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VISITA PASTORAL DO SANTO PADRE LEÃO XIV
A PAVIA E A SANT'ANGELO LODIGIANO

LITURGIA DA PALAVRA E VENERAÇÃO DAS RELÍQUIAS DE SANTO AGOSTINHO

HOMILIA DO SANTO PADRE

Basílica de São Pedro "in Ciel d’Oro" (Pavia)
Sábado, 20 de junho de 2026

[Multimídia]

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Eminência
Excelências, amados irmãos no Episcopado
prezados presbíteros e diáconos
caros religiosos, religiosas e seminaristas
meus confrades agostinianos
irmãos e irmãs!

Estou feliz por me encontrar aqui no meio de vós e agradeço ao Bispo, D. Corrado Sanguineti, e ao Padre Joseph Farrell, Prior-Geral da Ordem de Santo Agostinho, pelas palavras de boas-vindas que me dirigiram. Estou contente com o que ouvi sobre esta Igreja que se encontra em Pavia: uma comunidade de antiga tradição que permanece viva e presente na cidade e no território, atenta aos sinais deste tempo e aos seus desafios, sem se deixar desencorajar pelas dificuldades, pelo contexto secularizado e pelas dificuldades na transmissão da fé.

Para não se deixar desencorajar, é necessário um olhar animado pelo espírito da fé, que ajude a ler a realidade de modo mais profundo em relação àquilo que parece à primeira vista, e a não cair numa atitude negativa, pessimista, incapaz de gerar vida nova. Pelo contrário, o olhar que nos é pedido — e que o Espírito Santo nos concede — é o de Jesus. No meio das dificuldades e incompreensões, Ele vê a mão providencial do Pai nos lírios do campo, nas aves do céu (cf. Mt 6, 28-29), alimenta a esperança na pequena semente que cresce (cf. Mc 4, 30-33) e convida-nos a elevar o olhar e a contemplar os campos que já estão dourados para a colheita (cf. Jo 4, 35). Na Exortação apostólica Evangelii gaudium, o Papa Francisco exortou-nos a esta leitura espiritual da realidade, dizendo: «O olhar da fé é capaz de reconhecer a luz que o Espírito Santo sempre irradia no meio da escuridão […]. A nossa fé é desafiada a entrever o vinho em que a água pode ser transformada e a descobrir o trigo que cresce no meio do joio» (n. 84).

Iluminados pela esperança do Evangelho e inspirando-nos no que nos disse na Leitura o Apóstolo Pedro (cf. 1 Pd 2, 4-10), que chama “pedras vivas” aos discípulos do Senhor, perguntemo-nos: como podemos hoje, aqui em Pavia, ser uma Igreja viva?

A primeira orientação do Apóstolo é essencial: permanecer unidos a Cristo, pedra viva, descartada pelos homens, mas escolhida por Deus. Cristo é o fundamento do edifício espiritual, a pedra angular colocada como base do nosso caminho eclesial, da ação pastoral e da evangelização (cf. vv. 4-5).

Este ser edificado e construir em Cristo preserva-nos do risco de nos dispersarmos e cansarmos com coisas secundárias, talvez boas, mas que não vão ao essencial. Naturalmente, somos chamados a ser realistas e sabemos que, nas comunidades paroquiais e na vida de uma diocese, há muitas urgências e compromissos que exigem presença e múltiplas atividades. Porém, trata-se de reconduzir tudo ao centro, de construir sempre a partir da pedra angular, de impedir que as nossas ações se revelem dispersivas, centradas exclusivamente em nós próprios e nos nossos esforços. Dado que o centro é Cristo, todos bebemos desta única fonte, submetendo os nossos esforços ao discernimento que deriva da sua luz, da sua Palavra. Assim, fazemos crescer uma Igreja na qual caminhamos juntos, capaz de se renovar sem se dividir, onde todos se reconhecem irmãos e trabalham com alegria ao serviço do Reino de Deus.

Isto implica o que o vosso Bispo dizia no início: devemos aprender a ser comunidades cristãs centradas no essencial, mesmo que isto requeira a renúncia a algumas estruturas e certezas do passado. O essencial é viver com Cristo, e devemos preocupar-nos com a propagação do seu Evangelho. Recomendo-o, em primeiro lugar, aos presbíteros, que às vezes podem sofrer de uma sensação de dispersão interior, de cansaço devido às múltiplas incumbências: regressai sempre ao centro, unificai tudo na relação com o Senhor e, n’Ele, descobri a alegria da fraternidade presbiteral e do trabalho pastoral comum com os leigos. E recomendo-o também às religiosas e religiosos, que muitas vezes conhecem o cansaço de atualizar o carisma a que pertencem, mas que devem recomeçar sempre a partir de Cristo e partilhar os talentos recebidos, quer com outras comunidades religiosas, quer com o conjunto da Igreja diocesana.

