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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

O grande mentiroso

Terça-feira, 8 de maio de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 20 de 17 de maio de 2018

Há um inimigo «sedutor» que explora «a nossa curiosidade e a nossa vaidade» prometendo «prendas bem embrulhadas» apresentadas num bonito «pacotinho, sem nos deixar ver o que há dentro»; é como se se tratasse de «um cão raivoso e acorrentado» do qual não nos devemos aproximar — porque, caso contrário, «te morde, te destrói» — e com o qual nunca podemos dialogar, mas, pelo contrário, contra o qual devemos combater com as armas da oração, da penitência e do jejum. Foi toda centrada sobre a luta espiritual contra o diabo a reflexão proposta pelo Papa Francisco.

Inspirando-se no trecho final do Evangelho do dia (Jo 16, 5-11), o Pontífice começou a homilia explicando que o Senhor diz «que será o Espírito Santo quem nos fará compreender que o príncipe deste mundo já está condenado». Por conseguinte, «devemos pedir ao Espírito Santo a graça de compreender bem isto», ou seja, que «o demónio é um derrotado». O Papa advertiu imediatamente que, sem dúvida, «não morreu, está vivo»; no máximo «podemos dizer que está moribundo», contudo é também «um derrotado». Por este motivo, «não pode prometer nada, não pode dar-nos a esperança de construir algo. Nada de tudo isto, é um derrotado».

Todavia, não obstante «saibamos que é um derrotado», advertiu Francisco, «na vida quotidiana não é fácil interiorizar este conceito, convencendo-nos». E a razão disto é fácil de compreender: «antes de tudo, porque o diabo é um sedutor e gostamos de ser seduzidos. Nós gostamos, sublinhou o Papa com ênfase. E ele sabe como se aproximar de nós; sabe quais palavras nos dirigir. Desperta a nossa curiosidade, pois somos todos curiosos, e a nossa vaidade: “Mas o que ele está a dizer?”». Em síntese, o que «aconteceu com a Eva, acontece connosco. Connosco: “Experimentai isto! Não é o que estais a pensar, não...”. É a sedução». Além disso, prosseguiu o Pontífice, «devido à nossa vaidade gostamos que pensem em nós, que nos façam propostas... E ele tem esta capacidade; esta capacidade de seduzir». Por este motivo, «é tão difícil entender» que se trata de «um derrotado; porque ele se apresenta com grande poder: promete-te tantas coisas, oferece-te muitas prendas — bonitas, bem embrulhadas — “Oh, que bom!” — mas tu não sabes o que há dentro — “Mas, o embrulho é bonito”. Seduz-nos com o pacote sem nos fazer ver o que há dentro. Sabe apresentar as suas propostas à nossa vaidade, à nossa curiosidade». Com efeito, acrescentou o Papa com uma imagem evocativa, «está prestes a falecer, mas como o dragão, como o crocodilo — que quando está para morrer os caçadores alertam: «Não te aproximes do crocodilo, porque com um bater de cauda te pode mandar para o outro mundo — é muito perigoso». E «é um sedutor. Apresenta-se com todo o poder. E nós, estultos, acreditamos».

Insistindo sobre quanto é perigoso o diabo, Francisco frisou que ele «sabe falar bem. Fala muito bem». Não só: «sabe também tocar, cantar; a fim de enganar é capaz de cantar até o Aleluia pascal. É o grande mentiroso, o pai da mentira». Aliás, «as suas propostas são todas mentiras, todas». Contudo, infelizmente, «ele apresenta as mentiras e nós acreditamos. É um derrotado, mas move-se como um vencedor». A ponto que «é inclusive capaz de nos dar luz, ilumina! Mas a luz do diabo é fulgurante, como o fogo de artifício, e não é duradoura. Um instante, depois esmorece». Ao contrário, «a luz do Senhor é suave, mas permanecente». Portanto, resumindo, Francisco recordou que o diabo «nos engana, nos seduz, sabe mexer com a nossa vaidade, a nossa curiosidade e nós compramos tudo, compramos tudo. E deste modo, caímos na tentação. Se fosse a tentação de um grande guerreiro, pelo menos lutou». Mas, disse o Papa sem meios-termos, «é a tentação apresentada por um cobarde — porque é cobarde — por um mentiroso, por um sedutor». Em síntese, é «um derrotado perigoso».

