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CONSISTÓRIO EXTRAORDINÁRIO
(7-8 DE JANEIRO DE 2026)

DISCURSO CONCLUSIVO DO PAPA LEÃO XIV

Sala do Sínodo
Sábado, 27 de junho de 2026

[Multimídia]

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Antes de passar à reflexão conclusiva, desejo manifestar a nossa proximidade, minha e de todo o Colégio cardinalício, em relação à população da Venezuela, duramente atingida pelo violento tremor de terra destes dias. Asseguramos as nossas orações pelas vítimas, pelas suas famílias e por quantos sofrem as consequências desta tragédia. Confiemos ao Senhor também todos aqueles que estão comprometidos nos socorros e peçamos que não venha a faltar a solidariedade da comunidade internacional para com aquela querida Nação.

Amados Irmãos Cardeais, agora chegamos ao fim destes dias com um sentimento de profunda gratidão. Agradeço-vos pela liberdade, fraternidade e sentido eclesial com que participastes nos nossos trabalhos. Levo comigo não só o conteúdo das vossas reflexões, mas também a experiência que as tornou possíveis. Nestes dias, pudemos procurar juntos a vontade do Senhor, na convicção de que Cristo continua a agir na sua Igreja: é Ele que nos precede, nos reúne, fala através dos irmãos e nos guia na missão. Tudo nasce d’Ele e tudo volta para Ele. Por isso, ver Cardeais provenientes de Igrejas, culturas e situações tão diferentes que se ouvem mutuamente e procuram juntos o que melhor serve o Evangelho foi para mim motivo de consolação e esperança.

Demos início a estes dias deixando-nos guiar pela imagem do bom Samaritano: um homem que se detém diante do irmão ferido, que se deixa comover no mais íntimo do seu ser e cuida dele. Agora gostaria de concluir com outra imagem evangélica: a dos discípulos de Emaús. Também eles caminham marcados pela tristeza e desilusão, mas o Senhor torna-se seu companheiro de viagem, ouve as suas perguntas, explica-lhes as Escrituras, faz arder o seu coração e transforma o seu caminho. Gosto de pensar que também o que vivemos nestes dias tem algo desta experiência: pudemos caminhar juntos, ouvir-nos uns aos outros e, se deixarmos espaço ao Senhor, Ele reacende a esperança no nosso coração, reenviando-nos agora para as nossas Igrejas para retomar o caminho com um olhar renovado.

A reflexão conclusiva sobre o caminho sinodal ajudou-nos a reler o que vivemos nestes dias. Parece-me que a interrogação da sinodalidade não é sobretudo: “Quem tem o poder de decidir?”. A pergunta é mais profunda: “Como conservamos juntos o dom que o Senhor confiou à sua Igreja?”. Quando esta questão se torna o centro do nosso discernimento, também as questões da autoridade, da corresponsabilidade e das decisões encontram o seu devido lugar, iluminadas pela missão e fidelidade comum ao Evangelho. Assim, desejo confiar-vos mais uma vez o caminho de atuação do Sínodo. Peço-vos que o acompanheis com convicção nas Igrejas que servis, promovendo uma compreensão autêntica e incentivando todos a participar: trata-se de ajudar as nossas Igrejas a crescer num estilo cada vez mais evangélico.

Por favor, como ouvimos do Cardeal Grech, a sinodalidade não é um conjunto de reuniões, nem um método de trabalho. É um estilo espiritual. Nasce do encontro, cresce na escuta e amadurece no discernimento. A verdadeira questão não é quantos diálogos conseguiremos organizar, mas que qualidade evangélica terão os nossos encontros. Quando nos ouvimos com humildade e liberdade, dando espaço ao Espírito, as nossas conversas não se limitam a uma troca de ideias, mas tornam-se espaço de conversão, onde crescemos juntos na fidelidade ao Senhor.

Repensando nas conversas destes dias, levo comigo acima de tudo o olhar com que contemplastes o mundo na primeira sessão. Muitos de vós relataram os sofrimentos provocados pelas guerras, pela violência, pela pobreza e pelas tantas injustiças que marcam a vida dos povos. No entanto, não vos limitastes a descrevê-los. Por detrás destes dramas, reconhecestes um sofrimento ainda mais profundo: a solidão, a crise das relações, a perda da esperança, a dificuldade de nos reconhecermos mutuamente como irmãos e irmãs. É um olhar que não desvia os olhos das feridas do mundo, mas procura as suas raízes, reconhecendo, muitas vezes escondidas no seu seio, uma renovada busca de sentido, autenticidade, espiritualidade e comunidade. Hoje muitos procuram esperança e relações verdadeiras.