Aderir a Cristo, pedra angular, permite-nos enfrentar também as problemáticas atuais que dizem respeito à transmissão da fé e à prática religiosa. Numa época em que muitas pessoas parecem ter perdido o gosto espiritual ou, por várias razões, já não conseguem sentir a atração da proposta da fé cristã para a sua vida, somos chamados em primeiro lugar a levar o anúncio do Evangelho, um anúncio alegre e libertador de Jesus Cristo, que faça sobressair a beleza da fé para a nossa vida e para a nossa sociedade. Hoje em dia há cada vez mais necessidade de acompanhar as pessoas na descoberta ou redescoberta da fé. Por isso, é preciso anunciar o cerne do Evangelho, ou seja, Jesus, que na sua encarnação, morte e ressurreição, nos revela o mistério de Deus e, ao mesmo tempo, o mistério que somos nós próprios. «Uma pastoral de caráter missionário […] concentra-se no essencial, naquilo que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário» (Evangelii gaudium, 35).

Neste contexto, a figura de Santo Agostinho resplandece com uma luz preciosa. O seu pensamento, a história da sua conversão e a sua espiritualidade recordam-nos o valor e o primado da interioridade: «Não saias de ti mesmo, volta para dentro de ti: a verdade habita no homem interior» (De vera religione, XXXIX, 72). A necessidade de regressar a nós próprios, de não nos dispersarmos na fragmentação exterior, de procurar e encontrar um sentido que oriente a nossa vida, animando as nossas relações, é uma exigência comum a todos: hoje, ela sobressai de várias maneiras, até na pressa e dispersão da vida diária, sobretudo nas interrogações dos mais jovens.

Quando o nosso testemunho de fé é coerente e apaixonado, nós próprios somos “pedras vivas” que compõem o edifício espiritual que é a Igreja. O estilo de vida dos cristãos, que nos primórdios era novo e surpreendente em relação ao mundo judaico e pagão, deve continuar a sê-lo também hoje, no mundo atual. Com efeito, unidos a Cristo, podemos expressar o nosso sacerdócio santo, oferecendo sacrifícios espirituais diariamente (cf. 1 Pd 2, 5). Entrelaçado com a oração e o serviço ao próximo, este culto transforma a nossa vida em sinal do Evangelho através de escolhas, ações e relações.

Caríssimos, como pedras vivas, somos chamados a ser Igreja bem enraizada no território, uma Igreja que caminha no meio das dificuldades e esperanças das pessoas, perita na arte de ouvir e acompanhar, cuidando das relações com as famílias, com quantos se preparam para receber os sacramentos e também com quem se aproxima ocasionalmente ou está afastado da vida de fé.

Sei que já viveis animados por esta paixão pastoral e convido-vos a cultivá-la sem desanimar, procurando alcançar todos com a alegria do Evangelho, valorizando o melhor da vossa história — pensemos nos oratórios — e experimentando novas possibilidades de encontro. Merece especial atenção o compromisso de tornar orgânicas as redes de pequenas comunidades que se reúnem nas casas em volta do Evangelho, abertas ao serviço da comunidade paroquial ou pastoral. A escuta da Palavra gera vivacidade espiritual, estimula o testemunho nos ambientes de vida, também através dos movimentos e associações, incentivando a aproximar-se dos pobres. E, especialmente aqui em Pavia, realço a importância da pastoral universitária e do diálogo com a cultura. O estudo e a elaboração científica estimulam os crentes a conceber uma proposta de fé capaz de iluminar a busca da verdade, da justiça e da beleza que move a alma humana. Sei que começastes a dar passos significativos para assumir um estilo sinodal na vida comunitária, integrando o percurso tradicional das paróquias com novas iniciativas de evangelização. Convido-vos, pois, a prosseguir neste percurso, aprendendo cada vez mais a caminhar juntos, no discernimento comum e na elaboração de projetos partilhados, cultivando a fraternidade e promovendo a corresponsabilidade.

Caros irmãos e irmãs, que Maria Santíssima, Mãe da Igreja, vos conceda o desejo ardente de viver e testemunhar o Evangelho, na caridade fraterna que nos torna um único povo a caminho rumo a Deus. Venerando as relíquias do santo padre Agostinho, peço que ele, com o vosso padroeiro, São Siro, interceda sempre por esta Igreja e pela cidade de Pavia. Obrigado!

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L'Osservatore Romano