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COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL

QUO VADIS, HUMANITAS?

REFLEXÃO SOBRE A ANTROPOLOGIA CRISTÃ PERANTE ALGUNS
CENÁRIOS SOBRE O FUTURO DO SER HUMANO

 

Nota preliminar

 

INTRODUÇÃO

1. O método do documento na recorrência dos 60 anos da Gaudium et spes
2. A estrutura do documento: categorias fundamentais
3. O foco do documento: uma comparação com os desafios do transumanismo e do pós-humanismo
4. Discernimento e dimensão querigmática da teologia: a vocação integral do ser humano

 

CAPÍTULO I: O DESENVOLVIMENTO: HUMANISMO E PÓS-HUMANISMO

1. O discernimento do Magistério sobre desenvolvimento e tecnologia
2. Algumas consequências antropológicas do recente desenvolvimento tecnológico

2.1. A relação com o ambiente natural
2.2. A relação com os outros no mundo digital
2.3. A compreensão de si mesmo: consciência e corporeidade
2.4. A relação com Deus

3. O impacto cultural das revoluções tecnológicas: para um discernimento crítico

 

CAPÍTULO II: A VIDA COMO VOCAÇÃO: O SER HUMANO COMO ATOR NA HISTÓRIA

1. A dimensão histórica da experiência humana: o tempo e o espaço

1.1. Viver o tempo com um saudável sentido histórico
1.2. Habitar o espaço: do próprio espaço aos “limiares”

2. Relações e sentido de pertença: a intersubjetividade
3. Vocação integral para a realização no amor

 

CAPÍTULO III: O DOM DA VIDA E DA COMUNHÃO PERANTE OS CENÁRIOS SOBRE O FUTURO DO SER HUMANO

1. A identidade pessoal: um dom e uma tarefa

1.1 A tarefa de se tornar a si mesmo: dom, amor, liberdade
1.2 A complexidade da identidade

2. O dom da vida e da comunhão diante do transumanismo e do pós-humanismo

2.1. Moldar a própria identidade a partir do corpo doado
2.2. Ser um dom para os outros
2.3. A transcendência do dom de Deus que nos abre a um horizonte infinito

3. A posição singular do ser humano no cosmos

 

CAPÍTULO IV: A HUMANIDADE AFIRMADA, SALVA E ELEVADA

1. As “tensões polares” da condição criatural
2. A experiência humana no drama do pecado e da graça

2.1 A ruptura das relações constitutivas da identidade humana
2.2. A salvação através da humanidade de Cristo

3. A nova humanidade no Espírito de Jesus Cristo, o Filho de Deus

 

CONCLUSÃO: O DOM DA DIVINIZAÇÃO COMO VERDADEIRA UMANIZAÇÃO

1. A Mãe plenamente humana
2. O desafio dos pobres

 


 

Nota preliminar

A Comissão Teológica Internacional não é um grupo de pessoas que se reúne apenas para redigir um texto, mas sim um espaço de livre intercâmbio e discussão que conta com a riqueza do olhar de uma variedade de pessoas provenientes de contextos muito diferentes. Ao longo do seu décimo quinquénio, a Comissão Teológica Internacional teve a oportunidade de aprofundar um estudo sobre a antropologia cristã diante dos desafios culturais contemporâneos, inspirado pelo 60º aniversário da promulgação da Constituição Pastoral Gaudium et spes (1965-2025) do Concílio Ecumênico Vaticano II.O trabalho foi conduzido por uma Subcomissão especial, presidida pelo Rev. Javier Prades López e composta pelos seguintes membros: Rev. Alberto Cozzi, Rev. Simon Francis Gaine O.P., Rev. Carlos Maria Galli, Prof. Reinhard Huetter, Rev. Victor Ronald La Barrera Villarreal, Prof. Isabell Naumann I.S.S.M., Rev.ª Josee Ngalula R.S.A., Rev. Bernard Pottier S.J.

As discussões gerais sobre este tema ocorreram tanto durante as várias reuniões da Subcomissão como durante as Sessões Plenárias da própria Comissão, nos anos 2022-2025, com a coordenação do Secretário-Geral, Mons. Piero Coda. Este texto foi submetido a votação e aprovado por unanimidade pelos membros da Comissão Teológica Internacional durante a sessão plenária de 2025. O documento foi posteriormente submetido à aprovação do seu Presidente, Sua Eminência o Cardeal Víctor Manuel Fernández, Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, que, após ter obtido a aprovação do Santo Padre Leão XIV, autorizou a sua publicação em 9 de fevereiro de 2026.

Introdução

1. A recente aceleração do desenvolvimento tecnológico e os progressos da ciência reativaram o espanto diante do grande potencial da humanidade e a percepção de sua grandeza. No entanto, não diminui a perplexidade diante da sua fragilidade, sujeita à morte e à doença, como demonstrou a pandemia da Covid-19, mas também tentada pela resignação ao mal, que parece inevitável, das guerras e dos conflitos, das desigualdades e da indiferença. Permanece, portanto, a ambivalência entre grandeza e fragilidade, que não pode ser negada.

É preciso evitar qualquer tentativa de simplificar essa ambivalência, escolhendo um dos dois lados: não se pode censurar a fragilidade e os limites naturais, exaltando apenas a grandeza e a força, talvez confiando cegamente nos resultados da pesquisa tecnológica e das descobertas científicas; mas também não se deve resignar-se a todos os limites e fragilidades da vida, esquecendo as potencialidades inscritas na nossa natureza inteligente e espiritual. Precisamente a tarefa, confiada a cada um, de moldar com responsabilidade a própria identidade exige não simplificar o humano.

2. Ser uma pessoa humana, com uma dignidade infinita, não é algo que construímos ou adquirimos, mas é fruto de um dom gratuito que nos precede[1]. E não é um dom que simplesmente recebemos no passado, mas algo que subsiste como dom em todas as circunstâncias da nossa existência, para sempre, tornando-se uma tarefa intransferível. Apropriar-se deste dom, dando forma à própria identidade, é a aventura da vida, uma tarefa a assumir em liberdade e no interior das relações nas quais conhecemos a nós mesmos, aos outros e à realidade, e assim podemos dar o nosso contributo original e único à história humana, correspondendo à nossa vocação. O dom é acolhido dentro de um “nós”, de uma comunidade à qual cada pessoa pertence e na qual cresce.

3. A experiência religiosa e, em particular, a fé cristã propõem viver, sem simplificações, essa ambivalência entre a grandeza e os limites do ser humano, interpretando-a à luz da relação original e fundamental com Deus. No Salmo 8, dirigindo-se a Deus num diálogo comovente, o orante pergunta-se “que é o homem, para que te lembres dele, o filho do homem, para que te preocupes com ele” (Sl 8,5). Ele responde observando a grandeza que Deus lhe conferiu na sua criação: “Tu o fizeste um pouco menor que um deus, de glória e honra o coroaste. Tu lhe deste poder sobre as obras das tuas mãos, tudo colocaste debaixo dos seus pés” (Sl 8,6-7).[2] Este paradoxo recebe luz definitiva do mistério pascal de Jesus Cristo, onde o limite, a finitude e a caducidade, mas também a desordem introduzida pelo pecado, são superados pela obra da graça com o dom da filiação divina, que nos torna participantes da vida do Ressuscitado, segundo o desígnio do Pai e graças à renovação de todas as coisas no Espírito.

4. O Papa Francisco retomou a pergunta do Salmo 8, sublinhando a resposta da antropologia bíblica, centrada nos elementos fundamentais da relação livre e responsável com a criação, com os outros e com Deus. Mas depois constatou que “hoje percebemos que os grandes princípios e conceitos fundamentais da antropologia são frequentemente questionados, também com base numa maior consciência da complexidade da condição humana, e exigem um aprofundamento adicional”.[3] O Papa Leão XIV explicou a razão da escolha do seu nome referindo que “hoje a Igreja oferece a todos o seu património de doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”.[4]

5. A reflexão sobre a antropologia à luz da revelação é chamada a interpretar as complexas condições de um mundo que vive uma mudança tão profunda que pode ser definida como “epocal”. A compreensão do humano alcançou resultados bem definidos na história do pensamento (em particular na tradição ocidental). Poderia parecer, portanto, que a continuidade da reflexão deveria concentrar-se no esclarecimento de alguns aspetos particulares do agir humano. Em vez disso, hoje, descobrimo-nos novamente empenhados em explorar o mistério do ser humano como tal, na sua identidade. Os desafios atuais obrigam-nos a sair das certezas adquiridas e podem também suscitar receios, muitas vezes infundados. A reflexão sobre o humano, em diferentes áreas da vida pessoal e social, parece ir além do humano, questionando a especificidade da própria natureza humana.

1. O método do documento no 60º aniversário da Gaudium et spes

6. A razão iluminada pela fé deve estabelecer uma comparação entre os novos horizontes antropológicos e as exigências perenes da condição humana: “O discernimento deve fazer uma distinção cuidadosa entre os elementos compatíveis com o Evangelho e aqueles que lhe são contrários, entre contribuições positivas e aspectos ideológicos, mas a maior compreensão do mundo que daí resulta não pode deixar de levar a uma apreciação mais profunda de Cristo Senhor e do Evangelho, pois Cristo é o Salvador do mundo”.[5]

7. Este discernimento inspira-se no 60.º aniversário da Constituição Pastoral Gaudium et spes (1965-2025), um aniversário que orienta o presente documento para uma nova reflexão relacionada com a antropologia pessoal e social proposta nela e no Magistério subsequente, que acolheu e desenvolveu o seu ensinamento. Deve-se sublinhar a natureza singular da Gaudium et spes, uma Constituição conciliar com valor magisterial específico, declinado no compromisso de considerar cuidadosamente a condição da humanidade no mundo de hoje. Pela primeira vez na história, um documento deste nível propõe de forma sistemática uma visão do ser humano iluminada pelo mistério de Cristo. Na sua esteira, trata-se, portanto, de propor hoje a antropologia cristã num diálogo aberto e crítico com as instâncias mais recentes das culturas e da experiência humana. Precisamente na referência à Gaudium et spes, coloca-se no centro do documento o ser humano, aquele “integral, na unidade do corpo e da alma, do coração e da consciência, do intelecto e da vontade”,[6] a fim de promover aquele humanismo integral e solidário “capaz de animar uma nova ordem social, econômica e política, fundada na dignidade e na liberdade de cada pessoa humana, a ser realizada na paz, na justiça e na solidariedade”.[7]

2. A estrutura do documento: categorias fundamentais

8. Para desempenhar adequadamente o compromisso do discernimento crítico diante de alguns dos cenários mais relevantes para o futuro do ser humano, o documento propõe quatro categorias fundamentais, em cada um dos capítulos que o compõem. Começa-se pela consideração da noção de desenvolvimento, que está na base de muitas das novidades tecnológicas e sociais em curso. A necessidade de garantir um desenvolvimento humano integral leva então a refletir sobre a categoria de vocação, como chave de compreensão antropológica que, por sua vez, remete à questão da identidade humana, tanto a nível pessoal como social. Por fim, aprofunda-se a condição dramática, ou seja, histórica e livre, que caracteriza a identidade humana, entendida como vocação, e o seu diálogo com os novos desafios tecnocientíficos.

