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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Alegria cristã

Segunda-feira, 28 de maio de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 23 de 7 de junho de 2018

O que interrompe as risadas forçadas de «uma cultura não jubilosa que inventa tudo e mais alguma coisa para se divertir», oferecendo «por todos os lados pedacinhos de vida boa», é a verdadeira alegria do cristão. Que «não se compra no mercado», mas é «um dom do Espírito», preservado pela fé e sempre «em tensão entre memória da salvação e esperança». A homilia pronunciada pelo Papa foi centrada inteiramente na alegria como autêntico «respiro do cristão».

Inspirando-se no trecho evangélico de Marcos (10, 17-27), o Pontífice realçou que «o jovem que queria avançar na vida ao serviço de Deus, que sempre vivera segundo os mandamentos e que foi capaz inclusive de atrair a si o amor de Jesus, quando ouviu a condição que Jesus lhe propunha “entristeceu-se e foi-se embora pesaroso”». Praticamente, «brotou do coração a atitude, as raízes da sua personalidade». Como se dissesse: “Sim, quero seguir o Senhor, ir junto com o Senhor, mas não quero renunciar às riquezas». Porque, insistiu o Papa, aquele jovem «era prisioneiro das suas riquezas, não era livre e, por esta razão, foi-se embora entristecido».

«Ao contrário na primeira leitura São Pedro fala-nos da alegria, não da tristeza, mas da alegria cristã» continuou o Pontífice, recordando o trecho tirado da primeira leitura do apóstolo (1, 3-9). «Este jovem foi-se todo abatido, porque não era livre, era escravo» explicou. E «São Pedro diz-nos: “sede repletos de alegria”, exultai de alegria». É «forte» a expressão de Pedro: «cheios de alegria, exultai de alegria».

Mas «o que é a alegria?» questionou-se Francisco, referindo-se àquela alegria «que Pedro pede que tenhamos e que o jovem não podia ter porque era prisioneiro de outros interesses». O Papa definiu «a alegria cristã» como «o respiro do cristão». Porque «um cristão que não é alegre no coração — afirmou — não é um bom cristão».

Portanto, a alegria, afirmou o Pontífice, «é o respiro, o modo de se expressar do cristão». Aliás, observou, a alegria «não é algo que se compra ou que se obtém com esforço: não, é um fruto do Espírito Santo». Porque, recordou, o que faz sentir «a alegria no coração é o Espírito Santo». Há «alegria cristã se estivermos em tensão entre a recordação — a memória de sermos regenerados, como afirma São Pedro, que fomos salvos por Jesus – e a esperança daquilo que nos aguarda». E «quando alguém está nesta tensão, é alegre».

Mas, advertiu o Papa, «se esquecermos o que o Senhor fez por nós, ou seja, que nos ofereceu a sua vida, nos regenerou — é forte a palavra, “regenerar”, uma nova criação como afirma a liturgia — e se não olharmos para aquilo que nos espera, isto é, o encontro com Jesus Cristo, se não tivermos memória, não teremos esperança, não poderemos sentir alegria». Talvez «tenhamos sorrisos, isto sim, mas não alegria».

Além disso, reafirmou Francisco, «não se pode viver de modo cristão sem alegria, pelo menos no seu primeiro grau que é a paz». Com efeito, «o primeiro grau da alegria é a paz: sim, quando chegam as provações, como diz São Pedro, sofremos; mas descemos e encontramos a paz e aquela paz ninguém a pode tirar». Eis por que «o cristão é um homem, uma mulher de alegria, um homem, uma mulher de consolação: sabe viver em consolação, a consolação da memória de ser regenerado e a consolação da esperança que nos aguarda». Precisamente «estes dois constituem aquela alegria cristã e a atitude».

«Alegria não significa viver de risada em risada, não, não é isso» admoestou o Pontífice. A «alegria — acrescentou — não é ser engraçado, não, não é isto, é outra coisa». Porque «a alegria cristã é a paz, a paz que se encontra nas raízes, a paz do coração, a paz que somente Deus nos pode dar: esta é a alegria cristã». O Papa sublinhou que «não é fácil preservar esta alegria». E «o apóstolo Pedro diz que é a fé que a preserva: eu penso que Deus me regenerou, penso que me dará aquele prémio». Precisamente «esta é a fé e com esta fé preserva-se a alegria, preserva-se a consolação». Por conseguinte, «somente a fé preserva a alegria e a consolação».

«Nós — reconheceu o Papa — vivemos numa cultura não jubilosa, uma cultura em que se inventam muitas coisas para que nos divirtamos, para que estejamos despreocupados; oferecem-nos em toda a parte pedacinhos de vida boa». Mas «esta não é alegria — explicou — porque alegria não é algo que se compra no mercado: é um dom do Espírito».

Nesta perspetiva, Francisco sugeriu que olhemos para dentro de nós, questionando-nos: «Como está o meu coração? Pacífico, alegre, confortado»?». Mais ainda, reafirmou o Pontífice, «também no momento de aflição, no momento da provação, o meu coração não está inquieto de maneira positiva, com aquela inquietação que não é boa: há uma inquietação positiva, mas há outra negativa que leva a procurar as seguranças em toda a parte, a procurar prazer por todos os lados». Como «o jovem do Evangelho: ele tinha medo que se deixasse as suas riquezas não seria feliz».

Portanto, «a alegria, a consolação» são «o nosso respiro de cristãos». E portanto, sugeriu Francisco, «peçamos ao Espírito Santo que nos dê sempre esta paz interior, aquela alegria que nasce da recordação da nossa salvação, da nossa regeneração e da esperança naquilo que o futuro reserva”». Certamente, «não era cristão: queria estar próximo de Jesus, mas escolheu a própria segurança, não a que Jesus oferecia».

Por este motivo, concluiu o Papa, «peçamos ao Espírito Santo que nos dê a alegria, que nos dê a consolação, pelo menos no primeiro grau: a paz». Cientes de que «ser homens e mulheres de alegria significa ser homens e mulheres de paz, quer dizer homens e mulheres de consolação: que o Espírito Santos nos doe isto».

 



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