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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Duas histórias bíblicas

Quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 07 de 15 de fevereiro de 2018

Atenção quando, convencido de viver tranquilamente sem cometer grandes pecados, o cristão «desliza lentamente», quase sem se dar conta, no «enfraquecimento do coração» e «corrompe-se». Eis a admoestação do Papa que comparou duas histórias bíblicas distintas: a de David, o rei «pecador» mas «santo», e a de Salomão, o rei sábio, mas cujo coração «se desviara do Senhor» e por isso ele foi «rejeitado» por Deus. Um ensinamento para cada homem porque, frisou o Pontífice, se é verdade que para o pecador capaz de se arrepender o caminho da santidade está sempre aberto, o corrupto ao contrário exclui-se sozinho da possibilidade de salvação.

A reflexão do Papa, inspirada na leitura do dia (1 Rs 11, 4-13), começou do destino inesperado que coube ao rei Salomão, que todos conhecem como grande e sábio. Com efeito, o coração do soberano «não permaneceu íntegro com o Senhor, seu Deus, como o coração de David, seu pai». Uma surpresa porque, disse Francisco, «não sabemos se Salomão cometeu pecados graves; mas David, sim. Sabemos que Salomão levou uma vida tranquila, governou», enquanto que «David teve uma vida um pouco difícil, caiu no pecado, fez a guerra». E no entanto «Salomão é rejeitado pelo Senhor, e David é santo. Come se explica isto?».

Mas existe uma atenuante: «Quando David se convenceu que pecou, pediu perdão, fez penitência», e embora não tenha pecado uma só vez, «teve sempre a humildade de pedir perdão». Diversa foi a situação de Salomão, que era sempre «equilibrado, não tinha cometido pecados graves»; mas no trecho bíblico lê-se que o seu coração «se “desviara” do Senhor», um pouco de cada vez, progressivamente. Ele cedeu às suas mulheres, que o haviam induzido à idolatria. Precisamente ele, «o grande Salomão que o próprio Senhor louvou no início, quando pediu prudência para governar, e não riquezas nem fama: prudência para governar o povo», o grande Salomão de quem o mundo inteiro falava: tinha fama internacional». Por ele, para o conhecer, deslocou-se até a rainha de Sabá: «E o que disse ela? “Então era verdade o que, no meu país, ouvi dizer de ti e da tua sabedoria. Até chegar aqui e enquanto os meus olhos não viram, eu não acreditava no que se dizia. Pois bem, não me disseram nem sequer metade”». Portanto, o mundo inteiro falava da «grandeza de Salomão». Mas ele «não permaneceu íntegro diante do Senhor e foi por Ele rejeitado». O seu coração «desviou-se do Senhor. E parece que ele não se dava conta disto».

Aqui, explicou o Papa, estamos diante do «problema do enfraquecimento do coração». Poder-se-ia dizer de uma decadência sorrateira, porque «não é como uma situação de pecado: quando cometes um pecado, dás-te conta imediatamente». Ao contrário, «o enfraquecimento do coração é um caminho lento, que desliza pouco a pouco». Isto aconteceu com Salomão que, «adormecido na sua glória e fama, começou a seguir esta via» e o seu coração «debilitou-se». Paradoxalmente, «é melhor a clareza de um pecado, que o enfraquecimento do coração», ou seja, o pecado no qual «deslizas lentamente e não te dás conta. Lentamente, rumo à mundanidade», a uma vida que parece «digna», mas responde com «coração débil». Foi bem assim que «o grande rei Salomão, o grande prudente, o grande rei que tanto agradava a Deus, acabou por se corromper: corrompeu-se tranquilamente, porque o seu coração se debilitou».

A história de Salomão é muito atual: «Um homem e uma mulher com o coração fraco, ou debilitado, são uma mulher, um homem derrotados», admoestou Francisco, recordando que «este é o processo de muitos cristãos, muitos de nós». Diz-se: «Não, eu não cometo pecados graves»; mas seria preciso perguntar: «Como está o teu coração? É forte? Permanece fiel ao Senhor, ou tu deslizas lentamente?».

A tal propósito, o Papa recordou o episódio evangélico de Mateus (12, 43-45), onde se fala «do homem que fora libertado de um diabo, de um demónio» e «começou uma nova vida... tudo bem... mas o tempo passa e aquele demónio volta a ver como está a situação ali. E vê a casa bem arrumada e bonita. E vai encontrar outros sete demónios piores do que ele; voltam e o fim daquele homem é pior» do que antes. É precisamente este, comentou Francisco, «o drama do enfraquecimento do coração. E na vida pode acontecer isto com todos nós». Por isso, é sempre bom perguntar: «Mas o meu coração é forte diante do Senhor? Ou, lentamente, deslizo, esmoreço? O que devo fazer?». É necessária vigilância, explicou: «Vigiar sobre o teu coração. Vigiar! Prestar atenção todos os dias ao que acontece no teu coração. Se permanece firme na fidelidade ao Senhor» ou se, dia após dia, lentamente, decai.

«David — concluiu o Papa — é santo». Era pecador, é verdade, mas «um pecador pode tornar-se santo». Ao contrário, «Salomão foi rejeitado porque era corrupto». E «um corrupto não pode tornar-se santo». De resto, à corrupção chega-se exatamente «por aquele caminho do enfraquecimento do coração». Portanto, é preciso «vigiar sobre o coração todos os dias», compreender que «relação» temos com o Senhor e «apreciar a beleza e a alegria da fidelidade».

 



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