«Estai atentos» advertiu o Pontífice, reafirmando que «devemos estar atentos ao demónio. “O que devo fazer, padre?”. Esta pergunta surge sempre: “Padre, o que faço diante deste diabo derrotado, mas astuto, mentiroso, sedutor que quer apoderar-se de mim? Que devo fazer?”». Francisco respondeu recordando que «Jesus diz a nós, mas também aos apóstolos, o que se deve fazer: vigiar e rezar. “Vigiai e rezai”: primeira coisa. E quando rezamos o Pai-Nosso peçamos a graça de não cair em tentação, peçamos que nos proteja para não deslizarmos na tentação». Por conseguinte, a primeira arma é a «oração». Mas, acrescentou, «quando a sedução é forte — damo-nos conta, mas ela procura iluminar-nos com a sua luz artificial — penitência, jejum». Portanto, eis as outras armas presentes no arsenal do cristão para esta luta; com efeito, «Jesus, nestes momentos mais fortes, falando sobre o diabo, afirma: “Podemos derrotá-lo com a oração e o jejum”». O Senhor é claro: «vigiai, rezai e depois, por outro lado, diz: oração e jejum. Somente com isto».

Aliás, é uma ulterior sugestão de Francisco, «outra coisa que devemos fazer é não nos aproximarmos. Um padre da Igreja diz que «o diabo é um cão raivoso — ou melhor furioso — e acorrentado”. Ele está acorrentado. Mas não o vais acariciar? Não deves acariciá-lo, porque te morde, te destrói. Ele lá, eu cá». Portanto, «não nos devemos aproximar», pois «se, espiritualmente, nos aproximarmos daquele pensamento, se nos aproximarmos daquele desejo, se formos por um lado ou por outro, estamo-nos a aproximar do cão raivoso e acorrentado. Por favor, não faças isto», recomendou Francisco descrevendo as eventuais consequências num diálogo imaginário: «“Tenho uma grande ferida...” — “Quem ta procurou?” — “Um cão” – “Mas estava acorrentado?” — «Eh, sim, eu aproximei-me para o acariciar” – “Mas, a culpa é tua”. Precisamente «assim», observou Francisco: «nunca se aproximar» pensando que, não importa, «está acorrentado». Deixemo-lo ali acorrentado.

Por fim, a última admoestação do Papa: «Outra coisa que devemos fazer: estar atentos e não dialogar com o diabo. Eva caiu por ter dialogado. Ele veio: “Mas come, por qual razão...” – “Não, mas se o Senhor...”. Pobrezinha: pensou que era uma grande teóloga e caiu». Ao contrário, «não devemos dialogar», dado que «Jesus nos dá o exemplo. No deserto, quando foi tentado pelo demónio — as três tentações — como responde Jesus»? questionou-se o Papa. «Com as palavras de Deus — foi a resposta firme — com a palavra da Bíblia. Nunca com uma palavra sua; não dialoga com ele. Jesus expulsa os demónios, afasta-os ou responde com a palavra de Deus. Por vezes, pergunta o nome. Não estabelece um diálogo com eles». Em síntese, «com o diabo não se dialoga, porque ele nos vence, é mais inteligente do que nós. É um anjo; é um anjo de luz. E muitas vezes aproxima-se de nós deixando-nos ver esta luz, mas perdeu a luz, e disfarça-se de anjo de luz, mas é um anjo da escuridão, uma anjo da morte».

Daqui o convite conclusivo a refletir sobre a hodierna «Palavra de Jesus» citada pelo evangelista João: «O príncipe deste mundo já está condenado». De facto, o demónio «é um condenado, um derrotado, um acorrentado que está prestes a morrer»; mas, denunciou o Pontífice, «é capaz de fazer massacres. E nós devemos rezar, fazer penitência, não nos aproximarmos, não dialogar com ele. E por fim, ir ter com a mãe, como fazem as crianças», dado que «quando elas têm medo, vão ter com a mãe: «Mãe, mãe... tenho medo!”, quando sonham... procuram a mãe». E para o cristão a mãe é «Nossa Senhora; ela ampara-nos». Por este motivo «os padres da Igreja, sobretudo os místicos russos, dizem — rezou Francisco — “na época das perturbações espirituais, há que se refugiar sob o manto da grande Mãe de Deus”. Ir ter com a Mãe».

 


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