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DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ

VENITE AD ME

Considerações sobre a transmissão da fé em uma mudança de época

 

Índice

Introdução

Capítulo I
O anúncio do amor do Pai

Capítulo II
A luz da fé

Formas de transmissão da fé
A família
A comunidade eclesial

Capítulo III
A mudança de época

A crise na transmissão da fé
Uma nova cultura generalizada
As tecnologias digitais
Novas fronteiras da evangelização

Capítulo IV
A centralidade do kerygma

Despertar uma experiência de fé
A questão da linguagem
A formação cristã

Capítulo V
A transmissão da fé nas comunidades

Liturgia
O papel do testemunho
Arte e beleza
As fases da vida

Capítulo VI
Fé e cultura

Capítulo VII
Algumas considerações específicas

Capítulo VIII
Testemunhos

Do abismo da dependência à liberdade do encontro com Cristo
O “despertar” do kerygma: o papel da família e da oração
O testemunho da caridade, da cultura e da beleza

Conclusão

___________________________

 

1. [Venite ad me] «Vinde a mim, todos os que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso» (Mt 11,28). O Senhor Jesus Cristo apresenta-se como fonte de descanso profundo diante do cansaço e das fadigas do coração humano. Assim, a transmissão da fé surge como um encontro, no qual Cristo se aproxima de cada pessoa na realidade concreta de sua vida, concedendo-lhe aquela verdadeira paz que só n’Ele é possível encontrar.

Introdução

2. Jesus é a verdadeira luz do mundo e quem crê n’Ele, o Ressuscitado vivo, vence as trevas da morte e vive graças à luz da vida (cf. Jo 1, 6-9; 8,12). Esta é a fé da Igreja e esta é a fé que todo crente é chamado a difundir até os confins da terra. Tal compromisso — o da transmissão da fé, adaptado às condições socioculturais atuais — está no centro das presentes Considerações.

3. Essa responsabilidade de cada crente em Cristo, a verdadeira luz do mundo, representa um tema de grande atualidade para a vida e a missão da Igreja. O Dicastério havia sido solicitado várias vezes pelo Papa Francisco a apresentar uma reflexão sobre o assunto e havia acionado o procedimento ordinário para chegar às presentes Considerações. Os acontecimentos recentes, especialmente a eleição ao sólio pontifício do Papa Leão XIV, a celebração do Jubileu, bem como a perspectiva do próximo Jubileu da Redenção de 2033, constituem um estímulo adicional para avançar mais rapidamente na elaboração do documento.

4. As presentes Considerações pretendem, fundamentalmente, relançar a toda a comunidade eclesial o convite que o Santo Padre Leão XIV dirigiu aos bispos italianos, ao encontrá-los em junho de 2025: «Em primeiro lugar, é necessário um impulso renovado no anúncio e na transmissão da fé. Trata-se de colocar Jesus Cristo no centro tanto do anúncio quanto da existência e, seguindo o caminho indicado pela Evangelii gaudium, ajudar as pessoas a viver uma relação pessoal com Ele, para descobrir a alegria do Evangelho. Em uma época de grande fragmentação, é necessário voltar aos fundamentos da nossa fé, ao kerygma. Esse é o primeiro grande compromisso que motiva todos os outros»[1]. Portanto, como observa ainda o Santo Padre, a «evangelização deve hoje, de modo particular, confrontar-se também com as novas condições e dinâmicas na transmissão da fé de geração em geração. Em algumas regiões do mundo, esta transmissão está praticamente interrompida, o que exige a capacidade de assumir novos desafios»[2]. O objetivo específico do documento é, portanto, oferecer tanto uma reflexão específica quanto a sugestão de caminhos concretos para o anúncio do kerygma na mudança de época que estamos atravessando.

5. Tal anúncio é aquele capaz de despertar a fé naqueles que há muito não a praticam (pense-se, em particular, no mundo dos adultos e das novas gerações) ou de promover uma experiência de fé (fides qua) naqueles que ainda não conheceram Cristo, sem entrar no trabalho específico da catequese e da formação dos fiéis, ambas chamadas a oferecer também uma introdução ordenada e gradual à doutrina da Igreja (fides quae). A reflexão das presentes Considerações sobre a fides qua precede a questão da transmissão do depositum fidei, que este documento não pretende abordar de forma exaustiva.

6. Ao elaborar estas Considerações, foi realmente valiosa a contribuição de muitas Conferências Episcopais Nacionais, que responderam com grande solicitude ao pedido do Dicastério de enviar materiais relativos ao tema da transmissão da fé.

7. De particular relevância são os testemunhos, enviados pelos bispos, daqueles que descobriram ou redescobriram — ainda jovens ou já adultos — o Senhor Jesus e Seu Evangelho. Muitos deles são reproduzidos no último capítulo das presentes Considerações.

8. Uma última precisão diz respeito ao gênero do documento, que se trata de Considerações e não de uma Nota doutrinária. Seu objetivo, de fato, é principalmente estimular a reflexão eclesial e o empenho pastoral em torno da transmissão da fé. Por isso, o texto examina uma pluralidade de pontos de vista, sem, no entanto, pretender encerrar a questão, que permanece aberta a novas análises e desenvolvimentos. Isso significa que estas Considerações não se caracterizam, como outros textos do Dicastério para a Doutrina da Fé, pela precisão da linguagem e pela sistematicidade da exposição, mas adotam um estilo mais coloquial, como fica evidente sobretudo na mencionada seção dedicada aos testemunhos[3].

Capítulo I

O anúncio do amor do Pai

9. Ao falar da missão do Batista, o evangelista João o qualifica como a testemunha da luz, como aquele que deve dar seu testemunho da verdadeira luz, daquela luz que, por si só, tem o poder de iluminar todo ser humano (cf. Jo 1,6-9). Essa verdadeira luz tem o nome de Jesus, o Cristo, o Filho de Deus feito homem para a salvação do mundo. Ele é, em última análise, a «verdadeira luz do mundo», e quem seguir seus passos nunca se perderá nas trevas, mas sempre encontrará dentro de si a plena luz da vida (cf. Jo 8,12). Esse é o cerne de todo o Cristianismo e é também o impulso que leva os crentes a transmitir, em todos os tempos — inclusive no nosso —, a fé que vivem.

10. Jesus é realmente a verdadeira luz que ilumina todo ser humano, pois aquilo que ninguém jamais tinha visto nem poderia ver, Ele revelou: o amor incondicional que habita no coração de Deus-Trindade. Esta é a boa nova do Evangelho do Filho: Deus é, para sempre e para todos, amor (cf. 1Jo 4,8). Ele é Pai, Filho e Espírito Santo. Essa boa nova, desconhecida até à vinda de Jesus, é agora capaz de nos conduzir à salvação e à felicidade plenas e, ao mesmo tempo, pela graça do Espírito Santo, de evidenciar e purificar tudo o que possa ser um obstáculo à vida nova que ela nos abre.

11. De forma ainda mais radical, Jesus anuncia a verdade de que, por esse amor do Pai, não existe nenhum espaço humano marcado pelo fracasso ou pelo pecado que não possa ser reintegrado ao seu destino original. Pelo contrário, graças à ação contínua do Espírito Santo, que age da forma que só Ele conhece[4], a luz e o poder desse amor estão sempre à disposição de qualquer pessoa, em qualquer tempo e em qualquer lugar. Quem acolhe essa revelação abandona para sempre o reino das trevas, abrindo-se finalmente à luz da vida e a uma vida de luz.

12. Justamente por essa razão, toda a existência de Jesus é permeada pelo desejo de iluminar cada ser humano com a boa nova do Deus, que é amor para sempre. Assim, Ele vai ao encontro dos outros com o coração aberto e livre e se deixa alcançar por eles. Ele segue os passos dos homens e mulheres de seu tempo e se deixa encontrar por eles. Quem o busca, encontra-o; e se o busca, é porque já foi alcançado por Cristo (cf. Fl 3,12). Jesus não coloca obstáculos entre si e as pessoas. Está sempre atento, sempre presente, nunca distraído e sua palavra jamais soa abstrata. Ele deseja continuamente orientar o coração e a mente de todos para a verdadeira luz do amor do Pai, de sua misericórdia, que são amor e misericórdia simplesmente para a vida boa de todos. Ninguém fica de fora. A vida de cada um é digna de ser vivida em plenitude.

13. Aqueles, então, que se abrem à luz da revelação do amor de Deus recebem de Jesus uma palavra de perdão, uma palavra de libertação, uma palavra de amor, uma palavra de liberdade, uma palavra de vida, uma palavra de esperança (cf. Lc 4,18-19). Jesus desperta em todos aqueles que vão ao seu encontro e se abrem a Ele com coração sincero um impulso de renovado interesse e amor pela vida: pela própria vida, pela vida dos outros e pela vida de tudo o que existe (cf. Jo 14,6). O amor de Deus reconduz cada homem e cada mulher às boas razões de seu próprio ser no mundo.

14. Com isso em mente e no coração, o Jesus que os evangelistas narram está sempre a caminho. Ele não espera. Não cria um santuário próprio nem uma escola. Ele se move, viaja. Entra nas aldeias e nas cidades de seu povo e de seu tempo. Ele conversa com as pessoas simples, mas também com aqueles que ocupam cargos de poder público, religioso ou político. Por meio desses gestos e dessas palavras, Jesus leva a bom termo a revelação confiada ao povo de Israel (cf. Mt 4,12-17; Mc 1,14-15; Lc 3,21-22).

15. Chama a atenção, de maneira especial, a forma como Jesus proclama o Evangelho do Deus que é amor para sempre e para todos. São numerosas, em sua pregação, as referências à vida cotidiana das pessoas, ao reino dos animais e ao mundo das árvores, das plantas e das flores, assim como abundam as referências aos ofícios de sua época, à preparação da comida e às brincadeiras das crianças. Jesus demonstra também um notável conhecimento do uso dos números e recorre frequentemente à construção de edifícios ou a fenômenos meteorológicos; conhece as moedas do seu tempo e tem profunda familiaridade com os diversos grupos religiosos presentes na época e, de várias maneiras, ligados ao judaísmo. É realmente um homem que “olha” com plena atenção e convida constantemente todos a “ver” com o mesmo olhar para a trama da criação e da história humana. Esta é, na verdade, sua certeza inabalável: quando o coração está livre de todo egoísmo e ansiedade desnecessária, é possível reconhecer as pegadas do amor de Deus até mesmo no evento mais pequeno e aparentemente insignificante (cf. Lc 12,22-34), e é justamente esse mesmo amor que o leva a se expressar por meio da linguagem da vida cotidiana das pessoas.

16. Não é de se surpreender, portanto, que tal pregação, ao mesmo tempo em que conquista facilmente o coração das pessoas simples — que a sentem tão próxima e familiar —, desconcerte e, em certa medida, inquiete aqueles que detêm o poder político e religioso da época. É como uma luz capaz de revelar todos os possíveis usos e abusos desse poder: «Sabeis que os chefes das nações as dominam e os grandes impõem sua autoridade. Entre vós não seja assim» (Mt 20,25-26); «Ai de vós igualmente, doutores da Lei, porque carregais as pessoas com fardos insuportáveis» (Lc 11,46).

17. Ao cumprir sua missão, Jesus não se limita apenas ao anúncio do amor incondicional de Deus. Ele dá testemunho concreto desse amor por meio de uma predileção especial por todos aqueles que já quase não esperam mais nada de ninguém: nem de seus parentes, nem de seus amigos, nem de seus compatriotas, nem de seus correligionários e talvez nem mesmo do Deus da Aliança dos Pais. Devido à sua condição de sofrimento, causada por doenças incuráveis ou por trágicos reveses do destino, essas pessoas são frequentemente consideradas “os últimos” da sociedade. No entanto, são justamente elas que se tornam “os primeiros” no coração do Senhor Jesus (cf. Mt 20,16). São, de fato, esses “últimos/primeiros” aqueles que, mais do que todos os outros, Jesus convida a se aproximarem da luz que ilumina cada homem e cada mulher, ou seja, da luz do amor do Pai. É assim que, com sua proximidade, com suas palavras e com seus milagres, Jesus reacende neles a esperança de ainda poderem ter esperança, a confiança de ainda poderem ter confiança, a possibilidade de ainda terem possibilidades. Ele realiza neles o prodígio de ainda poderem acreditar em um milagre para sua própria existência.

18. Ao longo de sua pregação, Jesus entra então, quase inevitavelmente, em conflito com uma sociedade religiosa e política que fazia da Lei de Moisés seu fundamento estrutural, mas na qual, em sua aplicação concreta, muitas vezes prevaleciam atitudes de divisão e exclusão. Enquanto seu Pai, que está nos céus, faz nascer o sol sobre todos (cf. Mt 5,45) e faz chover sobre todos, a discriminação e a separação entre as pessoas constituíam uma característica muito difundida no ambiente político e religioso de seu tempo, assim como no nosso. Ao trazer a luz de um amor divino que deseja reconectar cada um com sua existência, ainda que conturbada, com as outras pessoas de seu entorno e, por fim, com o próprio Deus, com vistas a uma fraternidade de justiça e paz, Jesus não pode deixar de entrar em conflito com os poderes de seu tempo, uma vez que sua mensagem tem a força de uma autoridade (cf. Mc 1,27). Ao anunciar o rosto de amor de Deus, Jesus priva de todo fundamento aquele exercício despótico do poder religioso e político de sua época, que esqueceu sua própria natureza de serviço e de unidade. Deus não abençoa a divisão, muito menos a discriminação. Ele é Pai e ama todo ser vivo (cf. Sab 1,13-14). Nenhuma lei ou autoridade humana ou religiosa poderá jamais declarar alguém indigno de seu amor ou do amor dos demais seres humanos.

19. A tensão entre as palavras e os gestos de Jesus e os desentendimentos com o poder de sua época atinge o ápice na decisão das autoridades religiosas e políticas de condená-lo à morte. Sua pregação, acompanhada de sinais extraordinários, deve ser interrompida e reduzida ao silêncio para sempre. Assim se decide sua morte na cruz, à qual o poder romano dá seu aval.

20. Mas essa condenação à morte não tem força para apagar a “verdadeira luz do mundo”. Aquele patíbulo injusto torna-se, na economia da salvação, o trono mais elevado do qual ressoa com absoluta clareza a mensagem evangélica e se manifesta ao mundo inteiro o poder iluminador do Evangelho do Filho e o seu Evangelho é este: Deus é amor para todos, Deus é misericórdia para todos. Ele é verdadeiramente para todos, e por isso o é também para aqueles que condenam e matam o Filho. O “sim” que Deus, em Jesus, diz ao ser humano e que mantém ardentemente acesa a verdadeira luz do mundo, que é o seu Filho, nunca pode ser transformado em um “não”. O amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo pela humanidade é sem reservas, sem limites, sem medida e, em última análise, sem fronteiras (cf. 1Jo 4,7-8).

21. Nos momentos finais da vida terrena de Jesus, encontram pleno cumprimento as belíssimas palavras do antigo e maravilhoso livro do Cântico dos Cânticos: «Águas torrenciais não puderam extinguir o amor, nem rios poderão afogá-lo» (8,7). A incompreensão e a obstinação que levam os líderes do povo à condenação de Jesus, com a plena cumplicidade das autoridades romanas, não conseguem extinguir seu desejo de tirar a humanidade das trevas e acender nela a luz da vida. Pelo contrário, a boa e grande notícia do Cristianismo é justamente esta: nem mesmo o poder da morte conseguiu apagar a verdadeira luz do mundo.

22. Essa é, portanto, a certeza fundamental dos cristãos, sem a qual, como diz o apóstolo Paulo, tudo seria em vão: «E se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, e vã nossa fé» (1 Cor 15,14). Essa mesma consciência foi expressa também por ocasião do Sínodo dos Jovens: «CRISTO VIVE: é Ele a nossa esperança e a mais bela juventude deste mundo! Tudo o que toca torna-se jovem, fica novo, enche-se de vida»[5]. É isso que os discípulos do Senhor, em todos os tempos, acreditam, anunciam e testemunham com a própria vida: Cristo está vivo e deseja que todo ser humano esteja vivo. Ele está sempre conosco e não nos abandona (cf. Mt 28,20). Por mais que uma pessoa se afaste d’Ele, Jesus nunca se afastará dela. Por meio de sua Igreja, o Ressuscitado permanece, em todos os tempos, ao lado de cada um, pronto para iluminar sua existência com o amor divino, enchendo-a de vida, de força e de esperança. A comunhão eclesial é hoje o lugar privilegiado onde Cristo continua a se deixar encontrar por meio de homens e mulheres progressivamente transformados por sua própria vida.

23. Para tornar possível sua missão de ser luz do mundo, a Igreja celebra com alegria o cumprimento da grande promessa de Cristo: «o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará o que eu vos tenho dito» (Jo 14,26); «ele dará testemunho de mim. E vós também dareis testemunho» (Jo 15,26-27). Sem a ação do Espírito Santo no íntimo dos corações, torna-se impossível transmitir a verdadeira luz de Cristo, como nos lembra também a Sequência de Pentecostes: «Vem, Pai dos pobres […] sem a tua força, nada há no homem». Nele depositamos nossa confiança, enquanto nos dispomos a buscar as diversas formas de cooperar com sua graça na evangelização do nosso tempo. É a Ele que pedimos o fervor e a alegria necessários para responder com fidelidade a esse chamado.

Capítulo II

A luz da fé

24. À luz do que foi dito até aqui, compreende-se melhor o fundamento do Cristianismo, tal como foi expresso por Bento XVI: «Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo»[6]. Um novo horizonte e um rumo decisivo são os da alegria, como lembra o Papa Francisco no início da Evangelii gaudium: «A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria»[7].

25. Este é, portanto, o cerne da experiência cristã: o encontro com o Senhor Jesus, que nos coloca em contato com a verdadeira luz do amor divino, faz com que não nos percamos nas trevas e nos conduz à vida. É justamente nesse sentido que se pode falar da luz da fé, como se afirma na primeira carta encíclica de mesmo nome do Papa Francisco, para cuja redação Bento XVI também contribuiu: «A luz da fé é a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus. Eis como Ele Se nos apresenta, no Evangelho de João: “Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em Mim não fique nas trevas” (Jo 12, 46). E São Paulo exprime-se nestes termos: “Porque o Deus que disse: ‘das trevas brilhe a luz’, foi quem brilhou nos nossos corações” (2 Cor 4, 6). No mundo pagão, com fome de luz, tinha-se desenvolvido o culto do deus Sol, Sol invictus, invocado na sua aurora. Embora o sol renascesse cada dia, facilmente se percebia que era incapaz de irradiar a sua luz sobre toda a existência do homem. De fato, o sol não ilumina toda a realidade, sendo os seus raios incapazes de chegar até às sombras da morte, onde a vista humana se fecha para a sua luz. Aliás “nunca se viu ninguém — afirma o mártir São Justino — pronto a morrer pela sua fé no sol”. Conscientes do amplo horizonte que a fé lhes abria, os cristãos chamaram a Cristo o verdadeiro Sol, “cujos raios dão a vida”. A Marta, em lágrimas pela morte do irmão Lázaro, Jesus diz-lhe: “Eu não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus?” (Jo 11, 40). Quem acredita, vê; vê com uma luz que ilumina todo o percurso da estrada, porque nos vem de Cristo ressuscitado, estrela da manhã que não tem ocaso»[8].

26. A experiência da fé pode, assim, ser imaginada como o encontro vital e decisivo com aquele “verdadeiro sol” que é Cristo, o qual liberta das trevas e enche de luz a existência humana. É uma experiência de luz que, por sua própria natureza, irradia-se para outras existências a fim de iluminá-las com a mesma luz; essas, resplandecendo por sua vez, ampliarão o raio de propagação da luz originária: a verdadeira luz do mundo, que é Cristo. Como não lembrar, a esse respeito, as palavras do próprio Jesus dirigidas aos seus discípulos: «Vós sois a luz do mundo» (Mt 5,14)?

