CARTA
DO SANTO PADRE LEÃO XIV
A VIDA EM ABUNDÂNCIA
SOBRE O VALOR DO DESPORTO
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Queridos irmãos e irmãs!
Por ocasião da celebração da XXV edição dos Jogos Olímpicos de Inverno, que terão lugar em Milão e Cortina d’Ampezzo de 6 a 22 de fevereiro próximo, e da XIV edição do Jogos Paralímpicos de Inverno, que se realizarão, nas mesmas localidades, de 6 a 15 de março, desejo dirigir uma saudação e os meus melhores votos a quantos estão diretamente envolvidos e, ao mesmo tempo, aproveitar a oportunidade para propor uma reflexão destinada a todos. A prática desportiva, como sabemos, pode ter uma natureza profissional, de altíssima especialização: deste modo, corresponde a uma vocação de poucos, embora suscite admiração e entusiasmo no coração de muitos, que vibram ao ritmo das vitórias ou das derrotas dos atletas. Mas a prática desportiva é uma atividade comum, aberta a todos e saudável para o corpo e para o espírito, a ponto de constituir uma expressão universal do ser humano.
Desporto e construção da paz
Por ocasião de anteriores edições dos Jogos Olímpicos, os meus predecessores sublinharam como o desporto pode desempenhar um papel importante para o bem da humanidade, em particular para a promoção da paz. Em 1984, por exemplo, São João Paulo II, dirigindo-se aos jovens atletas de todo o mundo, citou a Carta Olímpica, que considera o desporto como um fator de «melhor compreensão mútua e de amizade, com o objetivo de construir um mundo melhor e mais pacífico». [1] Ele encorajou os participantes com estas palavras: «Fazei que os vossos encontros sejam um sinal simbólico para a sociedade inteira e um prelúdio daquela nova era, em que os povos “não levantarão a espada contra outra nação” ( Is 2, 4)». [2]
Nesta linha insere-se a Trégua Olímpica, que na Grécia antiga era um acordo destinado a suspender as hostilidades antes, durante e depois dos Jogos Olímpicos, para que os atletas e os espectadores pudessem viajar livremente e as competições decorressem sem interrupções. A instituição da Trégua surge da convicção de que a participação em competições regulamentadas (agones) constitui um caminho individual e coletivo para a virtude e a excelência (aretē). Quando o desporto é praticado neste espírito e nestas condições, ele promove o amadurecimento da coesão comunitária e do bem comum.
A guerra, pelo contrário, nasce de uma radicalização do desacordo e da recusa em cooperar uns com os outros. O adversário é então considerado um inimigo mortal, a ser isolado e, se possível, eliminado. As trágicas evidências dessa cultura de morte estão diante dos nossos olhos – vidas destruídas, sonhos frustrados, sobreviventes traumatizados, cidades destruídas –, como se a convivência humana fosse superficialmente reduzida ao cenário de um videojogo. Mas isto nunca nos deve fazer esquecer que a agressividade, a violência e a guerra são «sempre uma derrota para a humanidade». [3]
Oportunamente, a Trégua Olímpica foi recentemente proposta pelo Comité Olímpico Internacional e pela Assembleia Geral das Nações Unidas. Num mundo sedento de paz, precisamos de instrumentos que ponham «fim à prevaricação, à demonstração de força e à indiferença pelo Direito». [4] Por ocasião dos próximos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno, encorajo vivamente todas as nações a redescobrir e respeitar este instrumento de esperança que é a Trégua Olímpica, símbolo e profecia de um mundo reconciliado.
O valor formativo do desporto
«Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância» ( Jo 10, 10). Estas palavras de Jesus ajudam-nos a compreender o interesse da Igreja pelo desporto e a forma como o cristão se aproxima dele. Jesus sempre colocou as pessoas no centro, cuidou delas, desejando para cada uma delas a plenitude da vida. Por isso, como afirmou São João Paulo II, a pessoa humana «é o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento da sua missão». [5] A pessoa, portanto, segundo a visão cristã, deve permanecer sempre no centro do desporto em todas as suas expressões, mesmo nas de excelência competitiva e profissional.
A bem ver, uma base sólida para essa consciência encontra-se nos escritos de São Paulo, conhecido como o Apóstolo das Gentes. Na época em que ele escrevia, os gregos já possuíam tradições atléticas há muito tempo. Por exemplo, a cidade de Corinto patrocinava os jogos ístmicos a cada dois anos desde o início do século VI a.C.; por isso, ao escrever aos coríntios, Paulo recorreu a imagens desportivas para os introduzir na vida cristã: «Não sabeis que os que correm no estádio correm todos, mas só um ganha o prémio? Correi, pois, assim, para o alcançardes. Os atletas impõem a si mesmos toda a espécie de privações: eles, para ganhar uma coroa corruptível; nós, porém, para ganhar uma coroa incorruptível» (1Cor 9, 24-25).
