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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

A Igreja mulher e mãe

Sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 05 de 01 de fevereiro de 2018

Para o Papa Francisco a pregação da «verdade», da «fé sincera», é sempre uma «loucura» que «esbofeteia», feita de «testemunho» concreto ainda antes do que de palavras, centrada na «paternidade» e na «maternidade, porque a Igreja é feminina e a Igreja gera como uma mãe». E na missa celebrada nesta sexta-feira o Papa recordou também o testemunho corajoso da irmã Maria Kaleta nos anos da perseguição na Albânia, pedindo que nos cursos de preparação para o matrimónio se ensine às futuras mães a «transmitir a fé».

A primeira leitura, observou imediatamente Francisco referindo-se à página da segunda carta de São Paulo a Timóteo (1, 1-8), «podemos dizer que é uma “joia” sobre o tema da transmissão da fé». A ponto que o Pontífice confessou: «quando a leio, releio-a, sinto-me confortado». Com efeito, «no centro está a “tua fé sincera”, diz Paulo ao discípulo Timóteo que ordenara bispo mediante a imposição das mãos».

Por isso, é importante perguntar-se «como foi transmitida esta fé a Timóteo: trata-se do tema da transmissão da fé». O Papa, baseando-se precisamente no texto paulino, sugeriu «três palavras que nos indicam o caminho, o modo como a fé deve ser transmitida: “filho”, diz Paulo a Timóteo; outra palavra é “mãe” e “avó”; e a terceira palavra é “testemunho”». Estas palavras indicam «a modalidade da transmissão da fé».

Por conseguinte, a primeira palavra é «filho»: Paulo gera Timóteo com a “loucura da pregação” e esta é a sua paternidade». Certamente, realçou o Papa, «há também as lágrimas, vê-se que Timóteo sofre neste processo de receber a fé». Mas eis «a loucura da pregação»; e sem dúvida «Paulo não suaviza a pregação com meias-verdades: “Esta é a verdade”». Trata-se de «uma verdade corajosa e esta é a parrésia, a coragem que faz com que Paulo se torne pai de Timóteo: a paternidade na geração da fé».

«A pregação não pode ser tíbia» reconheceu o Pontífice, porque «a pregação — permiti-me a palavra — “esbofeteia” sempre: é uma bofetada que te comove e te leva em frente». A ponto que «o próprio Paulo fala da “loucura da pregação”». E «é uma loucura», prosseguiu o Papa, porque se trata de «dizer que Deus se fez homem e depois foi crucificado e ressuscitou». De resto, «o que disseram a Paulo os habitantes de Atenas? “Mas, depois de amanhã te ouviremos”».

Portanto, observou Francisco, «na pregação da fé há sempre um “pouquinho de loucura” e a tentação é o falso bom senso, aquela mediocridade» que te leva a dizer: “mas, não, não brinquemos, não é importante”». É o risco da «fé tíbia». Ao contrário, «isto faz paternidade: na transmissão da fé, a loucura da pregação faz com que quem prega seja pai do outro»: precisamente a «paternidade».

«A segunda palavra» proposta pelo Pontífice, a partir do texto de São Paulo, «é “testemunho”: a fé deve ser transmitida também com o testemunho e não só com a palavra», porque «a palavra sem testemunho não tem força». Não era por acaso, recordou o Papa, que alguns «cristãos de Antioquia e pagãos diziam: “vede como se amam!”».

Ao contrário, hoje, prosseguiu, «nalgumas paróquias — na vossa não, a vossa é uma paróquia santa, mas pensemos noutras — alguém vai, ouve o que fulano diz de sicrano e de beltrano». E assim «em vez de exclamar “como se amam”, dá vontade de dizer “como se esfolam!”». De resto, insistiu Francisco, «a língua é uma faca para esfolar o outro». Mas, questionou-se, «como podes tu transmitir a fé com um ar tão viciado por enredos, por calúnias?».

