbito da fé cristã, o encontro com Cristo e a relação com Ele acontece «segundo as Escrituras» (1Cor 15,3.4). A própria Igreja ganha forma mediante a graça desta relação.

19. Este encontro com Jesus, graças ao seu Espírito, é o grande dom do Pai aos homens. É um encontro para o qual somos preparados pela acção da sua graça em nós. É um encontro no qual nos sentimos atraídos, e que, enquanto nos atrai, transfigura-nos, introduzindo-nos em dimensões novas da nossa identidade, fazendo-nos participantes da vida divina (Cf. 2Pt 1,4). É um encontro que não deixa nada como antes, mas assume a forma da “metanóia”, da conversão, como o próprio Jesus pede com ardor (cf. Mc 1,15). A fé como encontro com a pessoa de Cristo constrói-se na relação com Ele, na memória d’Ele, de modo particular na Eucaristia e na Palavra de Deus e cria em nós a mentalidade de Cristo, na graça do Espírito; uma mentalidade que nos faz reconhecer irmãos, reunidos pela Espírito na sua Igreja, para sermos ao nosso redor testemunhas e anunciadores deste Evangelho. É um encontro que nos torna capazes de fazer coisas novas e de testemunhar, graças às obras de conversão anunciadas pelos Profetas (cf. Ger 3,6ss.; Ez 36,24-36), a transformação da nossa vida.

20. Neste primeiro capítulo, dá-se particular atenção a esta dimensão fundamental da evangelização, porque as respostas aos Lineamenta assinalaram a necessidade de reforçar o núcleo central da fé cristã, que muitos cristãos ignoram. É preciso, portanto, que o fundamento teológico da nova evangelização não seja transcurado, antes pelo contrário, que se faça ouvir em toda sua força e genuinidade, para que dê força e a devida afirmação à acção evangelizadora da Igreja. A nova evangelização é, antes de tudo, assumida como ocasião para avaliar a fidelidade dos cristãos a este mandato recebido de Jesus Cristo: a nova evangelização é a ocasião propícia (Cf. 2Cor 6,2) para voltar, como cristãos e como comunidade, a abeirar-nos da fonte da nossa fé, e a estarmos assim mais disponíveis para a evangelização, para o testemunho. De facto, antes de se transformar em acções, a evangelização e o testemunho são duas atitudes que, como fruto de uma fé que continuamente as purifica e converte, surgem nas nossas vidas deste encontro com Jesus Cristo, Evangelho de Deus para o homem.

Jesus Cristo, o evangelizador

21. «O próprio Jesus, Evangelho de Deus, foi absolutamente o primeiro e o maior evangelizador».[20] Ele apresentou-se como enviado a proclamar o cumprimento do Evangelho de Deus, pré-anunciado na história de Israel, sobretudo pelos profetas, e nas Sagradas Escrituras. O evangelista Marcos começa a narração relacionando o «início do Evangelho de Jesus Cristo» (Mc 1,1) com a correspondência às Sagradas Escrituras: «Como está escrito no profeta Isaías» (Mc 1,2). No Evangelho de Lucas, o próprio Jesus apresenta-se na sinagoga de Nazaré revelando-se como o intérprete das Escrituras, capaz de cumpri-las em virtude da sua mesma presença: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir» (Lc 4,21). O Evangelho segundo Mateus elaborou um verdadeiro e próprio sistema de citações de cumprimento, com o intuito de reflectir sobre a realidade mais profunda de Jesus, a partir de tudo quanto foi dito por meio dos profetas (cf. Mt 1,22; 2,15.17.23; 4,14; 8,17; 12,17; 13,35; 21,4). No momento da prisão, o próprio Jesus recapitula: «Tudo isto aconteceu, para que se cumprissem as Escrituras dos profetas» (Mt 26,56). No Evangelho segundo João, são os próprios discípulos a atestar esta correspondência; depois do primeiro encontro, Filipe afirma: «Encontrámos aquele sobre quem escreveram Moisés, na Lei, e os Profetas» (Gv 1,45). No decorrer do seu ministério, Jesus reivindica repetidamente a sua relação com as Sagradas Escrituras e o testemunho que daí advém: «Investigai as Escrituras, dado que julgais ter nelas a vida eterna: são elas que dão testemunho a meu favor (Gv 5,39); «se acreditásseis em Moisés, talvez acreditásseis em mim, porque ele escreveu a meu respeito» (Gv 5,46).

22. O testemunho unânime dos evangelistas confirma que o Evangelho de Jesus é o recomeço radical, a prossecução e o cumprimento total do anúncio das Escrituras. Precisamente, em virtude desta continuidade, a novidade de Jesus aparece ao mesmo tempo evidente e compreensível. A sua acção evangelizadora é, de facto, o retomar de uma história iniciada anteriormente. Os seus gestos e as suas palavras serão compreensíveis à luz das Escrituras. Na última aparição narrada por Lucas, o Ressuscitado reassume esta perspectiva afirmando: «Estas foram as palavras que vos disse, quando ainda estava convosco: que era necessário que se cumprisse tudo quanto a meu respeito está escrito em Moisés, nos Profetas e nos Salmos» (Lc 24,45). O seu dom supremo aos discípulos será exactamente «abrir-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras» (Lc 24,45). Considerando a profundidade desta relação com as Escrituras presentes no coração do povo, Jesus mostra-se como o evangelizador que conduz a Lei, os Profetas e a Sabedoria de Israel, à novidade e à plenitude.

23. Para Jesus, a evangelização assume a missão de atrair os homens para a sua íntima relação com o Pai e o Espírito. É este o sentido último da sua pregação e dos seus milagres: o anúncio de uma salvação que manifestando-se, através de acções concretas de cura, não pode coincidir com uma vontade de transformação social ou cultural, mas é a experiência profunda concedida a todo homem de se sentir amado por Deus e de aprender a reconhecê-Lo no rosto de um Pai amoroso e cheio de compaixão (cf. Lc 15). A revelação contida nas suas palavras e nas suas acções tem uma relação com as palavras dos profetas. É neste sentido emblemática a narrativa dos sinais que Jesus cumpre diante da presença dos enviados de João Baptista. Trata-se de sinais reveladores da identidade de Jesus no sentido em que estão estritamente relacionados com os grandes anúncios proféticos. O evangelista Lucas escreve: «Nessa altura, Jesus curava a muitos das suas doenças, padecimentos e espíritos malignos e concedia vista a muitos cegos. Tomando a palavra, disse aos enviados: “Ide contar a João o que vistes e ouvistes: Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, a Boa-Nova é anunciada aos pobres; e feliz de quem não tiver em mim ocasião de queda”» (Lc 7,21-22). As palavras de Jesus manifestam o sentido pleno dos seus gestos em relação aos sinais cumpridos com inúmeras profecias bíblicas (cf. em particular Is 29,18; 35,5.6; 42,18; 26,19; 61,1).

A mesma arte de Jesus de privar com os homens é considerada como elemento essencial do método evangelizador de Jesus. Ele foi capaz de acolher a todos, sem descriminação nem exclusões: em primeiro lugar os pobres, depois os ricos como Zaqueu e José de Arimateia, os estrangeiros como o centurião e a mulher siro-fenícia; os homens justos como Natanael, ou as prostitutas, os pecadores públicos, com os quais esteve à mesa. Jesus sabia chegar ao íntimo do homem e gerá-lo na fé em Deus que, acima de tudo, ama (cf. 1Gv 4,10.19), cujo amor nos precede sempre e não depende dos nossos méritos, porque é a sua própria essência: «Deus é amor» (1Gv 4,8.16). Ele torna-se assim modelo para a Igreja evangelizadora, mostrando-lhe o fundamento da fé cristã: acreditar no amor mediante o rosto e a voz deste amor, isto é, através de Jesus Cristo.

24. A evangelização de Jesus conduz naturalmente todo o homem a uma experiência de conversão: cada homem é enviado a converter-se e a acreditar no amor misericordioso de Deus por ele. O reino crescerá na medida em que cada homem aprender a voltar-se para Deus na intimidade da oração como um Pai (cf. Lc 11,2; Mt 23,9) e, à luz do exemplo de Jesus Cristo, a reconhecer em plena liberdade que o bem da sua vida é o cumprimento da sua vontade (cf. Mt 7,21). Evangelização, chamamento à santidade e à conversão relacionam-se como se fossem uma só coisa para introduzir aqui e agora, à experiência do Reino de Deus em Jesus, àqueles que se tornam à sua volta filhos de Deus. Evangelização, chamamento à santidade, à conversão: à reflexão sinodal espera a tarefa de ler de que modo estas três realidades estão presentes e nutrem com o seu frutuoso relacionamento a vida hodierna das nossas comunidades.

A Igreja, evangelizada e evangelizadora

25. Aqueles que acolhem com sinceridade o Evangelho, em virtude do dom recebido e dos frutos que neles produziu, reúnem-se em nome de Jesus para guardar e alimentar a fé acolhida e participada, e para continuar, multiplicando-a, a experiência vivida. Como narram os Evangelhos (cf. Mc 3,13-15), os discípulos, depois de terem estado com Jesus, terem vivido com Ele, serem introduzidos por Ele numa nova experiência de vida, terem participado da sua vida divina, são por sua vez enviados a continuar esta acção evangelizadora: «Tendo convocado os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demónios e para curarem doenças. […] Eles puseram-se a caminho e foram de aldeia em aldeia, anunciando a Boa-Nova e realizando curas por toda a parte» (Lc 9,1.6).

26. Também depois da Sua morte e da Sua ressurreição, o mandato missionário que os discípulos receberam do Senhor Jesus Cristo (cf. Mc 16,15) contém uma explícita referência à proclamação do Evangelho a todos, ensinando-lhes a observar tudo aquilo que mandou (cf. Mt 28,20). O apóstolo Paulo apresenta-se como «apóstolo [...] escolhido para anunciar o Evangelho de Deus» (Rm 1,1). A tarefa da Igreja consiste, portanto, em realizar a traditio Evangelii, o anúncio e a transmissão do Evangelho, que é «poder de Deus para a salvação dos que crêem» e que, em última instância, se identifica com Jesus Cristo (cf. 1Cor 1,24). Sabemos ainda que, quando se fala em anunciar o Evangelho, devemos pensar numa Palavra viva e eficaz, que realiza aquilo que diz (cf. Eb 4,12; Is 55,10), é uma pessoa: Jesus Cristo, Palavra definitiva de Deus, feito homem. [21] 

Tal como para Jesus, também para a Igreja esta missão evangelizadora é verdadeiramente obra de Deus e do Espírito Santo. A experiência do dom do Espírito Santo, o Pentecostes, faz dos Apóstolos testemunhas e profetas, confirmando-os em tudo quanto tinham partilhado com Jesus e aprendido e d’Ele (cf. At 1,8; 2,17), infundindo neles uma serena audácia que os envia a transmitir aos outros a sua experiência de Jesus e a esperança que os anima. O Espírito dá-lhes a capacidade de testemunhar Jesus com “parresia”(cf. At 2,29), alargando a sua acção de Jerusalém a toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra.

27. E aquilo que a Igreja vive desde as origens, continua a vivê-lo hoje. Relançando esta certeza, o Papa Paulo VI recordava a actualidade: «A ordem dada aos Apóstolos – “Ide, proclamai a Boa-Nova” – vale também, embora de modo diferente, para todos os cristãos. […]. A Igreja sabe-o. […] Evangelizar, de facto, é a graça e a vocação própria da Igreja, a sua identidade mais profunda. Ela existe para evangelizar, o mesmo é dizer para pregar e ensinar, ser canal do dom da graça, reconciliar os pecadores com Deus, perpetuar o sacrifício do Cristo na S. Missa que é o memorial da sua morte e da sua gloriosa ressurreição».[22] A Igreja permanece no mundo para continuar a missão evangelizadora de Jesus, sabendo bem que, fazendo deste modo, continua a participar da condição divina porque enviada pelo Espírito Santo a anunciar o Evangelho ao mundo, revive em si mesma a presença de Cristo ressuscitado que a coloca em comunhão com Deus-Pai. A vida da Igreja, em qualquer acção que cumpra, nunca está fechada em si mesma; é sempre acção evangelizadora, e como tal, acção que manifesta o rosto trinitário do nosso Deus. Como está escrito nos Actos dos Apóstolos, também a vida mais íntima: a oração, a escuta da Palavra e o ensinamento dos Apóstolos, a caridade fraterna vivida, o pão partido (cf. At 2,42-46) adquire todo o seu sentido apenas quando se torna testemunho, provoca a admiração e a conversão, se faz pregação e anúncio do Evangelho, por parte de toda Igreja e de cada baptizado.

O Evangelho, dom para cada homem

28. O Evangelho do amor de Deus por nós, o chamamento a tomar parte em Jesus Cristo no Espírito da vida do Pai, são um dom destinado a todos os homens. É quanto nos anuncia o próprio Jesus quando apela à conversão de todos em vista do Reino de Deus. Para sublinhar este aspecto, Jesus aproximou-se sobretudo daqueles que eram os marginalizados da sociedade, dando-lhes a preferência quando anunciava o Evangelho. No início do seu ministério, Ele proclama ter sido enviado a anunciar aos pobres a boa nova (cf. Lc 4,18). A todas as vítimas da recusa e do desprezo declara: «Bem-aventurados, vós, os pobres» (Lc 6,20); por outro, a estes marginalizados, fá-los viver já uma experiência de libertação estando com eles (cf. Lc 5,30; 15,2), comendo com eles, tratando-os como iguais e amigos (cf. Lc 7,34), ajudando-os a sentirem-se amados por Deus e revelando assim a sua imensa ternura pelos necessitados e pecadores.

29. A libertação e a salvação transmitidas pelo Reino de Deus alcançam a pessoa humana nas suas dimensões quer físicas quer espirituais. Dois gestos acompanham a acção evangelizadora de Jesus: o curar e o perdoar. As muitas curas demonstram a Sua grande compaixão diante das misérias humanas, e significam também que no Reino não haverá mais doenças nem sofrimentos e que a sua missão visa desde o início libertar as pessoas desses males (cf. Ap 21,4). Na perspectiva de Jesus, as curas são também sinal da salvação espiritual, isto é, da libertação do pecado. Cumprindo gestos de cura, Jesus convida à fé, à conversão, ao desejo de perdão (cf. Lc 5,24). Recebida a fé, a cura introduz na salvação (cf. Lc 18,42). Os gestos de libertação da possessão do demónio, mal supremo e símbolo do pecado e da rebelião contra Deus, são sinais que «chegou até vós o Reino de Deus» (Mt 12,28), que o Evangelho, dom endereçado a cada homem, dando-nos a salvação, introduz-nos num processo de transfiguração, de participação na vida de Deus, que nos renova já a partir de agora. 

30. «Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho, isto te dou: Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda!» (Act 3,6). Como nos mostra o apóstolo Pedro, também a Igreja continua fielmente este anúncio do Evangelho que é um bem para cada homem. Ao coxo que lhe pede qualquer coisa para viver, Pedro responde, oferecendo como dom, o Evangelho que o cura, abrindo-lhe a via da salvação. Assim, no decorrer do tempo, graças à sua acção evangelizadora, a Igreja dá corpo e visibilidade à profecia do Apocalipse: «Eu renovo todas as coisas» (Ap 21,5), transformando por dentro a humanidade e a história, a fim de que a fé de Cristo e a vida da Igreja não sejam mais estranhas à sociedade em que vivem, mas possam penetrá-la e transformá-la. [23]

31. A evangelização é precisamente a oferta do Evangelho que transfigura o homem, o seu mundo, a sua história. A Igreja evangeliza, quando, graças à força do Evangelho que anuncia (cf. Rm 1,16), faz renascer, através da experiência da morte e da ressurreição de Jesus, toda experiência humana (cf. Rm 6,4), emergindo-a na novidade do baptismo e da vida segundo o Evangelho, na relação do Filho com o seu Pai para sentir a força do Espírito. A transmissão da fé é a finalidade da evangelização no desígnio de levar o homem por Cristo ao Pai no Espírito (cf. Ef 2,18). Esta é a experiência da novidade do Evangelho que transforma todo o homem. E hoje podemos afirmar com ainda maior convicção esta nossa certeza, porque vimos de uma história que nos transmite acções extraordinárias de coragem, dedicação, audácia, intuição e razão, em viver, por parte da Igreja, essa tarefa de oferecer o Evangelho a cada homem; gestos de santidade, visíveis em rostos conhecidos e densos de significado em cada Continente. Cada Igreja particular pode apresentar figuras luminosas de santidade que, com as suas acções, mas sobretudo com o seu testemunho, souberam dar impulso e energia à obra da evangelização. Santos exemplares, mas também proféticos e lúcidos em imaginar novas vias para viver esta tarefa, deixaram-nos ecos e traços em textos, orações, modelos e métodos pedagógicos, itinerários espirituais, caminhos de iniciação à fé, obras e instituições educativas.

32. Embora refiram com convicção a força destes exemplos de santidade, algumas respostas acentuam também a dificuldade em tornar estas experiências actuais e comunicáveis. Às vezes tem-se a impressão que estas obras da nossa história não só pertencem ao passado mas estão praticamente reféns dele, não arriscam mais em comunicar a qualidade de vida evangélica do seu testemunho no nosso presente. À reflexão sinodal pede-se então para reflectir em torno desta dificuldade, de se interrogar para descobrir as razões profundas dos limites de diversas instituições eclesiais em mostrar a credibilidade das próprias acções e do próprio testemunho, em tomar a palavra e em fazer-se escutar em quanto portadores do Evangelho de Deus.

O dever de evangelizar

33. Toda pessoa tem o direito de ouvir o Evangelho de Deus para o homem, que é Jesus Cristo. Tal como a Samaritana no poço, também a humanidade de hoje tem necessidade de escutar as palavras de Jesus «Se tu conhecesses o dom de Deus» (Gv 4, 10), para que estas palavras façam emergir o desejo profundo de salvação que habita em cada homem: «Senhor, dá-me desta água, para que não tenha mais sede». Este direito de cada homem a escutar o Evangelho, é muito claro para o apóstolo Paulo. Pregador incansável, precisamente porque intuiu o significado universal do Evangelho, faz do seu anúncio um dever: «Porque, se eu anuncio o Evangelho, não é para mim motivo de glória, é antes uma obrigação que me foi imposta: ai de mim, se eu não evangelizar!» (1Cor 9,16). Cada homem, cada mulher, devem poder dizer, como ele, que «Cristo nos amou e se entregou a Deus por nós» (Ef 5,2). Para além disso, cada homem e cada mulher devem ser capazes de se sentirem atraídos para uma relação íntima e transfiguradora que o anúncio do Evangelho gera entre nós e Cristo: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim» (Gal 2,20). [24] E para poder aceder a uma semelhante experiência é preciso que alguém seja enviado a anunciá-la: «Ora, como hão-de invocar aquele em quem não acreditaram? E como hão-de acreditar naquele de quem não ouviram falar? E como hão-de ouvir falar, sem alguém que o anuncie?» (Rm 10,14, que remete para Is 52,1).

