VIAGEM APOSTÓLICA DE SUA SANTIDADE LEÃO XIV
À ARGÉLIA, CAMARÕES, ANGOLA E GUINÉ EQUATORIAL
(13 - 23 de abril de 2026)
ENCONTRO COM OS BISPOS, SACERDOTES, DIÁCONOS, CONSAGRADOS E CONSAGRADAS,
CATEQUISTAS E DEMAIS AGENTES PASTORAIS
DISCURSO DO SANTO PADRE
Paróquia de Nossa Senhora de Fátima (Luanda)
Segunda-feira, 20 de abril de 2026
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Queridos irmãos no episcopado,
sacerdotes, consagrados, consagradas,
catequistas,
irmãos e irmãs!
Eu saúdo também aos Padres Franciscanos Capuchinhos que hoje nos recebem na sua Casa. Muchas gracias!
Sinto muita alegria em encontrar-vos. Obrigado pelo vosso acolhimento! Antes de tudo, a minha gratidão a todos os que serviram e servem o Evangelho em Angola: obrigado pelo trabalho de evangelização realizado neste país; pela esperança de Cristo semeada no coração do povo; pela caridade para com os mais pobres. Obrigado por continuardes com perseverança a construir o progresso desta nação sobre os sólidos alicerces da reconciliação e da paz. Saúdo, de modo especial, os meus irmãos bispos, que presidem ao anúncio da fé e ao serviço da caridade. Obrigado, senhor Dom José Manuel, Arcebispo de Saurimo, pelas palavras que me dirigiu em nome da Conferência Episcopal.
E se a mim cabe, em nome da Igreja Universal, reconhecer nesta hora a vitalidade cristã que pulsa nas vossas comunidades, cabe ao Senhor dar-vos a recompensa. Ele não falha às suas promessas! Também a vós, um dia, dirigiu estas palavras que, com fé, acolhestes e fizestes frutificar: «quem deixar casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, no tempo presente […] juntamente com perseguições, e, no tempo futuro, a vida eterna» (Mc 10, 29-30).
Caríssimos, o Senhor conhece a generosidade com que abraçastes a vossa vocação e não é indiferente a tudo o que, por amor d’Ele, fazeis para nutrir o vosso povo com a verdade do Evangelho. Vale, pois, a pena abrir inteiramente o coração a Cristo! Por vezes, poderá surgir a tentação de pensar que Ele vem tirar-vos alguma coisa, a tentação de hesitar em deixá-l’O tomar as rédeas da vossa vida. Nessas ocasiões, tende bem presente que «Ele não tira nada, Ele dá tudo. Quem se doa por Ele, recebe o cêntuplo. Abri de par em par as portas a Cristo e encontrareis a vida verdadeira» (Bento XVI, Homilia no início do Ministério Petrino, 24 de abril de 2005). Quero dirigir estas palavras, de modo particular, aos inúmeros jovens dos vossos seminários e casas de formação. Não tenhais medo de dizer “sim” a Cristo, de configurar completamente a vossa vida com a d’Ele! Não tenhais medo do amanhã: pertenceis totalmente ao Senhor. E vale a pena segui-l’O na obediência, na pobreza e na castidade! Ele não tira nada! A única coisa que tira dos nossos ombros e põe aos seus é o pecado. Sim, d’Ele recebeis tudo: esta terra e o núcleo familiar no qual nascestes; o Batismo, que vos inseriu na alargada família da Igreja; a vossa vocação. «A Ele seja dada a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Ámen!» (Ap 1, 6).
Queridos irmãos e irmãs, o Senhor dá-vos a alegria de ser seus discípulos-missionários; a força para vencer as insídias do maligno; a esperança da vida eterna. Tudo isto é vosso, tudo isto é dom. Dom que dignifica e engrandece, que compromete e responsabiliza. Mas o dom maior é o Espírito Santo que, derramado nos vossos corações pelo Batismo, vos configurou de modo especial com Cristo em vista da missão e vos enviou para, a partir do Evangelho, edificardes uma sociedade angolana livre, reconciliada, bela e grande. Nesta missão, como é importante o ministério dos catequistas! Exatamente em África, é uma expressão fundamental da vida da Igreja, podendo servir de inspiração para as comunidades católicas nos quatro cantos do mundo.
«Tudo é vosso. Mas vós sois de Cristo» (1 Cor 3, 23), ensina São Paulo. Cinquenta anos depois da independência do vosso país, estas palavras do Apóstolo dizem que o presente e o futuro de Angola vos pertencem, mas vós pertenceis a Cristo. Todos os angolanos, sem exceção, têm o direito de construir este país, beneficiando dele de um modo equitativo; porém, os discípulos do Senhor têm o dever de o fazer segundo a lei da caridade. Na base do vosso agir, está o ser discípulo de Cristo. Cabe a todos vós ser sua imagem e ninguém vos pode substituir nesta tarefa. Aqui reside a vossa singularidade! Sois sal e luz desta terra porque sois membros do Corpo de Cristo e, por isso, os vossos gestos, as vossas palavras e as vossas ações, espelhando a sua caridade, constroem as comunidades a partir de dentro e edificam para a eternidade.
O que se pede a todos os discípulos de Cristo é que permaneçam estreitamente unidos a Ele (cf. Jo 15, 1-8). Tudo o resto virá por acréscimo. Sei que estais a meio de um triénio pastoral sob o lema «Discípulos fiéis, discípulos alegres» (cf. Act 11, 23-26), dedicado a rezar e a refletir sobre o ministério ordenado e sobre a vida consagrada. Que caminhos o Senhor abre à Igreja em Angola? Serão certamente muitos! Procurai segui-los a todos! Contudo, o primeiro caminho é o da fidelidade a Cristo. Neste sentido, continuai a valorizar a formação permanente, vigiai sobre a coerência de vida e, sobretudo nos tempos que correm, perseverai no anúncio da Boa Nova da paz.
