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VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA LEÃO XIV
A ESPANHA

(6-12 DE JUNHO DE 2026)

VISITA AOS PRESTADORES DE SERVIÇO E BENEFICIADOS DO PROJETO SOCIAL “CEDIA 24 HORAS”

SAUDAÇÃO DO SANTO PADRE

Centro de Informação e Acolhimento (CEDIA) (Madrid)
Sábado, 6 de junho 2026

[Multimídia]

_______________________________

Eminência,
[Excelências],
queridos irmãos e irmãs:

Sinceramente, estou muito contente por iniciar aqui a minha visita a Madrid. Como disse Vossa Eminência, quem está em Madrid é de Madrid. E, por isso, também eu estou entre vós como mais um madrileno: obrigado, Madrid, por esta recepção. Uma recepção que me faz sentir parte de uma grande e maravilhosa família, na qual – como em todas as famílias – acontecem milagres de amor.

Em particular nesta casa, onde ninguém fica só. Aqui, a alegria e a dor de cada um são a alegria e a dor de todos e, ao escutarmo-nos mutuamente, enfrentamos juntos os desafios, sem ignorar a complexidade das situações e, ao mesmo tempo, sem deixar de lado as exigências da caridade e da justiça, «em diálogo com todos aqueles que se preocupam seriamente do homem e do seu mundo» (Deus caritas est, 27). Assim, o CEDIA percorre o caminho do Evangelho, seguindo as pegadas de Jesus, o Filho de Deus que se fez homem não só para curar as nossas doenças e misérias, mas para as fazer suas – exceto o pecado –, vivendo como um de nós na fraqueza e identificando-se com toda a pessoa que sofre, a ponto de nos dizer: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt 25,40).

Neste sentido, podemos interpretar as palavras que acabámos de ouvir no canto: «Em cada sonho procurei-te, e nenhum foi em vão». Elas sintetizam muito bem os testemunhos que ouvimos e o trabalho que aqui se realiza todos os dias.

Com efeito, graças a um sonho e a uma pequena porta aberta – pequena em tamanho, mas imensa em misericórdia, como disse Sua Eminência –, Niurka deu a Ares e Atenea a vida, o seu amor de mãe, a graça do Batismo e a promessa de um futuro feliz.

Graças a um sonho e a essa mesma pequena porta, Khadri atravessou o escuro túnel da pandemia e fez uma viagem cheia de incógnitas. Com a ajuda daqueles que lhe estenderam a mão, demonstrando que o apreciavam e acreditavam nele, encontrou um emprego e, acima de tudo, recuperou a vontade não só de seguir em frente, mas também de, por sua vez, servir de apoio a outros, tal como outros o apoiaram.

Graças também a um sonho e àquela mesma pequena porta, todos os dias a Alicia e os outros voluntários do Projeto Esperança ajudam tantas mulheres a recuperar dignidade, autonomia, esperança, respeito pelo valor sagrado da pessoa, e a iniciar uma nova vida.

Também os símbolos que me ofereceram são uma mensagem para todos: a fita com os nomes das crianças expressa a alegria que cada nascimento traz ao mundo; a autorização de residência conta uma história de esforço, mas sobretudo de compromisso, honestidade e acolhimento; as sandálias, que recordam o encontro de Moisés com Deus no Horeb (cf. Ex 3,1-6) e evoca a “terra sagrada” que somos obrigados a respeitar em toda a existência humana.

Por isso, agradeço de coração a todos vós por terdes partilhado experiências dolorosas, mas sobretudo cheias de luz, que refletem, como espelhos, a caridade de Deus.

Os vossos testemunhos abrem-nos uma janela para um panorama imenso, povoado por uma infinidade de mães como Niurka, de meninos e meninas, de mulheres e homens, de voluntários e voluntárias: tantas pessoas, tantos irmãos e irmãs, tantas histórias, tão numerosas que, como diz São João: «Se elas fossem escritas, uma por uma, penso que o mundo não teria espaço para os livros que se deveriam escrever» (Jo 21, 25). E a comparação com o Evangelho não é forçada, porque nestas histórias continuam as «coisas que Jesus fez» (ibid.), às quais se refere o Evangelista.

O Senhor Arcebispo, no seu discurso, evocou o caminho que vai (do presépio) de Belém ao Paraíso. Madrid é famosa também pelos presépios que a adornam na época natalícia. A sua beleza, no entanto, é apenas uma pálida expressão de uma maravilha ainda maior e mais profunda, que hoje encontramos aqui. As luzes, as vozes e os sons que, durante as festas de Natal, nos chegam ao coração e nos fazem chorar, na verdade, levamo-los dentro de nós, conosco e entre nós durante todo o ano, e hoje estão mais vivos e acesos do que nunca nestes espaços, em torno deste “presépio” simples e acolhedor que, com a ajuda de Deus, vós continuais a preparar dia após dia – aliás, literalmente de dia e de noite – para Jesus, presente nas pessoas que se aproximam da porta do Centro em busca de ajuda.