34. Então compreende-se como toda actividade da Igreja tenha uma marca evangelizadora essencial e nunca deva ser separada do compromisso de a todos ajudar a encontrar Cristo na fé, que é o primeiro objectivo da evangelização. Onde, como Igreja, «levamos aos homens somente conhecimento, habilidade, capacidades técnicas e instrumentos, levamos muito pouco».[25] O motivo originário da evangelização é o amor de Cristo para a salvação eterna dos homens. Os evangelizadores autênticos desejam apenas dar gratuitamente quanto eles mesmos receberam de graça: «Desde os começos da Igreja, os discípulos de Cristo esforçaram-se por converter os homens a Cristo Senhor, não com a coacção ou com artifícios indignos do Evangelho, mas primeiro que tudo com a força da palavra de Deus».[26]

35. A missão dos Apóstolos e a sua continuação na missão da Igreja antiga permanecem o modelo fundamental da evangelização para todos os tempos: uma missão geralmente afirmada pelo martírio, como demonstra o início da história do cristianismo, mas também a história do século passado, a história dos nossos dias. O martírio dá precisamente credibilidade aos testemunhos, que não procuram poder ou lucro mas dão a própria vida por Cristo. Eles manifestam ao mundo a força impotente e repleta de amor aos homens que é dada a quem segue Cristo até ao dom total da própria existência, como Jesus tinha anunciado: «Se me perseguiram a mim, também vos hão-de perseguir a vós (Gv 15,20).

Todavia, não faltam, infelizmente, falsas convicções que limitam a obrigação de anunciar a Boa Nova. De facto, verifica-se, hoje «uma crescente confusão que induz muitos a deixar inaudível e inoperante o mandato missionário do Senhor (cf. Mt 28, 19). Muitas vezes pensa-se que toda a tentativa de convencer os outros em questões religiosas seja um limite posto à liberdade. Seria lícito somente expor as próprias ideias e convidar as pessoas a agir segundo a consciência, sem favorecer uma conversão a Cristo e à fé católica. Diz-se que basta ajudar os homens a serem mais homens ou mais fiéis à própria religião, que basta construir comunidades capazes de trabalhar pela justiça, a liberdade, a paz, a solidariedade. Além disso, alguns defendem que não se deveria anunciar Cristo a quem não O conhece, nem favorecer a adesão à Igreja, pois seria possível ser salvos mesmo sem um conhecimento explícito de Cristo e sem uma incorporação formal na Igreja».[27]

36. Embora os não cristãos possam salvar-se mediante a graça que Deus dá através de caminhos por ele conhecidos[28], a Igreja não pode ignorar que todo homem espera conhecer o verdadeiro rosto de Deus e viver já hoje a amizade com Jesus Cristo, o Deus connosco. A plena adesão a Cristo, que é a verdade, e a entrada na sua Igreja, não diminuem mas exaltam a liberdade humana e conduzem-na para o seu cumprimento, num amor gratuito e atencioso para o bem de todos os homens. É um dom inestimável viver no abraço universal dos amigos de Deus, que vem da comunhão com a carne e o sangue vivificante do seu Filho, receber D’Ele a certeza do perdão dos pecados e viver na caridade que nasce da fé. A Igreja quer que todos participem destes bens para que tenham assim a plenitude da verdade e dos meios de salvação, «para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus» (Rm 8,21). A Igreja que anuncia e transmite a fé imita o próprio agir de Deus que se comunica à humanidade dando o Filho, que infunde o Espírito Santo sobre os homens para os regenerar como filhos de Deus.

Evangelização e renovação da Igreja

37. A Igreja como evangelizadora vive esta sua missão recomeçando sempre por se evangelizar a si mesma. «Comunidade de crentes, comunidade de esperança vivida e comunicada, comunidade de amor fraterno, ela tem necessidade de ouvir sem cessar aquilo que ela deve acreditar, as razões da sua esperança e o mandamento novo do amor. Povo de Deus imerso no mundo, e não raro tentado pelos ídolos, ela precisa de ouvir, incessantemente, proclamar as grandes obras de Deus, que a converteram para o Senhor; precisa sempre ser convocada e reunida de novo por ele. Numa palavra, é o mesmo que dizer que ela tem sempre necessidade de ser evangelizada, se quiser conservar frescor, alento e força para anunciar o Evangelho».[29] O Concílio Vaticano II retomou vigorosamente este tema da Igreja que se evangeliza mediante uma conversão e um renovamento constante para evangelizar o mundo com credibilidade[30]. Ecoam ainda as actuais palavras do Papa Paulo VI que, reafirmando a prioridade da evangelização, recordava a todos os fiéis: «não deixaria de ter a sua utilidade que cada cristão e cada evangelizador aprofundasse na oração este pensamento: os homens poderão salvar-se por outras vias, graças à misericórdia de Deus, se nós não lhes anunciarmos o Evangelho; mas nós, poder-nos-emos salvar se, por negligência, por medo ou por vergonha, aquilo que São Paulo chamava exactamente “envergonhar-se do Evangelho”, ou por se seguirem ideias falsas, nos omitirmos de o anunciar?». [31] Várias respostas sugeriram a ideia de que esta pergunta se deveria tornar objecto explícito da reflexão sinodal.

38. Desde a sua origem que a Igreja se confronta com semelhantes dificuldades, com a experiência de pecado dos seus membros. A história dos discípulos de Emaús é exemplo da possibilidade de um conhecimento destorcido de Cristo. Os dois discípulos de Emaús falam de um morto, narram as suas frustrações e a sua perda de esperança. Eles dizem a possibilidade, para a Igreja de todos os tempos, de um anúncio que não dá vida, que mantém encerrado na morte o Cristo anunciado, os anunciadores e os destinatários do anúncio. De igual modo, o episódio dos discípulos que estavam pescar, referido pelo evangelista João, descreve uma experiência semelhante: separados de Cristo, os discípulos vivem as suas acções de modo infrutífero. E, como os discípulos de Emaús, é somente com a manifestação do Ressuscitado que regressa a confiança, a alegria do anúncio, o fruto da própria obra de evangelização. Somente relacionando-se intensamente com Cristo, ele que foi apelidado de «pescador de homens» (Lc 5,10), Pedro, confiando na Palavra do Senhor, pôde voltar a lançar fecundamente as próprias redes.

39. Aquilo que é narrado com tão grande cuidado nas origens, a Igreja o revive constantemente na sua história. Tantas vezes acontece que, após um arrefecimento da relação com o próprio Cristo, se deteriora a qualidade da fé vivida, e se sente com menor força a experiência de participação na vida trinitária que esta relação contém em si. Eis porque não se pode esquecer que o anúncio do Evangelho é uma questão antes de tudo espiritual. A exigência de transmitir a fé, a qual não é um acto individualista e solitário, mas um evento comunitário, eclesial, não deve provocar a procura de estratégias comunicativas eficazes nem uma selecção dos destinatários – por exemplo os jovens – mas deve ter em atenção o sujeito responsável por esta acção espiritual. Deve tornar-se uma reflexão da Igreja sobre si mesma. Isto permite colocar o problema de modo não extrínseco, mas põe em causa toda a Igreja, no seu ser e no seu viver. Mais de uma Igreja particular pede ao Sínodo para verificar se hoje a infecundidade da evangelização, da catequese nos tempos modernos, não será acima de tudo um problema eclesiológico e espiritual. Reflecte-se sobre a capacidade da Igreja de se configurar como real comunidade, como verdadeira fraternidade, como corpo e não como empresa.

40. Precisamente para que a evangelização saiba conservar intacta a sua originária qualidade espiritual, a Igreja deve deixar-se plasmar pela acção do Espírito e fazer-se conforme a Cristo crucificado, o qual revela ao mondo o rosto do amor e da comunhão de Deus. Deste modo, redescobre a sua vocação de Ecclesia mater que gera filhos para o Senhor, transmitindo a fé, ensinando o amor que alimenta os filhos. Neste modo de viver a sua tarefa de anunciar e de testemunhar esta Revelação de Deus, reunindo o seu povo da dispersão, de tal modo que possa cumprir aquela profecia de Isaías que os Padres da Igreja interpretaram como dirigida a ela: «Alarga o espaço da tua tenda, estende sem medo as lonas que te abrigam, e estica as tuas cordas, fixa bem as tuas estacas, porque vais aumentar por todos os lados. Os teus descendentes possuirão as nações, e povoarão cidades desertas» (Is 54,2-3). 

 

SEGUNDO CAPÍTULO

TEMPO DE NOVA EVANGELIZAÇÃO

«Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Mc 16,15)

 

41. O mandato missionário que a Igreja recebeu do Senhor ressuscitado (Cf. Mc 16,15) assumiu ao longo dos tempos formas e modalidades sempre novas, segundo os lugares, as situações e os momentos históricos. Nos nossos dias, o anúncio do Evangelho aparece muito mais complexo do que no passado, mas a tarefa confiada à Igreja permanece igual à dos primeiros tempos. Não se tendo alterada a missão, é justo considerar que também hoje podemos fazer nosso o entusiasmo e a coragem que moveu os Apóstolos e os primeiros discípulos: o Espírito Santo que os impeliu a abrir as portas do cenáculo, constituindo-os evangelizadores (Cf. Act 2,1-4), é o mesmo Espírito que hoje guia a Igreja e a impulsiona a um renovado anúncio de esperança aos homens do nosso tempo.

42. O Concílio Vaticano II recorda que «as comunidades em que a Igreja vive, não raras vezes e por variadas causas mudam radicalmente, de maneira a poderem daí advir condições de todo novas».[32] Com olhar clarividente, os Padres conciliares viram no horizonte a mudança cultural que hoje facilmente se constata. Precisamente esta mudança de situação, que criou uma condição inesperada para os crentes, exige uma particular atenção ao anúncio do Evangelho, para dar razão da nossa fé numa situação que, relativamente ao passado, apresenta muitos traços de novidade e de problematicidade.

43. As transformações sociais a que temos assistido nos últimos decénios têm causas complexas, com raízes profundas desde há muito tempo e que modificaram profundamente a percepção do nosso mundo. O lado positivo destas transformações está à vista de todos, valorizado como um bem inestimável, que permitiu o desenvolvimento da cultura e o crescimento do homem em muitos campos do saber. Todavia, estas transformações desencadearam processos de revisão e de crítica dos valores e de alguns fundamentos do viver comum que têm afectado profundamente a fé das pessoas. Como recorda o Papa Bento XVI, «se por um lado a humanidade conheceu inegáveis benefícios por estas transformações e a Igreja recebeu ulteriores estímulos para dizer a razão da sua esperança (cf. 1 Pe 3,15), por outro verificou-se uma preocupante perda do sentido do sagrado, chegando até a pôr em questão aqueles fundamentos que pareciam indiscutíveis, como a fé num Deus criador e providente, a revelação de Jesus Cristo único salvador, e a comum compreensão das experiências fundamentais do homem como nascer, morrer, viver numa família, a referência a uma lei moral natural. Se tudo isto foi elogiado por alguns como uma libertação, depressa demo-nos conta do deserto interior que nasce onde o homem, desejando ser o único artífice da sua natureza e do seu destino, se encontra desprovido daquilo que constitui o fundamento de tudo».[33]

44. É necessário oferecer uma resposta a este momento particular de crise, também da vida cristã; é preciso que a Igreja saiba encontrar neste peculiar momento histórico um estímulo acrescido para dar razão da esperança que anuncia (cf. 1Pe 3,15). A expressão “nova evangelização” reclama a exigência de uma renovada modalidade de anúncio, sobretudo para aqueles que vivem num contexto, como o actual, em que os desenvolvimentos da secularização deixaram também traços substanciais em Países de tradição cristã. Assim entendida, a ideia de nova evangelização, na procura até agora em curso do seu significado, tem sido amadurecida dentro do contexto eclesial e implementada em formas também muito diferenciadas. Ela tem sido considerada acima de tudo como uma exigência, também como uma operação de discernimento e como um estímulo à Igreja de hoje.

A pergunta sobre a “nova evangelização”

45. O que é a “nova evangelização”? O Beato Papa João Paulo II, no primeiro discurso que terá dado notoriedade e ressonância a esta expressão, dirigindo-se aos Bispos do continente latino-americano, define-a assim: «A comemoração de meio milénio de evangelização terá o seu pleno significado se for um empenho vosso como Bispos, em conjunto com o vosso Presbitério e aos vossos fiéis; um empenho, não certamente de reevangelização, mas de uma nova evangelização. Nova no seu ardor, nos seus métodos, nas suas expressões».[34] Os interlocutores mudam e o tempo também, e o Papa dirige-se à Igreja na Europa lançando-lhe um apelo muito semelhante: «chegou a urgência e a necessidade da “nova evangelização”, cientes de que a Europa, hoje, não deve simplesmente fazer apelo à sua precedente herança cristã: é preciso, de facto, que seja posta em condições de decidir novamente do seu futuro no encontro com a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo»[35].

46. Num primeiro momento, a nova evangelização responde a um pergunta que a Igreja deve ter a coragem de se colocar, para ousar um recomeço da sua vocação espiritual e missionária. É necessário que as comunidades cristãs, marcadas pelos influxos que as actuais fortes mudanças sociais e culturais estão a exercer nelas, encontrem as energias e os caminhos para se voltarem a ancorar de modo sólido na presença do Ressuscitado que as anima a partir de dentro. É preciso que se deixem guiar pelo seu Espírito, que voltem a experimentar de modo renovado o dom da comunhão com o Pai que vivem em Jesus, e voltem a oferecer aos homens esta sua experiência como o dom mais precioso que possuem.

47. As respostas que chegaram ao texto dos Lineamenta correspondem a este diagnóstico do Papa João Paulo II. Respondendo à pergunta específica – o que é a nova evangelização? – muitas reflexões que nos chegaram recebidas concordam ao indicar que a nova evangelização é a capacidade da Igreja em viver de modo renovado a própria experiência comunitária de fé e de anúncio num contexto de novas situações culturais que despontaram nestes últimos decénios. O fenómeno descrito é o mesmo no Norte e no Sul do mundo, no Ocidente e no Oriente, nos Países em que a experiência cristã tem raízes milenares e nos Países evangelizados há poucos séculos. Após o confluir de factores sociais e culturais – que convencionalmente se designam com o termo “globalização” –, tiveram início processos de enfraquecimento das tradições e das instituições. Eles eliminaram rapidamente os laços sociais e culturais, a sua capacidade de comunicar valores e de dar respostas às perguntas do sentido e da verdade. O resultado é uma notável perda de unidade da cultura e da sua capacidade de aderir à fé e de viver com os valores por ela inspirados.

48. Os sinais deste contexto sobre a experiência de fé e sobre as formas de vida eclesial foram descritos em modo muito semelhante em todas as respostas: debilidade da vida de fé das comunidades cristãs, redução do reconhecimento da autoridade do magistério, privatização da pertença à Igreja, diminuição da prática religiosa, desempenho na transmissão da própria fé às novas gerações. Estes sinais, redigidos em modo quase unânime pelos vários episcopados, mostram que é toda a Igreja que se deve avaliar neste ambiente cultural.

49. Neste quadro, a nova evangelização quer ressoar como um apelo, como uma pergunta da Igreja a si mesma, para que concentre as próprias energias espirituais e se empenhe neste novo ambiente cultural para ser propositiva: reconhecendo também o bem que existe dentro destes novos cenários, dando nova vitalidade à própria fé e ao seu empenho evangelizador. O adjectivo “nova” refere-se à transformação do contexto cultural e remete para a necessidade da Igreja recuperar as energias, a vontade, a frescura e o engenho no seu modo de viver a fé e de a transmitir. As respostas recebidas mostraram que este apelo foi recebido de diferentes modos nas várias realidades eclesiais, mas o sentimento geral é de preocupação. Elas dão a impressão que muitas comunidades cristãs ainda não perceberam plenamente o alcance do desafio e a natureza da crise gerado por este ambiente cultural também no interior da Igreja. A este respeito, espera-se que o debate sinodal ajude a tomar consciência de modo maduro e aprofundado da seriedade deste desafio com que nos estamos a avaliar. Mais profundamente se espera que continue a reflexão sinodal sobre o fenómeno da secularização, sobre os influxos positivos[36] e negativos exercidos sobre o cristianismo, sobre os desafios que coloca à fé cristã.

50. De facto, nem todos os sinais são negativos. Sinal de esperança e dom do Espírito Santo é para muitas Igrejas a presença de forças de renovamento. Trata-se de comunidades cristãs, mais especificamente de grupos religiosos e de movimentos, em muitos casos de instituições teológicas e culturais, que mostram com a sua acção a possibilidade real de viver a fé cristã com o seu anúncio também no interior desta cultura. Para estas experiências, aos tantos jovens que as animam com a sua frescura e o seu entusiasmo, as Igrejas particulares olham com reconhecimento e com atenção. Elas estão prontas a reconhecer o seu dom, incentivando para que este se torne também património do restante povo cristão. Elas estão interessadas em acompanhar o crescimento de experiências que têm como ponto forte a sua novidade mas também alguns dos seus limites.

Os cenários da nova evangelização

51. Assumida como exigência, a nova evangelização levou a Igreja a examinar o modo com o qual as comunidades cristãs actualmente vivem e testemunham a sua fé. A nova evangelização fez-se assim discernimento, ou capacidade de ler e de decifrar os novos cenários que, nestes últimos decénios, se têm vindo a gerar na história dos homens, para transformá-los em lugares de anúncio do Evangelho e de experiência eclesial. Uma vez mais, o magistério de João Paulo II serviu de linha orientadora para uma primeira descrição destes cenários[37], aos quais o texto dos Lineamenta se refere, e que viu partilhada e confirmada nas respostas recebidas. Trata-se de cenários culturais, sociais, económicos, políticos, religiosos.

52. Em primeiro lugar, antes de mais, deve ser indicado o cenário de fundo cultural. Apresentado já nas grandes linhas no parágrafo precedente, deste cenário as várias respostas sublinharam com enfâse a dinâmica secularizadora que o anima. Radicada de modo particular no mundo ocidental, a secularização é fruto de episódios e movimentos sociais e de pensamento que marcaram em profundidade a história e a identidade. Ela apresenta-se hoje nas nossas culturas através da imagem positiva da libertação, da possibilidade de imaginar a vida do mundo e da humanidade sem referência à transcendência. Nos últimos anos não se verifica tanto a forma pública dos discursos directos e agressivos contra Deus, a religião e o cristianismo, embora, em alguns momentos, esta tonalidade anticristã, anti-religiosa e anticlerical também se tenha feito sentir recentemente. Como testemunham muitas respostas, ela assumiu um tom bem mais débil que permitiu a esta forma cultural de invadir a vida quotidiana das pessoas e de desenvolver uma mentalidade em que Deus está verdadeiramente ausente, em tudo ou em parte, e a sua própria existência depende da consciência humana.

53. Este tom de demissão, e por isso mais atractivo e sedutor, permitiu à secularização entrar também nada vida dos cristãos e das comunidades eclesiais, tornando-se não apenas um perigo externo para os crentes mas um terreno de confronto quotidiano. As características do modo secularizado de entender a vida confirmam o comportamento habitual de muitos cristãos. A “morte de Deus” anunciada nos decénios passados por tantos intelectuais deu lugar a uma estéril mentalidade hedonista e consumista, que conduz a formas muito superficiais de afrontar a vida e as responsabilidades. O risco de perder também os elementos fundamentais da fé é real. O influxo deste clima secularizado no quotidiano torna sempre mais difícil a afirmação da existência de uma verdade. Assiste-se a uma recusa prática da questão de Deus nas perguntas que o ser humano se coloca. As respostas à necessidade religiosa assumem formas de espiritualidade individualista ou formas de neopaganismo, ao ponto de se impor um ambiente geral de relativismo.