27. É precisamente a esse dinamismo que devemos nos referir quando refletimos sobre o delicado tema da transmissão da fé no contexto contemporâneo, aqui evocado como um tempo de mudança de época. O texto da Lumen fidei confirma isso com extrema precisão: «Quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua [de Cristo] voz e recebeu a sua [de Cristo] luz, não pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que é escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra e como luz; dirigindo-se aos Coríntios, o apóstolo Paulo utiliza precisamente estas duas imagens. Por um lado, diz: “Animados do mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: Acreditei e por isso falei, também nós acreditamos e por isso falamos” ( 2 Cor 4, 13); a palavra recebida faz-se resposta, confissão, e assim ecoa para os outros, convidando-os a crer. Por outro, São Paulo refere-se também à luz: “E nós todos que, com o rosto descoberto, refletimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem” ( 2 Cor 3, 18); é uma luz que se reflete de rosto em rosto, como sucedeu com Moisés cujo rosto refletia a glória de Deus depois de ter falado com Ele: “[Deus] brilhou nos nossos corações, para irradiar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo” ( 2 Cor 4, 6). A luz de Jesus brilha no rosto dos cristãos como num espelho, e assim se difunde chegando até nós, para que também nós possamos participar desta visão e refletir para outros a sua luz, da mesma forma que a luz do círio, na liturgia de Páscoa, acende muitas outras velas. A fé transmite-se por assim dizer sob a forma de contato, de pessoa a pessoa, como uma chama se acende noutra chama. Os cristãos, na sua pobreza, lançam uma semente tão fecunda que se torna uma grande árvore, capaz de encher o mundo de frutos»[9].

28. O mesmo documento, no parágrafo seguinte, lembra ainda que a «transmissão da fé, que brilha para as pessoas de todos os lugares, passa também através do eixo do tempo, de geração em geração. Dado que a fé nasce de um encontro que acontece na história e ilumina o nosso caminho no tempo, a mesma deve ser transmitida ao longo dos séculos»[10]. Se, portanto, por um lado, a transmissão da fé se assemelha ao acender de uma chama a partir de outra chama, em um contato que poderíamos chamar de pessoal, por outro lado, a comunidade dos discípulos sempre se sentiu chamada a criar ocasiões nas quais a fé pudesse ser transmitida: ocasiões em que fosse possível a todos entrar em contato com a verdadeira luz da vida, aquela que liberta de toda escuridão e que se encontra no Senhor Jesus. Os discípulos sentiram, portanto, o dever de transmitir a fé; um dever que deve ser preservado e honrado de geração em geração.

29. A transmissão da fé tem seu fundamento último na iniciativa de Deus, que em Cristo revelou seu rosto e confiou aos Apóstolos a tarefa de anunciar o Evangelho a todas as nações. Essa missão, no entanto, não se concluiu com a pregação apostólica, mas continua na história por meio da Igreja. O Concílio Vaticano II afirma, de fato, que «a Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é e tudo quanto acredita»[11]. A Igreja é, assim, o sujeito histórico e vivente no qual o Evangelho é ouvido, guardado, celebrado e continuamente atualizado sob a ação do Espírito Santo. Por essa razão, a fé não é transmitida, em primeiro lugar, como um conjunto de conteúdos doutrinários ou de informações religiosas, mas como uma forma de vida eclesial na qual o crente é progressivamente introduzido. O sujeito principal da transmissão da fé é, portanto, a Igreja em sua totalidade[12], a qual, ao receber incessantemente o dom da Palavra divina, comunica-o e o testemunha por meio da pregação, da liturgia, da caridade e da experiência concreta da comunhão. Pode-se, portanto, afirmar com razão que a Igreja «é uma Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé»[13].

Formas de transmissão da fé

30. É importante afirmar com clareza que a força mais autêntica da missão evangelizadora da comunidade dos discípulos do Senhor continua sendo sempre a da atração, como lembrou Bento XVI na homilia da Santa Missa de inauguração da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe: «A missão de Cristo realizou-se no amor. Ele acendeu no mundo o fogo da caridade de Deus (cf. Lc 12,49). É o amor que dá a vida: por isso a Igreja é convidada a difundir no mundo a caridade de Cristo, porque os homens e os povos “tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). [...] A Igreja se sente discípula e missionária desse Amor : missionária somente enquanto discípula, isto é capaz de deixar-se sempre atrair, com renovado enlevo, por Deus que nos amou e nos ama por primeiro (1Jo 4,10). A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por “atração”: como Cristo “atrai todos a si” com a força do seu amor, que culminou no sacrifício da Cruz, assim a Igreja cumpre a sua missão na medida em que, associada a Cristo, cumpre a sua obra conformando-se em espírito e concretamente com a caridade do seu Senhor»[14]. Essa reflexão também foi adotada pelo Papa Leão XIV: «Retomo-a hoje, com alegria, e partilho-a convosco. A mim mesmo e a vós, lanço o convite a prestar muita atenção ao que o Papa Bento XVI indicou como a “força” que preside a este movimento de atração: essa força é a Charis, o Agape, o Amor de Deus que se fez carne em Jesus Cristo e que, no Espírito Santo, é dado à Igreja, santificando todas as suas ações. Na verdade, não é a Igreja que atrai, mas Cristo, e se um cristão ou uma comunidade eclesial atrai, é porque através desse “canal” chega a seiva vital da Caridade que brota do Coração do Salvador»[15].

A família

31. Entre os âmbitos nos quais a Igreja é chamada a comunicar e a fazer resplandecer a luz de Cristo, a família constitui o primeiro e mais essencial lugar de transmissão da fé. Já no Novo Testamento se destaca o papel dos familiares na transmissão da fé. A Timóteo, por exemplo, o apóstolo Paulo dirige-se dizendo: «Recordo-me também da fé sincera que há em ti, fé que habitou, primeiro, em tua avó Loide e em tua mãe Eunice, e que certamente habita também em ti» (2 Tm 1,5). Esse aspecto também foi destacado pelo Papa Leão XIV: «Na família, a fé é transmitida, de geração em geração, juntamente com a vida: é partilhada como o alimento da mesa e os afetos do coração. Isso torna-a um lugar privilegiado para encontrar Jesus, que nos ama e quer sempre o nosso bem»[16].

32. Ao longo das décadas, com a formação e a consolidação das comunidades cristãs, surge também seu papel ativo na tarefa de transmitir a fé. Em particular, com a difusão da prática do batismo infantil, as comunidades e as famílias sentem-se unidas na responsabilidade comum de introduzir os mais novos ao encontro com o Senhor Jesus. Trata-se da consciência de que, se as crianças recebem a vida dos pais, no batismo elas recebem «o sentido para a viver: a fé. Quando sabemos que um bem é essencial, imediatamente o procuramos para aqueles que amamos. Quem de nós, afinal, deixaria os recém-nascidos sem roupa ou alimento, à espera que escolham como se vestir e o que comer quando crescerem? […] se comida e vestuário são necessários para viver, a fé é mais do que necessária, porque com Deus a vida encontra a salvação»[17].

33. Permanece, em todo caso, a necessidade de uma profunda integração entre a Igreja e a família, como lembra claramente também a Lumen fidei: a «estrutura do Batismo põe em evidência a importância da sinergia entre a Igreja e a família na transmissão da fé. Os pais são chamados — como diz Santo Agostinho — não só a gerar os filhos para a vida, mas a levá-los a Deus, para que sejam, através do Batismo, regenerados como filhos de Deus, recebam o dom da fé. Assim, juntamente com a vida, é-lhes dada a orientação fundamental da existência e a segurança de um bom futuro; orientação esta, que será ulteriormente corroborada no sacramento da Confirmação com o selo indelével do Espírito Santo»[18]. A esse respeito, é interessante a ligação que se pode vislumbrar na Igreja latina entre a liturgia do acendimento do círio pascal — prelúdio à grande celebração da Páscoa, centro e ápice da fé cristã — e a celebração do Batismo, porta dessa mesma fé, sobretudo na referência a Cristo Luz, que deve ser acolhido na existência de cada crente.

34. Nessa perspectiva, soa como particularmente significativo o que o próprio documento magisterial afirma mais adiante: «Em família, a fé acompanha todas as idades da vida, a começar pela infância: as crianças aprendem a confiar no amor de seus pais. Por isso, é importante que os pais cultivem práticas de fé comuns na família, que acompanhem o amadurecimento da fé dos filhos. Sobretudo os jovens, que atravessam uma idade da vida tão complexa, rica e importante para a fé, devem sentir a proximidade e a atenção da família e da comunidade eclesial no seu caminho de crescimento da fé»[19].

35. É significativo recordar aqui uma página intensa de memórias escrita pelo jesuíta Aimé Duval, na qual é possível vislumbrar a obra silenciosa e quase natural do testemunho cristão vivido pelos pais em relação aos próprios filhos. Escreve o padre Duval, no contexto do relato de sua conturbada trajetória humana e religiosa: «Eu era o quinto de uma família de nove filhos. Antes de mim: Lucie, Marie, Hélène, Marcel; e depois: René, Raymond, Suzanne e André. Nessa família, não me ensinaram a piedade de um modo expansivo e extraordinário. No dia a dia, havia apenas a oração da noite, recitada em conjunto. Mas disso, eu me lembro e me lembrarei até meus olhos se fecharem. Minha irmã. Minha irmã Hélène recitava as orações, longas para crianças (um quarto de hora). Ela acelerava o ritmo, gaguejava, tomava atalhos, até o momento em que meu pai lhe dizia no dialeto: “Recomeça... Repita... ”. Foi assim que aprendi, naquele momento, que era preciso conversar com o Bom Deus com lentidão, seriedade e gentileza paciente. Meu pai. O que me emociona hoje é lembrar-me da atitude do meu pai. Ele, que estava sempre cansado por causa dos trabalhos no campo ou do transporte de lenha, ele, que demonstrava sem vergonha que estava cansado ao voltar do trabalho, eis que, após cada jantar, se ajoelhava, com os cotovelos apoiados no assento de uma cadeira, a testa entre as mãos, sem olhar para os filhos ao seu redor, sem se mover, sem tossir, sem demonstrar impaciência. E eu pensava: “Meu pai, que é tão forte, que comanda sua casa e seus dois bois grandes, que se mantém orgulhoso diante dos golpes do destino e tão pouco tímido diante do prefeito, dos ricos e dos espertalhões, eis que se torna bem pequeno diante do Bom Deus. Realmente, é algo bem diferente conversar com o Bom Deus. De fato, o Bom Deus deve ser alguém muito grandioso para que meu pai se ajoelhe, e também alguém muito familiar para que ele converse com Ele vestindo suas roupas de trabalho...”. Minha mãe. Quanto à minha mãe, nunca a vi de joelhos. Cansada demais, ela sentava-se no meio da sala, com o caçula nos braços, o vestido preto até os calcanhares, seus lindos cabelos castanhos soltos sobre o pescoço e todas as crianças ao seu redor, encostadas nela. Ela acompanhava com os lábios as orações do início ao fim; não queria perder nem um pingo, recitava-as por conta própria. O mais curioso é que ela não parava de nos olhar, cada um sob seu olhar. Um olhar mais demorado para os pequenos. Ela nos olhava, mas nunca dizia nada. Nem mesmo quando os pequenos se mexiam e cochichavam, nem mesmo quando o trovão estrondava sobre a casa, nem mesmo quando o gato derrubava uma panela. E eu pensava: “De verdade, o Bom Deus é muito bondoso por permitir que conversemos com Ele com uma criança nos braços, usando seu avental de trabalho. De verdade, o Bom Deus é alguém importante para que o gato ou o trovão não tenham mais importância”. As mãos do meu pai, os lábios da minha mãe, ensinaram-me sobre o Bom Deus muito mais do que meu catecismo. Ele é Alguém, Ele é Alguém próximo. Só se fala com Ele de verdade quando se trabalhou»[20].

36. Este comovente relato de uma iniciação simples e alegre das crianças ao mistério de Deus, possibilitada pelo testemunho dos pais, confirma plenamente a intuição repetidamente evocada pelo Papa Francisco: a fé deve ser transmitida, no seio da família, “no dialeto”. Por ocasião da Festa do Batismo do Senhor, em 7 de janeiro de 2018, ele dirigiu-se assim aos pais que haviam levado seus filhos ao batismo: «Gostaria de vos dizer apenas uma coisa, que se refere a vós [pais]: a transmissão da fé só pode ser feita “em dialeto”, no dialeto da família, no dialeto do pai e da mãe, do avô e da avó. Depois virão os catequistas que desenvolverão esta primeira transmissão, com ideias, com explicações.... Mas não vos esqueçais disto: faz-se “em dialeto”, e se o dialeto faltar, se em casa os pais não falarem entre eles aquela linguagem do amor, a transmissão não será muito fácil, não se poderá fazer. Não vos esqueçais. A vossa tarefa consiste em transmitir a fé, mediante o dialeto do amor da vossa casa, da família»[21]. Esse ponto também foi reiterado pelo Papa Leão XIV: «os primeiros catequistas são os pais, aqueles que primeiro nos falaram e nos ensinaram a falar. Assim como aprendemos a nossa língua materna, também o anúncio da fé não pode ser delegado a outros, mas acontece no lugar onde vivemos. Em primeiro lugar, nas nossas casas, à volta da mesa: quando há uma voz, um gesto, um rosto que conduz a Cristo, a família experimenta a beleza do Evangelho»[22].

37. A transmissão da fé encontrou assim, até tempos recentes, justamente nos contextos familiares o principal local de passagem entre as gerações. São sobretudo os pais que constituem aquele primeiro “tabernáculo” no qual os pequenos podem vislumbrar toda a beleza e a força de ser discípulos do Senhor Jesus. Esse testemunho se concretiza em uma trama de gestos simples e cotidianos: a oração pessoal e em casal, a leitura do Evangelho, a recordação das palavras e dos gestos de Jesus, a memória dos santos padroeiros, a invocação constante da proteção maternal da Virgem Maria, a participação na missa dominical, a visita aos santuários e as diversas formas de piedade popular, a atenção aos mais pobres e desfavorecidos, mas também por meio da oração de ação de graças antes das refeições e da bênção do Senhor por ocasião dos aniversários de um dos membros da família, bem como da montagem devota do presépio por ocasião das festas natalinas.

38. No entanto, é preciso constatar que essa situação favorável está gradualmente se esvaindo. De fato, como será visto mais adiante com maior detalhe, uma das características da nossa época é o fato de que, embora mantenha sua importância em algumas regiões da África e da Ásia, a transmissão da fé no âmbito familiar foi interrompida em muitas partes do mundo[23]. Consequentemente, a transmissão da experiência da fé cristã às novas gerações não ocorre mais de forma, por assim dizer, “automática”.

A comunidade eclesial

39. É somente nesse momento, e posteriormente, que a comunidade eclesial entra no processo de transmissão da fé. O que uma pessoa recebeu de seus pais — o testemunho de fé em Jesus, que revelou plenamente o rosto do amor infinito de Deus, libertando os seres humanos das trevas e abrindo-os à verdadeira luz da vida — encontra na Igreja os meios e as oportunidades para que se torne o princípio fundamental de sua maneira de encarar o mundo. Por meio da catequese, da celebração dos sacramentos, dos diversos espaços que favorecem uma participação ativa na vida comunitária – como propõe o atual caminho sinodal –, do compromisso em favor dos mais desfavorecidos e do encontro na casa do Senhor aos domingos, alcança-se aquela maturidade da fé que consiste, em última análise, em olhar para tudo “com os olhos de Jesus”.

40. Graças à ação coordenada entre pais e comunidade eclesial, de fato, cada um aprende que «na fé, Cristo não é apenas Aquele em quem acreditamos, a maior manifestação do amor de Deus, mas é também Aquele a quem nos unimos para poder acreditar. A fé não só olha para Jesus, mas olha também a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver»[24]. Essa é a plena realização do processo que aqui chamamos de transmissão da fé: permitir que cada um alcance tal intimidade com o Senhor Jesus a ponto de poder, finalmente, olhar para si mesmo, para os outros, para o mundo e para o mistério de Deus com os próprios olhos de Jesus. Percebe-se, assim, que o acompanhamento da comunidade é essencial não apenas para acolher o Evangelho, mas também para permanecer fiel ao dom recebido, pois é muito difícil perseverar sozinho.

41. É preciso constatar, além disso, que, nos países de antiga tradição cristã, esse contexto de transmissão da fé parece hoje comprometido, pois é caracterizado cada vez mais pela presença de «“pessoas batizadas que, porém, não vivem as exigências do Batismo”, não sentem uma pertença cordial à Igreja e já não experimentam a consolação da fé. Mãe sempre solícita, a Igreja esforça-se para que elas vivam uma conversão que lhes restitua a alegria da fé e o desejo de se comprometerem com o Evangelho»[25]. Além disso, cresce, sobretudo entre os jovens, o número daqueles que não conhecem Jesus e o Evangelho.

42. Justamente por essa razão, a transmissão da fé exige hoje, particularmente, a evangelização dos adultos e a superação de uma ação pastoral concentrada exclusivamente na catequese de crianças e adolescentes.

Capítulo III

A mudança de época

43. Merece atenção especial o contexto da transmissão da fé, objeto das presentes Considerações, expresso por meio da categoria de “mudança de época”. Como se sabe, foi o Papa Francisco quem tornou famosa essa expressão em seu discurso à Cúria romana por ocasião da troca de votos natalinos, em 21 de dezembro de 2019, afirmando: «estamos a viver não simplesmente uma época de mudanças, mas uma mudança de época. Encontramo-nos, portanto, num daqueles momentos em que as mudanças já não são lineares, mas epocais; constituem opções que transformam rapidamente o modo de viver, de se relacionar, de comunicar e elaborar o pensamento, de comunicar entre as gerações humanas e de compreender e viver a fé e a ciência»[26]. Como já havia sido lembrado há mais de dez anos pelo Documento Final da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, realizada em maio de 2007 em Aparecida (Brasil), dessa mudança «o nível mais profundo é cultural. Desaparece a concepção integral do ser humano, sua relação com o mundo e com Deus»[27].

44. Essa situação está fundamentalmente ligada à crise do modelo cultural da modernidade, que afeta de maneira particular o contexto europeu. Pode-se perguntar, portanto, se falar de “mudança de época”, no singular, faz jus aos processos que as Igrejas, em todas as partes do mundo, estão enfrentando. A resposta a essa questão é, sem dúvida, positiva, pelo menos se nos mantivermos em um nível geral, por motivos ligados ao conhecido fenômeno da globalização, que favoreceu a difusão efetiva da influência da cultura ocidental em todas as regiões do planeta. Aliás, é inegável que algumas experiências, como a tragédia da pandemia da Covid-19, tenham reforçado a consciência generalizada de pertencer a uma única família, embora não faltem tendências que se movem na direção oposta[28].

45. A urgência de abordar as questões suscitadas pela mudança de época também foi manifestada pelo Papa Leão XIV em sua primeira Carta Encíclica Magnifica humanitas: «Estamos a viver uma rápida fase de transição, uma “mudança de época” em que, enquanto alguns disputam o futuro das novas tecnologias e outros se dedicam à reflexão sobre elas, a maioria das pessoas permanece a aguardar, observa de longe, simplesmente esperando que tudo corra bem. Exatamente por isso, impõem-se à nossa consciência questões decisivas, que não podem já ser evitadas: Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos?»[29]. As características gerais dessa mudança foram destacadas pelo Santo Padre: «a inteligência artificial e outras inovações remodelam a nossa compreensão do trabalho e das relações, inclusive levantando questões sobre a identidade humana. A degradação ecológica ameaça a nossa casa comum. Os sistemas políticos muitas vezes não respondem ao clamor dos pobres. Populismo e polarização ideológica aprofundam as divisões entre as nações. Muitos são atingidos pelo consumismo, individualismo e indiferença»[30]. A isso pode-se acrescentar também a crescente disparidade econômica, que, às vezes, leva à desestabilização de regiões inteiras. Trata-se de fatores globais que acarretam profundas mudanças sociais. Tais transformações afetam praticamente todos os contextos culturais e não poupam nem mesmo a Igreja, pois ela está encarnada na história e participa da vida dos povos.

