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DICASTÉRIO PARA A DOUTRINA DA FÉ
VENITE AD ME
Considerações sobre a transmissão da fé em uma mudança de época
Índice
Introdução
Capítulo I
O anúncio do amor do Pai
Capítulo II
A luz da fé
Formas de transmissão da fé
A família
A comunidade eclesial
Capítulo III
A mudança de época
A crise na transmissão da fé
Uma nova cultura generalizada
As tecnologias digitais
Novas fronteiras da evangelização
Capítulo IV
A centralidade do kerygma
Despertar uma experiência de fé
A questão da linguagem
A formação cristã
Capítulo V
A transmissão da fé nas comunidades
Liturgia
O papel do testemunho
Arte e beleza
As fases da vida
Capítulo VI
Fé e cultura
Capítulo VII
Algumas considerações específicas
Capítulo VIII
Testemunhos
Do abismo da dependência à liberdade do encontro com Cristo
O “despertar” do kerygma: o papel da família e da oração
O testemunho da caridade, da cultura e da beleza
Conclusão
___________________________
1.
[Venite ad me]
«Vinde a mim, todos os que estais cansados e carregados de fardos, e eu
vos darei descanso» (Mt 11,28). O Senhor Jesus Cristo
apresenta-se como fonte de descanso profundo diante do cansaço e das
fadigas do coração humano. Assim, a transmissão da fé surge como um
encontro, no qual Cristo se aproxima de cada pessoa na realidade
concreta de sua vida, concedendo-lhe aquela verdadeira paz que só n’Ele
é possível encontrar.
Introdução
2.
Jesus é a verdadeira luz do mundo e quem crê
n’Ele, o Ressuscitado vivo,
vence as trevas da morte e vive graças à luz da vida (cf. Jo 1,
6-9; 8,12). Esta é a fé da Igreja e esta é a fé que todo crente é
chamado a difundir até os confins da terra. Tal compromisso — o da
transmissão da fé, adaptado às condições socioculturais atuais — está no
centro das presentes Considerações.
3.
Essa responsabilidade de cada crente em Cristo, a verdadeira luz
do mundo, representa um tema de grande atualidade para a vida e a missão
da Igreja. O Dicastério havia sido solicitado várias vezes pelo
Papa
Francisco a apresentar uma reflexão sobre o assunto e havia acionado o
procedimento ordinário para chegar às presentes Considerações. Os
acontecimentos recentes, especialmente a
eleição ao sólio pontifício do
Papa Leão XIV, a celebração do Jubileu, bem como a perspectiva do
próximo Jubileu da Redenção de 2033, constituem um estímulo adicional
para avançar mais rapidamente na elaboração do documento.
4.
As presentes Considerações pretendem, fundamentalmente,
relançar a toda a comunidade eclesial o convite que o
Santo Padre Leão
XIV dirigiu aos bispos italianos, ao encontrá-los em junho de 2025: «Em
primeiro lugar, é necessário um impulso renovado no anúncio e na
transmissão da fé. Trata-se de colocar Jesus Cristo no centro tanto do
anúncio quanto da existência e, seguindo o caminho indicado pela
Evangelii gaudium, ajudar as pessoas a viver uma relação pessoal com
Ele, para descobrir a alegria do Evangelho. Em uma época de grande
fragmentação, é necessário voltar aos fundamentos da nossa fé, ao
kerygma. Esse é o primeiro grande compromisso que motiva todos os
outros»[1].
Portanto, como observa ainda o Santo Padre, a «evangelização
deve hoje, de modo particular, confrontar-se também com as novas
condições e dinâmicas na transmissão da fé de geração em geração. Em
algumas regiões do mundo, esta transmissão está praticamente
interrompida, o que exige a capacidade de assumir novos desafios»[2].
O objetivo específico do documento é, portanto, oferecer tanto
uma reflexão específica quanto a sugestão de caminhos concretos para o
anúncio do kerygma na mudança de época que estamos atravessando.
5.
Tal anúncio é aquele capaz de despertar a fé naqueles que há
muito não a praticam (pense-se, em particular, no mundo dos adultos e
das novas gerações) ou de promover uma experiência de fé (fides qua)
naqueles que ainda não conheceram Cristo, sem entrar no trabalho
específico da catequese e da formação dos fiéis, ambas chamadas a
oferecer também uma introdução ordenada e gradual à doutrina da Igreja (fides
quae). A reflexão das presentes Considerações sobre a
fides qua precede a questão da transmissão do depositum fidei,
que este documento não pretende abordar de forma exaustiva.
6.
Ao elaborar estas Considerações, foi realmente valiosa a
contribuição de muitas Conferências Episcopais Nacionais, que
responderam com grande solicitude ao pedido do Dicastério de enviar
materiais relativos ao tema da transmissão da fé.
7.
De particular relevância são os testemunhos, enviados pelos
bispos, daqueles que descobriram ou redescobriram — ainda jovens ou já
adultos — o Senhor Jesus e Seu Evangelho. Muitos deles são reproduzidos
no último capítulo das presentes Considerações.
8.
Uma última precisão diz respeito ao gênero do documento, que se
trata de Considerações e não de
uma Nota doutrinária. Seu objetivo, de fato, é principalmente
estimular a reflexão eclesial e o empenho pastoral em torno da
transmissão da fé. Por isso, o texto examina uma pluralidade de pontos
de vista, sem, no entanto, pretender encerrar a questão, que permanece
aberta a novas análises e desenvolvimentos. Isso significa que estas
Considerações não se caracterizam, como outros textos do Dicastério
para a Doutrina da Fé, pela precisão da linguagem e pela sistematicidade
da exposição, mas adotam um estilo mais coloquial, como fica evidente
sobretudo na mencionada seção
dedicada aos testemunhos[3].
Capítulo I
O anúncio do amor do Pai
9.
Ao falar da missão do Batista, o evangelista João o qualifica
como a testemunha da luz, como aquele que deve dar seu testemunho da
verdadeira luz, daquela luz que, por si só, tem o poder de iluminar todo
ser humano (cf. Jo 1,6-9). Essa verdadeira luz tem o nome de
Jesus, o Cristo, o Filho de Deus feito homem para a salvação do mundo.
Ele é, em última análise, a
«verdadeira luz do mundo», e quem seguir seus passos nunca se perderá
nas trevas, mas sempre encontrará dentro de si a plena luz da vida (cf.
Jo 8,12). Esse é o cerne de todo o Cristianismo e é também o
impulso que leva os crentes a transmitir, em todos os tempos — inclusive
no nosso —, a fé que vivem.
10.
Jesus é realmente a verdadeira luz que ilumina todo ser humano,
pois aquilo que ninguém jamais tinha visto nem poderia ver, Ele revelou:
o amor incondicional que habita no coração de Deus-Trindade. Esta
é a boa nova do Evangelho do Filho: Deus é, para sempre e para todos,
amor (cf. 1Jo 4,8). Ele é Pai, Filho e Espírito Santo. Essa
boa nova,
desconhecida até à vinda de
Jesus, é agora capaz de nos conduzir à salvação e à felicidade plenas e,
ao mesmo tempo, pela graça do Espírito Santo, de evidenciar e purificar
tudo o que possa ser um obstáculo à vida nova que
ela nos abre.
11.
De forma ainda mais radical, Jesus anuncia a verdade de que, por
esse amor do Pai, não existe nenhum espaço humano marcado pelo fracasso
ou pelo pecado que não possa ser reintegrado ao seu destino original.
Pelo contrário, graças à ação contínua do Espírito Santo, que age
da
forma que só Ele conhece[4],
a luz e o poder desse amor estão sempre à disposição de qualquer pessoa,
em qualquer tempo e em qualquer lugar. Quem acolhe essa revelação
abandona para sempre o reino das trevas, abrindo-se finalmente à luz da
vida e a uma vida de luz.
12.
Justamente por essa razão, toda a existência de Jesus é permeada
pelo desejo de iluminar cada ser humano com a boa nova do Deus, que é
amor para sempre. Assim, Ele vai
ao encontro dos outros com o coração aberto e livre e se deixa alcançar
por eles. Ele segue os passos dos homens e mulheres de seu tempo e se
deixa encontrar por eles. Quem o busca, encontra-o; e se o busca, é
porque já foi alcançado por Cristo (cf. Fl 3,12). Jesus não
coloca obstáculos entre si e as pessoas. Está sempre atento, sempre
presente, nunca distraído e sua palavra jamais soa abstrata. Ele deseja continuamente orientar o coração
e a mente de todos para a verdadeira luz do amor do Pai, de sua
misericórdia, que são amor e misericórdia simplesmente para a vida boa
de todos. Ninguém fica de fora. A vida de cada um é digna de ser vivida
em plenitude.
13.
Aqueles, então, que se abrem à luz da revelação do amor de Deus
recebem de Jesus uma palavra de perdão, uma palavra de libertação, uma
palavra de amor, uma palavra de liberdade, uma palavra de vida, uma
palavra de esperança (cf. Lc 4,18-19). Jesus desperta em todos
aqueles que vão ao seu encontro e se abrem a Ele com coração sincero um
impulso de renovado interesse e amor pela vida: pela própria vida, pela
vida dos outros e pela vida de tudo o que existe (cf. Jo 14,6). O
amor de Deus reconduz cada homem e cada mulher às boas razões de seu
próprio ser no mundo.
14.
Com isso em mente e no coração, o Jesus que os evangelistas
narram está sempre a caminho.
Ele não espera. Não cria um santuário próprio nem uma escola. Ele se
move, viaja. Entra nas aldeias e nas cidades de seu povo e de seu tempo.
Ele conversa com as pessoas simples, mas também com aqueles que ocupam
cargos de poder público, religioso ou político. Por meio desses gestos e
dessas palavras, Jesus leva a bom termo a revelação confiada ao povo de
Israel (cf. Mt 4,12-17; Mc 1,14-15; Lc 3,21-22).
15.
Chama a atenção, de maneira especial, a forma como Jesus proclama
o Evangelho do Deus que é amor para sempre e para todos. São numerosas,
em sua pregação, as referências à vida cotidiana das pessoas, ao reino
dos animais e ao mundo das árvores, das plantas e das flores, assim como
abundam as referências aos ofícios de sua época, à preparação da comida
e às brincadeiras das crianças. Jesus demonstra também um notável
conhecimento do uso dos números e recorre frequentemente à construção de
edifícios ou a fenômenos meteorológicos; conhece as moedas
do seu tempo e tem profunda
familiaridade com os diversos grupos religiosos presentes na época e, de
várias maneiras, ligados ao judaísmo. É realmente um homem que “olha”
com plena atenção e convida constantemente todos a
“ver” com o mesmo olhar para a
trama da criação e da história humana. Esta é, na verdade, sua certeza
inabalável: quando o coração está livre de todo egoísmo e ansiedade
desnecessária, é possível reconhecer as pegadas do amor de Deus até
mesmo no evento mais pequeno e aparentemente insignificante (cf. Lc
12,22-34), e é justamente esse mesmo amor que o leva a se expressar por
meio da linguagem da vida cotidiana das pessoas.
16.
Não é de se surpreender, portanto, que tal pregação, ao mesmo
tempo em que conquista facilmente o coração das pessoas simples — que a
sentem tão próxima e familiar —, desconcerte e, em certa medida,
inquiete aqueles que detêm o poder político e religioso da época. É como
uma luz capaz de revelar todos os possíveis usos e abusos desse poder:
«Sabeis que os chefes das nações as dominam e os grandes impõem sua
autoridade. Entre vós não seja assim» (Mt 20,25-26); «Ai de vós
igualmente, doutores da Lei, porque carregais as pessoas com fardos
insuportáveis» (Lc 11,46).
17.
Ao cumprir sua missão, Jesus não se limita apenas ao anúncio do
amor incondicional de Deus. Ele dá testemunho concreto desse amor por
meio de uma predileção especial por todos aqueles que já quase não
esperam mais nada de ninguém: nem de seus parentes, nem de seus amigos,
nem de seus compatriotas, nem de seus correligionários e talvez nem
mesmo do Deus da Aliança dos Pais. Devido à sua condição de sofrimento,
causada por doenças incuráveis ou por trágicos reveses do destino, essas
pessoas são frequentemente consideradas “os últimos” da sociedade. No
entanto, são justamente elas que se tornam “os primeiros” no coração do
Senhor Jesus (cf. Mt 20,16). São, de fato, esses
“últimos/primeiros” aqueles que, mais do que todos os outros, Jesus
convida a se aproximarem da luz que ilumina cada homem e cada mulher, ou
seja, da luz do amor do Pai. É assim que, com sua proximidade, com suas
palavras e com seus milagres, Jesus reacende neles a esperança de ainda
poderem ter esperança, a confiança de ainda poderem ter confiança, a
possibilidade de ainda terem possibilidades. Ele realiza neles o
prodígio de ainda poderem acreditar em um milagre para sua própria
existência.
18.
Ao longo de sua pregação, Jesus entra então, quase
inevitavelmente, em conflito com uma sociedade religiosa e política que
fazia da Lei de Moisés seu fundamento estrutural, mas na qual, em sua
aplicação concreta, muitas vezes prevaleciam atitudes de divisão e
exclusão. Enquanto seu Pai, que está nos céus, faz nascer o sol sobre
todos (cf. Mt 5,45) e faz chover sobre todos, a discriminação e a
separação entre as pessoas constituíam uma característica muito
difundida no ambiente político e religioso de seu tempo, assim como no
nosso. Ao trazer a luz de um amor divino que deseja reconectar cada um
com sua existência, ainda que conturbada, com as outras pessoas de seu
entorno e, por fim, com o próprio Deus, com vistas a uma fraternidade de
justiça e paz, Jesus não pode deixar de entrar em conflito com os
poderes de seu tempo, uma vez que sua mensagem tem a força de uma
autoridade (cf. Mc 1,27). Ao anunciar o rosto de amor de Deus,
Jesus priva de todo fundamento aquele exercício despótico do poder
religioso e político de sua época, que esqueceu sua própria natureza de
serviço e de unidade. Deus não abençoa a divisão, muito menos a
discriminação. Ele é Pai e ama todo ser vivo (cf. Sab 1,13-14).
Nenhuma lei ou autoridade humana ou religiosa poderá jamais declarar
alguém indigno de seu amor ou do amor dos demais seres humanos.
19.
A tensão entre as palavras e os gestos de Jesus e os
desentendimentos com o poder de sua época atinge o ápice na decisão das
autoridades religiosas e políticas de condená-lo à morte. Sua pregação,
acompanhada de sinais extraordinários, deve ser interrompida e reduzida
ao silêncio para sempre. Assim se decide sua morte na cruz, à qual o
poder romano dá seu aval.
20.
Mas essa condenação à morte não tem força para apagar a
“verdadeira luz do mundo”. Aquele patíbulo injusto torna-se, na economia
da salvação, o trono mais elevado do qual ressoa com absoluta clareza a
mensagem evangélica e se manifesta ao mundo inteiro o poder iluminador
do Evangelho do Filho e o seu Evangelho é este: Deus é amor para
todos, Deus é misericórdia para todos. Ele é verdadeiramente
para todos, e por isso o é também para aqueles que condenam e matam o
Filho. O “sim” que Deus, em Jesus, diz ao ser humano e que mantém
ardentemente acesa a verdadeira luz do mundo, que é o seu Filho, nunca
pode ser transformado em um “não”. O amor do Pai, do Filho e do Espírito
Santo pela humanidade é sem reservas, sem limites, sem medida e,
em última análise, sem
fronteiras (cf. 1Jo 4,7-8).
21.
Nos momentos finais da vida terrena de Jesus, encontram pleno
cumprimento as belíssimas palavras do antigo e maravilhoso livro do
Cântico dos Cânticos: «Águas torrenciais não puderam extinguir o
amor, nem rios poderão afogá-lo» (8,7). A incompreensão e a obstinação
que levam os líderes do povo à condenação de Jesus, com a plena
cumplicidade das autoridades romanas, não conseguem extinguir seu desejo
de tirar a humanidade das trevas e acender nela a luz da vida. Pelo
contrário, a boa e grande notícia do Cristianismo é justamente esta: nem
mesmo o poder da morte conseguiu apagar a verdadeira luz do mundo.
22.
Essa é, portanto, a certeza fundamental dos cristãos, sem a qual,
como diz o apóstolo Paulo, tudo seria em vão: «E se Cristo não
ressuscitou, vã é a nossa pregação, e vã nossa fé» (1 Cor 15,14).
Essa mesma consciência foi expressa também por ocasião do Sínodo dos
Jovens: «CRISTO VIVE: é
Ele a nossa esperança e a mais bela juventude deste mundo! Tudo o que
toca torna-se jovem, fica novo, enche-se de vida»[5].
É isso que os discípulos do Senhor, em todos os tempos, acreditam,
anunciam e testemunham com a própria vida: Cristo está vivo e deseja que
todo ser humano esteja vivo. Ele está sempre conosco e não nos abandona
(cf. Mt 28,20). Por mais que uma pessoa se afaste
d’Ele, Jesus nunca se afastará
dela. Por meio de sua Igreja, o Ressuscitado permanece, em todos os
tempos, ao lado de cada um, pronto para iluminar sua existência com o
amor divino, enchendo-a de vida, de força e de esperança. A comunhão
eclesial é hoje o lugar privilegiado onde Cristo continua a se deixar
encontrar por meio de homens e mulheres progressivamente transformados
por sua própria vida.
23.
Para tornar possível sua missão de ser luz do mundo, a Igreja
celebra com alegria o cumprimento da grande promessa de Cristo: «o
Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos
ensinará tudo e vos recordará o que eu vos tenho dito» (Jo
14,26); «ele dará testemunho de mim. E vós também dareis testemunho» (Jo
15,26-27). Sem a ação do Espírito Santo no íntimo dos corações, torna-se
impossível transmitir a verdadeira luz de Cristo, como nos lembra também
a Sequência de Pentecostes: «Vem, Pai dos pobres […] sem a tua força,
nada há no homem». Nele depositamos nossa confiança, enquanto nos
dispomos a buscar as diversas formas de cooperar com sua graça na
evangelização do nosso tempo. É a Ele que pedimos o fervor e a alegria
necessários para responder com fidelidade a esse chamado.
Capítulo II
A luz da fé
24.
À luz do que foi dito até aqui, compreende-se
melhor o fundamento do Cristianismo, tal como foi expresso por
Bento
XVI: «Ao início do ser
cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro
com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e,
desta forma, o rumo decisivo»[6].
Um novo horizonte e um rumo decisivo
são os da alegria, como lembra o
Papa
Francisco no início da
Evangelii gaudium: «A
Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se
encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do
pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce
sem cessar a alegria»[7].
25.
Este é, portanto, o cerne da experiência cristã: o encontro com o
Senhor Jesus, que nos coloca em contato com a verdadeira luz do amor
divino, faz com que não nos percamos nas trevas e nos conduz à vida. É
justamente nesse sentido que se pode falar da luz da fé, como se
afirma na primeira carta encíclica de mesmo nome do
Papa
Francisco, para
cuja redação
Bento XVI também contribuiu: «A
luz da fé é a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande
dom trazido por Jesus. Eis como Ele Se nos apresenta, no Evangelho de
João: “Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em Mim não
fique nas trevas” (Jo 12, 46). E São Paulo exprime-se nestes
termos: “Porque o Deus que disse: ‘das trevas brilhe a luz’, foi quem
brilhou nos nossos corações” (2 Cor 4, 6). No mundo pagão, com
fome de luz, tinha-se desenvolvido o culto do deus Sol, Sol invictus,
invocado na sua aurora. Embora o sol renascesse cada dia, facilmente se
percebia que era incapaz de irradiar a sua luz sobre toda a existência
do homem. De fato, o sol não ilumina toda a realidade, sendo os seus
raios incapazes de chegar até às sombras da morte, onde a vista humana
se fecha para a sua luz. Aliás “nunca se viu ninguém — afirma o mártir
São Justino — pronto a morrer pela sua fé no sol”. Conscientes do amplo
horizonte que a fé lhes abria, os cristãos chamaram a Cristo o
verdadeiro Sol, “cujos raios dão a vida”. A Marta, em lágrimas pela
morte do irmão Lázaro, Jesus diz-lhe: “Eu não te disse que, se
acreditares, verás a glória de Deus?” (Jo 11, 40). Quem acredita,
vê; vê com uma luz que ilumina todo o percurso da estrada, porque nos
vem de Cristo ressuscitado, estrela da manhã que não tem ocaso»[8].
26.
A experiência da fé pode, assim, ser imaginada como o encontro
vital e decisivo com aquele “verdadeiro sol” que é Cristo, o qual
liberta das trevas e enche de luz a existência humana. É uma experiência
de luz que, por sua própria natureza, irradia-se para outras existências
a fim de iluminá-las com a mesma luz; essas, resplandecendo por sua vez,
ampliarão o raio de propagação da luz originária: a verdadeira luz do
mundo, que é Cristo. Como não lembrar, a esse respeito, as palavras do
próprio Jesus dirigidas aos seus discípulos: «Vós sois a luz do mundo» (Mt
5,14)?
