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DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ
DICASTÉRIO PARA A PROMOÇÃO DA UNIDADE DOS CRISTÃOS
DICASTÉRIO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

 

NOTA

UM CAMINHO DE ESPERANÇA

Sessenta anos de diálogo e fraternidade inter-religiosa
à luz da Declaração conciliar Nostra aetate

 

Índice

I. Introdução

Origem e alcance da Nostra aetate. Uma resposta à Shoah
A especificidade do diálogo com os judeus

II. Desenvolvimentos pós-conciliares: uma continuidade enriquecida pelos Papas sucessivos

São Paulo VI
São João Paulo II
Bento XVI
Francisco
Leão XIV

III. Os frutos e os desafios da Declaração Nostra aetate hoje

Frutos visíveis e silenciosos
Resistências e mal-entendidos persistentes
Aprofundar a pedagogia do diálogo

IV. Perspectivas e orientações para o futuro do diálogo inter-religioso

V. Conclusão

_______________________________

I. Introdução

1. Em 28 de outubro de 1965, a Declaração do Concílio Vaticano II Nostra aetate «sobre a Igreja e as religiões não-cristãs» abria um novo capítulo na história das relações entre católicos, judeus e pertencentes a outras denominações de fé e tradições espirituais. Muito mais que um simples texto, ela marcava uma profunda mudança na compreensão e na expressão do relacionamento entre a Igreja e os crentes de outras religiões. Em tal Declaração, a Igreja afirmava, de modo explícito, que «nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo», convidando os fiéis a considerar com estima e respeito «esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas»[1]. Redigida no contexto da vitalidade criativa e fraterna do Concílio, a Declaração mantém uma grande atualidade em um mundo marcado, de um lado, por atitudes generalizadas de fechamento e, do outro lado, pela busca de convivência no âmbito de uma cidadania universal fundada sobre a fraternidade e o reconhecimento recíproco.

2. Nesta perspetiva, a Nostra aetate se coloca na mesma linha da outra Declaração conciliar Dignitatis humanae, centrada sobre o direito à liberdade religiosa. Nenhuma relação respeitosa com as demais religiões é sincera e praticável sem um concomitante respeito pela liberdade religiosa dos outros: «Esta exigência de liberdade na sociedade humana diz respeito principalmente ao que é próprio do espírito, e, antes de mais, ao que se refere ao livre exercício da religião na sociedade»[2]. Esta convicção nos leva a pedir a mesma liberdade para os cristãos nos países onde eles são minoria[3].

3. A sessenta anos de distância da sua publicação, Nostra aetate continua a inspirar as escolhas pastorais e teológicas da Igreja e a alimentar aquele diálogo que é a própria forma do realizar-se da vida humana e que se tornou ainda mais indispensável nas sociedades do nosso tempo. Tal diálogo, porém, constitui um desafio permanente: como conjugar fidelidade à identidade cristã e abertura sincera à alteridade? Como viver concretamente o apelo à fraternidade universal em sociedades marcadas pela crescente diversidade cultural e religiosa, pela guerra e pela violência e caracterizadas pelo impulso crescente à secularização? Este documento comemorativo deseja repercorrer as etapas essenciais do diálogo inter-religioso depois de Nostra aetate, avaliando suas conquistas e seus desafios, e traçar algumas perspectivas para o futuro.

Origem e alcance da Nostra aetate. Uma resposta à Shoah

4. A Declaração Nostra aetate nasceu depois da Segunda Guerra Mundial e inicialmente não se referia ao diálogo com as outras religiões, mas se colocava como resposta às trágicas consequências do antissemitismo culminado na Shoah. São João XXIII, já muito sensível a esta temática, depois de um encontro com o judeu Jules Isaac, tornado possível pela mediação da fundadora do Secretariado para Atividades Ecumênicas, Maria Vingiani, encarregou o cardeal Augustin Bea de redigir um texto conciliar voltado a sanar e renovar a relação entre a Igreja e o povo judeu. Tal projeto foi desenvolvido nas sessões do Concílio Vaticano II e encontrou uma forma concreta em um texto que, como o grão de mostarda do Evangelho (cf. Mc 4, 31-32), cresceu além de todas as previsões, até tornar-se uma grande árvore que incluiu, além da relação com o judaísmo, o diálogo com as diversas religiões. Nele, pode-se reconhecer o desígnio de uma acolhida sempre mais universal, que a Igreja deseja oferecer aos irmãos e irmãs das outras tradições religiosas, no respeito e na busca partilhada da verdade.

5. O diálogo católico-judaico, na sua forma oficial e institucional, tem o seu fundamento no n. 4 da Declaração. Trata-se da primeira expressão magisterial que reconhece claramente as raízes hebraicas do cristianismo. Nela, faz-se referência à passagem de Rm 9, 4-5, na qual se afirma que os patriarcas pertencem aos israelitas e que Cristo provém deles segundo a carne. A Declaração afirma também «que os Apóstolos, fundamentos e colunas da Igreja, nasceram do povo judaico, bem como muitos daqueles primeiros discípulos, que anunciaram ao mundo o Evangelho de Cristo»[4]. A tal propósito, falando da pessoa de Jesus, um documento da Comissão para as relações religiosas com o Judaísmo do Secretariado para a União dos Cristãos (hoje Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos) especifica que: «Jesus é judeu e o é para sempre […]. Jesus é plenamente um homem do seu tempo e do seu ambiente hebraico palestinense do I século, cujas alegrias e esperanças partilhou. Isto sublinha, como nos foi revelado na Bíblia (cf. Rm 1, 3-4; Gl 4,4-5), seja a realidade da Encarnação, seja o significado mesmo da história da salvação»[5]. Para dizer com o evangelista João (cf. Jo 1,14), segundo a reinterpretação do teólogo protestante K. Barth, a Palavra se fez «carne hebraica»[6] e veio habitar entre nós. Esta morada de Jesus é o judaísmo do seu tempo, que é o terreno originário de que se desenvolveu a Ecclesia ex circumcisione e depois a Ecclesia ex gentibus (veja-se a propósito o mosaico da Basílica de Santa Sabina em Roma).

O diálogo com as religiões

6. Desde a abertura do Concílio Vaticano II, em 1962, São João XXIII, considerado o «precursor do diálogo»[7], convidou explicitamente a promover não só a unidade dos cristãos, mas também uma fraternidade mais ampla com os crentes de outras religiões, fundada «na estima e no respeito»[8] recíprocos. Esta visão, autenticamente humana e profundamente evangélica, se impôs progressivamente com evidência teológica e pastoral: o encontro respeitoso com o outro é condição indispensável para viver plenamente o Evangelho. Poucos meses depois, na encíclica Pacem in terris, o Pontífice convidou todos ao respeito pela dignidade de cada um[9].

7. São Paulo VI confirmou tal orientação na encíclica Ecclesiam suam, convidando a Igreja a «estabelecer um diálogo com a sociedade humana na qual vive»[10]. Segundo tal encíclica, a Igreja é chamada a assumir, com renovado fervor, uma preparação para dialogar «com todos os homens de boa vontade, dentro e fora do seu âmbito próprio»[11], sem excluir ninguém e no respeito pelas especificidades das dinâmicas próprias dos diversos contextos do diálogo. O entendimento de um diálogo metodologicamente estruturado em diversos círculos – o diálogo pela paz, o diálogo com os que creem em Deus e o diálogo com os irmãos cristãos separados[12] – revelou-se programática para o desenvolvimento do diálogo ecumênico, inter-religioso e intercultural no período pós-conciliar. Esta proposta é considerada componente essencial da missão da Igreja, baseada sobre a clareza doutrinal, a escuta sincera e o profundo respeito pelos interlocutores dos cristãos[13]. Assim, a Igreja afirma com clareza: a via do diálogo não é nem uma estratégia circunstancial nem uma renúncia à própria identidade, mas um autêntico caminho evangélico.

8. A particular contribuição da Nostra aetate foi sublinhada por São Paulo VI na conclusão do Concílio Vaticano II: «E queiram contemplar também esta manifestação do rosto embelezado da Igreja os nossos queridos irmãos ainda separados da plena comunhão conosco; queiram igualmente contemplá-lo os adeptos de outras religiões, e entre todos, aqueles a quem nos une o parentesco de Abraão, especialmente os judeus, para nunca mais objeto de reprovação ou desconfiança, mas de respeito, amor e esperança. Assim é que a Igreja progride na firmeza da verdade e da fé, na expansão da justiça e da caridade. Assim é que a Igreja vive»[14].

9. Nostra aetate destaca um princípio essencial. O respeito e a estima são os fundamentos imprescindíveis do diálogo inter-religioso e das relações com o judaísmo e permitem superar atitudes de exclusão, desprezo ou indiferença que por longo tempo tinham prevalecido: «Não podemos, porém, invocar Deus como Pai comum de todos, se nos recusamos a tratar como irmãos alguns homens, criados à Sua imagem. […] A Igreja reprova, por isso, como contrária ao espírito de Cristo, toda e qualquer discriminação ou violência praticada por motivos de raça ou cor, condição ou religião»[15]. Neste sentido, a Declaração se coloca na antropologia relacional de Gaudium et spes, na qual o outro não é percebido como ameaça, mas reconhecido como interlocutor com quem construir, em espírito de reciprocidade, uma sociedade mais justa e fraterna.