46. Por um lado, de fato, o apelo exercido por um estilo de vida economicamente confortável e a legítima aspiração a melhores condições de vida, favorecida também pelo já mencionado desenvolvimento tecnológico, contribuem para a difusão de mentalidades materialistas e individualistas em todos os continentes. Isso, juntamente com outros fatores, alimenta, em nível global, o fenômeno das migrações, muitas vezes marcado por aspectos dramáticos. Por outro lado, esses mesmos processos, inclusive nos países de evangelização antiga, favoreceram a formação de contextos multiculturais nos quais, ao lado do secularismo, coexistem expressões culturais próprias de diferentes povos, chamados a enfrentar o desafio de uma convivência pacífica. É, portanto, necessário reconhecer que tais dinâmicas não são vividas de maneira uniforme nas diversas regiões do planeta. Da mesma forma, deve-se ressaltar que a relação com a modernidade ocidental — que caracteriza sobretudo um perfil específico da Igreja — se manifesta de maneiras diferenciadas, dependendo das culturas às quais pertencem as diversas comunidades cristãs. Essa realidade é reconhecida pelo Papa Leão XIV: «o Povo de Deus não é composto apenas por muitos povos, mas é constituído, no seu seio, por funções, vocações, culturas e tradições diversas, chamadas a apoiar-se e a enriquecer-se mutuamente. […] Pertence intimamente à vida da Igreja a tensão fecunda entre a universalidade da missão e o enraizamento local: ela traz dentro de si o horizonte do mundo inteiro, assumindo as questões de cada contexto como lugar concreto onde o Evangelho se faz história»[31]. Pode-se concluir, portanto, que um dos aspectos mais relevantes da mudança de época diz respeito ao estabelecimento de uma nova relação entre a fé – e, portanto, sua transmissão – e as culturas.

A crise da transmissão da fé

47. Um aspecto característico da mudança de época que afeta, por diferentes motivos, sobretudo o Ocidente — ou seja, aqueles países em que a fé cristã teve também uma relevância sociológica majoritária — diz respeito à crise da transmissão geracional da fé cristã. Isso já havia sido apontado pela Evangelii gaudium: «Também não podemos ignorar que, nas últimas décadas, se produziu uma ruptura na transmissão geracional da fé cristã no povo católico. É inegável que muitos se sentem desiludidos e deixam de se identificar com a tradição católica, que cresceu o número de pais que não batizam os seus filhos nem os ensinam a rezar, e que há um certo êxodo para outras comunidades de fé»[32].

48. Isso tem muito a ver, especialmente na Europa, nos Estados Unidos da América e no Canadá, mas também na Austrália e na Nova Zelândia, com uma fase avançada de secularização, que levou a uma crise significativa do cristianismo vivido no âmbito familiar. Na verdade, cada vez menos pais cumprem a tarefa de colocar seus filhos em contato com a luz viva da mensagem evangélica. É justamente desses contextos familiares que provém a maioria dos jovens, homens e mulheres que, apesar de terem frequentado os ambientes católicos da paróquia, acabam vivendo a transição para a idade adulta com uma atitude de indiferença religiosa substancial. Para essas pessoas que, mesmo tendo recebido o Batismo, perderam o senso cristão da vida, Jesus, sua mensagem de amor, aquela luz que Ele veio irradiar na história humana, já não representa nem um elemento essencial de sua identidade nem um recurso confiável para discernir o que é justo fazer em vista de uma vida humanamente digna.

49. Isso não diz respeito, porém, apenas ao chamado Ocidente avançado. Na Europa oriental, por exemplo, que passou pela grave provação dos regimes totalitários comunistas e pela consequente instauração de uma sociedade baseada no ateísmo de Estado – ainda que os efeitos não tenham sido os mesmos em todos os lugares – foi a geração dos atuais pais que sofreu com a interrupção da transmissão da fé. Isso é atestado, em particular, pelos bispos dos territórios da antiga União Soviética, que puderam constatar «que a fé havia passado das avós […] para os netos, mas sem o envolvimento direto da geração intermediária. Em consequência disso, a geração dos “netos” não encontrou nos pais uma fé vivida na experiência cotidiana»[33]. Testemunhos semelhantes são oferecidos também pelos bispos da Albânia[34]. Por isso, concluem os bispos da Igreja greco-católica da Hungria, «não podemos mais considerar como certo que os pais transmitam automaticamente a fé aos seus filhos. O que no passado se revelava eficaz, na situação atual não produz mais os mesmos frutos»[35].

50. Essa ruptura na transmissão da fé na família também é observada na América Latina e no Caribe, onde se manifesta sobretudo como uma interrupção da continuidade orgânica entre família e sociedade. De fato, como observam os bispos do Chile: «Durante décadas, considerou-se natural que houvesse uma continuidade entre família, escola, cultura e comunidade eclesial. Nesse contexto, a fé podia ser descrita como algo que se transmitia de maneira relativamente orgânica de uma geração para outra»[36]. A esse respeito, os bispos das Antilhas observam um enfraquecimento da continuidade entre gerações[37], sobretudo no que diz respeito à catequese e à prática sacramental. Em outro contexto, como o do Panamá, onde a fé ainda está bem presente nas manifestações populares e nos momentos importantes da vida, percebe-se que ela «não é mais transmitida de forma natural dentro das famílias»[38]. Na Colômbia, assim como em outros lugares do planeta, são os avós que suprem as lacunas da catequese doméstica, em paralelo com aquela paroquial[39]; em outras regiões, por outro lado, por motivos ligados à cultura local, chega-se até mesmo a adiar o batismo dos filhos para uma idade mais adulta, como no caso da Amazônia peruana[40]. Em suma, todos esses depoimentos mostram que uma espécie de “automatismo” na transmissão da fé deixou de existir.

51. Um problema semelhante afeta também a maioria das Igrejas da Ásia, sobretudo nas regiões tecnologicamente mais avançadas. Nesses casos, porém, trata-se de um cristianismo que sempre foi minoritário no âmbito social e que só recentemente vem enfrentando algumas dificuldades na transmissão da fé no seio da família. Na Coreia, por exemplo, os bispos observam que, devido à preocupação dos pais, sobretudo com a carreira acadêmica e profissional dos filhos, a tarefa da catequese dos mais jovens é assumida principalmente pelos avós[41]. Também os bispos da Malásia, Singapura e Brunei denunciam a prioridade dada às exigências da carreira, enquanto a formação espiritual é progressivamente reduzida ao uso pessoal dos meios modernos de comunicação[42]. Em Bangladesh, observa-se uma situação semelhante, agravada ainda mais por um contexto social de maioria muçulmana[43]. No Japão, por outro lado, encontram-se dificuldades, em certos aspectos, semelhantes às do mundo ocidental, sobretudo no que se refere à catequese paroquial e à grande difusão dos matrimônios entre pessoas pertencentes a tradições religiosas diferentes que, de certa forma, dificultam a transmissão da fé no seio da família[44]. Isso também ocorre nos países da Ásia Central, que outrora pertenciam ao bloco soviético, nos quais a Igreja permaneceu, no entanto, uma realidade minoritária e vive condições análogas às das comunidades da Europa Oriental, onde, por várias décadas, sobreviveu, sob regimes totalitários, uma «Igreja do silêncio»[45].

52. Apesar da grande variedade de contextos, nem mesmo a África está isenta de dinâmicas que interrompem a transmissão geracional da fé. Em primeiro lugar, isso se deve a uma certa secularização dos costumes induzida pela influência de um estilo de vida ocidental, adotado sobretudo pelas gerações mais jovens. Existem, no entanto, também outros fatores, ligados principalmente à relação com as culturas locais. Em particular, pode-se constatar que uma obra de inculturação do Evangelho não plenamente realizada, apesar das manifestações públicas de religião ainda difundidas na vida social, conduz a uma fé superficial, desprovida de raízes e mais exposta a influências externas. É o que testemunham, por exemplo, os bispos da África do Sul: «apesar de o Cristianismo ser amplamente difundido, ele permanece frequentemente em um nível superficial, necessitando de uma encarnação mais profunda do Evangelho na espiritualidade africana»[46]. Portanto, um dos principais desafios para a transmissão da fé, que caracteriza de maneira transversal o continente africano, diz respeito à crescente concorrência, cada vez mais agressiva, exercida por movimentos religiosos de diversas origens e ao retorno às práticas religiosas tradicionais, mesmo após o batismo[47].

53. Sem entrar na complexidade das causas que geraram tais transformações, é dentro desse contexto de verdadeira reescrita das condições fundamentais da existência humana que deve ser situada a crise da transmissão geracional da fé e o desafio que ela representa para a Igreja. No passado, tais condições eram interpretadas sobretudo a partir do Cristianismo, tanto na sociedade como um todo quanto no seio das comunidades individuais. De maneira mais geral, é preciso reconhecer que não está em crise apenas a transmissão da fé, mas também uma certa visão do ser humano e de seus valores fundadores e fundamentais e essenciais, que havia encontrado no próprio Evangelho sua plenitude. A crise da modernidade, símbolo da mudança de época, contribuiu assim para o surgimento de uma nova cultura, que passou a competir com as estruturas tradicionais de transmissão da fé. Isso levou, por sua vez, à crise do chamado modelo de cristandade, acompanhada pela percepção generalizada, em diversas regiões do mundo, de que a tarefa dos sacerdotes se limita frequentemente à “manutenção” das estruturas existentes, quando o mundo ao seu redor mudou radicalmente.

Uma nova cultura difundida

54. Partindo dessa situação, a Evangelii gaudium convida à seguinte constatação: «Novas culturas continuam a formar-se nestas enormes geografias humanas [as metrópoles] onde o cristão já não costuma ser promotor ou gerador de sentido, mas recebe delas outras linguagens, símbolos, mensagens e paradigmas que oferecem novas orientações de vida, muitas vezes em contraste com o Evangelho de Jesus. Uma cultura inédita palpita e está em elaboração na cidade. O Sínodo [de 2012 sobre a nova evangelização] constatou que as transformações destas grandes áreas e a cultura que exprimem são, hoje, um lugar privilegiado da nova evangelização. Isto requer imaginar espaços de oração e de comunhão com características inovadoras, mais atraentes e significativas para as populações urbanas. Os ambientes rurais, devido à influência dos mass-media, não estão imunes destas transformações culturais que também operam mudanças significativas nas suas formas de vida»[48].

55. Trata-se, portanto, de refletir sobre a questão da transmissão da fé no contexto dessa cultura inédita que hoje se expande do coração das cidades em direção às periferias e atinge também os ambientes rurais. Trata-se de uma cultura generalizada e profundamente influente, como observam os bispos dos Estados Unidos da América: hoje os fiéis «tendem a ser mais absorvidos pela cultura do que pela fé. A cultura, por meio das redes sociais e do discurso público, molda a maneira de pensar dos católicos [...] mais do que a própria fé, a tradição e a devoção»[49]. O mesmo fenômeno se observa em muitos outros contextos, sobretudo naqueles mais marcados pela cultura ocidental e por um estilo de vida urbano. Conforme denunciam os bispos da Romênia, a rápida secularização dessas sociedades faz com que «a falta de prática religiosa não seja mais percebida socialmente como uma ausência a ser justificada»[50]. Para os países de evangelização antiga, portanto, já se pode falar de sociedades pós-cristãs.

56. A tendência dessa cultura inédita parece consistir na exaltação da “soberania do eu”, que pretende sentir-se autônomo e livre para administrar todos os aspectos de sua existência, submetendo às suas necessidades os outros seres humanos e a própria realidade que o rodeia. Trata-se da difusão de um individualismo cada vez mais acentuado, que gera separação, divisão, inveja, ciúme, abuso de poder, narcisismo e egolatria. Vêm à mente as palavras contundentes da encíclica Fratelli tutti: «O individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade. Nem pode sequer preservar-nos de tantos males, que se tornam cada vez mais globais. Mas o individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer. Ilude. Faz-nos crer que tudo se reduz a deixar à rédea solta as próprias ambições, como se, acumulando ambições e seguranças individuais, pudéssemos construir o bem comum»[51].

57. Esse individualismo generalizado é talvez um dos efeitos mais evidentes daquele longo processo de secularização que atingiu a consciência humana contemporânea, especialmente nos contextos ocidentais, privando-a do fôlego e do horizonte da transcendência. Como afirma a Evangelii Gaudium, o «processo de secularização tende a reduzir a fé e a Igreja ao âmbito privado e íntimo. Além disso, com a negação de toda a transcendência, produziu-se uma crescente deformação ética, um enfraquecimento do sentido do pecado pessoal e social e um aumento progressivo do relativismo; e tudo isso provoca uma desorientação generalizada, especialmente na fase tão vulnerável às mudanças da adolescência e juventude»[52].

58. Tudo isso, naturalmente, tem repercussões no processo de transmissão da fé. Entre os fenômenos apontados pelos bispos, além das dificuldades já mencionadas relacionadas à família, há uma separação substancial entre o indivíduo e a comunidade, como observado pelos bispos espanhóis: «O indivíduo e a família sofrem as consequências da crise cultural e social que acompanha tal processo e, por sua vez, tornam-se a causa dessa crise, por motivo do enfraquecimento da transmissão da fé e da consequente fratura dos vínculos indispensáveis para a vida em sociedade»[53]. Isso significa que o indivíduo tem dificuldade em inserir-se em uma tradição que o precede, em um “nós” que dá forma não apenas ao seu pensamento e ao seu sentimento, mas também à sua crença. Por consequência, os mais jovens, sobretudo, ficam à mercê das modas do momento, como observam os bispos do Brasil: «A progressiva perda do senso de pertença eclesial, associada à difusão de formas subjetivas de religiosidade, tem fragilizado os processos tradicionais de iniciação cristã. Nesse contexto, não se pode mais pressupor que o batismo conduza automaticamente a uma fé madura e integrada à vida comunitária»[54]. Como consequência, nesses contextos, a fé é percebida sobretudo como um fato privado, como destacam os bispos austríacos: «A religião está cada vez mais sendo privatizada em nossa sociedade, com a tendência de afastá-la do espaço público. [...] Não é possível, por assim dizer, enterrar a experiência cristã no coração sem que isso tenha efeitos sobre a realidade do mundo e da sociedade»[55]. Tudo isso é ainda mais agravado naqueles países, como a França e o Canadá, nos quais o laicismo se expressa também no plano legislativo, limitando a liberdade de manifestar a própria fé em locais públicos.

As tecnologias digitais

59. Um dos sinais mais evidentes da mudança de época que estamos vivendo é, sem dúvida, a difusão das tecnologias digitais. Estas, como observa o Papa Leão XIV na Magnifica humanitas, levaram ao surgimento de uma «situação nova, em que o poder e a disseminação das tecnologias emergentes se inserem no curso da vida quotidiana, moldam os processos de decisão e incidem profundamente no imaginário coletivo»[56]. Em particular, prossegue o documento, a «propagação dos meios de comunicação digitais gera uma cultura do imediato e da hiperestimulação, que fomenta cansaço, tédio e apatia face ao esforço necessário para procurar a verdade»[57]. Como já observou o Sínodo sobre a sinodalidade no Relatório de Síntese da primeira Sessão de 2023, «a cultura digital representa uma mudança fundamental na maneira como concebemos a realidade e nos relacionamos conosco mesmos, uns com os outros, com o ambiente que nos rodeia e também com Deus»[58]. Sobretudo nas novas gerações, essa cultura caracteriza-se não apenas, como frequentemente se destaca, por um acesso mais amplo ao conhecimento, mas também por uma mudança nas próprias categorias de pensamento e, em última análise, na maneira de se relacionar com a realidade. Além disso, se considerarmos os cenários abertos pela irrupção da inteligência artificial, surge o risco cada vez mais concreto, como lembrou o Santo Padre, de que tal cultura leve a «alterar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana, que por vezes temos como garantidos. Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas. O desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico»[59]. Isso tem consequências relevantes para a inculturação da fé.

60. A difusão das tecnologias digitais e o avanço da inteligência artificial, como é natural, também afetam a fé e a religião. Se, por um lado, no mundo digital não faltam oportunidades para compartilhar testemunhos de vida e experiências espirituais, além de permitir uma difusão mais ampla dos conteúdos da catequese em comparação com os meios disponíveis no passado, as novas tecnologias oferecem, sem dúvida, possibilidades inéditas de evangelização. Por outro lado, porém, em alguns contextos, o anúncio de fé corre o risco de se tornar desencarnado, desligado da vida concreta ou ligado a ideologias promovidas por minorias barulhentas. Isso pode levar a distorções da própria fé ou da consciência, ou induzir as pessoas a construir uma chamada fé “à sua própria medida”, moldada segundo seus próprios gostos e preferências, em vez de se basear no ensinamento da Igreja.

61. Além disso, observou-se que a cultura digital tende a remodelar algumas categorias fundamentais de pensamento, como o espaço, o tempo e a autoridade, que constituem elementos essenciais do próprio conceito de tradição. Portanto, ao mudar a forma de conceber a tradição, a transmissão da fé não pode deixar de ser transformada desde suas bases. No que diz respeito ao espaço, como já mencionado, o senso de pertencimento a um contexto local e concreto se atenuaria, embora não desaparecesse, pois as pessoas estão, ao mesmo tempo, inseridas em uma rede global, na qual as distâncias físicas parecem relativizadas, se não mesmo superadas. No que diz respeito ao tempo, mudaria, por outro lado, o próprio significado da memória: o fato de todos os conteúdos publicados na rede permanecerem indefinidamente, juntamente com a rapidez que caracteriza as trocas entre as pessoas, contribui para a perda de um senso genuíno da história e do passado, pois tudo é nivelado em uma espécie de presente eterno. Isso torna os usuários da rede particularmente sensíveis às modas do momento.

62. No que diz respeito à autoridade, é preciso prestar muita atenção à advertência do Papa Leão XIV em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas: «Ferramentas que poderiam favorecer o debate e a participação são frequentemente utilizadas para construir narrativas distorcidas e anular as distinções entre o verdadeiro e o falso, misturando dados e opiniões. A desinformação não surge com a IA, embora nela encontre hoje um poderoso multiplicador. A possibilidade de manipular conteúdos, imagens e vídeos expõe os cidadãos a perspectivas parciais ou enganosas. O problema diz respeito à dimensão cultural e moral, uma vez que a qualidade da comunicação pública depende diretamente da confiança social e tem impacto sobre ela. Com efeito, uma informação verdadeira não surge dum controle centralizado ou automatizado. No discurso público, a verdade factual – uma vez que requer averiguação, correspondência com as fontes e responsabilidade argumentativa – tem uma dimensão racional; uma vez que requer averiguação, correspondência com as fontes e responsabilidade argumentativa; mas é, sobretudo, relacional: constrói-se através de vínculos de confiança e experiências partilhadas, num confronto honesto com os outros e o mundo»[60]. Portanto, o acesso generalizado a múltiplas fontes de conhecimento e, ao mesmo tempo, a presença de um grande número de vozes colocadas todas no mesmo plano, cujo único critério de distinção é a eficácia comunicativa, colocam em séria crise a credibilidade das instituições tradicionais, pois, para muitos, já não está claro quem é realmente capaz de oferecer uma palavra autorizada sobre as questões fundamentais da vida humana.

Novas fronteiras da evangelização

63. Uma visão realista dessa situação não deve, porém, levar ao desespero quanto ao futuro da Igreja. Entre as oportunidades que o Espírito Santo oferece no atual contexto de mudança de época, há, de fato, a de uma adesão à fé mais consciente e convicta, como afirmam os bispos belgas: trata-se de «uma oportunidade positiva para permitir que as pessoas optem conscientemente por aprofundar sua fé»[61]. Uma atitude semelhante é encontrada também em um contexto geograficamente distante, como o do Chile, cujos bispos observam que «a fé não pode mais ser dada como certa como uma herança cultural estável, nem como adesão espontânea a um universo simbólico compartilhado. Pelo contrário, parece ser uma proposta que deve ser acolhida com liberdade, acompanhada nos diversos percursos e comprovada no plano existencial»[62]. Além disso, é importante não esquecer um fenômeno que está afetando as regiões mais secularizadas da Europa e da América, ou seja, o número crescente de conversões e retornos à Igreja, sobretudo por parte de jovens e adultos jovens. Particularmente relevante é o caso da França, onde, diante de um declínio geral dos batismos na infância e da prática religiosa, registra-se um crescimento excepcional e constante dos pedidos para receber o sacramento do Batismo por parte de jovens e adultos. Os resultados de uma pesquisa realizada a pedido da Conferência Episcopal Francesa revelam que, em relação ao ano anterior, o número de adultos que receberam o Batismo em 2026 cresceu 28%, de modo que esse número mais do que triplicou em comparação com os dados de 2016. Como já mencionado, esse fenômeno diz respeito sobretudo às novas gerações: a grande maioria tem menos de 40 anos e, desses, cerca de metade está na faixa etária entre 18 e 25 anos. De acordo com os depoimentos coletados, entre as motivações que levam a solicitar o sacramento estão o encontro com a fé após um momento de crise (por exemplo, um luto ou uma doença), ter vivido experiências espirituais e de beleza, ou ainda o contato com outros fiéis, tanto no âmbito pessoal quanto nas redes sociais[63].

