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VIAGEM APOSTÓLICA DE SUA SANTIDADE LEÃO XIV
À ARGÉLIA, CAMARÕES, ANGOLA E GUINÉ EQUATORIAL
(13 - 23 de abril de 2026)

ENCONTRO COM O MUNDO UNIVERSITÁRIO

DISCURSO DO SANTO PADRE

Universidade Católica da África Central (Iaundé)
Sexta-feira, 17 de abril de 2026

[Multimídia]

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Senhor Grande Chanceler,
Queridos irmãos no Episcopado,
Senhor Reitor,
Ilustres membros do corpo docente,
Queridos estudantes,
Distintas Autoridades,
Senhoras e Senhores!

É para mim uma grande alegria dirigir-me a vós nesta Universidade Católica da África Central, um centro de excelência para a investigação, a transmissão do conhecimento e a formação de tantos jovens. Manifesto a minha gratidão às autoridades académicas pelo caloroso acolhimento e pelo seu constante empenho em prol da educação. É motivo de esperança que esta instituição, fundada em 1989 pela Associação das Conferências Episcopais da África Central, seja um farol ao serviço da Igreja e da África, na busca da verdade e na promoção da justiça e da solidariedade.

Hoje, mais do que nunca, é necessário que as Universidades, e ainda mais aquelas católicas, se tornem verdadeiras comunidades de vida e investigação, que introduzam estudantes e docentes a uma fraternidade no saber, «para fazer experiência comunitária da alegria da Verdade e aprofundar o seu significado e implicações práticas. O que o Evangelho e a doutrina da Igreja estão atualmente chamados a promover, em generosa e franca sinergia com todas as instâncias positivas que fermentam o crescimento da consciência humana universal, é uma autêntica cultura do encontro, antes – bem se poderia dizer – uma cultura do encontro entre todas as culturas autênticas e vitais, graças a um intercâmbio recíproco dos respetivos dons no espaço de luz desvendado pelo amor de Deus para todas as suas criaturas. Como destacou o Papa Bento XVI, “a verdade é ‘lógos’ que cria ‘diá-logos’ e, consequentemente, comunicação e comunhão”» (Francisco, Const. ap. Veritatis gaudium, 4b).

Com efeito, enquanto muitos no mundo parecem perder os seus pontos de referência espirituais e éticos, encontrando-se aprisionados no individualismo, nas aparências e na hipocrisia, a Universidade é, por excelência, um lugar de amizade, cooperação e, ao mesmo tempo, de interioridade e reflexão. Nas suas origens, na Idade Média, os seus fundadores deram-lhe como meta a Verdade. Ainda hoje, docentes e estudantes são chamados a propor-se como fim e, ao mesmo tempo, como estilo de vida, a busca comum da verdade, pois, como escreveu São John Henry Newman, «todos os princípios verdadeiros são transbordantes de Deus, todos os fenómenos levam a Ele» (J.H. Newman, L’idée d’université, Genève 2007, 97).

Por outro lado, o que Newman chamava de “luz suave”, ou seja, a luz da fé, enquanto unida à verdade do amor, «não é alheia ao mundo material, porque o amor vive-se sempre com corpo e alma; a luz da fé é luz encarnada, que dimana da vida luminosa de Jesus. A fé ilumina também a matéria, confia na sua ordem, sabe que nela se abre um caminho cada vez mais amplo de harmonia e compreensão. Deste modo, o olhar da ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, em toda a sua riqueza inesgotável. A fé desperta o sentido crítico, enquanto impede a pesquisa de se deter, satisfeita, nas suas fórmulas e ajuda-a a compreender que a natureza sempre as ultrapassa. Convidando a maravilhar-se diante do mistério da criação, a fé alarga os horizontes da razão para iluminar melhor o mundo que se abre aos estudos da ciência» (Francisco, Carta enc. Lumen fidei, 34).