 A especificidade do diálogo com os judeus

10. Tanto o judaísmo hodierno quanto o cristianismo contemporâneo baseiam-se na Palavra revelada no Primeiro Testamento e afundam suas raízes no judaísmo dos tempos de Jesus. Este, depois da destruição do templo de Jerusalém no ano 70 d.C., transformou-se sobretudo em judaísmo rabínico, enquanto o cristianismo primitivo se desenvolveu a partir do movimento começado por Jesus e seus discípulos, distinguindo-se das várias formas de judaísmo ao longo do tempo. Com o judeu Jesus, os primeiros cristãos adotaram efetivamente os princípios do judaísmo de então, adaptando-os à nova situação pós-pascal. A Declaração Nostra aetate afirma pois: «Sendo assim tão grande o patrimônio espiritual comum aos cristãos e aos judeus, este sagrado Concílio quer fomentar e recomendar entre eles o mútuo conhecimento e estima, os quais se alcançarão sobretudo por meio dos estudos bíblicos e teológicos e com os diálogos fraternos»[16]. Este rico patrimônio comum é uma sólida base, verdadeiro tesouro para o diálogo judaico-cristão.

11. Mas o que Jesus introduziu no cristianismo como herança hebraica faz parte da própria estrutura teológica cristã. Na seção intitulada Temas fundamentais das Escrituras do povo hebraico e seu acolhimento na fé em Cristo (nn. 19-65), o documento da Pontifícia Comissão Bíblica de 24 de maio de 2001, O povo hebraico e as suas Sagradas Escrituras na Bíblia cristã, faz referência aos principais aspectos escriturísticos e à sua interpretação. Trata-se de um texto de alto valor.

12. Com efeito, que o Deus de Israel tenha se revelado na sua Palavra, dirigindo-se aos seres humanos, é uma convicção comum a judeus e cristãos. Que Deus, como criador do céu e da terra, tenha criado o espaço vital para o ser humano e que circunde e preserve tal espaço; que o ser humano, enquanto “imagem de Deus” (cf. Gn 1, 26-27), seja o seu administrador e deva assumir a justa responsabilidade diante da criação e que seja responsável pelo bem de seus irmãos, especialmente dos pobres, são verdades comuns ao judaísmo e ao cristianismo[17]. Todo ensinamento ético para a correta relação do ser humano com Deus, com o mundo que o circunda e com o próximo, tem a sua origem em Deus mesmo e na dignidade de cada pessoa, derivada do seu ser “imagem de Deus”: como o judaísmo rabínico, também o cristianismo adotou os “Dez Mandamentos”. Estes se tornaram um patrimônio moral reconhecido por muitas outras pessoas. O duplo mandamento do amor ensinado por Jesus, ou seja, amar a Deus com todo o coração e com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo (cf. Mc 12, 30-31, Mt 22, 37-39, Lc 10, 27), é tirado do Primeiro Testamento, mesmo que ali os dois mandamentos não tenham sido explicitamente associados (cf. Dt 6, 5 e Lv 19, 18). Por isto, Papa Bento XVI considerava os judeus como nossos “pais na fé”[18] e sublinhava que o diálogo entre as duas comunidades deve começar pela gratidão dos cristãos para com os judeus, porque, não obstante as dificuldades atravessadas, eles conservaram a fé no Deus único. Portanto, o então Cardeal Ratzinger podia afirmar que «o diálogo, para ser frutuoso, deve começar com uma oração ao nosso Deus para que conceda, antes de tudo, a nós, cristãos, maior estima e amor para com este povo, os israelitas»[19].

13. Levando-se em conta este rico patrimônio espiritual comum a judeus e cristãos, é fácil entender que o diálogo judaico-cristão não pode ser considerado uma prática secundária para os cristãos, tendo como finalidade somente conhecer melhor o judaísmo ou cultivar relações diplomáticas e de simples amizade com o povo hebraico: trata-se antes de tomar plena consciência da própria identidade originária. A aliança de Deus com o povo hebraico é irrevogável[20], o que interpela constantemente a Igreja. Isto não significa para os cristãos que existam duas vias de salvação[21] e que a aliança com o povo hebraico seja paralela à via de salvação cristã: a Igreja ensina que Cristo é o único Redentor[22]. Todavia, tal aliança irrevogável tem um significado teológico. Quanto mais um cristão conhece e ama as raízes judaicas da sua própria tradição, tanto mais ele compreende a si mesmo na sua prática de fé, fortalecendo sua identidade religiosa. Mas, para que isso aconteça, é essencial que o cristão conheça bem a própria tradição de fé e que esteja bem enraizado nela. Quando, em referência ao judaísmo, afirmamos que não podemos ignorar uns aos outros, isto implica também que a religiosidade dos atuais judeus – e não só aquela ligada ao Primeiro Testamento – é relevante para os cristãos. Assim se expressa Papa Francisco: «Deus continua a operar no povo da Primeira Aliança»[23]. A religiosidade hebraica pode ser considerada como um efeito da Palavra revelada, sempre viva e eficaz, que eles acolheram, e por esta razão se trata de um valor atual e dinâmico, que sempre pode nos enriquecer (cf. Rm 11, 29). Por isso, é de fundamental importância o aprofundamento bíblico, exegético, litúrgico e teológico da relação com o judaísmo, segundo os princípios expostos nas Constituições conciliares Dei Verbum e Lumen gentium.

14. Tal solidariedade com o povo hebraico inclui também a luta comum contra o antissemitismo. Já Nostra aetate declara abertamente que a Igreja «deplora todos os ódios, perseguições e manifestações de antissemitismo, seja qual for o tempo em que isso sucedeu e seja quem for a pessoa que isso promoveu»[24], confirmando e dando um passo ulterior a quanto já declarado pela Suprema Sagrada Congregação do Santo Ofício, em 25 de março de 1928[25]. O antissemitismo se manifestou em modos cruéis ao longo da história, também nos nossos tempos, mas o seu ponto mais obscuro é representado certamente pelo evento da Shoah (holocausto). A esse respeito, permanecem muito precisas e fortes as expressões utilizadas por Bento XVI durante a Audiência Geral de 28 de janeiro de 2009, no contexto da celebração anual do “Dia da Memória”: «Nestes dias em que recordamos a Shoah, voltam-me à memória as imagens recolhidas nas minhas várias visitas a Auschwitz, um dos lagers onde se consumiu o feroz massacre de milhões de judeus, vítimas inocentes de um cego ódio racial e religioso. Enquanto renovo com afeto a expressão da minha plena e indiscutível solidariedade para como os nossos irmãos destinatários da primeira Aliança, desejo que a memória da Shoah leve a humanidade a refletir sobre o poder imprevisível do mal, quando conquista o coração do homem. A Shoah seja para todos uma admoestação contra o esquecimento, a negação e o reducionismo, para que a violência feita contra um só ser humano é violência contra todos. Nenhum homem é uma ilha, escreveu um famoso poeta. A Shoah ensine, quer às velhas gerações quer às novas, que somente o árduo caminho da escuta e do diálogo, do amor e do perdão leva os povos, as culturas e as religiões do mundo à almejada meta da fraternidade e da paz na verdade. A violência nunca mais humilhe a dignidade do homem!»[26].

15. Os conflitos que nos últimos anos incendeiam o Oriente Médio deixaram a sua marca também no diálogo judaico-cristão. Muitas pontes de comunicação vacilaram e continuam a ser colocadas à prova pela diferente leitura dos eventos acontecidos, frequentemente não unívoca mesmo no interior das respectivas comunidades religiosas. Todavia, as colunas do diálogo de fé, edificadas nos sessenta anos de trabalho conjunto, permanecem firmes. Sobre elas, é possível e necessário construir, inspirando-nos mais uma vez nas recomendações dos Padres conciliares para crescer no mútuo conhecimento e estima « sobretudo por meio dos estudos bíblicos e teológicos e com os diálogos fraternos»[27].

II. Desenvolvimentos pós-conciliares: uma continuidade enriquecida pelos Papas sucessivos

São Paulo VI

16. O novo comportamento da Igreja diante das outras crenças e tradições religiosas oriundo do Concílio Vaticano II foi colocado por São Paulo VI no quadro do «diálogo com o mundo» delineado na encíclica Ecclesiam suam, ulteriormente desenvolvido no magistério sucessivo. Como recorda o Pontífice na Encíclica Populorum Progressio, o «desenvolvimento não se reduz a um simples crescimento econômico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo»[28]. Disso deriva um forte convite à fraternidade, sustentado pelo diálogo constante com as culturas, as religiões e as consciências, em vista do desenvolvimento solidário, aberto à transcendência e orientado à fraternidade universal[29]. Nesta perspectiva, São Paulo VI deu um impulso decisivo ao diálogo inter-religioso, inserindo-o nas próprias estruturas da Cúria Romana.

