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VIAGEM APOSTÓLICA DE SUA SANTIDADE LEÃO XIV
À ARGÉLIA, CAMARÕES, ANGOLA E GUINÉ EQUATORIAL
(13 - 23 de abril de 2026)

ENCONTRO COM AS AUTORIDADES, A SOCIEDADE CIVIL E O CORPO DIPLOMÁTICO

DISCURSO DO SANTO PADRE

Palácio Presidencial (Iaundé)
Quarta-feira, 15 de abril de 2026

[Multimídia]

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Senhor Presidente,
distintas autoridades e membros do Corpo Diplomático,
senhoras e senhores!

Agradeço sinceramente o caloroso acolhimento que me dedicaram e as palavras de boas-vindas que me foram dirigidas. É com profunda alegria que me encontro nos Camarões, frequentemente chamado “África em miniatura”, em virtude da riqueza dos seus territórios, culturas, línguas e tradições. Esta variedade não é uma fragilidade: é um tesouro. Constitui uma promessa de fraternidade e um sólido fundamento para a construção de uma paz duradoura.

Venho até vós como pastor e como servidor do diálogo, da fraternidade e da paz. A minha visita expressa o carinho do sucessor de Pedro por todos os camaronenses, bem como o desejo de encorajar cada um a prosseguir, com entusiasmo e perseverança, na construção do bem comum. Realmente, vivemos um tempo em que a resignação alastra e o sentimento de impotência tende a paralisar a renovação que os povos sentem profundamente. Quanta fome e sede de justiça! Quanta sede de participação, de visões, de escolhas corajosas e de paz! É meu grande desejo chegar ao coração de todos, em particular dos jovens, chamados a dar forma, também política, a um mundo mais equitativo. Além disso, pretendo manifestar a vontade de reforçar os laços de cooperação entre a Santa Sé e a República dos Camarões, fundados no respeito mútuo, na dignidade de cada pessoa humana e na liberdade religiosa.

Os Camarões preservam na memória as visitas dos meus Predecessores: a de São João Paulo II, mensageiro de esperança para todos os povos de África, e a de Bento XVI, que sublinhou a importância da reconciliação, da justiça e da paz, bem como a responsabilidade moral dos governantes. Sei que estes momentos marcaram a vossa história nacional, enquanto exortações exigentes ao espírito de serviço, à unidade e à justiça. Podemos, portanto, perguntar-nos: em que ponto estamos? De que maneira a Palavra que nos foi anunciada deu fruto? E o que resta por fazer?

Há mil e seiscentos anos, Santo Agostinho escreveu palavras de grande atualidade: «Aqueles que mandam estão ao serviço daqueles a quem, aparentemente, parecem mandar. Na verdade, não mandam movidos pelo desejo de dominar, mas pelo dever de cuidar, não pelo orgulho de se impor, mas pela compaixão de prover». [1] Nesta perspectiva, servir o próprio país significa dedicar-se, com lucidez e consciência íntegra, ao bem comum de todo o povo: da maioria, das minorias e da sua harmonia recíproca.

Hoje, tal como muitas outras nações, o vosso país atravessa momentos difíceis. As tensões e a violência que afetaram algumas regiões do Noroeste, do Sudoeste e do Extremo Norte causaram grandes sofrimentos: vidas perdidas, famílias deslocadas, crianças privadas da escola, jovens que não vislumbram um futuro. Por trás das estatísticas, há rostos, histórias e esperanças feridas. No início desse ano, perante situações tão dramáticas, convidei a humanidade a rejeitar a lógica da violência e da guerra, para abraçar uma paz fundada no amor e na justiça. Uma paz que seja desarmada, ou seja, não fundada no medo, na ameaça ou nas armas; e desarmante, porque capaz de resolver os conflitos, abrir os corações e gerar confiança, empatia e esperança. A paz não pode ser reduzida a um slogan: deve encarnar-se num estilo, pessoal e institucional, que repudie toda e qualquer forma de violência. Por isso, reitero com veemência: «O mundo tem sede de paz […]. Chega de guerras, com os seus penosos amontoados de mortos, destruições, exilados!». [2] Este clamor pretende ser um apelo à vontade de contribuir para uma paz autêntica, colocando-a acima de qualquer interesse particular.

Com efeito, a paz não se decreta: acolhe-se e vive-se. É um dom de Deus, que se desenvolve através de um esforço paciente e coletivo. É responsabilidade de todos, em primeiro lugar das autoridades civis. Governar significa amar o próprio país e também os países vizinhos: o mandamento “ama o teu próximo como a ti mesmo” aplica-se igualmente às relações internacionais! Governar significa ouvir realmente os cidadãos, estimar a sua inteligência e capacidade de contribuir para a construção de soluções duradouras para os problemas. O Papa Francisco indicou a necessidade de superar «aquela ideia das políticas sociais concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres e muito menos inserida num projeto que reúna os povos». [3]