64. Em termos estatísticos gerais, esse fenômeno ainda atinge porcentagens relativamente limitadas em relação à população total; no entanto, isso não significa que não se trate de eventos significativos e sempre motivo de alegria. É preciso, porém, ressaltar que uma visão mais ampla da situação sugere a adoção de uma atitude prudente ao avaliar essa realidade. De fato, se, por um lado, registra-se um aumento efetivo na demanda pelos sacramentos da iniciação cristã nessas regiões altamente secularizadas, por outro, constata-se uma dificuldade paralela na perseverança dos neófitos, que, muitas vezes, após um breve período após a recepção do Batismo, retornam a um estado de indiferença prática. Por essa razão, embora seja oportuno evitar atitudes triunfalistas a esse respeito, não se pode negar que tais fenômenos constituem sinais concretos de esperança e de vitalidade evangélica. Ao mesmo tempo, a situação descrita convida a redescobrir a importância da comunidade no acolhimento e no acompanhamento dos novos fiéis.

65. É possível constatar como, nesses casos, o anúncio evangélico, realizado das mais variadas formas — desde o passa-palavra ao convite para uma peregrinação, passando por uma presença ativa nos novos meios de comunicação —, permite acolher uma autêntica busca de sentido que renasce em meio à asfixia da imanência. Essa busca pode se apresentar sob muitas formas, que não devem ser menosprezadas: a busca por uma maior amplitude do coração, a necessidade de paz e harmonia com o mundo, o desejo de consolo e cura, as experiências de ruptura e de conflito que levam a recomeçar, novas formas de beleza, uma certa recuperação do antigo e das tradições, além de muitos outros exemplos que poderiam ser multiplicados. Trata-se de realidades que devemos contemplar com gratidão, reconhecendo nelas a obra do Espírito Santo, que continua a agir nos corações das pessoas.

66. Reafirma-se, portanto, essencialmente a necessidade de transmitir a fé a partir do kerygma. Isso vale tanto para os países secularizados de antiga tradição cristã quanto para aqueles em que a Igreja se caracteriza geralmente como minoria, por exemplo, na Ásia. De fato, muitos países asiáticos também são afetados pela secularização e pelo individualismo, sobretudo nas regiões que passam por um rápido crescimento econômico. No entanto, o impacto dessas influências culturais sobre as comunidades de fiéis é diferente daquele observado nas sociedades de tradição cristã. Justamente o fato de serem muitas vezes minoritárias no âmbito social (com algumas notáveis excessões, como as Filipinas e o Timor Leste) levou as Igrejas na Ásia a se desenvolverem como comunidades bem definidas do ponto de vista sociológico; isso favoreceu a consolidação de uma identidade forte, que lhes permitiu atravessar a história apesar de contextos por vezes hostis ou marcados por verdadeiras perseguições. Na atual situação de mudança de época, esse fato apresenta, do ponto de vista da transmissão da fé, duas ordens de consequências: por um lado, as comunidades cristãs não são imunes à cultura secularizada generalizada acima descrita, o que provoca, portanto, uma erosão da prática religiosa, sobretudo nas novas gerações; por outro lado, elas são chamadas a superar uma adesão ao cristianismo baseada na mera inércia da pertença social[64], para que ela se torne uma escolha pessoal e consciente, capaz de orientar suas próprias escolhas de vida. Isso vale especialmente para regiões que se destacam pela presença de culturas milenares, como a Índia ou a China, nas quais o esforço de encarnar o anúncio evangélico na vida das pessoas deve confrontar-se com a maneira particular como uma determinada cultura se relaciona com âmbitos como a verdade, o bem e a beleza. A isso se soma a necessidade de repensar a própria maneira de anunciar o Evangelho, privilegiando formas narrativas em vez da simples transmissão de conceitos abstratos. Esse esforço é imprescindível para preparar o terreno do coração de cada ser humano (cf. Mt 13,3-8) para o encontro autêntico com a Boa Nova.

67. Apesar da variedade de situações que caracterizam este vasto continente, também a África se depara com o problema da secularização e do individualismo de origem ocidental, que afetam sobretudo os contextos urbanos e as novas gerações. Nas Igrejas africanas, no entanto, a resposta a tais influências culturais sobre a transmissão da fé insere-se no quadro de dois desafios igualmente exigentes, aos quais já se fez referência: a inculturação do Evangelho nas culturas locais e a “concorrência” do proselitismo por parte de outras religiões. A importância do primeiro aspecto é atestada pelos bispos da Nigéria: «A presença significativa de clero autóctone facilitou a transmissão da fé no seio das culturas locais, pois eles atuam como modelos de referência com os quais é possível se identificar e como guias espirituais, preenchendo eficazmente a lacuna entre os valores tradicionais nigerianos e os ensinamentos católicos»[65]. Outra iniciativa valiosa são as «Pequenas Comunidades Cristãs» (Small Christian Communities), que, conforme relatado pelos bispos da Tanzânia, «atuam como unidades primárias para a oração, a catequese e a vida comunitária. A fé é frequentemente transmitida por meio de uma abordagem que vê a comunidade como uma família»[66].

68. Como já foi mencionado, a transmissão da fé na África (mas também em outros lugares) sofre com a ação antagonista de grupos religiosos que propõem um “Evangelho da prosperidade”, aproveitando-se das necessidades materiais imediatas. Em regiões como a Costa do Marfim, por exemplo, observa-se, por um lado, a busca por movimentos que garantam bem-estar e felicidade, enquanto, por outro, registra-se o retorno de muitos batizados às práticas tradicionais e esotéricas[67].

69. É preciso reconhecer que, muitas vezes, a atratividade de tal proposta decorre de algumas carências objetivas nas formas de anúncio do Evangelho, que nem sempre conseguem levar em conta de maneira adequada as necessidades reais e concretas das famílias. Isso implica que as comunidades cristãs sejam chamadas a buscar formas saudáveis de apresentar o Evangelho como resposta eficaz também às necessidades mais tangíveis, seguindo o exemplo de Jesus, que percorria a terra de Israel «fazendo o bem e curando a todos» (At 10,38), demonstrando assim saber responder não apenas às questões últimas, mas também às “penúltimas”. De fato, nem sempre esses anseios têm uma origem egoísta (por exemplo, a preocupação com o bem-estar dos filhos, o cuidado com a saúde, o desejo de restaurar os laços familiares, etc.). Descobrir que a Igreja pode oferecer uma ajuda espiritual concreta diante dessas preocupações prepara o coração para receber o anúncio kerygmático com vigor renovado.

70. Em outros contextos africanos, por outro lado, como na República Democrática do Congo, além das pressões exercidas por grupos fundamentalistas, as comunidades cristãs também sofrem a ameaça de uma expansão agressiva de grupos islâmicos[68]. Todos esses fatores exercem influência sobre muitos fiéis que não receberam uma formação sólida na fé ou não vivenciaram em primeira mão o efeito transformador do kerygma em suas vidas.

71. Não podemos, por fim, ignorar o fato de que, em muitas partes do mundo, os crentes em Jesus ainda são vítimas de verdadeiras perseguições por parte de grupos religiosos extremistas. A esse respeito, é urgente reiterar que toda forma de violência exercida em razão da crença professada é uma violação inadmissível da dignidade humana, pois «quem, para legitimar o terrorismo, a violência ou a guerra, usa o nome de Deus, trai a sua imagem: fazer guerra em nome da religião significa, na realidade, ferir a própria religião»[69]. Trata-se de perversões da mensagem religiosa que devem ser abertamente denunciadas e que toda autoridade política é chamada a reprimir sem hesitação.

Capítulo IV

A centralidade do kerygma

72. Diante da situação acima descrita, parece totalmente natural que, para os crentes, se trate de recomeçar a partir de uma grande época de anúncio do Evangelho, dando finalmente seguimento ao que o Papa Francisco pedia na Evangelii gaudium a respeito da urgência de toda a Igreja dar início a uma nova etapa evangelizadora. Esse convite foi reiterado pelo Papa Leão XIV, que reconhece a necessidade de «uma missão cristocêntrica e kerigmática, que nasce de um encontro com Cristo capaz de transformar a vida e que se difunde mais por atração do que por conquista. É uma missão integral, que une o anúncio explícito, o testemunho, o compromisso e o diálogo, sem ceder à tentação do proselitismo nem a uma lógica de mera conservação ou expansão institucional»[70]. Não o fazemos, antes de tudo, para responder a um novo desafio histórico, mas por fidelidade à própria identidade cristã, que não pode deixar de incluir a doação de si na transmissão da luz de Cristo. Tendo tudo isso em vista, é oportuno refletir sobre o tema do anúncio do kerygma e sobre como ele reorienta a vida e a missão da Igreja.

73. A revelação divina, como ensina o Concílio Vaticano II, não é uma simples transmissão de verdades doutrinárias nem uma “instrução” de Deus à humanidade, mas um diálogo de aliança: «Deus invisível, na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele»[71]. Isso faz com que o kerygma, o anúncio fundamental da fé, exija daquele que o acolhe uma resposta que não se limita ao nível intelectual, mas envolve toda a existência no acolhimento do apelo que Deus faz à pessoa para compartilhar Sua própria vida. Justamente porque não se limita apenas ao âmbito cognitivo, mas é dotada, por assim dizer, de um alcance existencial (cf. Jo 17,3), tal resposta é, por sua natureza, um evento de salvação: «Se, pois, com tua boca confessares Jesus como Senhor e, no teu coração creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo» (Rm 10,9).

74. A verdade evangélica, portanto, é salvífica, é viva; mais ainda, é uma pessoa: o próprio Cristo (cf. Jo 14,6). Isso se reflete na estrutura do ato de fé, que se caracteriza, ao mesmo tempo, pela «entrega total»[72] a Cristo do ser humano individual iluminado por sua graça (fides qua) e pelas “coisas em que se crê” (fides quae), que explicitam o conteúdo desse ato de entrega[73]. A correção da exposição da fé e a busca humana de sentido, que nunca se esgota completamente (cf. 1 Cor 15,28), estão intimamente ligadas.

Despertar uma experiência de fé

75. A esse respeito, portanto, vale ainda o que podemos ler na Evangelii gaudium: «na catequese tem um papel fundamental o primeiro anúncio ou kerygma, que deve ocupar o centro da atividade evangelizadora e de toda a tentativa de renovação eclesial. O kerygma é trinitário. É o fogo do Espírito que se dá sob a forma de línguas e nos faz crer em Jesus Cristo, que, com a sua morte e ressurreição, nos revela e comunica a misericórdia infinita do Pai. Na boca do catequista, volta a ressoar sempre o primeiro anúncio: “Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar”. Ao designar-se como “primeiro” este anúncio, não significa que o mesmo se situa no início e que, em seguida, se esquece ou substitui por outros conteúdos que o superam; é o primeiro em sentido qualitativo, porque é o anúncio principal, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, duma forma ou doutra, durante a catequese, em todas as suas etapas e momentos»[74].

76. A primeira reflexão que as palavras que acabamos de ouvir nos sugerem é que o anúncio da verdade fundadora e fundamental do cristianismo — Jesus Cristo, vivo, te ama e deu a vida para te salvar — deve ocorrer de forma a suscitar uma experiência de fé, capaz de dar início a um processo de formação da própria identidade cristã. Assim, delineia-se uma tríplice etapa que deve caracterizar uma transmissão da fé recentrada no kerygma: em primeiro lugar, o anúncio central da presença e do amor de Cristo Ressuscitado; depois, a experiência interior de sua presença e de seu amor, suscitada por esse anúncio; por fim, o início de um caminho de conhecimento e de amor a Cristo, possibilitado pela acolhida do anúncio por parte de quem o recebe com coração livre e sincero.

77. Não se trata, portanto, de uma mera transmissão de conteúdos, por mais importantes que sejam, mesmo que digam respeito à salvação de cada ser humano. Deve ser um anúncio “perfomativo”, capaz de tocar verdadeiramente o coração daqueles que o recebem e de impulsionar seus passos em direção ao coração do Senhor Jesus, onde é possível contemplar e entrar em contato com aquele fogo de amor que Ele veio lançar sobre a terra (cf. Lc 12,49). O anúncio do kerygma deve fazer arder os corações daqueles a quem se dirige, segundo o modelo sublime que o próprio Jesus realiza diante dos discípulos de Emaús: «E diziam um para o outro: “Não estava ardendo o nosso coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos abria as Escrituras?”» (Lc 24,32).

78. A ligação entre o kerygma e a catequese, no contexto de uma mudança de época, é muito estreita, a ponto de a segunda «nem sempre poder ser distinguida do primeiro anúncio», pelo que ela «é chamada a ser, antes de tudo, um anúncio da fé»[75]. Justamente a esse respeito, pode ser útil relembrar uma situação que já se tornou frequente. Como já foi observado, acontece cada vez com mais frequência que os pais cristãos não consigam mais transmitir a fé aos próprios filhos; no entanto, o simples fato de pedir o Batismo para os próprios filhos ou de acompanhá-los à catequese já manifesta uma certa presença da fé e um testemunho frágil, mas verdadeiro, que não devem ser menosprezados. Nesses casos, é até mesmo possível que as crianças ou os adolescentes que chegam à catequese ainda não tenham recebido um primeiro anúncio explícito do Evangelho. Justamente por isso, a catequese torna-se o lugar onde esse anúncio pode ser proposto novamente, confirmando a necessidade de uma profunda renovação kerigmática da própria catequese, pois ela, não raro, não consegue suscitar uma experiência intensa de encontro com Cristo, que possa perdurar no tempo[76].

79. Por outro lado, é um fato que o elevado número de crianças e adolescentes que se afastam da Igreja e dos sacramentos imediatamente após concluírem o percurso de iniciação cristã ou o percurso na escola católica indica que a catequese ainda tem dificuldade em encontrar os caminhos mais adequados para motivar um encontro pessoal sólido e duradouro com Cristo.

A questão da linguagem

80. No contexto desta mudança de época, o verdadeiro desafio para a Igreja é que a palavra do Evangelho seja assumida «como critério vivente a fim de orientar escolhas concretas, inspirar caminhos de conversão pessoal e comunitária, promover reformas de estruturas e apoiar novos modos de testemunho evangélico na vida pública»[77]. Nesse sentido, valendo-se dos numerosos documentos e recursos que o Dicastério para a Evangelização preparou[78], parece hoje mais urgente do que nunca analisar, com olhar sapiencial, as formas atuais de organizar a catequese, para que a transmissão da fé não fique confinada a linguagens que possam ser rotuladas como “escolásticas”, “dogmáticas” ou “moralistas”. Com demasiada frequência, de fato, uma comunicação repetitiva e autorreferencial da mensagem evangélica corre o risco de não tocar o coração dos fiéis. Por isso, a linguagem da fé não deve limitar-se a uma exposição fria de conceitos; deve certamente possuir aquela clareza que facilita a compreensão, mas, acima de tudo, deve caracterizar-se como um apelo do coração, lembrando que «o Senhor salva-nos falando ao nosso coração a partir de seu Sagrado Coração»[79] e que « “o programa do cristão [...] é ‘um coração que vê’”»[80]. Só assim será uma linguagem que realmente provocará algo na vida das pessoas, pois será a expressão da própria voz do Senhor, o único que pode tocar verdadeiramente o coração das pessoas: «Fala-me ao coração a linguagem da verdade; somente tu o podes fazer»[81].

81. Em resumo, para que a transmissão da fé seja realmente eficaz, ela deve se configurar como uma relação interpessoal envolvente. Para isso, «deve-se privilegiar a linguagem da proximidade, a linguagem do amor desinteressado, relacional e existencial que toca o coração, atinge a vida, desperta esperança e anseios»[82]. Essa comunicação não pretende falar primeiro, mas nasce, antes de tudo, da escuta, tornando possível uma verdadeira troca de dons entre quem anuncia e quem acolhe o anúncio, facilitando assim o encontro com Cristo que caminha conosco.

82. Isso significa que a transmissão da fé pode se realizar ali onde a linguagem se torna testemunho, tornando-se ela própria um evento do Espírito. Como disse santo Alberto Hurtado, citado na Exortação Apostólica Christus vivit: «“Ser apóstolo não é levar uma tocha na mão, possuir a luz, mas ser a luz. [...] O Evangelho [...], mais do que uma lição, é um exemplo. A mensagem transformada em vida vivida”»[83]. Dessa forma, a Igreja poderá oferecer também hoje uma palavra que seja, ao mesmo tempo, memória e profecia, capaz de reacender o coração dos discípulos ao longo do caminho, acompanhados pelo Mestre, permitindo que a graça suscite aquela adesão mística à fé[84], a respeito da qual permanecem insuperáveis as palavras do profeta Jeremias: «parecia haver no meu coração um fogo devorador, cerrado nos meus ossos. Tentei aguentar, mas não fui capaz» (Jr 20,9).

A formação cristã

83. Do que foi dito decorre que as comunidades de fiéis são fortemente chamadas a promover, em momentos oportunos e inoportunos, uma renovação do anúncio do kerygma. Aliás, ainda na Evangelii gaudium, destacava-se outro aspecto realmente importante a esse respeito: «Não se deve pensar que, na catequese, o kerygma é deixado de lado em favor duma formação supostamente mais “sólida”. Nada há de mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais consistente e mais sábio que esse anúncio. Toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do kerygma que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne, que nunca deixa de iluminar a tarefa catequética, e permite compreender adequadamente o sentido de qualquer tema que se desenvolve na catequese. É o anúncio que dá resposta ao anseio de infinito que existe em todo o coração humano. A centralidade do kerygma requer certas características do anúncio que hoje são necessárias em toda a parte: que exprima o amor salvífico de Deus como prévio à obrigação moral e religiosa, que não imponha a verdade mas faça apelo à liberdade, que seja pautado pela alegria, o estímulo, a vitalidade e uma integralidade harmoniosa que não reduza a pregação a poucas doutrinas, por vezes mais filosóficas que evangélicas»[85].

84. Aqui retorna o grande ensinamento do Concílio Vaticano II a respeito da hierarquia das verdades entre os mistérios cristãos. Lemos, de fato, no número 11 da Unitatis redintegratio que «no diálogo ecumênico, os teólogos católicos, sempre fiéis à doutrina da Igreja, quando investigarem juntamente com os irmãos separados os divinos mistérios, devem proceder com amor pela verdade, com caridade e humildade. Na comparação das doutrinas, lembrem-se que existe uma ordem ou “hierarquia” das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas com o fundamento da fé cristã é diferente»[86]. Essa perspectiva foi ampliada pela Evangelii gaudium para o âmbito do anúncio do Evangelho, da teologia e da proposta moral[87]. Por essa razão, na mudança de época que nos cabe viver, não parece oportuno, no âmbito da comunicação da fé às novas gerações, aos catecúmenos adultos e aos chamados “recomeçantes”, dispersar-se por tantos aspectos da doutrina católica, por mais importantes que sejam, perdendo de vista o que nela há «“de mais sólido, de mais profundo, de mais seguro, de mais consistente”»[88]: o amor de Deus, que é como uma chama capaz de devolver vida, alegria, esperança e confiança a toda existência humana. A essa chama, graças à ação do Espírito, acede-se por meio do encontro — com fé e na fé — com o Senhor Jesus.

85. É justamente ao anunciar o kerygma de maneira renovada e renovadora, apaixonada e apaixonante, que a comunidade de fiéis poderá honrar a tarefa de transmitir, de geração em geração, a luz que Jesus veio trazer à terra.

86. Concretamente, para que possa realmente suscitar uma experiência de fé, o anúncio do kerygma deverá assumir um estilo, uma linguagem e um tom capazes de alcançar as pessoas onde elas se encontram, com seus desejos e seus sonhos, com suas lutas e suas dificuldades. Deve, portanto, ser capaz de apresentar a boa nova do amor e da misericórdia de Deus de tal forma que aqueles que a recebem possam compreender efetivamente que é justamente a eles que esse amor e essa misericórdia se dirigem. É esse o estilo que caracteriza as parábolas do Senhor Jesus, as quais ainda hoje cativam os corações de quem as ouve.