17. Por isto, já em 1964, o Papa instituiu o Secretariado para os Não-Cristãos, que se tornou o atual Dicastério para o Diálogo Inter-religioso[30]. Nascido em pleno período conciliar, antes mesmo da promulgação da Nostra aetate e da Carta encíclica Ecclesiam suam, este organismo foi encarregado de orientar, sustentar e coordenar as relações da Igreja com os seguidores das outras religiões. Ainda hoje se empenha em promover «entre todos os homens uma verdadeira busca de Deus»[31].

18. São Paulo VI sublinhou com força que as religiões não-cristãs não deveriam mais ser vistas como adversárias, mas como companheiras de caminho e «de futura e já iniciada amizade»[32]. Na mesma dinâmica, uma década mais tarde, foram instituídas duas comissões específicas: uma para as relações religiosas com o judaísmo e outra para aquelas com o islamismo[33], com o objetivo de aprofundar o encontro com judeus e muçulmanos e reforçar a colaboração também em relação às outras confissões cristãs[34]. Por vontade de São Paulo VI, o diálogo se enraizou nas instituições da Igreja, mas também no seu coração missionário. Tornou-se componente relevante da vida cristã: um autêntico estilo de testemunho evangélico, em harmonia com um mundo sempre mais atravessado pela pluralidade das crenças e das culturas.

São João Paulo II

19. São João Paulo II deu grande visibilidade à intuição conciliar do diálogo inter-religioso. Sua ação para colocar em prática os princípios da Nostra aetate foi determinante, em particular com a organização do histórico encontro de Assis, em 27 de outubro de 1986. Pela primeira vez, responsáveis religiosos provenientes de todo o mundo se encontraram, exprimindo cada qual a própria fé, para rezar pela paz. Este momento, profundamente simbólico, foi um chamado claro e forte a considerar as religiões não mais como fontes de divisão, mas como atores essenciais de uma paz duradoura, baseada sobre a estima recíproca e sobre a cooperação fraterna[35]. Na conclusão daquele Dia mundial de oração, diante dos representantes das diversas religiões, o Papa declarou: «Talvez nunca como agora na história se tornou evidente para todos a relação intrínseca entre a atitude autenticamente religiosa e o grande bem da paz […] A humanidade entrou em uma era de maior solidariedade e de aspiração pela justiça social»[36].

20. A propósito do diálogo com os judeus, São João Paulo II, quando visitou a sinagoga de Roma em 13 de abril de 1986, pôde afirmar diante dos seus interlocutores hebraicos que «a religião judaica não nos é “extrínseca”, mas em certo modo, é “intrínseca” à nossa religião. Temos, pois, com ela liames que não temos com nenhuma outra religião. Sois os nossos irmãos prediletos e, em certo sentido, seria possível dizer os nossos irmãos mais velhos»[37]. Porque Jesus era judeu, a Igreja e o judaísmo têm uma relação única, que não existe com as outras religiões.

21. Além disso, São João Paulo II, promovendo aquele que foi chamado «o espírito de Assis»[38], concordava com São Paulo VI quanto a necessidade de esclarecer alguns aspectos da relação entre diálogo e evangelização. O seu pontificado foi marcado pela publicação de diversos documentos fundamentais, como Diálogo e missão (1984), do Secretariado para os Não-Cristãos[39], e a Carta encíclica Redemptoris missio (1990), que reafirma o valor permanente do mandato missionário, seguida por Diálogo e anúncio (1991), redigido pelo Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso em colaboração com a Congregação para a Evangelização dos Povos[40].

22. Em linha com o Concílio Vaticano II, estes textos articulam duas exigências incindíveis, cuja atualidade permanece viva. Àqueles que seriam tentados a insistir exclusivamente sobre a obrigação de anunciar Cristo, recorda-se que a Declaração Nostra aetate inclui a necessidade do diálogo com as outras tradições religiosas, dado que atualmente ele «faz parte da missão evangelizadora da Igreja»[41]. Àqueles que, ao contrário, tendem a relativizar a sua identidade, a mesma Declaração recorda a exigência da fidelidade a Jesus Cristo, «caminho, verdade e vida» (Jo 14, 6)[42]. O diálogo pressupõe a clara consciência da própria identidade religiosa e cultural, junto com a real abertura à alteridade, condição indispensável para a convivência nas sociedades pluralísticas. Deve ser sem ambiguidade, evitando o relativismo e o sincretismo, no máximo respeito pela identidade e no máximo empenho pela compreensão mútua.

23. Uma das preocupações principais do pontificado de São João Paulo II foi, sem dúvida, a promoção de um verdadeiro «diálogo entre as culturas»[43] a serviço da paz no mundo, sobretudo diante dos sempre mais numerosos episódios de violência cometidos em nome de Deus. No início do ano 2000, o Pontífice repetiu com veemência que cabe às pessoas de fé demonstrar que as religiões não são um obstáculo à paz, mas constituem um seu elemento essencial. Toda instrumentalização da religião para fins violentos é uma grave distorção da sua essência. A religião jamais deve ser pretexto para conflitos: «A religião e a paz caminham a par e passo: declarar guerras em nome da religião é uma evidente contradição»[44]. Por conseguinte, o apelo claro aos responsáveis religiosos: compete a eles testemunhar, com os fatos e o empenho, que é a sua própria fé que os impele a trabalhar pela paz.

Bento XVI

24. Sempre no espírito da Nostra aetate, e por ocasião do vigésimo aniversário do evento de Assis, em 2006, Papa Bento XVI repetiu que «não podemos, porém, invocar Deus como Pai comum de todos, se nos recusamos a tratar como irmãos alguns homens, criados à Sua imagem»[45], porque a fé em Deus não pode não encorajar relações de fraternidade universal entre todos os seres humanos[46]. A perseverança no diálogo inter-religioso quer ser a demonstração de que o fundamentalismo é uma falsificação das religiões, que se contrapõe à sua vocação profunda. Em um conhecido discurso, retomando as palavras de um Imperador bizantino, ele afirmou que «não é razoável a difusão da fé mediante a violência. Esta está em contraste com a natureza de Deus e a natureza da alma»[47].

25. Associando estreitamente a busca da paz às exigências da razão e da verdade, Bento XVI afirmou com constância que nenhuma religião ou cultura pode legitimamente justificar o fanatismo ou o recurso à violência. Por isto, as pessoas de fé devem continuar a encontrar-se e têm o dever comum de servir à verdade e à humanidade. Em particular, o «diálogo inter-religioso e intercultural entre os cristãos e os muçulmanos não pode reduzir-se a uma opção ocasional. Com efeito, ele constitui uma necessidade vital, da qual depende em boa parte o nosso próprio futuro»[48].

26. Por outro lado, o diálogo deve desenvolver-se também com as culturas, as ciências e as instituições políticas, em vista de uma compreensão mais profunda do ser humano em toda sua complexidade. Este diálogo “alargado” tem como finalidade o desenvolvimento integral da pessoa e a harmonia da sociedade. Porque, na verdade, o verdadeiro perigo não reside tanto no conflito entre blocos religiosos, quanto naquele entre culturas incapazes de compreender-se e dialogar.

Francisco

27. Papa Francisco prosseguiu a atuação da Nostra aetate segundo o ensinamento dos seus predecessores, afirmando que «três diretrizes fundamentais que, se forem bem conjugadas, podem ajudar o diálogo: o dever da identidade, a coragem da alteridade e a sinceridade das intenções»[49]. O diálogo com as outras tradições religiosas deve ser caracterizado pela atitude de abertura na verdade e na caridade[50], «apesar dos vários obstáculos e dificuldades». E reiterou que tal diálogo é «uma condição necessária para a paz no mundo e, por conseguinte, é um dever para os cristãos e também para outras comunidades religiosas»[51].

28. E a propósito das características específicas do diálogo com os judeus, Papa Francisco, desde o início do seu pontificado, se referiu ao fundamento teológico do diálogo judaico-cristão, quando afirmou, sobre a base da Nostra aetate: «Este fundamento é teológico, e não simplesmente expressão do nosso desejo de respeito e estima recíprocos; por conseguinte, é importante que o nosso diálogo seja sempre caracterizado profundamente pela consciência que temos das nossas relações com Deus»[52].

29. De grande importância são os três parágrafos dedicados à relação com o judaísmo na Exortação apostólica Evangelii gaudium[53]¸ que constitui o documento fundamental para interpretar seu pontificado. Alguns dos temas que o Pontífice quis destacar para definir a compreensão da relação entre a Igreja Católica e o judaísmo são: o acolhimento da Palavra revelada junto ao povo hebraico, para ajudar-nos «mutuamente a desentranhar as riquezas da Palavra»[54]; o diálogo e a amizade como parte da vida dos discípulos de Jesus; a tristeza pelas terríveis perseguições de que foi alvo o povo hebraico, particularmente aquelas que envolveram os cristãos; bem como a partilha de muitas convicções éticas e a comum preocupação pela justiça e o desenvolvimento dos povos.