Na Escola de Cristo, que é «o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14, 6), há sempre muito a aprender. Recordai o diálogo de Jesus com Filipe, quando este lhe pediu: «Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta!». É surpreendente a resposta do Mestre: «Há tanto tempo que estou convosco, e não me ficaste a conhecer, Filipe? Quem me vê, vê o Pai» (Jo 14, 8-9). Isto lembra-nos a dimensão contemplativa da formação permanente, que seria pobre se ficasse reduzida à sua dimensão formal e institucional. Conhecer Cristo passa, sem dúvida, por uma boa formação inicial, através do acompanhamento pessoal dos formadores; passa pela adesão aos programas das vossas dioceses, congregações e institutos; passa pelo estudo pessoal sério para se poder esclarecer os fiéis que vos estão confiados, salvando-os sobretudo da perigosa ilusão da superstição. Porém, a formação é muito mais ampla: diz respeito à unidade da vida interior, ao cuidado de nós mesmos e do dom de Deus que recebemos (cf. 2 Tim 1, 6), recorrendo para isso à literatura, à música, ao desporto, às artes em geral, e principalmente à oração de adoração e contemplação. De modo especial nos momentos de abatimento e provação, «é doce permanecer diante dum crucifixo ou de joelhos diante do Santíssimo Sacramento, e fazê-lo simplesmente para estar à frente dos seus olhos! Como nos faz bem deixar que Ele volte a tocar a nossa vida e nos envie [de novo] para comunicar a sua vida nova!» (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 264). Sem esta dimensão contemplativa, deixamos de ser coerentes com o Evangelho e de espelhar a força do Ressuscitado.
«O homem contemporâneo – dizia São Paulo VI – escuta de melhor vontade as testemunhas que os mestres, ou se escuta os mestres fá-lo porque são testemunhas» (Discurso aos Membros do “Consilium de Laicis”, 2 de outubro de 1974). A fidelidade de Cristo, que nos amou até ao fim, é o verdadeiro impulso da nossa fidelidade. Uma fidelidade que não pode prescindir e é facilitada pela unidade dos presbíteros com o seu bispo e com os irmãos do presbitério, dos consagrados e das consagradas com o respetivo superior e entre si. Queridos irmãos e irmãs, alimentai a fraternidade entre vós com franqueza e transparência, não cedais à prepotência nem à autorreferencialidade, não vos separeis do povo, especialmente dos pobres, evitai a procura dos privilégios. Para a vossa fidelidade e, portanto, para a vossa missão, a família sacerdotal ou a família religiosa são indispensáveis, mas também o é a família na qual nascestes e crescestes. A Igreja estima muito a instituição familiar, ensinando que o lar é lugar da santificação de todos os seus membros. Para muitos de vós, decerto, o berço da vocação foi precisamente a família, que apreciou e acarinhou o germinar do especial chamamento recebido. Aos vossos familiares, por isso, vai o meu sincero reconhecimento por terem cuidado, apoiado e protegido a vossa vocação. Exorto-os, ao mesmo tempo, a ajudarem-vos sempre para vos manterdes fiéis ao Evangelho e para não procurardes vantagens do vosso serviço sacerdotal. Que vos suportem com a sua oração e, com os bons conselhos dum pai e duma mãe, vos entusiasmem a ser santos e a nunca esquecer que, à imagem de Jesus, sois servos de todos.
Por fim, a vossa fidelidade em Angola, como a de todos os agentes pastorais no mundo inteiro, encontra-se hoje particularmente vinculada ao anúncio da paz. Noutros tempos, fostes corajosos em denunciar o flagelo da guerra, em suportar as populações flageladas permanecendo a seu lado, em construir e reconstruir, em apontar caminhos e soluções para pôr fim ao conflito armado. O vosso contributo é comumente reconhecido e apreciado. Mas este trabalho não acabou! Promovei, pois, uma memória reconciliada, educando todos para a concórdia e prezando, no meio de vós, o testemunho sereno daqueles irmãos e irmãs, que depois de passarem tormentos dolorosos, tudo perdoaram. Alegrai-vos com eles! Fazei festa pela paz!
Além do mais, não esqueçais, segundo as palavras de São Paulo VI, que «o desenvolvimento é o novo nome da paz» (Popolorum progressio, 87). É, pois, decisivo que, interpretando com sabedoria a realidade, não desistais de denunciar injustiças, apresentando propostas segundo a caridade cristã. Continuai a ser uma Igreja generosa, que colabora para o desenvolvimento integral do vosso país. Para tal, foi e é determinante tudo o que realizais na área do ensino e da saúde. E quando, neste âmbito, sobrevierem dificuldades, trazei à memória o heroico testemunho de fé de tantos angolanos e angolanas, missionários e missionárias aqui nascidos ou vindos do estrangeiro, que tiveram a coragem de dar a vida por este povo e pelo Evangelho, preferindo morrer a trair a justiça, a verdade, a misericórdia, a caridade e a paz de Cristo. Também vós, caríssimos, a partir de cada Eucaristia, sois corpo entregue e sangue derramado pela vida e pela salvação dos vossos irmãos. Ao vosso lado está sempre a Virgem Maria, Mamã Muxima. Deus abençoe e faça frutificar a vossa dedicação e a vossa missão!
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