9. Refletindo sobre o desenvolvimento, queremos reconhecer, por um lado, a condição histórico-temporal de uma humanidade que cresceu como nunca na sua história, triplicando a sua população em 70 anos. Por outro lado, esta orientação oferece a oportunidade de uma análise crítica das condições concretas de vida dos indivíduos e dos povos neste progresso do século XXI, marcado pelo crescimento exponencial dos recursos tecnológicos e científicos e pelo seu impacto na vida da humanidade. O desenvolvimento atual oscila, de fato, entre o esforço por uma melhoria concreta das condições de vida dos povos e os sonhos de realizar até mesmo uma substituição do humano.

10. A segunda categoria é a da vocação integral, retomada da Gaudium et spes, na medida em que, a partir da análise das condições concretas de tempo, espaço e intersubjetividade que caracterizam a experiência humana comum, a antropologia cristã aparece como constitutivamente relacional e responsiva e, como tal, responsável.

11. A terceira noção, a da identidade, não foi explicitamente aprofundada em documentos anteriores.[8] A questão da identidade humana impõe-se, de fato, como um sinal dos nossos tempos, precisamente pelas dimensões assumidas pelo progresso técnico-científico, que hoje parece permitir intervenções na natureza humana até há pouco tempo impensáveis, a ponto de encorajar a pretensão dos indivíduos e das sociedades a uma autodeterminação absoluta.[9]

12. A quarta palavra-chave do documento remete à condição dramática do processo de realização da identidade humana. O caminho da sua descoberta, maturação e realização é complexo: passa por circunstâncias históricas concretas, nas quais cada pessoa e cada povo devem se colocar em jogo livremente e se expor também a riscos, quedas e sofrimentos. A busca humana pela identidade não é uma questão predefinida, a ser aplicada de forma dedutiva. A revelação do Deus trino abre o horizonte de uma reciprocidade assimétrica no encontro entre a liberdade divina e a liberdade humana (segundo as categorias bíblicas de aliança e esponsalidade). Nesta reciprocidade, a liberdade e o amor de Deus são “absolutos”, na medida em que são originais e incondicionais; a liberdade humana, por outro lado, é suscitada e responsiva, chamada a decidir-se pelo bem verdadeiro, em conformidade com a vontade de Deus. Cada pessoa, ao realizar a humanidade que Deus lhe deu, representa algo novo e indedutível. A própria identidade deve, portanto, ser sempre (re)descoberta e realizada pessoalmente, graças ao diálogo com o Deus vivo, no contexto das diversas circunstâncias de uma humanidade situada, onde se experimentam aquelas tensões que o Papa Francisco denominou “tensões bipolares”.[10]

3. O foco do documento: uma confrontação com os desafios do trans- e pós-humanismo

13. A condição dramática do processo histórico de humanização, redimido e levado à realização gratuita em Cristo – se desdobra na consciência que cada ser humano tem da sua finitude no encontro inevitável com o infinito.[11] Os seres humanos são as únicas criaturas que sabem que são finitas e, portanto, devem enfrentar esse fato. É possível considerar diferentes opções que se abrem diante de cada ser humano: pode-se tentar absolutizar a finitude; pode-se tentar escapar da finitude num infinito fictício; pode-se tentar chegar a um acordo com a finitude; pode-se habitar a tensão entre finitude e infinito, na esperança de uma realização recebida como dom.

As quatro possibilidades atestam, de maneiras diferentes, que os seres humanos não podem encontrar satisfação na condição finita, mas são remetidos ao “outro de toda finitude”, ao “incondicionado”. Devem pelo menos conceber o oposto do finito, mesmo quando estão convencidos de que nada é verdadeiramente infinito, incondicionado, absoluto. E precisamente porque estão conscientes da sua finitude, os seres humanos desejam ardentemente transcender tudo o que é finito. Podem, naturalmente, também desesperar-se por causa da sua insuperável finitude. No entanto, as várias formas de desespero revelam-se, se examinadas atentamente, tentativas humanas de superar a tensão entre finitude e infinito, seja fugindo da finitude, seja absolutizando-a. Esta análise, se por um lado nos torna conscientes das tensões que pertencem à experiência humana de todos os tempos, por outro convida-nos a considerar as novas formas que elas assumem em algumas correntes de pensamento altamente influentes nas sociedades contemporâneas, como o transumanismo e o pós-humanismo.

14. O transumanismo e o pós-humanismo, embora relacionados e por vezes considerados idênticos (devido às suas respetivas definições ainda bastante fluidas), representam perspectivas diferentes na compreensão da natureza humana e do futuro da humanidade.

O transumanismo é um movimento filosófico que opera com a convicção de que o ser humano pode e deve empregar os recursos da ciência e da tecnologia para superar os limites físicos e biológicos da condição humana, em particular o envelhecimento e até mesmo a morte, moldando assim a sua própria evolução e maximizando o seu potencial, até redesenhar o ser humano para torná-lo apto a ir além. Com a sua ênfase programática no aumento das capacidades humanas individuais, desenvolve uma perspectiva claramente antropocêntrica, subscrevendo uma visão ideológica e ingenuamente acrítica do progresso científico-tecnológico.[12]

O transumanismo imagina um futuro em que os seres humanos aperfeiçoarão a forma biológica atual que caracteriza a natureza humana, para alcançar o objetivo da imortalidade individual apoiada pela tecnologia. No âmbito utópico da sua busca pela imortalidade imanente, o transumanismo pode ser interpretado como a expressão existencial de uma presunção ao mesmo tempo ingénua e arrogante.

15. O pós-humanismo, em sentido estrito, critica o humanismo tradicional, questionando a especificidade dos seres humanos e a existência de uma “forma humana” que, como tal, merece ser preservada por ser portadora de um significado universalmente válido. Por isso, enfatiza o “híbrido” (cyborg), a ponto de desconstruir o sujeito humano, tornando totalmente fluida a fronteira entre o humano e a máquina,[13] e rejeitando o antropocentrismo que continua a ser característico do transumanismo.[14] Em última análise, o pós-humanismo em sentido estrito pode ser entendido como uma expressão existencial de fuga da realidade, que parte de uma desvalorização radical do humano.

16. A inteligência da fé cristã leva a buscar uma síntese das tensões profundas que qualificam o ser humano e que, de forma inédita e desafiadora, são repostas hoje pelo transumanismo e pelo pós-humanismo, em Cristo redentor, morto e ressuscitado: sem criar alternativas ou oposições entre elas ou dentro delas, como muitas vezes acontece nas contraposições que retornam nos debates atuais entre “identidade dada” e “identidade construída”, entre “natureza” e “cultura”, entre “dimensão comunitária/social” e “dimensão individual/pessoal”, entre pertença a uma “cultura histórica concreta” e pertença ao “humano universal”. Numa visão especificamente cristã e teológica, a condição dramática do processo histórico de humanização, a partir da polaridade do finito e do infinito, é de fato salva e levada a cabo em Jesus Cristo, e não pode encontrar solução em qualquer forma de substituição ou supressão do humano.

4. Discernimento e dimensão querigmática da teologia: a vocação integral do ser humano

17. O objetivo do documento não é apenas oferecer um discernimento capaz de avaliar as consequências antropológicas das descobertas tecnocientíficas e as correspondentes escolhas éticas das pessoas e das sociedades atuais. Implica também uma proposta profética à luz do Evangelho.[15] A natureza teórico-prática da teologia inclui o anúncio da fé (kerygma) e a educação para uma visão do humano, em diálogo com os progressos das ciências, nos quais se possa integrar tudo o que é bom (cf. 1Ts 5,21) e superar o que, pelo contrário, é limitante ou penalizante em relação à realização definitiva de cada pessoa e de toda a humanidade.

18. O documento orienta-se, portanto, de forma positiva para uma proposta teológica e pastoral sobre a vida humana entendida como vocação. O nível mais profundo de toda a experiência pessoal e social é o de ser chamado por Outro/outro, na perspectiva de um dom que precede e torna possível a resposta, segundo uma dinâmica de corresponsabilidade para com os outros e para com Deus. É esta compreensão teórico-prática do humano que a comunidade eclesial deseja oferecer a todos.

19. Em resumo, o que está em jogo é a questão da identidade humana, individual e coletiva, num mundo em desenvolvimento, à luz da vocação em Cristo, ou seja, a reafirmação da “vocação integral do ser humano”.[16] Esta vocação insere-se no contexto de um “antropocentrismo situado”,[17] ou seja, de uma visão do mundo que, por um lado, defende o valor peculiar e central do ser humano no meio do maravilhoso concerto de todos os seres e, por outro, reconhece que a vida humana é incompreensível e insustentável sem as outras criaturas.Dentro deste mundo, a vocação em Cristo é primária, precede e fundamenta a resposta do cristão, de modo que as ilusões ou desilusões do caminho não contradizem a identidade filial a que somos chamados em Cristo pelo dom do Espírito.