54. Este risco não deve, porém, fazer perder de vista aquilo que de positivo o cristianismo aprendeu do confronto com a secularização. O seculum em que convivem crentes e não crentes apresenta qualquer coisa que os une: o humano. Precisamente este elemento do humano, que é a referência natural da fé, pode tornar-se o lugar privilegiado da evangelização. É na humanidade plena de Jesus de Nazaret que habita a plenitude da divindade (Cf. Col 2,9). Purificando o humano a partir da humanidade de Jesus de Nazaret os cristãos podem encontrar-se com os homens secularizados mas que, todavia, continuam a interrogar-se sobre aquilo que é humanamente sério e verdadeiro. O confronto com estes que procuram a verdade ajuda os cristãos a purificar e a maturar a sua fé. A luta interior destas pessoas que procuram a verdade, embora não tendo ainda o dom de acreditar, é seguramente um estímulo para que nos empenhemos no testemunho e na vida de fé, a fim de que a verdadeira imagem de Deus se torne acessível a todo o homem. A este respeito emerge das respostas o grande interesse suscitado pelo “Átrio dos gentios”.

55. A par deste primeiro cenário cultural, foi indicado um segundo, mais social: o grande fenómeno migratório que leva cada vez mais as pessoas a deixar os seus países de origem e a viver em contextos urbanizados. Daí deriva um encontro e uma mistura de culturas. Estão a surgir formas de erosão das referências fundamentais da vida, dos valores e das próprias relações através dos quais os indivíduos estruturam as suas identidades e acedem ao sentido da vida. Ligada à difusão da secularização, o êxito cultural destes processos é um clima de estrema mobilidade, dentro do qual diminui o espaço para as grandes tradições, inclusive religiosas. A este cenário social está ligado o chamado fenómeno da globalização, realidade de não fácil explicação, que exige aos cristãos um enorme trabalho de discernimento. Pode ser lida como um fenómeno negativo, se desta realidade prevalece uma interpretação determinística, ligada somente à dimensão económica e produtiva. Pode, porém, ser lida como um momento de crescimento, em que a humanidade aprende a desenvolver novas formas solidárias e novas vias para partilhar o crescimento de todos no bem.

56. Ao cenário migratório, as respostas aos Lineamenta associaram em modo estreito um terceiro cenário, que está a marcar de modo cada vez mais determinante as nossas sociedades: o cenário económico. Em grande parte por causa do fenómeno das migrações, o cenário económico foi destacado pelas tensões e as formas de violência que a ele estão associadas, seguido das desigualdades que provoca no interior das nações e também entre elas. Em muitas respostas, provenientes não apenas dos Países em vias de desenvolvimento, foi denunciado um claro e decisivo aumento do desfasamento entre ricos e obres. Inumeráveis vezes, o Magistério dos Sumos Pontífices denunciou os crescentes desequilíbrios entre Norte e Sul do mundo, no acesso e na distribuição dos recursos, como também na danificação da criação. A permanência da crise económica, na qual nos encontrámos, assinala o problema da utilização dos meios, tanto naturais como humanos. Das Igrejas, convidadas a viver o ideal evangélico da pobreza, espera-se ainda muito em termos de sensibilização e de acção concreta, mesmo se elas não encontram espaço suficiente nos media.

57. Um quarto cenário é o da política. Desde o Concílio Vaticano II até hoje as mudanças neste cenário podem ser propriamente definidas como epocais. Com a crise da ideologia comunista, chegou ao fim a divisão do mundo ocidental em dois blocos. Isto favoreceu a liberdade religiosa e a possibilidade de reorganização das Igrejas históricas. O emergir na cena mundial de novos actores económicos, políticos e religiosos, como o mundo islâmico, o mundo asiático, criou uma situação de domínio e de poder. Neste cenário, as várias propostas sublinharam diversas prioridades: o empenho pela paz, o desenvolvimento e a libertação dos povos; uma melhor regulamentação internacional e interacção dos governos nacionais; a procura de formas possíveis de escuta, convivência, diálogo e colaboração entre as diversas culturas e religiões; a defesa dos direitos do homem e dos povos, sobretudo das minorias; a promoção dos mais débeis; a salvaguarda da criação e o empenho pelo futuro do nosso planeta. Estes são temas que as diversas Igrejas particulares aprenderam a sentir como seus, e como tais são salvaguardados e promovidos na vida quotidiana das nossas comunidades.

58. Um quinto cenário é o da investigação científica e tecnológica. Vivemos numa época que ainda não recuperou da estupefacção suscitada pelos constantes alvos que a investigação nestes tempos tem sido capaz de superar. Todos podemos experimentar no quotidiano os benefícios causados por estes progressos. Todos estamos cada vez mais dependentes deles. Diante de tantos aspectos positivos, existem igualmente perigos de excessivas esperanças e manipulações. A ciência e a tecnologia correm assim o risco de se tornarem os novos ídolos do presente. É fácil num contexto digital e globalizado fazer da ciência “a nossa nova religião”. Estamos o perante o emergir de novas formas de gnose, que assumem a técnica como forma de sabedoria, em vista de uma orientação mágica da vida que funcione como saber e como sentido. Assistimos à afirmação dos novos cultos. Eles instrumentalizam de modo terapêutico as práticas religiosas que os homens estão dispostos a viver, estruturando-se como religiões da prosperidade e da gratificação instantânea.

As novas fronteiras do cenário comunicativo

59. Unanimemente as respostas ao Lineamenta analisaram um outro cenário, o sexto, o comunicativo, que hoje oferece enormes possibilidades e representa um dos grandes desafios para a Igreja. Nos inícios era típico apenas do mundo industrializado, hoje o cenário de um mundo globalizado é capaz de influenciar também grandes sectores dos países em vias de desenvolvimento. Não há lugar no mundo de hoje que não possa ser alcançado e, por isso, não estar sujeito à influência da cultura mediática e digital, que progressivamente se estrutura como o “lugar” da vida pública e da experiência social. Basta pensar no uso cada vez mais difundido da rede informática.

60. As respostas referem a convicção generalizada que as novas tecnologias digitais deram origem a um verdadeiro e próprio espaço social, cujos laços são capazes de influir sobre a sociedade e sobre a cultura. Actuando na vida das pessoas, os processos mediáticos tornados possíveis por estas tecnologias chegam a transformar a própria realidade. Intervêm de modo incisivo na experiência das pessoas e permitem um alargamento das potencialidades humanas. Da influência que eles exercem depende a percepção de nós mesmos, dos outros e do mundo. Estas tecnologias e o espaço comunicativo por elas desenvolvido são, por isso, valorizados positivamente, sem preconceitos, como meios, embora com um olhar crítico e um uso sábio e responsável.

61. A Igreja soube entrar nestes espaços e assumir estes meios desde o início como instrumentos úteis para o anúncio do Evangelho. Hoje, a par dos meios de comunicação mais tradicionais, especialmente como a imprensa e a rádio, que – de acordo com as respostas – conheceram nestes últimos anos um discreto incremento, os novos media estão a servir cada vez mais à pastoral evangelizadora da Igreja, tornando possíveis interacções a vários níveis, local, nacional, continental, mundial. Percebem-se as potencialidades destes meios de comunicação antigos e novos, verifica-se a necessidade de se usar o novo espaço social que se criou com as linguagens e as formas da tradição cristã. Reclama-se a urgência de um discernimento atento e partilhado para intuir melhor as potencialidades que isso oferece em vista do anúncio do Evangelho, mas também para acolher de modo correcto os riscos e os perigos.

62. A difusão desta cultura acarreta, de facto, consigo indubitáveis benefícios: maior acesso às informações, maior possibilidade de conhecimento, de troca, de novas formas de solidariedade, de capacidade promover uma cultura cada vez mais à escala mundial, tornando os valores e os melhores desenvolvimentos do pensamento e da actividade humana um património de todos. Estas potencialidades não eliminam, porém, os riscos que a difusão excessiva de uma semelhante cultura já está a gerar. Manifesta-se uma profunda atenção egocêntrica às necessidades individuais. Afirma-se uma exaltação emotiva das relações e dos laços sociais. Assiste-se ao debilitamento e à perda do valor objectivo das experiências profundamente humanas, tais como a reflexão e o silêncio; observa-se uma excessiva afirmação do pensamento individual. Reduz-se progressivamente a ética e a política a instrumentos de espectáculo. A situação extrema a que podem conduzir estes riscos é à chamada cultura do efémero, do imediato, da aparência, ou uma sociedade privada de memória e de futuro. Num semelhante contexto, é pedido aos cristãos a audácia de frequentar estes “novos areópagos”, aprendendo a dar uma valorização evangélica, encontrando os instrumentos e os métodos para tornar audível também nestes lugares hodiernos o património educativo e de sapiência conservado pela tradição cristã.

As mudanças do cenário religioso

63. As mudanças de cenário que analisámos até este momento deveriam influenciar no modo como os homens exprimem o próprio sentido religioso. As repostas aos Lineamenta sugerem que se acrescente como sétimo cenário o religioso. Este permite também compreender de modo mais profundo o retorno do sentido religioso e a exigência multiforme de espiritualidade que marca muitas culturas e em particular as gerações mais jovens. De facto, se é verdade que o presente processo secularizador gera consequentemente em muitas pessoas uma atrofia espiritual e um vazio do coração, também é possível observar em muitas regiões do mundo os sinais de um consistente renascimento religioso. A própria Igreja católica é afectada por este fenómeno, que oferece recursos e ocasiões de evangelização inesperadas desde há alguns decénios.

64. As respostas aos Lineamenta estão interessadas em afrontar o fenómeno e a lê-lo em toda a sua complexidade. Elas reconhecem indubitáveis elementos positivos. Isso permite, de facto, recuperar um elemento constitutivo da identidade humana, o religioso, superando assim todos aqueles limites e aqueles empobrecimentos da concepção do homem reduzida apenas ao plano horizontal. Este fenómeno favorece a experiência religiosa, devolvendo-lhe aquela centralidade no modo de pensar os homens, a história, o sentido da própria vida, a procura da verdade.

65. Em muitas respostas não se esconde, porém, a preocupação ligada ao carácter em parte ingénuo e emotivo deste retorno do sentido religioso. Mais do que à lenta e complexa maturação das pessoas na procura da verdade, este retorno do sentido religioso conheceu, em mais do que um caso, os traços de uma experiência religiosa pouco libertadora. Os aspectos positivos da redescoberta de Deus e do sacro viram-se assim empobrecidos e obscurecidos por fenómenos do fundamentalismo que frequentemente manipula a religião para justificar a violência e, em casos extremos e circunscritos, até mesmo o terrorismo.

66. É este o quadro em que foi colocado por muitas respostas o problema premente da proliferação daqueles novos grupos religiosos que assumem a forma de seita. Aquilo que é declarado nos Lineamenta (a sua dominante emotiva e psicológica, a promoção de uma religião do sucesso e da prosperidade) é confirmado e reproposto. Além disso, algumas respostas, pedem que se vigie para que as comunidades cristãs não se deixem influenciar por estas novas formas de experiência religiosa, confundindo o estilo cristão do anúncio com a tentação de imitar os tons agressivos e proselitistas destes grupos. É necessário, por outro lado, afirmam sempre as respostas, que as comunidades cristãs se encarreguem do anúncio e do cuidado da própria fé, que a presença destes grupos religiosos pode contribuir para tornar menos tépida e mais pronta para dar sentido à vida dos indivíduos.

67. Neste contexto ganha ainda mais sentido o encontro e o diálogo com as grandes tradições religiosas que a Igreja cultivou nos últimos decénios, e continua a intensificar. Este encontro apresenta-se como uma ocasião promissora para aprofundar o conhecimento da complexidade das formas e das linguagens da religiosidade humana tal como se apresenta noutras experiencias religiosas. Um semelhante encontro e diálogo permite ao catolicismo compreender com maior profundidade os modos com que a fé cristã exprime a religiosidade do espírito humano. Ao mesmo tempo enriquece o património religioso da humanidade com a singularidade da fé cristã.

Viver como cristãos nestes cenários

68. Os cenários foram lidos por aquilo que são: sinais de um mutamento presente que é reconhecido como o contexto no qual se desenvolvem as nossas experiências eclesiais. Precisamente por isto, ele deve ser assumido e purificado, num processo de discernimento, pelo encontro e confronto com a fé cristã. A avaliação destes cenários permite fazer uma leitura crítica dos estilos de vida, do pensamento, das linguagens propostas através deles. Esta leitura serve também como autocritica que o cristianismo é chamado a fazer sobre si, para verificar como o seu estilo de vida e a acção pastoral das comunidades cristãs têm estado realmente à altura da sua missão, evitando o imobilismo mediante uma visão atenta. A reflexão sinodal poderá prosseguir frutuosamente estes exercícios de discernimento, tal como dizem esperar muitas Igrejas particulares.

69. Várias respostas aos Lineamenta procuram individuar as razões do afastamento de numerosos fiéis da praxis cristã, uma verdadeira “apostasia silenciosa”, pelo facto que a Igreja não teria respondido de modo adequado e convincente aos desafios dos cenários descritos. Constatou-se, pois, o enfraquecimento da fé dos crentes, a falta da participação pessoal e experiencial na transmissão da fé, o insuficiente acompanhamento espiritual dos fiéis no seu itinerário formativo, intelectual e profissional. Lamentou-se uma excessiva burocratização das estruturas eclesiásticas, que se mostram distantes do homem comum e das suas preocupações existenciais. Tudo isto causou um reduzido dinamismo das comunidades eclesiais, a perda do entusiasmo das origens, a diminuição do movimento missionário. Não faltam aqueles que lamentam celebrações litúrgicas formais e ritos repetidos quase por hábito, privados da profunda experiência espiritual, que, invés de atrair, afastam as pessoas. Para além do contratestemunho de alguns dos seus membros (infidelidade à vocação, escândalos, pouca sensibilidade pelos problemas do homem contemporâneo e do mundo actual), não é de transcurar, todavia, o «mysterium iniquitatis» (2 Ts 2,7), a luta do Dragão contra o resto da descendência da Mulher, «contra o resto da sua descendência, isto é, os que observam os mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus» (Ap 12,7). Para uma valorização objectiva é necessário ter sempre presente o mistério da liberdade humana, dom de Deus que o homem pode adoptar também de modo errado, rebelando-se contra Deus e voltando-se contra a sua Igreja.

A nova evangelização deveria procurar orientar a liberdade das pessoas, homens e mulheres, para Deus, fonte da bondade, da verdade e da beleza. O renovamento da fé deveria fazer superar os obstáculos mencionados que se opõem a uma vida cristã autêntica, segundo a vontade de Deus, expressa no mandamento do amor a Deus e ao próximo (cf. Mc 12,33).

70. Para além destas denúncias, as respostas aos Lineamenta também souberam evidenciar bem os indubitáveis sucessos que derivaram da experiência cristã com o advento destes cenários. Por exemplo, mais de uma resposta assinalou como efeito positivo do processo migratório actual o encontro e a troca de dons entre as Igrejas particulares, com a possibilidade de receber energia e vitalidade da fé das comunidades cristãs imigradas. No contacto com os não-cristãos, as comunidades cristãs puderam, pois, aprender que hoje a missão não é mais um movimento Norte-Sul ou Oeste-Este, porque é preciso desvincular-se dos limites geográficos. Hoje a missão está presente nos cinco continentes. É preciso reconhecer que também nos países de antiga evangelização existem sectores e ambientes estranhos à fé porque neles os homens nunca a encontraram, e não apenas porque se afastaram. Desvincular-se dos limites geográficos significa ter a capacidade para colocar a questão de Deus em todos aqueles processos de encontro, mistura, reconstrução das relações sociais que estão em curso por toda a parte. A Assembleia sinodal poderia ser o lugar para uma troca profícua sobre estas experiências.

71. Também o cenário económico, com as suas mudanças, foi reconhecido como um lugar propício para testemunhar a nossa fé. Muitas respostas descreveram as acções das comunidades cristãs em favor dos pobres, acções que têm raízes antiquíssimas e conhece frutos também prometedores. Neste momento de crise económica grave e difusa, foi assinalado por muitos o incremento desta acção por parte das comunidades cristãs, com o nascimento de novas instituições dedicadas ao sustento dos pobres, e sobre o desenvolvimento de uma sensibilidade maior no interior da Igreja particular. Algumas respostas pediram para realçar a caridade como instrumento de nova evangelização: a dedicação e a solidariedade para com os mais pobres vividas por muitas comunidades, a sua caridade, o seu estilo de vida sóbrio num mundo que, contrariamente, exalta o consumo e o ter, são verdadeiramente um válido instrumento para a anunciar o Evangelho e testemunhar a nossa fé.

72. Particular ressonância teve o cenário religioso. Em primeiro lugar ele diz respeito ao diálogo ecuménico. As respostas aos Lineamenta sublinham diversas vezes como os diversos contextos de mudança favoreceram o desenvolvimento de maior confronto ecuménico. Também com muito realismo, reportando a momentos de dificuldade e situações de tensão que se procura com paciência e determinação escolher, a novidade dos cenários dentro dos quais somos chamados a viver como cristãos a nossa fé e a anunciar o Evangelho colocou ainda em evidência a necessidade de uma unidade efectiva entre os cristãos. Esta não deve ser confundida com a simples cordialidade das relações ou com a cooperação em algum projecto comum, mas muito mais como um anelo a deixar-se transformar pelo Espírito para que possamos sempre cada vez mais conformarmo-nos à imagem de Cristo. Esta unidade espiritual é acima de tudo suplicada na oração antes de a realizar nas obras. A conversão e o renovamento da Igreja, à qual a crise hodierna nos chama, não pode deixar de ter esta temática ecuménica: significa que precisa de sustentar convictamente o esforço de ver todos os cristãos unidos para mostrar ao mundo a força profética e transformadora da mensagem evangélica. O trabalho é ingente e só poderemos responder com os esforços partilhados, guiados pelo Espírito Santo de Jesus Cristo ressuscitado. Acima de tudo, o Senhor deixou-nos como mandamento a sua oração: «Para que todos sejam um só» (Gv 17,21).

73. O cenário religioso, em segundo lugar, diz respeito ao diálogo inter-religioso que hoje se impõe, ainda que de diversos modos, em todo o mundo. Isso favoreceu estímulos muito positivos: os Países de antiga tradição cristã lêem a expansão da presença de grandes religiões, em particular do Islão, como estimulo dado a desenvolver novas formas de presença, de visibilidade e de proposta da fé cristã; de modo mais geral o contexto inter-religioso e o confronto com as grandes religiões do oriente é saudado como uma ocasião oferecida às nossas comunidades cristãs para aprofundar a compreensão da nossa fé, graças às questões que um tal confronto suscita em nós, às interrogações sobre o caminho da história humana e à presença de Deus neste caminho. É uma ocasião para afinar os instrumentos do diálogo e os espaços dentro dos quais se colabora para o desenvolvimento de experiências de paz para uma sociedade cada mais humana.

74. Bem diferente é a situação daquelas Igrejas que se encontram em minoria: aonde há a liberdade de professar a própria fé e de viver a própria religião, o estado de minoria é considerado uma forma interessante que permite ao cristianismo de conhecer outras modalidades e outros modos de presença no mundo e de realizar a sua transformação. Onde, por sua vez, à experiência de menoridade se acrescenta um contexto de perseguição, a experiência de evangelização está associada à experiência de Jesus, à sua fidelidade até à cruz. E na situação vivida reconhece-se o dom de recordar a toda Igreja a relação entre evangelização e cruz que, aos olhos destas Igrejas, não deve correr o risco de não ser tomada em consideração. Precisamente estas Igrejas recordam-nos que não é exaustivo avaliar a evangelização segundo os parâmetros quantitativos do sucesso.