27.
É precisamente a esse dinamismo que devemos nos referir quando
refletimos sobre o delicado tema da transmissão da fé no contexto
contemporâneo, aqui evocado como um tempo de mudança de época. O texto
da
Lumen fidei confirma isso com extrema precisão: «Quem
se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua [de Cristo] voz e recebeu a sua
[de Cristo] luz, não pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que é
escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra e como luz;
dirigindo-se aos Coríntios, o apóstolo Paulo utiliza precisamente estas
duas imagens. Por um lado, diz: “Animados do mesmo espírito de fé,
conforme o que está escrito: Acreditei e por isso falei, também nós
acreditamos e por isso falamos” ( 2 Cor 4, 13); a palavra
recebida faz-se resposta, confissão, e assim ecoa para os outros,
convidando-os a crer. Por outro, São Paulo refere-se também à luz: “E
nós todos que, com o rosto descoberto, refletimos a glória do Senhor,
somos transfigurados na sua própria imagem” ( 2 Cor 3, 18); é uma
luz que se reflete de rosto em rosto, como sucedeu com Moisés cujo rosto
refletia a glória de Deus depois de ter falado com Ele: “[Deus] brilhou
nos nossos corações, para irradiar o conhecimento da glória de Deus, que
resplandece na face de Cristo” ( 2 Cor 4, 6). A luz de Jesus
brilha no rosto dos cristãos como num espelho, e assim se difunde
chegando até nós, para que também nós possamos participar desta visão e
refletir para outros a sua luz, da mesma forma que a luz do círio, na
liturgia de Páscoa, acende muitas outras velas. A fé transmite-se por
assim dizer sob a forma de contato, de pessoa a pessoa, como uma chama
se acende noutra chama. Os cristãos, na sua pobreza, lançam uma semente
tão fecunda que se torna uma grande árvore, capaz de encher o mundo de
frutos»[9].
28.
O mesmo documento, no parágrafo seguinte, lembra ainda que a «transmissão
da fé, que brilha para as pessoas de todos os lugares, passa também
através do eixo do tempo, de geração em geração. Dado que a fé nasce de
um encontro que acontece na história e ilumina o nosso caminho no tempo,
a mesma deve ser transmitida ao longo dos séculos»[10].
Se, portanto, por um lado, a transmissão da fé se assemelha ao acender
de uma chama a partir de outra chama, em um contato que poderíamos
chamar de pessoal, por outro lado, a comunidade dos discípulos sempre se
sentiu chamada a criar ocasiões nas quais a fé pudesse ser transmitida:
ocasiões em que fosse possível a todos entrar em contato com a
verdadeira luz da vida, aquela que liberta de toda escuridão e que se
encontra no Senhor Jesus. Os discípulos sentiram, portanto, o dever de
transmitir a fé; um dever que deve ser preservado e honrado de geração
em geração.
29.
A transmissão da fé tem seu fundamento último na iniciativa de
Deus, que em Cristo revelou seu rosto e confiou aos Apóstolos a tarefa
de anunciar o Evangelho a todas as nações. Essa missão, no entanto, não
se concluiu com a pregação apostólica, mas continua na história por meio
da Igreja. O
Concílio Vaticano II afirma, de fato, que «a
Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as
gerações tudo aquilo que ela é e tudo quanto acredita»[11].
A Igreja é, assim, o sujeito histórico e vivente no qual o Evangelho é
ouvido, guardado, celebrado e continuamente atualizado sob a ação do
Espírito Santo. Por essa razão, a fé não é transmitida, em primeiro
lugar, como um conjunto de conteúdos doutrinários ou de informações
religiosas, mas como uma forma de vida eclesial na qual o crente é
progressivamente introduzido. O sujeito principal da transmissão da fé
é, portanto, a Igreja em sua totalidade[12],
a qual, ao receber incessantemente o dom da Palavra divina, comunica-o e
o testemunha por meio da pregação, da liturgia, da caridade e da
experiência concreta da comunhão. Pode-se, portanto, afirmar com razão
que a Igreja «é uma Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé»[13].
Formas de transmissão da fé
30.
É importante afirmar com clareza que a força mais autêntica da
missão evangelizadora da comunidade dos discípulos do Senhor continua
sendo sempre a da atração, como lembrou
Bento XVI na homilia da
Santa Missa de inauguração
da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe: «A missão
de Cristo realizou-se no amor. Ele acendeu no mundo o fogo da
caridade de Deus (cf. Lc 12,49). É o amor que dá a vida:
por isso a Igreja é convidada a difundir no mundo a caridade de Cristo,
porque os homens e os povos “tenham a vida e a tenham em abundância”
(Jo 10,10). [...] A Igreja se sente discípula
e missionária desse Amor : missionária somente enquanto
discípula, isto é capaz de deixar-se sempre atrair, com renovado enlevo,
por Deus que nos amou e nos ama por primeiro (1Jo 4,10). A Igreja
não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por “atração”: como
Cristo “atrai todos a si” com a força do seu amor, que culminou no
sacrifício da Cruz, assim a Igreja cumpre a sua missão na medida em que,
associada a Cristo, cumpre a sua obra conformando-se em espírito e
concretamente com a caridade do seu Senhor»[14].
Essa reflexão também foi adotada pelo
Papa Leão XIV: «Retomo-a hoje, com
alegria, e partilho-a convosco. A mim mesmo e a vós, lanço o convite a
prestar muita atenção ao que o Papa Bento
XVI indicou
como a “força” que preside a este movimento de atração: essa força é a Charis,
o Agape, o Amor de Deus que se fez carne em Jesus Cristo e que,
no Espírito Santo, é dado à Igreja, santificando todas as suas ações. Na
verdade, não é a Igreja que atrai, mas Cristo, e se um cristão ou uma
comunidade eclesial atrai, é porque através desse “canal” chega a seiva
vital da Caridade que brota do Coração do Salvador»[15].
A família
31.
Entre os âmbitos nos quais a Igreja é chamada a comunicar e a
fazer resplandecer a luz de Cristo, a família constitui o primeiro e
mais essencial lugar de transmissão da fé. Já no Novo Testamento se
destaca o papel dos familiares na transmissão da fé. A Timóteo, por
exemplo, o apóstolo Paulo dirige-se dizendo: «Recordo-me também da fé
sincera que há em ti, fé que habitou, primeiro, em tua avó Loide e em
tua mãe Eunice, e que certamente habita também em ti» (2 Tm 1,5).
Esse aspecto também foi destacado pelo
Papa Leão XIV: «Na
família, a fé é transmitida, de geração em geração, juntamente com a
vida: é partilhada como o alimento da mesa e os afetos do coração. Isso
torna-a um lugar privilegiado para encontrar Jesus, que nos ama e quer
sempre o nosso bem»[16].
32.
Ao longo das décadas, com a formação e a consolidação das
comunidades cristãs, surge também seu papel ativo na tarefa de
transmitir a fé. Em particular, com a difusão da prática do batismo
infantil, as comunidades e as famílias sentem-se unidas na
responsabilidade comum de introduzir os mais
novos ao encontro com o Senhor
Jesus. Trata-se da consciência de que, se as crianças recebem a vida dos
pais, no batismo elas recebem «o
sentido para a viver: a fé. Quando sabemos que um bem é essencial,
imediatamente o procuramos para aqueles que amamos. Quem de nós, afinal,
deixaria os recém-nascidos sem roupa ou alimento, à espera que escolham
como se vestir e o que comer quando crescerem? […] se comida e vestuário são necessários para viver, a fé é mais do que
necessária, porque com Deus a vida encontra a salvação»[17].
33.
Permanece, em todo caso, a necessidade de uma profunda integração
entre a Igreja e a família, como lembra claramente também a
Lumen
fidei: a
«estrutura
do Batismo põe em evidência a importância da sinergia entre a Igreja e a
família na transmissão da fé. Os pais são chamados — como diz Santo
Agostinho — não só a gerar os filhos para a vida, mas a levá-los a Deus,
para que sejam, através do Batismo, regenerados como filhos de Deus,
recebam o dom da fé. Assim, juntamente com a vida, é-lhes dada a
orientação fundamental da existência e a segurança de um bom futuro;
orientação esta, que será ulteriormente corroborada no sacramento da
Confirmação com o selo indelével do Espírito Santo»[18].
A esse respeito, é interessante a
ligação que se pode vislumbrar na Igreja latina entre a liturgia do
acendimento do círio pascal — prelúdio à grande celebração da Páscoa,
centro e ápice da fé cristã — e
a celebração do Batismo, porta dessa mesma fé, sobretudo na referência a
Cristo Luz, que deve ser acolhido na existência de cada crente.
34.
Nessa perspectiva, soa como particularmente significativo o que o
próprio documento magisterial afirma mais adiante: «Em
família, a fé acompanha todas as idades da vida, a começar pela
infância: as crianças aprendem a confiar no amor de seus pais. Por isso,
é importante que os pais cultivem práticas de fé comuns na família, que
acompanhem o amadurecimento da fé dos filhos. Sobretudo os jovens, que
atravessam uma idade da vida tão complexa, rica e importante para a fé,
devem sentir a proximidade e a atenção da família e da comunidade
eclesial no seu caminho de crescimento da fé»[19].
35.
É significativo recordar aqui uma página intensa de memórias
escrita pelo jesuíta Aimé Duval, na qual é possível vislumbrar a obra
silenciosa e quase natural do testemunho cristão vivido pelos pais em
relação aos próprios filhos. Escreve o padre Duval, no contexto do
relato de sua conturbada trajetória humana e religiosa: «Eu era o quinto
de uma família de nove filhos. Antes de mim: Lucie, Marie, Hélène,
Marcel; e depois: René, Raymond, Suzanne e André. Nessa família, não me
ensinaram a piedade de um modo
expansivo e extraordinário. No
dia a dia, havia apenas a oração da noite, recitada em conjunto. Mas
disso, eu me lembro e me lembrarei até meus olhos se fecharem. Minha
irmã. Minha irmã Hélène recitava as orações, longas para crianças
(um quarto de hora). Ela acelerava o ritmo, gaguejava, tomava atalhos,
até o momento em que meu pai lhe dizia no dialeto: “Recomeça...
Repita... ”. Foi assim que aprendi, naquele momento, que era preciso
conversar com o Bom Deus com lentidão, seriedade e gentileza paciente.
Meu pai. O que me emociona hoje é lembrar-me da atitude do meu
pai. Ele, que estava sempre cansado por causa dos trabalhos no campo ou
do transporte de lenha, ele, que demonstrava sem vergonha que estava
cansado ao voltar do trabalho, eis que, após cada jantar, se ajoelhava, com os
cotovelos apoiados no assento de uma cadeira, a testa entre as mãos, sem
olhar para os filhos ao seu redor, sem se mover, sem tossir, sem
demonstrar impaciência. E eu pensava: “Meu pai, que é tão forte, que
comanda sua casa e seus dois bois grandes, que se mantém orgulhoso
diante dos golpes do destino e tão pouco tímido diante do prefeito, dos
ricos e dos espertalhões, eis que se torna bem pequeno diante do Bom
Deus. Realmente, é algo bem diferente conversar com o Bom Deus. De fato,
o Bom Deus deve ser alguém muito grandioso para que meu pai se ajoelhe,
e também alguém muito familiar para que ele converse com Ele vestindo
suas roupas de trabalho...”. Minha mãe. Quanto à minha mãe, nunca
a vi de joelhos. Cansada demais, ela sentava-se no meio da sala, com o
caçula nos braços, o vestido preto até os calcanhares, seus lindos
cabelos castanhos soltos sobre o pescoço e todas as crianças ao seu
redor, encostadas nela. Ela acompanhava com os lábios as orações do
início ao fim; não queria perder nem um pingo, recitava-as por conta
própria. O mais curioso é que ela não parava de nos olhar, cada um sob
seu olhar. Um olhar mais demorado para os pequenos. Ela nos olhava, mas
nunca dizia nada. Nem mesmo quando os pequenos se mexiam e cochichavam,
nem mesmo quando o trovão estrondava sobre a casa, nem mesmo quando o
gato derrubava uma panela. E eu pensava: “De verdade, o Bom Deus é muito
bondoso por permitir que conversemos com Ele com uma criança nos braços,
usando seu avental de trabalho. De verdade, o Bom Deus é alguém
importante para que o gato ou o trovão não tenham mais importância”. As
mãos do meu pai, os lábios da minha mãe, ensinaram-me sobre o Bom Deus
muito mais do que meu catecismo. Ele é Alguém, Ele é Alguém próximo. Só
se fala com Ele de verdade quando se trabalhou»[20].
36.
Este comovente relato de uma iniciação simples e alegre das
crianças ao mistério de Deus, possibilitada pelo testemunho dos pais,
confirma plenamente a intuição repetidamente evocada pelo
Papa
Francisco: a fé deve ser transmitida, no seio da família, “no dialeto”.
Por ocasião da
Festa do Batismo do Senhor, em 7 de janeiro de 2018, ele
dirigiu-se assim aos pais que haviam levado seus filhos ao batismo: «Gostaria
de vos dizer apenas uma coisa, que se refere a vós [pais]:
a transmissão da fé só pode ser feita “em dialeto”, no dialeto da
família, no dialeto do pai e da mãe, do avô e da avó. Depois virão os
catequistas que desenvolverão esta primeira transmissão, com ideias, com
explicações.... Mas não vos esqueçais disto: faz-se “em dialeto”, e se o
dialeto faltar, se em casa os pais não falarem entre eles aquela
linguagem do amor, a transmissão não será muito fácil, não se poderá
fazer. Não vos esqueçais. A vossa tarefa consiste em transmitir a fé,
mediante o dialeto do amor da vossa casa, da família»[21].
Esse ponto também foi reiterado pelo
Papa Leão XIV: «os
primeiros catequistas são os pais, aqueles que primeiro nos falaram e
nos ensinaram a falar. Assim como aprendemos a nossa língua materna,
também o anúncio da fé não pode ser delegado a outros, mas acontece no
lugar onde vivemos. Em primeiro lugar, nas nossas casas, à volta da
mesa: quando há uma voz, um gesto, um rosto que conduz a Cristo, a
família experimenta a beleza do Evangelho»[22].
37.
A transmissão da fé encontrou assim, até tempos recentes,
justamente nos contextos familiares o principal local de passagem entre
as gerações. São sobretudo os pais que constituem aquele primeiro
“tabernáculo” no qual os pequenos podem vislumbrar toda a beleza e a
força de ser discípulos do Senhor Jesus. Esse testemunho se concretiza
em uma trama de gestos simples e cotidianos: a oração pessoal e em
casal, a leitura do Evangelho, a recordação das palavras e dos gestos de
Jesus, a memória dos santos padroeiros, a invocação constante da
proteção maternal da Virgem Maria, a participação na missa dominical, a
visita aos santuários e as diversas formas de piedade popular, a atenção
aos mais pobres e desfavorecidos, mas também por meio da oração de ação
de graças antes das refeições e da bênção do Senhor por ocasião dos
aniversários de um dos membros da família, bem como da montagem devota
do presépio por ocasião das festas natalinas.
38.
No entanto, é preciso constatar que essa situação favorável está
gradualmente se esvaindo. De fato, como será visto mais adiante com
maior detalhe, uma das características da nossa época é o fato de que,
embora mantenha sua importância em algumas regiões da África e da Ásia,
a transmissão da fé no âmbito familiar foi interrompida em muitas partes
do mundo[23].
Consequentemente, a transmissão da experiência da fé cristã às novas
gerações não ocorre mais de forma, por assim dizer, “automática”.
A comunidade
eclesial
39.
É somente nesse momento, e posteriormente, que a comunidade
eclesial entra no processo de transmissão da fé. O que uma pessoa
recebeu de seus pais — o testemunho de fé em Jesus, que revelou
plenamente o rosto do amor infinito de Deus, libertando os seres humanos
das trevas e abrindo-os à verdadeira luz da vida — encontra na Igreja os
meios e as oportunidades para que se torne o princípio fundamental de
sua maneira de encarar o mundo. Por meio da catequese, da celebração dos
sacramentos, dos diversos espaços que favorecem uma participação ativa
na vida comunitária – como propõe o atual caminho sinodal –, do
compromisso em favor dos mais desfavorecidos e do encontro na casa do
Senhor aos domingos, alcança-se aquela maturidade da fé que consiste, em
última análise, em olhar para tudo “com os olhos de Jesus”.
40.
Graças à ação coordenada entre pais e comunidade eclesial, de
fato, cada um aprende que «na
fé, Cristo não é apenas Aquele em quem acreditamos, a maior manifestação
do amor de Deus, mas é também Aquele a quem nos unimos para poder
acreditar. A fé não só olha para Jesus, mas olha também a partir da
perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo
de ver»[24].
Essa é a plena realização do processo que aqui chamamos de transmissão
da fé: permitir que cada um alcance tal intimidade com o Senhor Jesus a
ponto de poder, finalmente, olhar para si mesmo, para os outros, para o
mundo e para o mistério de Deus com os próprios olhos de Jesus.
Percebe-se, assim, que o acompanhamento da comunidade é essencial não
apenas para acolher o Evangelho, mas também para permanecer fiel ao dom
recebido, pois é muito difícil perseverar sozinho.
41.
É preciso constatar, além disso, que, nos países de antiga
tradição cristã, esse contexto de transmissão da fé parece hoje
comprometido, pois é caracterizado cada vez mais pela presença de «“pessoas
batizadas que, porém, não vivem as exigências do Batismo”,
não sentem uma pertença cordial à Igreja e já não experimentam a
consolação da fé. Mãe sempre solícita, a Igreja esforça-se para que elas
vivam uma conversão que lhes restitua a alegria da fé e o desejo de se
comprometerem com o Evangelho»[25].
Além disso, cresce, sobretudo entre os jovens, o número daqueles que não
conhecem Jesus e o Evangelho.
42.
Justamente por essa razão, a transmissão da fé exige hoje,
particularmente, a evangelização dos adultos e a superação de uma ação
pastoral concentrada exclusivamente na catequese de crianças e
adolescentes.
Capítulo III
A mudança de época
43.
Merece atenção especial o contexto da transmissão da fé, objeto
das presentes Considerações, expresso por meio da categoria de
“mudança de época”. Como se sabe, foi o
Papa
Francisco quem tornou
famosa essa expressão em seu
discurso à Cúria romana por ocasião da
troca de votos natalinos, em 21 de dezembro de 2019, afirmando: «estamos a
viver não simplesmente uma época de mudanças, mas uma mudança de
época. Encontramo-nos, portanto, num daqueles momentos em que as
mudanças já não são lineares, mas epocais; constituem opções que
transformam rapidamente o modo de viver, de se relacionar, de comunicar
e elaborar o pensamento, de comunicar entre as gerações humanas e de
compreender e viver a fé e a ciência»[26].
Como já havia sido lembrado há mais de dez anos pelo Documento Final
da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe,
realizada em maio de 2007 em Aparecida (Brasil), dessa mudança «o nível
mais profundo é cultural. Desaparece a concepção integral do ser humano,
sua relação com o mundo e com Deus»[27].
44.
Essa situação está fundamentalmente ligada à crise do modelo
cultural da modernidade, que afeta de maneira particular o contexto
europeu. Pode-se perguntar, portanto, se falar de “mudança de época”, no
singular, faz jus aos processos que as Igrejas, em todas as partes do
mundo, estão enfrentando. A resposta a essa questão é, sem dúvida,
positiva, pelo menos se nos mantivermos em um nível geral, por motivos
ligados ao conhecido fenômeno da globalização, que favoreceu a difusão
efetiva da influência da cultura ocidental em todas as regiões do
planeta. Aliás, é inegável que algumas experiências, como a tragédia da
pandemia da Covid-19, tenham reforçado a consciência generalizada de
pertencer a uma única família, embora não faltem tendências que se movem
na direção oposta[28].
45.
A urgência de abordar as questões suscitadas pela mudança de
época também foi manifestada pelo
Papa Leão XIV em sua primeira Carta
Encíclica
Magnifica humanitas: «Estamos
a viver uma rápida fase de transição, uma “mudança de época” em que,
enquanto alguns disputam o futuro das novas tecnologias e outros se
dedicam à reflexão sobre elas, a maioria das pessoas permanece a
aguardar, observa de longe, simplesmente esperando que tudo corra bem.
Exatamente por isso, impõem-se à nossa consciência questões decisivas,
que não podem já ser evitadas: Para onde vamos? Para que meta desejamos
orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto
povos?»[29].
As características gerais dessa mudança foram destacadas pelo Santo
Padre: «a inteligência
artificial e outras inovações remodelam a nossa compreensão do trabalho
e das relações, inclusive levantando questões sobre a identidade humana.
A degradação ecológica ameaça a nossa casa comum. Os sistemas políticos
muitas vezes não respondem ao clamor dos pobres. Populismo e polarização
ideológica aprofundam as divisões entre as nações. Muitos são atingidos
pelo consumismo, individualismo e indiferença»[30].