20. A análise fenomenológica e a avaliação crítica da cultura nas suas várias dimensões são iluminadas pela esperança cristã, fundada na certeza da fé no destino bom de cada pessoa em Jesus Cristo, na plenitude da vida ressuscitada. Este é o horizonte de toda a transformação que a pessoa pode desejar para si e para os outros no caminho histórico da família humana. Esta visão positiva é sustentada, em particular, pela figura da Virgem Maria, cuja resposta ao chamado divino reflete toda a beleza da vida em Cristo, não fechada em si mesma e nos seus próprios projetos, mas aberta à vontade fiel do Senhor da história e de todas as coisas.

Capítulo I

O DESENVOLVIMENTO: HUMANISMO E PÓS-HUMANISMO

21. Comecemos pela análise do conceito de “desenvolvimento”. Trata-se de uma categoria presente nos debates sobre as mudanças em curso e que diz respeito a problemas humanos e sociais muito diversos entre si. Este capítulo pretende contextualizar o potencial das várias formas como as ciências, a tecnologia e as culturas concebem hoje o “desenvolvimento” do indivíduo, das sociedades e do mundo global. É uma categoria que orienta para o futuro da humanidade, que hoje muitos sentem em risco e para defender o qual se apela insistentemente à contribuição de todos os atores sociais. Precisamente por isso, surge com força em muitos contextos sociais, culturais e políticos uma mesma pergunta: para onde estamos a ir como humanidade? Quo vadis, humanitas?[18]

22. Qualquer conceção de “desenvolvimento” implica uma compreensão axiológica e antropológica específica, segundo a qual se julga o que é progresso ou retrocesso, em relação a um certo ideal. Para facilitar o discernimento desses desafios, partimos de uma apresentação sintética da doutrina magisterial sobre o “desenvolvimento” desde o Concílio Vaticano II em diante. Nos textos do magistério, emerge a preocupação com um “desenvolvimento integral” da humanidade, que respeite a sua dignidade e identidade autêntica, bem como o seu fim último, que remete para um mistério de plena comunhão com a Trindade Divina e entre nós. Este equilíbrio pode ser comprometido por duas tentações: em primeiro lugar, o sonho de realizar, através da tecnologia, um salto evolutivo que transforme o humano tal como o conhecemos, potenciando-o com os prodígios da ciência e da técnica, quase à maneira de uma autogeração, que permita inventar e “criar” a si mesmos para além das condições e limitações da natureza humana. Em segundo lugar, tais sonhos baseiam-se numa visão individualista do sujeito e do seu destino e confiam apenas nas inovações científicas, na esperança de que estas possam melhorar o bem-estar individual, mesmo que, na realidade, as fortes repercussões das leis anónimas do mercado e do lucro muitas vezes condicionem negativamente a existência e o futuro das pessoas concretas. Isso compromete o humano comum, os laços de fraternidade, por um lado, e, ao mesmo tempo, o espaço de liberdade real das pessoas que têm poucas ou nenhuma possibilidade.

23. É precisamente a aceleração desencadeada pelas descobertas científicas e tecnológicas, favorecida por condições económicas e constelações políticas favoráveis, que exige a verificação do sentido e da direção deste “desenvolvimento”, tanto em comparação com outras categorias, como o “progresso” ou a “evolução”, em vez da “regressão” ou do “declínio”, seja, sobretudo, no que diz respeito à instância de uma melhoria do humano, até chegar à busca de um “super-homem”.[19] Resta perguntar-se se este sonho de uma passagem para uma fase pós-humana não levará, antes, a uma condição “desumana”. Embora seja preciso reconhecer que esse desejo de “ir além”, de superar a si mesmo e a condição atual para ser plenamente humano, representa uma tensão constitutiva da natureza humana. Podemos, portanto, distinguir entre um significado positivo de “superação”, no qual se reconhece a abertura para além da natureza humana, e um significado negativo, quando a ideia de superação implica a substituição ou supressão do humano.

24. O significado correto desse “ir além” próprio do ser humano encontra-se no “tran-sumanar” expresso por Dante no primeiro Canto do Paraíso,[20] assim como em outras modalidades da experiência da “divinização”, efeito da união íntima com Deus pela graça, e não produto de técnicas humanas mais ou menos elaboradas: “Só graças a este encontro, ou reencontro, com o amor de Deus, que se transforma em feliz amizade, somos redimidos da nossa consciência isolada e da autorreferencialidade. Chegamos a ser plenamente humanos quando somos mais do que humanos, quando permitimos que Deus nos conduza para além de nós mesmos, para que alcancemos o nosso ser mais verdadeiro”.[21] A este nível do discurso, pode-se medir a profunda distância que existe entre o sonho de “tornar-se como deuses” (cf. Gn 3,4) de certo transumanismo ou pós-humanismo e o dom da “divinização”, entendida como participação na vida divina na humanidade transfigurada dos filhos de Deus em Cristo.[22]

1. O discernimento do Magistério sobre desenvolvimento e tecnologia

25. O progresso como desenvolvimento histórico confiado à humanidade. Recolhendo a exigência colocada por João XXIII de ler os “sinais dos tempos”,[23] e tomando consciência do impacto global das transformações tecnológicas, que influenciam toda a sociedade, a Constituição Pastoral Gaudium et spes do Concílio Vaticano II inseriu o desenvolvimento da técnica naquele dinamismo de progresso através do qual a humanidade se realiza na história: “Com o seu trabalho e a sua engenhosidade, o homem sempre procurou desenvolver a sua vida; mas hoje, especialmente com a ajuda da ciência e da técnica, ele ampliou e continua a ampliar o seu domínio sobre quase toda a natureza”.[24] A intensidade do desenvolvimento, graças à qual o ser humano obtém por si mesmo coisas que antes considerava distantes das suas possibilidades, suscita, porém, algumas perguntas: “Diante deste imenso esforço, que agora permeia toda a humanidade, muitas perguntas surgem entre os homens: qual é o sentido e o valor da atividade humana? Como devem ser usadas estas realidades? Para que fim tendem os esforços individuais e coletivos?”[25]

26. A instância de um “desenvolvimento integral”. As perguntas são retomadas por Paulo VI, que reconhece a preciosa contribuição do progresso tecnológico como necessário para o crescimento económico e o desenvolvimento humano. Ao mesmo tempo, ele adverte para o risco de que a pessoa humana deixe de ser a autora do progresso: “Não basta promover a técnica para que a terra se torne mais humana para se habitar. [...] A economia e a técnica só têm sentido em relação ao homem a quem devem servir. E o homem só é verdadeiramente homem na medida em que, senhor das suas ações e juiz do seu valor, se torna ele próprio autor do seu próprio progresso, em conformidade com a natureza que lhe foi dada pelo seu Criador e cujas possibilidades e exigências ele assume livremente”.[26] Dessa preocupação surge um critério fundamental: se a tecnologia faz parte da atividade característica do ser humano em realização na história, é preciso estar atento para garantir um “desenvolvimento integral e solidário”, ou seja, o desenvolvimento “de cada homem e de todo o homem”,[27] que evite uma exaltação da técnica como forma dominante de vida, como modo absorvente de existir, sem que a questão do seu significado seja realmente colocada.[28]

27. Desenvolvimento tecnológico e desenvolvimento moral: por um humanismo integral. João Paulo II, ao explicar a necessidade de que o desenvolvimento permaneça centrado na pessoa humana e não perca a dimensão moral, recolhe uma inquietação generalizada face a um desenvolvimento tecnológico que parece escapar ao controlo:“O homem de hoje parece estar sempre ameaçado pelo que produz, isto é, pelo resultado do trabalho das suas mãos e, mais ainda, do trabalho do seu intelecto”.[29] A questão essencial que se coloca diz respeito à qualidade “humana” desse desenvolvimento: “Este progresso, cujo autor e promotor é o homem, torna a vida humana na terra em todos os seus aspectos “mais humana”? Torna-a mais “digna do homem”?[30] O que garante o desenvolvimento tecnológico como dinamismo positivo é a atenção à dimensão ética do desenvolvimento e, portanto, a atenção à pessoa, à sua dignidade inalienável e à sua responsabilidade. O fim do desenvolvimento, de fato, não pode ser confiado a leis ou mecanismos anônimos, regulados apenas pelo potencial das inovações científicas e tecnológicas. O desenvolvimento deve ter sempre um horizonte pessoal e social, proporcional ao bem comum e ao fim último da pessoa.[31]

28. O potencial da técnica e a tentação de criar a si mesmo. Bento XVI adverte contra o sonho de “criar a si mesmo”, sem levar em conta o dom que nos precede: “O desenvolvimento da pessoa degrada-se se ela pretende ser a única produtora de si mesma”.[32] Da mesma forma, o desenvolvimento dos povos degenera se a humanidade acredita que pode “recriar-se”, valendo-se apenas dos prodígios da tecnologia.Ao mesmo tempo, acolhe o valor positivo dos progressos tecnológicos, que correspondem, na verdade, a uma verdadeira vocação que provém de Deus.[33] É precisamente daqui que deriva, porém, também a ambivalência da técnica: “O desenvolvimento tecnológico pode induzir a ideia da autossuficiência da própria técnica quando o homem, interrogando-se apenas sobre o como, não considera os muitos porquês que o levam a agir”.[34] Quando o ser humano cede a uma visão meramente funcional da técnica, pode ver nela o instrumento de uma liberdade incondicional, que lhe permite prescindir dos limites que a vida e as coisas trazem consigo, sonhando com a ideia de uma autonomia absoluta que o autoriza a criar ou recriar a si mesmo. Na realidade, o mistério da criação a ser respeitado já não ressoa, mas tudo é reduzido a puro “fato”, fruto do acaso ou de alguma necessidade, a ser explorado de acordo com os interesses das potências em vigor.

