VIAGEM APOSTÓLICA DE SUA SANTIDADE O PAPA LEÃO XIV
AO URUGUAI, À ARGENTINA E AO PERU
6-17 DE NOVEMBRO DE 2026
HOMILIA DO SANTO PADRE
Catedral da Imaculada Conceição, São Filipe e São Tiago, Montevidéu
Sexta-feira, 6 de novembro de 2026
___________________________________
___________________________
Queridos irmãos e irmãs em Cristo Jesus,
É uma alegria celebrar convosco a oração da tarde nesta Catedral, que conserva tantas memórias da vida do seu povo. Entre elas, a pia onde José Gervasio Artigas recebeu o Batismo, sinal do contributo fecundo da Igreja em prol do país. Foi ali que, para ele, começou uma nova vida como filho de Deus. Essa mesma graça está na origem da nossa própria história. Pelo Batismo, Cristo tornou-nos participantes da sua vida e convida-nos a crescer à sua semelhança, até que aprendamos a olhar, a escutar e a amar como Ele.
O salmo que acabámos de entoar contém uma advertência surpreendente. Depois de descrever os ídolos de ouro e prata, obras das mãos humanas, diz: «Sejam iguais a eles, os que os fazem e todos os que neles confiam» (Sl 135, 18). Os homens construíam aquelas imagens e acabavam por se tornar semelhantes a elas. Assim é o coração humano: pouco a pouco vai assumindo a forma daquilo que ama e no qual deposita a sua confiança. Por isso, Jesus diz-nos: «Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração» (Mt 6, 21).
Também nós, que entregámos a vida ao Senhor, precisamos de nos perguntar onde está o nosso coração. Por vezes, ele pode ficar preso a uma obra que consideramos nossa, ao reconhecimento que recebemos ou à tranquilidade de ter tudo sob controle. E, sem nos apercebermos, começamos a ver os outros a partir de uma perspectiva com base nessas preocupações. A fidelidade à nossa vocação exige que voltemos, uma e outra vez, a Jesus Cristo, deixando que Ele seja o nosso tesouro, Aquele a quem queremos assemelhar-nos.
Os ídolos, continua o salmo, «têm boca, mas não falam; têm olhos, mas não veem; têm ouvidos, mas não ouvem» (Sl 135, 16-17). São de ouro e prata, mas carecem de vida. Quão diferente é o Deus em quem depositámos a nossa confiança! Ele vê o sofrimento do seu povo e ouve o seu clamor. Assim o revelou a Moisés junto à sarça ardente: «Eu bem vi a opressão do meu povo […] e ouvi o seu clamor» (Ex 3, 7).
E quando o Filho de Deus se fez homem, essa compaixão divina manifestou-se num rosto humano, em olhos, ouvidos e mãos como os nossos. Jesus ergueu o olhar para Zaqueu, que estava escondido entre a folhagem duma árvore (cf. Lc 19, 5). Ouviu Bartimeu, quando muitos queriam que ele se calasse (cf. Mc 10, 48-49). Estendeu a mão para tocar num leproso (cf. Mc 1, 41) e abençoou as crianças que se aproximavam (cf. Mc 10, 16). De sua boca saiu a palavra que expulsava os demónios (cf. Mc 1, 25-26) e, da cruz, o pedido de perdão pelos seus algozes (cf. Lc 23, 34). Assim é o nosso Deus. Em Jesus, conhecemos como Ele nos vê e o quanto nos ama (cf. Jo 14, 9).
Queridos irmãos, também por meio de vós, esse amor de Cristo quis chegar a tantas pessoas. Os vossos olhos viram o crescimento de gerações inteiras e repararam em lágrimas que passavam despercebidas. Os vossos ouvidos acolheram confidências difíceis de pronunciar. Quantas pessoas chegaram ao confessionário com receio e saíram radiantes pelo perdão recebido! O mesmo acontece com as vossas mãos, que tantas vezes elevaram o Corpo de Cristo, ajudaram os doentes, prepararam uma refeição ou ampararam quem já não conseguia caminhar. Essas mãos que, através do carisma das vossas congregações, fizeram chegar a tantas pessoas a ternura de Deus. Algumas delas trazem as marcas da idade e do trabalho. Como são belas as mãos que envelheceram a fazer o bem!
Existe uma transformação que o Senhor realiza em quem permanece perto d’Ele. A Leitura Breve recordou-nos que a provação da nossa fé produz perseverança (cf. Tg 1, 3). A semelhança com Cristo amadurece também nas dificuldades, ou seja, quando o trabalho parece infrutífero, as forças diminuem ou é preciso recomeçar. A constância vai deixando uma marca. Com o passar dos anos, o olhar pode tornar-se mais misericordioso, as mãos mais dispostas a servir e as palavras mais capazes de consolar. Oxalá as provações nos encontrassem sempre unidos a Jesus, para que nos façam crescer no seu amor!