75. Nesta tarefa de renovação a que somos chamados são de grande ajuda as Igrejas Católicas Orientais e todas as comunidades cristãs que no seu passado viveram ou estão ainda a viver a experiência de clandestinidade, da marginalização, da perseguição, da intolerância de natureza ética, ideológica e religiosa. O seu testemunho de fé, a sua tenacidade, a sua capacidade de resistência, a solidez da sua esperança, a intuição de algumas práticas pastorais são um dom para partilhar com aquelas comunidades cristãs que, embora tendo na sua história momentos gloriosos, vivem um presente de cansaço e de dispersão. Para Igrejas pouco habituadas a viver a sua fé em situação de menoridade é certamente um dom poder escutar experiências que infundem nelas aquela confiança indispensável ao impulso que exige a nova evangelização. Mais ainda, é um dom iminentemente espiritual acolher todos aqueles que tiveram de deixar a própria terra por motivos de perseguição, e, portanto, levam no seu espírito a riqueza incalculável dos sinais do martírio vivido em primeira pessoa.

Missio ad gentes, cuidado pastoral, nova evangelização

76. O discernimento que a nova evangelização inspirou mostra-nos que a missão evangelizadora da Igreja está em profunda transformação. As figuras tradicionais e consolidadas – que convencionalmente são indicadas com os termos “Países de antiga tradição cristã” e “terras de missão” – mostram agora os seus limites. São demasiado simples e fazem referência a um contexto já superado para poder oferecer modelos úteis para as comunidades cristãs de hoje. Como afirmava já com lucidez o Papa João Paulo II, «os confins entre o cuidado pastoral dos fieis, a nova evangelização e a actividade missionária específica não são facilmente identificáveis, e não se deve pensar em criar entre esses âmbitos barreiras ou compartimentos estanques. […] As Igrejas de antiga tradição cristã, por exemplo, preocupadas com a dramática tarefa da nova evangelização, estão mais conscientes de que não podem ser missionárias dos não cristãos de outros países e continentes, se não se preocuparem seriamente com os não cristãos da própria casa: a actividade missionária ad intra é sinal de autenticidade e de estímulo para realizar a outra ad extra, e vice-versa».[38]

77. Embora com acentuações e diferenças relacionadas com a diversidade de cultura e de história, as respostas aos Lineamenta mostram que foi bem assimilado este carácter peculiar da nova evangelização: não se trata de um novo modelo de acção pastoral, que substitui simplesmente outras formas de acção (a primeira evangelização, o cuidado pastoral), mas antes um processo de relançamento da missão fundamental da Igreja. Ela, interrogando-se sob o modo de viver a evangelização hoje, não se dispensa de se avaliar a si mesma e a qualidade da evangelização das suas comunidades. A nova evangelização compromete todos os sujeitos eclesiais (indivíduos, comunidade, paróquias, dioceses, Conferências Episcopais, movimentos, grupos e outras realidades eclesiais, religiosos e pessoas consagradas) a uma verificação da vida eclesial e da acção pastoral, assumindo como ponto de análise a qualidade da própria vida de fé, e a sua capacidade de ser instrumento de anúncio, segundo o Evangelho.

78. Integrando as várias respostas, poderemos dizer que esta verificação se concretizou em três exigências: a capacidade de discernir, isto é a capacidade de se centrar no presente, convicta que também neste tempo é possível anunciar o Evangelho e viver a fé cristã; a capacidade de viver formas de adesão radical e genuína à fé cristã, capazes de testemunhar, já com a sua simples existência, a força transformadora de Deus na nossa história; uma clara e explícita relação com a Igreja, capaz de tornar visível o carácter missionário e apostólico. Estas perguntas são apresentadas à Assembleia sinodal, para que, trabalhando sobre elas, ajude a Igreja a viver aquele caminho de conversão a que a nova evangelização a está chamar.

79. Muitas Igrejas particulares, no momento de receber o texto dos Lineamenta, encontram-se já empenhadas numa acção de verificação e de relançamento da sua pastoral a partir destas exigências. Algumas projectaram esta acção com a finalidade da renovação missionária, outras com a da conversão pastoral. É convicção unânime que aqui reside o coração da nova evangelização, vista como um acto de renovada assunção, por parte da Igreja, do mandado missionário do Senhor Jesus Cristo, que a quis e a enviou para o mundo para que se deixe guiar pelo Espírito Santo para testemunhar a salvação recebida e para anunciar o rosto de Deus Pai, primeiro artífice desta obra de salvação.

Transformações da paróquia e nova evangelização

80. Muitas respostas recebidas descrevem uma Igreja empenhada num intenso trabalho de transformação da sua presença entre as pessoas e no seio da sociedade. As Igrejas mais jovens trabalham para dar vida a paróquias muito extensas, animando-as internamente com o instrumento que, segundo os contextos geográficos e eclesiais, assume o nome de “comunidades eclesiais de base” ou de “pequenas comunidades cristãs”. Elas afirmam o propósito de favorecer lugares de vida cristã, sobretudo na dispersão das grandes metrópoles, capazes de animar melhor a fé de quem pertence a elas e de irradiar com o seu testemunho o espaço social. As Igrejas com raízes mais antigas trabalham na revisão dos seus programas paroquiais, geridos sempre com maior dificuldade, em consequência da diminuição do clero e da prática cristã. A intenção declarada é para evitar que semelhantes operações se transformem em procedimentos administrativos e burocráticos e tenham um efeito não desejado: que as Igrejas particulares, já demasiado ocupadas por estes problemas de carácter de gestão, acabem por se fechar em si mesmas. A este respeito mais de uma experiência refere a figura das “unidades pastorais”, como um meio para conjugar a revisão do programa paroquial e o estabelecimento de uma cooperação para uma Igreja particular mais comunitária.

81. A nova evangelização é o chamamento da Igreja à sua originária finalidade missionária. Semelhantes acções podem, por isso, como afirmam muitas respostas, adoptar a nova evangelização para dar às reformas em curso um sentido menos voltado para o interior das comunidades cristãs e mais empenhada no anúncio da fé a todos. Neste sentido, espera-se muito das paróquias, tidas como a mais capilar porta de acesso à fé cristã e às experiências eclesiais. Para além de serem o lugar da pastoral ordinária, das celebrações litúrgicas, da administração dos sacramentos, da catequese e do catecumenato, elas têm a missão de se tornarem verdadeiros centros de irradiação e de testemunho da experiência cristã, sentinelas capazes de escutar as pessoas e as suas necessidades. Elas são lugares em que se educa para a procura da verdade, se nutre e reforça a própria fé, pontos de comunicação da mensagem cristã, do projecto de Deus sobre o homem e sobre o mundo, primeiras comunidades em que se experimenta a alegria de sermos reunidos pelo Espírito e preparados para viver o mandato missionário.

82. As energias a serem empregues nesta operação não faltam: todas as respostas indicam como primeiro grande recurso o número de leigos baptizados, que estão empenhados e prosseguem firmemente o seu serviço voluntário nesta tarefa de animação das comunidades paroquiais. Muitos reconhecem, no florir desta vocação laical, um dos frutos do Concílio Vaticano II, a par de outros recursos: as comunidades de vida consagrada; a presença de grupos e movimentos que com o seu fervor, as suas energias e, sobretudo, com a sua fé dão um forte impulso à vida nova nos espaços eclesiais; os santuários que, com a devoção, são pontos de referência para a fé nas Igrejas particulares.

83. Com estas indicações precisas e ricas de esperança, as respostas aos Lineamenta mostram que a perspectiva assumida é a de um lento mas eficaz trabalho de revisão do modo de ser Igreja no meio das pessoas, que evite os obstáculos do sectarismo e da “religião civil”, e permita manter a forma de uma Igreja missionária. Por outras palavras, a Igreja precisa de não perder o rosto de Igreja “doméstica, popular”. Mesmo em contextos de minoria ou de discriminação, a Igreja não deve perder a sua prerrogativa de manter-se próxima da vida quotidiana das pessoas, de modo a anunciar, a partir daquele lugar, a mensagem vivificante do Evangelho. Como afirmava João Paulo II, a nova evangelização significa refazer o tecido cristão da sociedade humana, reconstruindo o tecido das mesmas comunidades cristãs; implica ajudar a Igreja a continuar a estar presente “no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas”[39], para animar a sua vida e encaminhá-la para o Reino que vem.

84. Uma outra reflexão deve ser feita sobre a questão da falta de clero: todos os textos lamentam a insuficiência numérica do clero, que consequentemente não consegue assumir de modo sereno e eficaz a gestão desta transformação do modo de ser Igreja. Algumas respostas desenvolvem uma análise detalhada do problema, lendo esta crise em paralelo à análoga crise do matrimónio e das famílias cristãs. Em muitas respostas afirma-se a necessidade de pensar uma organização local da Igreja que integre sempre mais, a par da figura dos presbíteros, figuras laicais na animação das comunidades. Várias respostas, sobre problemáticas semelhantes, esperam do debate sinodal palavras clarificadoras e perspectivas para o futuro. Quase todas as respostas contêm, por fim, um convite a activar em toda a Igreja uma forte pastoral vocacional, que parta da oração, responsabilize todos os sacerdotes e consagrados, solicitando-lhes um estilo que saiba testemunhar o fascínio do chamamento recebido, saiba individuar modos de falar aos jovens. Isto refere-se também às vocações à vida consagrada, especialmente as femininas. Algumas respostas também sublinharam a importância de uma formação adequada nos seminários e noviciados, bem como nos centros académicos, tendo em vista a nova evangelização.

Uma definição e o seu significado

85. A convocação da Assembleia sinodal e, imediatamente depois, a criação do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização constituem uma etapa ulterior no processo de aperfeiçoamento do significado atribuído a este termo. Dirigindo-se a este Pontifício Conselho, o Papa Bento XVI precisa assim o conteúdo do termo “nova evangelização”: “assumindo a preocupação dos meus venerados Predecessores, considero oportuno oferecer respostas adequadas a fim de que a Igreja inteira, deixando-se regenerar pela força do Espírito Santo, se apresente ao mundo contemporâneo com um impulso missionário capaz de promover uma nova evangelização. Ela refere-se principalmente às Igrejas de antiga fundação [...]: não é difícil compreender que aquilo de que têm necessidade todas as Igrejas que vivem em territórios tradicionalmente cristãos é um renovado impulso missionário, expressão de uma nova e generosa abertura ao dom da graça”[40]. Entretanto, na esteira da Redemptoris missio [41], também a Congregação para a Doutrina da Fé interveio para determinar o sentido do conceito de nova evangelização, com a definição – “num sentido próprio é a missio ad gentes dirigida àqueles que não conhecem Cristo. Num sentido mais lato fala-se de «evangelização», relativo ao aspecto ordinário da pastoral, e de «nova evangelização», relativo àqueles que deixaram a praxis cristã”[42] – recuperada depois pela Exortação Apostólica Pós-Sinodal Africae munus [43].

86. A partir destes textos, vemos que o espaço geográfico onde se desenvolve a nova evangelização refere-se primariamente, sem ser exclusivo, ao Ocidente cristão. Do mesmo modo, os destinatários da nova evangelização estão suficientemente identificados: trata-se daqueles baptizados das nossas comunidades que vivem uma nova situação existencial e cultural, na qual a sua fé e o seu testemunho estão comprometidos. A nova evangelização consiste em imaginar situações, espaços de vida, acções pastorais que permitam a estas pessoas saírem do “deserto interior”, imagem utilizada pelo Papa Bento XVI para representar a actual condição humana, refém de um mundo que praticamente eliminou a questão de Deus do próprio horizonte. Ter a coragem de trazer a questão de Deus para este mundo; ter a coragem de dar novamente qualidade e motivos à fé de muitas das nossas Igrejas de antiga fundação, é esta a tarefa específica da nova evangelização.

87. Todavia, uma tal definição tem valor de exemplaridade mais do que exaustividade. Assume o Ocidente como lugar exemplar, e não como o único objectivo da inteira actividade da nova evangelização. Serve para nos ajudar a compreender a profunda tarefa da nova evangelização, que não pode ser reduzida a um simples exercício de actualização de algumas práticas pastorais, mas, pelo contrário, reclama o desenvolvimento de uma compreensão muito séria e profunda das causas que levaram o Ocidente cristão a encontrar-se numa semelhante situação.

Mas, a urgência da nova evangelização não pode ser reduzida a estas situações. Como afirma o Papa Bento XVI, dirigindo-se à Igreja africana, “não são raras, mesmo na África, as situações que requerem uma nova apresentação do Evangelho, «nova no seu entusiasmo, nos seus métodos e nas suas expressões». [...] A nova evangelização é uma tarefa urgente para os cristãos na África, porque também eles devem reavivar o seu entusiasmo de pertencer à Igreja. Sob a inspiração do Espírito do Senhor ressuscitado, são chamados a viver, a nível pessoal, familiar e social, a Boa Nova e a anunciá-la, com renovado zelo, às pessoas vizinhas e distantes, empregando para a sua difusão os novos métodos que Providência divina põe à nossa disposição”[44]. Afirmações semelhantes, naturalmente aplicadas de acordo com as situações particulares, valem para os cristãos na América, na Ásia, na Europa e na Oceânia, continentes onde a Igreja, desde há muito tempo, está empenhada na promoção da nova evangelização.

88. A nova evangelização é o nome que se dá a esta renovação espiritual, a este início de um movimento de conversão que a Igreja pede a si mesma, a todas as suas comunidades, a todos os seus baptizados. Assim, é uma realidade que não diz respeito apenas a determinadas regiões bem definidas, mas é a estrada que permite explicar e colocar em prática a herança apostólica para o nosso tempo. Com a nova evangelização, a Igreja deseja introduzir no mundo de hoje, e na hodierna discussão, a sua temática mais originária e específica: ser o lugar onde já se faz a experiência de Deus, onde, sob a orientação do Espírito do Ressuscitado, deixamo-nos transfigurar pelo dom da fé. O Evangelho é sempre o novo anúncio da salvação operada por Cristo, para tornar a humanidade participante do mistério de Deus e da sua vida de amor e abri-la a um futuro de esperança confiável e forte. Sublinhar que, neste momento da História, a Igreja é chamada a realizar uma nova evangelização significa intensificar a acção missionária para corresponder plenamente ao mandato do Senhor.

89. Não existe nenhuma situação eclesial que se possa sentir-se excluída de um semelhante programa: as antigas Igrejas cristãs, antes de mais, com o problema do abandono da fé por parte de muitos. Tal fenómeno, embora em menor escala, regista-se também nas novas Igrejas, sobretudo nas grandes cidades e em alguns sectores que têm um influxo cultural e social determinantes. As novas metrópoles que estão a surgir e a crescer rapidamente, sobretudo nos países em vias de desenvolvimento, são um grande desafio social e cultural e, seguramente, um terreno propício para a nova evangelização. A nova evangelização, portanto, diz respeito também às jovens Igrejas, empenhadas em experiências de inculturação e que necessitam de contínuas verificações para conseguirem introduzir o Evangelho, o qual purifica e eleva aquelas culturas e, sobretudo, abre-as à sua novidade. De um modo mais abrangente, todas as comunidades cristãs têm necessidade de uma nova evangelização, porque estão empenhadas no exercício de uma cura pastoral que parece cada vez mais difícil de gerir e que corre o risco de transformar-se numa actividade repetitiva, pouco capaz de comunicar as razões pelas quais nasceu.

 

TERCEIRO CAPÍTULO

TRANSMITIR A FÉ

“Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna,
à fracção do pão e às orações. [...]Como se tivessem uma só alma,
 frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas
 e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração.
Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo.
 E o Senhor aumentava, todos os dias, o número dos que tinham entrado
 no caminho da salvação” (Act 2, 42. 46-47).

 

90. O objectivo da nova evangelização é a transmissão da fé, como indica o tema da Assembleia sinodal. As palavras do concílio Vaticano II recordam-nos que se trata de uma dinâmica muito complexa, que envolve totalmente a fé dos cristãos e a vida da Igreja na experiência da revelação de Deus: “Deus dispôs amorosamente que permanecesse integro e fosse transmitido a todas as gerações tudo quanto tinha revelado para salvação de todos os povos”[45]; “A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da palavra de Deus, confiado à Igreja; aderindo a este, todo o Povo santo persevera unido aos seus pastores na doutrina dos Apóstolos e na comunhão, na fracção do pão e na oração (cf. Act 2, 42 gr.), de tal modo que, na conservação, actuação e profissão da fé transmitida, haja uma especial concordância dos pastores e dos fiéis”[46].

91. Como lemos nos Actos dos Apóstolos, não se pode transmitir aquilo em que não se crê e não se vive. Não se pode transmitir o Evangelho sem ter como substracto uma vida modelada pelo Evangelho e que encontra no Evangelho o seu sentido, a sua verdade e o seu futuro. Tal como para os Apóstolos, também para nós é a comunhão vivida com o Pai, em Jesus Cristo, graças ao seu Espírito, que hoje nos transfigura e nos torna capazes de irradiar a fé que vivemos e suscitar a resposta naqueles a quem o Espírito já preparou com a sua visita e a sua acção (cf. Act 16, 14). Para proclamar fecundamente a Palavra do Evangelho, é requerida a profunda comunhão entre os filhos de Deus, sinal distintivo e anunciador, como nos recorda o apóstolo João: “Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 34-35).

92. Uma semelhante tarefa de anúncio e de proclamação não está reservada apenas a alguns, a poucos eleitos. É um dom oferecido a todo o homem que responde ao chamamento da fé. A transmissão da fé não é uma acção reservada a um indivíduo singular deputado propositadamente para o efeito. É tarefa de todo o cristão e de toda a Igreja, que nesta acção redescobre continuamente a sua própria identidade de povo reunido pelo chamamento do Espírito, para viver a presença de Cristo entre nós, e descobrir, deste modo, o verdadeiro rosto de Deus, que é nosso Pai.

A transmissão da fé, que é acção fundamental da Igreja, leva as comunidades cristãs a articularem com precisão as obras fundamentais da vida de fé: caridade, testemunho, anúncio, celebração, escuta, partilha. É preciso conceber a evangelização como o processo, através do qual, a Igreja, animada pelo Espírito, anuncia e difunde o Evangelho em todo o mundo; animada pela caridade, permeia e transforma toda a ordem temporal, assumindo e renovando as culturas. Proclama explicitamente o Evangelho, chamando à conversão. Mediante a catequese e os sacramentos da iniciação, acompanha aqueles que se convertem a Jesus Cristo, ou então aqueles que retomam o caminho do Seu seguimento, incorporando-os e reconduzindo-os à comunidade cristã. Alimenta constantemente o dom da comunhão entre os fiéis mediante a doutrina da fé, os sacramentos e o exercício da caridade. Suscita continuamente a missão, enviando todos os discípulos de Cristo a anunciar o Evangelho, com palavras e obras, em todo o mundo. A Igreja, na sua tarefa de discernimento necessário à nova evangelização, descobre que, em muitas comunidades, a transmissão da fé necessita de um novo vigor.

O primado da fé

93. A proclamação do Ano da Fé, realizada por Papa Bento XVI, recorda a análoga decisão de Paulo VI, em 1967, fazendo das suas motivações as mesmas de então. O objectivo daquela iniciativa era encorajar em toda a Igreja um autêntico entusiasmo em professar o Credo. Uma profissão que fosse “individual e colectiva, livre e consciente, interior e exterior, humilde e franca”[47]. Bem consciente das graves dificuldades do seu tempo, sobretudo referente à profissão da verdadeira fé e à sua recta interpretação, o Papa Paulo VI pensava que, desse modo, a Igreja pudesse acolher um forte impulso a uma renovação profunda, interior e missionária.