A isso pode-se acrescentar também a crescente disparidade econômica,
que, às vezes, leva à desestabilização de regiões inteiras. Trata-se de
fatores globais que acarretam profundas mudanças sociais. Tais
transformações afetam praticamente todos os contextos culturais e não
poupam nem mesmo a Igreja, pois ela está encarnada na história e
participa da vida dos povos.
46.
Por um lado, de fato, o apelo exercido por um estilo de vida
economicamente confortável e a legítima aspiração a melhores condições
de vida, favorecida também pelo já mencionado desenvolvimento
tecnológico, contribuem para a difusão de mentalidades materialistas e
individualistas em todos os continentes. Isso, juntamente com outros
fatores, alimenta, em nível global, o fenômeno das migrações, muitas
vezes marcado por aspectos dramáticos. Por outro lado, esses mesmos
processos, inclusive nos países de evangelização antiga, favoreceram a
formação de contextos multiculturais nos quais, ao lado do secularismo,
coexistem expressões culturais próprias de diferentes povos, chamados a
enfrentar o desafio de uma convivência pacífica. É, portanto, necessário
reconhecer que tais dinâmicas não são vividas de maneira uniforme nas
diversas regiões do planeta. Da mesma forma, deve-se ressaltar que a
relação com a modernidade ocidental — que caracteriza sobretudo um
perfil específico da Igreja — se manifesta de maneiras diferenciadas,
dependendo das culturas às quais pertencem as diversas comunidades
cristãs. Essa realidade é reconhecida pelo
Papa Leão XIV: «o
Povo de Deus não é composto apenas por muitos povos, mas é constituído,
no seu seio, por funções, vocações, culturas e tradições diversas,
chamadas a apoiar-se e a enriquecer-se mutuamente. […] Pertence intimamente à vida da Igreja a tensão fecunda entre a
universalidade da missão e o enraizamento local: ela traz dentro de si o
horizonte do mundo inteiro, assumindo as questões de cada contexto como
lugar concreto onde o Evangelho se faz história»[31].
Pode-se concluir, portanto, que um dos aspectos mais relevantes da
mudança de época diz respeito ao estabelecimento de uma nova relação
entre a fé – e, portanto, sua transmissão – e as culturas.
A crise da transmissão da fé
47.
Um aspecto característico da mudança de época que afeta, por
diferentes motivos, sobretudo o Ocidente — ou seja, aqueles países em
que a fé cristã teve também uma relevância sociológica majoritária — diz
respeito à crise da transmissão geracional da fé cristã. Isso já
havia sido apontado pela
Evangelii gaudium: «Também
não podemos ignorar que, nas últimas décadas, se produziu uma ruptura na
transmissão geracional da fé cristã no povo católico. É inegável que
muitos se sentem desiludidos e deixam de se identificar com a tradição
católica, que cresceu o número de pais que não batizam os seus filhos
nem os ensinam a rezar, e que há um certo êxodo para outras comunidades
de fé»[32].
48.
Isso tem muito a ver, especialmente na Europa, nos Estados Unidos
da América e no Canadá, mas também na Austrália e na Nova Zelândia, com
uma
fase avançada de secularização,
que levou a uma crise significativa do cristianismo vivido no âmbito
familiar. Na verdade, cada vez menos pais cumprem a tarefa de colocar
seus filhos em contato com a luz viva da mensagem evangélica. É
justamente desses contextos familiares que provém a maioria dos jovens,
homens e mulheres que, apesar de terem frequentado os ambientes
católicos da paróquia, acabam vivendo a transição para a idade adulta
com uma atitude de indiferença religiosa substancial. Para essas pessoas
que, mesmo tendo recebido o Batismo, perderam o senso cristão da vida,
Jesus, sua mensagem de amor, aquela luz que Ele veio irradiar na
história humana, já não
representa nem um
elemento essencial de sua identidade nem um recurso confiável para
discernir o que é justo fazer em vista de uma vida humanamente digna.
49.
Isso não diz respeito, porém, apenas ao chamado Ocidente
avançado. Na Europa oriental, por exemplo, que passou pela grave
provação dos regimes totalitários comunistas e pela consequente
instauração de uma sociedade baseada no ateísmo de Estado – ainda que os
efeitos não tenham sido os mesmos em todos os lugares – foi a geração
dos atuais pais que sofreu com a interrupção da transmissão da fé. Isso
é atestado, em particular, pelos bispos dos territórios da antiga União
Soviética, que puderam constatar «que a fé havia passado das avós […]
para os netos, mas sem o envolvimento direto da geração intermediária.
Em consequência disso, a geração dos “netos” não encontrou nos pais uma
fé vivida na experiência cotidiana»[33].
Testemunhos semelhantes são oferecidos também pelos bispos da Albânia[34].
Por isso, concluem os bispos da Igreja greco-católica da Hungria, «não
podemos mais considerar como certo que os pais transmitam
automaticamente a fé aos seus filhos. O que no passado se revelava
eficaz, na situação atual não produz mais os mesmos frutos»[35].
50.
Essa ruptura na transmissão da fé na família também é observada
na América Latina e no Caribe, onde se manifesta sobretudo como uma
interrupção da continuidade orgânica entre família e sociedade. De fato,
como observam os bispos do Chile: «Durante décadas, considerou-se
natural que houvesse uma continuidade entre família, escola, cultura e
comunidade eclesial. Nesse contexto, a fé podia ser descrita como algo
que se transmitia de maneira relativamente orgânica de uma geração para
outra»[36].
A esse respeito, os bispos das Antilhas observam um enfraquecimento da
continuidade entre gerações[37],
sobretudo no que diz respeito à catequese e à prática sacramental. Em
outro contexto, como o do Panamá, onde a fé ainda está bem presente nas
manifestações populares e nos momentos importantes da vida, percebe-se
que ela «não é mais transmitida de forma natural dentro das famílias»[38].
Na Colômbia, assim como em outros lugares do planeta, são os avós que
suprem as lacunas da catequese doméstica, em paralelo com aquela
paroquial[39];
em outras regiões, por outro lado, por motivos ligados à cultura local,
chega-se até mesmo a adiar o batismo dos filhos para uma idade mais
adulta, como no caso da Amazônia peruana[40].
Em suma, todos esses depoimentos
mostram que uma espécie de “automatismo” na transmissão da fé deixou de
existir.
51.
Um problema semelhante afeta também a maioria das Igrejas da
Ásia, sobretudo nas regiões tecnologicamente mais avançadas. Nesses
casos, porém, trata-se de um cristianismo que sempre foi minoritário no
âmbito social e que só recentemente vem enfrentando algumas dificuldades
na transmissão da fé no seio da família. Na Coreia, por exemplo, os
bispos observam que, devido à preocupação dos pais, sobretudo com a
carreira acadêmica e profissional dos filhos, a tarefa da catequese dos
mais jovens é assumida principalmente pelos avós[41].
Também os bispos da Malásia, Singapura
e Brunei denunciam a prioridade dada às exigências da carreira, enquanto
a formação espiritual é progressivamente reduzida ao uso pessoal dos
meios modernos de comunicação[42].
Em Bangladesh, observa-se uma situação semelhante, agravada ainda mais
por um contexto social de maioria muçulmana[43].
No Japão, por outro lado, encontram-se dificuldades, em certos aspectos,
semelhantes às do mundo ocidental, sobretudo no que se refere à
catequese paroquial e à grande difusão dos matrimônios entre pessoas
pertencentes a tradições religiosas diferentes que, de certa forma,
dificultam a transmissão da fé no seio da família[44].
Isso também ocorre nos países da Ásia Central, que outrora pertenciam ao
bloco soviético, nos quais a Igreja permaneceu, no entanto, uma
realidade minoritária e vive condições análogas às das comunidades da
Europa Oriental, onde, por várias décadas, sobreviveu, sob regimes
totalitários, uma «Igreja do silêncio»[45].
52.
Apesar da grande variedade de contextos, nem mesmo a África está
isenta de dinâmicas que interrompem a transmissão geracional da fé. Em
primeiro lugar, isso se deve a uma certa secularização dos costumes
induzida pela influência de um estilo de vida ocidental, adotado
sobretudo pelas gerações mais jovens. Existem, no entanto, também outros
fatores, ligados principalmente à relação com as culturas locais. Em
particular, pode-se constatar que uma obra de inculturação do Evangelho
não plenamente realizada, apesar das manifestações públicas de religião
ainda difundidas na vida social, conduz a uma fé superficial, desprovida
de raízes e mais exposta a influências externas. É o que testemunham,
por exemplo, os bispos da África do Sul: «apesar de o Cristianismo ser
amplamente difundido, ele permanece frequentemente em um nível
superficial, necessitando de uma encarnação mais profunda do Evangelho
na espiritualidade africana»[46].
Portanto, um dos principais desafios para a transmissão da fé, que
caracteriza de maneira transversal o continente africano, diz respeito à
crescente concorrência, cada vez mais agressiva, exercida por movimentos
religiosos de diversas origens e ao retorno às práticas religiosas
tradicionais, mesmo após o batismo[47].
53.
Sem entrar na complexidade das causas que geraram tais
transformações, é dentro desse contexto de verdadeira reescrita das
condições fundamentais da existência humana que deve ser situada a crise
da transmissão geracional da fé e o desafio que ela representa para a
Igreja. No passado, tais condições eram interpretadas sobretudo a partir
do Cristianismo, tanto na sociedade como um todo quanto no seio das
comunidades individuais. De maneira mais geral, é preciso reconhecer que
não está em crise apenas a transmissão da fé, mas também uma certa visão
do ser humano e de seus valores fundadores e fundamentais e essenciais, que havia encontrado no
próprio Evangelho sua plenitude. A crise da modernidade, símbolo da
mudança de época, contribuiu assim para o surgimento de uma nova
cultura, que passou a competir com as estruturas tradicionais de
transmissão da fé. Isso levou, por sua vez, à crise do chamado modelo de
cristandade, acompanhada pela percepção generalizada, em diversas
regiões do mundo, de que a tarefa dos sacerdotes se limita
frequentemente à “manutenção” das estruturas existentes,
quando o mundo ao seu redor
mudou radicalmente.
Uma nova cultura difundida
54.
Partindo dessa situação, a
Evangelii gaudium convida à
seguinte constatação: «Novas
culturas continuam a formar-se nestas enormes geografias humanas
[as metrópoles] onde o
cristão já não costuma ser promotor ou gerador de sentido, mas recebe
delas outras linguagens, símbolos, mensagens e paradigmas que oferecem
novas orientações de vida, muitas vezes em contraste com o Evangelho de
Jesus. Uma cultura inédita palpita e está em elaboração na cidade. O
Sínodo [de 2012 sobre a nova evangelização] constatou que as transformações destas grandes áreas e a cultura que
exprimem são, hoje, um lugar privilegiado da nova evangelização. Isto
requer imaginar espaços de oração e de comunhão com características
inovadoras, mais atraentes e significativas para as populações urbanas.
Os ambientes rurais, devido à influência dos mass-media, não
estão imunes destas transformações culturais que também operam mudanças
significativas nas suas formas de vida»[48].
55.
Trata-se, portanto, de refletir sobre a questão da transmissão da
fé no contexto dessa cultura inédita que hoje se expande do coração das
cidades em direção às periferias e atinge também os ambientes rurais.
Trata-se de uma cultura generalizada
e profundamente influente, como observam os bispos dos Estados Unidos da
América: hoje os fiéis «tendem a ser
mais absorvidos pela cultura do que pela fé.
A cultura, por meio das redes sociais e do discurso público,
molda a maneira de pensar dos católicos [...] mais do que a própria fé,
a tradição e a devoção»[49].
O mesmo fenômeno se observa em muitos
outros contextos, sobretudo naqueles mais marcados pela cultura
ocidental e por um estilo de vida urbano. Conforme denunciam os bispos
da Romênia, a rápida secularização dessas sociedades faz com que
«a falta de prática religiosa não
seja mais percebida socialmente como uma ausência a ser
justificada»[50].
Para os países de evangelização antiga, portanto, já se pode falar de
sociedades pós-cristãs.
56.
A tendência dessa cultura inédita parece consistir na exaltação
da “soberania do eu”, que pretende sentir-se autônomo e livre para
administrar todos os aspectos de sua existência, submetendo às suas necessidades os
outros seres humanos e a própria realidade que o rodeia. Trata-se da
difusão de um individualismo cada vez mais acentuado, que gera
separação, divisão, inveja, ciúme, abuso de poder, narcisismo e
egolatria. Vêm à mente as palavras contundentes da encíclica
Fratelli
tutti: «O
individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A
mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo
melhor para toda a humanidade. Nem pode sequer preservar-nos de tantos
males, que se tornam cada vez mais globais. Mas o individualismo radical
é o vírus mais difícil de vencer. Ilude. Faz-nos crer que tudo se reduz
a deixar à rédea solta as próprias ambições, como se, acumulando
ambições e seguranças individuais, pudéssemos construir o bem comum»[51].
57.
Esse individualismo generalizado é talvez um dos efeitos mais
evidentes daquele longo processo de secularização que atingiu a
consciência humana contemporânea, especialmente nos contextos
ocidentais, privando-a do fôlego e do horizonte da transcendência. Como
afirma a
Evangelii
Gaudium, o «processo
de secularização tende a reduzir a fé e a Igreja ao âmbito privado e
íntimo. Além disso, com a negação de toda a transcendência, produziu-se
uma crescente deformação ética, um enfraquecimento do sentido do pecado
pessoal e social e um aumento progressivo do relativismo; e tudo isso
provoca uma desorientação generalizada, especialmente na fase tão
vulnerável às mudanças da adolescência e juventude»[52].
58.
Tudo isso, naturalmente, tem
repercussões no processo de transmissão da fé. Entre os fenômenos
apontados pelos bispos, além das dificuldades já mencionadas
relacionadas à família, há uma separação substancial entre o indivíduo e
a comunidade, como observado pelos bispos espanhóis:
«O indivíduo e a família sofrem as
consequências da crise cultural e social que acompanha tal processo e,
por sua vez, tornam-se a causa dessa crise, por motivo do
enfraquecimento da transmissão da fé e da consequente fratura dos
vínculos indispensáveis para a
vida em sociedade»[53].
Isso significa que o indivíduo tem dificuldade em inserir-se em uma
tradição que o precede, em um “nós” que dá forma não apenas ao seu
pensamento e ao seu sentimento, mas também à sua crença. Por
consequência, os mais jovens, sobretudo, ficam à mercê das modas do
momento, como observam os bispos do Brasil: «A
progressiva perda do senso de pertença eclesial, associada à difusão de
formas subjetivas de religiosidade, tem fragilizado os processos
tradicionais de iniciação cristã. Nesse contexto, não se pode mais
pressupor que o batismo conduza automaticamente a uma fé madura e
integrada à vida comunitária»[54].
Como consequência, nesses contextos, a fé é percebida sobretudo como um
fato privado, como destacam os bispos austríacos: «A religião está cada
vez mais sendo privatizada em nossa
sociedade, com
a tendência de afastá-la do espaço público. [...] Não é possível, por
assim dizer, enterrar a experiência cristã no coração sem que isso tenha
efeitos sobre a realidade do mundo e da sociedade»[55].
Tudo isso é ainda mais agravado naqueles países, como a França e o
Canadá, nos quais o laicismo se expressa também no plano legislativo,
limitando a liberdade de manifestar a própria fé em locais públicos.
As tecnologias digitais
59.
Um dos sinais mais evidentes da mudança de época que estamos
vivendo é, sem dúvida, a difusão das tecnologias digitais. Estas, como
observa o
Papa Leão XIV na
Magnifica humanitas, levaram ao surgimento de uma «situação
nova, em que o poder e a disseminação das tecnologias emergentes se
inserem no curso da vida quotidiana, moldam os processos de decisão e
incidem profundamente no imaginário coletivo»[56].
Em particular, prossegue o documento, a «propagação
dos meios de comunicação digitais gera uma cultura do imediato e da
hiperestimulação, que fomenta cansaço, tédio e apatia face ao esforço
necessário para procurar a verdade»[57].
Como já observou o
Sínodo sobre a sinodalidade no Relatório de
Síntese da primeira Sessão de 2023, «a cultura digital representa
uma mudança fundamental na maneira como concebemos a realidade e nos
relacionamos conosco mesmos, uns com os outros, com o ambiente que nos
rodeia e também com Deus»[58].
Sobretudo nas novas gerações, essa cultura caracteriza-se não apenas,
como frequentemente se destaca, por um acesso mais amplo ao
conhecimento, mas também por uma mudança nas próprias categorias de
pensamento e, em última análise, na maneira de se relacionar com a
realidade. Além disso, se considerarmos os cenários abertos pela
irrupção da inteligência artificial, surge o risco cada vez mais
concreto, como lembrou o Santo Padre, de que tal cultura leve a «alterar
radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana, que
por vezes temos como garantidos. Ao simular vozes e rostos humanos,
sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e
amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só
interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível
mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas.
O desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico»[59].
Isso tem consequências relevantes para a inculturação da fé.
60.
A difusão das tecnologias digitais e o avanço da inteligência
artificial, como é natural, também afetam a fé e a religião. Se, por um
lado, no mundo digital não faltam oportunidades para compartilhar
testemunhos de vida e experiências espirituais, além de permitir uma
difusão mais ampla dos conteúdos da catequese em comparação com os meios
disponíveis no passado, as novas tecnologias oferecem, sem dúvida,
possibilidades inéditas de evangelização. Por outro lado, porém, em
alguns contextos, o anúncio de fé corre o risco de se tornar
desencarnado, desligado da vida concreta ou ligado a ideologias
promovidas por minorias barulhentas. Isso pode levar a distorções da
própria fé ou da consciência, ou induzir as pessoas a construir uma
chamada fé “à sua própria medida”, moldada segundo seus próprios gostos
e preferências, em vez de se basear no ensinamento da Igreja.
61.
Além disso, observou-se que a cultura digital tende a remodelar
algumas categorias fundamentais de pensamento, como o espaço, o tempo e
a autoridade, que constituem elementos essenciais do próprio conceito de
tradição. Portanto, ao mudar a forma de conceber
a tradição, a transmissão da fé
não pode deixar de ser transformada desde suas bases. No que diz
respeito ao espaço, como já mencionado, o senso de pertencimento a um
contexto local e concreto se atenuaria, embora não desaparecesse, pois
as pessoas estão, ao mesmo tempo, inseridas em uma rede global, na qual
as distâncias físicas parecem relativizadas, se não mesmo superadas. No
que diz respeito ao tempo, mudaria, por outro lado, o próprio
significado da memória: o fato de todos os conteúdos publicados na rede
permanecerem indefinidamente, juntamente com a rapidez que caracteriza
as trocas entre as pessoas, contribui para a perda de um senso genuíno
da história e do passado, pois tudo é nivelado em uma espécie de
presente eterno. Isso torna os usuários da rede particularmente
sensíveis às modas do momento.
62.
No que diz respeito à autoridade, é preciso prestar muita atenção
à advertência do
Papa Leão XIV em sua primeira encíclica,
Magnifica humanitas: «Ferramentas
que poderiam favorecer o debate e a participação são frequentemente
utilizadas para construir narrativas distorcidas e anular as distinções
entre o verdadeiro e o falso, misturando dados e opiniões. A
desinformação não surge com a IA, embora nela encontre hoje um poderoso
multiplicador. A possibilidade de manipular conteúdos, imagens e vídeos
expõe os cidadãos a perspectivas parciais ou enganosas. O problema diz
respeito à dimensão cultural e moral, uma vez que a qualidade da
comunicação pública depende diretamente da confiança social e tem
impacto sobre ela. Com efeito, uma informação verdadeira não surge dum
controle centralizado ou automatizado. No discurso público, a verdade
factual – uma vez que requer averiguação, correspondência com as fontes
e responsabilidade argumentativa – tem uma dimensão racional; uma vez
que requer averiguação, correspondência com as fontes e responsabilidade
argumentativa; mas é, sobretudo, relacional: constrói-se através de
vínculos de confiança e experiências partilhadas, num confronto honesto
com os outros e o mundo»[60].
Portanto, o acesso generalizado a múltiplas fontes de conhecimento e, ao
mesmo tempo, a presença de um grande número de vozes colocadas todas no
mesmo plano, cujo único critério de distinção é a eficácia comunicativa,
colocam em séria crise a credibilidade das instituições tradicionais,
pois, para muitos, já não está claro quem é realmente capaz de oferecer
uma palavra autorizada sobre as questões fundamentais da vida humana.
Novas fronteiras da evangelização
63.
Uma visão realista dessa situação não deve, porém, levar ao
desespero quanto ao futuro da Igreja. Entre as oportunidades que o
Espírito Santo oferece no atual contexto de mudança de época, há, de
fato, a de uma adesão à fé mais consciente e convicta, como afirmam os
bispos belgas: trata-se de «uma
oportunidade positiva para permitir que as pessoas optem
conscientemente por aprofundar sua fé»[61].