Seguindo a tradição paulina, muitos autores cristãos utilizaram imagens atléticas como metáforas para descrever as dinâmicas da vida espiritual; e isto, até hoje, faz-nos refletir sobre a profunda unidade entre as diferentes dimensões do ser humano. Embora não faltem, em épocas passadas, escritos cristãos – influenciados por filosofias dualistas – que têm uma visão bastante negativa do corpo, a corrente principal da teologia cristã enfatizou a bondade do mundo material, afirmando que a pessoa é uma unidade de corpo, alma e espírito. Com efeito, os teólogos da Antiguidade e da Idade Média refutaram veementemente as doutrinas gnósticas e maniqueístas, precisamente porque estas consideravam o mundo material e o corpo humano como intrinsecamente maus. Segundo estas concepções, o objetivo da vida espiritual consistiria em libertar-se do mundo e do corpo. Pelo contrário, os teólogos cristãos apelaram às convicções fundamentais da fé: a bondade do mundo criado por Deus, a realidade da encarnação do Verbo e a ressurreição da pessoa na sua harmonia de corpo e alma.
Esta compreensão positiva da realidade física favoreceu o desenvolvimento de uma cultura na qual o corpo, unido ao espírito, estava plenamente envolvido nas práticas religiosas: peregrinações, procissões, teatros sacros, sacramentos e oração que recorre a imagens, estátuas e várias formas de representação.
Com o estabelecimento do cristianismo no Império Romano, os espetáculos desportivos típicos da cultura romana – em particular as lutas entre gladiadores – começaram progressivamente a perder relevância social. No entanto, a Idade Média foi marcada pelo surgimento de novas formas de prática desportiva, como os torneios de cavalaria, nos quais a Igreja concentrou a sua atenção ética, contribuindo também para a sua reinterpretação numa chave cristã, como é testemunhado pela pregação do abade São Bernardo de Claraval.
No mesmo período, a Igreja reconheceu o valor formativo do desporto, graças também à contribuição de figuras como Hugo de São Vítor e São Tomás de Aquino. Hugo, na sua obra Didascalicon, sublinhou a importância das atividades gímnicas no currículo dos estudos, contribuindo para moldar o sistema educativo medieval. [6]
A reflexão de São Tomás de Aquino sobre o jogo e o exercício físico colocava em primeiro plano a “moderação” como traço fundamental de uma vida virtuosa. Segundo Tomás, esta não diz respeito apenas ao trabalho ou às ocupações consideradas sérias, mas também requer tempo para o jogo e o descanso. Escreve o Aquinate: «Como diz Agostinho: “Peço-te que concedas a ti mesmo uma pausa de vez em quando: é conveniente que o homem sábio, às vezes, relaxe a tensão da atenção aplicada ao trabalho”. Ora, esse relaxamento da mente do trabalho consiste em palavras e ações lúdicas. Portanto, é conveniente que, às vezes, o homem sábio e virtuoso recorra a elas». [7] São Tomás reconhece que as pessoas brincam porque o jogo é fonte de prazer e, portanto, praticam-no por ele mesmo. Respondendo a uma objeção segundo a qual um ato virtuoso deve ser direcionado a um fim, ele observa que «as ações lúdicas não são ordenadas a um fim externo, mas apenas ao bem daquele que as pratica, na medida em que são agradáveis ou proporcionam descanso». [8] Essa “ética do jogo” elaborada por Tomás de Aquino exerceu uma influência notável na pregação e na educação.