94. O Papa Bento XVI caminha na mesma perspectiva, ao pedir que o Ano da Fé sirva para confirmar que os conteúdos essenciais, que desde há séculos constituem o património de todos os crentes, têm necessidade de serem confirmados e aprofundados de um modo sempre renovado, com o intuito de dar-nos testemunhos coerentes em condições históricas diferentes daquelas do passado. Existe o risco que a fé, a qual introduz à vida de comunhão com Deus e permite o ingresso na Sua Igreja, não mais seja entendida no seu sentido profundo, não seja assumida e vivida pelos cristãos como o instrumento que transforma a vida, com o grande dom da filiação de Deus na comunhão eclesial.

95. As respostas aos Lineamenta confirmam a seriedade de tal risco e lamentam as dificuldades de tantas comunidades na educação a uma fé adulta. Não obstante os esforços realizados nestes decénios, mais do que uma resposta dá a impressão que esta tarefa de educar a uma fé adulta está ainda no início. Os principais obstáculos à transmissão da fé são semelhantes um pouco por todo o lado. Trata-se de obstáculos internos à Igreja, à vida cristã: uma fé vivida em modo privado e passivo; o não sentir a necessidade de uma educação da própria fé; uma separação entre a fé e a vida. Das respostas recebidas, é possível redigir também um elenco dos obstáculos que, vindos de fora da vida cristã, em particular na cultura, tornam a vida de fé, e a sua transmissão, precária e difícil: o consumismo e o hedonismo; o niilismo cultural; o fechamento à transcendência que elimina qualquer necessidade de salvação. A reflexão sinodal poderá regressar a estes diagnósticos para ajudar as comunidades cristãs a encontrarem os remédios adequados para estes males.

96. Todavia, notam-se também sinais de um futuro melhor, que possibilitam entrever um renascer da fé. A existência de iniciativas de sensibilização e de formação nas Igrejas particulares, como também o exemplo de comunidades de vida consagrada e de grupos e movimentos, são descritos nas respostas como o caminho que permite devolver à fé aquele primado que as espera.

 Esta transformação tem como primeiro efeito benéfico um aumento da qualidade da vida cristã da própria comunidade e uma maturação dos indivíduos que dela fazem parte. Considerar a própria fé como experiência de Deus e centro da nossa vida, é o objectivo que muitas Igrejas particulares ligam à celebração do Sínodo sobre a nova evangelização para a transformação da vida quotidiana.

A Igreja transmite a fé que ela mesma vive

97. O melhor lugar para a transmissão da fé é uma comunidade nutrida e transformada pela vida litúrgica e pela oração. Existe uma relação intrínseca entre a fé e a liturgia: “lex orandi lex credendi”. “Sem a liturgia e os sacramentos, a profissão de fé não seria eficaz, porque faltaria a graça que sustenta o testemunho dos cristãos”[48]. “A Liturgia, pela qual, especialmente no sacrifício eucarístico, se opera o fruto da nossa Redenção, contribui em sumo grau para que os fiéis exprimam na vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja. [...] Por isso, assim como Cristo foi enviado pelo Pai, assim também Ele enviou os Apóstolos, cheios do Espírito Santo, não só para que, pregando o Evangelho a toda a criatura, anunciassem que o Filho de Deus, pela sua morte e ressurreição, nos libertara do poder de Satanás e da morte e nos introduzira no Reino do Pai, mas também para que realizassem a obra de salvação que anunciavam, mediante o sacrifício e os sacramentos, à volta dos quais gira toda a vida litúrgica”[49].

A este respeito, as respostas aos Lineamenta mostraram todos os esforços realizados para ajudar as comunidades cristãs a viverem a natureza profunda da liturgia. Nas comunidades cristãs, a liturgia e a vida de oração transformam um simples grupo humano numa comunidade que celebra e transmite a fé trinitária em Deus Pai e Filho e Espírito Santo.

As duas anteriores Assembleias Gerais Ordinárias, que tinham como tema a Eucaristia e a Palavra de Deus na vida da Igreja, foram vividas como uma preciosa ajuda para continuar frutuosamente a recepção e o desenvolvimento profícuo da reforma litúrgica iniciada com o concílio Vaticano II. Elas lembraram a centralidade do mistério eucarístico e a Palavra de Deus para a vida da Igreja.

Neste contexto, várias respostas centram-se na importância da lectio divina. A lectio divina (pessoal e comunitária) apresenta-se naturalmente como espaço de evangelização: é oração que oferece um amplo espaço para a escuta da Palavra de Deus, reconduzindo deste modo a vida de fé e de oração à sua fonte inesgotável, Deus que fala, chama, interpela, orienta, ilumina, julga. Se “a fé surge da pregação” (Rm 10, 17), a escuta da Palavra de Deus é, para o crente, e para a Igreja no seu todo, um instrumento, tão poderoso quanto simples, de evangelização e de renovação na graça de Deus.

98. As respostas, contudo, revelam a existência de comunidades cristãs que conseguiram redescobrir o profundo valor da acção litúrgica, que é ao mesmo tempo culto divino, anúncio do Evangelho e caridade em acção.

A atenção de muitas respostas focalizou-se sobretudo no sacramento da reconciliação, que quase desapareceu da vida de tantos cristãos. Foi apreciada muito positivamente, por várias respostas, a celebração deste sacramento em momentos extraordinários: nas Jornadas Mundiais da Juventude, nas peregrinações aos santuários, embora nem mesmo estes gestos consigam influir positivamente na prática da reconciliação sacramental.

99. Também o tema da oração foi objecto de reflexão nas respostas aos Lineamenta, sublinhando por um lado os elementos positivos verificados: discreta difusão da celebração da liturgia das horas (nas comunidades cristãs, mas também rezada pessoalmente); redescoberta da adoração eucarística como fonte de oração pessoal; difusão dos grupos de escuta e de oração com a Palavra de Deus; difusão espontânea de grupos de oração mariana, carismática ou devocional. Mais complexo é, todavia, o juízo que as respostas aos Lineamenta expressaram sobre a relação entre a celebração da fé cristã e as formas de piedade popular: reconhece-se alguns benefícios derivados desta ligação, denuncia-se o perigo do sincretismo e de uma depreciação da fé.

A pedagogia da fé

100. Fiel ao Senhor, desde os inícios da sua história, a Igreja assumiu a veracidade dos textos bíblicos e experimentou-a nos ritos, reunida na síntese e na regra de fé que é o Símbolo, traduzida nas orientações de vida, vivida numa relação filial com Deus. Tudo isto recordou o Papa Bento XVI na carta com que proclamou o Ano da Fé, quando, ao citar a Constituição Apostólica com a qual é promulgado o Catecismo da Igreja Católica, afirma que, para poder ser transmitida, a fé deve ser “professada, celebrada, vivida e pregada”[50].

Assim, partindo do fundamento das Escrituras, a tradição eclesial criou uma pedagogia da transmissão da fé, que desenvolveu nos quatro grandes temas do Catecismo Romano: o Credo, os sacramentos, os mandamentos e a oração do Pai Nosso. Por um lado, os mistérios da fé em Deus Uno e Trino, tal como são confessados (Símbolo) e celebrados (sacramentos); por outro lado, a vida humana, em conformidade com essa fé (uma fé operante por meio do amor), que se concretiza no modo cristão de viver (Decálogo) e na oração filial (o Pai Nosso). Estes mesmos títulos constituem, hoje, o esquema geral do Catecismo da Igreja Católica [51].

101. O Catecismo da Igreja Católica é-nos entregue como instrumento de uma dupla acção: encerra os conteúdos fundamentais da fé e, ao mesmo tempo, indica a pedagogia da sua transmissão. A sua finalidade é levar todo o crente a viver a fé na sua totalidade, que é contemporaneamente oferta de verdade e de adesão à mesma. A fé é essencialmente um dom de Deus que provoca o abandono de si ao Senhor Jesus. Assim, a adesão ao conteúdo da fé torna-se um horizonte, a decisão de seguir Jesus e de conformar a própria vida à Sua, como explica bem o apóstolo Paulo. Ele permite-nos entrar nesta profunda estrutura pedagógica da fé: “Acreditar de coração leva a obter a justiça, e confessar com a boca leva a obter a salvação” (Rm 10, 10). “Existe uma unidade profunda entre o acto com que se crê e os conteúdos a que damos o nosso assentimento. [...] O conhecimento dos conteúdos que se deve acreditar não é suficiente, se depois o coração [...] não for aberto pela graça, que consente ter olhos para ver em profundidade e compreender que o que foi anunciado é a Palavra de Deus”[52].

Este apelo atento à estrutura e ao significado profundo do Catecismo da Igreja Católica, do qual decorre o vigésimo aniversário da sua publicação, serve para dotar a reflexão sinodal de instrumentos adequados à realização de um discernimento sobre o enorme esforço que a Igreja empenhou, nestes decénios, na renovação da sua catequese. A um nível descritivo, as respostas aos Lineamenta evidenciam os avanços que se fizeram para rever e estruturar, cada vez melhor, a catequese e os percursos de educação à fé. Mencionam-se os projectos elaborados, os textos editados, as iniciativas realizadas para formar os catequistas, não apenas na utilização de novos instrumentos mas também à maturação de uma compreensão mais abrangente da sua missão.

102. As avaliações fornecidas são genericamente positivas: trata-se de um esforço ingente, operado a muitos níveis pela Igreja (Sínodos dos Bispos das Igrejas Orientais Católicas sui iuris, Conferências Episcopais, centros diocesanos ou eparquias, comunidades paroquiais, catequistas, institutos de teologia e de pastoral), cujo êxito resulta da maturação de todo o seu corpo numa fé mais consciente e participada. As respostas revelam que a Igreja dispõe de meios necessários para transmitir a fé, cujo uso activo e também criticamente vigiado é agilizado pela publicação do Catecismo da Igreja Católica. A sua publicação possibilitou às Igrejas Orientais Católicas e às Conferências Episcopais terem um ponto de referência que permitisse dar unidade e clareza de direcção à acção catequética da Igreja.

103. As respostas contêm ainda uma avaliação de todo este esforço realizado para dar, hoje, razões da nossa fé. É perceptível que a transmissão da fé, não obstante os copiosos esforços, depara-se com vários obstáculos, sobretudo nas transformações céleres por parte da cultura, a qual se tornou mais agressiva em relação à fé cristã. Depois, alude-se também a tantas frentes abertas do desenvolvimento do saber e da tecnologia. Insiste-se, por fim, no facto que a catequese é agora vista como preparação às várias etapas sacramentais, mais do que educação permanente da fé dos cristãos.

104. O processo de secularização da cultura também evidenciou que os vários métodos de catequese são um sinal de vitalidade, mas nem sempre permitiram uma plena maturação para transmitir a fé. A reflexão sinodal deverá, portanto, continuar a missão do anterior Sínodo sobre a catequese: realizar, hoje, uma transmissão da fé que incarne a lei fundamental da catequese, a da dupla fidelidade a Deus e ao Homem, numa idêntica atitude de amor[53]. O Sínodo interrogar-se-á sobre o modo de realizar uma catequese que seja integral, orgânica, que transmita fielmente o núcleo da fé e, ao mesmo tempo, saiba falar aos homens de hoje, nas suas culturas, escutando as suas questões, animando a sua procura da verdade, do bem e da beleza.

Os sujeitos da transmissão da fé

105. O sujeito da transmissão da fé é toda a Igreja, que se manifesta nas Igrejas particulares, Eparquias e Dioceses. O anúncio, a transmissão e a experiência vivida do Evangelho realizam-se nelas. Para além disso, as mesmas Igrejas particulares, além de sujeito, são também o fruto desta acção de anúncio do Evangelho e de transmissão da fé, como nos recorda a experiência das primeiras comunidades (cf. Act 2, 42-47): o Espírito congrega os crentes em torno das comunidades que vivem intensamente a sua fé, nutrindo-se da escuta da Palavra dos Apóstolos e da Eucaristia, e gastam as suas vidas no anúncio do Reino de Deus. O Concílio Vaticano II acolhe esta descrição como fundamento da identidade de toda a comunidade cristã, ao afirmar que “a Igreja de Cristo está verdadeiramente presente em todas as legítimas comunidades locais de fiéis, as quais aderindo aos seus pastores, são elas mesmas chamadas igrejas no Novo Testamento. Pois elas são, no local em que se encontram, o novo Povo chamado por Deus, no Espírito Santo e com plena segurança (cfr. 1 Tess 1, 5). Nelas se congregam os fiéis pela pregação do Evangelho de Cristo e se celebra o mistério da Ceia do Senhor para que o corpo da inteira fraternidade seja unido por meio da carne e sangue do Senhor”[54].

106. A vida concreta das nossas Igrejas pôde assistir, no âmbito da transmissão da fé, e mais genericamente no anúncio do Evangelho, uma realização concreta, e muitas vezes exemplar, desta afirmação conciliar. As respostas destacaram muito o facto de o número de cristãos que nos últimos decénios se empenhou espontaneamente e gratuitamente nesta missão ter sido, na verdade, notável e cunhado a vida das comunidades como um verdadeiro dom do Espírito. As acções pastorais ligadas à transmissão da fé permitiram à Igreja estruturar-se em vários contextos sociais locais, mostrando a riqueza e a variedade dos ministérios que a compõem e animam a sua vida quotidiana. Pôde-se, assim, compreender de um modo renovado a participação, junto do bispo, das comunidades cristãs e dos diferentes sujeitos envolvidos (presbíteros, pais, religiosos, catequistas), cada um com a sua tarefa e competência específica.

107. Como já pudemos sublinhar, o anúncio do Evangelho e a transmissão da fé podem tornar-se num estímulo positivo para as transformações mais relevantes das comunidades paroquiais. As respostas pedem que a paróquia seja o elemento central da nova evangelização. Ela é comunidade de comunidades, e não apenas administradora de serviços religiosos, mas espaço de encontro para as famílias, promotora de grupos de leitura da Palavra e de renovado empenho laical, lugar onde se faz uma verdadeira experiência de Igreja, graças a uma acção sacramental vivida no seu significado mais genuíno. Os padres sinodais deveriam aprofundar esta vocação da paróquia, que é ponto de referência e de coordenação de um amplo espectro de realidades e iniciativas pastorais.

108. A tarefa de transmitir a fé e de educar à vida cristã, para além do papel insubstituível da comunidade cristã no seu todo, diz respeito a muitos cristãos. As respostas apelam, antes de mais, aos catequistas. Assume-se o dom recebido por tantos cristãos que gratuitamente, e a partir da sua fé, dão um contributo singular e insubstituível para o anúncio do Evangelho e da transmissão da fé, sobretudo nas Igrejas evangelizadas há pouco séculos. A nova evangelização requer um maior compromisso da parte deles e da parte da Igreja nas mais diversas ocasiões, tal como sublinham algumas respostas. Os catequistas são testemunhas directas e evangelizadores insubstituíveis, que representam a força basilar das comunidades cristãs. Têm necessidade que a Igreja reflicta com maior profundidade sobre a sua missão, dando-lhes maior estabilidade, visibilidade ministerial e formação. Partindo destas premissas, solicita-se à Assembleia sinodal que, assumindo a reflexão já iniciada nestes decénios, se interrogue sobre a possibilidade de configurar, para o catequista, um ministério estável e instituído dentro da Igreja. Neste momento de forte revitalização do anúncio e da transmissão da fé, uma decisão deste tipo seria entendida como um recurso e um apoio muito forte para a nova evangelização à qual toda a Igreja é chamada.

109. Várias respostas destacam o importante papel dos diáconos e de tantas mulheres que se dedicam à catequese. Estas constatações positivas são acompanhadas, em diversas respostas, por observações que também exprimem preocupações. Regista-se nos últimos anos, em consequência da diminuição numérica dos padres e da necessidade de acompanharem um maior número de comunidades cristãs, a delegação cada vez mais generalizada da catequese aos leigos. As respostas auspiciam que a reflexão sinodal possa ajudar a compreender as mudanças que estão a acontecer no modo de viver, hoje, a identidade presbiteral. Assim, será possível orientar estas mutações, salvaguardando a identidade específica e insubstituível do ministério sacerdotal no campo da evangelização e da transmissão da fé. De um modo mais amplo, será útil que a reflexão sinodal ajude as comunidades cristãs a darem um novo sentido missionário ao ministério dos presbíteros, dos diáconos e dos catequistas que estão presentes e colaboram nas comunidades.

A família, lugar exemplar de evangelização

110. De entre os agentes da transmissão da fé, as respostas dão amplo destaque à figura da família. Por um lado, a mensagem cristã sobre o matrimónio e a família é um grande dom que faz da família um lugar exemplar de testemunho da fé, dada a sua capacidade profética de viver os valores fundamentais da experiência cristã: dignidade e complementaridade do homem e da mulher, criados à imagem de Deus (cf. Gn 1, 27), abertura à vida, partilha e comunhão, dedicação aos mais frágeis, atenção à educação, confiança em Deus como fonte do amor que une. Muitas Igrejas particulares insistem e investem energias na pastoral familiar, precisamente nesta perspectiva missionaria e testemunhal. 

111. Por outro lado, a família, para a Igreja, tem a responsabilidade de educar e transmitir a fé cristã desde o início da vida humana. Daqui nasce a profunda ligação entre a Igreja e a família, com a ajuda que a Igreja deseja dar à família e a ajuda que se espera da família. Muitas vezes, as famílias estão imersas em fortes tensões por causa dos ritmos de vida, do trabalho cada vez mais incerto, da precariedade galopante, da fadiga da responsabilidade educativa que cada vez é mais árdua. As próprias famílias que tomaram consciência das suas dificuldades sentem a necessidade da ajuda da comunidade, do acolhimento, da escuta e do anúncio do Evangelho, do acompanhamento na sua missão educativa. O objectivo comum é que a família tenha um papel cada vez mais activo no processo de transmissão da fé.

112. As respostas dão conta das dificuldades e necessidades que emergem de várias famílias hodiernas, incluindo as cristãs: a necessidade de apoio expresso, de modo cada vez mais evidente, em várias situações de dor e de fracasso no educar à fé, sobretudo as crianças. Várias respostas abordam a constituição de grupos de famílias (locais ou ligados a experiências e movimentos eclesiais) animados pela fé cristã. Ela permitiu a tantos casais enfrentarem melhor as dificuldades que vieram ao seu encontro, dando assim um testemunho claro da fé cristã.

113. Estes grupos de famílias, de acordo com muitas respostas, são um exemplo dos frutos que o anúncio da fé gera nas nossas comunidades cristãs. As respostas a este respeito demonstram um certo optimismo na capacidade que muitas comunidades cristãs têm, apesar da situação de provisoriedade e de precariedade em que se encontram, na fidelidade à celebração comum da sua fé, a disponibilidade, ainda que limitada em recursos, para acolher os pobres e viver um testemunho evangélico simples e quotidiano.

Chamados a evangelizar

114. Como dom a acolher com gratidão, as respostas mencionam a vida consagrada. Reconhece-se a importância, em vista à transmissão da fé e ao anúncio do Evangelho, das grandes ordens religiosas e de tantas formas de vida consagrada, em particular das ordens mendicantes, dos institutos apostólicos e dos institutos seculares, com o seu carisma profético e evangelizador, mesmo em momentos de dificuldade e de revisão do seu estilo de vida. Esta sua presença, por vezes escondida, é vista, todavia, numa óptica de fé, como fonte de muitos frutos espirituais em favor do mandato missionário que a Igreja é chamada a viver no momento presente. Muitas Igrejas locais reconhecem a importância deste testemunho profético do Evangelho, fonte de tantas forças para a vida de fé das comunidades cristãs e de tantos baptizados.