Capítulo V

A transmissão da fé nas comunidades

87. Partindo dessa consideração geral sobre a centralidade do kerygma, é possível fazer algumas observações mais específicas. A primeira, e mais essencial, diz respeito à qualidade da vida comunitária dos discípulos do Senhor. Ela deve refletir um amor sincero entre os irmãos, o cuidado mútuo, uma generosa disponibilidade para com todos, especialmente para com os mais desfavorecidos, um clima de alegria e de festa e, por fim, aquele viver com um só coração e uma só alma (cf. At 4,32), próprio de uma comunidade acolhedora e hospitaleira, capaz, mesmo neste momento de mudança de época, de despertar a atenção de qualquer pessoa e de atraí-la para a experiência da fé cristã. Em um mundo cada vez mais fragmentado, no qual os únicos laços entre os seres humanos que parecem ter espaço são aqueles mediados pelas infraestruturas digitais, torna-se cada vez mais evidente, em muitas pessoas, uma necessidade e um desejo de pertencimento. Não nos bastamos a nós mesmos, e as redes sociais não preenchem nossa natureza original de “animais sociais”. Como crentes, não podemos deixar de manter o coração e as portas abertas a essas novas realidades das pessoas. Aliás, a primeira forma de evangelização ocorre sempre “de pessoa a pessoa”[89].

88. Nesse sentido, parece absolutamente urgente, sobretudo nos países de evangelização antiga, insistir na importância de promover, em cada comunidade eclesial, grupos de escuta, meditação, partilha e oração da Palavra, para cuja realização sejam dedicados horários específicos e fixos, que acompanhem a celebração da Eucaristia dominical. Que as palavras do Papa Francisco sirvam de inspiração: «A frequência assídua da Sagrada Escritura e a celebração da Eucaristia tornam possível o reconhecimento entre pessoas que são parte umas das outras. Como cristãos, somos um só povo que caminha na história, fortalecido pela presença no meio de nós do Senhor que nos fala e alimenta. […] temos urgente necessidade de nos tornar familiares e íntimos da Sagrada Escritura e do Ressuscitado, que não cessa de partir a Palavra e o Pão na comunidade dos crentes. Para tal, precisamos de entrar em confidência assídua com a Sagrada Escritura; caso contrário, o coração fica frio e os olhos permanecem fechados, atingidos, como somos, por inumeráveis formas de cegueira»[90]. A fim de facilitar esse contato dos fiéis com a Sagrada Escritura, nesses grupos bíblicos, poderão ser facilmente adotadas a antiga prática da lectio divina e as modernas metodologias exegéticas.

89. Apesar de todas as mudanças históricas, os principais canais de transmissão da fé continuam sendo os encontros “de pessoa a pessoa”. Por isso, entre os âmbitos em que a fé é transmitida, a amizade assume especial importância, como também atestam os casos mais recentes de conversão. A tradição da Igreja sempre reconheceu o valor educativo das relações fraternas genuínas[91], como também o Magistério recente não deixou de destacar, sobretudo em relação ao caminho de fé das jovens gerações, conforme afirmado, por exemplo, pelo Papa Francisco: «A amizade é um presente da vida e um dom de Deus. Através dos amigos, o Senhor purifica-nos e faz-nos amadurecer»[92]. A amizade, de fato, constitui um espaço privilegiado no qual o testemunho pessoal, a ajuda mútua e a partilha das alegrias e das dificuldades da vida tornam possível uma partilha da fé capaz de envolver toda a existência. Juntamente com a família, uma amizade saudável representa o contexto por excelência de relações autênticas e pode muito bem ser considerada também uma escola de humanidade[93], onde os crentes podem acompanhar-se e apoiar-se mutuamente no seguimento de Cristo.

Liturgia

90. A segunda reflexão relacionada à redescoberta da centralidade do anúncio do kerygma diz respeito à liturgia. Se o coração do anúncio cristão é o encontro com o amor salvífico de Deus em Cristo, a liturgia constitui o lugar privilegiado no qual esse mistério é celebrado e comunicado sacramentalmente. Justamente por isso, ela ocupa um papel central na transmissão da fé, configurando-se como o coração pulsante da vida eclesial, na qual a comunidade se alimenta da Palavra de Deus e do Pão da vida eterna. A esse respeito, é preciso superar uma visão redutora que a considere uma mera moldura ritual da vida eclesial. A liturgia, de fato, é antes de tudo uma experiência de fé, ainda antes de ser um ensinamento, na medida em que permite ao fiel participar de gestos, palavras, silêncios e símbolos, vivenciando de forma viva o mistério de Cristo. Como se afirma em Evangelii gaudium, «a Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da Liturgia»[94]: justamente por meio de sua força simbólica e de sua capacidade de envolver integralmente a pessoa, a liturgia torna-se autêntico lugar de anúncio e de encontro com o Senhor. Na ação litúrgica, e em particular na Eucaristia, somos introduzidos cada vez mais profundamente no mistério pascal, ao mesmo tempo em que se torna visível o caráter sacramental da Igreja, chamada a ser sinal do amor de Deus pela humanidade. Nesse evento sacramental, o encontro com o Ressuscitado torna-se um gesto compartilhado e vital que educa o crente não apenas “informando-o”, mas moldando-o por dentro para que se torne participante do mistério celebrado. Por isso, na liturgia, a fé é transmitida de forma performativa: não se fala apenas de Deus, mas entra-se em relação com Ele. A liturgia é memória e tradição viva, que gera e molda cristãos capazes de testemunhar a salvação encontrada: ao participar da oração litúrgica, entra-se, de fato, em uma história, em uma memória compartilhada que atravessa os séculos. Portanto, celebrar significa, antes de tudo, receber uma fé que foi acreditada, vivida e rezada por outros antes de nós.

91. Essa dinâmica, além disso, destaca a dimensão eminentemente comunitária da liturgia. A fé, de fato, não se transmite apenas por meio do anúncio ou do ensino individual, mas no seio de um povo que celebra. Na liturgia, o crente nunca está isolado, mas inserido em um “nós” que o precede, o acompanha e o transcende. Essa dimensão comunitária constitui um poderoso antídoto contra a atração de um estilo de vida egoísta e individualista, hoje tão difundido em muitos contextos, como já pudemos ver. Justamente por ser uma experiência eclesial e popular, a celebração da fé está intimamente ligada aos processos de inculturação, ou seja, ao esforço de «comunicar cada vez melhor a verdade do Evangelho num contexto determinado, sem renunciar à verdade, ao bem e à luz que pode dar quando a perfeição não é possível»[95]. Aplicada à liturgia, tal perspectiva exige que se preserve a riqueza da tradição simbólica da Igreja, tornando-a, ao mesmo tempo, acessível e significativa para os homens e mulheres de seu tempo, em uma tensão saudável e fecunda entre a fidelidade à tradição e a compreensibilidade da mensagem celebrada.

92. Do ponto de vista da transmissão da fé, portanto, a liturgia reveste-se de importância crucial, de acordo com o antigo adágio lex orandi, lex credendi[96]. Disso se conclui, que a celebração litúrgica não pode se reduzir a uma mera execução formal, mas deve ser uma ação em que os sinais falem realmente à mente e ao coração dos fiéis, expressando de maneira viva e concreta a única fé da Igreja e fortalecendo em cada crente a consciência de ser membro do Corpo de Cristo. Somente por meio de uma participação plenamente consciente, que pressupõe uma educação adequada na linguagem litúrgica, a fé pode ser transmitida não como doutrina abstrata, mas como vida nova que se comunica “por atração” no cotidiano. Testemunha dessa eficácia da liturgia foi também o jovem Agostinho, que, anos depois daquela experiência, pôde escrever: « Quantas lágrimas verti, de profunda comoção, ao maravilhoso ressoar de teus hinos e cânticos em tua igreja! Aquelas vozes penetravam nos meus ouvidos e destilavam a verdade em meu coração, inflamando-o de doce piedade, enquanto corria meu pranto e eu sentia um grande bem-estar»[97]. Por meio da beleza dos sinais e da força da Palavra, portanto, a ação litúrgica torna-se assim a fonte geradora da missão eclesial, capacitando a comunidade a dar razão da esperança que nela habita por meio da credibilidade de uma vida transfigurada pela graça. Por esse motivo, é necessário um cuidado especial com as celebrações e um acompanhamento mistagógico das novas gerações, para que possam compreender e viver plenamente o que celebram na liturgia.

93. Além disso, a liturgia pode ser vivida de diversas maneiras. Existe, de fato, também uma forma própria da piedade popular manifestar uma sensibilidade litúrgica, que se expressa de maneiras diferentes de acordo com as diversas culturas. Para compreender esse fato, pode-se citar um belo relato de Romano Guardini, no qual ele narra sua viagem à Sicília: «Hoje vi algo grandioso: Monreale. […] Quando chegamos lá – era Quinta-feira Santa –, a missa solene já havia passado da consagração. […] O que eu poderia dizer sobre o esplendor desse lugar? […] A multidão estava sentada e observava. […] Quase ninguém lia. Todos viviam no olhar, todos estavam absortos na contemplação. Então ficou claro para mim qual é o fundamento de uma verdadeira piedade litúrgica: a capacidade de captar o “santo” na imagem e em seu dinamismo. Monreale, Sábado Santo. […] De vez em quando, um raio de sol penetrava na abóbada, e então um sorriso dourado permeava o espaço lá em cima. […] O mais belo, porém, era o povo. […] A cerimônia sagrada se prolongou por mais de quatro horas, e mesmo assim sempre houve uma participação viva. Existem diferentes formas de participação orante. Uma se realiza ouvindo, falando, gesticulando. A outra, por outro lado, se dá olhando. A primeira é boa, e nós, no Norte da Europa, não conhecemos outra. Mas perdemos algo que em Monreale ainda existia: a capacidade de viver-no-olhar, de permanecer na visão, de acolher o sagrado a partir da forma e do evento, contemplando»[98].

94. Deve-se dedicar especial atenção para permitir que, em cada diocese, os fiéis e aqueles que se aproximam ou se reaproximam da comunidade de fé possam entrar em contato com as diversas sensibilidades litúrgicas presentes na tradição da Igreja Católica. Respeitando as normas litúrgicas vigentes, os Pastores são chamados a valorizar a riqueza do patrimônio litúrgico católico — pense-se, por exemplo, na variedade de estilos musicais que o caracterizam — de modo a poderem entrar em contato com as diversas sensibilidades de seus contemporâneos. Além disso, deve-se dedicar atenção específica ao acompanhamento que abençoa as fases marcantes da vida humana. Sobretudo no Ocidente, assiste-se a uma perda progressiva da memória coletiva dos ritos e das práticas rituais, em favor de um individualismo muito radical; mas isso não suprime a necessidade antropológica da ritualidade, à qual o ser humano sempre soube responder de diversas maneiras. A comunidade cristã cresce e se edifica por meio das práticas rituais, e o rico patrimônio espiritual da Igreja representa, nesse sentido, um recurso precioso e inesgotável.

O papel do testemunho

95. A terceira consideração essencial diz respeito ao testemunho dos fiéis. Ele se articula em três dimensões fundamentais: o testemunho da santidade, o da proximidade e o da opção preferencial pelos pobres. Em todas as épocas, quem quer que tenha se deparado com o testemunho de um cristão exemplar sempre foi estimulado a descobrir o segredo daquela vida tão particular e diferente da maioria de seus semelhantes. Um crente que vive plenamente as exigências da mensagem cristã é, por si só, uma referência constante à verdadeira luz do mundo, que é Cristo Jesus. Como afirma o Papa Francisco, de fato, a «santidade é o rosto mais belo da Igreja»[99]. Bastaria aqui lembrar apenas as figuras de São Francisco de Assis e de Santa Teresa de Calcutá. É preciso reconhecer, de fato, que nada, como a santidade de seus membros, torna a Igreja mais credível no anúncio e na transmissão da fé. Por essa razão, aliás, fazendo eco à mensagem sobre a santidade do Concílio Vaticano II[100], o Papa Francisco quis reiterar com insistência que o chamado à santidade é o chamado comum de todo cristão: «Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais»[101].

96. Juntamente com o testemunho da santidade, os fiéis são chamados a oferecer, no dia a dia de sua existência, o testemunho de uma proximidade para com todos. Trata-se de uma proximidade construída com os tijolos da hospitalidade, da gentileza, da escuta, da mansidão e da ternura. Segundo a antiga frase do autor latino Terêncio – «Homo sum, humani nil a me alienum puto»[102] – para os crentes, nada que seja verdadeiramente humano deve ser considerado estranho. Todo cristão é chamado a ajudar as pessoas a reler sua própria história no âmbito da grande história da salvação, descobrindo que sua própria vida faz parte da narrativa de Deus. Essa proximidade se torna testemunho quando é exercida em relação a pessoas que vivem em situações de grave sofrimento, físico ou mental. Nesses casos, um gesto de escuta e ternura, aliado a uma palavra de fé, pode abrir amplos espaços para o acolhimento daquela verdadeira luz de Cristo, que tem o poder de libertar das trevas aqueles que estão envoltos nelas. O Papa Leão lembra, de fato, que a «finitude, quando é acolhida na verdade, não empobrece o ser humano, mas o abre ao reconhecimento do rosto de Deus e do outro»[103].

97. Chegamos assim ao testemunho concreto do amor de Deus que os crentes oferecem ao cuidar, de maneira preferencial, dos pobres, dos desfavorecidos e dos excluídos. Como lembrou o Papa Leão XIV, seguindo os passos de seu predecessor, os crentes nunca devem esquecer «a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento a tornarmo-nos próximos dos pobres»[104]. Na verdade, o «cristão não pode considerar os pobres apenas como um problema social: eles são uma “questão familiar”. Pertencem “aos nossos”. A relação com eles não pode ser reduzida a uma atividade ou departamento da Igreja»[105]. Nessa proximidade ativa e concreta com os irmãos e irmãs que vivem na pobreza, a Igreja faz brilhar de maneira eminente aquela chama do amor de Deus por todos que Jesus veio acender na terra e que ainda hoje consegue tocar, muitas vezes silenciosamente, o coração de tantos. Um testemunho particularmente valioso nesse sentido vem dos bispos de Mianmar, recolhido por ocasião da Visita ad limina junto a este Dicastério, em 2 de junho de 2026: nesse país, que carrega as feridas de múltiplos conflitos, a Igreja demonstra sua proximidade com os mais pobres, mesmo que seja simplesmente no silêncio da escuta, sem qualquer distinção de pertencimento religioso – trata-se, de fato, de uma nação de maioria budista. É justamente essa proximidade que desperta, naqueles que não compartilham da fé cristã, o desejo de aprofundar os motivos dessa maneira de lidar com o sofrimento, oferecendo assim aos fieis a oportunidade de falar explicitamente sobre sua experiência com Jesus. Nessa unidade entre caridade e anúncio evangélico, portanto, destaca-se ainda mais claramente a beleza integral da proposta cristã.

Arte e beleza

98. Uma quarta observação específica diz respeito, ainda, à necessidade de dar espaço — no discurso sobre a transmissão da fé — também às múltiplas expressões da criatividade humana, por meio das quais se buscou dar forma àquela tensão em direção à beleza, ao amor e à transcendência que habita, muitas vezes de forma atormentada, o coração humano. Como não pensar, a esse respeito, nas tantas obras da literatura e da poesia capazes de suscitar um encanto sublime, capazes de cativar até mesmo as mentes mais distraídas pelas modernas tecnologias de comunicação? Justamente sobre a importância de se abrir à beleza, Hans Urs von Balthasar insistiu de maneira especial: «Na forma luminosa do belo, o ser do belo torna-se visível como em nenhum outro lugar. Por isso, todo conhecimento ou tendência espiritual deve ser acompanhado por um momento estético»[106].

99. Nessa perspectiva, deve-se dedicar atenção especial à música, a qual, como expressão privilegiada da via pulchritudinis, constitui uma linguagem essencial para a transmissão da fé, capaz de tocar as cordas mais profundas do coração humano e de comunicar a verdade do Evangelho por meio da beleza[107]. Não se trata de um mero ornamento estético das celebrações, mas de um instrumento missionário que atua por atração, tornando perceptível a glória do Ressuscitado, sobretudo onde as palavras têm dificuldade em chegar. De fato, como observou o Papa Leão XIV, «a música é como uma ponte que nos conduz a Deus. Ela é capaz de transmitir sentimentos, emoções, até os movimentos mais profundos da alma, elevando-os e transformando-os numa escadaria ideal que liga a terra ao céu»[108]. Por meio da música, a fé encontra formas particulares de expressão que um anúncio puramente verbal, por si só, nem sempre consegue alcançar. Essas considerações nos levam a exortar os artistas e escritores crentes a um esforço criativo especial, para manifestar a beleza da fé e da experiência espiritual cristã.

As fases da vida

100. Uma última observação diz respeito às diversas fases da existência de cada ser humano (infância, adolescência, juventude, idade adulta, velhice). Elas constituem, de fato, uma espécie de contínua “reapropriação” do dom do próprio nascimento no mundo e, assim como este, são experiências ao mesmo tempo surpreendentes e desafiadoras. A comunidade eclesial deverá, portanto, desenvolver um anúncio do Evangelho mais atento às diferentes idades da vida, levando em devida consideração as diversas situações de crescimento e de novidade que cada uma delas traz consigo. Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que muitas pessoas se aproximam da Igreja apenas por ocasião das celebrações que acompanham alguns momentos fundamentais da vida: batismos, matrimônios e funerais. Por isso, é indispensável reconhecer que, nessas circunstâncias, se oferece uma oportunidade preciosa de alcançá-las com um anúncio do kerygma capaz de tocar seus corações, evitando palavras que não consigam gerar nenhum encontro.

101. A questão, já discutida, da ruptura geracional na transmissão da fé assume particular relevância. A esse respeito, a comunidade dos fiéis encontra na pastoral dos adultos — que também são os pais das novas gerações — um terreno novo e um contexto repleto de desafios particularmente complexos. De fato, se no passado, pelo menos nos países de antiga tradição cristã, o anúncio do kerygma era dirigido quase exclusivamente aos mais jovens, hoje surge cada vez mais a urgência de acompanhar pessoas — inclusive aquelas batizadas ainda na infância — que vivem distantes da comunidade eclesial e que, embora sintam um chamado interior para uma vida evangélica, enfrentam dificuldades para compreender e assimilar a linguagem da Igreja. Nesses casos, a transmissão da fé às novas gerações passa pela evangelização dos adultos. De fato, como podem os adultos transmitir a fé às novas gerações se eles próprios não a vivem em nível pessoal? Outras dificuldades podem surgir, além disso, de situações marcadas por diversas formas de pobreza existencial, sobretudo em contextos urbanos caracterizados por uma fragmentação acentuada ou em áreas rurais isoladas. Tudo isso interpela a Igreja em sua totalidade, levando-a a tornar-se cada vez mais sinodal e missionária, sobretudo por meio da valorização dos carismas que o Espírito Santo suscita no povo de Deus.

Capítulo VI

Fé e cultura

102. Ampliando agora o horizonte da reflexão sobre a transmissão da fé para além da dimensão propriamente eclesial, é necessário abordar a questão da relação entre fé e cultura. Uma primeira observação diz respeito ao fato de que muitos estudiosos destacam como, em nosso tempo, está em curso uma crise mais geral da transmissão do saber e dos valores, que abrange também o que é o objeto específico das presentes Considerações. Uma segunda observação pode ser extraída de algumas palavras de São João Paulo II, que destacam a importância, com vistas à transmissão da fé, de realizar uma síntese entre fé e cultura: «A síntese entre cultura e fé não é só uma exigência da cultura, mas também da fé. Como ensinou o meu predecessor Paulo VI, “importa evangelizar — não de maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em profundidade e isto até às raízes — a cultura e as culturas do homem... a partir sempre da pessoa e fazendo continuamente apelo para as relações das pessoas entre si e com Deus”. Se, de fato, é verdade que a fé não se identifica com alguma cultura […] não é menos verdadeiro que, precisamente por isto, a fé é chamada a inspirar e impregnar todas as culturas. É o homem todo, na realidade da sua existência quotidiana, que é salvo em Cristo e é, por isso, o homem todo que deve realizar-se em Cristo. Uma fé que não se torna cultura é uma fé não de modo pleno acolhida, não inteiramente pensada e nem com fidelidade vivida»[109].

