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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA LEÃO XIV
A ESPANHA

(6-12 DE JUNHO DE 2026)

ENCONTRO “CRIAR REDES COM O MUNDO DA CULTURA, DA ARTE, DA ECONOMIA E DO DESPORTO”

DISCURSO DO SANTO PADRE 

“Movistar Arena” (Madrid)
Domingo, 7 de junho de 2026

[Multimídia]

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Eminência,
queridos amigos e amigas:

É um prazer encontrar-me convosco neste lugar, um espaço que não acolhe apenas atividades desportivas, artísticas e culturais, mas também emoções profundas do ser humano: a alegria, a admiração, o entusiasmo e a esperança, bem como a tristeza e a frustração.

Neste belo país, é impossível não admirar a marca de criatividade que atravessa a sua história e dá forma à sua identidade. Uma beleza visível nas suas cidades, nas suas ruas, seus monumentos, nas praças e jardins, nas suas universidades e igrejas, na música, na pintura, na dança, na sua gastronomia. Aqui se percebe também a alma das gerações que transformaram a paisagem e lhe deram um rosto próprio, e isso revela-nos, em cada traço, a inteligência e a vontade que residem na alma humana.

Depois de contemplar atentamente estas maravilhas criadas pelas gerações anteriores, surge inevitavelmente uma pergunta que nos interpela a todos: que herança estamos a deixar para o futuro e, por conseguinte, que tipo de comunidade estamos a construir?

Ouvi com sumo interesse cada uma das intervenções dos oradores; concordo convosco. A nossa sociedade, com efeito, possui uma extraordinária capacidade de produzir, inovar e comunicar; no entanto, parece que ainda precisamos de aprender a custodiar a alma daquilo que ela gera. Caso contrário, corremos o risco de sermos peritos nos meios e eficazes na produção, mas incertos quanto ao porquê, para quê, com quem e para quem se produz. Neste contexto, a Igreja, consciente tanto dos seus acertos como dos seus erros ao longo da história, deseja permanecer em diálogo com o mundo contemporâneo.

O desejo do bem, da beleza, da verdade está enraizado no “ADN da humanidade”; e é a partir dessa aspiração profundamente humana e da nossa experiência plurissecular que a Igreja propõe caminhos para uma vida digna e para o bem comum. A este propósito, São Paulo VI afirmou perante as Nações Unidas que, independentemente da opinião que se tenha do Pontífice de Roma, é bem conhecida a sua missão. Enquanto “perita em humanidade”, a Igreja não fica alheia a nada verdadeiramente humano (cf. Gaudium et spes, 1). Por esta razão, a «abertura ao diálogo é parte integrante da vocação da Igreja» (Magnifica humanitas, 2). Hoje constatamos que a questão decisiva continua a ser a mesma: que significa ser verdadeiramente humano?

A Igreja partilha com humildade, mas também com firmeza, aquilo que descobriu na experiência da fé: que Jesus Cristo responde às grandes perguntas sobre a vida humana e a sua plenitude, já neste mundo e até ao seu ápice na eternidade. «Por isso, a pessoa humana permanece sempre “a via da Igreja” e o coração de todo o caminho autêntico de desenvolvimento humano integral» (ibid., 50). E, por isso, ela não pode desinteressar-se da cultura, porque, através dela, o homem, enquanto homem, “é” mais (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 554).

E precisamente porque “cultura” evoca “cultivo”, como sugere a raiz etimológica que ambos os termos partilham, somos chamados a perguntar-nos: o que semeamos hoje? O que floresce e o que murcha silenciosamente na nossa sociedade? Que valores estamos a preservar e quais estamos a deixar morrer? São perguntas profundas, necessárias, que não podem ser ignoradas.

Para responder a estas interrogações, é necessário um diálogo social que podemos comparar à arte de tecer redes, que implica encontro, escuta, diálogo e respeito.

Nos vários setores da atividade humana, devemos cuidar da linguagem que se utiliza: escrita, oral e, no ambiente digital, também a das imagens; porque a comunicação nunca é neutra. Toda a expressão fala, transmite; pode ferir ou curar, destruir expectativas ou abrir horizontes, semear divisão ou despertar a esperança na possibilidade de construirmos juntos algo genuinamente humano.

Assim, tecer redes é um diálogo entre instituições centrado na dignidade humana. Isto implica, por exemplo, que a universidade não viva de costas voltadas para o mundo do trabalho nem renuncie à verdade; que a atividade empresarial não veja o trabalhador como mais um fator na equação dos seus interesses; que a arte não se destine apenas às elites; que o desporto não seja reduzido a espetáculo ou convertido em mero negócio; que o progresso tecnológico tenha em conta os idosos, os pobres e aqueles que não têm voz.