29. O poder da tecnocracia e a sustentabilidade ambiental do desenvolvimento. Francisco denuncia os efeitos devastadores produzidos por formas de “tecnocracia” nas quais o ser humano “está nu e exposto diante do seu próprio poder, que continua a crescer, sem ter os instrumentos para controlá-lo”.[35] O que falta é uma ética adequadamente sólida, uma cultura e uma espiritualidade que realmente lhe imponham limites e o contenham dentro de um domínio lúcido de si mesmo. Na origem desta situação problemática está a tendência para definir a metodologia e os objetivos da tecnociência segundo um paradigma de poder, que condiciona a vida das pessoas e o funcionamento da sociedade. Neste paradigma tecnocrático revela-se uma conceção do sujeito que possui o objeto numa lógica de domínio e transformação para seu próprio uso e consumo. É como se o sujeito se encontrasse diante de uma realidade informe, totalmente disponível para sua manipulação. A intervenção do ser humano na natureza não se limita mais a acompanhar e favorecer as possibilidades oferecidas pelas próprias coisas: “Agora, o que interessa é extrair tudo o que é possível das coisas através da imposição da mão humana, que tende a ignorar ou esquecer a própria realidade do que tem diante de si.Por isso, o ser humano e as coisas deixaram de se dar as mãos amigavelmente, tornando-se, em vez disso, adversários. Daí se passa facilmente à ideia de um crescimento infinito ou ilimitado”.[36] Esta preocupação com os potenciais desvios é acompanhada, porém, pelo espanto pela beleza dos resultados do desenvolvimento tecnológico: “A tecnociência [...] é ainda capaz de produzir o belo e de fazer com que o ser humano, imerso no mundo material, dê o “salto” para o domínio da beleza. Pode-se negar a beleza de um avião ou de alguns arranha-céus?”.[37]

30. Em várias ocasiões, Leão XIV expressou uma posição de abertura crítica em relação ao potencial da tecnologia, sublinhando a importância de promover um modelo de desenvolvimento tecnológico que esteja ao serviço da pessoa e do bem comum e alertando para as consequências “nocivas” de um progresso descontrolado. Tomando nota do desafio constituído por um “novo humanismo digital”, pervasivo e irreversível, convida-nos a saber vivê-lo de forma correta: “A ciência e a técnica influenciam a nossa maneira de ser e de estar no mundo, a ponto de envolver até mesmo a compreensão de nós mesmos, a nossa relação com os outros e a nossa relação com Deus. Mas nada que venha do homem e da sua engenhosidade deve ser dobrado a ponto de mortificar a dignidade do outro. [...] Perante as mudanças culturais ao longo da história, a Igreja nunca permaneceu passiva; sempre procurou iluminar cada época com a luz e a esperança de Cristo, discernir o bem do mal, o que havia de bom naquilo que precisava de ser mudado, transformado, purificado”.[38]

2. Algumas consequências antropológicas do recente desenvolvimento tecnológico

31. O discernimento magisterial sobre o desenvolvimento e as suas ambivalências reconhece, em primeiro lugar, o valor positivo das inovações tecnológicas que, bem utilizadas, constituem um grande recurso para a humanidade em muitos aspetos da civilização e da cultura. Parece, portanto, a muitos que bastaria distinguir entre aplicações boas e positivas e aplicações nocivas e perigosas, partindo do princípio de que a tecnologia não é mais do que um instrumento nas nossas mãos. Mas, como adverte o Papa Leão XIV, a recente aceleração do desenvolvimento tecnológico em alguns domínios específicos, como a comunicação, a gestão de dados e a inteligência artificial, as biotecnologias e a robótica, torna o discernimento mais complexo e delicado: “A humanidade encontra-se numa encruzilhada diante do imenso potencial gerado pela revolução digital impulsionada pela Inteligência Artificial. O impacto desta revolução é de grande alcance, transformando áreas como a educação, o trabalho, a arte, a saúde, a administração, o setor militar e a comunicação. Esta mudança histórica exige responsabilidade e discernimento para garantir que a IA seja desenvolvida e utilizada para o bem comum, construindo pontes de diálogo e promovendo a fraternidade, e garantindo que sirva os interesses da humanidade como um todo. [...] Portanto, o desenvolvimento desses avanços tecnológicos deve andar de mãos dadas com o respeito pelos valores humanos e sociais, a capacidade de julgar com consciência tranquila e o crescimento na responsabilidade humana. Não é por acaso que esta era de profunda inovação levou muitos a refletir sobre o que significa ser humano e sobre o papel da humanidade no mundo”.[39]

32. A relação com os instrumentos tecnológicos é complexa, pois a relação entre o instrumento tecnológico e o sujeito que o utiliza apresenta uma circularidade que implica um condicionamento recíproco. Quem utiliza o instrumento tecnológico é, em certa medida, condicionado pelas possibilidades que o instrumento oferece e pode imaginar de forma diferente a organização da sua vida. Por exemplo, a construção de autoestradas e vias de alta velocidade favorece uma distribuição do trabalho que se estende por espaços mais vastos e permite deslocações rápidas que favorecem intercâmbios, contatos e atividades a distâncias antes impensáveis. Isto implica uma maior mobilidade e uma organização diferente da vida profissional e familiar. Este dinamismo torna-se mais impactante para o indivíduo quando se passa dos instrumentos tecnológicos, que aumentam a velocidade de deslocamento (carro, trem, avião), para as “tecnologias intelectuais”, que visam potenciar o conhecimento, ou seja, o que e como pensamos (tecnologia digital, redes sociais, inteligência artificial).

33. Uma vez que se trata de ferramentas mais ligadas à nossa autocompreensão, utilizadas para nos expressarmos nas várias formas de comunicação social, para moldar identidades pessoais ou coletivas, para cultivar relações com os outros, resulta uma transformação mais íntima. A tecnologia digital já não é apenas uma ferramenta, mas constitui um verdadeiro ambiente de vida, com a sua própria forma de estruturar as atividades humanas e as relações.Este desenvolvimento tecnológico tem fortes repercussões na autocompreensão do sujeito, inscritas nas novas potencialidades cognitivas e comunicativas. A era digital inaugura um novo horizonte de sentido em que pensamos e comunicamos. Muda também a noção do que é universal, que remete menos para a ideia de uma natureza comum e mais para o que é partilhado na conexão global.[40] Consideremos algumas implicações antropológicas que se perfilam em relação aos fenômenos emergentes, analisando-as com base nas quatro relações fundamentais em que se expressa a pessoa humana: com o ambiente, com os outros, consigo mesma e com Deus.[41]

2.1. A relação com o ambiente natural

34. A relação com o ambiente é alterada pela realidade sintética, ou seja, pelo artificial, que permeia os âmbitos vitais, desde a alimentação (conservação de alimentos; organismos geneticamente modificados) até à habitação do espaço (urbanização) e às transformações do corpo (biotecnologias). A expansão do mundo artificial, com materiais não presentes na natureza, como plástico, aço e concreto, torna mais fluida e indeterminada a relação com a natureza e as suas leis, e pode criar a ilusão de que apenas a liberdade do ser humano, baseada no poder de transformação da técnica, oferece uma relação justa com o mundo real.[42] Desta forma, a própria relação entre natureza e cultura transforma-se e torna-se mais complexa: não é a natureza, com as suas leis e limites, que regula e orienta o desenvolvimento, entendido como tensão para superar condições de vida desfavoráveis, mas sim as potencialidades tecnológicas, com os seus recursos “ilimitados”. Nesta direção, afirma-se frequentemente uma mentalidade guiada por lógicas económicas de lucro máximo, segundo as quais a natureza deve ser corrigida, modificada e transformada com vista a uma produtividade cada vez maior. Intensifica-se então sem medida a exploração dos recursos da terra, promovendo, por exemplo, opções de desmatamento de vastas áreas para a agricultura intensiva, que acabam por empobrecer a terra. Daí resulta a trágica consequência da “‘dívida ecológica’, sobretudo entre o Norte e o Sul”.[43] Uma lógica semelhante orienta os projetos de urbanização selvagem e abusiva, que desfiguram ecossistemas inteiros, bem como as políticas de extração de materiais necessários aos produtos tecnológicas, que poluem áreas naturais inteiras.[44] Em síntese, o artificial relativiza o que é “natural” como referência normativa para a ação humana, causando, em vastas regiões da terra, especialmente no Sul do mundo, fenômenos de empobrecimento do ambiente natural depredado e situações de empobrecimento da existência de populações inteiras, criando situações de grande injustiça social.[45]

2.2. A relação com os outros no mundo digital

35. A relação com os outros foi revolucionada na era digital através das transformações radicais da comunicação (mass media) e da informação (big data). Estas alcançaram níveis de universalidade, imediatismo e envolvimento sem precedentes, aumentando a consciência generalizada de pertencer a uma única grande família humana. Mas muitas vezes um indivíduo “na rede” pode sentir-se como um ponto insignificante dentro de um fluxo de informações incontrolável e, portanto, desestabilizador, que o leva a elaborar a sua identidade dentro de laços virtuais (contatos) sem tempo nem lugar. Esta imensa massa de dados, na qual estamos imersos, sempre passível de revisão e, portanto, fluida, intensifica a percepção da complexidade do real, gerando fenômenos de ansiedade, insegurança e medo.

36. Neste contexto de crescente complexidade, são precisamente os progressos da inteligência artificial que oferecem um processo de gestão de dados, organizados numa base estatística, e de elaboração de soluções eficazes, baseadas em algoritmos, que nem sempre são controláveis por uma única pessoa e, por vezes, nem mesmo por empresas ou Estados (os algoritmos de alguns sistemas não foram comunicados a nenhuma autoridade pública). Os objetivos do desenvolvimento são geridos pelo próprio sistema. Assim, surge o poder da inteligência artificial, com a sua capacidade de gerir uma enorme quantidade de dados, identificando correlações e propondo decisões baseadas em inferências indisponíveis ao cálculo humano.