Caríssimos, a África pode contribuir de maneira fundamental para alargar os horizontes demasiado estreitos de uma humanidade que tem dificuldade em ter esperança. No vosso magnífico continente, a investigação é particularmente desafiada a abrir-se a perspetivas interdisciplinares, internacionais e interculturais. Atualmente, temos uma necessidade urgente de pensar a fé dentro dos cenários culturais e dos desafios atuais, de modo a fazer emergir a sua beleza e credibilidade em diferentes contextos, especialmente naqueles mais marcados por injustiças, desigualdades, conflitos, degradação material e espiritual.

A grandeza de uma nação não pode ser avaliada apenas com base na abundância dos seus recursos naturais, nem a partir da riqueza material das suas instituições. Realmente, nenhuma sociedade pode prosperar se não se alicerçar em consciências retas, educadas na verdade. Neste sentido, o lema da vossa Universidade, «Ao serviço da verdade e da justiça», recorda-vos que a consciência humana, entendida como o santuário interior onde homens e mulheres se descobrem interpelados pela voz de Deus, é o terreno sobre o qual assentar os alicerces justos e estáveis de todas as sociedades. Formar consciências livres e santamente inquietas é condição para que a fé cristã apareça como uma proposta plenamente humana, capaz de transformar a vida dos indivíduos e da sociedade, de desencadear mudanças proféticas face aos dramas e às pobrezas do nosso tempo e de encorajar uma busca de Deus sempre maior e nunca saciada.

Efetivamente, é na consciência que se forma o discernimento moral, através do qual procuramos livremente o que é verdadeiro e honesto. Quando a consciência se preocupa em ser iluminada e reta, torna-se fonte de um agir coerente, orientado para o bem, a justiça e a paz.

Nas sociedades contemporâneas – e, portanto, também nos Camarões –, observa-se uma erosão dos pontos de referência morais que outrora orientavam a vida coletiva. Daí resulta que hoje se tende a aprovar de forma superficial algumas práticas outrora consideradas inaceitáveis. Esta dinâmica é explicada, em parte, por mudanças sociais, constrangimentos económicos e dinâmicas políticas que influenciam os comportamentos individuais e coletivos. Os cristãos, e muito especialmente os jovens católicos africanos, não devem ter medo das “coisas novas”. Em particular, a vossa Universidade pode formar pioneiros de um novo humanismo no contexto da revolução digital, da qual o continente africano conhece bem não só os aspetos sedutores, mas também o lado obscuro das devastações ambientais e sociais provocadas pela busca desenfreada de matérias-primas e terras raras. Não desvieis a vossa atenção: é um serviço à verdade e a toda a humanidade. Sem este esforço educativo, a adaptação passiva às lógicas dominantes será confundida com competência, e a perda de liberdade com progresso.

Tudo isso vale, com renovada força, em relação à difusão dos sistemas de inteligência artificial, que moldam cada vez mais profundamente os nossos ambientes mentais e sociais. Tal como qualquer grande transformação histórica, também esta requer não só competências técnicas, mas uma formação humanística capaz de tornar visíveis as lógicas económicas, os preconceitos incorporados e as formas de poder que influenciam a perceção do real. Nos ambientes digitais, construídos para persuadir, a interação é otimizada a ponto de tornar supérfluo o encontro real; a alteridade das pessoas de carne e osso é neutralizada e a relação reduzida a uma resposta funcional. Caríssimos, vós, pelo contrário, sois pessoas reais! Também a criação tem um corpo, uma respiração, uma vida a ser ouvida e a ser guardada. «Geme e sofre» (Rm 8, 22) como cada um de nós.

Quando a simulação se torna regra, a capacidade humana de discernimento atrofia-se e os nossos laços sociais fecham-se em circuitos autorreferenciais que já não nos expõem ao real. Vivemos, então, como se estivéssemos dentro de bolhas impermeáveis umas às outras, sentimo-nos ameaçados por quem é diferente e perdemos o hábito do encontro e do diálogo. Assim, proliferam a polarização, os conflitos, os medos e a violência. Não está em causa um simples perigo de errar, mas a transformação da própria relação com a verdade.