Muitas respostas auspiciam que a vida consagrada dê um contributo essencial à nova evangelização, em particular no campo da educação, da saúde, da cura pastoral, sobretudo para com os pobres e as pessoas mais necessitadas de auxílio espiritual e material.

Neste contexto, é também reconhecido o precioso suporte à nova evangelização vindo da vida contemplativa, sobretudo dos mosteiros. A relação entre monaquismo, contemplação e evangelização é consistente e portadora de frutos, como demonstra a história. Tal experiência é o coração da vida da Igreja que mantém viva a essência do Evangelho, o primado da fé e a celebração da liturgia, dando um sentido ao silêncio e a qualquer outra actividade para a glória de Deus.

115. O despontar gratuito e carismático, nestes decénios, de grupos e movimentos dedicados prioritariamente ao anúncio do Evangelho é outro dom da Providência à Igreja. Olhando para essas múltiplas respostas, encontramos os elementos essenciais do estilo que as comunidades e os cristãos deveriam hoje assumir para darem razões da sua fé. Trata-se das qualidades daqueles que poderíamos definir como os “novos evangelizadores”: capacidade de viver e de motivar as próprias opções de vida e valores; desejo de professar publicamente a sua fé, sem medos nem falsos pudores; procura activa de momentos de comunhão vividos na oração e nas relações fraternas; preferência espontânea pelos pobres e excluídos; paixão pela educação das jovens gerações.

116. Esta forte referência ao tema dos carismas, visto como um importante recurso para a nova evangelização, exige que a reflexão sinodal aprofunde melhor esta problemática, não se deixando ficar simplesmente pela constatação destes recursos, mas colocando-se o problema da integração das suas acções na vida da Igreja missionária. Foi pedido que a Assembleia sinodal abordasse a relação entre carisma e instituição, entre dons carismáticos e dons hierárquicos[55] na vida concreta das dioceses, na sua tensão missionária. Poder-se-ia, deste modo, eliminar aqueles obstáculos que algumas respostas denunciaram e que não permitem integrar plenamente os carismas, com a finalidade de auxiliar a nova evangelização. Poder-se-ia desenvolver o tema de uma “co-essencialidade” - sugerem insistentemente as respostas - destes dons do Espírito à vida e à missão da Igreja, na perspectiva da nova evangelização[56]. Dessa reflexão seria depois possível obter instrumentos pastorais mais incisivos que melhor valorizem os recursos carismáticos.

117. Nas respostas, o nascimento destas novas experiências e formas de evangelização é lido em linha de continuidade com a experiência de grandes movimentos, instituições e associações de evangelização, como é, por exemplo, a Acção Católica, que surgiram ao longo da história do cristianismo. Os elementos que possibilitam estas obras são vistos na linha da radicalidade evangélica que anima este tipo de experiência e a sua vocação profética ao anúncio do Evangelho. Do fascínio que sabem exercer e do estilo alegre da sua vida nasce o dom das vocações. Em mais do que num caso, refere-se que algumas formas históricas de vida consagrada e destes novos movimentos promoveram uma partilha recíproca de dons.

Dar razões da própria fé

118. O contexto em que nos encontramos requer que se explicite e active a missão de anunciar e de transmitir a fé que compete a todo o cristão. Em mais do que numa resposta, afirma-se que, hoje, a primeira prioridade da Igreja é o dever de despertar a identidade baptismal de cada um, para que saiba ser verdadeiro testemunho do Evangelho, saiba dar razão da própria fé. Todos os fiéis, em força do sacerdócio comum[57] e da sua participação na função profética[58] de Cristo, estão plenamente envolvidos nesta missão da Igreja. Aos fiéis leigos toca, em particular, testemunhar o modo como a fé cristã constitui uma resposta aos problemas existenciais que a vida coloca em cada tempo e em cada cultura e que, por isso, interessa a todo o ser humano, mesmo agnóstico ou não crente. Isto será possível se se superar o fosso entre o Evangelho e a vida, reconstruindo na quotidiana actividade da família, do trabalho e da sociedade a unidade de uma vida que encontra no Evangelho a inspiração e a força para realizar-se em plenitude[59].

119. É necessário que cada cristão sinta-se interpelado por esta tarefa que a identidade baptismal lhe confia, que se deixe guiar pelo Espírito, segundo a própria vocação, na resposta a tal missão. Num tempo em que a escolha da fé e do seguimento de Cristo é menos acessível e pouco compreensível pelo mundo, senão mesmo contrastada e hostilizada, aumenta a missão da comunidade e dos cristãos individuais em serem testemunhas intrépidas do Evangelho. A lógica de semelhante comportamento é sugerida pelo apóstolo Pedro quando nos convida a darmos razões, a responder a quem nos pede razões da esperança que está em nós (cf. 1 Pe 3, 15). Uma nova estação para o testemunho da nossa fé, novas formas de resposta (apo-logia) a quem nos pede o logos, a razão da nossa fé, são as estradas que o Espírito indica às nossas comunidades cristãs. Isto serve para nos renovarmos a nós mesmos, para tornar presente de modo mais incisivo no mundo em que vivemos a esperança e a salvação que nos deu Jesus Cristo. Trata-se de aprender um novo estilo, de responder “com mansidão e respeito, com uma recta consciência” (1 Pe 3, 16). É um convite a viver com aquela força suave que nos vem da nossa identidade de filhos de Deus, da união com Cristo no Espírito, da novidade que esta união gerou em nós, e com aquela determinação de quem sabe ter como meta o encontro com Deus Pai no seu Reino.

120. Este estilo deve ser integral, que abrace o pensamento e a acção, os comportamentos pessoais e o testemunho público, a vida interna das nossas comunidades e o seu zelo missionário. Assim se confirma a atenção educativa e a dedicação primorosa aos pobres, a capacidade de cada cristão em tomar a palavra nos ambientes onde vive e trabalha para comunicar o dom cristão da esperança. Este estilo deve fazer seu o ardor, a confiança e a liberdade de palavra (a parresia) que se manifestavam na pregação dos Apóstolos (cf. Act 4, 31; 9, 27-28). É este o estilo que coloca cada um de nós em jogo, como nos recorda Paulo VI: “ao lado da proclamação geral para todos do Evangelho, uma outra forma da sua transmissão, de pessoa a pessoa, continua a ser válida e importante. [...] Importaria, pois, que a urgência de anunciar a Boa Nova às multidões de homens, nunca fizesse esquecer esta forma de anúncio, pela qual a consciência pessoal de um homem é atingida, tocada por uma palavra realmente extraordinária que ele recebe de outro”[60].

121. Nesta perspectiva, o convite que nos foi endereçado no Ano da Fé a uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo, é uma oportunidade para aproveitarmos ao máximo, de modo a que cada comunidade cristã, cada baptizado, possa ser o ramo que, levando fruto, é podado “para que dê mais fruto ainda” (Jo 15, 2); e possa assim enriquecer o mundo e a vida dos homens com os dons da vida nova plasmada na radical novidade da ressurreição. Na medida da sua livre disponibilidade, os pensamentos e os afectos, a mentalidade e o comportamento do homem são lentamente purificados e transformados, num caminho nunca terminado plenamente nesta vida. A “fé que actua pelo amor” (Gal 5, 6) transforma-se num novo critério de inteligência e de acção que muda toda a vida do Homem (cf. Ef 4, 20-29), trazendo novos frutos.

Os frutos da fé

122. Os frutos que esta transformação, apenas possível graças à vida de fé, gera no seio da Igreja como sinal da força vivificante do Evangelho ganham forma no confronto com os desafios do nosso tempo. As respostas indicam, do seguinte modo, esses frutos: famílias que são um verdadeiro sinal de amor, de partilha e de esperança aberta à vida; comunidades dotadas de um verdadeiro espírito ecuménico; a coragem de apoiar iniciativas de justiça social e solidariedade; a alegria de oferecer a própria vida seguindo uma vocação ou uma consagração. A Igreja, que transmite a sua fé na nova evangelização, em todos estes ambientes mostra o Espírito que a guia e transfigura a história.

123. Tal como a fé se manifesta na caridade, assim a caridade sem a fé seria filantropia. Fé e caridade, no cristão, exigem-se à partida, dado que uma sustenta a outra. Em várias respostas, sublinhou-se o valor testemunhal de muitos cristãos que dedicam a sua vida com amor a quem está só, marginalizado ou excluído, porque precisamente nestas pessoas reflecte-se o rosto de Cristo. Graças à fé, podemos reconhecer em quantos pedem o nosso amor o rosto do Senhor ressuscitado: “Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes” (Mt 25, 40). É a fé que permite reconhecer Cristo; é o seu amor que impele a socorrê-lo todas as vezes que se faz nosso próximo no caminho da vida.

124. Sustentados pela fé, olhamos com esperança para o nosso compromisso com o mundo, na espera de “novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça” (2 Pe 3, 13). É o mesmo compromisso evangelizador a pedir-nos, como dizia Paulo VI, “de chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação” [61]. Muitas respostas pediam que se exortassem todos os baptizados a viverem com maior dedicação a tarefa específica de evangelizar, mesmo através da Doutrina Social da Igreja, vivendo a sua fé no mundo, procurando o verdadeiro bem de todos, no respeito e na promoção da dignidade de cada pessoa, até intervir directamente – particularmente os fieis leigos – na acção social e política.

A caridade é a linguagem onde, na nova evangelização, mais do que em palavras, se exprimem obras de fraternidade, de proximidade e de ajuda às pessoas com necessidades espirituais e materiais.

125. Fruto ulterior de uma Igreja que se deixa transfigurar pelo Evangelho de Jesus, pela sua presença, é um renovado compromisso ecuménico. A divisão entre os cristãos, como recorda o Concílio Vaticano II, é um contratestemunho: “esta divisão, porém, contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura” [62]. A superação das divisões é a condição indispensável para a plena credibilidade do seguimento de Cristo. Aquilo que une os cristãos é muito mais forte do que aquilo que os separa. Precisamos, portanto, estimular-nos reciprocamente na tentativa de viver com fidelidade o nosso testemunho do Evangelho, aprendendo a crescer na unidade. Neste sentido, como pedem muitas Igrejas particulares, a questão do ecumenismo é seguramente um dos frutos a esperar da nova evangelização, dado que ambas as acções se destinam a promover a comunhão no corpo visível da Igreja, para a salvação de todos.

126. Mesmo a tensão do homem para a verdade é um dos frutos que várias respostas esperam do impulso da nova evangelização. Constata-se que diversos sectores da cultura actual manifestam uma espécie de intolerância no confronto de tudo aquilo que é apresentado como verdade, em contraposição ao conceito moderno de liberdade entendido como autonomia absoluta, que encontra no relativismo a única forma de pensamento adequada à convivência entre as diversidades culturais e religiosas. A este respeito, muitas respostas recomendam que as nossas comunidades e os cristãos – em nome daquela verdade que nos torna livres (cf. Jo 8, 32) – saibam acompanhar os homens no caminho para a verdade, a paz e a defesa da dignidade de cada homem, contra toda a forma de violência e de supressão de direitos.

127. Uma prova de fogo de tais caminhos é seguramente o diálogo interreligioso, que não pode ter como condição a renúncia ao tema da verdade, que é um valor conatural à experiência religiosa: a procura de Deus é o acto que qualifica, em última instância, a liberdade do homem. Esta procura, contudo, é verdadeiramente livre quando se abre à verdade, a qual não se impõe com a violência, mas graças à força atractiva da própria verdade [63]. Como afirma o Concílio Vaticano II: “a verdade deve ser buscada pelo modo que convém à dignidade da pessoa humana e da sua natureza social, isto é, por meio de uma busca livre, com a ajuda do magistério ou ensino, da comunicação e do diálogo, com os quais os homens dão a conhecer uns aos outros a verdade que encontraram ou julgam ter encontrado, a fim de se ajudarem mutuamente na inquirição da verdade; uma vez conhecida esta, deve-se aderir a ela com um firme assentimento pessoal”[64]. Espera-se que o Sínodo releia o tema da evangelização, da transmissão da fé, à luz do princípio evidenciado pelo binómio verdade-liberdade [65].

128. Por fim, faz parte desta lógica do reconhecimento dos frutos também a coragem de denunciar as infidelidades e os escândalos que emergem das comunidades cristãs, como um sinal e consequência de uma quebra de tensão nesta missão de anúncio. É necessária a coragem de reconhecer as culpas, ao mesmo tempo que se continua a testemunhar Jesus Cristo e a contínua necessidade de se ser salvo. Como nos ensina o apóstolo Paulo, podemos olhar para as nossas fraquezas porque, deste modo, reconhecemos o poder de Cristo que nos salva (cf. 2 Cor 12, 9; Rm 7, 14s). A prática da penitência como conversão leva à purificação e à reparação das consequências dos erros, na certeza que a esperança que nos foi dada “não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 5). Tais perspectivas são fruto da transmissão da fé e do anúncio do Evangelho, que em primeiro lugar não deixa de renovar os cristãos, as suas comunidades, ao mesmo tempo que leva ao mundo o testemunho da fé cristã.

 

QUARTO CAPÍTULO

REAVIVAR A ACÇÃO PASTORAL

“Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai,
do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir
 tudo quanto vos tenho mandado”
(Mt 28, 19-20)

 

129. O mandamento de fazer discípulos em todos os povos e de os baptizar deu origem, em diferentes épocas da história da Igreja, a práticas pastorais ditadas pela vontade de transmitir a fé e pela necessidade de anunciar o Evangelho com a linguagem dos homens, enraizadas nas suas culturas e no meio deles [66]. Esta é uma lei expressa claramente pelo Concílio Vaticano II: a Igreja “desde os começos da sua história, a formular a mensagem de Cristo por meio dos conceitos e línguas dos diversos povos, e procurou ilustrá-la com o saber filosófico. Tudo isto com o fim de adaptar o Evangelho à capacidade de compreensão de todos e às exigências dos sábios. Esta maneira adaptada de pregar a palavra revelada deve permanecer a lei de toda a evangelização. [...]É dever de todo o Povo de Deus e sobretudo dos pastores e teólogos, com a ajuda do Espírito Santo, saber ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da palavra de Deus, de modo que a verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente”[67].

130. Uma compreensão cada vez mais clara das modalidades da transmissão da fé, juntamente com as transformações sociais e culturais que se apresentam ao cristianismo de hoje como um desafio, activaram no seio da Igreja um processo difuso de reflexão e de revisão das suas práticas pastorais, em particular aquelas dedicadas à introdução e à educação da fé e ao anúncio da mensagem cristã. De facto, “como a Igreja tem uma estrutura social visível, sinal da sua unidade em Cristo, pode também ser enriquecida, e de facto o é, com a evolução da vida social. Não porque falte algo na constituição que Cristo lhe deu, mas para mais profundamente a conhecer e melhor a exprimir e para a adaptar mais convenientemente aos nossos tempos” [68]. Retomando as afirmações de Paulo VI na Evangelii nuntiandi [69], Bento XVI confirma que a evangelização “não seria completa, se não tomasse em consideração a interpelação recíproca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social, do homem. [...] O testemunho da caridade de Cristo através de obras de justiça, paz e desenvolvimento faz parte da evangelização, pois a Jesus Cristo, que nos ama, interessa o homem inteiro. Sobre estes importantes ensinamentos, está fundado o aspecto missionário da doutrina social da Igreja como elemento essencial de evangelização. A doutrina social da Igreja é anúncio e testemunho de fé; é instrumento e lugar imprescindível de educação para a mesma”[70]. Trata-se de temas a aprofundar na nova evangelização. Esta diz respeito particularmente “ao serviço da Igreja a favor da reconciliação, da justiça e da paz”[71].

A iniciação cristã, processo evangelizador

131. O texto dos Lineamenta afirmava que o futuro rosto do cristianismo no mundo, sobretudo no Ocidente, dependerá do modo como a Igreja souber gerir a revisão em acto das suas práticas batismais e da capacidade da fé cristã de falar às culturas hodiernas. As respostas recebidas revelam uma Igreja muito comprometida com este exame, que alcançou algumas certezas, mas que, sobre muitas questões, demonstra ainda sinais de um trabalho inacabado, de um itinerário não bem projectado até ao fim.

132. A primeira certeza encontra-se na forma usual de ingresso na vida cristã, que é o baptismo recebido em criança, muitas vezes no período imediatamente sucessivo ao nascimento. A grande maioria das respostas dá conta deste dado como resultado de um trabalho de observação, mas também como fruto de uma escolha consciente. Do mesmo modo, as Igrejas mais jovens vêem no baptismo administrado às crianças uma meta que revela um alto nível de inculturação do cristianismo nas suas terras. Várias respostas, por outro lado, demonstram uma profunda preocupação com a opção de pais baptizados em diferir o baptismo do próprio filho, devido a várias razões, das quais a mais frequente está ligada à possibilidade de uma livre opção do sujeito uma vez adulto.

133. Uma segunda certeza consiste na presença estável de pedidos de baptismo por parte de adultos e de adolescentes. Este fenómeno, certamente menos relevante a nível numérico em relação ao primeiro, é lido, todavia, como um dom que possibilita que as comunidades cristãs compreendam o sentido profundo do baptismo: o caminho de preparação, a celebração dos escrutínios prebaptismais e a celebração do sacramento são momentos que nutrem a fé, seja a do catecúmeno como a da comunidade.

134. Além disso,parece certo que a estrutura do catecumenato, referente ao Ordo Initiationis Christianae Adultorum [72], é o instrumento adequado para operar uma reforma do itinerário de ingresso na fé dos mais pequenos. Todas as Igrejas têm trabalhado, nestas últimas décadas, para dar à introdução e à educação à fé um carácter mais testemunhal e eclesial. Assim, foi possível oferecer ao sacramento do baptismo uma celebração mais consciente, em vista de uma melhor participação futura dos baptizados na vida cristã. Fizeram-se esforços para dar forma aos itinerários de iniciação cristã, procurando unir os sacramentos (baptismo, crisma e eucaristia) e envolvendo activamente também os pais e os padrinhos. Muitas Igrejas efectivamente deram forma a uma espécie de “catecumenato pós-baptismal”, para reformar as práticas de adesão à fé e superar a fractura entre a liturgia e a vida, de modo a que a Igreja seja realmente uma mãe que gera os seus filhos para a fé[73].

135. A nova evangelização é vista em muitas respostas como um apelo a consolidar os esforços realizados e as reformas introduzidas para fortalecer a fé: os catecúmenos, antes de mais, os seus familiares, a comunidade que os apoia e os acompanha. A pastoral baptismal é assumida como um dos espaços prioritários da nova evangelização.

136. No que se refere aos itinerários de iniciação cristã, as respostas apresentam-nos dois dados: uma grande variedade e a coexistência pacífica de fortes diferenças. A admissão à primeira comunhão é geralmente colocada no momento da escola primária, precedida por um itinerário de preparação. Existem também experiências de mistagogia, de um acompanhamento sucessivo. Muito mais variada é a colocação do sacramento da confirmação em tempos diferenciados, mesmo entre dioceses limítrofes.

Apoiando-se em quanto foi dito no Sínodo sobre a Eucaristia, que a diferenciação das práticas não é da ordem dogmática mas pastoral[74], as pessoas implicados não parecem dispostas a um trabalho de revisão. Pelo contrário, olha-se para a actual situação como uma riqueza que é útil manter.