Como lema para esta visita, foram escolhidas as palavras de Jesus aos seus discípulos: «Levantai os olhos» (Jo 4, 35). São um convite a contemplar os campos maduros que aguardam a colheita e nos recordam que a caridade não admite demoras. Se o trigo não for colhido quando está maduro, a colheita perde-se, e esta é a nossa responsabilidade perante aqueles que estão necessitados: uma responsabilidade que consagra cada encontro com o outro como um kairós, um momento de graça único e irrepetível para amar, que não se deve perder nem adiar. O amor de Cristo impele-nos para os irmãos (cf. 2 Cor 5,14) e a caridade e a solicitude com que respondemos aos seus impulsos são a prova da nossa fé.

Se pensarmos bem, na realidade, «também os cristãos, em muitas ocasiões, se deixam contagiar por atitudes marcadas por ideologias mundanas ou por orientações políticas e económicas que levam a injustas generalizações e a conclusões enganadoras. Observar que o exercício da caridade é desprezado ou ridicularizado, como se fosse uma fixação somente de alguns e não o núcleo incandescente da missão eclesial, faz-me pensar que é preciso ler novamente o Evangelho, para não se correr o risco de o substituir pela mentalidade mundana. Se não quisermos sair da corrente viva da Igreja que brota do Evangelho e fecunda cada momento histórico, não podemos esquecer os pobres» (Dilexi te, 15).

As palavras de Jesus são também um convite a cultivar um coração sensível às necessidades dos outros (cf. Sl 112, 1-9), mantendo vivo em nós o desejo de bem que Deus colocou na nossa própria humanidade e que a fé liberta e fortalece. O Papa Francisco dizia a este respeito: «Diante do mistério da vida pessoal e dos desafios da sociedade, quem acredita dá saltos de alegria, tem uma paixão, um sonho a cultivar, um interesse que o impele a comprometer-se pessoalmente» (Homilia, Marselha, 23 de setembro de 2023), e advertiu sobre o perigo de um «coração insensível, frio, acomodado numa vida tranquila, que se tranca na indiferença e se torna impermeável» (ibid.). Um coração vivo é quente e palpitante, e dá vida. Um coração frio está imóvel, já não bombeia sangue, e provoca a morte da pessoa.

Mas gostaria de sublinhar um último aspecto do convite do Senhor: na verdade, é também um apelo a olhar nos olhos aqueles que sofrem e a fazer da ajuda, acima de tudo, um encontro entre irmãos unidos no único abraço do Pai. Também sobre isto o Papa Francisco insistiu muito. Ele perguntou: «Quando dás esmola, olhas para os olhos do mendigo? Tocas-lhe na mão para sentir a sua carne?» (Ángelus, 27 de outubro de 2024) e concluiu: «A esmola não é caridade. Quem recebe mais graça da esmola é aquele que a dá, pois faz-se olhar pelos olhos do Senhor» (ibid.). Os que amam verdadeiramente «não se limitam a dar qualquer coisa: escutam, dialogam, procuram compreender a situação e as suas causas […]. Estão atentos tanto à necessidade material como à espiritual, ou seja, à promoção integral da pessoa» (Mensagem para a VII Jornada Mundial dos Pobres, 13 de junho de 2023, 5).

E poderíamos concluir olhando para Maria, em cuja caridade tudo isto encontra o seu cumprimento: no seu amor solícito em Caná (cf. Jo 2,1-11), ansiosa por seguir os passos do seu Filho (cf. Lc 2, 41-49; 8, 19-21), próxima e solidária até ao fim junto à cruz (cf. Jo 19, 25-27). A Ela confio cada um de vós e o vosso trabalho, nesta terra que lhe está consagrada, desejando que o espírito da sua maternidade universal anime cada vez mais o grito da fé. A Ela digamos: «Ensinai-nos a ver-vos sempre como Mãe, fonte de misericórdia, regaço de perdão, abraço de esperança, porta da Glória» (Oração de São João Paulo II na Almudena, 15 de junho de 1993).

Obrigado!

Bem, antes de dar a bênção, rezemos a oração que Jesus Cristo nos ensinou.

[Pai-nossoBênção Apostólica]

Felicidades a todos! Muito obrigado por este testemunho de amor!