O desporto, escola de vida e areópago contemporâneo
O humanista Michel de Montaigne inscreveu-se nesta longa tradição quando, num ensaio sobre a educação, escreveu: «Não educamos uma alma, nem educamos um corpo: educamos uma pessoa. Não devemos dividi-la em duas partes». [9] Esta é a razão que ele aduziu para justificar a inclusão da educação física e do desporto no dia escolar. Estes princípios foram aplicados nas escolas dos jesuítas, corroborados pelos escritos de Santo Inácio de Loyola, em particular pelas Constituições da Companhia de Jesus e pela Ratio Studiorum. [10]
Neste contexto, insere-se também a obra de grandes educadores, desde São Filipe Néri até São João Bosco. Este último, através da promoção dos oratórios, estabeleceu uma ponte privilegiada entre a Igreja e as novas gerações, tornando também o desporto um âmbito de evangelização. [11] Nesta linha, pode-se lembrar a Encíclica Rerum novarum (1891) de Leão XIII: ela estimulou o nascimento de numerosas associações desportivas católicas, respondendo assim, no plano pastoral, às novas exigências da vida moderna – pensemos nas condições dos operários após a revolução industrial – e aos novos hábitos emergentes. [12]
Na passagem do século XIX ao século XX, o fenómeno desportivo tornou-se popular. Além disso, nasceram os Jogos Olímpicos da era moderna (1896). Leigos e pastores dedicaram uma atenção mais cuidadosa e sistemática a essa realidade. A partir do pontificado de São Pio X (1903-1914), nota-se um crescente interesse pelo desporto, testemunhado por numerosas declarações pontifícias. Nelas, a Igreja Católica, pela voz dos Papas, propôs uma visão do desporto centrada na dignidade da pessoa humana, no seu desenvolvimento integral, na educação e na relação com os outros, destacando o seu valor universal como instrumento de promoção de valores como a fraternidade, a solidariedade e a paz. É emblemática a pergunta feita pelo Venerável Pio XII num discurso dirigido aos atletas italianos em 1945: «Como poderia a Igreja não se interessar [pelo desporto]?». [13]
O Concílio Vaticano II colocou a sua avaliação positiva do desporto no âmbito mais amplo da cultura, recomendando que «os tempos livres sejam bem empregados, para descanso do espírito e saúde da alma e do corpo, [...] também com exercícios e manifestações desportivas, que contribuem para manter o equilíbrio psíquico, mesmo na comunidade, e para estabelecer relações fraternas entre os homens de todas as condições e nações, ou de raças diversas». [14] Graças à leitura dos sinais dos tempos, cresceu, portanto, a consciência eclesial da importância da prática desportiva. O Concílio representou um florescimento neste campo: desenvolveu-se a reflexão sobre o desporto em relação à vida de fé e uma multiplicidade de experiências pastorais no âmbito desportivo revelaram, nas décadas seguintes, a sua força geradora. Também os Dicastérios da Santa Sé promoveram iniciativas válidas em diálogo com este âmbito humano. [15]
Muito significativos foram os dois Jubileus do Desporto celebrados por São João Paulo II: o primeiro em 12 de abril de 1984, no Ano da Redenção; o segundo em 29 de outubro de 2000, no Estádio Olímpico de Roma. Nesta mesma linha, inscreveu-se o Jubileu de 2025, que relançou explicitamente o valor cultural, educativo e simbólico do desporto como linguagem humana universal de encontro e esperança. Foi esta orientação que motivou a escolha de acolher o Giro d'Italia no Vaticano: a grande competição ciclística é um evento desportivo, mas também uma narrativa popular capaz de atravessar territórios, gerações e diferenças sociais, e de falar ao coração da comunidade humana em caminho.
Muito além dos locais da mais antiga tradição cristã, parece evidente que o desporto está amplamente presente nas culturas das quais temos testemunho. Mesmo as culturas tradicionalmente orais deixaram vestígios de campos de jogos, equipamentos atléticos, bem como imagens ou esculturas relacionadas com as suas práticas desportivas. Há, portanto, muito a aprender com as tradições desportivas das culturas indígenas, dos países africanos e asiáticos, das Américas e de outras regiões do mundo.
Ainda hoje, o desporto continua a desempenhar um papel significativo na maioria das culturas. Ele oferece um espaço privilegiado de relacionamento e diálogo com os nossos irmãos e irmãs pertencentes a outras tradições religiosas, bem como com aqueles que não se identificam com nenhuma delas.
Desporto e desenvolvimento da pessoa
Alguns estudiosos das ciências sociais podem ajudar-nos a compreender melhor o significado humano e cultural do desporto e, consequentemente, o seu significado espiritual. Um exemplo relevante é representado pelas pesquisas sobre o chamado “estado de fluxo” (ou flow) no desporto e em outros domínios da cultura. [16] Isso geralmente ocorre entre pessoas empenhadas numa atividade que requer concentração e habilidade, quando o nível de desafio corresponde ou é ligeiramente superior àquele já adquirido. Pensemos, por exemplo, numa troca prolongada no ténis: a razão pela qual esta é uma das partes mais divertidas de um jogo é que cada jogador leva o outro ao limite do seu nível de habilidade. A experiência é emocionante e os dois jogadores incentivam-se mutuamente a melhorar; e isto vale tanto para duas crianças de dez anos quanto para dois campeões profissionais.