Uma atitude semelhante é encontrada também em um contexto
geograficamente distante, como o do Chile, cujos bispos observam que «a fé não pode mais ser dada como certa
como uma herança cultural estável, nem como adesão espontânea a um
universo simbólico compartilhado. Pelo contrário, parece ser uma
proposta que deve ser acolhida com liberdade, acompanhada nos diversos
percursos e comprovada no plano existencial»[62].
Além disso, é importante não esquecer um fenômeno que está afetando as
regiões mais secularizadas da Europa e da América, ou seja, o número
crescente de conversões e retornos à Igreja, sobretudo por parte de
jovens e adultos jovens. Particularmente relevante é o caso da França,
onde, diante de um declínio geral dos batismos na infância e da prática
religiosa, registra-se um crescimento excepcional e constante dos
pedidos para receber o sacramento do Batismo por parte de jovens e
adultos. Os resultados de uma pesquisa realizada a pedido da Conferência
Episcopal Francesa revelam que, em relação ao ano anterior, o número de
adultos que receberam o Batismo em 2026 cresceu 28%, de modo que esse
número mais do que triplicou em comparação com os dados de 2016. Como já
mencionado, esse fenômeno diz respeito sobretudo às novas gerações: a
grande maioria tem menos de 40 anos e, desses, cerca de metade está na
faixa etária entre 18 e 25 anos. De acordo com os depoimentos coletados,
entre as motivações que levam a solicitar o sacramento estão o encontro
com a fé após um momento de crise (por exemplo, um luto ou uma doença),
ter vivido experiências espirituais e de beleza, ou ainda o contato com
outros fiéis, tanto no âmbito pessoal quanto nas redes sociais[63].
64.
Em termos estatísticos gerais, esse fenômeno ainda atinge
porcentagens relativamente limitadas em relação à população total; no
entanto, isso não significa que não se trate de eventos significativos e
sempre motivo de alegria. É preciso, porém, ressaltar que uma visão mais
ampla da situação sugere a adoção de uma atitude prudente ao avaliar
essa realidade. De fato, se, por um lado, registra-se um aumento efetivo
na demanda pelos sacramentos da iniciação cristã nessas regiões
altamente secularizadas, por outro, constata-se uma dificuldade paralela
na perseverança dos neófitos, que, muitas vezes, após um breve período
após a recepção do Batismo, retornam a um estado de indiferença prática.
Por essa razão, embora seja oportuno evitar atitudes triunfalistas a
esse respeito, não se pode negar que tais fenômenos constituem sinais
concretos de esperança e de vitalidade evangélica. Ao mesmo tempo, a
situação descrita convida a redescobrir a importância da comunidade no
acolhimento e no acompanhamento dos novos fiéis.
65.
É possível constatar como, nesses casos, o anúncio evangélico,
realizado das mais variadas formas — desde o
passa-palavra ao convite para uma
peregrinação, passando por uma presença ativa nos novos meios de
comunicação —, permite acolher uma autêntica busca de sentido que
renasce em meio à asfixia da imanência. Essa busca pode se apresentar
sob muitas formas, que não devem ser menosprezadas: a busca por uma
maior amplitude do coração, a necessidade de paz e harmonia com o mundo,
o desejo de consolo e cura, as experiências de ruptura e de conflito que
levam a recomeçar, novas formas de beleza, uma certa recuperação do
antigo e das tradições, além de muitos outros exemplos que poderiam ser
multiplicados. Trata-se de realidades que devemos contemplar com
gratidão, reconhecendo nelas a obra do Espírito Santo, que continua a
agir nos corações das pessoas.
66.
Reafirma-se, portanto, essencialmente a necessidade de transmitir
a fé a partir do kerygma. Isso vale tanto para os países
secularizados de antiga tradição cristã quanto para aqueles em que a
Igreja se caracteriza geralmente como minoria, por exemplo, na Ásia. De
fato, muitos países asiáticos também são afetados pela secularização e
pelo individualismo, sobretudo nas regiões que passam por um rápido
crescimento econômico. No entanto, o impacto dessas influências
culturais sobre as comunidades de fiéis é diferente daquele observado
nas sociedades de tradição cristã. Justamente o fato de serem muitas
vezes minoritárias no âmbito social (com algumas notáveis excessões,
como as Filipinas e o Timor Leste) levou as Igrejas na Ásia a se
desenvolverem como comunidades bem definidas do ponto de vista
sociológico; isso favoreceu a consolidação de uma identidade forte, que
lhes permitiu atravessar a história apesar de contextos por vezes hostis
ou marcados por verdadeiras perseguições. Na atual situação de mudança
de época, esse fato apresenta, do ponto de vista da transmissão da fé,
duas ordens de consequências: por um lado, as comunidades cristãs não
são imunes à cultura secularizada generalizada acima descrita, o que
provoca, portanto, uma erosão da prática religiosa, sobretudo nas novas
gerações; por outro lado, elas são chamadas a superar uma adesão ao
cristianismo baseada na mera inércia da pertença social[64],
para que ela se torne uma escolha pessoal e consciente, capaz de
orientar suas próprias escolhas de vida. Isso vale especialmente para
regiões que se destacam pela presença de culturas milenares, como a
Índia ou a China, nas quais o esforço de encarnar o anúncio evangélico
na vida das pessoas deve confrontar-se com a maneira particular como uma
determinada cultura se relaciona com âmbitos como a verdade, o bem e a
beleza. A isso se soma a necessidade de repensar a própria maneira de
anunciar o Evangelho, privilegiando formas narrativas em vez da simples
transmissão de conceitos abstratos. Esse esforço é imprescindível para
preparar o terreno do coração de cada ser humano (cf. Mt 13,3-8)
para o encontro autêntico com a Boa Nova.
67.
Apesar da variedade de situações que caracterizam este vasto
continente, também a África se depara com o problema da secularização e
do individualismo de origem ocidental, que afetam sobretudo os contextos
urbanos e as novas gerações. Nas Igrejas africanas, no entanto, a
resposta a tais influências culturais sobre a transmissão da fé
insere-se no quadro de dois desafios igualmente exigentes, aos quais já
se fez referência: a inculturação do Evangelho nas culturas locais e a
“concorrência” do proselitismo por parte de outras religiões. A
importância do primeiro aspecto é atestada pelos bispos da Nigéria: «A
presença significativa de clero autóctone facilitou a transmissão da fé
no seio das culturas locais, pois eles atuam como modelos de referência
com os quais é possível se identificar e como guias espirituais,
preenchendo eficazmente a lacuna entre os valores tradicionais
nigerianos e os ensinamentos católicos»[65].
Outra iniciativa valiosa são as «Pequenas Comunidades Cristãs» (Small
Christian Communities), que, conforme relatado pelos bispos da
Tanzânia, «atuam como unidades primárias para a oração, a catequese e a
vida comunitária. A fé é frequentemente transmitida por meio de uma
abordagem que vê a comunidade como uma família»[66].
68.
Como já foi mencionado, a transmissão da fé na África (mas também
em outros lugares) sofre com a ação antagonista de grupos religiosos que
propõem um “Evangelho da prosperidade”, aproveitando-se das necessidades
materiais imediatas. Em regiões como a Costa do Marfim, por exemplo,
observa-se, por um lado, a busca por movimentos que garantam bem-estar e
felicidade, enquanto, por outro, registra-se o retorno de muitos
batizados às práticas tradicionais e esotéricas[67].
69.
É preciso reconhecer que, muitas vezes, a atratividade de tal
proposta decorre de algumas carências objetivas nas formas de anúncio do
Evangelho, que nem sempre conseguem levar em conta de maneira adequada
as necessidades reais e concretas das famílias. Isso implica que as
comunidades cristãs sejam
chamadas a buscar formas saudáveis de apresentar o Evangelho como
resposta eficaz também às necessidades mais tangíveis, seguindo o
exemplo de Jesus, que percorria a terra de Israel «fazendo o bem e
curando a todos» (At 10,38), demonstrando assim saber responder
não apenas às questões últimas, mas também às “penúltimas”. De fato, nem
sempre esses anseios têm uma origem egoísta (por exemplo, a preocupação
com o bem-estar dos filhos, o cuidado com a saúde, o desejo de restaurar
os laços familiares, etc.). Descobrir que a Igreja pode oferecer uma
ajuda espiritual concreta diante dessas preocupações prepara o coração
para receber o anúncio kerygmático com vigor renovado.
70.
Em outros contextos africanos, por outro lado, como na República
Democrática do Congo, além das pressões exercidas por grupos
fundamentalistas, as comunidades cristãs também sofrem a ameaça de uma
expansão agressiva de grupos islâmicos[68].
Todos esses fatores exercem influência sobre muitos fiéis que não
receberam uma formação sólida na fé ou não vivenciaram em primeira mão o
efeito transformador do kerygma em suas vidas.
71.
Não podemos, por fim, ignorar o fato de que, em muitas partes do
mundo, os crentes em Jesus ainda são vítimas de verdadeiras perseguições
por parte de grupos religiosos extremistas. A esse respeito, é urgente
reiterar que toda forma de violência exercida em razão da crença
professada é uma violação inadmissível da dignidade humana, pois «quem,
para legitimar o terrorismo, a violência ou a guerra, usa o nome de
Deus, trai a sua imagem: fazer guerra em nome da religião significa, na
realidade, ferir a própria religião»[69].
Trata-se de perversões da mensagem religiosa que devem ser abertamente
denunciadas e que toda autoridade política é chamada a reprimir sem
hesitação.
Capítulo IV
A centralidade do kerygma
72.
Diante da situação acima descrita, parece totalmente natural que,
para os crentes, se trate de recomeçar a partir de uma grande época de
anúncio do Evangelho, dando finalmente seguimento ao que o
Papa
Francisco pedia na
Evangelii gaudium a respeito da urgência de
toda a Igreja dar início a uma nova etapa evangelizadora. Esse convite
foi reiterado pelo
Papa Leão XIV, que reconhece a necessidade de «uma
missão cristocêntrica e kerigmática, que nasce de um encontro com Cristo
capaz de transformar a vida e que se difunde mais por atração do que por
conquista. É uma missão integral, que une o anúncio explícito, o
testemunho, o compromisso e o diálogo, sem ceder à tentação do
proselitismo nem a uma lógica de mera conservação ou expansão
institucional»[70].
Não o fazemos, antes de tudo, para responder a um novo desafio
histórico, mas por fidelidade à própria identidade cristã, que não pode
deixar de incluir a doação de si na transmissão da luz de Cristo. Tendo
tudo isso em vista, é oportuno refletir sobre o tema do anúncio do
kerygma e sobre como ele reorienta a vida e a missão da Igreja.
73.
A revelação divina, como ensina o
Concílio Vaticano II, não é uma
simples transmissão de verdades doutrinárias nem uma “instrução” de Deus
à humanidade, mas um diálogo de aliança: «Deus
invisível, na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos e convive
com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele»[71].
Isso faz com que o kerygma, o anúncio fundamental da fé, exija
daquele que o acolhe uma resposta que não se limita ao nível
intelectual, mas envolve toda a existência no acolhimento do apelo que
Deus faz à pessoa para compartilhar Sua própria vida. Justamente porque
não se limita apenas ao âmbito cognitivo, mas é dotada, por assim dizer,
de um alcance existencial (cf. Jo 17,3), tal resposta é, por sua
natureza, um evento de salvação: «Se, pois, com tua boca
confessares Jesus como Senhor e, no teu coração
creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo» (Rm 10,9).
74.
A verdade evangélica, portanto, é salvífica, é viva; mais ainda,
é uma pessoa: o próprio Cristo (cf. Jo 14,6). Isso se reflete na
estrutura do ato de fé, que se caracteriza, ao mesmo tempo, pela
«entrega total»[72] a Cristo do ser humano individual iluminado por sua graça (fides qua)
e pelas “coisas em que se crê” (fides quae), que explicitam o
conteúdo desse ato de entrega[73].
A correção da exposição da fé e a busca humana de sentido, que nunca se
esgota completamente (cf. 1 Cor 15,28), estão intimamente
ligadas.
Despertar uma experiência de fé
75.
A esse respeito, portanto, vale ainda o que podemos ler na
Evangelii gaudium: «na
catequese tem um papel fundamental o primeiro anúncio ou kerygma,
que deve ocupar o centro da atividade evangelizadora e de toda a
tentativa de renovação eclesial. O kerygma é trinitário. É o fogo
do Espírito que se dá sob a forma de línguas e nos faz crer em Jesus
Cristo, que, com a sua morte e ressurreição, nos revela e comunica a
misericórdia infinita do Pai. Na boca do catequista, volta a ressoar
sempre o primeiro anúncio: “Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te
salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer,
libertar”. Ao designar-se como “primeiro” este anúncio, não significa
que o mesmo se situa no início e que, em seguida, se esquece ou
substitui por outros conteúdos que o superam; é o primeiro em sentido
qualitativo, porque é o anúncio principal, aquele que sempre se
tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem
de voltar a anunciar, duma forma ou doutra, durante a catequese, em
todas as suas etapas e momentos»[74].
76.
A primeira reflexão que as palavras que acabamos de ouvir nos
sugerem é que o anúncio da verdade fundadora e fundamental do
cristianismo — Jesus Cristo, vivo, te ama e deu a vida para te salvar
— deve ocorrer de forma a suscitar uma experiência de fé,
capaz de dar início a um processo de formação da própria identidade
cristã. Assim, delineia-se uma tríplice etapa que deve caracterizar uma
transmissão da fé recentrada no kerygma: em primeiro lugar, o
anúncio central da presença e do amor de Cristo Ressuscitado; depois, a
experiência interior de sua presença e de seu amor, suscitada por esse
anúncio; por fim, o início de um caminho de conhecimento e de amor a
Cristo, possibilitado pela acolhida do anúncio por parte de quem o
recebe com coração livre e sincero.
77.
Não se trata, portanto, de uma mera transmissão de conteúdos, por
mais importantes que sejam, mesmo que digam respeito à salvação de cada
ser humano. Deve ser um anúncio “perfomativo”, capaz de tocar
verdadeiramente o coração daqueles que o recebem e de impulsionar seus
passos em direção ao coração do Senhor Jesus, onde é possível contemplar
e entrar em contato com aquele fogo de amor que Ele veio lançar sobre a
terra (cf. Lc 12,49). O anúncio do kerygma deve fazer
arder os corações daqueles a quem se dirige, segundo o modelo sublime
que o próprio Jesus realiza diante dos discípulos de Emaús: «E diziam um
para o outro: “Não estava ardendo o nosso coração, quando ele nos falava
pelo caminho e nos abria as Escrituras?”» (Lc 24,32).
78.
A ligação entre o kerygma e a catequese, no contexto de
uma mudança de época, é muito estreita, a ponto de a segunda «nem sempre
poder ser distinguida do primeiro anúncio», pelo que ela «é chamada a
ser, antes de tudo, um anúncio da fé»[75].
Justamente a esse respeito, pode ser útil relembrar uma situação que já
se tornou frequente. Como já foi observado, acontece cada vez com mais
frequência que os pais cristãos não consigam mais transmitir a fé aos
próprios filhos; no entanto, o simples fato de pedir o Batismo para os
próprios filhos ou de acompanhá-los à catequese já manifesta uma certa
presença da fé e um testemunho frágil, mas verdadeiro, que não devem ser
menosprezados. Nesses casos, é até mesmo possível que as crianças ou os
adolescentes que chegam à catequese ainda não tenham recebido um
primeiro anúncio explícito do Evangelho. Justamente por isso, a
catequese torna-se o lugar onde esse anúncio pode ser proposto
novamente, confirmando a necessidade de uma profunda renovação
kerigmática da própria catequese, pois ela, não raro, não consegue
suscitar uma experiência intensa de encontro com Cristo, que possa
perdurar no tempo[76].
79.
Por outro lado, é um fato que o elevado número de crianças e
adolescentes que se afastam da Igreja e dos sacramentos imediatamente
após concluírem o percurso de iniciação cristã ou o percurso na escola
católica indica que a catequese ainda tem dificuldade em encontrar os
caminhos mais adequados para motivar um encontro pessoal sólido e
duradouro com Cristo.
A questão da linguagem
80.
No contexto desta mudança de época, o verdadeiro desafio para a
Igreja é que a palavra do Evangelho seja assumida «como
critério vivente a fim de orientar escolhas concretas, inspirar caminhos
de conversão pessoal e comunitária, promover reformas de estruturas e
apoiar novos modos de testemunho evangélico na vida pública»[77].
Nesse sentido, valendo-se dos numerosos documentos e recursos que o
Dicastério para a Evangelização preparou[78],
parece hoje mais urgente do que nunca analisar, com olhar sapiencial, as
formas atuais de organizar a catequese, para que a transmissão da fé não
fique confinada a linguagens que possam ser rotuladas como
“escolásticas”, “dogmáticas” ou “moralistas”. Com demasiada frequência,
de fato, uma comunicação repetitiva e autorreferencial da mensagem
evangélica corre o risco de não tocar o coração dos fiéis. Por isso, a
linguagem da fé não deve limitar-se a uma exposição fria de conceitos;
deve certamente possuir aquela clareza que facilita a compreensão, mas,
acima de tudo, deve caracterizar-se como um apelo do coração, lembrando
que «o
Senhor salva-nos falando ao nosso coração a partir de seu Sagrado
Coração»[79] e que « “o programa do cristão [...] é ‘um coração que vê’”»[80].
Só assim será uma linguagem que realmente provocará algo na vida das
pessoas, pois será a expressão da própria voz do Senhor, o único que
pode tocar verdadeiramente o coração das pessoas: «Fala-me ao coração a
linguagem da verdade; somente tu o podes fazer»[81].
81.
Em resumo, para que a transmissão da fé seja realmente eficaz,
ela deve se configurar como uma relação interpessoal envolvente. Para
isso, «deve-se
privilegiar a linguagem da proximidade, a linguagem do amor
desinteressado, relacional e existencial que toca o coração, atinge a
vida, desperta esperança e anseios»[82].
Essa comunicação não pretende falar primeiro, mas nasce, antes de tudo,
da escuta, tornando possível uma verdadeira troca de dons entre quem
anuncia e quem acolhe o anúncio, facilitando assim o encontro com Cristo
que caminha conosco.
82.
Isso significa que a transmissão da fé pode se realizar ali onde
a linguagem se torna testemunho, tornando-se ela própria um evento do
Espírito. Como disse santo Alberto Hurtado, citado na Exortação
Apostólica
Christus vivit: «“Ser
apóstolo não é levar uma tocha na mão, possuir a luz, mas ser a luz.
[...] O Evangelho [...],
mais do que uma lição, é um exemplo. A mensagem transformada em vida
vivida”»[83].
Dessa forma, a Igreja poderá oferecer também hoje uma palavra que seja,
ao mesmo tempo, memória e profecia, capaz de reacender o coração dos
discípulos ao longo do caminho, acompanhados pelo Mestre, permitindo que
a graça suscite aquela adesão mística à fé[84],
a respeito da qual permanecem insuperáveis as palavras do profeta
Jeremias: «parecia haver no meu coração um fogo devorador, cerrado nos
meus ossos. Tentei aguentar, mas não fui capaz» (Jr 20,9).
A formação cristã
83.
Do que foi dito decorre que as comunidades de fiéis são
fortemente chamadas a promover, em momentos oportunos e inoportunos, uma
renovação do anúncio do kerygma. Aliás, ainda na
Evangelii gaudium, destacava-se outro aspecto realmente importante a esse
respeito: «Não se deve
pensar que, na catequese, o kerygma é deixado de lado em favor
duma formação supostamente mais “sólida”. Nada há de mais sólido, mais
profundo, mais seguro, mais consistente e mais sábio que esse anúncio.
Toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do kerygma que
se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne, que nunca deixa de
iluminar a tarefa catequética, e permite compreender adequadamente o
sentido de qualquer tema que se desenvolve na catequese. É o anúncio que
dá resposta ao anseio de infinito que existe em todo o coração humano. A
centralidade do kerygma requer certas características do anúncio
que hoje são necessárias em toda a parte: que exprima o amor salvífico
de Deus como prévio à obrigação moral e religiosa, que não imponha a
verdade mas faça apelo à liberdade, que seja pautado pela alegria, o
estímulo, a vitalidade e uma integralidade harmoniosa que não reduza a
pregação a poucas doutrinas, por vezes mais filosóficas que evangélicas»[85].
84.
Aqui retorna o grande ensinamento do
Concílio Vaticano II a
respeito da hierarquia das verdades entre os mistérios cristãos. Lemos,
de fato, no número 11 da
Unitatis redintegratio que «no
diálogo ecumênico, os teólogos católicos, sempre fiéis à doutrina da
Igreja, quando investigarem juntamente com os irmãos separados os
divinos mistérios, devem proceder com amor pela verdade, com caridade e
humildade. Na comparação das doutrinas, lembrem-se que existe uma ordem
ou “hierarquia” das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas
com o fundamento da fé cristã é diferente»[86].
Essa perspectiva foi ampliada pela
Evangelii gaudium para o
âmbito do anúncio do Evangelho, da teologia e da proposta moral[87].