É precisamente neste âmbito que a Universidade Católica tem o dever de assumir uma responsabilidade de primeira ordem. Em vista disso, ela não se limita a transmitir conhecimentos especializados, mas forma mentes capazes de discernimento e corações dispostos ao amor e ao serviço. Prepara, sobretudo, os futuros dirigentes, os funcionários públicos, os profissionais e outros futuros agentes sociais para desempenharem com retidão as funções que lhes serão confiadas, para exercerem as suas responsabilidades com probidade e para inscreverem a sua ação numa ética ao serviço do bem comum.

Queridos filhos e filhas dos Camarões, queridos estudantes, perante a compreensível tendência migratória, que pode levar a acreditar que noutro lugar se pode encontrar facilmente um futuro melhor, convido-vos, em primeiro lugar, a responder com um ardente desejo de servir o vosso país e de colocar, em benefício dos vossos concidadãos, os conhecimentos que aqui estais a adquirir. Eis a razão de ser da vossa Universidade, fundada há trinta e cinco anos para formar pastores de almas e leigos empenhados na sociedade: são estes os testemunhos de sabedoria e de equidade que o continente africano precisa.

A este respeito, gostaria de recordar uma expressão de São João Paulo II: a Universidade católica, «nascida do coração da Igreja» (São João Paulo II, Const. ap. Ex corde Ecclesiae, 1), participa na sua missão de anunciar a verdade que liberta. Esta afirmação remete, primeiramente, para uma exigência intelectual e espiritual: procurar a verdade em todas as suas dimensões, com a convicção de que fé e razão não se opõem, mas se apoiam mutuamente. Além disso, recorda a realidade de que os docentes e estudantes da Universidade estão envolvidos na tarefa da Igreja de «anunciar a boa nova de Cristo a todos, dialogando com as várias ciências ao serviço duma penetração cada vez profunda e aplicação da verdade na vida pessoal e social» (Francisco, Const. ap. Veritatis gaudium, 5).

Diante dos desafios do nosso tempo, a Universidade Católica ocupa um lugar único e insubstituível. Recordemos, a este respeito, os pioneiros desta Instituição, que lançaram os alicerces sobre os quais hoje edificais, e, entre todos, recordo o Reverendo Barthélemy Nyom, Reitor durante quase toda a década de 90. Seguindo o seu exemplo, sede sempre bem conscientes de que, ao lado da transmissão do conhecimento e das competências profissionais, esta Universidade visa contribuir para a formação integral da pessoa humana. O acompanhamento espiritual e humano constitui uma dimensão essencial da identidade da Universidade Católica. Através da formação espiritual, das iniciativas da pastoral universitária e dos momentos de reflexão, os estudantes são convidados a aprofundar a sua vida interior e a orientar o seu compromisso na sociedade à luz de valores autênticos e seguros. Desta forma, queridos estudantes, aprendei a tornar-vos construtores do futuro dos vossos respetivos países e de um mundo mais justo e mais humano.

Queridos professores, a vossa função é fundamental. Por isso, encorajo-vos a encarnar os valores que desejais transmitir, sobretudo a justiça e a equidade, a integridade, o sentido de serviço e de responsabilidade. A África e o mundo precisam de pessoas que se empenhem em viver segundo o Evangelho e em colocar as suas competências ao serviço do bem comum. Não traiais este nobre ideal! Para além de guias intelectuais, sede modelos cuja exatidão científica e honestidade pessoal eduquem a consciência dos vossos alunos. Com efeito, a África precisa de ser libertada da chaga da corrupção. E, para um jovem, essa consciência deve consolidar-se desde os anos de formação, graças ao rigor moral, ao desinteresse e à coerência de vida dos seus educadores e professores. Dia após dia, fundai os alicerces indispensáveis para a construção de uma coerente identidade moral e intelectual. Ao dardes testemunho da verdade, considerando especialmente as ilusões da ideologia e das modas, criai um ambiente em que a excelência académica se une naturalmente à retidão humana.

Senhoras e senhores, a principal virtude que deve animar a comunidade universitária é a humildade. Seja qual for a nossa função e idade, devemos sempre recordar que somos todos discípulos, ou seja, companheiros de estudo de um único Mestre, que tanto amou o mundo a ponto de dar a sua vida. Agradeço a todos vós e, de coração, vos abençoo!