O nosso contributo para o diálogo, a partir de uma visão cristã da vida, nasce da consciência de que o Criador entrelaçou o ser humano com fios de amor, pois este foi criado à imagem e semelhança de Deus, que é amor (1 Jo 4,8). Aqui reside o fundamento da inalienável dignidade humana, cujo respeito absoluto é a base do diálogo.

Em segundo lugar, tecer redes significa criar juntos. «A fé - afirmou o Papa Bento XVI - é amor, e por isso cria poesia e música. A fé é alegria, e por isso cria beleza» (Catequese, 21 de maio de 2008). Todos experimentámos algo tão belo que nos transformou interiormente: uma canção, um poema, uma igreja silenciosa, uma voz, um olhar, até mesmo um jogo de basquetebol vivido com amigos.

Não é de estranhar, portanto, que a proclamação da Boa Nova e a consciência de nos sabermos irmãos se expressem sob a forma de uma saeta em Semana Santa, de poesia mística, de mestria literária em autores como Lope de Vega, Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz ou Calderón de la Barca, ou na prosa serena de São Tomás de Aquino, de quem herdámos os belos hinos do Corpus Christi, que hoje celebramos. Tudo isto mostra o vínculo entre o material e o espiritual que constitui a nossa existência.

Tecer redes significa, em terceiro lugar, servir de modo desinteressado. Um olhar objetivo revela que homens e mulheres movidos pela fé edificaram hospitais e escolas, deram origem a iniciativas solidárias e usaram uma linguagem que dignifica as pessoas. Por isso, importa perguntar com honestidade se o mundo — e, em particular, a Europa — teria forjado a sua identidade sem a marca espiritual que impregnou a sua história. Não se trata de uma provocação, mas de um convite a pensar se a eternidade, que irrompeu no tempo e no espaço mediante a encarnação de Jesus Cristo, pode voltar a reconciliar-se com o quotidiano.

Será realmente possível acreditar que a Europa — que tanto amamos — seria como é, sem a marca da fé? Por que temer que a eternidade impregne o quotidiano? Continua vivo o grito dos meus Predecessores: Não tenhais medo! Abri de par em par as portas a Cristo! Jesus Cristo não nos tira nada e dá-nos tudo.

Quero perguntar-me em voz alta: quem está a ser excluído apesar das suas virtudes e capacidades? Não podemos ignorar que a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos, e a Igreja (cf. Dilexi te, 9).

Com efeito, Cristo restitui ao bem comum o lugar que lhe corresponde enquanto árbitro sábio, que apazigua a cobiça de uns e alimenta a esperança de outros, enquanto anseia por salvar todos.

Esta Igreja, “perita em humanidade”, embora por vezes caminhe contra a corrente, insiste que «as estruturas económicas e institucionais só são justas na medida em que servem o desenvolvimento integral da pessoa e favorecem a participação responsável de todos» (Magnifica humanitas, 34).

Permiti-me dirigir, por fim, a vossa atenção para um mundo que - como sabeis - não me é alheio: o do desporto. Pensemos em quantos de nós aprendemos o respeito pelo adversário num campo de jogo mais do que escutando um discurso. Quantos desportistas nos ensinam a perder sem odiar, a ganhar sem humilhar e a levantar-nos depois de cair.

A este respeito, São João Paulo II, como desportista e pastor, declarou: «Nestes tempos, em que infelizmente várias formas de violência, e por conseguinte de ódio, tendem nefastamente a lacerar o tecido da solidariedade social, vós contribuis, da vossa parte, para dar testemunho luminoso de coesão, de paz e união, numa palavra, de “saberdes estar juntos”» (Discurso aos participantes no Campeonato de Esqui Aquático, 31 de agosto de 1979). Estas palavras são mais atuais e oportunas do que quando ressoaram pela primeira vez.

Queridos amigos: convido-vos, então, a serdes fios novos para tecer redes novas que harmonizem todos os âmbitos da vida, para entrelaçar uma sociedade renovada na qual o tempo se impregne de eternidade, a cultura guarde a memória e favoreça o diálogo, a educação promova a procura da verdade com espírito crítico, a arte desperte assombro e gere emoções nobres, a empresa reconheça a dignidade da pessoa e o trabalho continue a ser motor de esperança.

Sejamos fios novos, acolhendo o conselho de São Paulo: «Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram. Preocupai-vos em andar de acordo uns com os outros; não vos preocupeis com as grandezas, mas entregai-vos ao que é humilde; não vos julgueis sábios por vós próprios. Não pagueis a ninguém o mal com o mal; interessai-vos pelo que é bom diante de todos os homens. Tanto quanto for possível e de vós dependa, vivei em paz com todos os homens» (Rm 12, 15-18). Porque em tudo isto está em jogo a possibilidade de, no futuro, continuar a resplandecer a nossa “magnífica humanidade”. Muito obrigado.

Sejamos todos, então, construtores desta nova comunidade.

[Bênção]

Muito obrigado, felicidades a todos!