30. Com Papa Francisco, o diálogo inter-religioso entrou em uma nova fase, profundamente impregnada pela visão da “fraternidade universal”[55], no sentido próprio de fraternidade que se encontra em São Francisco de Assis. Como se lê na Encíclica Fratelli tutti, «a fé cumula de motivações inauditas o reconhecimento do outro, pois quem acredita pode chegar a reconhecer que Deus ama cada ser humano com um amor infinito»[56]. Em continuidade com o princípio pelo qual «a unidade é superior ao conflito»[57], o Pontífice afirma: «a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento mútuo como método e critério»[58]. Diante da tentação de fragmentar o mundo em universos culturais e religiosos herméticos, Papa Francisco exortou a abater os «muros de separação»[59] e a fazer a firme escolha pelo encontro: «O isolamento, não; a proximidade, sim. Cultura do confronto, não; cultura do encontro, sim»[60].

31. As pessoas e os povos podem realmente produzir frutos bons só se aceitam abrir-se aos outros com criatividade e generosidade. Nesta perspectiva, Papa Francisco recordou também que é impossível compreender plenamente a si mesmo, ou conhecer a fundo a realidade do próprio país, da própria Igreja ou da própria comunidade, sem um confronto respeitoso com quem é diferente. A alteridade torna-se então uma fonte de enriquecimento recíproco, com a condição de que as outras crenças, tradições espirituais e culturas não sejam percebidas como ameaças.

32. Todavia, é preciso recordar que o «“diálogo” não é uma fórmula mágica»[61]. Não é automático e aqueles que nele se empenham não devem ser ingênuos, nem idealistas cegos: eles são chamados a ser os «heróis do futuro»[62]. Refutando seja o fechamento identitário, seja a lógica da agressividade, tomam uma via intermédia, exigente mas fecunda: aquela da construção paciente da fraternidade humana[63]. Um princípio fundamental deve sempre guiar a sua ação: a consciência que crer em Deus e adorá-lo não garantem necessariamente uma vida conforme à sua vontade[64]. Por isso a importância de um critério de discernimento universal, que pode ser encontrado nos textos sagrados das diversas religiões: o acolhimento ou a rejeição da pessoa ferida à beira da estrada. A atenção concreta aos mais vulneráveis é o indicador essencial para avaliar a correção de todo projeto, seja ele político, econômico, social, acadêmico, religioso ou cultural. O pobre – em todas as suas formas de precariedade – é a bússola que nos permite saber se estamos procedendo na direção certa[65].

Leão XIV

33.  Na sua primeira mensagem ao Corpo diplomático, o Papa Leão XIV recordou as três palavras-chave que devem acompanhar toda forma de diálogo: paz, justiça, verdade[66]. Seguindo os passos dos seus antecessores, o Papa Leão XIV fez memória do sexagésimo aniversário da Declaração Nostra aetate afirmando que com este documento «foi plantada uma semente de esperança para o diálogo inter-religioso»[67]. O Pontífice recordou também que houve mártires do diálogo, que deram a vida para opor-se à violência e ao ódio[68]. Além disso, ele sublinhou que «podemos conduzir os nossos povos a tornarem-se profetas do nosso tempo – vozes que denunciam a violência e a injustiça, curam a divisão e proclamam a paz a todos os nossos irmãos e irmãs»[69]. Enfim, na Audiência Geral de 29 de outubro de 2025, dedicada à Nostra aetate, o Santo Padre reafirmou: «Este Documento luminoso ensina-nos a encontrar os seguidores de outras religiões não como estranhos, mas como companheiros de viagem no caminho da verdade; a honrar as diferenças, afirmando a nossa humanidade comum; e a discernir, em qualquer busca religiosa sincera, um reflexo do único Mistério divino que abraça toda a criação»[70].

34. O Papa Leão XIV, no seu primeiro discurso aos Representantes de outras Igrejas e Comunidades eclesiais e de outras religiões, em 19 de maio de 2025, resumiu o núcleo do diálogo judaico-cristão e sublinhou também a importância do diálogo teológico: «Devido às raízes judaicas do cristianismo, todos os cristãos têm uma relação especial com o judaísmo. A Declaração conciliar Nostra Aetate(n. 4) sublinha a grandeza do patrimônio espiritual partilhado por cristãos e judeus, encorajando o conhecimento e a estima recíprocos. O diálogo teológico entre cristãos e judeus, que é sempre importante, eu tomo-o muito a peito. Mesmo nestes tempos difíceis, marcados por conflitos e incompreensões, é necessário prosseguir com coragem este nosso precioso diálogo»[71]. Cristãos e judeus, não podendo ignorar uns aos outros, deveriam percorrer juntos tal caminho, até o fim do tempo terreno. E, juntos, deveriam esperar o dia «só de Deus conhecido, em que todos os povos invocarão a Deus com uma só voz e “o servirão debaixo dum mesmo jugo” (Sf 3, 9)»[72].

35. O tema do diálogo com as diversas religiões a ser promovido e cultivado é claramente retomado, entre outros, na declaração conjunta com o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I de 29 de novembro de 2025: «rejeitamos qualquer uso da religião e do nome de Deus para justificar a violência. Acreditamos que o diálogo inter-religioso autêntico, longe de ser causa de sincretismo e confusão, é essencial para a coexistência de povos de diferentes tradições e culturas. Tendo em mente o 60º aniversário da declaração Nostra Aetate, exortamos todos os homens e mulheres de boa vontade a trabalharem juntos para construir um mundo mais justo e solidário e a cuidarem da criação, que nos foi confiada por Deus. Só assim a família humana poderá superar a indiferença, o desejo de domínio, a ganância pelo lucro e a xenofobia»[73]. Em tal perspectiva, o diálogo que se abre no sulco da Nostra aetate não é um exercício meramente teórico, mas um empenho ético e espiritual partilhado, orientado à paz, à justiça e ao cuidado da casa comum.

36. Sobretudo no atual contexto internacional, infelizmente marcado por tantas guerras, que causam cada dia numerosas vítimas e situações de enorme e injusto sofrimento, o Papa Leão XIV quis reforçar o papel decisivo do diálogo entre as religiões em refutar a lógica da violência: «Quem, para legitimar o terrorismo, a violência ou a guerra, usa o nome de Deus, trai a sua imagem: fazer guerra em nome da religião significa, na realidade, ferir a própria religião. O “espírito de Assis”, suscitado por São João Paulo II e continuado pelo esforço do Papa Francisco – no diálogo, por exemplo, com o Grande Imã de al-Azhar –, mostra que os crentes podem haurir das fontes mais autênticas das suas tradições espirituais, onde não há lugar para o ódio sacralizado»[74].

III. Os frutos e os desafios da Declaração Nostra aetate hoje

Frutos visíveis e silenciosos

37. Sessenta anos depois da sua promulgação, são evidentes os frutos que a Nostra aetate produziu nas relações com o judaísmo e no diálogo com o islã e as outras religiões. Em referência a estas últimas, por exemplo, neste arco de tempo, a Igreja Católica dialogou e colaborou – em diversos âmbitos e em vários níveis – com os seguidores do hinduísmo, do budismo, do jainismo, do sikhismo, do shintoísmo, do taoísmo, do confucionismo e do zoroastrismo, além das religiões tradicionais, em particular aquelas africanas.

38. Um dos efeitos mais significativos da Nostra aetate foi, sem dúvida, uma transformação do olhar, que teve importantes consequências. Foram instauradas relações duradouras de amizade entre responsáveis religiosos, encaminhados projetos educativos e sociais conjuntos, publicadas declarações comuns diante de dramas humanitários, guerras ou crises ambientais[75]. Onde outrora reinavam a rejeição, a desconfiança ou a ignorância, estes gestos concretos contribuíram para construir uma cultura do diálogo e uma «cultura do encontro»[76]. A revista Pro Dialogo, publicada pelo Dicastério para o Diálogo Inter-religioso, faz regularmente eco a estas numerosas iniciativas, recolhendo e difundindo os múltiplos frutos destes encontros em todo o mundo. Por outro lado, o Dicastério para o Diálogo Inter-religioso envia mensagens de felicitações aos amigos das outras tradições religiosas por ocasião das suas festas principais, para revigorar e reforçar os laços de estima recíproca e colaboração. O mesmo faz a Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo.

39. Como consequência da reflexão teológica e da evolução pastoral do diálogo inter-religioso, seguindo a intuição originária de São Paulo VI, o diálogo[77] é atuado em vários âmbitos, recebidos no documento intitulado Diálogo e anúncio: o diálogo na vida, que abraça a cotidianidade multirreligiosa, seja nas aldeias, seja nas cidades, grandes e pequenas; o diálogo na ação com iniciativas comuns, que os seguidores das diversas religiões podem realizar de comum acordo; o diálogo teológico – feito pelos especialistas – que consiste no confronto entre os conhecimentos religiosos em um nível prevalentemente doutrinal; enfim, o diálogo da experiência religiosa, levado adiante sobretudo pelos monges que aderem ao Diálogo Inter-religioso Monástico[78].

