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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Liturgia oferecida pelo nobre povo chinês

Quinta-feira, 24 de maio de 2018

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 22 de 31 de maio de 2018

A «injustiça de explorar o trabalho é pecado mortal, e não o digo eu, mas é Jesus quem o diz!». Com palavras fortes o Papa denunciou que «até hoje, para salvar os grandes capitais, se deixa o povo sem trabalho». E dirigiu-se diretamente a quantos são apegados às riquezas: «Ai de vós que explorais o povo, que explorais o trabalho, que pagais ilegalmente, que não pagais a contribuição para a reforma, que não concedeis férias», porque não viveis «na graça de Deus», afirmou o Pontífice, convidando a «rezar e fazer penitência» não pelos pobres, mas pelos ricos escravos desta idolatria. Uma celebração que o Papa quis oferecer «pelo nobre povo chinês» recordando, no início do rito, que «hoje a Igreja faz memória de Maria Auxiliadora e que em Xangai se celebra a festa de Nossa Senhora de Sheshan, Maria Auxiliadora».

Para a sua reflexão sobre a questão da injustiça social — não se trata de ser comunista nem sindicalista, mas de seguir o Evangelho, disse — Francisco inspirou-se diretamente na «carta de Tiago (5, 1-6), que ouvimos na primeira leitura: fala das riquezas, do modo como o cristão deve agir diante das riquezas ou com as riquezas». E o apóstolo «vai em frente decidido, não usa meias-palavras, diz com firmeza: “Agora, a vós ricos: chorai e gritai pelas calamidades que se abaterão sobre vós! As vossas riquezas são podres, as vossas roupas corroídas pelas traças. O vosso ouro e a vossa prata são consumidas pela ferrugem, a qual se erguerá para vos acusar e devorará a vossa carne como fogo. Acumulastes tesouros para os últimos dias!”».

É um texto, recordou o Papa, «muito forte e duro». De resto, «Jesus não disse menos que isto: “Ai de vós, ricos!”, na primeira invetiva depois das bem-aventuranças, na versão de Lucas». Portanto, «ai de vós, ricos!» mas, afirmou Francisco, «se hoje alguém fizesse uma pregação como esta nos jornais, no dia seguinte», ler-se-ia que «aquele sacerdote é comunista!».

Ao contrário, «a pobreza está no centro do Evangelho», insistiu o Papa, e «a pregação sobre a pobreza está no cerne da pregação de Jesus». A ponto que «“bem-aventurados os pobres” é a primeira bem-aventurança». Aliás, «o bilhete de identidade, com o qual Jesus se apresenta quando volta à sua aldeia, Nazaré, à sinagoga, é: “O Espírito está sobre mim, fui enviado para anunciar o Evangelho, a Boa Nova, a alegre notícia aos pobres”».

«Na história — reconheceu Francisco — tivemos sempre esta fraqueza de procurar eliminar a pregação sobre a pobreza, julgando que é algo social, político. Não! É puro Evangelho, é puro Evangelho». É importante questionar-se, prosseguiu, «o motivo desta pregação tão dura contra as riquezas», a ponto que Jesus diz: «Ai de vós, ricos!». As riquezas, explicou o Papa, «são também um dom de Deus, mas os ricos, quantos vivem apegados ao dinheiro, o Senhor castiga-os, como diz hoje Tiago» no trecho da carta proposto pela liturgia.

«Antes de tudo, porque as riquezas são uma idolatria», explicou o Papa. E «o próprio Jesus diz que não se podem servir a dois senhores: ou serves a Deus ou às riquezas». Portanto, a riqueza tem a categoria de «senhor». Assim, eis a pergunta direta: «És fiel a Deus ou àquele outro senhor?». Mas «isto não pode ser assim — explicou Francisco — pois a riqueza é “senhoril”, no sentido que se apega a ti e não te deixa, e vai contra o primeiro mandamento. É uma idolatria». A ponto que «certa vez ouvi um missionário que, quando falava destas coisas, na pregação dizia: “Todos os ídolos são de ouro”». Sim, acrescentou o Papa, «é um exagero, mas ele via bem: é a sedução das riquezas, a idolatria». E a propósito da «idolatria, quando Moisés estava no Sinai para receber a Lei de Deus, que fez o povo? Construiu um bezerro de ouro para o adorar».

«As riquezas dão segurança», reconheceu o Pontífice. Assim, alguém poderia dizer que as prefere em relação a «este Deus que não se sabe o que fará amanhã. Hoje fala, amanhã está calado, e não sabemos como Deus age connosco». Em síntese, «as riquezas são o “deus” ao nosso alcance para vivermos tranquilos». Eis que, primeiro ponto, «Jesus, e também Tiago, castiga as riquezas porque são uma idolatria e entende-se que indica as pessoas que vivem apegadas às riquezas, que se deixam dominar por elas».