Esta coexistência de práticas diferenciadas não suscita reflexões ao ponto de tomar em consideração a diferença de praxis sobre a iniciação cristã nas Igrejas Católicas Orientais.

137. A este respeito, o trabalho a que o Sínodo é chamado a desenvolver é amplo. Não se trata somente de orientar uma praxis variada para evitar a dispersão. Trata-se também, mais profundamente, de realizar quanto foi pedido pelo Sínodo sobre a Eucaristia, alcançando “a eficácia dos percursos de iniciação actuais, para que o cristão seja ajudado, pela acção educativa das nossas comunidades, a maturar cada vez mais até chegar a assumir na sua vida uma orientação autenticamente eucarística, de tal modo que seja capaz de dar razão da própria esperança de maneira adequada ao nosso tempo (cf. 1Pt 3, 15)”[75]. É necessário compreender melhor, do ponto de vista teológico, a sequência dos sacramentos de iniciação cristã que culmina na Eucaristia, e reflectir sobre os modelos para traduzir na praxis o aprofundamento auspiciado.

A exigência do primeiro anúncio

138. Em várias ocasiões, surge nas respostas a exigência de ajudar as comunidades cristãs locais, começando pelas paróquias, a adoptarem um estilo mais missionário da própria presença no tecido social. O apelo recorrente é que as nossas comunidades, no anúncio do Evangelho, saibam suscitar a atenção dos adultos de hoje, interpretando as suas perguntas e a sua sede de felicidade. Numa sociedade que expulsou muitas formas de discurso sobre Deus, a necessidade que as nossas instituições assumam, sem medo, também uma atitude apologética, que vivam com serenidade formas de afirmação pública da própria fé, é visto como uma clara urgência pastoral.

139. É sobre esta situação que se debruça o instrumento do primeiro anúncio do qual falava o textos dos Lineamenta. Entendido como instrumento de proposta explícita, ou melhor ainda, de proclamação, do conteúdo fundamental da nossa fé, o primeiro anúncio dirige-se sobretudo àqueles que ainda não conhecem Jesus Cristo, aos não-crentes e àqueles que, de facto, vivem na indiferença religiosa. Ele chama à conversão e deve ser integrado noutras formas de anúncio e de iniciação à fé. Embora estas formas se destinem ao acompanhamento, à maturação de uma fé que já existe, o primeiro anúncio tem como objectivo específico a conversão, que depois permanece como uma constante na vida cristã.

140. A distinção entre estas diferentes formas de anúncio não é, todavia, sempre fácil de fazer, e não necessariamente deve ser afirmada de modo claro. Trata-se de uma dupla atenção que faz parte da mesma acção pastoral. O instrumento do primeiro anúncio ajuda as comunidades cristãs a darem espaço à fé das pessoas, seja daquelas dentro da comunidade como daquelas que estão fora. A sua tarefa é de a reavivar ou de a suscitar, de modo a manter a comunidade e os baptizados numa tensão constante e fiel ao anúncio e testemunho público da fé que professam.

141. O primeiro anúncio tem, por isso, necessidade de formas, lugares, iniciativas, eventos que permitam levar o anúncio da fé cristã à sociedade. E, na verdade, as respostas mostram que não faltam amplas formas de primeiro anúncio. Diversas Conferências Episcopais organizaram eventos eclesiais nacionais. Sempre nesta perspectiva, muitas respostas louvam os eventos internacionais como as Jornadas Mundiais da Juventude, vistas como verdadeiras formas de primeiro anúncio à escala mundial. Também as viagens apostólicas do Papa são lidas na mesma perspectiva, bem como a celebração ou canonização de um filho ou de uma filha de uma determinada Igreja.

142. Por outro lado, uma preocupação em muitas respostas é a escassez do primeiro anúncio na vida quotidiana, que se desenvolve no bairro ou no mundo do trabalho. A percepção comum sobre este objectivo é que ainda é necessário trabalhar muito para sensibilizar as comunidades paroquiais sobre a urgente acção missionária. A Assembleia sinodal, partindo das respostas, consegue relevar uma indicação ulterior para o diálogo e para a reflexão. Muitas respostas evidenciam que o primeiro anúncio pode já encontrar lugar nas práticas pastorais presentes na vida ordinária das nossas comunidades cristãs. As acções indicadas são três: a pregação, o sacramento da reconciliação, a piedade popular com as suas devoções.

143. Quanto à pregação, sobretudo a homilia dominical e tantas outras formas de pregação extraordinária (missões populares, novenas, homilias por ocasião de funerais, baptismos, matrimónios, festas) é verdadeiramente um instrumento privilegiado de primeiro anúncio. Por esta razão, como solicitou a anterior Assembleia Geral Ordinária, deve ser preparada com cuidado, tomando atenção ao centro da mensagem que se deseja transmitir, ao carácter cristológico que devem ter, ao uso de uma linguagem que suscite a escuta e tenha como objectivo a conversão da assembleia[76].

144. O sacramento da Reconciliação encontra o seu sentido originário na experiência actual do rosto de misericórdia de Deus Pai para a conversão e crescimento de cada penitente e da comunidade que celebra este sacramento. Para que este sacramento favoreça a evangelização, suscitando o sentido do pecado, bastaria pôr em prática de um modo ordinário e habitual aquilo que está previsto no Rito, ou melhor, que ele comece com a proclamação de um texto bíblico, à luz do qual se possa examinar a própria consciência e discernir o distanciamento da vontade de Deus e do Evangelho[77]. Seria reproduzido, deste modo, o itinerário bem conhecido dos Actos dos Apóstolos: da proclamação da Palavra ao arrependimento pela remissão dos pecados (cf. Act 2, 14-47).

145. Por fim, a piedade popular, com as suas devoções a Maria, ao nível particular, e aos santos, nos lugares sagrados, os santuários, através de itinerários de penitência e de espiritualidade, revela-se cada vez mais como uma via muito actual e original. Nas peregrinações e nas devoções, é-se introduzido, pela via experiencial, na fé e nas grandes questões existenciais que tocam também a conversão da própria vida. Vive-se uma experiência comunitária de fé, que abre a novas visões do mundo e da vida. Trabalhar para que a riqueza da oração cristã seja bem cuidada nestes lugares de conversão é, seguramente, um desafio a confiar à nova evangelização.

De modo particular, para o culto mariano, a nova evangelização não pode deixar de fazer suas as palavras do Concílio Vaticano II: “ensina o sagrado Concílio esta doutrina católica, e ao mesmo tempo recomenda a todas os filhos da Igreja que fomentem generosamente o culto da Santíssima Virgem, sobretudo o culto litúrgico, que tenham em grande estima as práticas e exercícios de piedade para com Ela, aprovados no decorrer dos séculos pelo magistério. [...] Os fiéis lembrem-se de que a verdadeira devoção não consiste numa emoção estéril e passageira, mas nasce da fé, que nos faz reconhecer a grandeza da Mãe de Deus e nos incita a amar filialmente a nossa mãe e a imitar as suas virtudes”[78].

146. As respostas elencam outras práticas que merecem ser tomadas em consideração no debate sinodal, enquanto instrumentos em condições de darem forma à exigência do primeiro anúncio. Em primeiro lugar, faz-se referência às missões populares, organizadas nas paróquias, no passado, com tempos regulares, como forma de um despertar espiritual dos cristãos num lugar. Relançar e dar, hoje, forma a um semelhante instrumento é uma questão que surge em mais do que uma resposta, integrando as missões populares nas práticas comunitárias de escuta e de anúncio da Palavra de Deus difusa nas comunidades cristãs. Do mesmo modo, acredita-se ser uma ocasião de primeiro anúncio todas as acções pastorais que têm como objecto específico a preparação para o sacramento do matrimónio. Elas não são consideradas como uma simples e directa preparação a este sacramento específico, mas transformam-se cada vez mais em verdadeiros e específicos itinerários de reapropriação e de maturação da fé cristã. Por fim, pede-se que seja incluída na acção do primeiro anúncio também o cuidado e a atenção que a comunidade cristã dedica ao momento do sofrimento e da doença.

Transmitir a fé, educar o homem

147. Os Lineamenta propuseram um vínculo entre a iniciação à fé e a educação, o qual foi acolhido na sua profundidade. Não se pode evangelizar sem, ao mesmo tempo, educar o homem a ser genuíno: a evangelização exige-o enquanto vínculo directo. Encontrando Cristo, o mistério do homem encontra a sua verdadeira luz, como o afirma o Concílio Vaticano II [79]. A Igreja possui, a este respeito, uma tradição de recursos pedagógicos, reflexões e pesquisas, instituições, pessoas – consagradas e não, agregadas em ordens religiosas, em congregações, em institutos – em condições de oferecer uma presença significativa no mundo da escola e da educação.

148. Com significativas diferenças ditadas pela geografia da sociedade e da história do catolicismo nas nações individuais, é um dado consensual que a Igreja investiu e continua a investir muitas energias na tarefa educativa. Escolas e universidades católicas estão presentes nas Igrejas particulares. As respostas, sobre este assunto, oferecem descrições detalhadas do trabalho educativo desenvolvido, e dos frutos que semelhante trabalho gerou e continua a gerar em muitos lugares. O desenvolvimento passado e presente de algumas nações é devedor deste esforço educativo promovido pela Igreja.

149. Esta tarefa educativa desenvolve-se, hoje, num contexto cultural em que qualquer forma de acção educativa é cada vez mais difícil e crítica, ao ponto do próprio Papa Bento XVI ter falado de “emergência educativa”[80], desejando aludir à especial urgência de transmitir às novas gerações os valores fundamentais da vida e de um recta conduta. Cresce, portanto, em vários lugares, a necessidade de uma educação autêntica e de educadores que o sejam verdadeiramente. Tal pedido é partilhado por pais preocupados com o futuro dos seus filhos, professores que vivem a triste experiência da degradação da escola, a própria sociedade que vê minadas as bases da convivência.

150. Neste contexto, o compromisso da Igreja para educar à fé, ao discipulado e ao testemunho do Evangelho assume também o valor de um contributo para que a sociedade saia da crise educativa que a aflige. No campo educativo, as respostas descrevem uma Igreja que tem ainda muito para oferecer, como a ideia de educação que soube difundir no mundo, com o primado da pessoa e da sua formação, e a vontade de oferecer uma educação autêntica, aberta à verdade, da qual faz parte também o encontro com Deus e a experiência de fé.

151. Ainda mais profundamente, algumas respostas valorizam e realçam este compromisso educativo por parte da Igreja, porque é um instrumento capaz de evidenciar a raiz antropológica e metafísica do actual desafio em torno da educação. As raízes da actual emergência educativa podem, na verdade, ser encontradas na impor-se de uma antropologia marcada pelo individualismo e de um duplo relativismo que reduz a realidade à mera matéria manipulável e a revelação cristã a um mero processo histórico sem carácter sobrenatural.

152. O Papa Bento XVI descreve assim estas raízes: “uma raiz essencial consiste –parece-me –num falso conceito de autonomia do homem: o homem deveria desenvolver-se unicamente por si mesmo, sem imposições da parte de terceiros, os quais poderiam contribuir para o seu autodesenvolvimento, mas sem entrar neste desenvolvimento. [...] A outra raiz da emergência educativa no cepticismo e no relativismo ou, com palavras mais simples e claras, na exclusão das duas fontes que orientam o caminho humano. A primeira fonte deveria ser a natureza segundo a Revelação. [...] Por conseguinte, é fundamental voltar a encontrar um conceito verdadeiro da natureza, como criação de Deus que nos fala; através do livro da criação, o Criador fala-nos e indica-nos os valores autênticos”[81].

Fé e conhecimento

153. O mesmo tipo de vínculo que existe entre a fé e a educação é também visível entre a fé e o conhecimento. O texto dos Lineamenta explicitava esta ligação através do conceito cunhado pelo Papa Bento XVI como “ecologia da pessoa humana”[82]. Apontando as consequências de uma crise que poderia minar a coesão da sociedade como um todo, o Papa Bento XVI indica a possível via de saída de tal risco no desenvolvimento de uma ecologia do homem, entendida correctamente, ou melhor, um modo de formular a compreensão do mundo e do progresso da ciência que tenha em conta todas as exigências do homem, aberta à verdade e à originária relação com Deus.

154. A fé cristã afirma a inteligência na compreensão do equilíbrio profundo que rege a estrutura da existência e da sua história. Realiza esta operação não genericamente ou de fora, mas partilhando com a razão a sede de saber, a sede da procura, orientando-a para o bem do homem e dos cosmos. A fé cristã contribui para a compreensão do profundo conteúdo das experiências fundamentais do homem. É uma tarefa – a do confronto crítico e de orientação – que o cristianismo desenvolve há muito tempo, tal como muitas respostas afirmaram, elencando instituições, centros de pesquisa, universidades, fruto da instituição e do carisma de alguns ou da atenção educativa das Igrejas particulares, que fizeram deste confronto um dos seus principais objectivos.

155. É, todavia, motivo de preocupação: constatar que não é fácil entrar na praça pública da investigação e do desenvolvimento do conhecimento das diferentes culturas. Na verdade, tem-se a impressão que a razão cristã tem dificuldades em encontrar interlocutores nesses ambientes que, nos nossos dias, detêm as energias e o poder no mundo da investigação, sobretudo no campo tecnológico e económico. Esta situação é, por isso, lida como um desafio para a Igreja e, portanto, um campo de particular atenção para a nova evangelização.

156. Em continuidade com a Tradição da Igreja, na esteira da Encíclica do beato João Paulo II, Fides et Ratio, o Papa Bento XVI reafirmou várias vezes a complementaridade entre a fé e a razão. A fé alarga os horizontes da razão e a razão preserva a fé da possível deriva irracional ou dos abusos da razão. A Igreja, sempre atenta à dimensão intelectual da educação, da qual testemunham numerosas universidades e institutos superiores de estudo, está empenhada na pastoral universitária, favorecendo o diálogo com os cientistas. Neste âmbito, os cientistas cristãos ocupam um lugar especial: compete-lhes testemunhar, com a sua actividade e, sobretudo, com a sua vida que a razão e a fé são duas asas que levam a Deus[83], que a fé cristã e a ciência, entendida correctamente, podem enriquecer-se reciprocamente para o bem da humanidade. O único limite do progresso científico é a salvaguarda da dignidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus, que não deve ser objecto mas sujeito da investigação científica e tecnológica.

157. Neste capítulo dedicado à relação entre a fé e o conhecimento, é também inserido o apelo, presente nas respostas, à arte e à beleza, como lugar de transmissão da fé. As razões que permitem sustentar este apelo são explicadas articuladamente, sobretudo pelas Igreja que, fortalecidas pela sua tradição, como por exemplo as Igrejas Católicas Orientais, souberam preservar uma relação muito estreita entre o binómio fé e beleza. Nestas tradições, a relação entre fé e beleza não é uma simples aspiração estética. Pelo contrário. É vista como um recurso fundamental para dar testemunho da fé e para promover um saber que seja verdadeiramente um serviço “integral” à totalidade do ser humano.

Este conhecimento trazido pela beleza permite, como no caso da liturgia, assumir a realidade visível na sua função originária de manifestação da comunhão universal, à qual o homem é chamado por Deus. É ainda importante que o saber humano seja, de novo, conjugado com a sabedoria divina, ou melhor, com a visão da criação que Deus Pai tem e que, por meio do Espírito e do Filho, se encontra na criação.

Urge salvaguardar, no cristianismo, esta função originária do belo. A nova evangelização tem um papel importante a desempenhar neste âmbito. A Igreja reconhece que o ser humano não vive sem a beleza. Para o cristão, a beleza encontra-se no mistério pascal, na transparência da realidade de Cristo.

O fundamento de toda a pastoral evangelizadora

158. O texto dos Lineamenta concluía o capítulo dedicado à análise das acções pastorais com a intuição de fundo de Paulo VI: a Igreja, para evangelizar, não necessita apenas de renovar as suas estratégias mas, principalmente, de aumentar a qualidade do seu testemunho; o problema da evangelização não é sobretudo uma questão organizativa ou estratégica, mas espiritual. “O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas. [...] Será pois, pelo seu comportamento, pela sua vida, que a Igreja há de, antes de mais nada, evangelizar este mundo; ou seja, pelo seu testemunho vivido com fidelidade ao Senhor Jesus, testemunho de pobreza, de desapego e de liberdade frente aos poderes deste mundo; numa palavra, testemunho de santidade[84]. Várias Igrejas particulares identificaram-se com estas palavras, sobre a necessidade de ter testemunhas que saibam evangelizar antes de mais com a sua vida e o seu exemplo. Elas comungam a certeza que, acima de tudo, o grande segredo da nova evangelização é a resposta ao chamamento à santidade de cada cristão. Só pode evangelizar quem se deixou ou se deixa evangelizar, quem é capaz de deixar-se renovar espiritualmente pelo encontro e pela comunhão vivida com Jesus Cristo. O testemunho cristão é um encontro entre “acções e palavras”[85]. Estes constituem o fundamento de toda a acção evangelizadora porque geram uma relação entre anúncio e liberdade: “Tornamo-nos testemunhas quando, através das nossas acções, palavras e modo de ser, é Outro que aparece e Se comunica. Pode-se afirmar que o testemunho é o meio pelo qual a verdade do amor de Deus alcança o homem na história, convidando-o a acolher livremente esta novidade radical. No testemunho, Deus expõe-Se por assim dizer ao risco da liberdade do homem”[86].

A centralidade das vocações

159. Espera-se, neste sentido, que o próximo encontro sinodal coloque explicitamente em agenda a centralidade da questão vocacional para a Igreja de hoje. Espera-se que o Sínodo sobre a nova evangelização ajude todos os baptizados a tornarem-se consciente do seu compromisso missionário e evangelizador. Perante os cenários da nova evangelização, os testemunhos, se querem ser credíveis, devem saber utilizar a linguagem do nosso tempo, anunciando assim, a partir de dentro, as razões da esperança que os anima. Espera-se que todo o caminho de preparação e de recepção do trabalho sinodal sirva para motivar novamente e aumentar o impulso e a dedicação de tantos cristãos que já trabalham para o anúncio e a transmissão da fé; que seja um momento de suporte e de confirmação para as famílias e a função que desempenham. Mais especificamente, deverá prestar uma atenção particular ao ministério presbiteral e à vida consagrada, auspiciando que o Sínodo leve à Igreja o fruto de novas vocações sacerdotais, relançando o empenho de uma clara e decisiva pastoral vocacional.

160. Mais de uma resposta indicou, a este respeito, que um dos sinais mais evidentes da debilidade da experiência cristã é precisamente o enfraquecimento vocacional, que se refere seja à diminuição e ao definhar das vocações de especial consagração no sacerdócio ministerial e na vida consagrada, seja à difusa debilidade referente à fidelidade às grandes opções existenciais, como por exemplo no matrimónio. Estas respostas esperam que a reflexão sinodal retome a problemática, que se relaciona intimamente com a nova evangelização, não tanto para constatar a crise, e não apenas para reforçar uma pastoral vocacional que já se vem fazendo, mas muito mais, e mais profundamente, promover uma cultura da vida entendida como vocação.