Numerosas pesquisas reconheceram que as pessoas não são motivadas apenas pelo dinheiro ou pela fama, mas podem experimentar alegria e recompensas intrínsecas às atividades que realizam, ou seja, realizando-as e apreciando-as pelo seu próprio valor. Em particular, observou-se que as pessoas sentem alegria quando se dedicam plenamente a uma atividade ou a um relacionamento e vão além do ponto em que estavam, com uma espécie de movimento para a frente. Essas dinâmicas favorecem o crescimento da pessoa em sua totalidade.
Além disso, durante uma experiência desportiva, muitas vezes a pessoa concentra completamente a sua atenção no que está a fazer. Ocorre uma fusão entre ação e consciência, a ponto de não restar espaço para uma atenção explícita voltada para si mesmo. Neste sentido, a experiência interrompe a tendência ao egocentrismo. Ao mesmo tempo, as pessoas descrevem uma sensação de união com o que as rodeia. Nos desportos coletivos, isso é geralmente vivido como um vínculo ou uma unidade com os companheiros: o jogador não está mais voltado para si mesmo, porque faz parte de um grupo que tende a um objetivo comum. O Papa Francisco destacou várias vezes este aspecto quando encorajou os jovens atletas a serem jogadores de equipa. Disse, por exemplo: «Fazei jogo de grupo, de equipa. Pertencer a uma sociedade desportiva significa rejeitar qualquer forma de egoísmo e de isolamento, é a ocasião para encontrar e estar com os outros, para se ajudar, para competir na estima recíproca e crescer na fraternidade». [17]
Quando os desportos coletivos não são contaminados pelo culto do lucro, os jovens “entram no jogo” em relação a algo que é muito importante para eles. Trata-se de uma formidável oportunidade educativa. Nem sempre é fácil reconhecer as próprias capacidades ou compreender como elas podem ser úteis para a equipa. Além disso, trabalhar em conjunto com os colegas da mesma idade implica, às vezes, a necessidade de enfrentar conflitos, lidar com frustrações e fracassos. É preciso até aprender a perdoar (cf. Mt 18, 21-22). Assim, ganham forma virtudes pessoais, cristãs e cívicas fundamentais.
Os treinadores desempenham um papel fundamental na criação de um ambiente em que estas dinâmicas possam ser vividas, acompanhando os jogadores ao longo delas. Dada a complexidade humana envolvida, ajuda muito quando um treinador é animado por valores espirituais. Existem muitos treinadores deste tipo, nas comunidades cristãs e em outras realidades educativas, bem como a nível competitivo e profissional de elite. Eles frequentemente descrevem a cultura da equipa como algo baseado no amor, que respeita e apoia cada pessoa, encorajando-a a expressar o melhor de si mesma para o bem do grupo. Quando um jovem faz parte de uma equipa deste tipo, aprende algo essencial sobre o que significa ser humano e crescer. Com efeito, «só juntos nos tornamos autenticamente nós mesmos. Só no amor a nossa interioridade torna-se profunda e a nossa identidade forte». [18]
Ampliando ainda mais o olhar, é importante lembrar que, justamente porque o desporto é fonte de alegria e favorece o desenvolvimento pessoal e as relações sociais, deveria ser acessível a todas as pessoas que desejam praticá-lo. Nalgumas sociedades que se consideram avançadas, onde o desporto é organizado segundo o princípio de “pagar para jogar”, as crianças provenientes de famílias e comunidades mais pobres não podem suportar as quotas de participação e ficam excluídas. Noutras sociedades, as jovens e as mulheres não são autorizadas a praticar desporto. Por vezes, na formação para a vida religiosa, especialmente feminina, persistem desconfianças e receios em relação à atividade física e desportiva. É, portanto, necessário empenhar-se para que o desporto seja acessível a todos. Isto é muito importante para a promoção da pessoa. Confirmaram-mo os testemunhos comoventes de membros da Equipa Olímpica dos Refugiados, ou de participantes nas Paraolimpíadas, nas Special Olympics e na Homeless World Cup. Como vimos, os valores autênticos do desporto abrem-se naturalmente à solidariedade e à inclusão.