Por essa razão, na mudança de época que nos cabe viver, não parece
oportuno, no âmbito da comunicação da fé às novas gerações, aos
catecúmenos adultos e aos chamados “recomeçantes”, dispersar-se por
tantos aspectos da doutrina católica, por mais importantes que sejam,
perdendo de vista o que nela há «“de mais sólido, de mais profundo, de
mais seguro, de mais consistente”»[88]:
o amor de Deus, que é como uma chama capaz de devolver vida, alegria,
esperança e confiança a toda existência humana. A essa chama, graças à
ação do Espírito, acede-se por meio do encontro — com fé e na fé — com o
Senhor Jesus.
85.
É justamente ao anunciar o kerygma de maneira renovada e
renovadora, apaixonada e apaixonante, que a comunidade de fiéis poderá
honrar a tarefa de transmitir, de geração em geração, a luz que Jesus
veio trazer à terra.
86.
Concretamente, para que possa realmente suscitar uma experiência
de fé, o anúncio do kerygma deverá assumir um estilo, uma
linguagem e um tom capazes de alcançar as pessoas onde elas se
encontram, com seus desejos e seus sonhos, com suas lutas e suas
dificuldades. Deve, portanto, ser capaz de apresentar a boa nova do amor
e da misericórdia de Deus de tal forma que aqueles que a recebem possam
compreender efetivamente que é justamente a eles que esse amor e essa
misericórdia se dirigem. É esse o estilo que caracteriza as parábolas do
Senhor Jesus, as quais ainda hoje cativam os corações de quem as ouve.
Capítulo V
A transmissão da fé nas
comunidades
87.
Partindo dessa consideração geral sobre a centralidade do
kerygma, é possível fazer algumas observações mais específicas. A
primeira, e mais essencial, diz respeito à qualidade da vida
comunitária dos discípulos do Senhor. Ela deve refletir um amor sincero
entre os irmãos, o cuidado mútuo, uma generosa disponibilidade para com
todos, especialmente para com os mais desfavorecidos, um clima de
alegria e de festa e, por fim, aquele viver com um só coração e uma só
alma (cf. At 4,32), próprio de uma comunidade acolhedora e
hospitaleira, capaz, mesmo neste momento de mudança de época, de
despertar a atenção de qualquer pessoa e de atraí-la para a experiência
da fé cristã. Em um mundo cada vez mais fragmentado, no qual os únicos
laços entre os seres humanos que parecem ter espaço são aqueles mediados
pelas infraestruturas digitais, torna-se cada vez mais evidente, em
muitas pessoas, uma necessidade e um desejo de pertencimento. Não nos
bastamos a nós mesmos, e as redes sociais não preenchem nossa
natureza original de “animais sociais”. Como crentes, não podemos deixar
de manter o coração e as portas abertas a essas novas realidades das
pessoas. Aliás, a primeira forma de evangelização ocorre sempre “de
pessoa a pessoa”[89].
88.
Nesse sentido, parece absolutamente urgente, sobretudo nos países
de evangelização antiga, insistir na importância de promover, em cada
comunidade eclesial, grupos de escuta, meditação, partilha e oração da
Palavra, para cuja realização sejam dedicados horários específicos e
fixos, que acompanhem a celebração da Eucaristia dominical. Que as
palavras do
Papa
Francisco sirvam de inspiração: «A
frequência assídua da Sagrada Escritura e a celebração da Eucaristia
tornam possível o reconhecimento entre pessoas que são parte umas das
outras. Como cristãos, somos um só povo que caminha na história,
fortalecido pela presença no meio de nós do Senhor que nos fala e
alimenta. […] temos
urgente necessidade de nos tornar familiares e íntimos da Sagrada
Escritura e do Ressuscitado, que não cessa de partir a Palavra e o Pão
na comunidade dos crentes. Para tal, precisamos de entrar em confidência
assídua com a Sagrada Escritura; caso contrário, o coração fica frio e
os olhos permanecem fechados, atingidos, como somos, por inumeráveis
formas de cegueira»[90].
A fim de facilitar esse contato dos fiéis com a Sagrada Escritura,
nesses grupos bíblicos, poderão ser facilmente adotadas a antiga prática
da lectio divina e as modernas metodologias exegéticas.
89.
Apesar de todas as mudanças históricas, os principais canais de
transmissão da fé continuam sendo os encontros “de pessoa a pessoa”. Por
isso, entre os âmbitos em que a fé é transmitida, a amizade assume
especial importância, como também atestam os casos mais recentes de
conversão. A tradição da Igreja sempre reconheceu o valor educativo das
relações fraternas genuínas[91],
como também o Magistério recente não deixou de destacar, sobretudo em
relação ao caminho de fé das jovens gerações, conforme afirmado, por
exemplo, pelo
Papa
Francisco: «A
amizade é um presente da vida e um dom de Deus. Através dos amigos, o
Senhor purifica-nos e faz-nos amadurecer»[92].
A amizade, de fato, constitui um espaço privilegiado no qual o
testemunho pessoal, a ajuda mútua e a partilha das alegrias e das
dificuldades da vida tornam possível uma partilha da fé capaz de
envolver toda a existência. Juntamente com a família, uma amizade
saudável representa o contexto por excelência de relações autênticas e
pode muito bem ser considerada também uma escola de humanidade[93],
onde os crentes podem acompanhar-se e apoiar-se mutuamente no seguimento
de Cristo.
Liturgia
90.
A segunda reflexão relacionada à redescoberta da centralidade do
anúncio do kerygma diz respeito à liturgia. Se o coração do
anúncio cristão é o encontro com o amor salvífico de Deus em Cristo, a
liturgia constitui o lugar privilegiado no qual esse mistério é
celebrado e comunicado sacramentalmente. Justamente por isso, ela ocupa
um papel central na transmissão da fé, configurando-se como o coração
pulsante da vida eclesial, na qual a comunidade se alimenta da Palavra
de Deus e do Pão da vida eterna. A esse respeito, é preciso superar uma
visão redutora que a considere uma mera moldura ritual da vida eclesial.
A liturgia, de fato, é antes de tudo uma experiência de fé, ainda antes
de ser um ensinamento, na medida em que permite ao fiel participar de
gestos, palavras, silêncios e símbolos, vivenciando de forma viva o
mistério de Cristo. Como se afirma em
Evangelii gaudium, «a
Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da Liturgia»[94]:
justamente por meio de sua força simbólica e de sua capacidade de
envolver integralmente a pessoa, a liturgia torna-se autêntico lugar de
anúncio e de encontro com o Senhor. Na ação litúrgica, e em particular
na Eucaristia, somos introduzidos cada vez mais profundamente no
mistério pascal, ao mesmo tempo em que se torna visível o caráter
sacramental da Igreja, chamada a ser sinal do amor de Deus pela
humanidade. Nesse evento sacramental, o encontro com o Ressuscitado
torna-se um gesto compartilhado e vital que educa o crente não apenas
“informando-o”, mas moldando-o por dentro para que se torne participante
do mistério celebrado. Por isso, na liturgia, a fé é transmitida de
forma performativa: não se fala apenas de Deus, mas entra-se em relação
com Ele. A liturgia é memória e tradição viva, que gera e molda cristãos
capazes de testemunhar a salvação encontrada: ao participar da oração
litúrgica, entra-se, de fato, em uma história, em uma memória
compartilhada que atravessa os séculos. Portanto, celebrar significa,
antes de tudo, receber uma fé que foi acreditada, vivida e rezada por
outros antes de nós.
91.
Essa dinâmica, além disso, destaca a dimensão eminentemente
comunitária da liturgia. A fé, de fato, não se transmite apenas por meio
do anúncio ou do ensino individual, mas no seio de um povo que celebra.
Na liturgia, o crente nunca está isolado, mas inserido em um “nós” que o
precede, o acompanha e o transcende. Essa dimensão comunitária constitui
um poderoso antídoto contra a atração de um estilo de vida egoísta e
individualista, hoje tão difundido em muitos contextos, como já pudemos
ver. Justamente por ser uma experiência eclesial e popular, a celebração
da fé está intimamente ligada aos processos de inculturação, ou seja, ao
esforço de «comunicar cada
vez melhor a verdade do Evangelho num contexto determinado, sem
renunciar à verdade, ao bem e à luz que pode dar quando a perfeição não
é possível»[95].
Aplicada à liturgia, tal perspectiva exige que se preserve a riqueza da
tradição simbólica da Igreja, tornando-a, ao mesmo tempo, acessível e
significativa para os homens e mulheres de seu tempo, em uma tensão
saudável e fecunda entre a fidelidade à tradição e a compreensibilidade
da mensagem celebrada.
92.
Do ponto de vista da transmissão da fé, portanto, a liturgia
reveste-se de importância crucial, de acordo com o antigo adágio lex
orandi, lex credendi[96].
Disso se conclui, que a celebração litúrgica não pode se reduzir a uma
mera execução formal, mas deve ser uma ação em que os sinais falem
realmente à mente e ao coração dos fiéis, expressando de maneira viva e
concreta a única fé da Igreja e fortalecendo em cada crente a
consciência de ser membro do Corpo de Cristo. Somente por meio de uma
participação plenamente consciente, que pressupõe uma educação adequada
na linguagem litúrgica, a fé pode ser transmitida não como doutrina
abstrata, mas como vida nova que se comunica “por atração” no cotidiano.
Testemunha dessa eficácia da liturgia foi também o jovem Agostinho, que,
anos depois daquela experiência, pôde escrever: « Quantas lágrimas
verti, de profunda comoção, ao maravilhoso ressoar de teus hinos e
cânticos em tua igreja! Aquelas vozes penetravam nos meus ouvidos e
destilavam a verdade em meu coração, inflamando-o de doce piedade,
enquanto corria meu pranto e eu sentia um grande bem-estar»[97].
Por meio da beleza dos sinais e da força da Palavra, portanto, a ação
litúrgica torna-se assim a fonte geradora da missão eclesial,
capacitando a comunidade a dar razão da esperança que nela habita por
meio da credibilidade de uma vida transfigurada pela graça. Por esse
motivo, é necessário um cuidado especial com as celebrações e um
acompanhamento mistagógico das novas gerações, para que possam
compreender e viver plenamente o que celebram na liturgia.
93.
Além disso, a liturgia pode ser vivida de diversas maneiras.
Existe, de fato, também uma forma própria da piedade popular manifestar uma
sensibilidade litúrgica, que se expressa de maneiras diferentes de
acordo com as diversas culturas. Para compreender esse fato, pode-se
citar um belo relato de Romano Guardini, no qual ele narra sua viagem à
Sicília: «Hoje vi algo grandioso: Monreale. […] Quando chegamos lá – era
Quinta-feira Santa –, a missa solene já havia passado da consagração.
[…] O que eu poderia dizer sobre o esplendor desse lugar? […] A multidão
estava sentada e observava. […] Quase ninguém lia. Todos viviam no
olhar, todos estavam absortos na contemplação. Então ficou claro para
mim qual é o fundamento de uma verdadeira piedade litúrgica: a
capacidade de captar o “santo” na imagem e em seu dinamismo. Monreale,
Sábado Santo. […] De vez em quando, um raio de sol penetrava na abóbada,
e então um sorriso dourado permeava o espaço lá em cima. […] O mais
belo, porém, era o povo. […] A cerimônia sagrada se prolongou por mais
de quatro horas, e mesmo assim sempre houve uma participação viva.
Existem diferentes formas de participação orante. Uma se realiza
ouvindo, falando, gesticulando. A outra, por outro lado, se dá olhando.
A primeira é boa, e nós, no Norte da Europa, não conhecemos outra. Mas
perdemos algo que em Monreale ainda existia: a capacidade de
viver-no-olhar, de permanecer na visão, de acolher o sagrado a partir da
forma e do evento, contemplando»[98].
94.
Deve-se dedicar especial atenção para permitir que, em cada
diocese, os fiéis e aqueles que se aproximam ou se reaproximam da
comunidade de fé possam entrar em contato com as diversas sensibilidades
litúrgicas presentes na tradição da Igreja Católica. Respeitando as
normas litúrgicas vigentes, os Pastores são chamados a valorizar a
riqueza do patrimônio litúrgico católico — pense-se, por exemplo, na
variedade de estilos musicais que o caracterizam — de modo a poderem
entrar em contato com as diversas sensibilidades de seus contemporâneos.
Além disso, deve-se dedicar atenção específica ao acompanhamento que
abençoa as fases marcantes da vida humana. Sobretudo no Ocidente,
assiste-se a uma perda progressiva da memória coletiva dos ritos e das
práticas rituais, em favor de um individualismo muito radical; mas isso
não suprime a necessidade antropológica da ritualidade, à qual o ser
humano sempre soube responder de diversas maneiras. A comunidade cristã
cresce e se edifica por meio das práticas rituais, e o rico patrimônio
espiritual da Igreja representa, nesse sentido, um recurso precioso e
inesgotável.
O papel do testemunho
95.
A terceira consideração essencial diz respeito ao testemunho dos
fiéis. Ele se articula em três dimensões fundamentais: o testemunho da
santidade, o da proximidade e o da opção preferencial pelos pobres. Em
todas as épocas, quem quer que tenha se deparado com o testemunho de um
cristão exemplar sempre foi estimulado a descobrir o segredo daquela
vida tão particular e diferente da maioria de seus semelhantes. Um
crente que vive plenamente as exigências da mensagem cristã é, por si
só, uma referência constante à verdadeira luz do mundo, que é Cristo
Jesus. Como afirma o
Papa
Francisco, de fato, a «santidade é o rosto
mais belo da Igreja»[99].
Bastaria aqui lembrar apenas as figuras de São Francisco de Assis e de
Santa Teresa de Calcutá. É preciso reconhecer, de fato, que nada, como a
santidade de seus membros, torna a Igreja mais credível no anúncio e na
transmissão da fé. Por essa razão, aliás, fazendo eco à mensagem sobre a
santidade do
Concílio Vaticano II[100],
o
Papa
Francisco quis reiterar com insistência que o chamado à santidade
é o chamado comum de todo cristão: «Para
ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou
religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja
reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das
ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos
somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio
testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma
consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação.
Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua
esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo,
cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos
irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as
crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo,
lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais»[101].
96.
Juntamente com o testemunho da santidade, os fiéis são chamados a
oferecer, no dia a dia de sua existência, o testemunho de uma
proximidade para com todos. Trata-se de uma proximidade construída com
os tijolos da hospitalidade, da
gentileza, da escuta, da mansidão e da ternura. Segundo a antiga frase
do autor latino Terêncio – «Homo sum, humani nil a me alienum puto»[102] – para os crentes, nada que seja verdadeiramente humano deve ser
considerado estranho. Todo cristão é chamado a ajudar as pessoas a reler
sua própria história no âmbito da grande história da salvação,
descobrindo que sua própria vida faz parte da narrativa de Deus. Essa
proximidade se torna testemunho quando é exercida em relação a pessoas
que vivem em situações de grave sofrimento, físico ou mental. Nesses
casos, um gesto de escuta e ternura, aliado a uma palavra de fé, pode
abrir amplos espaços para o acolhimento daquela verdadeira luz de
Cristo, que tem o poder de libertar das trevas aqueles que estão
envoltos nelas. O Papa Leão lembra, de fato, que a «finitude,
quando é acolhida na verdade, não empobrece o ser humano, mas o abre ao
reconhecimento do rosto de Deus e do outro»[103].
97.
Chegamos assim ao testemunho concreto do amor de Deus que os
crentes oferecem ao cuidar, de
maneira preferencial, dos pobres, dos desfavorecidos e dos excluídos.
Como lembrou o
Papa Leão XIV, seguindo os passos de seu predecessor, os
crentes nunca devem esquecer «a
forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento a
tornarmo-nos próximos dos pobres»[104].
Na verdade, o «cristão não
pode considerar os pobres apenas como um problema social: eles são uma
“questão familiar”. Pertencem “aos nossos”. A relação com eles não pode
ser reduzida a uma atividade ou departamento da Igreja»[105].
Nessa proximidade ativa e concreta com os irmãos e irmãs que vivem na
pobreza, a Igreja faz brilhar de maneira eminente aquela chama do amor
de Deus por todos que Jesus veio acender na terra e que ainda hoje
consegue tocar, muitas vezes silenciosamente, o coração de tantos. Um
testemunho particularmente valioso nesse sentido vem dos bispos de
Mianmar, recolhido por ocasião da Visita ad limina junto a este
Dicastério, em 2 de junho de 2026: nesse país, que carrega as feridas de
múltiplos conflitos, a Igreja demonstra sua proximidade com os mais
pobres, mesmo que seja simplesmente no silêncio da escuta, sem qualquer
distinção de pertencimento religioso – trata-se, de fato, de uma nação
de maioria budista. É justamente essa proximidade que desperta, naqueles
que não compartilham da fé cristã, o desejo de aprofundar os motivos
dessa maneira de lidar com o sofrimento, oferecendo assim aos fieis a
oportunidade de falar explicitamente sobre sua experiência com Jesus.
Nessa unidade entre caridade e anúncio evangélico, portanto, destaca-se
ainda mais claramente a beleza integral da proposta cristã.
Arte e beleza
98.
Uma quarta observação específica diz respeito, ainda, à
necessidade de dar espaço — no discurso sobre a transmissão da fé —
também às múltiplas expressões da criatividade humana, por meio das
quais se buscou dar forma àquela tensão em direção à beleza, ao amor e à
transcendência que habita, muitas vezes de forma atormentada, o coração
humano. Como não pensar, a esse respeito, nas tantas obras da literatura
e da poesia capazes de suscitar um encanto sublime, capazes de cativar
até mesmo as mentes mais distraídas pelas modernas tecnologias de
comunicação? Justamente sobre a importância de se abrir à beleza, Hans
Urs von Balthasar insistiu de maneira especial: «Na forma luminosa do
belo, o ser do belo torna-se visível como em nenhum outro lugar. Por
isso, todo conhecimento ou tendência espiritual deve ser acompanhado por
um momento estético»[106].
99.
Nessa perspectiva, deve-se dedicar atenção especial à música, a
qual, como expressão privilegiada da via pulchritudinis,
constitui uma linguagem essencial para a transmissão da fé, capaz de
tocar as cordas mais profundas do coração humano e de comunicar a
verdade do Evangelho por meio da beleza[107].
Não se trata de um mero ornamento estético das celebrações, mas de um
instrumento missionário que atua por atração, tornando perceptível a
glória do Ressuscitado, sobretudo onde as palavras têm dificuldade em
chegar. De fato, como observou o
Papa Leão XIV, «a
música é como uma ponte que nos conduz a Deus. Ela é capaz de transmitir
sentimentos, emoções, até os movimentos mais profundos da alma,
elevando-os e transformando-os numa escadaria ideal que liga a terra ao
céu»[108].
Por meio da música, a fé encontra formas particulares de expressão que
um anúncio puramente verbal, por si só, nem sempre consegue alcançar.
Essas considerações nos levam a exortar os artistas e escritores crentes
a um esforço criativo especial, para manifestar a beleza da fé e da
experiência espiritual cristã.
As fases da
vida
100.
Uma última observação diz respeito às diversas fases da
existência de cada ser humano (infância, adolescência, juventude, idade
adulta, velhice). Elas constituem, de fato, uma espécie de contínua
“reapropriação” do dom do próprio nascimento no mundo e, assim como
este, são experiências ao mesmo tempo surpreendentes e desafiadoras. A
comunidade eclesial deverá, portanto, desenvolver um anúncio do
Evangelho mais atento às diferentes idades da vida, levando em devida
consideração as diversas situações de crescimento e de novidade que cada
uma delas traz consigo. Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que muitas
pessoas se aproximam da Igreja apenas por ocasião das celebrações que
acompanham alguns momentos fundamentais da vida: batismos, matrimônios e
funerais. Por isso, é indispensável reconhecer que, nessas
circunstâncias, se oferece uma oportunidade preciosa de alcançá-las com
um anúncio do kerygma capaz de tocar seus corações, evitando
palavras que não consigam gerar nenhum encontro.
101.
A questão, já discutida, da ruptura geracional na transmissão da
fé assume particular relevância. A esse respeito, a comunidade dos fiéis
encontra na pastoral dos adultos — que também são os pais das novas
gerações — um terreno novo e um contexto repleto de desafios
particularmente complexos. De fato, se no passado, pelo menos nos
países de antiga tradição cristã, o anúncio do kerygma era
dirigido quase exclusivamente aos mais jovens, hoje surge cada vez mais
a urgência de acompanhar pessoas — inclusive aquelas batizadas ainda na
infância — que vivem distantes da comunidade eclesial e que, embora
sintam um chamado interior para uma vida evangélica, enfrentam
dificuldades para compreender e assimilar a linguagem da Igreja. Nesses
casos, a transmissão da fé às novas gerações passa pela evangelização
dos adultos. De fato, como podem os adultos transmitir a fé às novas
gerações se eles próprios não a vivem em nível pessoal? Outras
dificuldades podem surgir, além disso, de situações marcadas por
diversas formas de pobreza existencial, sobretudo em contextos urbanos
caracterizados por uma fragmentação acentuada ou em áreas rurais
isoladas. Tudo isso interpela a Igreja em sua totalidade, levando-a a
tornar-se cada vez mais sinodal e missionária, sobretudo por meio da
valorização dos carismas que o Espírito Santo suscita no povo de Deus.
