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VIAGEM APOSTÓLICA DE SUA SANTIDADE LEÃO XIV
À ARGÉLIA, CAMARÕES, ANGOLA E GUINÉ EQUATORIAL
(13 - 23 de abril de 2026)

SANTA MISSA

HOMILIA DO SANTO PADRE

Basílica de Santo Agostinho (Annaba)
Terça-feira, 14 de abril de 2026

[Multimídia]

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Queridos irmãos e irmãs,

A Palavra divina atravessa a história e renova-a através da voz humana do Salvador. Hoje ouvimos o Evangelho, boa nova para todos os tempos, nesta basílica de Annaba dedicada a Santo Agostinho, Bispo da antiga Hipona. Ao longo dos séculos, os lugares que nos acolhem mudaram de nome, mas os santos permaneceram como nossos padroeiros e testemunhas fiéis dum vínculo com a terra, o qual vem do céu. É precisamente esta a dinâmica que o Senhor ilumina na noite de Nicodemos: é esta a força que Cristo infunde na fraqueza da sua fé e na tenacidade da sua busca.

Enviado pelo Espírito de Deus, que «não sabes de onde vem nem para onde vai» (Jo 3, 8), Jesus é, para Nicodemos, um hóspede especial. Com efeito, convida-o a uma vida nova, confiando ao seu interlocutor – e também a nós – uma tarefa surpreendente: «tendes de nascer do Alto» (v. 7). Eis o convite dirigido a cada homem e a cada mulher que procura a salvação! Do apelo de Jesus brota a missão para toda a Igreja e, portanto, para a comunidade cristã da Argélia: nascer de novo do alto, isto é, de Deus. Nesta perspetiva, a fé vence as dificuldades terrenas e a graça do Senhor faz florescer o deserto. No entanto, a beleza desta exortação traz consigo uma provação, que o Evangelho nos chama a atravessar juntos.

Efetivamente, as palavras de Cristo têm toda a força de um dever: deveis renascer do alto! Tal imperativo soa aos nossos ouvidos como uma ordem impossível. Ao ouvirmos com atenção Aquele que a dá, compreendemos, porém, que não se trata de uma imposição dura, nem de uma coação, nem muito menos de uma condenação ao fracasso. Pelo contrário, o dever expresso por Jesus é para nós um dom de liberdade, porque nos revela uma possibilidade inesperada: podemos renascer do alto, graças a Deus. Devemos fazê-lo, portanto, segundo a sua vontade de amor, que deseja renovar a humanidade chamando-a a uma comunhão de vida, que começa com a fé. Enquanto Cristo nos pede para renovar por completo toda a nossa existência, também nos dá a força para o fazer. Atesta-o bem Santo Agostinho, que reza assim: «Dai-me o que ordenais, e ordenai-me o que quiserdes» (Confissões, X, 29).

Então, quando nos perguntamos como é possível um futuro de justiça e paz, de concórdia e salvação, lembremo-nos que estamos a fazer a Deus a mesma pergunta de Nicodemos: será que a nossa história pode realmente mudar? Temos tantos problemas, insídias e tribulações! Será que a nossa vida pode realmente recomeçar do zero? Sim! A afirmação do Senhor, tão cheia de amor, enche os nossos corações de esperança. Não importa quão oprimidos estejamos pela dor ou pelo pecado: o Crucificado carrega todos esses fardos conosco e por nós. Não importa quão desanimados estejamos pelas nossas fraquezas: é precisamente então que se manifesta a força de Deus, que ressuscitou Cristo dentre os mortos para dar vida ao mundo. Cada um de nós pode experimentar a liberdade da vida nova que provém da fé no Redentor. Mais uma vez, Santo Agostinho oferece-nos o exemplo: antes mesmo que pela sua sabedoria, olhamos para ele pela sua conversão. Nesse renascimento, providencialmente acompanhado pelas lágrimas da mãe, Santa Mónica, ele tornou-se ele mesmo, exclamando: «Não existiria, meu Deus, de modo algum existiria, se não estivésseis em mim. Ou antes, existiria eu se não estivesse em Vós» (Confissões, I, 2).

Sim, pois os cristãos nascem do alto, regenerados por Deus como irmãos e irmãs de Jesus, e a Igreja, que os alimenta com os sacramentos, é colo acolhedor para todos os povos da terra. Como ouvimos há pouco, os Atos dos Apóstolos dão testemunho disso, relatando o estilo que distingue a humanidade renovada pelo Espírito Santo (cf. Act 4, 32-37). Também hoje é necessário acolher e realizar este cânone apostólico, meditando-o como autêntico critério de reforma eclesial: uma reforma que, para ser verdadeira, começa no coração, e que, para se tornar eficaz, diz respeito a todos.