103. O que foi dito nos leva a reconhecer que a obra de transmissão da fé é, de alguma forma, inseparável de sua inculturação em um determinado contexto, entendendo-se aqui a “cultura” tanto em seu sentido antropológico mais amplo — como conjunto de estilos de vida, crenças, valores e instituições que caracterizam uma determinada sociedade — quanto no sentido mais restrito, como conjunto de conhecimentos intelectuais desenvolvidos sobretudo no âmbito acadêmico.

104. Levando em consideração, antes de tudo, esse primeiro significado de “cultura”, é preciso lembrar que a inculturação da fé constitui uma etapa necessária em sua transmissão, na medida em que a mensagem evangélica deve ser tornada compreensível para pessoas que compartilham valores e categorias que não coincidem perfeitamente com os helenístico-semíticos, nos quais o texto bíblico foi originalmente formulado. No contexto da transmissão da fé, inculturação significa «a encarnação do Evangelho nas culturas autóctones e, ao mesmo tempo, a introdução dessas culturas na vida da Igreja»[110]: nesse caso, portanto, a inculturação da fé torna-se uma verdadeira evangelização, mesmo que não seja realizada de forma completa e perfeita, tratando-se de «um caminho lento, que acompanha toda a vida missionária e que responsabiliza os vários agentes da missão ad gentes, as comunidades cristãs à medida que se vão desenvolvendo, e os Pastores que têm a responsabilidade de discernimento e de estímulo na sua realização»[111]. Isso faz com que a própria cultura se torne, por sua vez, um meio de transmissão da fé, pois, «quando o Evangelho se inculturou num povo, no seu processo de transmissão cultural também transmite a fé de maneira sempre nova; daí a importância da evangelização entendida como inculturação»[112].

105. É preciso, no entanto, lembrar que não se evangeliza um “lugar”, mas sempre pessoas, as quais não devem ser isoladas de seu contexto: «cada um [deve] levar o Evangelho às pessoas com quem se encontra, tanto aos mais íntimos como aos desconhecidos»[113]. A isso se soma a tarefa dos fiéis — necessária também em países de antiga tradição cristã — de traduzir a Boa Nova nas diversas formas culturais específicas que caracterizam as sociedades modernas ou que emergem em determinados setores sociais, como o mundo dos jovens ou o dos pobres. Isso exige, sem dúvida, uma valorização dos carismas presentes em todo o povo de Deus em um autêntico espírito de sinodalidade, pois, em última análise, eles são obra do Espírito Santo. Nesse processo, a contribuição da piedade popular também pode ser certamente valiosa.

106. A presença de diversos grupos sociais em nossas cidades, com culturas e linguagens específicas e muitas vezes autônomas, exige um esforço especial de inculturação da fé. Ou seja, há a urgência de uma difusão capilar no anúncio do Evangelho: não se pode se contentar em se dirigir apenas à cultura de alguns grupos majoritários, mas é necessário aprender a dialogar com as mais diversas situações e condições de vida presentes hoje. Trata-se, portanto, de alcançar aquilo que, em linguagem técnica, costuma ser denominado o âmbito das subculturas (por exemplo, os jovens das periferias urbanas, as diversas comunidades de migrantes, os trabalhadores sazonais, os habitantes de pequenas aldeias, etc.). A esse respeito, convém lembrar que a Comissão Teológica Internacional dedicará uma parte de seu trabalho no próximo quinquênio às formas culturais de transmissão da fé e oferecerá valiosos estímulos ao trabalho aqui apenas brevemente mencionado.

107. Em síntese, é preciso reiterar a importância decisiva da inculturação da fé nos dias de hoje. Quando a fé se conecta com as raízes e as expressões culturais de um povo, de fato, sua transmissão se torna mais fácil e fecunda.

108. No que diz respeito à cultura no sentido acadêmico-intelectual, por outro lado, podemos recordar as palavras do Papa Francisco: «O anúncio às culturas implica também um anúncio às culturas profissionais, científicas e acadêmicas. É o encontro entre a fé, a razão e as ciências, que visa desenvolver um novo discurso sobre a credibilidade, uma apologética original que ajude a criar as predisposições para que o Evangelho seja escutado por todos»[114]. É verdade que a pesquisa intelectual é, no máximo, uma preparação que introduz à fé, à maneira daquilo que tradicionalmente se chamou de praeambula fidei, e não uma transmissão da fé em sentido estrito. No entanto, é claro que uma apresentação razoável dos conteúdos da fé e de suas exigências constitui uma ajuda inegável ao anúncio do kerygma, na medida em que, em particular, contribui para despertar as grandes questões na mente e no coração das pessoas[115].

109. Um exemplo particularmente significativo a ser considerado na construção de tal apresentação razoável da fé é, sem dúvida, a Doutrina Social da Igreja, graças à qual os crentes entram em diálogo aberto com a sociedade e também com os não crentes. Embora permaneça no âmbito do conhecimento teológico, a Doutrina Social da Igreja recorre amplamente às categorias próprias das ciências políticas, econômicas e sociais, conseguindo frequentemente demonstrar toda a pertinência da proposta cristã para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Nesse sentido, também os ensinamentos sociais da Igreja podem desempenhar uma função análoga à dos praeambula fidei. De fato, a Doutrina Social da Igreja «baseia-se na Sagrada Escritura e na Tradição e, em diálogo com as ciências, ajuda-nos a ler os desafios do presente com lucidez, identificando caminhos adequados para viver, com alegria e ao serviço do mundo, um límpido testemunho cristão»[116].

Capítulo VII

Algumas considerações específicas

110. Uma comunidade profundamente empenhada em transmitir, de geração em geração, aquela luz e aquele fogo do amor de Deus que Jesus quis levar ao meio da humanidade e que chegou até os nossos dias deverá, além do que foi exposto até aqui, dedicar algumas atenções específicas em relação ao tema das presentes Considerações. O que se segue é uma lista exemplificativa, que poderá ser ampliada e organizada de acordo com uma ordem de prioridade diferente.

111. A primeira dessas atenções diz respeito ao cultivo da piedade popular. Nesse âmbito, como se sabe, há também aspectos que exigem um processo de amadurecimento e enriquecimento; no entanto, permanece evidente a grande força de que dispõe esse recurso da tradição católica. Ninguém poderá jamais negar que justamente a piedade popular é, ainda hoje, um importante meio de transmissão da fé. Por isso, é necessário promover em relação a ela um compromisso renovado de inteligência e de coração. Aliás, sua grande flexibilidade permite que ela se renove constantemente e adquira estilos muito diversos ao longo dos séculos, conseguindo mesmo sobreviver aos ataques que a cultura — e, às vezes, até os próprios membros da Igreja — frequentemente lançaram contra ela.

112. No que diz respeito à força evangelizadora da piedade popular e, portanto, ao seu importante papel na transmissão da fé, são valiosas as orientações contidas nos números 122-126 da Evangelii gaudium. Nelas se pode ler, de fato, que na «piedade popular, pode-se captar a modalidade em que a fé recebida se encarnou numa cultura e continua a transmitir-se»[117]. Na verdade, toda inculturação autêntica da fé produz sempre uma forma de expressão popular da mesma. O ser humano vive de palavras e gestos que constituem o horizonte dentro do qual pode desenvolver-se e criar as condições para o encontro com o outro. Toda cultura traduz-se em práticas concretas e reflete-se e é transmitida por meio delas. A mesma consideração vale também para a experiência de fé. Toda inculturação da fé cria práticas religiosas específicas que a refletem e permitem que ela seja transmitida de geração em geração. Por isso, então, na «piedade popular, por ser fruto do Evangelho inculturado, subjaz uma força ativamente evangelizadora que não podemos subestimar: seria ignorar a obra do Espírito Santo. Ao contrário, somos chamados a encorajá-la e fortalecê-la para aprofundar o processo de inculturação, que é uma realidade nunca acabada. As expressões da piedade popular têm muito que nos ensinar e, para quem as sabe ler, são um lugar teológico a que devemos prestar atenção particularmente na hora de pensar a nova evangelização»[118] e na questão da transmissão da fé.

113. Nesse contexto, é útil lembrar a força de atração que, entre as novas gerações, exercem as peregrinações de origem antiga e recente, bem como o desejo de pertencer a alguma confraria, como, por exemplo, vem ocorrendo recentemente na Espanha[119]. Para muitos jovens, sobretudo nos contextos ocidentais, a busca por um sentido, em um mundo cada vez mais fechado em si mesmo, e a busca por um pertencimento religioso capaz de dar alguma forma à própria necessidade de identidade, em um mundo cada vez mais individualizado, representam necessidades muito importantes, que encontram resposta justamente na participação em peregrinações e no desejo de integrar uma confraria. No contexto do tema principal das presentes Considerações, torna-se urgente questionar-se sobre como “aproveitar” da melhor forma essas perguntas e essas necessidades dos nossos contemporâneos mais jovens, para que se tornem um canal pelo qual a luz de Cristo possa inundar suas existências, muitas vezes conturbadas.

114. Uma segunda atenção deve ser voltada para a homilia. O Papa Francisco dedicou-lhe um amplo espaço na Exortação Apostólica Evangelii gaudium[120], como testemunho de sua importância para o anúncio e a transmissão da fé; remetemos a ela para um aprofundamento. Uma homilia bem preparada pode desempenhar um papel decisivo na apresentação dos conteúdos da fé de forma narrativa, capaz de reler a Palavra de Deus à luz da vida concreta do povo e, assim, suscitar uma experiência viva de encontro com Cristo. O próprio Jesus aparece nos Evangelhos, antes de tudo, como um grande contador de histórias. Raramente ele inicia seus discursos com conceitos abstratos: recorre, em vez disso, a imagens, metáforas e parábolas; frequentemente faz referência à vida cotidiana das pessoas, propondo relatos capazes de abrir a imaginação de quem ouve, antes mesmo de tocar a inteligência. As parábolas, de fato, não se limitam a informar: são capazes de formar e transformar seus ouvintes. As histórias contadas por Jesus não servem simplesmente para tornar o discurso mais interessante, mas constituem a chave hermenêutica por meio da qual o ouvinte é introduzido no mistério do Reino. Nesse caso, a grande tradição homilética dos Padres da Igreja, tanto do Oriente quanto do Ocidente, pode oferecer uma contribuição valiosa aos Pastores.

115. Uma terceira atenção surge do desejo de um compromisso que muitos, especialmente entre os mais jovens, manifestam por meio de atividades de voluntariado. A busca concreta por tal compromisso costuma ser uma oportunidade de aproximação à realidade da Igreja. Essas pessoas sentem a necessidade sincera e profunda de dar algo aos outros; sentem, portanto, a urgência de sair de seu recinto individual e da lógica da posse como critério último da felicidade. É evidente que isso não implica imediatamente um interesse pela fé, mas representa uma boa oportunidade para o anúncio e para a proposta de amizade com o Senhor Jesus, que oferece motivações ainda mais profundas para esse compromisso. Toda a comunidade de fiéis é chamada a acolher esses “bons samaritanos” do nosso tempo e a acompanhá-los com gentileza e paixão rumo ao encontro com o fogo do amor de Deus, que ela guarda como um tesouro precioso de seu próprio caminho no meio do mundo.

116. Uma quarta atenção diz respeito à necessidade de ampliar os espaços de presença das mulheres na condução dos processos eclesiais. Na Igreja Católica, em geral, os fiéis mais presentes e ativos na vida das comunidades são, em grande parte, mulheres. Nos últimos anos, no entanto, tornou-se mais evidente a necessidade de permitir que as mulheres tenham acesso aos lugares onde são tomadas as decisões importantes para a vida da comunidade. Trata-se de um tema que o Dicastério estudou amplamente e cujas conclusões foram encaminhadas, por meio da Secretaria do Sínodo, ao Santo Padre.

117. Uma atenção adicional é exigida por um aspecto específico da nossa época. De fato, não se deve subestimar a necessidade que tantas pessoas expressam hoje de participar de grandes eventos (festivais musicais e outros). Isso também evidencia que o uso intenso das tecnologias digitais não é suficiente para suprir todas as necessidades do ser humano. Surge, portanto, também em nossa época, a necessidade de companhia, a necessidade e o desejo de partilha. Mesmo cientes de que a fé é transmitida de maneira privilegiada de um “tu” para outro “tu”, devemos aproveitar essa característica da contemporaneidade como uma boa oportunidade para o anúncio do Evangelho, tentando imaginar ocasiões de união entre as pessoas, fazendo eco aos grandes temas da atualidade, como, por exemplo, o da paz.

118. Outros pontos de reflexão são oferecidos pelo estudo da história da Igreja, em particular daqueles momentos em que ela soube responder positivamente às mudanças da época encontradas ao longo de sua trajetória histórica. Entre eles, pode-se citar a crise que se seguiu ao colapso das instituições romanas na Europa Ocidental, com o consequente abandono das cidades, onde o cristianismo estava mais enraizado. Nesse contexto, o surgimento do monaquismo irlandês, que floresceu na segunda metade do primeiro milênio cristão, revelou-se decisivo: não apenas salvaguardou e aprofundou a compreensão da fé, mas também deu origem a novas formas de evangelização e, ao mesmo tempo, contribuiu para desenvolvimentos significativos na prática sacramental, como a difusão da confissão auricular. Um segundo exemplo é oferecido pela crise doutrinária e pastoral provocada pela difusão do catarismo e dos diversos movimentos pauperistas, muitas vezes em oposição à Igreja, nos séculos medievais. Em resposta a tal situação, as ordens mendicantes, entre as quais se contam as fundadas por São Domingos e São Francisco, encarnaram uma renovada vitalidade evangélica por meio da pobreza radical, da pregação itinerante e do ensino teológico exercido em plena comunhão com a Igreja. Um exemplo adicional é oferecido pelo impulso a uma reforma católica de amplo alcance, suscitado pela profunda ruptura eclesial introduzida pela Reforma protestante, que teve como protagonistas figuras como Santa Teresa de Ávila e Santo Inácio de Loyola. Essa renovação coincidiu com a expansão missionária da Igreja para terras recém-descobertas e abertas ao anúncio do Evangelho, contribuindo para conferir-lhe um novo ímpeto. Por fim, vale lembrar a resposta da Igreja, no século XIX, às profundas mudanças provocadas pela questão operária e pelas consequências da Revolução Industrial, que a levaram a reformular de maneira sistemática sua Doutrina Social. Em cada um desses casos, um momento de crise tornou-se a ocasião para iniciativas criativas que se revelaram decisivas para a evangelização e coincidiram também com uma transição mais ampla entre épocas históricas.

119. Atualmente, torna-se necessária uma investigação específica sobre o repentino declínio do catolicismo nos países onde ele estava profundamente enraizado, a fim de compreender suas causas e elaborar uma resposta pastoral adequada.

120. Deve-se dedicar uma atenção adicional e decisiva ao mundo das escolas e universidades católicas, bem como ao das demais instituições católicas, especialmente aquelas dedicadas à caridade. Como testemunham os bispos de Gana: «A transmissão da fé católica é significativamente fortalecida por meio da instrução católica, que funciona como um importante canal para a formação contínua de crianças, jovens e até mesmo adultos»[121]. Em outros países, como a Venezuela, o programa de educação religiosa prevê uma integração entre as atividades escolares e paroquiais, confirmando o valor também pastoral das escolas católicas[122]. Acima de tudo, em países onde o catolicismo representa uma minoria – às vezes extremamente reduzida –, essas instituições constituem frequentemente o único ponto de contato de grande parte da população com a Igreja Católica. No entanto, é preciso ressaltar que, em diversas regiões, vigoram restrições ao ensino da religião nas escolas; por isso, nesses contextos, cabem às paróquias arcar com todo o ônus da catequese.

121. Em comparação com os locais tradicionais da ação pastoral, as escolas oferecem um contato mais institucional e quase profissional, mas não por isso menos capaz de transmitir pelo menos uma pequena centelha daquele fogo de amor que atravessou os séculos e que, a partir de Jesus, chegou até os nossos dias. Oferece-se, de fato, um testemunho quase transparente da caridade intelectual e material, capaz de orientar espontaneamente para a beleza do Evangelho e sua força humanizadora. É o que atestam também os bispos da França: «O ensino católico é um espaço privilegiado para o primeiro anúncio às crianças, aos jovens e às famílias, que pode levar os jovens, mas também seus pais, a solicitar a iniciação cristã»[123]. Em um horizonte mais amplo, os fiéis são, portanto, convidados a defender sempre a centralidade da escola, como um espaço «onde as novas gerações podem aprender a procurar e amar a verdade, a questionar-se sobre o sentido da vida e sobre a dignidade de cada pessoa»[124].

122. Por fim, uma última menção diz respeito ao empenho ecumênico, que constitui uma dimensão intrínseca da missão evangelizadora da Igreja e, portanto, também da transmissão da fé. De fato, como observa o Decreto Unitatis redintegratio do Concílio Vaticano II, a divisão entre os cristãos «contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura»[125]. Longe de representar uma alternativa ao anúncio, o diálogo ecumênico constitui uma de suas próprias modalidades, na qual a busca comum da verdade, a escuta mútua e o testemunho da caridade tornam mais credível a proclamação do kerygma diante de um mundo cada vez mais secularizado e pluralista. Como lembra São João Paulo II, de fato, «o próprio esforço em direção à unidade, constitui por si um sinal da obra de reconciliação que Deus realiza no meio de nós»[126], manifestando concretamente que o Pai é, para sempre e para todos, amor. Isso convida a comunidade dos crentes a fazer seu o apelo confiante do Papa Francisco: «se realmente acreditamos na ação livre e generosa do Espírito, quantas coisas podemos aprender uns dos outros! Não se trata apenas de receber informações sobre os outros para os conhecermos melhor, mas de recolher o que o Espírito semeou neles como um dom também para nós»[127], de modo a «caminhar decididamente para formas comuns de anúncio, de serviço e de testemunho»[128].

123. Nesse mesmo horizonte, é preciso reconhecer que alguns membros de outras religiões e movimentos religiosos se empenham em testemunhar a fé em Deus em um contexto cultural que tende a se fechar na imanência mais vazia. Da mesma forma, alguns membros de outras Igrejas cristãs e comunidades eclesiais buscam novos caminhos para anunciar o Evangelho e o amor de Cristo em nosso tempo. Também de suas experiências positivas e de seus esforços criativos é possível aprender algo, para que nosso empenho na transmissão da plena riqueza do tesouro da fé, recebido como dom, seja sempre fecundo.

Capítulo VIII

Testemunhos

124. Neste ponto, conforme antecipado na Introdução às presentes Considerações, apresentamos alguns testemunhos exemplificativos de pessoas que puderam vivenciar em suas vidas o encontro com Cristo ou a redescoberta de uma relação viva com Ele. Por motivos de confidencialidade, não serão indicados os nomes, mas apenas a origem, garantindo que se trata de testemunhos autênticos, genuinamente compartilhados para a edificação da Igreja universal. Àqueles que compartilharam seus relatos, bem como às Conferências Episcopais que enviaram esse material, o Dicastério para a Doutrina da Fé expressa sua sincera gratidão. Em muitos casos, não se narram grandes feitos ou eventos prodigiosos, mas simples acontecimentos nos quais se manifesta a ação da graça na trama da vida cotidiana, permitindo que cada um reconheça neles algo de sua própria existência. Elas mostram como toda circunstância, mesmo a mais pequena e aparentemente insignificante, pode se tornar uma ocasião de encontro com o Eterno e uma etapa daquela história de salvação que Deus constrói conosco e para nós. Por razões de espaço, não é possível reproduzir todos os testemunhos recebidos; tornou-se, portanto, necessária uma seleção ligada aos temas do documento e à necessidade de evitar repetições. Cada um deles representa, no entanto, um tesouro de graça que testemunha como o Senhor, mesmo nesta mudança de época, não cessa de assistir e acompanhar sua Igreja. As páginas a seguir pretendem traduzir na linguagem da vida alguns dos aspectos desenvolvidos nos capítulos anteriores.