Serve precisamente o «testemunho» que nos faz reconhecer: “repare, este nunca fala mal de ninguém; aquele faz esta obra de caridade; aquele, quando alguém está doente vai visitá-lo, por que faz assim?”». Em síntese, um estilo de vida cristã que suscite «a curiosidade: “por que vive esta pessoa desta maneira?”. E com o testemunho surge a pergunta do porquê ali se transmite a fé: porque tem fé, porque segue as pegadas de Jesus».

«Por conseguinte — insistiu o Papa — a transmissão da fé faz-se pela “loucura” da pregação, pela paternidade; e faz-se pelo testemunho». E mais: «Pensemos que quando eu não dou testemunho ou dou contratestemunho ou mau testemunho tiro a fé: aquela fé sincera da qual fala Paulo aqui». E por conseguinte, «as pessoas desanimam e dizem: “mas, se é para viver assim é melhor divertir-se e ir a outro lado». Eis então a indicação concreta de Francisco: «Paternidade com a pregação; fraternidade com o testemunho».

«E a terceira palavra — acrescentou ainda o Papa — é “a tua mãe”, “a tua avó”: a maternidade». É uma realidade o facto de que «a fé se transmite num seio materno, o seio da Igreja, porque a Igreja é mãe, a Igreja é feminina, a Igreja gera como uma mãe». E «a maternidade da Igreja — afirmou o Pontífice — prolonga-se aqui na maternidade da mãe, da mulher, das mulheres da família».

«Lembro-me — confidenciou recordando a irmã Maria Kaleta, religiosa estigmatina — de quando fui à Albânia, conheci uma religiosa idosa. Esta religiosa estava presa na época da perseguição, mas deixavam-na sair um pouco algumas horas por dia. Era uma meia prisão, porque os perseguidores diziam: “mas o que pode fazer esta pobre mulher!”. Mas esta “pobre mulher” era astuta, sabia o que fazer e amava Cristo, era mãe, tinha coração de mãe». Com efeito, contou ainda Francisco, «as mulheres cristãs — dado que ali naquela época não havia uma igreja e se alguém batizava os filhos era condenado — sabiam quando a religiosa ia passear ao longo do rio, levavam-lhe as crianças e ela batizava-as na água do rio».

O que fazia a irmã Maria é um «bom exemplo: a Igreja mãe». E, prosseguiu o Papa, «eu pergunto: as mães, as avós, são como estas duas das quais fala Paulo, a “avó Loide” e a “mãe Eunice”, que transmitiram a fé, a fé sincera?». Ou talvez se prefira pensar que a criança «aprenderá quando frequentar o catecismo». Mas, afirmou Francisco, «eu vos digo: sinto tristeza quando vejo crianças que não sabem fazer o sinal da cruz e em vez de fazer bem o sinal da cruz, sabendo que têm que fazer alguma coisa fazem um desenho aproximativo, porque falta a mãe e a avó para lho ensinarem».

«Quantas vezes — acrescentou o Papa — penso nas coisas que se ensinam na preparação para o matrimónio, à noiva, àquela que será mãe: será que lhe ensinam que deve transmitir a fé? Preparam-na para transmitir a fé? A mãe é figura da Igreja mãe, e também a avó. É a dimensão feminina da salvação. Maria, Igreja, mãe, avó, todas estas dimensões; e a fé deve ser transmitida ali».

Nesta perspetiva, o Pontífice sugeriu para refletir bem sobre a «pregação», um trabalho cristão que compete a todos, «sacerdotes, bispos e catequistas»; sobre o «testemunho», para «viver como cristãos»; e sobre a «“maternidade”, ou seja, o seio da Igreja na mãe, na avó que transmitem a fé». E concluiu: «peçamos ao Senhor que nos ensine — como testemunhas, como pregadores e também às mulheres como mães — a transmitir a fé».

 



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