Fiquei particularmente impressionado com a forma como falastes dos jovens. Nas perguntas deles, mas também no sofrimento que às vezes os leva até ao desespero — e por vezes até ao desespero extremo de tirar a própria vida — reconhecestes uma das feridas mais profundas do nosso tempo. Mas nisto soubestes reconhecer também a ação do Espírito. A sua busca de autenticidade, relações verdadeiras e sentido lembra-nos que o Evangelho continua a responder às expetativas mais profundas do coração humano. Ouvir os jovens e as suas famílias com humildade é também um caminho através do qual o Senhor continua a converter a Igreja.

Muitos de vós recordaram também a família. Onde ela é apoiada e acompanhada, cresce uma escola de relações, solidariedade e esperança; onde está ferida ou isolada, toda a sociedade sofre as suas consequências. Em outubro, teremos um encontro com os chefes das Igrejas orientais e os presidentes das Conferências episcopais para avaliar os passos dados após a Amoris laetitia. Participarão também algumas famílias que compartilharão as suas experiências. A presença delas é essencial, mas espero que todos os que vierem se preparem, ouvindo atentamente e trazendo a experiência das famílias das suas Igrejas.

Assim, procurastes ouvir o que as feridas do mundo revelam do coração do homem. É precisamente ali, no coração, que se decide também a paz. Antes de se manifestar na história, a guerra nasce dentro de nós, quando a suspeita toma o lugar da confiança, o medo da esperança e o outro é sentido como uma ameaça. Mas é no mesmo coração que Cristo continua a encontrar-nos, a falar e a converter-nos. De um coração reconciliado podem nascer palavras desarmadas, novas relações e uma paz que consegue alcançar também os povos.

A segunda sessão levou-nos a dar mais um passo em frente. Parece-me que compreendestes com grande clareza uma das intuições da Magnifica humanitas: a guerra não é apenas um conflito entre os Estados. Nasce muito antes, de uma cultura da força que permeia a nossa maneira de pensar, de viver as relações, de exercer o poder, de utilizar a economia, a tecnologia e até a religião. Se esta é a raiz da crise, a resposta exige a reconstrução de uma cultura de cooperação e diálogo, capaz de dar renovada força também ao multilateralismo, para que os povos aprendam novamente a procurar juntos o bem comum de toda a família humana. Neste caminho, a contribuição dos fiéis leigos comprometidos na vida pública é essencial: precisam da proximidade e do apoio da comunidade eclesial para viver a “caridade política” que recordastes. A própria cultura da cooperação cresce através do diálogo ecuménico e inter-religioso, que não atenua a nossa identidade cristã, mas torna-a capaz de servir juntos o bem comum e a paz.

Considero ainda particularmente precioso o modo como alguns de vós abordaram o tema da resposta não violenta perante as múltiplas formas de violência. Trata-se de uma forma profundamente evangélica de habitar a história, fruto da contemplação da maneira de agir de Jesus. Não consiste na renúncia ao conflito, nem sequer numa atitude passiva, mas na escolha de o enfrentar sem reproduzir a sua lógica. Ela não renuncia à verdade nem silencia o mal, mas recusa-se a defendê-la com a violência e a transformar o outro num inimigo: começa desarmando-se a si próprio. Assim, revela a lógica da Páscoa, na qual o amor se manifesta mais forte do que o ódio, e o perdão interrompe a espiral da vingança. Esta é a força do Crucificado ressuscitado: uma força que não destrói o inimigo, mas torna possível reencontrar o irmão.

Nesta ótica, vários grupos realçaram a oportunidade de dar continuidade ao aprofundamento do tema da legítima defesa, à luz das profundas transformações ocorridas na natureza dos conflitos contemporâneos. Esta reflexão merece ser desenvolvida ulteriormente, com o necessário rigor teológico e pastoral.

Observei também com particular interesse a vossa insistência sobre a Doutrina social da Igreja. Manifestastes o desejo de que ela se torne cada vez mais um legado vivo das nossas comunidades, um critério habitual de formação das consciências e de discernimento pastoral. Ela não oferece soluções predefinidas, mas educa a Igreja para uma maneira evangélica de viver a realidade, de a interpretar e de orientar a ação de modo responsável.