37. A IA abrange, de fato, um vasto campo de investigação e aplicações com diversas implicações na vida das pessoas, tanto a nível profissional como familiar e social.[46] Sem entrar na análise das diferentes formas de IA, é útil precisar a distinção entre a IA em sentido estrito, com as suas múltiplas aplicações, e a IA geral (IAG).[47] Esta distinção evidencia duas formas diferentes de conceber a inteligência artificial e de imaginar o seu significado e utilização. A IA em sentido estrito oferece um processamento rápido de grandes quantidades de dados por meio de algoritmos que processam operações complexas de análise e cálculo de probabilidades, incluindo sistemas de inteligência artificial que geram autonomamente dados de treino e aperfeiçoam os seus próprios processos internos. As formas de utilização são difundidas em contextos civis (individuais e empresariais) e militares em muitas partes do mundo.[48]

38. A IAG indica uma tecnologia futura, pervasiva, capaz de substituir todos os aspetos computacionais e operacionais da inteligência humana graças a uma velocidade de cálculo extremamente elevada, disponibilizada pelo futuro desenvolvimento de processadores quânticos. Caso os aspetos específicos da inteligência humana fossem conscientemente enfraquecidos ou abandonados, a IAG poderia gerar consequências profundas, que correriam o risco de escapar ao controlo da razão humana. Alguns levantam, então, a hipótese de que a IA seja chamada a gerir os problemas por ela mesma produzidos, de acordo com uma dinâmica que se tornaria irreversível. Este círculo vicioso é apresentado por alguns como um processo quase necessário, como nos processos naturais, um destino que levaria às consequências extremas o que o próprio ser humano teria originalmente causado.

39. No âmbito da antropologia fundamental, devemos perguntar-nos se pode ser considerada exaustiva a compreensão do ser humano como homo faber e como homo technologicus, apoiado, tanto a nível individual como coletivo, por uma IA que satura e determina de forma subtil todos os aspetos da vida. O resultado foi um mundo “hiperconectado”, com uma aceleração crescente das dinâmicas económicas, políticas, sociais ou militares, que correm o risco de se tornar incontroláveis e, portanto, ingovernáveis. Num mundo semelhante, a própria ação humana torna-se material a ser analisado e moldado com base em objetivos de poder ou de mercado nem sempre transparentes. Aumenta o controlo social e o risco de manipulação.

40. Ao nível da aplicação, a IA em sentido estrito levanta questões sobre a fiabilidade dos dados e os critérios com que os programadores os processam para os disponibilizar. Não é claro quais preconceitos ou sistemas de poder condicionam esse trabalho. Em particular, surgem sérias dúvidas em relação aos processos de decisão automatizados, baseados na IA, em áreas delicadas da vida humana: quando se deve decidir se prestar ou não cuidados médicos, conceder empréstimos ou hipotecas, garantir seguros, instruir processos penais em tribunal, avaliar a conduta dos reclusos e as possíveis reincidências com vista à redução das penas, ou ainda nas decisões de ataque militar ou nas intervenções das forças da ordem.[49]

41. No que diz respeito à IAG, existe uma corrida intensa para colmatar cada vez mais o fosso entre a auto-melhoria dos sistemas de IA e a consecução de uma IAG. Embora o objetivo ainda esteja longe, é perseguido com muita determinação, mas por vezes sem a prudência gerada pelo sábio reconhecimento de que o bem implica sempre um limite e uma proporção adequados. Quer se trate de um sonho distante ou de uma inovação próxima, esta forma de IA geral estimula a busca de uma compreensão mais profunda da natureza da inteligência humana, da sua singularidade entre os seres vivos, da sua insubstituibilidade, especialmente em relação à responsabilidade moral e à sua abertura intrínseca à transcendência. Um tipo de conhecimento e cálculo que prescinde de uma inteligência vivida num corpo e situada, bem como de um tipo de conhecimento relacional e transmitido de geração em geração através de processos educativos que se jogam sobre a identidade e o sentido a dar ao próprio destino e ao próprio papel no mundo, constitui uma ameaça ao verdadeiro bem da humanidade. No entanto, é neste tipo de conhecimento sem corpo, sem limites, sem laços e sem sentido moral que se baseiam os sonhos do transumanismo, que chega também, no pós-humanismo, a imaginar um salto evolutivo. Essa imaginação repõe com força a questão sobre o fim último do progresso tecnológico.[50]

42. Neste contexto, compreende-se como a comunicação interpessoal sofreu profundas mudanças na sociedade da comunicação de massa (rádio, televisão, internet, redes sociais), sobretudo nos últimos tempos. Não faltam vantagens neste desenvolvimento tecnocientífico, como, por exemplo, uma cidadania ativa ou uma informação mais direta e participativa a nível social e político. Mas muitas vezes criam-se contatos sem laços, relações funcionais sem solidariedade real, num mercado infinito de notícias e dados pessoais, nem sempre verificáveis e muitas vezes manipulados. Nem sempre há uma comunicação em plena transparência. A omnipresença dos meios de comunicação social, que se tornaram tão indispensáveis que tornam impensável a existência da família humana sem eles, impõe uma maior vigilância sobre as condicionantes culturais e económicas. Não se trata de meios neutros: “Muitas vezes, tais perspectivas, que enfatizam a natureza estritamente técnica dos meios de comunicação, favorecem de fato a sua subordinação ao cálculo económico, ao objetivo de dominar os mercados e, não menos importante, ao desejo de impor parâmetros culturais funcionais a projetos de poder ideológico e político”.[51] A sua influência na dimensão ético-cultural da globalização interpela a antropologia.[52]

43. Em muitos ambientes da infosfera, percebe-se uma insistência em ser reconhecido, compartilhando permanentemente pensamentos e emoções na rede, que devem ser “reconhecidos pelos outros”. Apesar da justa necessidade humana de reconhecimento, este fenômeno excessivo é um sintoma de incerteza de identidade.[53] Precisamente porque esta deve ser “inventada” sem instâncias objetivas exteriores (natureza, valores culturais, papéis sociais, costumes partilhados), a identidade é mais fraca: invoca o reconhecimento, mas tem de o negociar, atrair, conquistar, mesmo gritando ou distorcendo a realidade. Hoje, o eu debate-se na esperança de ser reconhecido por alguém e, no entanto, fá-lo frequentemente afirmando os seus direitos individuais contra o outro, desafiando o outro. Isto aumenta os conflitos sociais, que muitas vezes se tornam conflitos identitários. A crise atual das democracias ocidentais não é compreensível sem levar em conta esse esforço crescente no reconhecimento partilhado do que nos une como seres humanos. Este contexto deixa um caminho aberto para os líderes políticos que tomam decisões importantes baseadas apenas na sua vontade.

44. Um âmbito social delicado e sintomático das possíveis implicações éticas e culturais das redes sociais é o mundo infantil e juvenil: “A Internet e as redes sociais criaram uma nova forma de comunicar e estabelecer laços, e ‘são um espaço onde os jovens passam muito tempo e se encontram facilmente’”.[54] De forma positiva, esses meios oferecem novas oportunidades de diálogo, são frequentemente uma fonte de informação independente, que protege as pessoas mais vulneráveis e denuncia violações dos direitos humanos. Mas também apresentam limites e riscos graves: “O ambiente digital é também um território de solidão, manipulação, exploração e violência, até ao caso extremo da dark web. […] Novas formas de violência se difundem através das redes sociais, por exemplo, o ciberbullying; a web também é um canal de difusão da pornografia e da exploração de pessoas para fins sexuais ou através do jogo”.[55]

45. As novas formas de comunicação social têm um forte impacto no debate político, pois, se por um lado é possível experimentar formas de democracia direta, nas quais cada cidadão pode expressar e divulgar a sua opinião, por outro lado, podem gerar fortes polarizações entre grupos que pensam de forma diferente e se confrontam de maneira conflituosa e violenta, tratando-se como inimigos apenas por pensarem de maneira diferente. A própria troca social sofre uma “tribalização” que fragmenta a sociedade em grupos de opinião homologados pelos “likes”. O debate político corre o risco de deixar de se basear em argumentos partilhados, passando a basear-se em alinhamentos opostos numa lógica de poder impulsionada por grupos de pressão. Não é raro faltar aquele “diálogo social” que constrói pacientemente o consenso a partir da base, a partir de um mundo comum e de laços de solidariedade: “Esses circuitos fechados facilitam a difusão de informações e notícias falsas, fomentando preconceitos e ódio. A proliferação de notícias falsas é expressão de uma cultura que perdeu o sentido da verdade e distorce os fatos em favor de interesses particulares”.[56]

2.3. A compreensão de si mesmo: consciência e corporeidade

46. A revolução da informação (“infosfera”) muda a forma de exercer o conhecimento: não se trata mais de elaborar teorias para interpretar os dados e encontrar soluções para os problemas, mas sim de estabelecer correlações entre os dados e calcular a percentagem de sucesso. O risco é que, dessa forma, se tenda a superar o conhecimento crítico, enquanto a delegação de algumas operações, como o cálculo, o raciocínio e a tradução, possa diminuir a agilidade mental e a criatividade do indivíduo. Mas o maior perigo é reduzir o horizonte do conhecimento humano, limitando-o às formas de conhecimento que correspondem ao que a IA pode elaborar, com um forte impacto no ambiente educativo (nas escolas e universidades).[57] Podem ser excluídas, por não serem pertinentes, questões de sentido e questões éticas, mas também questões filosóficas (ontológicas) e teológicas. Assim, a IA poderia decidir de fato o que é permitido saber, relegando as outras questões ao âmbito subjetivo ou a questões de gosto. A própria autoconsciência pode ser considerada como uma série de informações a serem transferidas para suportes digitais mais resistentes do que a carne humana e organizadas com base em algoritmos, enquanto a percepção sensorial é potencializada pela revolução digital (cyborg, neurociência, internet), que disponibiliza imagens, sons e situações em direto, criando emoções fortes num sistema de comunicação imediata e, portanto, sem mediações de sentido que permitam compreender e argumentar.