Do abismo da dependência à liberdade do encontro com Cristo

125. O primeiro testemunho[129] vem da Colômbia e mostra como, mesmo nas situações de mais profunda degradação moral e existencial, Deus não cessa de chamar a pessoa por meio da voz da consciência e de oferecer sua salvação por meio da obra dos irmãos: «Por volta dos 13, 14 anos, comecei a usar drogas, comecei a cair na impureza e a me envolver com gangues; andava por aí com as gangues, em brigas, manuseando armas, extorquindo, roubando, vendendo drogas. E essa era a minha vida. Minha família se cansou de mim, até que acabei morando nas ruas. Eu dizia à minha mãe: “Mãe, quero mudar”. Ela me dizia: “Não, você está doente, primeiro precisa se curar”. E eu respondia: “Mas o que você está dizendo? Sou capaz de sair dessa sozinho”. Mas eu precisava de ajuda; meu orgulho, minha arrogância não me permitiam isso. E sentia um desejo muito profundo no meu coração por algo mais, algo maravilhoso, algo bom, de amar, de me sentir amado. Não tinha onde morar, onde tomar banho, onde comer, nada. Pela graça e misericórdia de Deus [por meio da minha família, encontrei um centro de reabilitação administrado por uma fundação cristã], lá não se fazem terapias de choque nem se usam medicamentos; lá o que se vive é a oração: o Santo Rosário, a lectio divina, a Sagrada Eucaristia... Lá começou meu caminho de conversão. Naquele lugar, o Senhor começou a transformar profundamente minha vida, pois passei a perceber quantas feridas e quantos vazios havia em meu coração e quanta necessidade de amor, de perdão e da misericórdia de Deus. Depois, fui como missionário por dois anos e meio, me formando, servindo em retiros e conduzindo encontros. Depois disso, voltei para a fundação onde eu havia estado. Fiquei lá por um ano acompanhando os jovens como educador, compartilhando com eles um pouco do que o Senhor havia feito em mim. Agora tenho meu emprego e faço parte de uma comunidade que se dedica à oração, à missão e à evangelização. Deus transformou minha vida, meu coração e me tornou um homem novo».

126. Outros depoimentos mostram como, às vezes, basta uma circunstância muito simples, como o scrolling para ver as postagens em uma rede social, para que a graça torne possível um encontro capaz de transformar a vida, como conta um jovem da Bélgica: «Por volta dos 17 anos, eu queria ser batizado, mas não sabia aonde ir. Passei por sofrimentos amorosos, por um vício em álcool, derramei lágrimas. Um dia, navegando no TikTok, me deparei com uma oração. Foi como um choque elétrico e um consolo. Eu não era crente e vivia tudo isso com serenidade. Se hoje estou aqui, é em resposta ao chamado mais significativo da minha vida. Não se trata de uma reflexão intelectual, mas de um encontro pessoal em que Jesus falou comigo. Aproximei-me da Igreja sem acreditar de verdade, sobretudo por respeito aos meus avós e pelo desejo de preservar as tradições. Desde que tenho fé, tenho realmente outra visão do mundo. Sinto que tudo está bem, enquanto minha vida, antes do encontro com Cristo, era complicada».

127. Permanecendo no tema da redenção e da libertação, um testemunho significativo da eficácia libertadora do kerygma é oferecido pelo relato de um capelão que exerce seu ministério nas prisões de uma diocese do Canadá: «O contexto carcerário constitui frequentemente um lugar de crise e de releitura da vida. A privação da liberdade favorece um confronto consigo mesmo, com as próprias ações e com o sentido da própria existência. Nesse contexto, o pedido de batismo surge frequentemente como a busca por um novo começo, ou melhor, pela redenção. As pessoas com quem me encontro expressam frequentemente uma busca por sentido, além dos precedentes contextos de suas vidas. As conversas catequéticas abrem um espaço onde as grandes questões – sofrimento, culpa, perdão, esperança – podem ser abordadas de maneira estruturada. Evidencia-se, assim, que a conversão não se dá apenas a partir de um conteúdo doutrinário, mas também a partir de uma relação de confiança e de escuta. O acompanhamento pastoral, vivido ao longo do tempo, constitui uma mediação essencial por meio da qual a fé se torna compreensível e fidedigna. Um elemento central das conversões é o encontro com a imagem de um Deus que perdoa e levanta. Isso é particularmente significativo em um contexto marcado pela culpa e pela condenação. Observa-se, assim, um retorno do interesse pela dimensão espiritual e existencial da fé. A conversão surge frequentemente como uma experiência pessoal forte».

O “despertar” do kerygma: o papel da família e da oração

128. Nas famílias, não apenas a mudança de época, mas também eventos trágicos podem colocar a fé pessoal à prova. No entanto, mesmo nessas situações, o Senhor não abandona seus filhos, como testemunha este relato proveniente do Chile: «Minha fé enfraqueceu a tal ponto que cheguei a declarar-me ateu. Em meio a esse deserto, veio um golpe devastador: a morte da minha mãe. Durante cinco anos, carreguei uma dor inconsolável; chorava por ela todos os dias sem encontrar respostas. Foi então que Deus usou o pretexto mais simples: a catequese da minha filha mais nova. Participei das reuniões apenas por obrigação. Foi nesse processo que aconteceu o inesperado: por meio da Eucaristia, experimentei um encontro – ou melhor, um reencontro – pessoal com Jesus Cristo. Ele tomou minha dor, enxugou minhas lágrimas pela minha mãe e me deu uma paz que o mundo não pode dar».

129. Outro testemunho, sobre os obstáculos à transmissão da fé na família, vem de uma mulher, mãe de família, da Eslováquia: «Meu pai era alcoólatra. Ele destruiu-me a mim e à minha mãe durante a minha infância... Quando bebia, ele ficava agressivo, xingava, blasfemava, quebrava os móveis de casa... qualquer coisa que estivesse ao seu alcance; muitas vezes tínhamos que fugir de casa. Ao longo dos anos, acumulou-se em mim um sentimento de falta de perdão e talvez até de ódio em relação a ele. Somente na comunidade, por meio da Palavra de Deus e da formação, compreendi que estava julgando meu pai pelo que ele era e que também estava julgando Deus por ter me dado um pai assim. Quando encontrei coragem, à luz da Palavra de Deus, fui até meu pai e pedi perdão. Foi uma experiência muito marcante para mim e, embora meu pai não tenha conseguido entender bem o que eu estava dizendo, percebi que finalmente havia encontrado a paz interior e que nosso relacionamento também havia melhorado. Embora meu pai não praticasse de forma alguma a vida religiosa, ele partiu para a eternidade reconciliado comigo e com minha mãe, depois de se confessar. [Hoje] junto com meu marido, nos empenhamos em transmitir a fé aos nossos quatro filhos. Nós os ensinamos também contando nossa experiência, não como moralismo (no sentido de que você também deve ver/fazer dessa maneira). Dizemos-lhes que Deus agirá de maneira especial também na vida deles, que é importante acolher tudo o que a Igreja lhes oferece como ajuda, para que possam viver uma vida que tenha sentido».

130. Outras vezes, é o cônjuge crente que envolve o outro em um caminho de fé, como testemunha esta experiência proveniente dos Estados Unidos da América: «Meu caminho rumo à Igreja Católica começou por causa da minha noiva. Ela foi criada como católica e sua fé sempre foi importante para ela. Enquanto nos preparávamos para o casamento, ela expressou o desejo de ter um casamento católico. Querendo entender melhor algo tão significativo para ela, decidi explorar a fé. Encontrei uma comunidade acolhedora e um grupo de professores dedicados que tornaram o processo de aprendizagem envolvente e significativo. Fiquei impressionado com a comunidade paroquial e com o bem que ela realiza na comunidade local. As pessoas de lá me transmitiram o valor não apenas de ter fé, mas de vivê-la. Enquanto aguardo receber o Batismo e a Crisma na Vigília Pascal, faço-o com gratidão e expectativa».

131. Na mesma linha, há um testemunho proveniente do Japão: «Um homem entrou em contato com a Igreja por meio do casamento com uma esposa católica. No início, ele frequentou os cursos de preparação para o matrimônio simplesmente como preparação para a cerimônia, mas, aos poucos, sentiu-se atraído pela acolhida calorosa da comunidade paroquial e pela serenidade da liturgia. Após o nascimento do seu filho, ele começou a se perguntar o que desejava transmitir a ele na vida e, depois de se dedicar a um estudo mais aprofundado da fé, foi batizado alguns anos mais tarde. Para ele, a Igreja, da qual se aproximara inicialmente pelo bem de sua família, tornou-se o lugar onde seu próprio modo de viver foi questionado».

132. Até mesmo o Sacramento do Matrimônio pode se tornar uma oportunidade para redescobrir a fé, como testemunha uma experiência relatada pelos Bispos de Angola: «Um casal de noivos: ela, católica, de uma família com uma transmissão geracional muito viva da fé; ele, indiferente a Deus e à religião. Ela informou-lhe que o avanço do relacionamento deles deveria ter como condição sine qua non o casamento católico. [Durante uma reunião familiar,] um padre, parente da família do noivo, confrontou a noiva católica por sua intenção de se unir a um homem que estava disposto apenas a proporcionar-lhe o prazer da cerimônia católica de casamento, mas que desprezava o valor intrínseco desse matrimônio. [O padre] confrontou da mesma forma o noivo, que se limitava apenas à parte carnal e desprezava todas as outras dimensões do valor do casamento. Ao refletir sobre o ocorrido, o noivo sentiu-se envergonhado de suas contradições… sem o mínimo de formação cristã, aquela que, agora, começava a fazer sentido para ele. Essa experiência incômoda despertou nele a curiosidade pela fé católica; ele começou a frequentar a catequese, recebeu o batismo, fez o curso pré-matrimonial, casou-se na igreja e tornou-se assíduo na liturgia e ativo na vida pastoral da paróquia».

133. Outras vezes, o despertar da fé nasce de experiências de oração e de partilha, como no caso de uma mulher leiga da Polônia, que conta ter redescoberto uma fé viva por meio de uma iniciativa promovida pelo movimento carismático católico: «Tudo começou com a decisão de participar de um retiro de algumas semanas no Seminário de Renovação da Fé. Na época, me parecia ter uma vida bastante boa, normal e organizada. Cada vez mais, porém, no fundo do meu coração, sentia que aquilo sobre o qual construía minha vida não era duradouro. O vazio que aparecia cada vez com mais frequência no coração não podia ser preenchido por nada. Percebi que a fé que eu tinha estava morta. Era apenas o cumprimento de certos deveres e práticas religiosas que me haviam sido ensinados. Durante o Seminário, conheci um Deus que ama gratuitamente, que é Pai, que cuida, que espera, que busca os perdidos para doar amor, felicidade e alegria. Foi meu encontro pessoal com Jesus, que “tocou” concretamente meu coração para me tirar da escuridão em que vivia há anos. Depois das lágrimas purificadoras, veio uma grande alegria, liberdade, força e esperança que preencheram todo o meu coração e todo o meu ser. Minha fé deixou de ser um acréscimo à vida; tornou-se o único sentido da minha existência. Deixou de estar morta e tornou-se viva. Finalmente me senti segura, livre e serena. As palavras de Santo Agostinho — “O coração do homem está inquieto até que descanse em Deus” — se cumpriram 100% na minha vida».

134. Outro testemunho particularmente intenso nesse sentido vem de uma estudante francesa: «Filha de um pai libanês xiita que se tornou ateu e de uma mãe francesa católica não praticante, cresci em meio a uma certa errância espiritual. Meus pais desejavam nos deixar livres em nossa escolha religiosa, mas esse silêncio foi, por muito tempo, uma lacuna. No entanto, desde os 8 anos de idade, encontrei uma Bíblia... esse primeiro impulso foi alimentado pelos meus anos de escola em Chartres, onde encontrava refúgio e paz sob os pilares da catedral após as aulas. O verdadeiro ponto de virada ocorreu em 2004, durante meus cursos de pré-vestibular [para ingressar na Universidade]. Sozinha, longe da minha família e oprimida pela pressão dos concursos, vivi uma verdadeira revelação. Certa noite, diante da minha mesa, a verdade se impôs: Deus existia, estava ali, bem ao meu lado, com uma presença quase palpável. Esse imenso alívio transformou minha solidão em um caminho em companhia. O Senhor então colocou testemunhas no meu caminho... [entre elas] um cristão maronita, [que] carregava em si uma fé radiante. Um dia, ao ver uma imagem do Sagrado Coração de Jesus que ele guardava na carteira, compreendi: era Ele, Jesus, que havia me visitado naquela noite no meu quarto de estudante. No entanto... o ritmo frenético do meu trabalho me levou ao esgotamento em 2019. Nesse colapso, somente Jesus me salvou. Então, empreendi uma peregrinação de cura… mudei radicalmente de vida. Hoje, minha vida é estável e feliz; sinto que finalmente chegou a hora de cumprir minha promessa. Ao receber os sacramentos da iniciação cristã, desejo selar para a eternidade minha aliança com Cristo, que nunca me abandonou».

135. Outras vezes, é a força da oração e dos sacramentos que sustenta em situações de crise, como testemunha a experiência de uma mulher originária da Jamaica: «Sou católica “desde o berço”, criada por uma mãe que era uma fiel católica. Quando criança, em uma cidadezinha da Jamaica, eu lia e até servia no altar, pois muitos paroquianos tinham pouca escolaridade e muitos não sabiam ler. Eu dava a Deus o que me sentia à vontade de ofertar. Havia momentos em que dava 90%, e outros em que era 20%. Há cerca de 15 anos, apesar de orar fervorosamente para sair de [uma certa] situação, parecia que Deus não respondia. Cheguei a um ponto em que senti que Deus simplesmente não estava ouvindo… concluí que não fazia sentido orar. Parei completamente de orar… seguiu-se uma grande crise de fé. Comecei realmente a questionar e a duvidar de tudo. Eu me sentia exatamente como uma impostora. Na verdade, eu estava ensinando o catecismo para as crianças, enquanto nem mesmo tinha certeza se acreditava no que ensinava. [Mas] Deus sempre sabe onde nos encontrar e como chegar até nós. Minha mente começou a compreender o verdadeiro poder dos sacramentos… e, acima de tudo, da Eucaristia: que Jesus está exatamente ali. Os desafios com os quais eu estava lutando e que causaram minha crise de fé ainda existem, mas o que mudou foi a minha maneira de rezar. O foco das minhas orações não é mais o que Deus pode me dar. Em vez disso, pergunto o que eu posso dar a Deus».

O testemunho da caridade, da cultura e da beleza

136. Como já foi abordado anteriormente, um caminho importante de acesso à fé é a beleza (via pulchritudinis), aquela beleza que, como ensinavam os doutores medievais, é a síntese da verdade e da bondade. Em uma palavra, é a beleza do amor, que se manifesta em uma multiplicidade de formas. Justamente a partir do tema da beleza, capaz de unir o rigor intelectual à experiência estética, surge o testemunho de um estudante de neurobiologia da Suíça: «Cresci em uma família ateia; para nós, “cartesiano” era a palavra de ordem: frequentemente apresentada como uma antítese evidente à fé. A presença de Deus na minha vida se manifestou como um sopro de vento ao longe. A primeira vez que senti essa sensação de plenitude foi enquanto assistia a uma extraordinária interpretação de uma peça de Chopin. Depois, houve aquela noite em que, do alto de uma montanha na Crimeia, contemplei a imensidão do Mar Negro e as montanhas que se estendiam aos meus pés. Achei que estivesse sentindo aquela paz porque estava contemplando a beleza da Humanidade. [Depois], certo dia, passei pela porta da catedral de Chartres. A questão já não se colocava: a fonte estava ali, diante dos meus olhos. Não sei quando minha jornada com Deus começou, mas tenho certeza de tê-Lo acolhido na primeira vez em que me ajoelhei para rezar. Foi um banho de paz, um bálsamo para a alma. Quando percebi o caminho que estava trilhando, decidi manter-me à margem. Nos círculos científicos, qualquer menção ao assunto é acompanhada por longos debates, críticas depreciativas e até mesmo por verdadeiras blasfêmias. Minhas primeiras orações, meus primeiros rosários, minhas primeiras missas, eu os vivi sozinho. Pensava em me integrar à comunidade assim que tivesse adquirido conhecimento suficiente. Para minha grande surpresa, foi a comunidade que me acolheu. Tive a sorte de ser batizado graças à insistência dos meus avós maternos. Considero que chegou a hora de encerrar o capítulo da descoberta e avançar de pleno direito na minha vida de católico. Assim, iniciei minha jornada rumo à crisma».

137. Outras vezes, é a simplicidade da caridade, manifestada na gentileza e na acolhida, que abre as portas da fé, como no testemunho de um catecúmeno vietnamita, transmitido pelos bispos da Malásia: «Nasci em uma família budista. Cresci sem dar muita atenção à religião. Vim para a Malásia porque queria estudar inglês. No Vietnã, esses cursos são caros, mas encontrei um curso de inglês gratuito ministrado por cristãos filipinos. Fui acolhido por todos com calor humano. Eles ensinavam com sinceridade e até nos ofereciam comida e bebida. Pude constatar sua gentileza e generosidade. Tratavam a todos da mesma maneira. Durante uma das aulas, foi exibido um vídeo sobre a Paixão e a Ressurreição de Jesus, que terminava com uma pergunta simples: “Onde está Deus?”. Mas senti algo. Foi uma pequena emoção, mas ficou dentro de mim. Anos depois, conheci um [cristão] malaio por meio do trabalho e comecei a frequentar a missa com ele. Na igreja, as pessoas eram gentis e as homilias me tocaram. Mas a velha pergunta voltou: quem é Deus? Com a ajuda do meu amigo, me inscrevi nos cursos de catecumenato e, este ano, serei batizado. Sinto-me mais forte, menos assustado com os desafios da vida. Não estou apenas pronto para me tornar católico, mas pronto para fazer parte do milagre de Deus».

Conclusão

138. O Dicastério para a Doutrina da Fé recebeu do Papa Francisco, nos últimos momentos de sua vida, a incumbência de oferecer à Igreja uma reflexão sobre a transmissão da fé; tal pedido foi posteriormente reiterado pelo Papa Leão XIV. O Dicastério acolheu essa tarefa no espírito da renovação missionária exigida de todo o povo de Deus, incluindo as instituições da Cúria. De fato, seu serviço não se limita à guarda de um acervo de doutrinas a serem acreditadas (credere Deum), mas abrange também a promoção de tudo o que favorece o envolvimento pessoal e ativo na acolhida da luz da fé (credere Deo e credere in Deum). Em particular, isso diz respeito à Secção Doutrinal do Dicastério, que é chamada a promover «os estudos destinados a aumentar a compreensão e a transmissão da fé ao serviço da evangelização, a fim de que a sua luz seja critério para compreender o significado da existência»[130]. A questão da transmissão da fé, portanto, não nos afasta do depositum fidei, nem implica a redução da abordagem à mera dimensão subjetiva da fides qua. Trata-se simplesmente de um apelo aos fiéis para que retornem ao cerne do patrimônio da fé cristã: o kerygma é, de fato, seu conteúdo central, que atravessa como um fio de ouro a hierarquia harmoniosa das «verdades da doutrina católica»[131] e ilumina todos os conteúdos do depositum fidei, atraindo para a experiência de um encontro pessoal e comunitário com o Cristo vivo.

139. Ao longo da reflexão desenvolvida no presente documento, o Dicastério para a Doutrina da Fé acolheu com alegria a resposta generosa de numerosas Conferências Episcopais, que compartilharam sua sincera preocupação a respeito deste tema. A riqueza das contribuições recebidas ultrapassa os limites de um único documento; portanto, a questão abordada pelas presentes Considerações permanece aberta a aprofundamentos adicionais e a novos desdobramentos. Este Dicastério reconhece que tal âmbito pertence à competência de outro Dicastério, o Dicastério para a Evangelização – Secção para as Questões Fundamentais da Evangelização no Mundo, que há tempo está empenhado em um caminho de pesquisa e diálogo não apenas sobre a transmissão da fé, mas também sobre outros temas a ela relacionados: o catecumenato, as diversas formas de catequese, a formação dos fiéis, os contextos comunitários de acolhimento e crescimento dos novos crentes, etc.

140. Gostaríamos, agora, de encerrar estas Considerações sobre a transmissão da fé no contexto da mudança de época com uma imagem muito querida por todos os fiéis, capaz de representar um símbolo de esperança para o futuro. Trata-se da imagem da liturgia do acendimento do círio pascal e de sua colocação no altar, após a procissão ao longo da nave da igreja, durante a solene Vigília Pascal no rito latino. Como se sabe, após o acendimento do círio, tem início a procissão: com exceção do diácono que carrega o círio, todos caminham com as velas apagadas nas mãos. Em seguida, primeiro o celebrante e, depois, os demais participantes recebem do círio pascal, ou de velas acesas a partir dele, a chama com a qual acendem sua própria vela e, por sua vez, podem transmiti-la a outros.