Em primeiro lugar, «a multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma» (v. 32). Esta unidade espiritual é uma concórdia: palavra que expressa bem a comunhão de corações que batem em uníssono, porque unidos ao coração de Cristo. A Igreja nascente não se baseia, portanto, num contrato social, mas numa harmonia na fé, nos afetos, nas ideias e nas escolhas de vida que tem ao centro o amor de Deus, feito homem para salvar todos os povos da terra.

Em segundo lugar, admiramos o efeito concreto desta unidade espiritual dos crentes: «Entre eles tudo era comum» (v. 32). Todos têm tudo, participando nos bens de cada um como membros de um único corpo. Ninguém é privado de nada, pois cada um partilha o que é seu. Transformando a posse em dom, esta dedicação fraterna não significa uma utopia, a não ser para corações rivais entre si e almas ávidas em si mesmas. Pelo contrário, a fé no único Deus, Senhor do céu e da terra, une os homens segundo uma justiça perfeita, que convida todos à caridade, isto é, a amar cada criatura com o amor que Deus nos dá em Cristo. Por isso, sobretudo perante a indigência e a opressão, os cristãos têm como código fundamental a caridade: façamos aos que estão ao nosso lado o que gostaríamos que nos fosse feito (cf. Mt 7, 12). Animada por esta lei, que Deus escreve nos corações, a Igreja está sempre a nascer, porque onde há desespero acende a esperança, onde há miséria leva dignidade, onde há conflito leva reconciliação.

Em terceiro lugar, no texto dos Atos dos Apóstolos encontramos o fundamento desta vida nova, que envolve povos de todas as línguas e culturas: «Com grande poder, os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e uma grande graça operava em todos eles» (v. 33). A caridade que os anima, antes de ser um compromisso moral, é sinal de salvação: os Apóstolos anunciam que a nossa vida pode mudar porque Cristo ressuscitou dos mortos. A primeira tarefa dos pastores, ministros do Evangelho, é, portanto, dar testemunho de Deus ao mundo com um só coração e uma só alma, sem que as preocupações nos corrompam através do medo, nem as modas nos enfraqueçam através do conformismo. Convosco, irmãos no episcopado, e convosco, presbíteros, renovamos constantemente esta missão em benefício daqueles que nos estão confiados, para que toda a Igreja seja, no seu serviço, mensagem de vida nova para quantos encontramos.

Nesta terra, caríssimos cristãos da Argélia, permanecei como sinal humilde e fiel do amor de Cristo. Testemunhai o Evangelho com gestos simples, relações autênticas e um diálogo vivido cada dia: assim, dais sabor e luz onde viveis. A vossa presença no país faz lembrar o incenso: um grão em brasa, que exala perfume porque dá glória ao Senhor e alegria e consolo a tantos irmãos e irmãs. Este incenso é um elemento pequeno e precioso, que não está no centro das atenções, mas convida a dirigir os nossos corações para Deus, encorajando-nos mutuamente a perseverar nas dificuldades do tempo presente. Do turíbulo do nosso coração elevam-se, efetivamente, o louvor, a bênção e a súplica, difundindo o suave odor (cf. Ef 5, 2) da misericórdia, da esmola e do perdão. A vossa história é feita de acolhimento generoso e de tenacidade na provação: aqui rezaram os mártires, aqui Santo Agostinho amou o seu rebanho, buscando a verdade com paixão e servindo Cristo com fé ardente. Sede herdeiros desta tradição, testemunhando na caridade fraterna a liberdade daqueles que nascem do alto como esperança de salvação para o mundo.

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Agradecimento final do Santo Padre

Obrigado, senhor Bispo, pelos sentimentos que manifestou em nome de toda a comunidade! E obrigado a todos pelo acolhimento destes dias.

Expresso uma gratidão especial às autoridades civis, pela atenciosa hospitalidade que recebi e pela atenção com que providenciaram o feliz êxito desta minha visita à Argélia.

Considero esta viagem como um dom especial da Providência de Deus, um dom que, por meio de um Papa agostiniano, o Senhor quis conceder a toda a Igreja.

Penso que posso resumi-lo deste modo: Deus é Amor, é pai de todos os homens e de todas as mulheres. Voltemo-nos para Ele com humildade, admitindo que a situação atual do mundo, como uma espiral negativa, depende, no fundo, do nosso orgulho.

Temos necessidade d’Ele, da sua misericórdia. Só n’Ele encontra paz o coração humano e só com Ele poderemos, todos juntos, reconhecendo-nos irmãos, trilhar caminhos de justiça, desenvolvimento integral e comunhão. Obrigado! Muito obrigado a todos!