47. Com o desenvolvimento das biotecnologias, das neurociências e do mapeamento do DNA, aliados aos progressos no campo farmacológico e da robótica (cyborg), também muda a percepção do corpo e do seu significado. Devem ser apreciados os ganhos evidentes para a saúde e o bem-estar de muitos segmentos da população: campanhas de prevenção, diagnósticos precoces, cálculo dos riscos de várias terapias ou dos efeitos colaterais dos medicamentos no organismo melhoraram muito as possibilidades de intervenção da medicina e, consequentemente, a saúde pública.Mas não se pode ignorar as tendências que reduzem o corpo a material biológico a ser potencializado, transformado, remodelado à vontade, com o sonho de alcançar condições de existência capazes de evitar a dor, o envelhecimento e a morte. Especialmente no Ocidente, os avanços da cirurgia estética, combinados com a farmacologia (tratamentos hormonais, substâncias que potencializam as emoções ou a concentração) oferecem ferramentas que mudam muito a relação com a própria corporeidade e, portanto, com a realidade e com os outros. Daí resulta um difundido “culto do corpo”, que tende à busca espasmódica de uma figura perfeita, que se mantenha sempre em forma, jovem e bonita. Uma vez modificado, muitas vezes com uma frenesia incessante, o corpo torna-se um corpo-objeto no qual a pessoa-sujeito se espelha, criando uma relação em que a pessoa já não é o seu corpo, mas “possui” um corpo, a partir do qual procura encontrar uma identidade “emprestada”. Nesta dinâmica, não é mais necessário aceitar o próprio corpo para realizar a própria identidade. Ele pode ser transformado de acordo com os gostos do momento. Cria-se uma situação curiosa: o corpo ideal é exaltado, procurado e cultivado, enquanto o corpo real não é verdadeiramente amado, sendo fonte de limites, esforços, envelhecimento. Deseja-se um corpo perfeito, enquanto se sonha em fugir do próprio corpo concreto e dos seus limites.[58]

2.4. A relação com Deus

48. As tecnologias digitais oferecem muitas oportunidades às religiões que mobilizam os recursos da comunicação digital ao serviço da sua missão. A rede é hoje um “lugar” onde se podem encontrar muitas propostas positivas de vida religiosa e cristã, que facilitam o conhecimento e a informação de formas inimagináveis até há pouco tempo. Basta evocar a quantidade de comunicação religiosa que “explodiu” durante a pandemia da Covid-19.[59] Por outro lado, existe o risco de que uma grande variedade de religiões digitais encha a rede como um gigantesco “mercado religioso”, que oferece uma escolha à la carte de acordo com os interesses individuais. Trata-se de ofertas religiosas sem laços reais nem pertença comunitária, mais próximas dos gostos emocionais dos indivíduos do que de uma experiência partilhada. Também se pode duvidar do caráter autenticamente eclesial de certa comunicação cristã nas redes sociais, especialmente quando usada para alimentar polêmicas, criar divisões e até mesmo destruir a boa reputação de outras pessoas. Além disso, algumas dessas novas práticas espirituais online acabam por produzir uma metamorfose na maneira de acreditar, pois a tecnologia digital tem uma influência muito forte no imaginário religioso. Não raro, o resultado é um novo paradigma que redefine as identidades religiosas: a própria tecnologia passa a funciona como guia espiritual e mediadora do sagrado. De fato, os devotos de várias religiões e os investigadores espirituais depositam frequentemente uma confiança indiscriminada nos motores de busca online, tornando supérfluas as mediações humanas do sagrado, substituídas pelo digital. Os casos extremos chegam a pedidos de bênçãos e exorcismos virtuais, espiritismo digital e “pseudo religiões” tridimensionais.

49. Esta confiança num mundo governado por máquinas, que não só facilita a disponibilização de recursos religiosos, mas também a recepção direta de propostas de sentido da vida e de acesso ao divino por parte da tecnologia digital, não está longe da lógica trans-humanista e pós-humanista: a religião digital apresenta-se como se tivesse mesmo o poder de criar um “Deus à sua imagem e semelhança” para propor a uma humanidade que deposita total confiança na tecnologia. O “Deus vivo” pode ser substituído por um “Deus virtual” com a pretensão de “salvar” a humanidade com base em desempenhos tecnológicos colocados à disposição das aspirações espirituais do ser humano.[60]

50. Em resumo, estas transformações influenciam a relação com o Mistério da origem e do fim último da vida humana. Quando o ser humano reduz a natureza criada (pessoa, cosmos) a matéria a ser transformada, ele não manifesta mais a glória do Criador, mas substitui-Se a Ele. O mesmo acontece quando a tarefa de dar sentido à existência e indicar o fim último se identifica com a implementação das potencialidades tecnológicas. Neste contexto, as tradições religiosas e espirituais ainda têm algo de essencial e indispensável a oferecer no que diz respeito à sabedoria de viver em relação a Deus.[61]

3. O impacto cultural das revoluções tecnológicas: para um discernimento crítico

51. O impacto da transformação antropológica ligada ao desenvolvimento científico e tecnológico já deixa marcas no imaginário social da cultura de massa, mas atinge a sua expressão mais forte nos movimentos do transumanismo e do pós-humanismo. O estudo dos mitos elaborados pela cultura de massa sobre o futuro da humanidade (ficção científica, distopias) e a análise crítica dos princípios fundadores dos movimentos transumanista e pós-humanista evidenciam o significado e o alcance das mudanças antropológicas em curso.

52. O imaginário social, expresso no cinema, nas ficções e nas séries televisivas, mas também nos romances, nas criações artísticas e na música, revela uma percepção aguda das esperanças e dos riscos associados a possíveis mundos futuros. O cinema imaginou os cenários possíveis relacionados com epidemias e catástrofes planetárias muito antes de termos de atravessar a pandemia da Covid-19. As distopias sugeriram o tema de muitos dos filmes e romances mais importantes já no século XX, exercendo uma influência significativa sobre essas modalidades da cultura popular. Essas criações artísticas veiculam a percepção da inevitabilidade de um processo de desenvolvimento tecnológico que terá impactos relevantes na vida das pessoas e no destino da humanidade, na consciência dos riscos associados. Consequentemente, manifesta-se frequentemente o medo das incógnitas que acompanham uma evolução incontrolável das máquinas ou dos dispositivos tecnológicos e que poderia levar à constituição de subjetividades autónomas, tanto na determinação do futuro como no domínio do planeta.

53. Os filmes e romances de ficção científica ajudam a tomar consciência de muitas questões difíceis que dizem respeito à identidade e ao destino do ser humano, que assim são postos em jogo. Questionam-se sobre qual poderá ser o valor dos afetos e quais os laços possíveis; ou quais serão os poderes fortes que guiarão o progresso. Imaginam-se cenários sombrios, nos quais se imporão novas formas de exploração dos mais fracos, talvez reduzidos a material humano para experiências perigosas.Também o tipo de estruturação social suscita preocupações, deixando incertezas se ela será elitista e desigual, homologadora e inimiga das liberdades individuais ou aberta e pluralista, democrática e participativa; se haverá uma oligarquia tecnocrática que domina ou uma melhor organização política baseada na dignidade humana e no bem comum. Por fim, olha-se com preocupação para o impacto ambiental do progresso: que poluição, que recursos energéticos estarão disponíveis e a que preço? Qual será a qualidade de vida? Através destas questões, muito difundidas, emerge uma forte ambivalência entre uma confiança indiscutível na tecnologia e nas suas possibilidades de autocorreção, por um lado, e, por outro, a desconfiança quanto ao seu uso correto, com a suspeita de que interesses ocultos de algum lobby de poder possam levar a resultados devastadores.

54. São hoje os movimentos do transumanismo e do pós-humanismo que fornecem o âmbito conceptual e narrativo em que emerge com maior força este imaginário sobre o futuro da humanidade. Estas duas formas de interpretação e planeamento cultural, mais ou menos ideológicas, do potencial da tecnologia estimulam o imaginário coletivo com a pretensão de um maior rigor teórico que ofereceria uma previsão realista sobre o futuro da humanidade. Trata-se, em última análise, da proposta de uma nova visão da realidade que implica uma nova antropologia. Podem ser consideradas como “sistemas” de pensamento que promovem uma cruzada a favor da ciência e dos seus progressos, à luz do slogan: “tudo o que a tecnologia pode fazer, deve ser feito para melhorar a condição humana”. Trata-se, assim, de preparar uma nova fase, inédita, da história humana.

55. No contexto da proposta destes movimentos, vislumbra-se a aceitação, sem limites e cautelas, do conceito de human enhancement: uma noção principalmente biomédica, muito presente no âmbito das biotecnologias. Pode ser definido como o conjunto de tecnologias biomédicas, genéticas, farmacológicas e cibernéticas destinadas a melhorar as capacidades físicas, cognitivas ou sensoriais do ser humano, além dos níveis considerados normais ou médios. Os seus campos de aplicação são: a introdução de próteses avançadas para potenciar as capacidades físicas ou mentais humanas, também através de aparelhos tecnológicos e eletrónicos inseridos no corpo humano; o uso de técnicas de fertilização humana artificial; o uso de medicamentos que melhoram as capacidades físicas e cognitivas do ser humano no âmbito do desporto, do trabalho físico ou mental e da atividade militar. Ora, é precisamente a proposta de melhoria humana que leva a iniciar uma reflexão crítica sobre o transumanismo, na medida em que convida a colocar a questão: “até que ponto é lícito melhorar as condições de vida, aumentar o rendimento, ultrapassar os limites, mantendo como objetivo o bem do ser humano?”. Já no âmbito do human enhancement surge, de fato, a constatação de que, para ser autenticamente humano, qualquer desejo de melhorar a condição humana deve manter um equilíbrio entre o tecnicamente possível e o humanamente sensato.

56. A partir das reflexões anteriores, percebe-se a importância de colocar no centro a questão antropológica, perguntando-se não tanto como ir “além dos limites do humano”, mas sim o que torna a nossa existência “autenticamente humana”. À luz desta questão antropológica fundamental, é possível elaborar alguns critérios para um discernimento crítico da antropologia subjacente a estes movimentos filosóficos e culturais.

57. Um primeiro elemento que se revela problemático é o julgamento negativo sobre a condição humana tal como ela é e, em última análise, sobre a sua identidade. Daí deriva o sonho de reinventá-la, um sonho motivado pela insatisfação com o que ela é, com os seus limites e defeitos. É preciso perguntar-se, porém, se o “ressentimento” em relação à vida real é uma boa base de partida para o progresso e não antes uma tentação de rebelião ou de fuga da realidade. Não se trata aqui da luta necessária pela mudança de condições e estruturas injustas, mas da rejeição da natureza das coisas e de si mesmos. Em particular, é preciso alertar para a percepção fundamentalmente negativa da corporeidade, que pode ser vista mais como um obstáculo do que como parte integrante da identidade humana.