40. Entre os frutos do diálogo iniciado com a Nostra aetate, podem ser recordados a Women’s Network for Interreligious Dialogue, promovida pelo Dicastério para o Diálogo Inter-religioso, a fim de ampliar a participação das mulheres, e a colaboração, já de várias décadas, entre o mesmo Dicastério e a Comissão para o Diálogo Inter-religioso do Conselho Ecumênico das Igrejas, que produziu documentos importantes como O testemunho cristão em um mundo multirreligioso: Recomendações de conduta (2011).

41. Estes frutos são frequentemente vividos também no silêncio e na discrição, enraizados na cotidianidade. Hoje em dia, sacerdotes, religiosos e leigos vivem em bairros multirreligiosos, onde o simples fato de viver em paz, de estar presentes um para o outro – como vizinhos – é já um testemunho. Casais inter-religiosos, grupos de jovens, comunidades locais inventam sempre novas formas de convivialidade. Todos estes resultados, talvez embrionários, invisíveis, mas fecundos, encarnam a intuição da Nostra aetate: viver no mundo como testemunhas do amor de Deus, em diálogo com todos.

42. Em continuidade com tal intuição e com o ensinamento do Magistério recente, espera-se que se promovam, com renovado discernimento, conversas e formas de colaboração também com membros dos “novos movimentos religiosos” e com os representantes de novas experiências religiosas. Tais encontros fraternos, que não podem ser entendidos nem como diálogo ecumênico, nem como diálogo inter-religioso, fundados sobre a clareza da própria identidade e o respeito recíproco, podem oferecer concretas oportunidades para trabalhar juntos na promoção de valores compartilhados e à busca do bem comum. Eles podem, ainda, contribuir para uma compreensão mais atenta das aspirações espirituais contemporâneas, ampliando os espaços de testemunho, de recíproco conhecimento e de cooperação a serviço da dignidade humana, da paz social e do cuidado pela criação.

43. Finalmente, é importante referir a crescente consciência crítica face às manifestações de islamofobia, que não distinguem adequadamente os casos de fundamentalismo e violência da existência pacífica dos outros fiéis muçulmanos que se integram e trabalham nos países que os acolhem. Devemos agradecer às comunidades cristãs que cresceram no espírito de acolhimento e também de melhor conhecimento e estima para com os fiéis muçulmanos que, como recorda Nostra aetate, adoram «o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão, que a fé islâmica de bom grado evoca. […]. Têm, por isso, em apreço a vida moral e prestam culto a Deus, sobretudo com a oração, a esmola e o jejum»[79].

Resistências e mal-entendidos persistentes

44. Não obstante estes progressos, as dificuldades do diálogo permanecem. Alguns ambientes continuam a duvidar da sua oportunidade, temendo o relativismo doutrinal ou a diluição da identidade religiosa. Mesmo após a publicação do documento Diálogo e Anúncio, persistem incompreensões sobre a própria natureza do diálogo. Há quem ainda se questione se se trata de um problema pastoral, de um ato de caridade, de um intercâmbio teológico ou da necessidade de um empenho político para o bem comum.

45. Para além dos confins eclesiais, os mal-entendidos não são menores. Em algumas regiões, as relações entre fiéis de diferentes religiões são historicamente conflituosas, e a lembrança das feridas antigas torna difícil a confiança recíproca, não obstante o que exorta a Declaração Nostra aetate quando diz «que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreensão mútua»[80], em particular entre cristãos e muçulmanos.  A este propósito, podem-se recordar as palavras de Papa Francisco: «Para sustentar o diálogo com o Islão é indispensável a adequada formação dos interlocutores, não só para que estejam sólida e jubilosamente radicados na sua identidade, mas também para que sejam capazes de reconhecer os valores dos outros, compreender as preocupações que subjazem às suas reivindicações e fazer aparecer as convicções comuns. Nós, cristãos, deveríamos acolher com afeto e respeito os imigrantes do Islão que chegam aos nossos países, tal como esperamos e pedimos para ser acolhidos e respeitados nos países de tradição islâmica. Rogo, imploro humildemente a esses países que assegurem liberdade aos cristãos para poderem celebrar o seu culto e viver a sua fé, tendo em conta a liberdade que os crentes do Islão gozam nos países ocidentais»[81]. Em outros lugares, o crescimento dos fundamentalismos, a permanência dos preconceitos, a manipulação política das pertenças religiosas ou as violências em nome de Deus minam as bases do diálogo. Nas sociedades secularizadas, o discurso religioso é, às vezes, marginalizado ou instrumentalizado, reduzido a folclore, à opinião subjetiva ou totalmente ofuscado.

46. O caminho continua desafiador: requer humildade, coragem e discernimento. Para o cristão, esta exigência não é surpreendente, porque o verdadeiro fiel não é movido pela arrogância; «pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui. Longe de nos endurecer, a segurança da fé põe-nos a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos»[82]. Este diálogo requer frequentemente uma «paciência inexaurível»[83] e não pode ser reduzido a um simples e genérico consenso. Enraizado na missão evangelizadora da Igreja – de que é uma dimensão essencial – ele pressupõe o empenho sincero, o conhecimento profundo do outro e o reconhecimento da liberdade de consciência como fundamento de toda autêntica relação[84]. Não se trata, pois, de renunciar à verdade, mas de anunciá-la de modo evangélico: com estima, escuta e caridade. É uma verdadeira partilha daquilo que habita o próprio coração: «Falar de Cristo, pelo testemunho ou pela palavra, de tal modo que os outros não tenham de fazer um grande esforço para o amar, é o maior desejo de um missionário da alma. Não há proselitismo nesta dinâmica de amor, as palavras do enamorado não perturbam, não impõem, não forçam, apenas levam os outros a se perguntarem como é possível um tal amor. Com o maior respeito pela liberdade e pela dignidade do outro, o enamorado limita-se a esperar que lhe seja permitido narrar esta amizade que preenche a sua vida»[85].

47. Por último, mas certamente não menos importante, é necessário evidenciar as perseguições que os cristãos sofrem em várias partes do mundo por parte de grupos religiosos extremistas. Toda perseguição por razões religiosas é sempre uma violação da dignidade humana, para a qual urge encontrar uma resposta comum que, no espírito da Nostra aetate, promova em todos e para todos o respeito, o diálogo e a convivência pacífica.

Aprofundar a pedagogia do diálogo

48. Diante dos desafios contemporâneos, a Igreja é chamada a renovar e intensificar a sua pedagogia do diálogo. Isto pressupõe, antes de tudo, a formação aprofundada nos seminários, nos institutos teológicos e nos percursos pastorais. Não basta somente proclamar a importância do diálogo: é preciso agora vivê-lo, fornecer aos fiéis os instrumentos para dele participar de modo informado, crítico e sereno. O conhecimento das religiões, a história das relações inter-religiosas, a elaboração de linhas-guia para o diálogo e a promoção da competência religiosa (religious literacy) são fatores que favorecem e sustentam o encontro e o diálogo inter-religioso, assim como é necessário integrar a compreensão das questões culturais e geopolíticas contemporâneas na formação cristã.

49. Paralelamente, é preciso valorizar as iniciativas concretas levadas adiante nas Igrejas locais, que estão na linha de frente. São elas que, no próprio território, desenvolvem as formas mais criativas e corajosas de encontro: comissões de diálogo, projetos comuns, ações educativas ou humanitárias, celebrações compartilhadas. Recolhendo, compartilhando e colocando em rede estas experiências, a Igreja universal pode não só enriquecer-se, mas também individuar e orientar novos percursos pastorais.

50. Particular atenção deve ser reservada à dimensão espiritual do diálogo, dado que o fim ao qual se tende não é um simples exercício intelectual, mas um encontro autêntico – encontro com uma alteridade crente, em espírito de paz, amizade e busca partilhada da verdade e do bem[86]. O diálogo sincero exclui toda forma de instrumentalização. Visa à compreensão recíproca, à descoberta daquilo que é justo e autêntico para todos. Dialogar, no espírito de Nostra aetate, pressupõe o olhar contemplativo voltado ao “outro diferente”: «Aproximar-se, expressar-se, ouvir-se, olhar-se, conhecer-se, esforçar-se por entender-se, procurar pontos de contacto: tudo isto se resume no verbo “dialogar”»[87].

51. Neste sentido, o diálogo inter-religioso pode tornar-se ocasião para uma maior fidelidade ao amor universal de Deus, manifestado em Jesus Cristo. Transforma as pessoas, as comunidades e talvez as estruturas eclesiais. Longe de ser um tema marginal, ele é um lugar teológico, onde o Espírito Santo quer fazer-se ouvir, através do encontro com o outro[88].

IV. Perspectivas e orientações para o futuro do diálogo inter-religioso

52. O futuro do diálogo inter-religioso requer hoje uma reflexão renovada e compromissos particularmente claros. Se as décadas sucessivas ao Concílio Vaticano II permitiram instaurar relações mais serenas entre as diversas tradições religiosas, as mudanças geopolíticas, culturais e ecológicas dos últimos anos oferecem desafios inéditos. As tensões identitárias, o fechamento das comunidades, as ideologias fundamentalistas, os conflitos por questões religiosas, a manipulação política do fato religioso, mas também a indiferença crescente em muitos países para com toda forma de espiritualidade, obrigam a renovar as modalidades do diálogo num mundo em rápida transformação.