Capítulo VI
Fé e cultura
102.
Ampliando agora o horizonte da reflexão sobre a transmissão da fé
para além da dimensão propriamente eclesial, é necessário abordar a
questão da relação entre fé e cultura. Uma primeira observação diz
respeito ao fato de que muitos estudiosos destacam como, em nosso tempo,
está em curso uma crise mais geral da transmissão do saber e dos
valores, que abrange também o que é o objeto específico das presentes
Considerações. Uma segunda observação pode ser extraída de algumas
palavras de
São João Paulo II, que destacam a importância, com vistas à
transmissão da fé, de realizar uma síntese entre fé e cultura: «A
síntese entre cultura e fé não é só uma exigência da cultura, mas também
da fé. Como
ensinou o meu predecessor Paulo
VI,
“importa evangelizar — não de
maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de
maneira vital, em profundidade e isto até às raízes — a cultura e as
culturas do homem... a partir sempre da pessoa e fazendo continuamente
apelo para as relações das pessoas entre si e com Deus”.
Se, de fato, é verdade que
a fé não se identifica com alguma cultura […] não é menos verdadeiro que, precisamente por isto, a fé é chamada a
inspirar e impregnar todas as culturas. É o homem todo, na realidade da sua existência quotidiana, que é
salvo em Cristo e é, por isso, o homem todo que deve realizar-se em
Cristo. Uma fé que não se torna cultura é uma fé não de modo pleno
acolhida, não inteiramente pensada e nem com fidelidade vivida»[109].
103.
O que foi dito nos leva a reconhecer que a obra de transmissão da
fé é, de alguma forma, inseparável de sua inculturação em um determinado
contexto, entendendo-se aqui a “cultura” tanto em seu sentido
antropológico mais amplo — como conjunto de estilos de vida, crenças,
valores e instituições que caracterizam uma determinada sociedade —
quanto no sentido mais restrito, como conjunto de conhecimentos
intelectuais desenvolvidos sobretudo no âmbito acadêmico.
104.
Levando em consideração, antes de tudo, esse primeiro significado
de “cultura”, é preciso lembrar que a inculturação da fé constitui uma
etapa necessária em sua transmissão, na medida em que a mensagem
evangélica deve ser tornada compreensível para pessoas que compartilham
valores e categorias que não coincidem perfeitamente com os
helenístico-semíticos, nos quais o texto bíblico foi originalmente
formulado. No contexto da transmissão da fé, inculturação significa «a
encarnação do Evangelho nas culturas autóctones e, ao mesmo tempo, a
introdução dessas culturas na vida da Igreja»[110]:
nesse caso, portanto, a inculturação da fé torna-se uma verdadeira
evangelização, mesmo que não seja realizada de forma completa e
perfeita, tratando-se de «um
caminho lento, que acompanha toda a vida missionária e que
responsabiliza os vários agentes da missão ad gentes, as
comunidades cristãs à medida que se vão desenvolvendo, e os Pastores que
têm a responsabilidade de discernimento e de estímulo na sua realização»[111].
Isso faz com que a própria cultura se torne, por sua vez, um meio de
transmissão da fé, pois, «quando
o Evangelho se inculturou num povo, no seu processo de transmissão
cultural também transmite a fé de maneira sempre nova; daí a importância
da evangelização entendida como inculturação»[112].
105.
É preciso, no entanto, lembrar que não se evangeliza um “lugar”,
mas sempre pessoas, as quais não devem ser isoladas de seu contexto: «cada
um [deve] levar o
Evangelho às pessoas com quem se encontra, tanto aos mais íntimos como
aos desconhecidos»[113].
A isso se soma a tarefa dos fiéis — necessária também em países de
antiga tradição cristã — de traduzir a Boa Nova nas diversas formas
culturais específicas que caracterizam as sociedades modernas ou que
emergem em determinados setores sociais, como o mundo dos jovens ou o
dos pobres. Isso exige, sem dúvida, uma valorização dos carismas
presentes em todo o povo de Deus em um autêntico espírito de
sinodalidade, pois, em última análise, eles são obra do Espírito Santo.
Nesse processo, a contribuição da piedade popular também pode ser
certamente valiosa.
106.
A presença de diversos grupos sociais em nossas cidades, com
culturas e linguagens específicas e muitas vezes autônomas, exige um
esforço especial de inculturação da fé. Ou seja, há a urgência de uma
difusão capilar no anúncio do Evangelho: não se pode se contentar em se
dirigir apenas à cultura de alguns grupos majoritários, mas é necessário
aprender a dialogar com as mais diversas situações e condições de vida
presentes hoje. Trata-se, portanto, de alcançar aquilo que, em linguagem
técnica, costuma ser denominado o âmbito das subculturas (por exemplo,
os jovens das periferias urbanas, as diversas comunidades de migrantes,
os trabalhadores sazonais, os habitantes de pequenas aldeias, etc.). A
esse respeito, convém lembrar que a Comissão Teológica Internacional
dedicará uma parte de seu trabalho no próximo quinquênio às formas
culturais de transmissão da fé e oferecerá valiosos estímulos ao
trabalho aqui apenas brevemente mencionado.
107.
Em síntese, é preciso reiterar a importância decisiva da
inculturação da fé nos dias de hoje. Quando a fé se conecta com as
raízes e as expressões culturais de um povo, de fato, sua transmissão se
torna mais fácil e fecunda.
108.
No que diz respeito à cultura no sentido acadêmico-intelectual,
por outro lado, podemos recordar as palavras do
Papa
Francisco: «O
anúncio às culturas implica também um anúncio às culturas profissionais,
científicas e acadêmicas. É o encontro entre a fé, a razão e as
ciências, que visa desenvolver um novo discurso sobre a credibilidade,
uma apologética original que ajude a criar as predisposições para que o
Evangelho seja escutado por todos»[114].
É verdade que a pesquisa intelectual é, no máximo, uma preparação
que introduz à fé, à maneira daquilo que tradicionalmente se chamou de
praeambula fidei, e não uma transmissão da fé em sentido estrito.
No entanto, é claro que uma apresentação razoável dos conteúdos da fé e
de suas exigências constitui uma ajuda inegável ao anúncio do kerygma,
na medida em que, em particular, contribui para despertar as grandes
questões na mente e no coração das pessoas[115].
109.
Um exemplo particularmente significativo a ser considerado na
construção de tal apresentação razoável da fé é, sem dúvida, a
Doutrina Social da Igreja,
graças à qual os crentes entram em diálogo aberto com a sociedade e
também com os não crentes. Embora permaneça no âmbito do conhecimento
teológico, a Doutrina Social da
Igreja recorre amplamente às categorias próprias das ciências políticas,
econômicas e sociais, conseguindo frequentemente demonstrar toda a
pertinência da proposta cristã para a construção de uma sociedade mais
justa e fraterna. Nesse sentido, também os ensinamentos sociais da
Igreja podem desempenhar uma função análoga à dos praeambula fidei.
De fato, a Doutrina Social da Igreja «baseia-se
na Sagrada Escritura e na Tradição e, em diálogo com as ciências,
ajuda-nos a ler os desafios do presente com lucidez, identificando
caminhos adequados para viver, com alegria e ao serviço do mundo, um
límpido testemunho cristão»[116].
Capítulo VII
Algumas considerações específicas
110.
Uma comunidade profundamente empenhada em transmitir, de geração
em geração, aquela luz e aquele fogo do amor de Deus que Jesus quis
levar ao meio da humanidade e que chegou até os nossos dias deverá, além
do que foi exposto até aqui, dedicar algumas
atenções específicas em relação
ao tema das presentes Considerações. O que se segue é uma lista
exemplificativa, que poderá ser ampliada e organizada de acordo com uma
ordem de prioridade diferente.
111.
A primeira dessas atenções diz respeito ao cultivo da piedade
popular. Nesse âmbito, como se sabe, há também aspectos que exigem um
processo de amadurecimento e enriquecimento; no entanto, permanece
evidente a grande força de que dispõe esse recurso da tradição católica.
Ninguém poderá jamais negar que justamente a piedade popular é, ainda
hoje, um importante meio de transmissão da fé. Por isso, é necessário
promover em relação a ela um compromisso renovado de inteligência e de
coração. Aliás, sua grande flexibilidade permite que ela se renove
constantemente e adquira estilos muito diversos ao longo dos séculos,
conseguindo mesmo
sobreviver aos ataques que a cultura — e, às vezes, até os próprios
membros da Igreja — frequentemente lançaram contra ela.
112.
No que diz respeito à força evangelizadora da piedade popular e,
portanto, ao seu importante papel na transmissão da fé, são valiosas as
orientações contidas nos
números 122-126 da Evangelii gaudium.
Nelas se pode ler, de fato, que na «piedade
popular, pode-se captar a modalidade em que a fé recebida se encarnou
numa cultura e continua a transmitir-se»[117].
Na verdade, toda inculturação autêntica da fé produz sempre uma forma de
expressão popular da mesma. O ser humano vive de palavras e gestos que
constituem o horizonte dentro do qual pode desenvolver-se e criar as
condições para o encontro com o outro. Toda cultura traduz-se em
práticas concretas e reflete-se e é transmitida por meio delas. A mesma
consideração vale também para a experiência de fé. Toda inculturação da
fé cria práticas religiosas específicas que a refletem e permitem que
ela seja transmitida de geração em geração. Por isso, então, na «piedade
popular, por ser fruto do Evangelho inculturado, subjaz uma força
ativamente evangelizadora que não podemos subestimar: seria ignorar a
obra do Espírito Santo. Ao contrário, somos chamados a encorajá-la e
fortalecê-la para aprofundar o processo de inculturação, que é uma
realidade nunca acabada. As expressões da piedade popular têm muito que
nos ensinar e, para quem as sabe ler, são um lugar teológico a
que devemos prestar atenção particularmente na hora de pensar a nova
evangelização»[118] e na questão da transmissão da fé.
113.
Nesse contexto, é útil lembrar a força de atração que, entre as
novas gerações, exercem as peregrinações de origem antiga e recente, bem
como o desejo de pertencer a alguma confraria, como, por exemplo, vem
ocorrendo recentemente na Espanha[119].
Para muitos jovens, sobretudo nos contextos ocidentais, a busca por um
sentido, em um mundo cada vez mais fechado em si mesmo, e a busca por um
pertencimento religioso capaz de dar alguma forma à própria necessidade
de identidade, em um mundo cada vez mais individualizado, representam
necessidades muito importantes, que encontram resposta justamente na
participação em peregrinações e no desejo de integrar uma confraria. No
contexto do tema principal das presentes Considerações, torna-se
urgente questionar-se sobre como “aproveitar” da melhor forma essas
perguntas e essas necessidades dos nossos contemporâneos mais jovens,
para que se tornem um canal pelo qual a luz de Cristo possa inundar suas
existências, muitas vezes conturbadas.
114.
Uma segunda atenção deve
ser voltada para a homilia. O
Papa
Francisco dedicou-lhe um amplo espaço
na Exortação Apostólica
Evangelii gaudium[120],
como testemunho de sua importância para o anúncio e a transmissão da fé;
remetemos a ela para um aprofundamento. Uma homilia bem preparada pode
desempenhar um papel decisivo na apresentação dos conteúdos da fé de
forma narrativa, capaz de reler a Palavra de Deus à luz da vida concreta
do povo e, assim, suscitar uma experiência viva de encontro com Cristo.
O próprio Jesus aparece nos Evangelhos, antes de tudo, como um grande
contador de histórias. Raramente ele inicia seus discursos com conceitos
abstratos: recorre, em vez disso, a imagens, metáforas e parábolas;
frequentemente faz referência à vida cotidiana das pessoas, propondo
relatos capazes de abrir a imaginação de quem ouve, antes mesmo de tocar
a inteligência. As parábolas, de fato, não se limitam a informar: são
capazes de formar e transformar seus ouvintes. As histórias contadas por
Jesus não servem simplesmente para tornar o discurso mais interessante,
mas constituem a chave hermenêutica por meio da qual o ouvinte é
introduzido no mistério do Reino. Nesse caso, a grande tradição
homilética dos Padres da Igreja, tanto do Oriente quanto do Ocidente,
pode oferecer uma contribuição valiosa aos Pastores.
115.
Uma terceira atenção
surge do desejo de um compromisso que muitos, especialmente entre os
mais jovens, manifestam por meio de atividades de voluntariado. A busca
concreta por tal compromisso costuma ser uma oportunidade de aproximação
à realidade da Igreja. Essas pessoas sentem a necessidade sincera e
profunda de dar algo aos outros; sentem, portanto, a urgência de sair de
seu recinto individual e da lógica da posse como critério último da
felicidade. É evidente que isso não implica imediatamente um interesse
pela fé, mas representa uma boa oportunidade para o anúncio e para a
proposta de amizade com o Senhor Jesus, que oferece motivações ainda
mais profundas para esse compromisso. Toda a comunidade de fiéis é
chamada a acolher esses “bons samaritanos” do nosso tempo e a
acompanhá-los com gentileza e paixão rumo ao encontro com o fogo do amor
de Deus, que ela guarda como um tesouro precioso de seu próprio caminho
no meio do mundo.
116.
Uma quarta atenção diz
respeito à necessidade de ampliar os espaços de presença das mulheres na
condução dos processos eclesiais. Na Igreja Católica, em geral, os fiéis
mais presentes e ativos na vida das comunidades são, em grande parte,
mulheres. Nos últimos anos, no entanto, tornou-se mais evidente a
necessidade de permitir que as mulheres tenham acesso aos
lugares onde são tomadas as
decisões importantes para a vida da comunidade. Trata-se de um tema que
o Dicastério estudou amplamente e cujas conclusões foram encaminhadas,
por meio da Secretaria do Sínodo, ao Santo Padre.
117.
Uma atenção
adicional é exigida por um aspecto específico
da nossa época. De fato, não se
deve subestimar a necessidade que tantas pessoas expressam hoje de
participar de grandes eventos (festivais musicais e outros). Isso também
evidencia que o uso intenso das tecnologias digitais não é suficiente
para suprir todas as necessidades do ser humano. Surge, portanto, também
em nossa época, a necessidade de companhia, a necessidade e o desejo de
partilha. Mesmo cientes de que a
fé é transmitida de maneira privilegiada de um “tu” para outro “tu”,
devemos aproveitar essa característica da contemporaneidade como uma boa
oportunidade para o anúncio do Evangelho, tentando imaginar ocasiões de
união entre as pessoas, fazendo eco aos grandes temas da atualidade,
como, por exemplo, o da paz.
118.
Outros pontos de reflexão são oferecidos pelo estudo da história
da Igreja, em particular daqueles momentos em que ela soube responder
positivamente às mudanças da época encontradas ao longo de sua
trajetória histórica. Entre eles, pode-se citar a crise que se seguiu ao
colapso das instituições romanas na Europa Ocidental, com o consequente
abandono das cidades, onde o cristianismo estava mais enraizado. Nesse
contexto, o surgimento do monaquismo irlandês, que floresceu na segunda
metade do primeiro milênio cristão, revelou-se decisivo: não apenas
salvaguardou e aprofundou a compreensão da fé, mas também deu origem a
novas formas de evangelização e, ao mesmo tempo, contribuiu para
desenvolvimentos significativos na prática sacramental, como a difusão
da confissão auricular. Um segundo exemplo é oferecido pela crise
doutrinária e pastoral provocada pela difusão do catarismo e dos
diversos movimentos pauperistas, muitas vezes em oposição à Igreja, nos
séculos medievais. Em resposta a tal situação, as ordens mendicantes,
entre as quais se contam as fundadas por São Domingos e São Francisco,
encarnaram uma renovada vitalidade evangélica por meio da pobreza
radical, da pregação itinerante e do ensino teológico exercido em plena
comunhão com a Igreja. Um exemplo adicional é oferecido pelo impulso a
uma reforma católica de amplo alcance, suscitado pela profunda ruptura
eclesial introduzida pela Reforma protestante, que teve como
protagonistas figuras como Santa Teresa de Ávila e Santo Inácio de
Loyola. Essa renovação coincidiu com a expansão missionária da Igreja
para terras recém-descobertas e abertas ao anúncio do Evangelho,
contribuindo para conferir-lhe um novo ímpeto. Por fim, vale lembrar a
resposta da Igreja, no século XIX, às profundas mudanças provocadas pela
questão operária e pelas consequências da Revolução Industrial, que a
levaram a reformular de maneira sistemática sua Doutrina Social. Em cada
um desses casos, um momento de crise tornou-se a ocasião para
iniciativas criativas que se revelaram decisivas para a evangelização e
coincidiram também com uma transição mais ampla entre épocas históricas.
119.
Atualmente, torna-se necessária uma investigação específica sobre
o repentino declínio do catolicismo nos países onde ele estava
profundamente enraizado, a fim de compreender suas causas e elaborar uma
resposta pastoral adequada.
120.
Deve-se dedicar uma atenção adicional e decisiva ao mundo das
escolas e universidades católicas, bem como ao das demais instituições
católicas, especialmente aquelas dedicadas à caridade. Como testemunham
os bispos de Gana: «A transmissão da fé católica é significativamente
fortalecida por meio da instrução
católica, que funciona como um importante canal para a formação contínua
de crianças, jovens e até mesmo adultos»[121].
Em outros países, como a Venezuela, o programa de educação religiosa
prevê uma integração entre as atividades escolares e paroquiais,
confirmando o valor também pastoral das escolas católicas[122].
Acima de tudo, em países onde o catolicismo representa uma minoria – às
vezes extremamente reduzida –, essas instituições constituem
frequentemente o único ponto de contato de grande parte da população com
a Igreja Católica. No entanto, é preciso ressaltar que, em diversas
regiões, vigoram restrições ao
ensino da religião nas escolas; por isso, nesses contextos, cabem às
paróquias arcar com todo o ônus da catequese.
121.
Em comparação com os locais tradicionais da ação pastoral, as
escolas oferecem um contato mais institucional e quase profissional, mas
não por isso menos capaz de transmitir pelo menos uma pequena centelha
daquele fogo de amor que atravessou os séculos e que, a partir de Jesus,
chegou até os nossos dias. Oferece-se, de fato, um testemunho quase
transparente da caridade intelectual e material, capaz de orientar
espontaneamente para a beleza do Evangelho e sua força humanizadora. É o
que atestam também os bispos da França: «O ensino católico é um espaço
privilegiado para o primeiro anúncio às crianças, aos jovens e às
famílias, que pode levar os jovens, mas também seus pais, a solicitar a
iniciação cristã»[123].
Em um horizonte mais amplo, os fiéis são, portanto, convidados a
defender sempre a centralidade da escola, como um espaço «onde
as novas gerações podem aprender a procurar e amar a verdade, a
questionar-se sobre o sentido da vida e sobre a dignidade de cada pessoa»[124].
122.
Por fim, uma última menção diz respeito ao empenho ecumênico, que
constitui uma dimensão intrínseca da missão evangelizadora da Igreja e,
portanto, também da transmissão da fé. De fato, como observa o Decreto
Unitatis redintegratio do
Concílio Vaticano II, a divisão entre
os cristãos «contradiz
abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também
prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura»[125].
Longe de representar uma alternativa ao anúncio, o diálogo ecumênico
constitui uma de suas próprias modalidades, na qual a busca comum da
verdade, a escuta mútua e o testemunho da caridade tornam mais credível
a proclamação do kerygma diante de um mundo cada vez mais
secularizado e pluralista. Como lembra
São João Paulo II, de fato, «o
próprio esforço em direção à unidade, constitui por si um sinal da obra
de reconciliação que Deus realiza no meio de nós»[126],
manifestando concretamente que o Pai é, para sempre e para todos, amor.
Isso convida a comunidade dos crentes a fazer seu o apelo confiante do
Papa
Francisco: «se
realmente acreditamos na ação livre e generosa do Espírito, quantas
coisas podemos aprender uns dos outros! Não se trata apenas de receber
informações sobre os outros para os conhecermos melhor, mas de recolher
o que o Espírito semeou neles como um dom também para nós»[127],
de modo a «caminhar
decididamente para formas comuns de anúncio, de serviço e de testemunho»[128].
123.
Nesse mesmo horizonte, é
preciso reconhecer que alguns membros de outras religiões e movimentos
religiosos se empenham em testemunhar a fé em Deus em um contexto
cultural que tende a se fechar na imanência mais vazia. Da mesma forma,
alguns membros de outras Igrejas cristãs e comunidades eclesiais buscam
novos caminhos para anunciar o Evangelho e o amor de Cristo em nosso
tempo. Também de suas experiências positivas e de seus esforços
criativos é possível aprender algo, para que nosso empenho na
transmissão da plena riqueza do tesouro da fé, recebido como dom, seja
sempre fecundo.