Os riscos que põem em perigo os valores desportivos
Depois de considerarmos como o desporto contribui para o desenvolvimento das pessoas e promove o bem comum, devemos agora destacar as dinâmicas que podem comprometer esses resultados. Isso ocorre principalmente por causa duma forma de “corrupção” que está à vista de todos. Em muitas sociedades, o desporto está intimamente ligado à economia e às finanças. É evidente que o dinheiro é necessário para apoiar as atividades desportivas promovidas por instituições públicas, outros organismos cívicos e instituições educativas, bem como as privadas de nível competitivo e profissional. Os problemas surgem quando o negócio se torna a motivação principal ou exclusiva. Então, as escolhas já não são motivadas pela dignidade das pessoas, nem pelo que favorece o bem do atleta, o seu desenvolvimento integral e o da comunidade.
Quando se visa maximizar o lucro, dá-se valor excessivo ao que pode ser medido ou quantificado, em detrimento de dimensões humanas de importância incalculável: “só importa o que pode ser contabilizado”. Esta mentalidade invade o desporto quando a atenção se concentra obsessivamente nos resultados alcançados e nas quantias de dinheiro que podem ser obtidas com a vitória. Em muitos casos, mesmo a nível amador, os imperativos e os valores do mercado chegaram a obscurecer outros valores humanos do desporto, que merecem, pelo contrário, ser preservados.
O Papa Francisco chamou a atenção para os efeitos negativos que tais dinâmicas podem ter sobre os atletas, afirmando: «Quando o desporto é considerado unicamente em conformidade com parâmetros económicos ou de consecução da vitória a todo o custo, corre-se o perigo de reduzir os atletas a uma mera mercadoria lucrativa. Os próprios atletas entram num mecanismo que os arrasa, perdem o verdadeiro sentido da sua atividade, aquela alegria de jogar que os atraía quando eram adolescentes e que os impeliu a fazer tantos sacrifícios autênticos e a tornar-se campeões. O desporto é harmonia, mas se prevalecer a busca desmedida do dinheiro e do sucesso, esta harmonia interrompe-se». [19]
Quando o interesse económico se torna o objetivo principal ou exclusivo, mesmo os atletas profissionais e de alto nível correm o risco de se fixarem em si mesmos e nos resultados, enfraquecendo a dimensão comunitária do jogo e traindo o seu valor social e civil. O desporto, porém, é uma prática que possui valores partilhados por todos aqueles que nele participam e é capaz de humanizar a convivência, mesmo em situações difíceis. Um cuidado desproporcionado com o dinheiro, pelo contrário, dirige a atenção de forma explícita e redutora para si mesmo. Também neste caso, tem sentido o ditado de Jesus: «Ninguém pode servir a dois senhores» (Mt 6,24).
Um risco particular surge quando as vantagens financeiras decorrentes do sucesso no desporto são consideradas mais importantes do que o valor intrínseco da participação: a ditadura do desempenho pode levar ao uso de substâncias dopantes e outras formas de fraude, e pode levar os jogadores de desportos coletivos a concentrarem-se no seu bem-estar económico, em vez da lealdade à sua disciplina. Quando os incentivos financeiros se tornam o único critério, pode acontecer que indivíduos e equipas submetam os seus resultados à corrupção e à intromissão da indústria do jogo de apostas. Estas diferentes formas de fraude não só corrompem as atividades desportivas em si, como também servem para desiludir o grande público e minar o contributo positivo do desporto para a sociedade em geral.
Competição e cultura do encontro
Ampliando o olhar para as competições desportivas, estas também podem desempenhar um papel importante na promoção da unidade entre as pessoas. É interessante que a palavra competição derive de duas raízes latinas: cum – «juntos» – e petere – «pedir». Numa competição, portanto, pode-se dizer que duas pessoas ou duas equipas buscam juntas a excelência. Não são inimigos mortais. E no tempo que antecede ou segue a competição, geralmente há a oportunidade de se encontrarem e conhecerem.
É por isso que a competição desportiva, quando é autêntica, pressupõe um pacto ético comum: a aceitação leal das regras e o respeito pela verdade da disputa. A rejeição do doping e de qualquer forma de corrupção, por exemplo, é uma questão não só disciplinar, mas que toca o coração mesmo do desporto. Alterar artificialmente o desempenho ou comprar o resultado significa quebrar a dimensão do cum-petere, transformando a busca comum pela excelência numa prepotência individual ou de um grupo.
O verdadeiro desporto, em vez disso, educa para uma relação serena com o limite e com a norma. O limite é uma linha com a qual conviver: é o que torna o esforço significativo, o progresso inteligível, o mérito reconhecível. A norma é a “gramática” partilhada que torna possível o próprio jogo. Sem regras não há competição, nem encontro, mas apenas caos ou violência. Aceitar os limites do próprio corpo, do tempo, do esforço e respeitar as regras comuns significa reconhecer que o sucesso nasce da disciplina, da perseverança e da lealdade.