141. Por três vezes, a proclamação “A luz de Cristo” (ou com a fórmula alternativa “Eis a luz de Cristo”), o Diácono anuncia ao mundo a presença da luz de Cristo, que se torna visível no acendimento progressivo das velas. Assim, a partir da única chama do círio pascal, todas as velas dos fiéis são acesas lenta e ordenadamente e, ao final da procissão, as luzes da igreja também são acesas.

142. Gostaríamos, assim, de imaginar o impulso que estas Considerações desejam oferecer à Igreja neste momento de mudança de época. Elas pretendem relembrar com veemência que Cristo é a verdadeira luz: Ele ilumina porque liberta das trevas e nos introduz na plenitude da vida, que é a realização do acolhimento do amor incondicional de Deus em nosso coração. A nós, crentes, já foi concedido o dom de encontrar a luz e de deixar que nossa vida seja iluminada pela “verdadeira luz” do mundo (cf. Jo 1,9). Cabe agora a nós transmitir esse mesmo dom aos homens e mulheres de nosso tempo, que talvez nem sempre de forma consciente também esperem poder iluminar sua existência com essa mesma fonte de toda graça, luz que resplandece no mundo.

143. Não se pode, enfim, deixar de mencionar o testemunho de tantos leigos evangelizadores que, nos tempos recentes, alcançaram a santidade. Muitos jovens admiraram a paixão pela evangelização em São Carlo Acutis, assim como o exemplo admirável de Santa María Antonia de Paz y Figueroa, conhecida como Mama Antula, em sua longa peregrinação evangelizadora. Além disso, numerosos leigos dedicaram suas vidas ao compromisso de levar a luz de Cristo: São Sebastião, São Paulo Chông Hasang, São Peter to Rot. Juntamente com eles, as contemplativas e os contemplativos alimentam o fogo da fé por meio da oração e da intercessão, pois sem a ação do Espírito Santo todos os nossos esforços se tornam vãos. Convidamos, portanto, todas as comunidades a promoverem, em seu seio, momentos de oração e intercessão que apoiem a transmissão da luz da fé.

144. Maria, que se fez presente entre os diversos povos por meio das mais variadas formas de fé e devoção, tornando assim mais reconhecível sua proximidade maternal, leva sempre consigo a luz e o amor do Senhor. O Evangelho conta que ela agiu assim desde o início, quando levou Jesus a Isabel (cf. Lc 1,39-45). Ela continua a fazê-lo também hoje, oferecendo a beleza do Evangelho. Maria, de fato, meditou atentamente e guardou em seu coração tudo o que Cristo fez e disse (cf. Lc 2,19.51). Ela foi a grande testemunha da encarnação e do nascimento do Senhor até sua morte na cruz e sua ressurreição, acompanhando-o ao longo de toda a sua vida terrena. Por isso, diante do rosto de Maria, o povo fiel reconhece «nesta imagem materna, […] todos os mistérios do Evangelho»[132]. Quem olha para a fé mariana dos simples com uma atitude exclusivamente intelectual corre o risco de não compreender que, muitas vezes, o Evangelho de Cristo é transmitido de forma mistagógica, por meio de símbolos, experiências, confiança e afeto. A Maria, Mestra da transmissão da fé, pedimos que interceda por nós no compromisso renovado de levar a luz de Cristo às novas gerações.

O Sumo Pontífice Leão XIV, na Audiência concedida ao abaixo assinado, Prefeito, juntamente com o Secretário da Seção Doutrinal do Dicastério para a Doutrina da Fé, no dia 21 de agosto de 2026, Memória litúrgica de São Pio X, Papa, aprovou o presente documento, deliberado na Secção Ordinária deste Dicastério em 24 de junho de 2026, Solenidade da Natividade de São João Batista, e ordenou sua publicação.

Dado em Roma, na sede do Dicastério para a Doutrina da Fé, em 22 de outubro de 2026, Memória litúrgica de São João Paulo II.

Víctor Manuel, Cardeal Fernández
Prefeito

Mons. Armando Matteo
Secretário
da Secção Doutrinal

Ex Audientia Die: 21 Augusti 2026
Leo PP. XIV


[1] Leão XIV, Discurso aos Bispos da Conferência Episcopal Italiana (17 de junho de 2025): L’Osservatore Romano, 17 de junho de 2025, 2.

[3] Para ajudar o leitor a orientar-se ao longo do percurso das presentes Considerações, que se desenvolve em diversos capítulos, pode ser útil apresentar desde já uma breve indicação de seu percurso temático. Os capítulos I e II estabelecem suas bases teológicas, partindo do anúncio do amor do Pai manifestado na pessoa e nas obras de Jesus de Nazaré, para chegar aos seus principais contextos de transmissão na Igreja, ou seja, a família e a comunidade. O capítulo III aborda os desafios da mudança de época, cuja característica marcante é uma dificuldade sem precedentes em dar continuidade às formas tradicionais de transmissão da fé, à qual o capítulo IV responde apontando o coração pulsante dessa obra, ou seja, o anúncio do kerigma. O capítulo V apresenta diversas reflexões práticas sobre a transmissão da fé na vida das comunidades em seus vários aspectos, enquanto os capítulos VI e VII, respectivamente, aprofundam a relação entre fé e cultura e indicam algumas atenções pastorais específicas. O capítulo VIII, por fim, reúne alguns testemunhos concretos que mostram a transmissão da fé no contexto da vida cotidiana das pessoas.

[4] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes (7 de dezembro de 1965), n. 22: AAS 58 (1966), 1043.

[5] Francisco, Exort. ap. Christus vivit (25 de março de 2019), n. 1: AAS 111 (2019), 391.

[6] Bento XVI, Cart. enc. Deus caritas est (25 de dezembro de 2005), n. 1: AAS 98 (2006), 217.

[7] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 1: AAS 105 (2013), 1019.

[8] Francisco, Cart. enc. Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 1: AAS 105 (2013), 555-556.

[9] Francisco, Cart. enc. Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 37: AAS 105 (2013), 580.

[10] Francisco, Cart. enc. Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 38: AAS 105 (2013), 580.

[11] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Dei Verbum (18 de novembro de 1965), n. 8: AAS 58 (1966), 821.

[12] Cf. XIII Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, Instrumentum laboris (2012), n. 105.

[13] Francisco, Cart. enc. Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 38: AAS 105 (2013), 581.

[15] Leão XIV, Discurso no Consistório Extraordinário (7 de janeiro de 2026): L’Ossevatore Romano, 8 de janeiro de 2026, 2.

[16] Leão XIV, Homilia por ocasião do Jubileu das famílias, dos avós e dos idosos (1º de junho de 2025): L’Ossevatore Romano, 2 de junho de 2025, p. 2.

[17] Leão XIV, Homilia na festa do Batismo do Senhor (11 de janeiro de 2026): L’Osservatore Romano, 12 de janeiro de 2026, p. 4.

[18] Francisco, Cart. enc. Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 43: AAS 105 (2013), 584.

[19] Francisco, Cart. enc. Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 53: AAS 105 (2013), 591.

[20] Testemunho do padre Duval disponível no site http://pierre.aime.duval.free.fr/priere.htm (original em francês, tradução a cargo do Dicastério).

[21] Francisco, Homilia por ocasião da Festa do Batismo do Senhor e da celebração do Batismo de algumas crianças (7 de janeiro de 2018): L’Osservatore Romano, 8-9 de janeiro de 2018, 8.

[22] Leão XIV, Homilia por ocasião do Jubileu dos Catequistas (28 de setembro de 2025): L’Osservatore Romano, 29 de setembro de 2025, p. 2.

[23] Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 70: AAS 105 (2013), 1049-1050.

[24] Francisco, Cart. enc. Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 18: AAS 105 (2013), 565.

[25] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 14: AAS 105 (2013), 1025, Homilia na Santa Missa de conclusão da XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos (28 de outubro de 2012): AAS 104 (2012), 890. Grifo no original.

[26] Francisco, Discurso à Cúria Romana por ocasião dos votos de Natal (21 de dezembro de 2019): AAS 112 (2020), 43. Para ser mais preciso, a expressão “mudança de época” não apareceu pela primeira vez nesse discurso, mas foi introduzida pelo Papa Francisco por ocasião de sua entrevista de 29 de junho de 2014 ao jornal italiano Il Messaggero.

[27] CELAM, Documento conclusivo da V Conferência do Episcopado Latino-Americano e do Caribe (13 a 31 de maio de 2007), n. 44.

[28] Cf. Francisco, Cart. enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), n. 30: AAS 112 (2020), 979-980.

[29] Leão XIV, Cart. enc. Magnifica humanitas (15 de maio de 2026), n. 6.

[30] Leão XIV, Discurso aos Superiores Maiores da Companhia de Jesus (24 de outubro de 2025): L’Osservatore Romano, 24 de outubro de 2025, p. 5.

[31] Leão XIV, Cart. enc. Magnifica humanitas (15 de junho de 2026), n. 26.

[32] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 70: AAS 105 (2013), 1049.

[33] Conferência dos Bispos Católicos da Federação Russa, Relatório sobre a transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 30 de março de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[34] Cf. Conferência Episcopal da Albânia, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 19 de março de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[35] Igreja Metropolitana Greco-Católica Húngara, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Igreja sui iuris, 7 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[36] Conferência Episcopal do Chile, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 11 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[37] Cf. Conferência Episcopal das Antilhas, Carta Pastoral “Um mandato para o Reino: missão e evangelização no Caribe”, 9 de janeiro de 2018, n. 30.

[38] Conferência Episcopal do Panamá, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 14 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[39] Cf. Conferência Episcopal da Colômbia, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 16 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[40] Cf. Conferência Episcopal do Peru, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 30 de março de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[41] Cf. Conferência dos Bispos Católicos da Coreia, Relatório sobre a transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 31 de março de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[42] Cf. Conferência dos Bispos Católicos da Malásia, Singapura e Brunei, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 3 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[43] Cf. Conferência dos Bispos Católicos de Bangladesh, Relatório sobre a transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 15 de maio de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[44] Cf. Conferência dos Bispos Católicos do Japão, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 20 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[45] Cf. Conferência dos Bispos Católicos da Ásia Central, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 3 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[46] Conferência dos Bispos Católicos da África do Sul, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 4 de maio de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[47] Cf. Conferência dos Bispos Católicos da Zâmbia, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 10 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[48] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 73: AAS 105 (2013), 1050-1051.

[49] Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 30 de março de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[50] Conferência Episcopal da Romênia, Relatório sobre a transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 14 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[51] Francisco, Cart. enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), n. 105: AAS 112 (2020), 1005.

[52] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 64: AAS 105 (2013), 1047.

[53] Conferência Episcopal Espanhola, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 14 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[54] Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Relatório sobre a transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 31 de março de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[55] Conferência Episcopal Austríaca, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 31 de março de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[56] Leão XIV, Cart. enc. Magnifica humanitas (15 de junho de 2026), n. 4.

[57] Leão XIV, Cart. enc. Magnifica humanitas (15 de junho de 2026), n. 139.

[58] XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, Relatório de Síntese da primeira Sessão (28 de outubro de 2023), n. 17 a). Cf. Leão XIV, Discurso aos participantes da Conferência “Inteligência Artificial e Cuidado da Nossa Casa Comum” (5 de dezembro de 2025): L’Osservatore Romano, 5 de dezembro de 2025, 2.

[59] Leão XIV, Mensagem para o LX Dia Mundial das Comunicações Sociais (24 de janeiro de 2026): L’Osservatore Romano, 24 de janeiro de 2026, 2.

[60] Leão XIV, Cart. enc. Magnifica humanitas (15 de junho de 2026), n. 132.

[61] Conferência Episcopal da Bélgica, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 3 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[62] Conferência Episcopal do Chile, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 11 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[63] Para mais detalhes sobre a pesquisa, consulte o endereço https://eglise.catholique.fr/approfondir-sa-foi/la-celebration-de-la-foi/les-sacrements/le-bapteme/baptemes-adultes/.

[64] Cf. Patriarcado Maronita de Antioquia, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território do Patriarcado, 1º de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[65] Conferência dos Bispos Católicos da Nigéria, Relatório sobre a transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 6 de maio de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[66] Conferência Episcopal da Tanzânia, Relatório sobre a transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 26 de março de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[67] Cf. Conferência Episcopal da Costa do Marfim, Relatório sobre a transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 15 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[68] Cf. Conferência Episcopal Nacional do Congo, Relatório sobre a transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 30 de março de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[69] Leão XIV, Cart. enc. Magnifica humanitas (15 de junho de 2026), n. 223.

[70] Cf. Leão XIV, Carta aos Cardeais (14 de abril de 2026): L’Osservatore Romano, 14 de abril de 2026, p. 7. Cf. Id., Discurso por ocasião do Jubileu dos missionários digitais e dos influenciadores (29 de julho de 2025): L’Osservatore Romano, 29 de julho de 2025, p. 2.

[71] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Dei verbum (18 de novembro de 1965), n. 2, AAS 58 (1966), 818.

[72] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Dei verbum (18 de novembro de 1965), n. 5, AAS 58 (1966), 819.

[73] Cf. Comissão Teológica Internacional, A interpretação dos dogmas (1990), 2.1.1.

[74] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 164: AAS 105 (2013), 1088-1089.

[75] Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, Diretório para a Catequese (2020), n. 57.

[76] Cf. Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, Diretório para a Catequese (2020), nn. 56-57.

[77] Leão XIV, Cart. Enc. Magnifica humanitas (15 de maio de 2026), n. 22.

[79] Francisco, Cart. Enc. Dilexit nos (24 de outubro de 2024), n. 26: AAS 116 (2024), 1377.

[80] Bento XVI, Cart. Enc. Deus caritas est (25 de dezembro de 2005), n. 31: AAS 98 (2006), 245.

[81] Agostinho, Confessionum libri tredecim, XII, 16, 23: PL 32, 834.

[82] Francisco, Exort. ap. Christus vivit (25 de março de 2019), n. 211: AAS 111 (2019), 450.

[83] A. Hurtado, «Ustedes son la luz del mundo», discorso in El Cerro San Cristóbal, Cile (1940), come citato in ibid., n. 175: AAS 111 (2019), 440.

[84] Cf. Francesco, Esort. ap. Evangelii gaudium (24 novembre 2013), n. 70: AAS 105 (2013), 1050.

[85] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 165: AAS 105 (2013), 1089.

[86] Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Unitatis redintegratio (21 de novembro de 1964), n. 11: AAS 57 (1965), 99.

[87] Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), nn. 36-37: AAS 105 (2013), 1035.

[88] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 165: AAS 105 (2013), 1089.

[89] Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), nn. 127-129: AAS 105 (2013), 1073.

[90] Francisco, Cart. Ap. Aperuit illis (30 de setembro de 2019), n. 8: AAS 111 (2019), 1500.

[91] Cf. Aelredo de Rievaulx, De spiritali amicitia: CCCM, 1, 279-350.

[92] Francisco, Exort. ap. Christus vivit (25 de março de 2019), n. 151: AAS 111 (2019), 432.

[93] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes (7 de dezembro de 1965), n. 52: AAS 58 (1966), 1073.

[94] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 24: AAS 105 (2013), 1030.

[95] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 45: AAS 105 (2013), 1039.

[96] Cf. Próspero da Aquitânia, Indiculus, cap. 8: PL 51, 209.

[97] Agostinho de Hipona, Confissões, IX, 6, 14: PL 32, 769-770.

[98] R. Guardini, Spiegel und Gleichnis. Bilder und Gedanken, Mainz-Paderborn, 1990, pp. 158-161.

[99] Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate (19 de março de 2018), n. 9: AAS 110 (2018), 1113.

[100] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium (21 de novembro de 1964), n. 11: AAS 57 (1965), 15-16.

[101] Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate (19 de março de 2018), n. 14: AAS 110 (2018), 1115.

[102] «Sou humano; nada que seja humano me é estranho», Terêncio, Heautontimorumenos, I, 1, 25 (Trad. nossa).

[103] Leão XIV, Cart. enc. Magnifica humanitas (15 de maio de 2026), n. 122.

[104] Leão XIV, Exort. ap. Dilexi te (4 de outubro de 2025), n. 3: AAS 117 (2025), 1240.

[105] Leão XIV, Exort. ap. Dilexi te (4 de outubro de 2025), n. 104 : AAS 117 (2025), 1280-1281.

[106] H.U. von Balthasar, Gloria. Uma estética teológica. A percepção da forma, vol. 1, Milão 1971, p. 163. A isso pode-se acrescentar: «Se ao verum falta aquele esplendor que, para Tomás, constitui o sinal do belo, então o conhecimento da verdade permanece tanto pragmático quanto formalista. […] E se ao bonum falta aquela voluptas que, para Agostinho, é o sinal de sua beleza, então a relação com o bem permanece utilitarista e hedonista» (ibid.).

[107] Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 167: AAS 105 (2013), 1090.

[108] Leão XIV, Discurso de saudação aos participantes do “Concerto com os pobres” (6 de dezembro de 2025): L’Osservatore Romano, 9 de dezembro de 2025, 4.

[109] João Paulo II, Discurso aos participantes do Congresso Nacional do Movimento Eclesial de Empenho Cultural (16 de janeiro de 1982), n. 2, que cita Paulo VI, Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de dezembro de 1975), n. 20: AAS 68 (1976), 18. Cf. Conselho Pontifício da Cultura, Para uma pastoral da cultura (23 de maio de 1999).

[110] João Paulo II, Cart. enc. Slavorum apostoli (2 de junho de 1985), n. 21: AAS 77 (1985), 802.

[111] João Paulo II, Cart. enc. Redemptoris missio (7 de dezembro de 1990), n. 52: AAS 83 (1991), 300.

[112] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 122: AAS 105 (2013), 1071.

[113] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 127: AAS 105 (2013), 1073.

[114] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 132: AAS 105 (2013), 1075.

[115] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes (7 de dezembro de 1965), cap. I: AAS 58 (1966), 1034-1044.

[116] Leão XIV, Cart. enc. Magnifica humanitas (15 de maio de 2026), n. 3.

[117] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 123 AAS 105 (2013), 1071.

[118] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 126: AAS 105 (2013), 1073.

[119] Trata-se de um fenômeno que, há alguns anos, tem registrado um envolvimento cada vez maior dos jovens nas confrarias religiosas ou em grupos juvenis ligados ao mundo católico. Além da participação na vida das próprias confrarias, que culmina, publicamente, nas tradicionais procissões por ocasião das principais solenidades, destacam-se também encontros nacionais que contam com uma presença cada vez maior de participantes, conforme já relatado em 2016 pela revista digital da Arquidiocese de Madri: cf. https://alfayomega.es/las-cofradias-se-han-convertido-en-puerta-de-entrada-a-la-iglesia-para-muchos-jovenes/.

[120] Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), nn. 135-144: AAS 105 (2013), 1076-1080.

[121] Conferência Episcopal do Gana, Relatório sobre a transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 27 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[122] Cf. Conferência Episcopal Venezuelana, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 2 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[123] Conferência Episcopal da França, Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 5 de junho de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.

[124] Leão XIV, Cart. enc. Magnifica humanitas (15 de maio de 2026), n. 143.

[125] Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Unitatis redintegratio (21 de novembro de 1964), n. 1: AAS 57 (1965), 90. Cf. Ibid., Decr. Ad gentes (7 de dezembro de 1965), n. 6: AAS 58 (1966), 954-955.

[126] João Paulo II, Cart. enc. Redemptoris missio (7 de dezembro de 1990), n. 50: AAS 83 (1991), 297.

[127] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 246: AAS 105 (2013), 1119.

[129] Os relatos a seguir são sínteses elaboradas a partir de trechos extraídos dos textos originais dos depoimentos. Para facilitar a leitura, as omissões não são indicadas. Eventuais acréscimos resumidos são apresentados entre colchetes.

[130] Francisco, Cart. ap. em forma de “Motu proprio” Fidem servare (11 de fevereiro de 2022), n. 2: AAS 114 (2022), 288.

[131] Conc. Ecum. Vat. II, Decr. Unitatis redintegratio (21 de novembro de 1964), n. 11: AAS 57 (1965), 99.

[132] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 285: AAS 105 (2013), 1135. Cf. Dicastério para a Doutrina da Fé, Nota doutr. Mater populi fidelis (4 de novembro de 2025), n. 77.