Capítulo VIII
Testemunhos
124.
Neste ponto, conforme antecipado na Introdução às presentes
Considerações, apresentamos alguns testemunhos exemplificativos de
pessoas que puderam vivenciar em suas vidas o encontro com Cristo ou a
redescoberta de uma relação viva com Ele. Por motivos de
confidencialidade, não serão indicados os nomes, mas apenas a origem,
garantindo que se trata de testemunhos autênticos, genuinamente
compartilhados para a edificação da Igreja universal. Àqueles que
compartilharam seus relatos, bem como às Conferências Episcopais que
enviaram esse material, o Dicastério para a Doutrina da Fé expressa sua
sincera gratidão. Em muitos casos, não se narram grandes feitos ou
eventos prodigiosos, mas simples acontecimentos nos quais se manifesta a
ação da graça na trama da vida
cotidiana, permitindo que cada um reconheça neles algo de sua própria
existência. Elas mostram como toda circunstância, mesmo a mais pequena e
aparentemente insignificante, pode se tornar uma ocasião de encontro com
o Eterno e uma etapa daquela história de salvação que Deus constrói
conosco e para nós. Por razões de espaço, não é possível reproduzir
todos os testemunhos recebidos; tornou-se, portanto, necessária uma
seleção ligada aos temas do documento e à necessidade de evitar
repetições. Cada um deles representa, no entanto, um tesouro de graça
que testemunha como o Senhor, mesmo nesta mudança de época, não cessa de
assistir e acompanhar sua Igreja. As páginas a seguir pretendem traduzir
na linguagem da vida alguns dos aspectos desenvolvidos nos capítulos
anteriores.
Do abismo da dependência à liberdade do encontro com
Cristo
125.
O primeiro testemunho[129] vem da Colômbia e mostra como, mesmo nas situações de mais profunda
degradação moral e existencial, Deus não cessa de chamar a pessoa por
meio da voz da consciência e de oferecer sua salvação por meio da obra
dos irmãos: «Por volta dos 13, 14 anos, comecei a usar drogas, comecei a
cair na impureza e a me envolver
com gangues; andava por aí com as gangues, em brigas, manuseando armas,
extorquindo, roubando, vendendo drogas. E essa era a minha vida. Minha
família se cansou de mim, até que acabei morando nas ruas. Eu dizia à
minha mãe: “Mãe, quero mudar”. Ela me dizia: “Não, você está doente,
primeiro precisa se curar”. E eu respondia: “Mas o que você está
dizendo? Sou capaz de sair dessa sozinho”. Mas eu precisava de ajuda;
meu orgulho, minha arrogância não me permitiam isso. E sentia um desejo
muito profundo no meu coração por algo mais, algo maravilhoso, algo bom,
de amar, de me sentir amado. Não tinha onde morar, onde tomar banho,
onde comer, nada. Pela graça e misericórdia de Deus [por meio da minha
família, encontrei um centro de reabilitação administrado por uma
fundação cristã], lá não se fazem terapias de choque nem se usam
medicamentos; lá o que se vive é a oração: o Santo Rosário, a lectio
divina, a Sagrada Eucaristia... Lá começou meu caminho de conversão.
Naquele lugar, o Senhor começou a transformar profundamente minha vida,
pois passei a perceber quantas feridas e quantos vazios havia em meu
coração e quanta necessidade de amor, de perdão e da misericórdia de
Deus. Depois, fui como missionário por dois anos e meio, me formando,
servindo em retiros e conduzindo encontros. Depois disso, voltei para a
fundação onde eu havia estado. Fiquei lá por um ano acompanhando os
jovens como educador, compartilhando com eles um pouco do que o Senhor
havia feito em mim. Agora tenho meu emprego e faço parte de uma
comunidade que se dedica à oração, à missão e à evangelização. Deus
transformou minha vida, meu coração e me tornou um homem novo».
126.
Outros depoimentos mostram como, às vezes, basta uma
circunstância muito simples, como o
scrolling para ver as
postagens em uma rede social, para que a graça torne possível um
encontro capaz de transformar a vida, como conta um jovem da Bélgica:
«Por volta dos 17 anos, eu queria ser batizado, mas não sabia aonde ir.
Passei por sofrimentos amorosos, por um vício em álcool, derramei
lágrimas. Um dia, navegando no TikTok, me deparei com uma oração. Foi
como um choque elétrico e um consolo. Eu não era crente e vivia tudo
isso com serenidade. Se hoje estou aqui, é em resposta ao chamado mais
significativo da minha vida. Não se trata de uma reflexão intelectual,
mas de um encontro pessoal em que Jesus falou comigo. Aproximei-me da
Igreja sem acreditar de verdade, sobretudo por respeito aos meus avós e
pelo desejo de preservar as tradições. Desde que tenho fé, tenho
realmente outra visão do mundo. Sinto que tudo está bem, enquanto minha
vida, antes do encontro com Cristo, era complicada».
127.
Permanecendo no tema da redenção e da
libertação, um testemunho significativo da eficácia libertadora do
kerygma é oferecido pelo relato de um capelão que exerce seu
ministério nas prisões de uma diocese do Canadá: «O contexto carcerário
constitui frequentemente um lugar de crise e de releitura da vida. A
privação da liberdade favorece um confronto consigo mesmo, com as
próprias ações e com o sentido da própria existência. Nesse contexto, o
pedido de batismo surge frequentemente como a busca por um novo começo,
ou melhor, pela redenção. As pessoas com quem me encontro expressam
frequentemente uma busca por sentido, além dos precedentes contextos de
suas vidas. As conversas catequéticas abrem um espaço onde as grandes
questões – sofrimento, culpa, perdão, esperança – podem ser abordadas de
maneira estruturada. Evidencia-se, assim, que a conversão não se dá
apenas a partir de um conteúdo doutrinário, mas também a partir de uma
relação de confiança e de escuta. O acompanhamento pastoral, vivido ao
longo do tempo, constitui uma mediação essencial por meio da qual a fé
se torna compreensível e fidedigna.
Um elemento central das conversões é o encontro com a imagem de um Deus que perdoa e
levanta. Isso é particularmente significativo em um contexto marcado
pela culpa e pela condenação. Observa-se, assim, um retorno do interesse
pela dimensão espiritual e existencial da fé. A conversão surge
frequentemente como uma experiência pessoal forte».
O “despertar”
do kerygma: o papel da família e da oração
128.
Nas famílias, não apenas a
mudança de época, mas também eventos trágicos podem colocar a fé
pessoal à prova. No entanto, mesmo nessas situações, o Senhor não
abandona seus filhos, como testemunha este relato proveniente do Chile:
«Minha fé enfraqueceu a tal ponto que cheguei a declarar-me ateu. Em
meio a esse deserto, veio um golpe devastador: a morte da minha mãe.
Durante cinco anos, carreguei uma dor inconsolável; chorava por ela
todos os dias sem encontrar respostas. Foi então que Deus usou o
pretexto mais simples: a catequese
da minha filha mais nova. Participei das reuniões apenas por obrigação.
Foi nesse processo que aconteceu o inesperado: por meio da Eucaristia,
experimentei um encontro – ou melhor, um reencontro – pessoal com Jesus
Cristo. Ele tomou minha dor, enxugou minhas lágrimas pela minha mãe e me
deu uma paz que o mundo não pode dar».
129.
Outro testemunho, sobre os obstáculos à transmissão da fé na
família, vem de uma mulher, mãe de família, da Eslováquia: «Meu pai era
alcoólatra. Ele destruiu-me a mim e à minha mãe durante a minha
infância... Quando bebia, ele ficava agressivo, xingava, blasfemava,
quebrava os móveis de casa... qualquer coisa que estivesse ao seu
alcance; muitas vezes tínhamos que fugir de casa. Ao longo dos anos,
acumulou-se em mim um sentimento de falta de perdão e talvez até de ódio
em relação a ele. Somente na comunidade, por meio da Palavra de Deus e
da formação, compreendi que estava julgando meu pai pelo que ele era e
que também estava julgando Deus por ter me dado um pai assim. Quando
encontrei coragem, à luz da Palavra de Deus, fui até meu pai e pedi
perdão. Foi uma experiência muito marcante para mim e, embora meu pai
não tenha conseguido entender bem o que eu estava dizendo, percebi que
finalmente havia encontrado a paz interior e que nosso relacionamento
também havia melhorado. Embora meu pai não praticasse de forma alguma a
vida religiosa, ele partiu para a eternidade reconciliado comigo e com
minha mãe, depois de se confessar. [Hoje] junto com meu marido, nos
empenhamos em transmitir a fé aos nossos quatro filhos. Nós os ensinamos
também contando nossa experiência, não como moralismo (no sentido de que
você também deve ver/fazer dessa maneira). Dizemos-lhes
que Deus agirá de maneira especial também na vida deles, que é
importante acolher tudo o que a Igreja lhes oferece como ajuda, para que
possam viver uma vida que tenha sentido».
130.
Outras vezes, é o cônjuge crente que envolve o outro em um
caminho de fé, como testemunha esta experiência proveniente dos Estados
Unidos da América: «Meu caminho rumo à Igreja Católica começou por causa
da minha noiva. Ela foi criada como católica e sua fé sempre foi
importante para ela. Enquanto nos preparávamos para o casamento, ela
expressou o desejo de ter um casamento católico. Querendo entender
melhor algo tão significativo para ela, decidi explorar a fé. Encontrei
uma comunidade acolhedora e um grupo de professores dedicados que
tornaram o processo de aprendizagem envolvente e significativo. Fiquei
impressionado com a comunidade paroquial e com o bem que ela realiza na
comunidade local. As pessoas de lá me transmitiram o valor não apenas de
ter fé, mas de vivê-la. Enquanto aguardo receber o Batismo e a Crisma na
Vigília Pascal, faço-o com gratidão e expectativa».
131.
Na mesma linha, há um testemunho proveniente do Japão: «Um homem
entrou em contato com a Igreja por meio do casamento com uma esposa
católica. No início, ele frequentou os cursos de preparação para o
matrimônio simplesmente como preparação para a cerimônia, mas, aos
poucos, sentiu-se atraído pela acolhida calorosa da comunidade paroquial
e pela serenidade da liturgia. Após o nascimento do seu filho, ele
começou a se perguntar o que desejava transmitir a ele na vida e, depois
de se dedicar a um estudo mais aprofundado da fé, foi batizado alguns
anos mais tarde. Para ele, a
Igreja, da qual se aproximara inicialmente pelo bem de sua família,
tornou-se o lugar onde seu próprio modo de viver foi questionado».
132.
Até mesmo o Sacramento do Matrimônio pode se tornar uma
oportunidade para redescobrir a fé, como testemunha uma experiência
relatada pelos Bispos de Angola: «Um casal de noivos: ela, católica, de
uma família com uma transmissão geracional muito viva da fé; ele,
indiferente a Deus e à religião. Ela informou-lhe que o avanço do
relacionamento deles deveria ter como condição sine qua non o
casamento católico. [Durante uma reunião familiar,] um padre, parente da
família do noivo, confrontou a noiva católica por sua intenção de se
unir a um homem que estava disposto apenas a proporcionar-lhe o prazer
da cerimônia católica de casamento, mas que desprezava o valor
intrínseco desse matrimônio. [O padre] confrontou da mesma forma o
noivo, que se limitava apenas à parte carnal e desprezava todas as
outras dimensões do valor do casamento. Ao refletir sobre o ocorrido, o
noivo sentiu-se envergonhado de suas contradições… sem o mínimo de
formação cristã, aquela que, agora, começava a fazer sentido para ele.
Essa experiência incômoda despertou nele a curiosidade pela fé católica;
ele começou a frequentar a catequese, recebeu o batismo, fez o curso
pré-matrimonial, casou-se na igreja e tornou-se assíduo na liturgia e
ativo na vida pastoral da paróquia».
133.
Outras vezes, o despertar da fé nasce de experiências de oração e
de partilha, como no caso de uma mulher leiga da Polônia, que conta ter
redescoberto uma fé viva por meio de uma iniciativa promovida pelo
movimento carismático católico: «Tudo começou com a decisão de
participar de um retiro de algumas semanas no Seminário de Renovação da
Fé. Na época, me parecia ter uma vida bastante boa, normal e organizada.
Cada vez mais, porém, no fundo do meu coração, sentia que aquilo sobre o
qual construía minha vida não era duradouro. O vazio que aparecia cada
vez com mais frequência no coração não podia ser preenchido por nada.
Percebi que a fé que eu tinha estava morta. Era apenas o cumprimento de
certos deveres e práticas religiosas que me haviam sido ensinados.
Durante o Seminário, conheci um Deus que ama gratuitamente, que é Pai,
que cuida, que espera, que busca os perdidos para doar amor, felicidade
e alegria. Foi meu encontro pessoal com Jesus, que “tocou” concretamente
meu coração para me tirar da escuridão em que vivia há anos. Depois das
lágrimas purificadoras, veio uma grande alegria, liberdade, força e
esperança que preencheram todo o meu coração e todo o meu ser. Minha fé
deixou de ser um acréscimo à vida; tornou-se o único sentido da minha
existência. Deixou de estar morta e tornou-se viva. Finalmente me senti
segura, livre e serena. As palavras de Santo Agostinho — “O coração do
homem está inquieto até que descanse em Deus” — se cumpriram 100% na
minha vida».
134.
Outro testemunho particularmente intenso nesse sentido vem de uma
estudante francesa: «Filha de um pai libanês xiita que se tornou ateu e
de uma mãe francesa católica não praticante, cresci em meio a uma certa
errância espiritual. Meus pais desejavam nos deixar livres em nossa
escolha religiosa, mas esse silêncio foi, por muito tempo, uma lacuna.
No entanto, desde os 8 anos de idade, encontrei uma Bíblia... esse
primeiro impulso foi alimentado pelos meus anos de escola em Chartres,
onde encontrava refúgio e paz sob os pilares da catedral após as aulas.
O verdadeiro ponto de virada ocorreu em 2004, durante meus cursos de
pré-vestibular [para ingressar na Universidade]. Sozinha, longe da minha
família e oprimida pela pressão dos concursos, vivi uma verdadeira
revelação. Certa noite, diante da minha mesa, a verdade se impôs: Deus
existia, estava ali, bem ao meu lado, com uma presença quase palpável.
Esse imenso alívio transformou minha solidão em um caminho em companhia.
O Senhor então colocou testemunhas no meu caminho... [entre elas] um
cristão maronita, [que] carregava em si uma fé radiante. Um dia, ao ver
uma imagem do Sagrado Coração de Jesus que ele guardava na carteira,
compreendi: era Ele, Jesus, que havia me visitado naquela noite no meu
quarto de estudante. No entanto... o ritmo frenético do meu trabalho me
levou ao esgotamento em 2019. Nesse colapso, somente Jesus me
salvou. Então, empreendi uma peregrinação de cura… mudei radicalmente de
vida. Hoje, minha vida é estável e feliz; sinto que finalmente chegou a
hora de cumprir minha promessa. Ao receber os sacramentos da iniciação
cristã, desejo selar para a eternidade minha aliança com Cristo, que
nunca me abandonou».
135.
Outras vezes, é a força da oração e dos sacramentos que sustenta
em situações de crise, como testemunha a experiência de uma mulher
originária da Jamaica: «Sou católica “desde o berço”, criada por uma mãe
que era uma fiel católica. Quando criança, em uma cidadezinha da
Jamaica, eu lia e até servia no altar, pois muitos paroquianos tinham
pouca escolaridade e muitos não sabiam ler. Eu dava a Deus o que me
sentia à vontade de ofertar. Havia momentos em que dava 90%, e outros em
que era 20%. Há cerca de 15 anos, apesar de orar fervorosamente para
sair de [uma certa] situação, parecia que Deus não respondia. Cheguei a
um ponto em que senti que Deus simplesmente não estava ouvindo… concluí
que não fazia sentido orar. Parei completamente de orar… seguiu-se uma
grande crise de fé. Comecei realmente a questionar e a duvidar de tudo.
Eu me sentia exatamente como uma impostora. Na verdade, eu estava
ensinando o catecismo para as crianças, enquanto nem mesmo tinha certeza
se acreditava no que ensinava. [Mas] Deus sempre sabe onde nos encontrar
e como chegar até nós. Minha mente começou a compreender o verdadeiro
poder dos sacramentos… e, acima de tudo, da Eucaristia: que Jesus está
exatamente ali. Os desafios com os quais eu estava lutando e que
causaram minha crise de fé ainda existem, mas o que mudou foi a minha
maneira de rezar. O foco das minhas orações não é mais o que Deus pode
me dar. Em vez disso, pergunto o que eu posso dar a Deus».
O testemunho da caridade,
da cultura e da beleza
136.
Como já foi abordado anteriormente, um caminho importante de
acesso à fé é a beleza (via pulchritudinis), aquela beleza que,
como ensinavam os doutores medievais, é a síntese da verdade e da
bondade. Em uma palavra, é a beleza do amor, que se manifesta em uma
multiplicidade de formas. Justamente a partir do tema da beleza, capaz
de unir o rigor intelectual à experiência estética, surge o testemunho
de um estudante de neurobiologia da Suíça: «Cresci em uma família ateia;
para nós, “cartesiano” era a palavra de ordem: frequentemente
apresentada como uma antítese evidente à fé. A presença de Deus na minha
vida se manifestou como um sopro de vento ao longe. A primeira vez que
senti essa sensação de plenitude foi enquanto assistia a uma
extraordinária interpretação de uma peça de Chopin. Depois, houve aquela
noite em que, do alto de uma montanha na Crimeia, contemplei a imensidão
do Mar Negro e as montanhas que se estendiam aos meus pés. Achei que
estivesse sentindo aquela paz porque estava contemplando a beleza da
Humanidade. [Depois], certo dia, passei pela porta da catedral de
Chartres. A questão já não se colocava: a fonte estava ali, diante dos
meus olhos. Não sei quando minha jornada com Deus começou, mas tenho
certeza de tê-Lo acolhido na primeira vez em que me ajoelhei para rezar.
Foi um banho de paz, um bálsamo para a alma. Quando percebi o caminho
que estava trilhando, decidi manter-me à margem. Nos círculos
científicos, qualquer menção ao assunto é acompanhada por longos
debates, críticas depreciativas e até mesmo por verdadeiras blasfêmias.
Minhas primeiras orações, meus primeiros rosários, minhas primeiras
missas, eu os vivi sozinho. Pensava em me integrar à comunidade assim
que tivesse adquirido conhecimento suficiente. Para minha grande
surpresa, foi a comunidade que me acolheu. Tive a sorte de ser batizado
graças à insistência dos meus avós maternos. Considero que chegou a hora
de encerrar o capítulo da descoberta e avançar de pleno direito na minha
vida de católico. Assim, iniciei minha jornada rumo à crisma».
137.
Outras vezes, é a simplicidade da caridade, manifestada na
gentileza e na acolhida, que abre as portas da fé, como no testemunho de
um catecúmeno vietnamita, transmitido pelos bispos da Malásia: «Nasci em
uma família budista. Cresci sem dar muita atenção à religião. Vim para a
Malásia porque queria estudar inglês. No Vietnã, esses cursos são caros,
mas encontrei um curso de inglês gratuito ministrado por cristãos
filipinos. Fui acolhido por todos com calor humano. Eles ensinavam com
sinceridade e até nos ofereciam comida e bebida. Pude constatar sua
gentileza e generosidade. Tratavam a todos da mesma maneira. Durante uma
das aulas, foi exibido um vídeo sobre a Paixão e a Ressurreição de
Jesus, que terminava com uma pergunta simples: “Onde está Deus?”. Mas
senti algo. Foi uma pequena emoção, mas ficou dentro de mim. Anos
depois, conheci um [cristão] malaio por meio do trabalho e comecei a
frequentar a missa com ele. Na igreja, as pessoas eram gentis e as
homilias me tocaram. Mas a velha pergunta voltou: quem é Deus? Com a
ajuda do meu amigo, me inscrevi nos cursos de catecumenato e, este ano,
serei batizado. Sinto-me mais forte, menos assustado com os desafios da
vida. Não estou apenas pronto para me tornar católico, mas pronto para
fazer parte do milagre de Deus».
Conclusão
138.
O Dicastério para a Doutrina da Fé recebeu do
Papa
Francisco, nos
últimos momentos de sua vida, a incumbência de oferecer à Igreja uma
reflexão sobre a transmissão da fé; tal pedido foi posteriormente
reiterado pelo
Papa Leão XIV. O Dicastério acolheu essa tarefa no
espírito da renovação missionária exigida de todo o povo de Deus,
incluindo as instituições da Cúria. De fato, seu serviço não se limita à
guarda de um acervo de doutrinas a serem acreditadas (credere Deum),
mas abrange também a promoção de tudo o que favorece o envolvimento
pessoal e ativo na acolhida da luz da fé (credere Deo e
credere in Deum). Em particular, isso diz respeito à Secção
Doutrinal do Dicastério, que é chamada a promover «os
estudos destinados a aumentar a compreensão e a transmissão da fé ao
serviço da evangelização, a fim de que a sua luz seja critério para
compreender o significado da existência»[130].