Sob as abóbadas desta Catedral repousa o corpo do Beato Jacinto Vera. Neste túmulo, aguardam a ressurreição aqueles pés que percorreram os caminhos do Uruguai para levar o Evangelho ao seu povo; as mãos que abençoaram, socorreram os pobres e administraram os Sacramentos; os ouvidos que acolheram incontáveis confidências e os olhos que se detiveram naqueles que precisavam de ajuda. Assim o descreveu uma religiosa que o acompanhou durante anos e que, evocando a sua simplicidade de falar e até a sua maneira de andar, deixou este testemunho: «Ao vê-lo, parecia que estava sempre em oração» (Positio, I, 154). O relacionamento com Deus tinha moldado o seu rosto, os seus gestos, a sua maneira de estar com os outros. Quem se aproximava dele encontrava algo da bondade de Cristo, mesmo antes de ouvir uma única palavra da sua pregação.
Queridos irmãos e irmãs, eis um dos segredos da evangelização: assemelhar-nos Àquele que anunciamos. Nesta terra, onde muitos dos nossos contemporâneos mal conhecem Jesus Cristo e tantos jovens cresceram longe da vida da Igreja, este testemunho tem uma força particular. Que, ao verem como olhamos para os outros, como escutamos ou como nos aproximamos de quem sofre, isso possa suscitar neles a pergunta: de onde nasce este amor? E que, quando lhes falarmos de Jesus, descubram o mesmo Senhor cuja bondade começaram a experimentar através de nós, apesar da nossa pobreza.
Este desejo de que outros conheçam e sigam Jesus manifestou-se também na oração pelas vocações. Quando, em 2024, o seminário interdiocesano não recebeu novos candidatos, muitos fiéis começaram a reunir-se em momentos de oração e jejum para pedir ao Senhor que enviasse trabalhadores para a sua messe (cf. Mt 9, 38). Desde então, têm perseverado na súplica para que outros ouçam o seu chamamento. E hoje damos graças porque vários jovens iniciaram o seu caminho no seminário e na vida consagrada e estão sentados no meio de nós. Que alegria saber que continuam a nascer respostas generosas ao amor de Cristo! Agradeço de coração a quem tem mantido esta súplica e encorajo-vos a perseverar. Vede nestes frutos a prova de que o nosso Deus escuta a oração do seu povo.
Gostaria que esta experiência do Uruguai encontrasse eco em toda a Igreja. Desde esta Catedral de Montevidéu, convido os meus irmãos bispos de todo o mundo a promoverem nas suas dioceses jornadas de oração e jejum pelo aumento das vocações ao sacerdócio e à vida consagrada. Que as paróquias, as famílias e as comunidades religiosas se unam nesta súplica. Que o exemplo desta terra inspire muitos outros a rezar com a mesma confiança!
Queridos seminaristas, noviços e noviças, contemplai os que, antes de vós, já percorreram o caminho da entrega: as suas mãos desgastadas, o seu amor perseverante, a sua forma de se relacionar com Jesus. Aprendei deles essa familiaridade com o Senhor. E aos que há muitos anos se dedicam ao ministério ou à vida consagrada, peço-vos que volteis sempre ao essencial. Guardai o silêncio da oração, a escuta da Palavra, o encontro com Cristo na Eucaristia. Nessa intimidade renova-se o amor que vos levou a entregar-lhe a vida, e o nosso coração vai adquirindo os traços do seu.
Gostaria ainda de mencionar mais uma imagem do salmo. Sobre aqueles ídolos, é dito que «nem sequer há respiração na sua boca» (Sl 135, 17). Ao contrário, o Senhor ressuscitado soprou sobre os seus discípulos e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo» (Jo 20, 22). Esse mesmo Espírito dá vida ao barro que somos (cf. Gn 2, 7) e nos reúne num único corpo. Deixai-vos guiar por Ele e fazei tudo unidos pelo vínculo do amor, sobretudo quando vos virdes rodeados de todo o tipo de provações (cf. Tg 1, 2). Embora, por vezes, muitos quilómetros vos separem, sustentai-vos uns aos outros e permanecei sempre em comunhão com o Sucessor de Pedro, que também precisa do apoio das vossas orações.
Daqui a alguns instantes, cantaremos o Magnificat. No seio da Santíssima Virgem Maria formaram-se os olhos que veriam com misericórdia, os ouvidos que escutariam as nossas súplicas e as mãos que se estenderiam para salvar. Que Nossa Senhora dos Trinta e Três nos ajude a manter o coração unido ao seu Filho, para que, quando chegar a hora de fechar os olhos, possamos ouvir o Senhor chamar-nos pelo nome e abandonar-nos, com confiança, nas suas mãos. Ámen.
_________________________
Palavras improvisadas do Santo Padre aos jovens reunidos diante da Nunciatura Apostólica (Montevidéu)
Onde estão os jovens? Onde está a juventude do Papa? Mais alto!
Boa noite a todos! Muito obrigado!
Muito obrigado pelo acolhimento. Vejo que o Uruguai é um país de jovens que têm fé.
Ótimo! É um prazer cumprimentar-vos. Espero ver-vos de novo nestes dias.
O Núncio Apostólico está a dizer que quer dormir, mas vós cantai até à hora que quiserdes! Bem, talvez não tanto assim, porque os vizinhos também vão querer dormir. De qualquer forma, muito obrigado. Obrigado pelo vosso entusiasmo, obrigado por estardes aqui.
Deus vos abençoe a todos! Que a bênção de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, desça sempre sobre vós.
Boa noite!
Copyright © Dicastério para a Comunicação - Libreria Editrice Vaticana