58. O segundo aspeto, relacionado com o primeiro, é o sonho de um perfeccionismo individualista e elitista. Parece que cada ser humano concreto só pode existir ou ser aceite na condição de “se tornar mais perfeito”.[62] Tanto que nos devemos perguntar se a condição humana atual ainda tem direito a existir ou se os seres humanos particulares se tornaram “supérfluos”. Algumas teorias hipertecnológicas parecem contestar o princípio básico herdado do humanismo: “aja de forma que os efeitos da sua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana na Terra. Aja de forma que os efeitos da sua ação não sejam destrutivos para a possibilidade futura de tal vida”.[63] Este princípio pode até ser considerado uma limitação desnecessária e prejudicial ao progresso tecnológico.

59. Um terceiro fator é o impacto social dessa visão do ser humano. Na verdade, ela pode chegar a afirmar a separação entre uma forma de humanidade superior, dotada de instrumentos que a potenciam até a imortalidade, e uma humanidade primitiva, pré-tecnológica e destinada, em última instância, à extinção. Não é evidente com base em que se estabelecerá a condição diferente que a humanidade pode alcançar: riqueza, cultura, herança, ousadia em experimentar ou inventar. Também não se compreende quem deverá assumir o poder de decisão. Nessa perspectiva, correm o risco de desaparecer os laços entre as pessoas, bem como a pertença a um povo e a uma cultura com base na qual se avalia o bem comum. Além disso, se considerarmos que muitas das estruturas sociais e políticas nascem da partilha de necessidades e da organização de instituições e laços capazes de enfrentar esses desafios (hospitais, escolas, prisões e centros de reabilitação), podemos imaginar a dificuldade dos transumanistas e pós-humanistas em dizer o que será do mundo social e político em que vivemos. As transformações já não estão vinculadas ao reconhecimento mútuo numa lógica de fraternidade e solidariedade, e as consequências negativas disso refletem-se, em primeiro lugar, na ideia de família. Já não se fala da procriação como comunicação da vida, nem se mostra interesse pelos novos nascimentos. Trata-se apenas na lógica da programação da vida de outros “filhotes” humanos, tornados perfeitos a nível genético. Mas temas como a generatividade do amor conjugal e o apoio afetivo das famílias acabam por desaparecer do horizonte.

60. Por fim, não se deve esquecer o olhar geralmente negativo sobre a experiência religiosa. Ela é frequentemente apresentada como uma posição resignada e fatalista, que sacraliza a condição humana atual com dogmas e preceitos que inibem a pesquisa e o progresso. As “visões sacralizantes” que enfatizam o valor do corpo ou da natureza como expressões da criação de Deus impediriam a livre pesquisa. A ideia de que a vida biológica é um dom, a ser tratado com cuidado, implicaria a proibição de algumas experiências e mutações melhorativas, bloqueando o progresso. Não é mais claro o que se entende por identidade pessoal, quando se reduz a pessoa a um conjunto de sensações ou projetos otimizados, a uma espécie de experiência subjetiva potencializada e a habilidades cognitivas aumentadas, enquanto o corpo é reduzido a material biológico imperfeito ou, de qualquer forma, a ser potencializado.

61. A antropologia cristã pode identificar nessas tendências filosóficas e culturais atuais muitos traços daquela mentalidade que Francisco descreveu como uma forma de “neo-gnosticismo”. Trata-se de modos de pensar e atitudes que devem ser entendidos num sentido análogo às formas antigas de gnosticismo. Tal abordagem, ao considerar o humano e a sua salvação, procura libertá-lo de toda a dependência e limite, separando-o do corpo, do cosmos, da comunidade e da história.[64] Apresenta “uma salvação meramente interior, encerrada no subjetivismo. [...] Pretende-se assim libertar a pessoa do corpo e do cosmos material, nos quais já não se descobrem os traços da mão providencial do Criador, mas se vê apenas uma realidade sem sentido, alheia à identidade última da pessoa e manipulável segundo os interesses do homem”.[65]

62. A mentalidade que se pode reconhecer nos movimentos transumanista e pós-humanista perde, de fato, a integralidade do ser humano e, em particular, a sua identidade e vocação segundo o desígnio de Deus, exaltando algumas dimensões em detrimento de outras. É clara a questão antropológica fundamental que se coloca: trata-se de uma proposta que transforma ou deforma o humano, no que diz respeito à sua essência? Chegará a haver um humano excepcional ou formas de exceção ao humano autêntico? De acordo com a visão cristã, o ser humano é definido por uma forma específica que garante a sua unidade e integridade, tanto no que se refere à sua identidade, como à ação em que se torna ele mesmo, como ao fim último em que encontra a sua realização.Ao nível do indivíduo, é a alma imortal que dá forma, ou seja, que unifica e organiza a matéria num corpo vivo, conferindo ao ser humano uma transcendência que o pós-humanismo e o transumanismo não podem alcançar nem superar. O que unifica e orienta o desenvolvimento pessoal não emerge apenas da natureza e do cosmos, mas também se realiza a partir das relações, nas quais a identidade pessoal é antecipada pelas expectativas dos outros e, de forma original e fundamental, pelo diálogo livre com Deus. Por isso Paulo pode recomendar: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa maneira de pensar” (Rm 12,2), “até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4,19; cf. também Fl 3,10-11 e Fl 2,6-11). A forma do humano encontra em Cristo, morto e ressuscitado, a sua medida e o seu cumprimento e abre-se a um humanismo integral, no qual cada pessoa é capacitada a realizar-se para além de si mesma, em virtude do dom sem medida do Espírito Santo. Iniciada na nossa existência terrena, esta participação na “vida eterna” em Cristo consuma-se, como professa a fé da Igreja, “na ressurreição da carne e na vida do mundo que há de vir”. A assunção ao céu da Bem-Aventurada Virgem Maria, em corpo e alma, é um sinal de que todos somos chamados a participar como pessoas humanas de pleno direito na glória de Cristo à direita de Deus Pai.

Capítulo II

A VIDA COMO VOCAÇÃO: O SER HUMANO COMO ATOR NA HISTÓRIA

63. A perspectiva de uma transformação antropológica de caráter transumanista, assim como os sonhos do pós-humanismo, podem parecer um exagero distante da condição real da humanidade, como uma possibilidade remota. De fato, a pandemia da Covid-19 reduziu muito a confiança num progresso tecnológico ilimitado e compreendeu-se que a humanidade precisa, antes de tudo, de uma solidariedade que cuide de todos e graças à qual cada povo possa viver em paz. No entanto, as exigências de progresso do transumanismo, especialmente quando incentivam as tendências para o pós-humanismo, exercendo um forte impacto no imaginário comum, correm o risco de agir como uma espécie de distração em massa dos problemas mais urgentes da humanidade, desviando recursos e energias das lutas quotidianas pelo bem possível de grande parte da humanidade sofredora, por um lado, e, por outro, favorecendo distorções na percepção das condições reais da experiência.

64. É necessário, portanto, recordar algumas dimensões fundamentais da experiência humana, que estão comprometidas ou ofuscadas por uma certa ideia de progresso tecnológico. Detenhamo-nos, em primeiro lugar, em duas dimensões constitutivas: a dimensão histórica da experiência humana, que exige saber habitar o tempo e o espaço; e a dimensão intersubjetiva, que põe em jogo o sentido de pertença a uma família, a uma comunidade, a um povo e à humanidade inteira, onde somos “todos irmãos”. Encerraremos o capítulo inserindo estas dimensões da experiência humana na proposta global da vida como vocação integral, em linha com as recentes indicações do Magistério conciliar e pontifício.

1. A dimensão histórica da experiência humana: o tempo e o espaço

65. Colocamo-nos, antes de mais, no contexto da dimensão histórico-temporal constitutiva da experiência humana. A consciência histórica é um fator fundamental na construção da identidade tanto da pessoa como de um povo, compreendidos na sua diferença, mas também na sua conexão. O ser humano é um sujeito histórico e cultural, capaz de transformar a natureza, cultivar a sua humanidade e dar sentido à história. A noção de história como processo temporal em direção a um futuro prometido e esperado é uma herança preciosa do judaísmo e do cristianismo. À luz da revelação, a teologia cristã refletiu sobre o significado antropológico e salvífico do tempo pessoal e da história da humanidade. A consciência histórica é um elemento constitutivo da fé cristã, que encontra o Deus que salva num caminho histórico do povo. Por esta razão, a revelação mostra também o valor misterioso e indelével do presente, entendido como momento privilegiado e irrepetível da antecipação do eterno no tempo. Da mesma forma, torna-se uma crítica aos diversos reducionismos sobre o tempo, o presente e a memória, bem como sobre a escatologia.

66. Os povos são sujeitos de culturas e histórias particulares, que gravitam mais ou menos na história mundial.[66] Portanto, a família humana, sujeito da história universal, apresenta-se como uma unidade plural estendida no espaço e no tempo. A história tem o seu sentido porque os acontecimentos são sinais que encarnam significados e valores com os quais as pessoas se realizam e se expressam. Esta estrutura simbólica ou “sacramental” dos acontecimentos históricos convida a procurar o seu sentido, não só considerando a sua origem ou causas próximas, mas também o seu fim último. Assim, a história realiza-se em processos que transformam as condições da experiência e se tornam acontecimentos públicos com efeitos mais gerais. São precisamente os processos históricos que hoje experimentam uma evidente aceleração e universalização:[67] coletividade humana corre para um destino comum, no qual se realiza uma interdependência cada vez maior entre histórias nacionais e história mundial. Esta interligação exige articular bem o valor das culturas locais, com os seus processos e tempos, e o sentido da fraternidade universal.[68]

1.1. Viver o tempo com um saudável sentido histórico

67. Para os seres humanos, a história é uma dimensão indispensável do seu ser e do seu agir. Eles assumem o tempo através de uma interioridade inteligente e espiritual, compondo as dimensões do fluir do tempo na distensão da alma e chegando assim a fazer experiência da realidade.[69] A memória, entendida como recuperação do passado no presente, assim como o horizonte da esperança para sempre, aberto ao futuro, dão o contexto para descobrir o significado da vida e para um impulso da iniciativa humana que amplie os horizontes da ação.