53. Na verdade, não se trata de fundar uma grande religião mundial na qual todas as crenças sejam niveladas. Tal possibilidade deve ser excluída por respeito a si mesmos e aos outros. Trata-se, pelo contrário, de construir uma sociedade fraterna, capaz de aceitar as diferenças. Esta intenção permanece no coração do diálogo inter-religioso, tal como já se encontrava na Declaração Nostra aetate e nos esforços nesse sentido, que caracterizaram as décadas que se seguiram à sua promulgação. Dialogar não consiste só em expor as próprias doutrinas ou em confrontar as próprias visões de mundo; hoje, diante de quem fomenta divisões e prepara conflitos, os fiéis das diversas tradições, e in primis os seus líderes, conscientes das suas irredutíveis diferenças, são chamados a buscar, com lucidez e esperança, as condições de uma convivência pacífica.

54. Para alcançar esta meta, é necessário operar uma verdadeira transformação das mentalidades: abandonar as lógicas de defesa, de hostilidade ou de conquista, para adotar uma atitude aberta, benévola, corajosa. Os modelos monolíticos e isolados, que encorajam a visão fechada da realidade se mostram sempre mais inadequados e, em última análise, fonte de violência e de sofrimento para os mais fracos. A defesa antipática da própria posição e o proselitismo, como única modalidade de encontro com o “outro”, não têm mais sentido num mundo que se parece sempre mais a uma aldeia global, interconectado e em contínua ebulição. O Papa Francisco recordou-o em 2019, na Universidade Chulalongkorn, de Bangkok, diante de responsáveis religiosos budistas, muçulmanos, hindus, sikhs e cristãos: «Acabaram-se os tempos em que a lógica da insularidade podia predominar na concepção do tempo e do espaço e impor-se como mecanismo válido para a resolução dos conflitos. Hoje é tempo de ousar imaginar a lógica do encontro e do diálogo mútuo como caminho, a colaboração comum como conduta e o conhecimento recíproco como método e critério. E, assim, oferecer um novo paradigma para a resolução dos conflitos, contribuir para o entendimento entre as pessoas e para a salvaguarda da criação. Penso que as religiões como também as universidades, sem precisar de renunciar às próprias caraterísticas peculiares e aos próprios dons particulares, têm muito para contribuir e oferecer neste campo; tudo o que fizermos neste sentido é um passo significativo para garantir às gerações mais jovens o seu direito ao futuro, e será também um serviço à justiça e à paz»[89].

55. Ao contrário daquelas atitudes rígidas que pretendem resolver os conflitos com a força, é o momento de promover uma nova ética do diálogo: uma cultura da complexidade, da flexibilidade e da amizade. Não é mais o caso de temer ou de manter distância de quem não crê como eu, da outra civilização, do outro modo de pensar, mas de ousar o encontro. Aquele que há algum tempo era percebido como ameaça, inimigo a temer, a respeitar de longe ou mesmo a destruir, pode tornar-se interlocutor, aliado, amigo e mesmo um «peregrino da verdade»[90] com quem partilhar um trecho de estrada. As civilizações e as religiões podem certamente entrar em tensão, mas podem também entrar em ressonância, numa dinâmica criativa, sabendo transformar a diversidade em solidariedade. A alteridade não deve mais ser vivida como um obstáculo, mas como um desfio a enfrentar. Num mundo fechado na asfixia da imanência, os crentes, pertencentes a diversas religiões, não queiram renunciar a apresentar a verdade da transcendência e o amor de Deus para todos os seres humanos. Isto é importante especialmente num tempo em que às vezes «desprezam-se os escritos que surgiram no âmbito duma convicção crente, esquecendo que os textos religiosos clássicos podem oferecer um significado para todas as épocas, possuem uma força motivadora que abre sempre novos horizontes, estimula o pensamento, engrandece a mente e a sensibilidade»[91].

56. Um modelo de diálogo mais rico e articulado não só é desejável para o futuro, mas se encontra já em gestação no interior da Igreja e nas suas relações com outras tradições religiosas. Este modelo, com múltiplas facetas, poderia ser comparado a um poliedro: requer confrontar-se contemporaneamente com outras dimensões, mostrar paciência, lucidez, como também imaginação e criatividade[92]. É nesta interação que se constrói um futuro comum, no qual paz e amizade não são mais utopias, mas frutos maduros do encontro.

V. Conclusão

57. Sessenta anos depois da Declaração Nostra aetate, a Igreja Católica revê o caminho percorrido com profunda gratidão. Em seis décadas, este texto, breve, mas audaz, transformou radicalmente a face das relações inter-religiosas. A Igreja passou de uma atitude muitas vezes reservada ou distante a um corajoso caminho de diálogo sincero, de encontro respeitoso e de cooperação fraterna. Esta herança constitui um patrimônio vivente e irrenunciável, que continua a interpelar os fiéis de hoje e os compromete a prosseguir esta aventura humana e espiritual, tão vital para o nosso tempo.

58. Num mundo profundamente interconectado e, ao mesmo tempo, fragmentado, a mensagem da Nostra aetate permanece de grande atualidade. A fraternidade entre crentes de diversas tradições religiosas não é um simples ideal, mas uma exigência moral, espiritual e social. Diante dos desafios contemporâneos – extremismos religiosos, migrações globais, secularização, crises ecológicas e sociais – as religiões são chamadas a transformar o mundo e a sociedade para que sejam expressões fraternas da vontade de Deus. Este empenho passa necessariamente através da renovada educação ao diálogo, em particular junto às jovens gerações, para superar medos e preconceitos e enraizar a verdadeira cultura do encontro.

59. Celebrando o 60° aniversário da Declaração Nostra aetate, a Igreja reafirma com convicção a própria determinação a prosseguir este caminho exigente, na escuta do Espírito Santo, sempre em ação na história e no interior das diversas culturas e religiões dos povos, nas quais, segundo modalidades que só Ele conhece, acende a chama da sabedoria e dispensa os seus múltiplos dons. A Igreja convida todos a tornarem-se «construtores de pontes, não de muros»[93], artesãos de paz e de fraternidade, capazes de acolher o outro na sua diferença, de reconhecer as riquezas espirituais e de colaborar na construção de uma sociedade mais justa e mais humana. Como afirmou o Papa Leão XIV: «O testemunho da nossa fraternidade, que espero possamos demonstrar com gestos eficazes, contribuirá certamente para a construção de um mundo mais pacífico, como todos os homens e mulheres de boa vontade desejam em seu coração»[94].

60. Hoje, mais que nunca, é necessário avançar resolutamente nesta direção, sustentados pela graça de Deus e pelo tesouro espiritual das tradições religiosas. A Nostra aetate, «há sessenta anos, […] trouxe esperança ao mundo depois da segunda guerra mundial. Hoje somos chamados a refundamentar esta esperança no nosso mundo devastado pela guerra e no nosso ambiente natural degradado»[95]. Este caminho de esperança permanece aberto, e todos somos convidados a percorrê-lo juntos, com coragem.

O Sumo Pontífice Leão XIV, na Audiência concedida no dia 22 de junho de 2026 aos abaixo-assinados Prefeitos e Secretários do Dicastério para a Doutrina da Fé, do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos e do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso, aprovou a presente Nota e ordenou a sua publicação.

Dado em Roma, junto das sedes do Dicastério para a Doutrina da Fé, do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos e do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso, em 16 de setembro de 2026, Memória litúrgica dos Santos Cornélio, papa, e Cipriano, Bispo, Mártires.

 

Víctor Manuel Card. Fernández
Prefeito

Kurt Card. Koch
Prefeito

George Jacob Card. Koovakad
Secretário

Mons. Armando Matteo
Secretário

S.E. Mons. Flavio Pace
Secretário

Mons. Indunil Janakaratne Kodithuwakku Kankanamalage
Secretário

 

 

Ex Audientia Die 22 Iunii 2026
Leo PP XIV

                                   



[1] Conc. Ecum. Vat. II, Decl. Nostra aetate (28 de outubro de 1965), n. 2: AAS 58 (1966), 741.

[2] Conc. Ecum. Vat. II, Decl. Dignitatis humanae (7 de dezembro de 1965), n. 1: AAS 58 (1966), 929-930.

[3] Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 253: AAS 105 (2013), 1121.

[4] Conc. Ecum. Vat. II, Decl. Nostra aetate (28 de outubro de 1965), n. 4: AAS 58 (1966), 742.

[5] Secretariado para a União dos Cristãos, Ebrei ed ebraismo nella Chiesa Cattolica (24 de junho de 1985), III, 1: EV 9, 1639.

[6] Cf. K. Barth, Die Kirchliche Dogmatik, IV/1, 1953, 181.

[7] J.-L. Tauran, «Cinquant’anni di dialogo interreligioso»: Pro Dialogo 151-52 (2016), 71.

[8] João XXIII, Discurso para a solene abertura do Concílio ecumênico Vaticano II (11 de outubro de 1962), n. 8.2: AAS 54 (1962), 794.