Nesse sentido, o desporto oferece uma lição decisiva mesmo além do campo de competição: ensina que se pode aspirar ao máximo sem negar a própria fragilidade, que se pode vencer sem humilhar, que se pode perder sem ser derrotado como pessoa. A competição justa guarda assim uma dimensão profundamente humana e comunitária: não separa, mas relaciona; não torna absoluto o resultado, mas valoriza o caminho; não idolatra o desempenho, mas reconhece a dignidade de quem joga.
A competição justa e a cultura do encontro não dizem respeito apenas aos jogadores, mas também aos espectadores e aos adeptos. O sentimento de pertença à própria equipa pode ser um elemento muito significativo da identidade de muitos adeptos: eles partilham as alegrias e as desilusões dos seus heróis e encontram um sentido de comunidade com os outros apoiantes. Isso é geralmente um fator positivo na sociedade, fonte de rivalidade amigável e piadas, mas pode tornar-se problemático quando se transforma numa forma de polarização que leva à violência verbal e física. Então, de expressão de apoio e participação, o torcer transforma-se em fanatismo; o estádio torna-se um local de conflito em vez de encontro. Aqui, o desporto não une, mas radicaliza, não educa, mas deseduca, porque reduz a identidade pessoal a uma pertença cega e opositora. Isto é particularmente preocupante quando o ser adepto está ligado a outras formas de discriminação política, social e religiosa, sendo indiretamente utilizado para expressar formas mais profundas de ressentimento e ódio.
As competições internacionais, em particular, oferecem uma ocasião privilegiada para experimentar a nossa humanidade comum na riqueza da sua diversidade. Com efeito, há algo de profundamente comovente nas cerimónias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos, quando vemos os atletas desfilar com as bandeiras nacionais e os trajes característicos dos seus países. Experiências como estas podem inspirar-nos, recordando-nos que somos chamados a formar uma única família humana. Os valores promovidos pelo desporto – tais como a lealdade, a partilha, o acolhimento, o diálogo e a confiança nos outros – são comuns a todas as pessoas, independentemente da sua origem étnica, da cultura e da crença religiosa. [20]
Desporto, relacionamento e discernimento
O desporto nasce como uma experiência relacional: coloca em contato os corpos e, através dos corpos, as histórias, as diferenças, as pertenças. Treinar juntos, competir lealmente, partilhar o esforço e a alegria do jogo favorece o encontro e constrói laços que ultrapassam barreiras sociais, culturais e linguísticas. Neste sentido, o desporto é um poderoso facilitador de relações sociais: cria comunidades, educa para o respeito pelas regras comuns, ensina que nenhum resultado é fruto de um caminho solitário. No entanto, precisamente porque mobiliza paixões profundas, o desporto também traz consigo algumas limitações.
O significado educativo do desporto revela-se de forma particular na relação entre vitória e derrota. Vencer não é simplesmente chegar em primeiro, mas reconhecer o valor do caminho percorrido, da disciplina, do compromisso partilhado. Perder, por sua vez, não coincide com o fracasso da pessoa, mas pode tornar-se uma escola de verdade e humildade. O desporto educa assim para uma compreensão mais profunda da vida, na qual o sucesso nunca é definitivo e a queda nunca constitui a última palavra. Aceitar a derrota sem desespero e a vitória sem arrogância significa aprender a viver a realidade com maturidade, reconhecendo os próprios limites e possibilidades.
Além disso, não é raro que o desporto seja investido de uma função quase religiosa. Os estádios são vistos como catedrais laicas, os jogos como liturgias coletivas, os atletas como figuras salvadoras. Esta sacralização revela uma necessidade autêntica de sentido e comunhão, mas corre o risco de esvaziar tanto o desporto quanto a dimensão espiritual da existência. Quando o desporto pretende substituir-se à religião, perde o seu caráter de jogo e de serviço à vida, tornando-se absoluto, totalizante, incapaz de se relativizar a si mesmo.
Neste contexto, insere-se também o perigo do narcisismo, que hoje perpassa toda a cultura desportiva. O atleta pode ficar fixado no espelho do seu corpo desportivo, do seu sucesso medido em visibilidade e consenso. Amplificado pelos meios de comunicação e pelas plataformas digitais, o culto da imagem e do desempenho corre o risco de fragmentar a pessoa, separando o corpo da mente e do espírito. É urgente reafirmar um cuidado integral da pessoa humana, no qual o bem-estar físico não seja dissociado do equilíbrio interior, da responsabilidade ética e da abertura aos outros. É preciso redescobrir as figuras que uniram paixão desportiva, sensibilidade social e santidade. Entre os muitos exemplos que poderia citar, quero recordar São Pier Giorgio Frassati (1901-1925), um jovem de Turim que unia perfeitamente fé, oração, compromisso social e desporto. Pier Giorgio era apaixonado pelo alpinismo e organizava frequentemente excursões com os seus amigos. Ir à montanha, mergulhar naqueles cenários majestosos fazia-o contemplar a grandeza do Criador.