161. Na transmissão da fé é necessário ter em conta a educação a conceber-se a si próprio em relação a Deus que chama. Aplicam-se as palavras do Papa Bento XVI: “O Sínodo, quando sublinhou a exigência intrínseca que tem a fé de aprofundar a relação com Cristo, Palavra de Deus entre nós, quis também evidenciar que esta Palavra chama cada um em termos pessoais, revelando assim que a própria vida é vocação em relação a Deus. Isto significa que quanto mais aprofundarmos a nossa relação pessoal com o Senhor Jesus, tanto mais nos damos conta de que Ele nos chama à santidade, através de opções definitivas, pelas quais a nossa vida responde ao seu amor, assumindo funções e ministérios para edificar a Igreja. É neste horizonte que se entendem os convites feitos pelo Sínodo a todos os cristãos para aprofundarem a relação com a Palavra de Deus, não só como baptizados mas também enquanto chamados a viver segundo os diversos estados de vida”[87]. Um dos sinais da eficácia da nova evangelização será a redescoberta da vida como vocação e o surgir de vocações ao seguimento radical de Cristo.

 

CONCLUSÃO 

 “Ides receber uma força, a do Espírito Santo,
que descerá sobre vós”
(Act 1, 8)

 

162. Com a sua vinda até nós, Jesus Cristo comunicou-nos a vida divina que transfigura a face da terra, fazendo novas todas as coisas (cf. Ap 21, 5). A sua Revelação envolveu-nos, não apenas como destinatários da salvação que nos foi dada, mas também como seus anunciadores e testemunhas. O Espírito do Ressuscitado habilita, deste modo, a nossa vida para o anúncio eficaz do Evangelho em todo o mundo. É a experiência da primeira comunidade cristã que via o difundir-se da Palavra mediante a pregação e o testemunho (cf. Act 6, 7).

163. Cronologicamente, a primeira evangelização teve início no dia do Pentecostes, quando os Apóstolos, todos reunidos no mesmo lugar em oração com a Mãe de Cristo, receberam o Espírito Santo (cf. Act 1, 14; 2, 1-3). Aquela que, segundo as palavra do Arcanjo, é “cheia de graça” (Lc 1, 28), encontra-se assim na via da evangelização apostólica, e em todas as vias nas quais os sucessores dos Apóstolos se colocam para anunciar o Evangelho.

164. Nova evangelização não significa um “novo Evangelho”, porque “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e pelos séculos” (Heb 13, 8). Nova evangelização significa dar resposta adequada aos sinais dos tempos, às necessidades dos homens e dos povos de hoje, aos novos cenários que mostram a cultura por meio da qual exprimimos a nossa identidade e procuramos o sentido da nossa existência. Nova evangelização significa, por isso, promoção de uma cultura mais profundamente radicada no Evangelho. Quer dizer descobrir o “homem novo” (Ef 4, 24) que está em nós graças ao Espírito dado por Jesus Cristo e pelo Pai. Que a celebração da próxima Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos seja para a Igreja como um novo Cenáculo, onde os sucessores dos Apóstolos, reunidos em oração juntamente com a Mãe de Cristo, que foi invocada como a “Estrela da Nova Evangelização”[88], preparam as vias da nova evangelização.

165. Deixemos que sejam uma vez mais as palavras de João Paulo II, que tanto se debateu por ela, a explicar a palavra: nova evangelização significa “reacender em nós o zelo das origens, deixando-nos invadir pelo ardor da pregação apostólica que se seguiu ao Pentecostes. Devemos reviver em nós o sentimento ardente de Paulo que o levava a exclamar: «Ai de mim se não evangelizar!» (1 Cor 9,16). Esta paixão não deixará de suscitar na Igreja uma nova missionariedade, que não poderá ser delegada a um grupo de « especialistas », mas deverá corresponsabilizar todos os membros do povo de Deus. Quem verdadeiramente encontrou Cristo, não pode guardá-Lo para si; tem de O anunciar. É preciso um novo ímpeto apostólico, vivido como compromisso diário das comunidades e grupos cristãos[89].

Jesus Cristo, Evangelho que dá esperança

166. Hoje, nós sentimos a necessidade de um princípio que nos dê esperança, que nos permita olhar para o futuro com os olhos da fé, sem lágrimas de desespero. Enquanto Igreja, temos este princípio, esta fonte de esperança: Jesus Cristo, morto e ressuscitado, presente no meio de nós com o seu Espírito, que nos dá a experiência de Deus. Temos, no entanto, muitas vezes a impressão de não conseguirmos dar corpo a esta esperança, de não conseguirmos “fazê-la nossa”, de não fazer dela palavra viva para nós e para os nossos contemporâneos, de não a assumir como fundamento das nossas acções pastorais e da nossa vida eclesial.

A este respeito, temos uma clara palavra de ordem para uma pastoral presente e futura: nova evangelização, isto é, nova proclamação da mensagem de Cristo, que infunde alegria e liberta-nos. Esta palavra de ordem alimenta a esperança da qual sentimos necessidade: a contemplação da Igreja nascida para evangelizar conhece a fonte profunda das energias para o anúncio.

“Sentimo-nos encorajados no nosso Deus a anunciar-vos o Evangelho de Deus no meio de grande luta” (1 Ts 2, 2). A nova evangelização impele-nos a um testemunho da fé que frequentemente assume os contornos do combate e da luta. A nova evangelização fortalece cada vez mais a relação com o Senhor Jesus Cristo, porque apenas Nele reside a certeza para olhar o futuro e a garantia de um amor autêntico e duradoiro.

A alegria de evangelizar

167. Nova evangelização significa dar razões da nossa fé, comunicando o Logos da esperança ao mundo que aspira à salvação. Os homens têm necessidade da esperança para poder viver o próprio presente. Por esta razão, a Igreja é missionaria na sua essência e oferece a Revelação do rosto de Deus que, em Jesus Cristo, tomou um rosto humano e nos amou até ao fim. As palavras de vida eterna que nos são dadas no encontro com Jesus Cristo são para todos, para cada homem. Cada pessoa do nosso tempo, quer o saiba ou não, tem necessidade deste anúncio.

168. Na verdade, a ausência desta consciência gera solidão e desconforto. Entre os obstáculos à nova evangelização está precisamente a falta de alegria e de esperança que situações deste tipo geram e difundem entre os homens do nosso tempo. Muitas vezes, esta falta de alegria e de esperança é de tal modo forte que corrói o próprio tecido das nossas comunidades cristãs. A nova evangelização propõe-se, nestes contextos, também como fármaco para dar alegria e vida contra todo o tipo de medo. Em semelhantes contextos é imperativo revigorar a nossa fé, como nos pede o Papa Bento XVI: “Solícita a identificar os sinais dos tempos no hoje da história, a fé obriga cada um de nós a tornar-se sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo. Aquilo de que o mundo tem hoje particular necessidade é o testemunho credível de quantos, iluminados na mente e no coração pela Palavra do Senhor, são capazes de abrir o coração e a mente de muitos outros ao desejo de Deus e da vida verdadeira, aquela que não tem fim”[90].

169. Olhemos, por isso, para a nova evangelização com entusiasmo. Aprendamos a doce e confortante alegria de evangelizar, mesmo quando parece que o anúncio é uma semente nas lágrimas (cf. Sl 126, 6). Ao mundo que procura respostas às grandes questões sobre o sentido da vida e da verdade, que lhe seja possível viver com renovada surpresa a alegria de encontrar testemunhas do Evangelho que, com a simplicidade e a credibilidade da sua vida, sabem mostrar o poder transfigurador da fé cristã. Como afirmava Paulo VI: “Que isto constitua, ainda, a grande alegria das nossas vidas consagradas. E que o mundo do nosso tempo que procura, ora na angústia, ora com esperança, possa receber a Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e descoroçoados, impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo, e são aqueles que aceitaram arriscar a sua própria vida para que o reino seja anunciado e a Igreja seja implantada no meio do mundo”[91]. “Não temais!”: é a palavra do Senhor (cf. Mt 14, 27) e do anjo (cf. Mt 28, 5) que sustenta a fé dos anunciadores, dando-lhes força e entusiasmo. Seja também esta a palavra dos anunciadores, que sustentam e nutrem o caminho de cada homem para o encontro com Deus. “Não temais!” seja a palavra da nova evangelização, com a qual, a Igreja, animada pelo Espírito Santo, anuncia “até aos confins do mundo” (Act 1, 8) Jesus Cristo, Evangelho de Deus, para a fé dos homens.

 

 


Notas

[1] Cf. Bento XVI, Porta Fidei. Carta Apostólica em forma de motu proprio com a qual se proclama o Ano da Fé (11 Outubro 2011): AAS 103 (2011) 723-734.

[2] Bento XVI, Homilia para o início do ministério Petrino do Bispo de Roma (24 Abril 2005): AAS 97 (2005) 710.

[3] João Paulo II, Carta Encíclica Redemptoris missio (7 Dezembro 1990), 2: AAS 83 (1991) 251.

[4] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 1. 4.

[5] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, 2.

[6] Cf. ibid., 1.

[7] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 22.

[8] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, 17. 35.

[9] Cf. ibid., 23; Concílio Ecuménico Vaticano II, Decreto sobre a missão pastoral dos bispos na Igreja Christus Dominus, 2.

[10] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, 28; Id., Decreto sobre o ministério e a vida dos presbíteros Presbyterorum Ordinis, 2. 4.

[11] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, 31; Id., Decreto sobre o apostolado dos leigos Apostolicam Actuositatem, 2. 6.

[12] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, 39-40.

[13] Cf. Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi (8 Dezembro 1975), 52: AAS 68 (1976) 40-41.

[14] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 6.

[15] Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi (8 Dezembro 1975), 56: AAS 68 (1976) 46.

[16] João Paulo  II, Exortação Apostólica Pós-sinodal Christifideles laici (30 Dezembro 1988), 34: AAS 81 (1989) 454-455.

[18] Bento XVI, Porta Fidei. Carta Apostólica em forma de motu proprio com a qual se proclama o Ano da Fé (11 Outubro 2011), 5: AAS 103 (2011) 725; Cf. Discurso à Cúria Romana por ocasião da apresentação dos bons votos de Natal (22 Dezembro 2005): AAS 98 (2006) 52.

[19] Bento XVI, Carta Encíclica Deus caritas est (25 Dezembro 2005), 1: AAS 98 (2006) 217-218.

[20] Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi (8 Dezembro 1975), 7: AAS 68 (1976) 9.

[21] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição dogmática sobre a Divina Revelação Dei Verbum, 4.

[22] Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi (8 Dezembro 1975), 13-14: AAS 68 (1976) 12-13.

[23] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 21.

[24] Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização (3 Dezembro 2007), 2: AAS 100 (2008) 490.

[25] Bento XVI, Homilia (Munique, 10 de Setembro de 2006), in L’Osservatore Romano, 11-12 de Setembro de 2006, p.9. 

[26] Concílio Ecuménico Vaticano II, Declaração sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanae, 11.

[27] Congregação para a Doutrina da Fé, Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização (3 Dezembro 2007), 3: AAS 100 (2008) 491.

[28] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 7.

[29] Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi (8 Dezembro 1975), 15: AAS 68 (1976) 14-15.

[30] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 5. 11. 12.

[31] Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi (8 Dezembro 1975), 80: AAS 68 (1976) 74.

[32] Concílio Ecuménico Vaticano II, Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 6.

[33] Bento XVI, Carta Apostólica em forma de motu proprio Ubicumque et semper (21 Setembro 2010: AAS 102 (2010) 789.

[34] João Paulo II, XIX Discurso à Assembleia do CELAM (Port au Prince, 9 Março 1983), 3: AAS 75 I (1983) 778.

[35] João Paulo II, Exortação Apostólica Pós-sinodal Ecclesia in Europa (28 Junho 2003), 2.45: AAS 95 (2003) 650; 677. Todas as Assembleias sinodais continentais celebradas em preparação para o Jubileu de 2000 estavam ocupadas com a nova evangelização: cf. João Paulo II, Exortação Apostólica Pós-sinodal Ecclesia in Africa (14 Setembro1995), 57.63: AAS 85 (1996) 35-36, 39-40; Id., Exortação Apostólica Pós-sinodal Ecclesia in America (22 Janeiro 1999), 6.66: AAS 91 (1999) 10-11, 56; Id., Exortação Apostólica Pós-sinodal Ecclesia in Asia (6 Novembro 1999), 2: AAS 92 (2000) 450-451; Id., Exortação Apostólica Pós-sinodal Ecclesia in Oceania (22 Novembro 2001), 18: AAS 94 (2002) 386-389.

[36] «Em certo sentido, a história vem em ajuda da Igreja com as diversas épocas de secularização, que contribuíram de modo essencial para a sua purificação e reforma interior »: Bento XVI, Discurso durante o Encontro com os católicos comprometidos na Igreja e na sociedade (Freiburg, 25 Setembro 2011): AAS 103 (2011) 677.

[37] Cf, João Paulo II, Carta Encíclica Redemptoris missio (7 Dezembro 1990), 37: AAS 83 (1991) 282-286.

[38] Ibid., 34: AAS 83 (1991) 279-280.

[39]  João Paulo II, Exortação Apostólica Pós-sinodal Christifideles laici (30 Dezembro 1988), 26: AAS 81 (1989) 438. Cf. também n. 34: AAS 81 (1989) 455.

[40] Bento XVI, Carta Apostólica em forma de motu proprio Ubicumque et semper (21 Setembro 2010): AAS 102 (2010) 790-791.

[41] Cf. João Paulo II, Carta Encíclica Redemptoris missio (7 Dezembro 1990), 33: AAS 83 (1991) 278-279.

[42]  Congregação para a Doutrina da Fé, Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização (3 Dezembro 2007), 12: AAS 100 (2008) 501.

[43] Cf. Bento XVI, Exortação Apostólica Pós-sinodal Africae munus (19 Novembro 2011), 160, Libreria Editrice Vaticana, Cidade do Vaticano, p. 119.

[44] Ibid., 165. 171, pp. 112, 125-126.

[45] Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição dogmática sobre a Revelação Divina Dei Verbum, 7.

[47] Paulo VI, Exortação Apostólica Petrum et Paulum Apostolos, no XIX centenário do martírio dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo (22 Fevereiro 1967): AAS 59 (1967)196; citado in: Bento XVI, Porta Fidei. Carta Apostólica em forma de motu proprio com a qual se proclama o Ano da Fé (11 Outubro 2011) , 4: AAS 103 (2011) 725.

[48]  Bento XVI, Porta Fidei. Carta Apostólica em forma de motu proprio com a qual se proclama o Ano da Fé (11 Outubro 2011), 11: AAS 103 (2011) 731.

[49] Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição conciliar sobre a Sagrada Liturgia Sacrosantum concilium, 2 e 6.

[50]  Bento XVI, Porta Fidei. Carta Apostólica em forma de motu proprio com a qual se proclama o Ano da Fé (11 Outubro 2011), 9: AAS 103 (2011) 728.

[51] Cf. João Paulo II, Constituição Apostólica Fidei depositum (11 Outubro 1992): AAS 86 (1994) 116.

[52]  Bento XVI, Porta Fidei. Carta Apostólica em forma de motu proprio com a qual se proclama o Ano da Fé (11 Outubro 2011), 10: AAS 103 (2011) 728-729.

[53] Cf. João Paulo II, Exortação apostólica Catechesi tradendae (16 Outubro 1979), 55: AAS 71 (1979) 1322-1323.

[54] Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, 26

[55] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Costituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, 4.

[56] Cf. João Paulo II, Mensagem aos participantes do congresso mundial dos movimentos eclesiais promovido pelo Pontifício Conselho para os Leigos (27 Maio 1998), in Insegnamenti di Giovanni Paolo II, XXI, I (1998), 5, p. 1065.

[57]  Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Costituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, 10 e 11.

[58] Cf. ibid., 12, 31, 35.

[59] Cf. João Paulo II, Exortação Apostólica Pós-sinodal Christifideles laici (30 Dezembro 1988), 33-34: AAS 81 (1989) 453-457.

[60]  Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi (8 Dezembro 1975), 46: AAS 68 (1976) 36.

[61] Ibid., 19: AAS 68 (1976) 18.

[62] Concílio Ecuménico Vaticano II, Decreto sobre o ecumenismo Unitatis redintegratio, 1.

[64] Concílio Ecuménico Vaticano II, Declaração sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanae, 3.

[65] Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização (3 Dezembro 2007), 4-8: AAS 100 (2008) 491-496.

[66] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Decreto sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 15. 19.

[67] Concílio Ecuménico Vaticano II , Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo actual Gaudium et spes, 44.

[68] Ibid., 44.

[69] Cf. Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi (8 Dezembro 1975), 29: AAS 68 (1976) 25.

[70] Bento XVI, Carta Encíclica Caritas in veritate (29 Junho 2009), 15: AAS 101 (2009) 651-652.

[71] Bento XVI, Exortação Apostólica Pós-sinodal Africae munus (19 Novembro 2011), 169, Libreria Editrice Vaticana, Cidade do Vaticano, p. 119.

[72] Cf. Ordo Initiationis Christianae Adultorum, Editio typica, 1972.

[73] “Pela sua própria natureza, o Baptismo das crianças exige um catecumenato pós-baptismal. Não se trata apenas da necessidade duma instrução posterior ao Baptismo mas do desenvolvimento necessário da graça baptismal no crescimento da pessoa. É o espaço próprio da catequese”: Catecismo da Igreja Católica, 1231.

[74] Cf.  Bento XVI,  Exortação Apostólica Pós-sinodal Sacramentum caritatis (22 Fevereiro 2007), 18: AAS 99 (2007) 119.

[75] Ibid, 18: AAS 99 (2007) 119.

[76] Cf. Bento XVI,  Exortação Apostólica Pós-sinodal Verbum Domini (30 Setembro 2010), 59: AAS 102 (2010) 738-739.

[77] Cf. Ordo paenitentiae. Rituale romanum, Editio typica, 1974, 17.

[78] Concílio Ecuménico Vaticano II, Costituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, 67.

[79] Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo actual Gaudium et spes, 22.

[81] Bento XVI, Discurso por ocasião da Assembleia Geral da Conferência Episcopal Italiana (27 Maio 2010), in Insegnamenti di Benedetto XVI, VI, 1 (2010), pp. 788-789.

[82] Bento XVI, Carta Encíclica Caritas in veritate (29 Junho 2009), 51: AAS 101 (2009) 687.

[83] Cf. João Paulo II, Carta Encíclica Fides et Ratio (14 Setembro 1998): AAS 91 (1999) 5.

[84] Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi (8 Dezembro 1975), 41: AAS 68 (1976) 31-32.

[85] Cf. ibid., 22: AAS 68 (1976) 20; Bento XVI, Exortação Apostólica Pós-sinodal Verbum Domini (30 Setembro 2010), 97s.: AAS 102 (2010) 767-769.

[86] Bento XVI, Exortação Apostólica Pós-sinodal Sacramentum caritatis (22 Fevereiro 2007), 85: AAS 99 (2007) 170.

[87] Bento XVI, Exortação Apostólica Pós-sinodal Verbum Domini (30 Setembro 2010), 77: AAS 102 (2010) 750.

[88] João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in America (22 Janeiro 999), 11: AAS 91 (1999) 747Id., Carta Apostólica Novo millennio ineunte (6 Janeiro 2001), 58: AAS 93 (2001) 309.

[89] João Paulo II, Carta Apostólica Novo millennio ineunte (6 Janeiro 2001), 40: AAS 93 (2001) 294.

[90] Bento XVI, Porta Fidei. Carta Apostólica em forma de motu proprio com a qual se proclama o Ano da Fé (11 Outubro 2011), 15: AAS 103 (2011) 734.

[91] Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi (8 Dezembro 1975), 80: AAS 68 (1976) 75.

 

 

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