Também me impressionou outra convergência. Muitos de vós observaram que, hoje em dia, o bem comum não é simplesmente um objetivo a perseguir: é uma realidade a redescobrir em conjunto. Vivemos numa época em que se torna difícil até mesmo reconhecer o que é verdadeiramente bom para todos. Por isso, enraizada em Cristo, a Igreja é chamada a preservar espaços de encontro, de escuta e de diálogo, onde poder amadurecer uma renovada cultura do bem comum. Isto exige também um trabalho educativo paciente, que ajude a reconhecer a dignidade inviolável de cada pessoa e a responsabilidade que nos une uns aos outros. Ao longo deste caminho, os pobres não são unicamente destinatários do nosso cuidado, mas protagonistas da esperança que Deus continua a suscitar na história.

De muitas das vossas reflexões sobressaiu também vigorosamente outra convicção. Enquanto nos questionávamos sobre as responsabilidades da Igreja no mundo de hoje, recordastes continuamente a importância do testemunho, da proximidade, da formação das consciências e da construção de comunidades fraternas e credíveis. Este testemunho nasce do encontro com Cristo, da sua Palavra e dos Sacramentos, nos quais o Senhor sustenta o seu povo, tornando-o capaz de servir o mundo com a força do Evangelho. A Igreja é chamada a tornar-se cada vez mais aquilo que proclama. É sobre este fundamento que também as necessárias reformas das estruturas, das instituições e dos processos podem dar fruto.

Assim, estes dias revigoram a minha esperança. Não só pelo que pudemos compartilhar, mas pela forma como o fizemos. Numa época marcada pela polarização, até a forma como a Igreja escuta e dialoga faz parte do seu anúncio. Se soubermos continuar a procurar juntos a vontade do Senhor, deixando-nos orientar pelo Espírito Santo, estou certo de que a nossa comunhão se tornará cada vez mais fecunda para a missão da Igreja e para o serviço a toda a família humana.

Julgo que, pouco a pouco, continuamos a redescobrir o significado mais autêntico do Consistório: o encontro do Colégio cardinalício em volta do Sucessor de Pedro para que, na escuta recíproca e no discernimento comum, o Espírito Santo ajude o Papa a guiar a Igreja. Não um parlamento, não um congresso em que prevalecem opiniões ou interesses, mas uma experiência de comunhão ao serviço da missão. O que aprendemos a viver nestes dias não diz respeito apenas ao Colégio cardinalício. É um estilo que somos chamados a promover em toda a Igreja, para que cada batizado, segundo a sua vocação e responsabilidade, participe na construção da civilização do amor e no serviço ao bem comum. Como já vos antecipei, desejo dar continuidade a este encontro anual também a partir do próximo ano. Ainda não estabeleci a data: espero comunicá-la por volta do final deste ano.

Este Consistório foi um momento precioso, mas não deve permanecer um encontro isolado. Em toda a Igreja, desejamos promover espaços onde o Povo de Deus possa ouvir-se, rezar, discernir e caminhar unido. Esta é a essência do percurso de atuação do Sínodo. Será este também o espírito do próximo encontro dedicado à Amoris laetitia e de muitas outras iniciativas que o Senhor nos pedirá para viver. O que importa não é multiplicar as reuniões, mas aprender a viver encontros nos quais, ouvindo-nos uns aos outros, aprenderemos juntos a escutar o Senhor.

Antes de concluir, desejo acolher o apelo unânime que se elevou deste Consistório e fazê-lo meu. Aliás, gostaria que o fizéssemos juntos, através destas palavras. Digamo-lo aos nossos irmãos Bispos, às Igrejas confiadas ao nosso ministério e a todos os povos da terra: Deus deseja a paz para cada nação e para cada povo. Por isso, não devemos resignar-nos à violência. A violência não terá a última palavra. Deus continua a abrir caminhos de reconciliação e paz na história. Temos a responsabilidade de os percorrer com coragem e de ajudar o mundo a reconhecê-los!

Irmãos, agradeço-vos de coração pela vossa contribuição, assim como aos relatores, aos moderadores e a todos aqueles que, com generosidade e discrição, tornaram possíveis estes dias de trabalho e fraternidade. Obrigado por me terdes ajudado, mais uma vez, a reconhecer a obra que Cristo continua a realizar no seio do seu povo e no mundo. Confiemos os frutos deste Consistório à intercessão da Virgem Maria, Mãe da Igreja. Que ela nos ensine a preservar a unidade na diversidade e a servir o Evangelho da paz com humildade, coragem e esperança. Obrigado!