Segundo ponto: as riquezas «são uma idolatria mas vão também contra o segundo mandamento, pois destroem a relação harmoniosa entre nós, homens», afirmou o Papa. E na sua carta, «Tiago fala disto, dizendo aos ricos: “Eis, o salário dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras”». Ouvindo estas palavras, «alguém poderá dizer-me: “Padre, este não é o apóstolo Tiago, é um sindicalista!”. Não, é o apóstolo Tiago que fala, sob a inspiração do Espírito Santo».

O Papa releu as palavras da carta: «Eis, o salário dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras, e que vós não pagastes, grita — este salário grita — e os protestos dos ceifadores chegaram aos ouvidos do Senhor Todo-Poderoso”». Tudo isto «destrói a harmonia, a relação entre nós, irmãos, vai contra o segundo mandamento: por isso as riquezas arruínam a vida, a alma».

«Ser apegado às riquezas» é errado, insistiu o Papa, convidando a pensar na «parábola de Jesus» que narra a história do rico e do pobre Lázaro: «O rico dava-se à boa vida, festas, boa vida, vestes luxuosas, e ali havia um homem que nada possuía; os cães lambiam as feridas daquele desventurado». Mas «o rico não se interessava; sabia quem ele era, como se vê na parábola do Evangelho, mas estava ali com os seus amigos, festejava, apegado às festas, às riquezas» porque, insistiu Francisco, «as riquezas nos afastam da harmonia com os irmãos, do amor ao próximo, tornando-nos egoístas». Além disso, o «que diz hoje Tiago, já o tinha dito o profeta Isaías quando falava dos sacrifícios que Deus queria: “Justiça, este é o sacrifício que desejo, justiça com os vossos servos”». E Tiago faz-lhe eco: «o salário dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras».

«Parecia algo atual, este» tema, prosseguiu o Papa. «Também aqui, na Itália, para salvar os grandes capitais se deixa o povo sem trabalho». Um modo de agir que «vai contra o segundo mandamento» e a «quem faz isto» é preciso dizer: «ai de vós!». Mas não sou eu que o digo, insistiu o Pontífice, «não sou eu, é Jesus». Sim, «Ai de vós que explorais o povo, que explorais o trabalho, que pagais ilegalmente, que não pagais a contribuição para a reforma, que não concedeis férias. Ai de vós!». Pois «dar “descontos”, fazer fraudes sobre o que se deve pagar, sobre o salário, é pecado, é pecado». E de pouco serve dizer «padre, vou à missa todos os domingos, frequento aquela associação católica, sou muito católico e rezo essa novena» se «não pagas» o justo aos trabalhadores. E «esta injustiça é pecado mortal, não estás na graça de Deus: não sou eu que o digo — repetiu Francisco — quem o diz é Jesus, o apóstolo Tiago». E «por isso, as riquezas afastam-te do segundo mandamento, do amor ao próximo».

Portanto, «as riquezas afastam-nos do primeiro mandamento, como aquele homem rico que só pensava em ampliar os seus celeiros, porque possuía muitos bens e não sabia onde pô-los». Mas também «nos afastam do segundo mandamento, como o rico: festas todos os dias, mas não se interessava com quantos estavam fora, ou como aqueles que não pagam o que devem». Mas há também uma «terceira coisa que quero dizer: as riquezas têm tanta capacidade de seduzir que nos transformam em escravos». Assim, «não és livre diante das riquezas; para seres livre perante as riquezas, deves manter-te à distância e rezar ao Senhor». Consciente de que «se o Senhor te concedeu riqueza é para a dar aos outros, para proporcionar muitos benefícios aos outros em seu nome». Mas «as riquezas têm esta capacidade de nos seduzir, e caímos nesta sedução, somos escravos das riquezas».

«Acho que hoje, a todos nós, aos quais o Senhor concedeu a graça de celebrar a Eucaristia juntos, fará bem rezar um pouco e fazer um pouco mais penitência, e não pelos pobres, mas pelos ricos», concluiu Francisco. Sim, «pelos ricos que não são livres, pelos ricos escravos, porque o rico livre é generoso, sabe que recebeu de Deus as riquezas para as oferecer aos outros; quem faz assim é grande!». Mas «os ricos escravos, aqueles que possuem até à borda e amanhã querem mais e mais, e até pagam o preço de exploração do próximo e adoram ídolos, são escravos». Portanto, «rezar e fazer penitência pelos ricos far-nos-á muito bem».

 



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