Outra distorção manifesta-se na instrumentalização política das competições desportivas internacionais. Quando o desporto é submetido à lógica do poder, da propaganda ou da supremacia nacional, a sua vocação universal é traída. Os grandes eventos desportivos deveriam ser locais de encontro e admiração mútua, não palcos para a afirmação de interesses políticos ou ideológicos.
Os desafios contemporâneos intensificam-se ainda mais com o impacto do transumanismo e da inteligência artificial no mundo do desporto. As tecnologias aplicadas ao desempenho correm o risco de introduzir uma separação artificial entre corpo e mente, transformando o atleta num produto otimizado, controlado e potenciado além dos limites naturais. Quando a técnica deixa de estar ao serviço da pessoa e pretende redefini-la, o desporto perde a sua dimensão humana e simbólica, tornando-se um laboratório de experimentação desencarnada.
Em contraste com estas derivas, o desporto conserva uma extraordinária capacidade inclusiva. Praticado de forma correta, abre espaços de participação para pessoas de todas as idades, condições sociais e habilidades, tornando-se um instrumento de integração e dignidade.
É nesta perspectiva que se insere a experiência da Athletica Vaticana. Criada em 2018 como equipa oficial da Santa Sé e sob a orientação do Dicastério para a Cultura e a Educação, ela testemunha como o desporto pode ser vivido também como serviço eclesial, especialmente para com os mais pobres e frágeis. Aqui, o desporto não é espetáculo, mas proximidade; não é seletividade, mas acompanhamento; não é competição exasperada, mas caminho partilhado.
Por fim, é preciso questionar a crescente assimilação do desporto à lógica dos videojogos. A gamificação extrema da prática desportiva, a redução da experiência a resultados, níveis e desempenhos replicáveis, corre o risco de desvincular o desporto do corpo real e da relação concreta. O jogo, que é sempre risco, imprevisto e presença, é substituído por uma simulação que promete controlo total e gratificação imediata. Recuperar o valor autêntico do desporto significa, então, devolver-lhe a sua dimensão encarnada, educativa e relacional, para que continue a ser uma escola de humanidade e não um simples dispositivo de consumo.
Uma pastoral do desporto para a vida em abundância
Uma pastoral desportiva válida nasce da consciência de que o desporto é um dos locais onde se formam imaginários, se moldam estilos de vida e se educam as jovens gerações. Por isso, é necessário que as Igrejas particulares reconheçam o desporto como espaço de discernimento e acompanhamento, que merece um compromisso de orientação humana e espiritual. Nesta perspectiva, parece oportuno que, no seio das Conferências Episcopais, existam secretariados ou comissões dedicadas ao desporto, nos quais se elabore e coordene a proposta pastoral, colocando em diálogo as realidades desportivas, educativas e sociais presentes nos diferentes territórios. O desporto, com efeito, atravessa paróquias, escolas, universidades, oratórios, associações e bairros: estimular uma visão partilhada permite evitar fragmentações e valorizar as experiências já existentes.
A nível local, a nomeação de um responsável diocesano e a constituição de equipas pastorais para o desporto respondem à mesma necessidade de proximidade e continuidade. O acompanhamento pastoral do desporto não se esgota em momentos de celebração, mas realiza-se ao longo do tempo, partilhando os esforços, as expectativas, as desilusões e as esperanças de quem vive diariamente o campo, o ginásio, a rua. Este acompanhamento diz respeito tanto ao fenómeno desportivo no seu conjunto, com as suas transformações culturais e económicas, como às pessoas concretas que o vivenciam. A Igreja é chamada a aproximar-se onde o desporto é vivido como profissão, como competição de alto nível, como oportunidade de sucesso ou de exposição mediática, tendo, porém, particularmente no coração o desporto de base, muitas vezes marcado pela escassez de recursos, mas muito rico em relações.