A questão da transmissão da fé, portanto, não nos afasta do depositum
fidei, nem implica a redução da abordagem à mera dimensão subjetiva
da fides qua. Trata-se simplesmente de um apelo aos fiéis para
que retornem ao cerne do patrimônio da fé cristã: o kerygma é, de
fato, seu conteúdo central, que atravessa como um fio de ouro a
hierarquia harmoniosa das «verdades da doutrina católica»[131] e ilumina todos os conteúdos do depositum fidei, atraindo para a
experiência de um encontro pessoal e comunitário com o Cristo vivo.
139.
Ao longo da reflexão desenvolvida no presente documento, o
Dicastério para a Doutrina da Fé acolheu com alegria a resposta generosa
de numerosas Conferências Episcopais, que compartilharam sua sincera
preocupação a respeito deste tema. A riqueza das contribuições recebidas
ultrapassa os limites de um único documento; portanto, a questão
abordada pelas presentes Considerações permanece aberta a
aprofundamentos adicionais e a novos desdobramentos. Este Dicastério
reconhece que tal âmbito pertence à competência de outro Dicastério, o
Dicastério para a Evangelização – Secção para as Questões Fundamentais
da Evangelização no Mundo, que há tempo está empenhado em um caminho de
pesquisa e diálogo não apenas sobre a transmissão da fé, mas também
sobre outros temas a ela relacionados: o catecumenato, as diversas
formas de catequese, a formação dos fiéis, os contextos comunitários de
acolhimento e crescimento dos novos crentes, etc.
140.
Gostaríamos, agora, de encerrar estas Considerações sobre
a transmissão da fé no contexto da mudança de época com uma imagem muito
querida por todos os fiéis, capaz de representar um símbolo de esperança
para o futuro. Trata-se da imagem da liturgia do acendimento do círio
pascal e de sua colocação no altar, após a procissão ao longo da nave da
igreja, durante a solene Vigília Pascal no rito latino. Como se sabe,
após o acendimento do círio, tem início a procissão: com exceção do
diácono que carrega o círio, todos caminham com as velas apagadas nas
mãos. Em seguida, primeiro o celebrante e, depois, os demais
participantes recebem do círio pascal, ou de velas acesas a partir dele,
a chama com a qual acendem sua própria vela e, por sua vez, podem
transmiti-la a outros.
141.
Por três vezes, a proclamação “A luz de Cristo” (ou com a fórmula
alternativa “Eis a luz de Cristo”), o Diácono anuncia ao mundo a
presença da luz de Cristo, que se torna visível no acendimento
progressivo das velas. Assim, a partir da única chama do círio pascal,
todas as velas dos fiéis são acesas lenta e ordenadamente e, ao final da
procissão, as luzes da igreja também são acesas.
142.
Gostaríamos, assim, de imaginar o impulso que estas
Considerações desejam oferecer à Igreja neste momento de mudança de
época. Elas pretendem relembrar com veemência que Cristo é a
verdadeira luz: Ele ilumina porque liberta das trevas e nos
introduz na plenitude da vida, que é a realização do acolhimento do amor
incondicional de Deus em nosso coração. A nós, crentes, já foi concedido
o dom de encontrar a luz e de deixar que nossa vida seja iluminada pela
“verdadeira luz” do mundo (cf. Jo 1,9). Cabe agora a nós
transmitir esse mesmo dom aos homens e mulheres de nosso tempo, que
talvez nem sempre de forma consciente também esperem poder iluminar sua
existência com essa mesma fonte de toda graça, luz que resplandece no
mundo.
143.
Não se pode, enfim, deixar de mencionar o testemunho de tantos
leigos evangelizadores que, nos tempos recentes, alcançaram a santidade.
Muitos jovens admiraram a paixão pela evangelização em São Carlo Acutis,
assim como o exemplo admirável de Santa María Antonia de Paz y Figueroa,
conhecida como Mama Antula, em sua longa peregrinação evangelizadora.
Além disso, numerosos leigos dedicaram suas vidas ao compromisso de
levar a luz de Cristo: São Sebastião, São Paulo Chông Hasang, São Peter
to Rot. Juntamente com eles, as contemplativas e os contemplativos
alimentam o fogo da fé por meio da oração e da intercessão, pois sem a
ação do Espírito Santo todos os nossos esforços se tornam vãos.
Convidamos, portanto, todas as comunidades a promoverem, em seu seio,
momentos de oração e intercessão que apoiem a transmissão da luz da fé.
144.
Maria, que se fez presente entre os diversos povos por meio das
mais variadas formas de
fé e devoção, tornando assim mais reconhecível sua proximidade maternal,
leva sempre consigo a luz e o amor do Senhor. O Evangelho conta que ela
agiu assim desde o início, quando levou Jesus a Isabel (cf. Lc
1,39-45). Ela continua a fazê-lo também hoje, oferecendo a beleza do
Evangelho. Maria, de fato, meditou atentamente e guardou em seu coração
tudo o que Cristo fez e disse (cf. Lc 2,19.51). Ela foi a grande
testemunha da encarnação e do nascimento do Senhor até sua morte na cruz
e sua ressurreição, acompanhando-o ao longo de toda a sua vida terrena.
Por isso, diante do rosto de Maria, o povo fiel reconhece
«nesta imagem materna,
[…] todos os
mistérios do Evangelho»[132].
Quem olha para a fé mariana dos simples com uma atitude exclusivamente
intelectual corre o risco de não compreender que, muitas vezes, o
Evangelho de Cristo é transmitido de forma mistagógica, por meio de
símbolos, experiências, confiança e afeto. A Maria, Mestra da
transmissão da fé, pedimos que interceda por nós no compromisso renovado
de levar a luz de Cristo às novas gerações.
O Sumo Pontífice Leão XIV, na Audiência concedida
ao abaixo assinado, Prefeito, juntamente com o Secretário da Seção
Doutrinal do Dicastério para a Doutrina da Fé, no dia 21 de agosto de
2026, Memória litúrgica de São Pio X, Papa, aprovou o presente
documento, deliberado na Secção Ordinária deste Dicastério em 24 de
junho de 2026, Solenidade da Natividade de São João Batista, e ordenou
sua publicação.
Dado em Roma, na sede do Dicastério para a Doutrina da Fé, em 22 de
outubro de 2026, Memória litúrgica de São João Paulo II.
Víctor Manuel, Cardeal
Fernández
Prefeito
Mons.
Armando Matteo
Secretário
da
Secção Doutrinal
Ex Audientia Die: 21 Augusti 2026
Leo PP. XIV
[1]
Leão XIV,
Discurso aos Bispos da Conferência Episcopal Italiana (17 de
junho de 2025): L’Osservatore Romano, 17 de junho de 2025, 2.
[3] Para ajudar o leitor a orientar-se ao longo do percurso das
presentes Considerações, que se desenvolve em diversos
capítulos, pode ser útil apresentar desde já uma breve indicação de
seu percurso temático. Os capítulos I e
II estabelecem suas bases
teológicas, partindo do anúncio do amor do Pai manifestado na pessoa
e nas obras de Jesus de Nazaré, para chegar aos seus principais
contextos de transmissão na Igreja, ou seja, a família e a
comunidade. O capítulo III aborda os desafios da mudança de época,
cuja característica marcante é uma dificuldade sem precedentes em
dar continuidade às formas tradicionais de transmissão da fé, à qual
o capítulo IV responde apontando o coração pulsante dessa obra, ou
seja, o anúncio do kerigma. O capítulo V apresenta diversas
reflexões práticas sobre a transmissão da fé na vida das comunidades
em seus vários aspectos, enquanto os capítulos VI e
VII,
respectivamente, aprofundam a relação entre fé e cultura e indicam
algumas atenções pastorais específicas. O
capítulo VIII, por fim,
reúne alguns testemunhos concretos que mostram a transmissão da fé
no contexto da vida cotidiana das pessoas.
[4] Cf.
Conc. Ecum. Vat. II,
Const. past.
Gaudium et spes
(7 de dezembro de 1965), n. 22:
AAS 58 (1966), 1043.
[5]
Francisco,
Exort. ap.
Christus vivit (25 de março de 2019), n. 1:
AAS 111 (2019), 391.
[8]
Francisco,
Cart. enc.
Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 1: AAS
105 (2013), 555-556.
[9]
Francisco,
Cart. enc.
Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 37: AAS
105 (2013), 580.
[10]
Francisco,
Cart. enc.
Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 38: AAS
105 (2013), 580.
[11]
Conc. Ecum. Vat.
II, Const. dogm.
Dei Verbum (18 de
novembro de 1965), n. 8: AAS 58 (1966), 821.
[13]
Francisco,
Cart. enc.
Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 38: AAS
105 (2013), 581.
[18]
Francisco,
Cart. enc.
Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 43: AAS
105 (2013), 584.
[19]
Francisco,
Cart. enc.
Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 53: AAS
105 (2013), 591.
[20] Testemunho do padre Duval
disponível no site http://pierre.aime.duval.free.fr/priere.htm
(original em francês, tradução a cargo do Dicastério).
[23] Cf.
Francisco, Exort. ap.
Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n. 70: AAS
105 (2013), 1049-1050.
[24]
Francisco,
Cart. enc.
Lumen fidei (29 de junho de 2013), n. 18: AAS
105 (2013), 565.
[26]
Francisco,
Discurso à Cúria Romana por ocasião dos votos de Natal (21 de
dezembro de 2019): AAS 112 (2020), 43. Para ser mais preciso,
a expressão “mudança de época” não apareceu pela primeira vez nesse
discurso, mas foi introduzida pelo Papa Francisco por ocasião de sua
entrevista de 29 de junho de 2014 ao jornal italiano Il
Messaggero.
[27] CELAM, Documento
conclusivo da V Conferência do
Episcopado Latino-Americano e do Caribe (13 a 31 de maio
de 2007), n. 44.
[28] Cf.
Francisco, Cart. enc.
Fratelli
tutti (3 de outubro de 2020), n. 30: AAS 112
(2020), 979-980.
[33]
Conferência dos
Bispos Católicos da Federação Russa,
Relatório sobre a transmissão da fé no território da Conferência
Episcopal, 30 de março de 2026, no Arquivo do Dicastério para a
Doutrina da Fé.
[34] Cf.
Conferência Episcopal da
Albânia, Relatório e testemunhos relativos à transmissão
da fé no território da Conferência Episcopal, 19 de março de
2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[35]
Igreja
Metropolitana Greco-Católica Húngara,
Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território
da Igreja sui iuris, 7 de abril de 2026, no Arquivo do
Dicastério para a Doutrina da Fé.
[36]
Conferência
Episcopal do Chile, Relatório e
testemunhos relativos à transmissão da fé no território da
Conferência Episcopal, 11 de abril de 2026, no Arquivo do
Dicastério para a Doutrina da Fé.
[37] Cf.
Conferência Episcopal das
Antilhas, Carta Pastoral “Um mandato para o Reino: missão
e evangelização no Caribe”, 9 de janeiro de 2018, n. 30.
[38]
Conferência
Episcopal do Panamá, Relatório e
testemunhos relativos à transmissão da fé no território da
Conferência Episcopal, 14 de abril de 2026, no Arquivo do
Dicastério para a Doutrina da Fé.
[39] Cf.
Conferência Episcopal da
Colômbia, Relatório e testemunhos relativos à transmissão
da fé no território da Conferência Episcopal, 16 de abril de
2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[40] Cf.
Conferência Episcopal do Peru,
Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no
território da Conferência Episcopal, 30 de março de 2026, no
Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[41] Cf.
Conferência dos Bispos
Católicos da Coreia, Relatório sobre a transmissão da fé
no território da Conferência Episcopal, 31 de março de 2026, no
Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[42] Cf.
Conferência dos Bispos
Católicos da Malásia, Singapura
e Brunei, Relatório e testemunhos relativos à transmissão
da fé no território da Conferência Episcopal, 3 de abril de
2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[43] Cf.
Conferência dos Bispos
Católicos de Bangladesh, Relatório sobre a transmissão da
fé no território da Conferência Episcopal, 15 de maio de 2026,
no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[44] Cf.
Conferência dos Bispos
Católicos do Japão, Relatório e testemunhos relativos à
transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 20 de
abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[45] Cf.
Conferência dos Bispos
Católicos da Ásia Central, Relatório e testemunhos
relativos à transmissão da fé no território da Conferência Episcopal,
3 de abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[46]
Conferência dos
Bispos Católicos da África do Sul,
Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território
da Conferência Episcopal, 4 de maio de 2026, no Arquivo do
Dicastério para a Doutrina da Fé.
[47] Cf.
Conferência dos Bispos
Católicos da Zâmbia, Relatório e testemunhos relativos à
transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 10 de
abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[49]
Conferência dos
Bispos Católicos dos Estados Unidos,
Relatório e testemunhos relativos à transmissão da fé no território
da Conferência Episcopal, 30 de março de 2026, no Arquivo do
Dicastério para a Doutrina da Fé.
[50]
Conferência
Episcopal da Romênia, Relatório sobre a
transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 14 de
abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[51]
Francisco,
Cart. enc.
Fratelli
tutti (3 de outubro de 2020), n. 105:
AAS 112 (2020), 1005.
[53]
Conferência
Episcopal Espanhola, Relatório e
testemunhos relativos à transmissão da fé no território da
Conferência Episcopal, 14 de abril de 2026, no Arquivo do
Dicastério para a Doutrina da Fé.
[54]
Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil,
Relatório sobre a transmissão da fé no território da Conferência
Episcopal, 31 de março de 2026, no Arquivo do Dicastério para a
Doutrina da Fé.
[55]
Conferência
Episcopal Austríaca, Relatório e
testemunhos relativos à transmissão da fé no território da
Conferência Episcopal, 31 de março de 2026, no Arquivo do
Dicastério para a Doutrina da Fé.
[61]
Conferência
Episcopal da Bélgica, Relatório e
testemunhos relativos à transmissão da fé no território da
Conferência Episcopal, 3 de abril de 2026, no Arquivo do
Dicastério para a Doutrina da Fé.
[62]
Conferência
Episcopal do Chile, Relatório e
testemunhos relativos à transmissão da fé no território da
Conferência Episcopal, 11 de abril de 2026, no Arquivo do
Dicastério para a Doutrina da Fé.
[63] Para mais detalhes sobre a
pesquisa, consulte o endereço
https://eglise.catholique.fr/approfondir-sa-foi/la-celebration-de-la-foi/les-sacrements/le-bapteme/baptemes-adultes/.
[64] Cf.
Patriarcado Maronita de
Antioquia, Relatório e testemunhos relativos à transmissão
da fé no território do Patriarcado, 1º de abril de 2026, no
Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[65]
Conferência dos
Bispos Católicos da Nigéria, Relatório
sobre a transmissão da fé no território da Conferência Episcopal,
6 de maio de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[66]
Conferência
Episcopal da Tanzânia, Relatório sobre
a transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 26
de março de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[67] Cf.
Conferência Episcopal da Costa
do Marfim, Relatório sobre a transmissão da fé no
território da Conferência Episcopal, 15 de abril de 2026, no
Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[68] Cf.
Conferência Episcopal Nacional
do Congo, Relatório sobre a transmissão da fé no
território da Conferência Episcopal, 30 de março de 2026, no
Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[71]
Conc. Ecum. Vat.
II, Const. dogm.
Dei
verbum (18 de
novembro de 1965), n. 2, AAS 58 (1966), 818.
[72] Cf.
Conc. Ecum. Vat. II,
Const. dogm.
Dei
verbum (18 de novembro de 1965), n. 5, AAS 58
(1966), 819.
[74]
Francisco,
Exort. ap.
Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), n.
164: AAS 105 (2013), 1088-1089.
[75]
Pontifício
Conselho para a Promoção da Nova Evangelização,
Diretório para a Catequese
(2020), n. 57.
[76] Cf.
Pontifício Conselho para a
Promoção da Nova Evangelização, Diretório para a Catequese
(2020), nn. 56-57.
[79]
Francisco,
Cart. Enc.
Dilexit nos (24 de outubro de 2024), n. 26:
AAS 116 (2024), 1377.
[81]
Agostinho,
Confessionum libri tredecim, XII, 16, 23: PL 32, 834.
[82]
Francisco,
Exort. ap.
Christus vivit (25 de março de 2019), n. 211:
AAS 111 (2019), 450.
[83] A. Hurtado, «Ustedes son la luz del mundo», discorso in
El Cerro San Cristóbal, Cile (1940), come citato in ibid., n.
175: AAS 111 (2019), 440.
[87] Cf.
Francisco, Exort. ap.
Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), nn. 36-37: AAS
105 (2013), 1035.
[89] Cf.
Francisco, Exort. ap.
Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), nn. 127-129:
AAS 105 (2013), 1073.
[90]
Francisco,
Cart. Ap.
Aperuit illis (30 de setembro de 2019), n. 8:
AAS 111 (2019), 1500.
[91] Cf.
Aelredo de Rievaulx,
De spiritali amicitia: CCCM, 1, 279-350.
[92]
Francisco,
Exort. ap.
Christus vivit (25 de março de 2019), n. 151:
AAS 111 (2019), 432.
[93] Cf.
Conc. Ecum. Vat. II,
Const. past.
Gaudium et spes
(7 de dezembro de 1965), n. 52:
AAS 58 (1966), 1073.
[96] Cf.
Próspero da Aquitânia,
Indiculus, cap. 8: PL 51, 209.
[97]
Agostinho de
Hipona, Confissões, IX, 6, 14:
PL 32, 769-770.
[98] R.
Guardini, Spiegel
und Gleichnis. Bilder und Gedanken, Mainz-Paderborn, 1990, pp.
158-161.
[100] Cf.
Conc. Ecum. Vat. II,
Const. dogm.
Lumen gentium
(21 de novembro de 1964), n. 11: AAS 57
(1965), 15-16.
[102] «Sou humano; nada que seja humano me é estranho»,
Terêncio,
Heautontimorumenos, I, 1, 25 (Trad. nossa).
[104]
Leão XIV,
Exort. ap.
Dilexi te (4 de outubro de 2025), n. 3:
AAS 117 (2025), 1240.
[105]
Leão XIV,
Exort. ap.
Dilexi te (4 de outubro de 2025), n. 104 : AAS 117 (2025), 1280-1281.
[106] H.U.
von Balthasar,
Gloria. Uma estética teológica. A
percepção da forma, vol. 1, Milão
1971, p. 163. A isso pode-se acrescentar: «Se ao verum falta
aquele esplendor que, para Tomás, constitui o sinal do belo,
então o conhecimento da verdade permanece tanto pragmático quanto
formalista. […] E se ao bonum falta aquela voluptas
que, para Agostinho, é o sinal de sua beleza, então a relação com o
bem permanece utilitarista e hedonista» (ibid.).
[115] Cf.
Conc. Ecum. Vat. II,
Const. past.
Gaudium et spes
(7 de dezembro de 1965), cap.
I: AAS 58 (1966), 1034-1044.
[119] Trata-se de um fenômeno
que, há alguns anos, tem registrado um envolvimento cada vez maior
dos jovens nas confrarias religiosas ou em grupos juvenis ligados ao
mundo católico. Além da participação na vida das próprias
confrarias, que culmina, publicamente, nas tradicionais procissões
por ocasião das principais solenidades, destacam-se também encontros
nacionais que contam com uma presença cada vez maior de
participantes, conforme já relatado em 2016 pela revista digital da
Arquidiocese de Madri: cf.
https://alfayomega.es/las-cofradias-se-han-convertido-en-puerta-de-entrada-a-la-iglesia-para-muchos-jovenes/.
[120] Cf.
Francisco, Exort. ap.
Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), nn. 135-144:
AAS 105 (2013), 1076-1080.
[121]
Conferência
Episcopal do Gana, Relatório sobre a
transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 27 de
abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[122] Cf.
Conferência Episcopal
Venezuelana, Relatório e testemunhos relativos à
transmissão da fé no território da Conferência Episcopal, 2 de
abril de 2026, no Arquivo do Dicastério para a Doutrina da Fé.
[123]
Conferência
Episcopal da França, Relatório e
testemunhos relativos à transmissão da fé no território da
Conferência Episcopal, 5 de junho de 2026, no Arquivo do
Dicastério para a Doutrina da Fé.
[125]
Conc. Ecum. Vat.
II, Decr.
Unitatis redintegratio (21 de novembro de 1964), n. 1: AAS 57 (1965), 90. Cf.
Ibid., Decr. Ad
gentes (7 de dezembro de 1965), n. 6: AAS 58 (1966),
954-955.
[129] Os relatos a seguir são
sínteses elaboradas a partir de trechos extraídos dos textos
originais dos depoimentos. Para facilitar a leitura, as omissões
não são indicadas. Eventuais acréscimos resumidos são apresentados
entre colchetes.
[130]
Francisco,
Cart. ap. em forma de “Motu proprio”
Fidem servare (11 de
fevereiro de 2022), n. 2: AAS 114 (2022), 288.
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