VIAGEM APOSTÓLICA DE SUA SANTIDADE O PAPA LEÃO XIV
A FRANÇA E VISITA À SEDE DA ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS
PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA (UNESCO)
25-28 DE SETEMBRO DE 2026
HOMILIA DO SANTO PADRE
Catedral de Notre-Dame de Paris
Sexta-feira, 25 de setembro de 2026
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Queridos irmãos e irmãs,
A oração da tarde congrega-nos neste lugar que, há séculos, mais do que qualquer outro, convida Paris a erguer os olhos para o céu. Passaram-se sete anos desde que o mundo inteiro, com a respiração suspensa, viu a Catedral ser consumida por um incêndio terrível. Já naquela altura, consternados, levantámos os olhos, reconhecendo a impotência humana perante o imprevisível. Essa dor não era apenas dos católicos, nem apenas dos crentes. Naquela hora dramática, percebemos que Notre-Dame é mais do que um monumento. A participação coletiva na reconstrução e, hoje, o esplendor do resultado, revelam que neste lugar bate o coração de um povo, que estamos no centro vital de uma civilização, que o passado e o futuro se abraçam, que o céu e a terra se encontram.
Desejei encontrar-me convosco neste local simbólico da Igreja na França. É para mim uma alegria ter atravessado há pouco o seu limiar, tal como fazem todos os dias milhares de irmãos e irmãs que aqui vêm de todo o mundo. O simples facto de entrar aqui coloca-nos diante de uma beleza que fala ao nosso coração inquieto e o convida à paz. Ao devolver este espaço a toda a humanidade, compreendemos bem até que ponto cada visitante pode deixar-se regenerar pelo que vê, escuta e experimenta. As instituições públicas, eclesiásticas e privadas envolvidas no restauro de Notre-Dame concorreram assim, com o seu contributo específico, para reativar os percursos culturais, existenciais e espirituais que a Catedral revela. Neste contexto, a Igreja cumpriu a sua missão não só em termos de conservação, mas também de criatividade, dando vida à tradição com a ousadia de quem tem fé e se orienta para a Esperança. Gostaria de agradecer ao senhor Arcebispo, aos seus colaboradores e à comunidade diocesana de Paris, que também conceberam um projeto pastoral de primeiro anúncio e de iniciação cristã acessível a todos. O batistério, que se encontra à entrada como uma bênção e um convite, é símbolo disso.
A reconstrução da Catedral foi ocasião para um encontro que alargou os espaços de acolhimento e participação para além das fronteiras da pertença eclesial. Queridos bispos, presbíteros, diáconos, pessoas consagradas e seminaristas da França: deixai-vos inspirar pelo que aqui aconteceu! Dai prioridade à Evangelii gaudium, ou seja, àquela conversão missionária que o Papa Francisco nos testemunhou desde a sua primeira Exortação Apostólica.
Na Carta aos Gálatas, ouvimos a razão pela qual não devemos ter medo: «Deus enviou o seu Filho» (Gl 4, 4). Enviou-o para o meio de nós, para o nosso mundo! No texto paulino, o verbo descreve um acontecimento real, histórico, não circunstâncias ideais. Os cristãos não fogem da complexidade, pois o próprio Deus os chamou a seguir o seu Filho num mundo já habitado, já em movimento, já marcado pelas misérias e pela bondade dos seres humanos. O caminho da Cruz certamente revela as trevas que atravessam o mundo, mas revela, de forma mais radical, o amor de Deus que triunfa sobre a morte.
A planta em cruz da Catedral, onde as pedras e a luz se fundem, evoca o encontro entre a terra e o céu. Ela reúne e ordena os acontecimentos da história, feita de alegrias e sofrimentos humanos. Junta-os numa dinâmica simbólica que constrói uma linguagem viva a partir de diferentes expressões, agrupando-as em unidade.
Queridos amigos, é a partir da Encarnação – «Deus enviou o seu Filho» – que decorre a identidade da Igreja, chamada a estar sempre “em saída”. Como discípulos de Cristo, sabeis bem que a comunidade cristã não é um refúgio onde retirar-nos para nos protegermos do próprio tempo. Pelo contrário, ela oferece-se, à semelhança das antigas catedrais, como um espaço de acolhimento, respeito, revelação e sentido para todos. Aqui reside a força de uma Igreja viva: acolher a periferia, que já se encontra no seu coração; o distante, que, na realidade, já está próximo; o estrangeiro em quem Cristo já bate à porta.
Se Notre-Dame é o símbolo deste encontro no coração de Paris, as outras cidades e regiões da França, mesmo as mais periféricas e rurais, serão, com maior razão, transfiguradas por uma presença missionária, simples e benevolente, que contribua também para a harmonização das diferenças culturais e para a cura das feridas presentes nas nossas sociedades. Desde a costa do Norte ao Mediterrâneo, das regiões do interior aos Departamentos Ultramarinos, sede uma Igreja viva, multifacetada e próxima. A escassez de meios não impede a missão, pois é a graça de Deus que permite a liberdade interior e a sobriedade de vida, a fim de refletir o estilo evangélico. Em tudo isto, valorizai com confiança a presença missionária dos fiéis leigos, que são a viva linha de frente da Igreja nas encruzilhadas do mundo quotidiano.