Uma boa pastoral do desporto pode contribuir significativamente para a reflexão sobre a ética desportiva. Não se trata de impor normas a partir do exterior, mas de iluminar a partir do interior o sentido da ação desportiva, mostrando como a busca do resultado pode coexistir com o respeito pelo outro, pelas regras e por si mesmo. Em particular, a harmonia entre o desenvolvimento físico e o espiritual deve ser considerada como uma dimensão constitutiva de uma visão integral da pessoa humana. O desporto torna-se assim um lugar onde se aprende a cuidar de si próprio sem se idolatrar, a superar-se sem se anular, a competir sem perder a fraternidade.
Pensar e implementar a prática desportiva como um instrumento comunitário aberto e inclusivo é outra tarefa decisiva. O desporto pode e deve ser um espaço de acolhimento, capaz de envolver pessoas de diferentes origens sociais, culturais e físicas. A alegria de estar juntos, que nasce do jogo partilhado, do treino comum e do apoio mútuo, é uma das expressões mais simples e profundas da humanidade reconciliada.
Neste horizonte, os desportistas constituem um modelo que deve ser reconhecido e acompanhado. A sua experiência quotidiana fala de ascese e sobriedade, de trabalho paciente sobre si mesmos, de equilíbrio entre disciplina e liberdade, de respeito pelos tempos do corpo e da mente. Estas qualidades podem iluminar toda a vida social. A vida espiritual, por sua vez, oferece aos desportistas uma visão que vai além do desempenho e do resultado. Ela introduz o sentido do exercício como prática que forma a interioridade. Ajuda a dar significado ao esforço, a viver a derrota sem desespero e o sucesso sem presunção, transformando o treino em disciplina do humano.
Tudo isso encontra o seu horizonte último na promessa bíblica que dá o título a esta Carta: a vida em abundância. Não se trata de uma acumulação de sucessos ou desempenhos, mas de uma plenitude de vida que integra corpo, relações e interioridade. Em termos culturais, a vida em abundância convida a libertar o desporto de lógicas redutoras que o transformam em mero espetáculo ou consumo. Em termos pastorais, ela exorta a Igreja a tornar-se uma presença capaz de acompanhar, discernir e gerar esperança. Assim, o desporto pode tornar-se verdadeiramente uma escola de vida, onde se aprende que a abundância não nasce da vitória a qualquer custo, mas da partilha, do respeito e da alegria de caminhar juntos.
Vaticano, 6 de fevereiro de 2026
LEÃO PP. XIV
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[1] Comite International Olympique, Olympic Charter 1984 (Losanna 1983), p. 6.
[2] São João Paulo II, Homilia na Missa pelo Jubileu dos Desportistas (Roma, Estádio Olímpico, 12 de abril de 1984), 3.
[3] Id., Discurso ao Corpo Diplomático (13 de janeiro de 2003), 4.
[4] Discurso no Encontro internacional pela paz (28 de outubro de 2025).
[5] São João Paulo II, Carta enc. Redemptor hominis (4 de março de 1979), 14.
[6] Cf. Hugo de São Vítor, Didascalicon, II, 27: C. H. Buttimer (ed.), Washington 1939, 44.
[7] São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 168, art. 2.
[8] Ibid., I-II, q. 1, art. 6, ad 1.
[9] M. de Montaigne, Les Essais, I, 25: J. Balsamo et al. (eds.), Paris 2007, 171.
[10] Cf. M. Kelly, I cattolici e lo sport. Una visione storica e teologica, in: La Civiltà Cattolica 2014 IV, 567-568.
[11] Cf. A. Stelitano - A. M. Dieguez - Q. Bortolato, I Papi e lo sport, Cidade do Vaticano 2015.
[12] Cf. Leão XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de maio de 1891), 36.
[13] Pio XII, Discurso aos atletas italianos (20 de maio de 1945).
[14] Conc. Ecum. Vat. II, Const. Past. Gaudium et spes, 61.
[15] Cf. Dicasterio para os Leigos, a Família e a Vida, Dar o melhor de si. Documento sobre a perspectiva cristã do desporto e da pessoa humana (1 de junho de 2018).
[16] Cf. M. Csikszentmihalyi, Beyond Boredom and Anxiety. The Experience of Play in Work and Games. São Francisco, 1975.
[17] Francisco, Discurso aos participantes no encontro promovido pelo Centro Desportivo Italiano (7 de junho de 2014).
[18] Encontro com as autoridades, representantes da sociedade civil e o corpo diplomático (Ancara, Turquia, 27 de novembro de 2025).
[19] Francisco, Discurso ao Comité Olímpico Europeu (23 de novembro de 2013).
[20] Cf. Francisco, Discurso aos organizadores e atletas do jogo inter-religioso pela paz (1º de setembro de 2014).
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