Nesta mudança de postura, a sociedade civil deve ser considerada uma força vital para a coesão nacional. Trata-se de uma transição para a qual também os Camarões estão preparados! Associações, organizações de mulheres e de jovens, sindicatos, ONGs humanitárias, líderes tradicionais e religiosos: todos desempenham um papel insubstituível na construção da paz social. São eles os primeiros a intervir quando surgem tensões; são eles que acompanham os deslocados, apoiam as vítimas, abrem espaços de diálogo e encorajam a mediação local. A sua proximidade ao território permite compreender as causas profundas dos conflitos e entrever respostas adequadas. A sociedade civil contribui ainda para formar as consciências, para promover a cultura do diálogo e o respeito pelas diferenças. Assim sendo, é no seu seio que se prepara um futuro menos exposto à incerteza. Gostaria de sublinhar com gratidão o papel das mulheres. Muitas vezes, infelizmente, elas são as primeiras vítimas de preconceitos e violências, e, no entanto, continuam a ser incansáveis artífices da paz. O seu empenho na instrução, na mediação e na reconstrução do tecido social é inigualável e representa um freio à corrupção e aos abusos de poder. Também por isso a voz delas deve ser plenamente reconhecida nos processos de tomada de decisão.

Perante tanta generosa dedicação no interior da sociedade, a transparência na gestão dos recursos públicos e o respeito pelo Estado de direito são essenciais para restabelecer a confiança. É tempo de ousar fazer um exame de consciência e dar um salto de qualidade corajoso. Instituições justas e credíveis tornam-se pilares de estabilidade. A autoridade pública é chamada a ser uma ponte, nunca um fator de divisão, mesmo onde parece reinar a insegurança. A segurança é uma prioridade, mas deve ser sempre exercida no respeito pelos direitos humanos, aliando rigor e magnanimidade, com especial atenção aos mais vulneráveis. Uma paz autêntica nasce quando cada um se sente protegido, ouvido e respeitado, quando a lei é um baluarte seguro contra o arbítrio dos mais ricos e dos mais fortes.

Na verdade, irmãos e irmãs, os altos cargos que vós ocupais exigem um duplo testemunho. O primeiro testemunho concretiza-se na colaboração entre os diversos órgãos e níveis administrativos do Estado ao serviço do povo e, especialmente, dos mais pobres; o segundo testemunho realiza-se ligando as vossas responsabilidades institucionais e profissionais a uma conduta de vida íntegra. [4] Efetivamente, para que a paz e a justiça se afirmem, é necessário quebrar as correntes da corrupção, que desfiguram a autoridade, esvaziando-a de legitimidade. É necessário libertar o coração daquela sede de lucro que é idolatria: o verdadeiro lucro é o desenvolvimento humano integral, ou seja, o crescimento equilibrado de todos os aspectos que tornam a vida nesta terra uma bênção.

A República dos Camarões possui os recursos humanos, culturais e espirituais necessários para superar as provações e os conflitos e avançar rumo a um futuro de estabilidade e prosperidade partilhada. É necessário que o empenho comum em prol do diálogo, da justiça e do desenvolvimento integral transforme as feridas do passado em fontes de renovação. Como referi, os jovens representam a esperança do país e da Igreja. A sua energia e criatividade são riquezas inestimáveis. Naturalmente, quando o desemprego e a exclusão persistem, a frustração pode gerar violência. Investir na instrução, na formação e no empreendedorismo dos jovens é, portanto, uma escolha estratégica para a paz. É o único modo de conter a hemorragia de talentos maravilhosos para outras regiões do planeta. É também o único modo de combater os flagelos da droga, da prostituição e da apatia, que devastam demasiadas vidas jovens, de forma cada vez mais dramática.

Graças a Deus, não falta aos jovens camaronenses uma profunda espiritualidade, que ainda resiste à homogeneização do mercado. Trata-se de uma energia que torna preciosos os seus sonhos, enraizados nas profecias que alimentam a sua oração e os seus corações. As tradições religiosas, quando não são distorcidas pelo veneno dos fundamentalismos, inspiram profetas de paz, justiça, perdão e solidariedade. Ao favorecer o diálogo inter-religioso e ao envolver os líderes religiosos nas iniciativas de mediação e reconciliação, a política e a diplomacia podem valer-se de forças morais capazes de apaziguar as tensões, prevenir as radicalizações e promover uma cultura de estima e respeito mútuo. A Igreja Católica nos Camarões, através das suas obras educativas, sanitárias e caritativas, deseja continuar a servir todos os cidadãos, sem distinções. Deseja colaborar lealmente com as autoridades civis e com todas as forças vivas da nação para promover a dignidade humana e a reconciliação. Sempre que possível, pretende facilitar a cooperação com outros países e os laços entre os camaroneses no mundo e as suas comunidades de origem.

Que Deus abençoe os Camarões, sustente os seus dirigentes, inspire a sociedade civil, ilumine o trabalho do Corpo Diplomático e conceda a todo o povo camaronense – cristãos e não cristãos, responsáveis políticos e cidadãos – a capacidade de acolher o Reino de Deus, construindo juntos um futuro de justiça e paz.

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[1] Santo Agostinho, De civitate Dei, XIX, 14.

[2] Discurso no Encontro Internacional da Paz (28 de outubro de 2025).

[3] Francisco, Discurso aos participantes no 3º Encontro Mundial dos Movimentos Populares (5 de novembro de 2016).

[4] Cf. Discurso aos Prefeitos da República Italiana (16 de fevereiro de 2026).