Por outro lado, irmãos e irmãs, não devemos esquecer que, tal como todas as outras igrejas, o objetivo para o qual este Templo foi erguido é a oração e o louvor a Deus. É o local onde a comunidade cristã celebra a forma mais elevada de oração e louvor, renovando na Eucaristia o sacrifício redentor de Cristo. A Catedral não é um embrulho de pedra para admirar: ela vive dentro do mistério sagrado que nela é celebrado. Despojada da ação litúrgica, perderia a sua alma. Aqui, em Notre-Dame, esta verdade é evidenciada pela disposição do altar no centro. Assim, a comunidade que louva o Senhor encontra-se no coração do edifício e os visitantes, mesmo durante as celebrações, caminham à sua volta e observam-na. A Igreja revela-se aqui tal como é: um organismo vivo, uma comunidade crente que reúne, no louvor, tudo o que a cultura e a Tradição lhe transmitem. É um corpo que, ao celebrar, narra a quem quer que seja a razão pela qual existe.
Hoje, mais do que nunca, vivemos numa época que parece desprovida de plenitude, profundidade e promessas. A nobre simplicidade do canto, da palavra e do gesto litúrgico pode representar, para muitos, uma fresta de esperança, um oásis de paz numa sociedade hiperconectada e barulhenta, onde se pode experimentar a presença do Autor do amor maior: «Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho» (Gl 4, 4). A celebração do ano litúrgico, dos domingos e das festas, faz também de nós contemporâneos de Cristo, atentos aos diferentes momentos da sua vida entregue inteiramente ao Pai em favor do mundo. Tornamo-nos, desse modo, mais sensíveis e abertos aos sinais dos tempos. Com efeito, a escuta comunitária das Escrituras e a oração permitem-nos ver os acontecimentos históricos à luz de Deus, tornando-nos mais conscientes das nossas responsabilidades, desmascarando as relações de poder injustas e preservando os germes da justiça e da paz. É, portanto, a esperança que nos anima, e não a resignação. E é daí que nascem vínculos de maior fraternidade, redes de solidariedade, fruto da comunhão no único Sacrifício de Cristo.
A vós, que celebrais diariamente a Eucaristia, peço que zeleis para que as celebrações litúrgicas sejam sempre vividas com dignidade e decoro, mesmo nos locais onde se reúnem comunidades pequenas. Sede herdeiros conscientes dos Padres e dos Santos da Igreja que, ao longo dos séculos, nos transmitiram o significado profundo e a beleza da liturgia, testemunhando sempre uma grande humildade perante o Mistério celebrado. O Concílio Vaticano II, cuja riqueza deve muito à França, recolheu e aprofundou essa herança de forma eminente, reconhecendo a sua centralidade na vida eclesial (cf. Sacrosanctum Concilium, 10). Exorto-vos, portanto, a todos – bispos, presbíteros, diáconos e pessoas consagradas – a cultivar um amor autêntico pela liturgia e a ser testemunhas e servos da vocação profética, sacerdotal e real de todo o povo de Deus.
Neste sentido, a liturgia continua a ser um reflexo da vida. A alegria eucarística afirma-se e difunde-se onde a harmonia é reencontrada, onde a dignidade renasce, onde a autoridade se torna serviço, onde a liberdade se coloca em caminho. É o maior dom que podemos partilhar. Colocai, portanto, a comunhão com o Sucessor de Pedro e com a Igreja acima das vossas sensibilidades pessoais, para cultivar a unidade do povo de Deus. Juntos, seremos a profecia de que é possível um mundo reconciliado.
Queridos bispos, presbíteros, seminaristas e consagrados, que fostes chamados a seguir Cristo: agradeço-vos pela vossa resposta e fidelidade ao Senhor. Nunca negligencieis essa amizade desejada pelo Senhor, que deve ser cultivada na oração pessoal, fundamento essencial de toda vocação. Como dizia Madeleine Delbrêl: «Sem a oração, não amaríamos o Deus do amor. Poderíamos ser seus servos, seus combatentes, ou até mesmo seus discípulos; mas não seríamos nem os filhos amorosos do nosso Pai, nem os amigos […] de Jesus Cristo» (Notre vie, tomo XV das Obras Completas, Nouvelle cité, 2017, p. 41). Cuidai, portanto, da vossa vida interior com o Senhor, aprendendo de muitos santos que vos precederam, bebendo sempre da fonte do amor infinito de Deus na oração silenciosa. A vossa missão parte, acima de tudo, desta relação íntima com o Senhor, que ali vos espera.
No coração da cidade, a Catedral aberta é o sinal de uma comunidade que louva o Senhor e que vive a hospitalidade não como um gesto ocasional, mas como a própria forma da sua existência, fazendo com que todos se possam sentir em casa, sem serem mais oprimidos nem marginalizados num mundo em mudança. «Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher […] a fim de recebermos a adoção de filhos» (Gl 4, 4-5). E «se és filho, és também herdeiro» (Gl 4, 7). Herdeiros por graça, irmãos e irmãs aqui reunidos, cabe agora a cada um de vós, a esta assembleia orante e viva, tornar-se carne e voz desta promessa. Pastores e consagrados da França, fostes chamados a ser os primeiros guardiães desta casa aberta, pedras vivas de uma Igreja que espera e não teme o futuro. Esta Catedral renasceu para que possais renascer com ela num impulso de santidade e de missão quotidiana. No meio do vosso povo, sede a expressão límpida da maternidade divina da Igreja que, ao testemunhar o amor de Deus, recompõe e cura a família humana.
Ergamos o olhar para a estátua do século XIV da Virgem com o Menino, que o incêndio não conseguiu danificar e que volta a resplandecer diante de nós. Maria, que acolheu o Verbo no seu seio, proteja a vossa fidelidade e seja a estrela que guia a missão da Igreja na França. Santa Maria, Nossa Senhora de Paris e Mãe da Igreja, rogai pelo povo francês, amparai os seus pastores e caminhai sempre ao nosso lado.
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