[9] Cf. João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de abril de 1963), n. 83: AAS 55 (1963), 299.

[10] Paulo VI, Carta enc. Ecclesiam suam (6 de agosto de 1964), n. 67: AAS 56 (1964), 639.

[11] Paulo VI, Carta enc. Ecclesiam suam (6 de agosto de 1964), n. 97: AAS 56 (1964), 649.

[12] Cf. Paulo VI, Carta enc. Ecclesiam suam (6 de agosto de 1964), nn. 110-115: AAS 56 (1964), 654-657.

[13] Cf. Paulo VI, Carta enc. Ecclesiam suam (6 de agosto de 1964), n. 83: AAS 56 (1964), 644-645. Assim, como afirma o Santo Padre, o diálogo é um «modo de exercer a missão apostólica, arte de comunicação espiritual». O Pontífice define também as suas características: antes de tudo, a clareza; depois a doçura: «o diálogo não é orgulhoso, não é pungente, não é ofensivo. A autoridade vem-lhe da verdade que expõe. […] é pacífico, evita os modos violentos, é paciente e é generoso». Em seguida, vem a confiança e, enfim, a prudência pedagógica para ter em conta as condições psicológicas e morais do interlocutor.

[14] Paulo VI, Omelia per la promulgazione di cinque documenti conciliari (28 de outubro de 1965): AAS 57 (1965), 903.

[15] Conc. Ecum. Vat. II, Decl. Nostra aetate (28 de outubro de 1965), n. 5: AAS 58 (1966), 743-744.

[16] Conc. Ecum. Vat. II, Decl. Nostra aetate (28 de outubro de 1965), n. 4: AAS 58 (1966), 743.

[17] Cf. N. Hofmann, «Nella “Giornata dell’ebraismo”. Tradizioni, valori e impegni comuni»: L’Osservatore Romano, 17 gennaio 2023, 5.

[18] Cf. Bento XVI, Discurso aos membros da Conferência dos Presidentes das Organizações judaico-americanas maiores (12 de fevereiro de 2009): Insegnamenti, V/1 (2009), 235; Bento XVI – P. Seewald, Luce del mondo. Il Papa, la Chiesa e i segni dei tempi, Città del Vaticano 2010, 123.

[19] J. Ratzinger, «L’eredità d’Abramo: dono di Natale»: L’Osservatore Romano, 29 dicembre 2000, 1.

[20] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 121.

[21] Cf. Secretariado para a União dos Cristãos, Ebrei ed ebraismo nella Chiesa Cattolica (24 giugno 1985), I, 7: EV 9, 1623.

[22] Cf. Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos cristãos, “Perché i doni e la chiamata di Dio sono irrevocabili” (Rm 11,29). Riflessioni su questioni teologiche attinenti alle relazioni cattolico-ebraiche in occasione del 50° anniversario di Nostra aetate (n. 4) (10 de dezembro de 2015), n. 35: EV 31, 2055; Congregação para a Doutrina da Fé, Decl. Dominus Iesus (6 de agosto de 2000): AAS 92 (2000) 742-765.

[23] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 249: AAS 105 (2013), 1120.

[24] Conc. Ecum. Vat. II, Decl. Nostra aetate (28 de outubro de 1965), n. 4: AAS 58 (1966), 743.

[25] Cf. AAS 20 (1928), 103-104.

[26] Bento XVI, Audiência Geral, (28 de janeiro de 2009), Insegnamenti, V/1 (2009), 157.

[27] Conc. Ecum. Vat. II, Decl. Nostra aetate (28 de outubro de 1965), n. 4: AAS 58 (1966), 743.

[28] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de março de 1967), n. 14: AAS 59 (1967), 264.

[29] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de março de 1967), n. 42: AAS 59 (1967), 278.

[30] O Secretariado para os Não-Cristãos foi instituído por São Paulo VI em 19 de maio de 1964, com a Carta apostólica em forma de “Motu proprio” Progrediente Concilio (cf. AAS 56 [1964], 560), com a finalidade de prestar atenção «a quantos são privados da religião cristã, e aos quais igualmente parecem referir-se as palavras do Senhor: “E tenho também ovelhas que não são deste redil; também a elas devo conduzir” (Jo 10, 16)» (ibid.). A sua criação foi necessária «sobretudo nestes tempos em que entre os homens de toda raça, língua e religião se desenvolvem múltiplas relações» (ibid.). Em 1988, o Secretariado assumiu o nome de Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso (cf. João Paulo II, Const. ap. Pastor Bonus [28 de junho de 1988], artt. 159-162: AAS 80 [1988], 902) e, sucessivamente, em 2022, de Dicastério para o Diálogo Inter-religioso (cf. Francisco, Const. ap. Praedicate Evangelium [19 de março de 2022], artt. 147-152: AAS 114 [2022], 426-427).

[31] Francisco, Const. ap. Praedicate Evangelium (19 de março de 2022), art. 149 §1: AAS 114 (2022), 426.

[32] Paulo VI, Allocuzione di apertura della III Assemblea Generale del Sinodo dei Vescovi (27 de setembro de 1974): AAS 66 (1974), 561.

[33] A Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo e a Comissão para as Relações Religiosas com os Muçulmanos foram criadas no mesmo dia, em 22 de outubro de 1974.

[34] Cf. P. Rossano, «Le cheminement du dialogue interreligieux de Nostra aetate à nos jours»: Pro Dialogo 74 (1991), 131-142; S. Schmidt, «Cardinal Bea and Interreligious Dialogue»: Pro Dialogo 74 (1991), 143-149.

[35] Cf. João Paulo II, Audiência geral (22 de outubro de 1986), n. 5: Insegnamenti, IX/2 (1986), 1147: «Depois de terem sido frequentemente causa de divisões, todas desejariam agora cumprir um papel decisivo na construção da paz mundial».

[36] João Paulo II, Discurso aos Representantes das Igrejas cristãs e Comunidades eclesiais e das Religiões mundiais reunidas em Assis (27 de outubro de 1986), nn. 6.8: Insegnamenti, IX/2 (1986), 1268.1269.

[37] João Paulo II, Discurso por ocasião do encontro com a comunidade judaica na sinagoga da cidade de Roma (13 de abril de 1986), n. 4: Insegnamenti, IX/1 (1986), 1027.

[38] João Paulo II, Mensagem pela XXI Jornata Mundial da Paz (1 de janeiro de 1988), n. 4: AAS 80 (1988), 284-285.

[39] O documento Diálogo e missão costitui uma referência essencial para compreender a visão da Igreja sobre o diálogo inter-religioso. Ele afirma que o diálogo é uma dimensão integrante da missão evangelizadora da Igreja, precisando, todavia, que ele não substitui o anúncio explícito de Cristo, mas o acompanha e o enriquece. O documento distingue quatro níveis complementares: o diálogo da vida, que consiste na convivência respeitosa e fraterna entre crentes de religiões diversas; o diálogo das obras, baseado na colaboração concreta a serviço da justiça e da paz; o diálogo teológico, que favorece os intercâmbios intelectuais e doutrinais entre especialistas e responsáveis religiosos; e enfim o diálogo espiritual, fundado no autêntico encontro das tradições religiosas na oração e na contemplação. Precisando estes níveis, o texto põe as bases para um empenho concreto e diversificado da Igreja ao interno das sociedades pluralísticas.

[40] O documento Diálogo e anúncio aprofunda a reflexão sobre a relação entre diálogo inter-religioso e anúncio explícito do Evangelho. Mesmo recordando claramente que o anúncio de Cristo permanece o coração da missão cristã, sublinha que o diálogo inter-religioso não só é compatível com este anúncio, mas constitui uma sua dimensão essencial e complementar. O diálogo é apresentado como um autêntico percurso espiritual, um meio privilegiado para os cristãos testemunharem sua fé no respeito e na escuta sincera do outro. O documento insiste no fato que diálogo e anúncio jamais se opõem: são antes duas vias complementares de uma única missão eclesial, enraizada no amor de Deus e no profundo reconhecimento da dignidade e da liberdade de cada pessoa.

[41] João Paulo II, Carta enc. Redemptoris missio (7 de dezembro de 1990), n. 55: AAS 83 (1991), 302.

[42] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decl. Nostra aetate (28 de outubro de 1965), n. 2: AAS 58 (1966), 741.

[43] João Paulo II, Mensagem para a XXXIV Jornada Mundial da Paz (1 de janeiro de 2001): AAS 93 (2001), 234-247.

[44] João Paulo II, Discorso ai partecipanti alla cerimonia conclusiva dell’Assemblea interreligiosa (28 de outubro de 1999), n. 3: Insegnamenti, XXII/2 (1999), 653.

[45] Conc. Ecum. Vat. II, Decl.. Nostra aetate (28 de outubro de 1965), n. 5: AAS 58 (1966), 743.

[46] Cf. Bento XVI, Lettera a S.E. Mons. Domenico Sorrentino in occasione del XX anniversario dell’Incontro interreligioso di preghiera per la pace (2 de setembro de 2006): AAS 98 (2006), 750, que cita Conc. Ecum. Vat. II, Decl. Nostra aetate (28 de outubro de 1965), n. 5: AAS 58 (1966), 743.

[47] Bento XVI, Discorso in occasione dell’incontro con i rappresentanti della scienza (12 de setembro de 2006): Insegnamenti, II/2 (2006), 259.

[48] Bento XVI, Discorso ai rappresentanti di alcune comunità musulmane (20 de agosto de 2005): Insegnamenti, I (2005), 448. Cf. Id., Discorso ad Ambasciatori dei Paesi a maggioranza musulmana accreditati presso la Santa Sede e ad alcuni esponenti delle comunità musulmane in Italia [25 de setembro de 2006]: AAS 98 [2006], 705.

[49] Francisco, Discorso ai partecipanti alla Conferenza Internazionale per la Pace (28 de abril de 2017): AAS 109 (2017), 495.

[50] Cf. Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, Dialogo nella verità e nella carità. Orientamenti pastorali per il dialogo interreligioso (19 de maio de 2014): EV 30, 843-928. 

[51] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 250: AAS 105 (2013), 1120.

[52] Francisco, Discorso alla delegazione dell’“American Jewish Committee” (13 de fevereiro de 2014): Insegnamenti, II/1 (2014), 166.

[53] Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), nn. 247-249: AAS 105 (2013), 1119-1120.

[54] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 249: AAS 105 (2013), 1120.

[55] Cf. Documento firmado por Papa Francesco e Ahmad Al-Tayyeb sobre a fraternidade humana para a paz mundial e a convivência comum (4 de fevereiro de 2019): AAS 111 (2019), 349-356.

[56] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), n. 85: AAS 112 (2020), 998.

[57] Francisco, Carta enc. Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 55: AAS 105 (2013), 592. Cf. Id., Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), nn. 226-230: AAS 105 (2013), 1112-1113.

[58] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), n. 285: AAS 112 (2020), 1073, que cita Documento firmado por Papa Francisco e Ahmad Al-Tayyeb sobre a fraternidade humana para a paz mundial e a convivência comum (4 de fevereiro de 2019): AAS 111 (2019), 350.

[59] Francisco, Discorso in occasione del Convegno “La Teologia dopo Veritatis Gaudium nel contesto del Mediterraneo” (21 de junho de 2019): AAS 111 (2019), 1098.

[60] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), n. 30: AAS 112 (2020), 980. Citação de Discurso ao mundo académico e cultural (Cagliari – Itália 22 de setembro de 2013): L´Osservatore Romano (ed. semanal portuguesa de 29/IX/2013), 8.

[61] Francisco, Discorso in occasione del Convegno “La Teologia dopo Veritatis Gaudium nel contesto del Mediterraneo” (21 de junho de 2019): AAS 111 (2019), 1101.

[62] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), n. 202: AAS 112 (2020), 1041.

[63] Cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), n. 199: AAS 112 (2020), 1040.

[64] Cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), n. 74: AAS 112 (2020), 995.

[65] Cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), n. 69: AAS 112 (2020), 993.

[66] Cf. Leão XIV, Udienza al Corpo Diplomatico accreditato presso la Santa Sede (16 maggio 2025): L’Osservatore Romano, 16 de maio de 2025, 1-3.

[67] Leão XIV, Discorso per il 60° anniversario di Nostra aetate “Camminando insieme nella speranza” (28 de outubro de 2025): L’Osservatore Romano, 29 ottobre 2025, 4.

[68] Cf. Leão XIV, Discorso per il 60° anniversario di Nostra aetate “Camminando insieme nella speranza” (28 outubro de 2025): L’Osservatore Romano, 29 ottobre 2025, 4-5.

[69] Leão XIV, Discorso per il 60° anniversario di Nostra aetate “Camminando insieme nella speranza” (28 de outubro de 2025): L’Osservatore Romano, 29 ottobre 2025, 5.

[70] Leão XIV, Audiência Geral. Catechesi in occasione del 60° anniversario della Dichiarazione conciliare Nostra aetate (29 de outubro de 2025): L’Osservatore Romano, 29 ottobre 2025, 2.

[71] Leão XIV, Discorso ai rappresentanti di altre Chiese e Comunità ecclesiali e di altre religioni (19 de maio de 2025): L’Osservatore Romano, 19 de maio de 2025, 6.

[72] Conc. Ecum. Vat. II, Decl. Nostra aetate (28 de outubro de 1965), n. 4: AAS 58 (1966), 743.

[73] La Dichiarazione congiunta firmata dal Papa Leone XIV e dal Patriarca ecumenico (Istanbul, 29 novembre 2025): L’Osservatore Romano, 29 novembre 2025, 3.

[74] Leão XIV, Carta enc. Magnifica humanitas (15 de maio de 2026), n. 223, que cita Francisco, Appello di pace ad Assisi per la Giornata mondiale di preghiera per la pace. “Sete di pace. Religioni e culture in dialogo” (20 de setembro de 2016): AAS 108 (2016), 1124.

[75] Cf. Documento assinado pelo Papa Francesco e pelo Grão Imame de Al-Azhar Ahmad Al-Tayyeb sobre a fraternidade humana para a paz mundial e a convivência comum (Abu Dhabi, 4 de fevereiro de 2019); Dichiarazione finale del VII Congresso dei leader delle religioni mondiali e tradizionali (Nur-Sultan, 15 de setembro de 2022); Dichiarazione congiunta di Istiqlal firmata da Papa Francesco e dal Grande imam Nasaruddin Umar (Jacarta, 5 de setembro de 2024). Todos estes textos testemunham o empenho contínuo pela compreensão recíproca, a colaboração concreta e a convivência pacífica entre pessoas de diversas tradições religiosas.

[76] Francisco, Discorso alla Sessione conclusiva delle “Rencontres Méditerranéennes” (23 de setembro de 2023): AAS 115 (2023), 1146.

[77] Falando do contexto do pluralismo religioso, o diálogo significa «“o conjunto das relações inter-religiosas, positivas e construtivas, com pessoas e comunidades de outras crenças, para um mútuo conhecimento e um recíproco enriquecimento”, na obediência à verdade e no respeito da liberdade. Isto inclui seja o testemunho, seja a descoberta das respectivas convicções religiosas» (Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso – Congregação para a Evangelização dos Povos, Instr. Diálogo e anúncio [19 de maio de 1991], n. 9: AAS 84 [1992], 417-418; que cita o Secretariado para os Não-Cristãos, L’atteggiamento della Chiesa nei confronti dei seguaci delle altre religioni: Riflessioni e Orientamenti su Dialogo e Missione: Bollettino del Segretariato per i non-Cristiani 56 [1984/2], n. 13).

[78] Cf. Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso – Congregação para a Evangelização dos Povos, Instr. Diálogo e anúncio (19 de maio de 1991), n. 42: AAS 84 (1992), 428.

[79] Conc. Ecum. Vat. II, Decl.. Nostra aetate (28 de outubro de 1965), n. 3: AAS 58 (1966), 741.

[80] Conc. Ecum. Vat. II, Decl.. Nostra aetate (28 de outubro de 1965), n. 3: AAS 58 (1966), 742.

[81] Francesco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 253: AAS 105 (2013), 1121.

[82] Francisco, Carta enc. Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 34: AAS 105 (2013), 577.

[83] G.C. Anawati, O.P., «Excursus on Islam», in H. Vorgrimler, ed., Commentary on the Documents of Vatican II, vol. III (London 1969), 154.

[84] Cf. Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso – Congregação para a Evangelização dos Povos, Instr. Diálogo e anúncio (19 de maio de 1991), n. 77: AAS 84 (1992), 441-442.

[85] Francisco, Carta enc. Dilexit nos (24 de outubro de 2024), n. 210: AAS 116 (2024), 1435-1436.

[86] Cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), n. 271: AAS 112 (2020), 1066.

[87] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), n. 198: AAS 112 (2020), 1039.

[88] Cf. Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso – Congregação para a Evangelização dos Povos, Instr. Diálogo e anúncio (19 de maio de 1991), n. 38: AAS 84 (1992), 427.

[89] Francisco, Discorso nell’Incontro con i Leader cristiani e di altre religioni (22 de novembro de 2019): AAS 111 (2019), 1957.

[90] Bento XVI, Intervento alla Giornata di riflessione, dialogo e preghiera per la pace e la giustizia nel mondo “Pellegrini della verità, Pellegrini della pace” (Assis, 27 de outubro de 2011): Insegnamenti, VII/2 (2011), 514.

[91] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 256: AAS 105 (2013), 1123.

[92] Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 236: AAS 105 (2013), 1115.

[93] Francisco, Mensagem Urbi et orbi (21 de abril de 2019): AAS 111 (2019), 731.

[94] Leão XIV, Discorso ai Rappresentanti di altre Chiese e comunità ecclesiali e di altre religioni (19 de maio de 2025): L’Osservatore Romano, 19 de maio de 2025, 6.

[95] Leão XIV, Audiência Geral. Catechesi in occasione del 60° anniversario della Dichiarazione conciliare Nostra aetate (29 de outubro de 2025): L’Osservatore Romano, 29 ottobre 2025, 3.