68. Uma primeira repercussão do recente desenvolvimento tecnológico diz respeito precisamente à experiência do tempo.[70] Hoje se registra uma perda do sentido da história e uma redução da experiência ao momento fugaz, com uma concentração ambígua no hoje. A cultura digital tende a dissolver a “cultura anamnésica” da história e a transformar a cultura viva da memória e da esperança numa cultura pós-moderna de um presente fechado em si mesmo. A organização da informação em rede está interessada em recolher e organizar imensas quantidades de dados com base no cálculo de probabilidades, em vez de se dedicar à pesquisa de hipóteses de compreensão ou explicação. Mesmo a questão sobre o fundamento da experiência, sobre a causa explicativa ou sobre um significado fundador, é agora considerada uma questão ultrapassada pela análise das conexões entre os dados. No lugar das memórias vivas e das tradições forjadas pelas memórias, surge o processamento dos dados disponíveis por meio da informatização, dados que podem ser recuperados a qualquer momento. Mas o computador não se lembra, limita-se a armazenar dados. Isso pode ter como consequência liquidar a consciência do tempo e transpor os diferentes tempos para o espaço de uma contemporaneidade indefinida, levando ao que foi descrito como uma espacialização do mundo. Através da tecnologia, pode-se presumir que se supera o poder do tempo (fugaz e ao mesmo tempo aberto ao eterno) e que se torna contemporâneo todos os tempos. Mas um presente que não conhece mais um passado também não tem mais futuro. E a falta de um fim, que abre para a eternidade, torna-se um “infinito cativo”.

69. Assim, enfraquece-se a confiança na capacidade de cada pessoa de interpretar e moldar o mundo, que escapa à compreensão prática e ao controlo social, deixando-o nas mãos de burocracias gigantescas e sobrecarregadas de informação graças a sistemas tecnológicos complexos, interdependentes e ingovernáveis, pelos quais o indivíduo se sente frequentemente assediado e ameaçado.A dependência total desses sistemas complexos e sofisticados, sobre os quais o indivíduo não tem influência, cria sensações de impotência e leva a fechar-se em horizontes de sentido e de vida limitados e protegidos.[71] A realidade torna-se uma conexão, através da qual se entra numa rede de contatos e encontros que exigem agilidade, rapidez, reações imediatas, mais do que reflexividade e espírito crítico. Neste cenário, interessam menos as narrativas universais e as histórias baseadas em escolhas duradouras, e mais as identificações leves e multidimensionais.

70. Não é de admirar que a cultura (pós)moderna tenda a cultivar o esquecimento do ser, da memória e do destino eterno. Nesse panorama, o ser humano é cada vez menos a sua própria memória e cada vez mais a sua experiência ilimitada.[72] Entre as várias razões para essa “amnésia cultural”, pode-se citar a que está presente na narrativa bíblica: o ser humano, na prosperidade, esquece o seu Deus e a história vivida com Ele (cf. Jz 2,10; Dt 4,23.30; Lc 12,31-21), desrespeitando o mandamento divino que o compromete a cuidar dos pobres e marginalizados. Acrescente-se a isso o impacto da mentalidade cientificista, que imagina a ciência como a solução possível para todos os problemas, capaz de curar as feridas e, portanto, de libertar da dor da memória. Um terceiro fator é a resignação à própria fragilidade limitada, desprovida de grandes esperanças, que se torna uma simples exortação a “seguir em frente” sem critério, como se o importante fosse apenas avançar, prosseguir mesmo sem um objetivo preciso: a consciência emancipadora retira do passado a memória mínima como estímulo para ir além, sem desejar uma meta, nem imanente nem transcendente. Além disso, essa forma de amnésia abre espaço para reconstruções ideológicas do passado ou para formas de revisionismo e negacionismo, que pretendem legitimar jogos de poder ou justificar conflitos dolorosos. Na realidade, não se pode construir um futuro sem uma memória sólida da história de onde viemos e que nos gerou, nem sem uma esperança eterna.

71. Estas situações são também fruto de uma economia globalizada, que favorece um único modelo cultural massificado, no qual se afirmam poderes fortes, que protegem os seus interesses em detrimento das culturas mais fracas. O resultado é a perda do sentido integral da história.[73] Prevalecem, portanto, dinâmicas de homologação naquilo que poderíamos definir como pseudo culturas do “consumismo”, do “desperdício”, dos “muros”, do “isolamento e do retraimento” ou mesmo a difusão de uma cultura “vazia, voltada para o imediato e desprovida de um projeto comum”.[74] Estas pseudo culturas estão em ação tanto nos populismos que desfigura o termo “povo”, confinando-o a uma lógica de fechamento, quanto nas “visões liberais individualistas”, que rejeitam a própria categoria de povo e a valorização positiva dos laços comunitários e culturais que ela contém.[75] O resultado destas formas culturais, no contexto de uma contemporaneidade globalizada do mundo digital, é uma desorientação ainda maior. Em relação a estas pseudoculturas, o Evangelho apresenta-se como uma espécie de contracultura, não no sentido de que a inspiração do Evangelho imponha uma cultura hegemônica única, mas no sentido de que valoriza e promove todas as culturas, ou as dimensões delas, que são autenticamente humanas.

72. Para enfrentar esta experiência de aceleração horizontal do tempo histórico, é necessário recuperar a origem e o fim último da história, na medida em que podem ser experimentados no presente, de modo a compreender o seu verdadeiro significado. O encontro entre o tempo dos seres humanos e a eternidade de Deus em Jesus Cristo oferece gratuitamente um sentido da história que corresponde profundamente às expectativas da experiência humana do tempo, sem nada tirar ao cruzamento das três dimensões da experiência passada, da iniciativa presente e da expectativa futura, no horizonte do eterno que as qualifica.

73. A experiência cristã do tempo oferece as coordenadas de uma salvação que acontece na história, na medida em que coloca a plenitude dos tempos num contexto histórico específico, num presente carregado de eternidade, graças à encarnação do Filho de Deus (cf. Gl 4,4-6). Desta forma, abre os processos históricos à espera de um cumprimento prometido, que realiza as exigências do coração humano de todos os tempos de uma forma inimaginável (cf. Ap 21-22).[76] Corresponde a uma exigência da consciência histórica dos povos a capacidade de ler os acontecimentos num contexto mais abrangente e significativo, capaz de compreender os acontecimentos históricos na unidade de um processo universal dotado de significado, no respeito pelas histórias particulares, captando a unidade na diferença do múltiplo. A própria realização escatológica prometida em Jesus Cristo não retira de modo algum valor aos acontecimentos históricos concretos, no presente, mas ilumina o seu significado, reativando o caráter promissor da experiência e, com ele, a espera ativa de um mundo novo.[77] Isso é possível porque o fim da história não coincide com o seu termo, mas remete para um objetivo final que transcende os acontecimentos históricos e os orienta para uma nova realização, para a qual tudo converge.

74. A história da salvação não se apresenta simplesmente como encerrada numa história particular à parte, ao lado da história universal, pois a ação salvífica concreta de Deus na história articula-se com os movimentos culturais dos povos numa unidade que mantém a distinção: “A presença e a atividade do Espírito não tocam apenas os indivíduos, mas a sociedade e a história, os povos, as culturas, as religiões. O Espírito, de fato, está na origem dos nobres ideais e das iniciativas de bem da humanidade em caminho: ‘Com admirável providência, ele dirige o curso dos tempos e renova a face da terra’”.[78] A relação entre Deus e o seu povo, mas também com a humanidade e toda a criação, realiza-se através dos dons do Espírito e da Palavra, que não caem simplesmente do alto, mas brotam no interior do ser humano que os acolhe e os cultiva responsavelmente para que deem fruto (cf. Is 55,10-11; Mt 25,14-30). O divino abre assim ao humano o espaço da sua própria realização, refundando-o numa comunhão nova e surpreendente, que não anula nem absorve o humano, mas o sustenta na sua realização histórica. A unificação em Cristo dos processos históricos não retira consistência às histórias e culturas locais, nem uniformiza as diferentes riquezas, achatando-as aos interesses de poucos ou às leis do mercado ou à lógica comunicativa do mundo digital global.

75. É a experiência, cheia de alegria, que Maria expressa no cântico do Magnificat (cf. Lc 1,46-55). Esta oração manifesta a consciência de Maria: nela, como Mãe de Cristo, está presente toda a economia salvífica, na qual o eterno se une de modo novo ao tempo.[79] O Magnificat faz ressoar na experiência pessoal de Maria a experiência de todo o Povo de Deus na história da salvação.[80] Nele descobrimos outro tipo de experiência do tempo, visitado pela graça de Deus, em que a obediência de Maria ao anúncio do Anjo abre a plenitude da graça que dilatou o seu presente (“O Todo-Poderoso fez grandes coisas por mim”) a um futuro positivo (“De agora em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada”), na lembrança consciente da ação salvífica de Deus e do seu estilo (“De geração em geração em geração em geração a sua misericórdia para com aqueles que o temem. Ele mostrou o poder do seu braço. [...] Ele exaltou os humildes...”).[81]

1.2. Habitar o espaço: do próprio espaço aos “limiares”

76. O ser humano habita o espaço de diferentes maneiras: é tanto um “ser doméstico”, que vive numa casa, quanto um “ser político”, que cria raízes e se organiza numa cidade e numa pátria, e, finalmente, um “ser cosmopolita”, situado no mundo. A morada humana compreende este triângulo formado pela casa, como âmbito da família e da natureza; pela cidade e pelo povo/nação, como espaço da história e da cultura; pelo mundo inteiro, como horizonte de pertença à natureza humana. O local e o global são dimensões constitutivas da experiência humana, hoje transformada pelos processos de globalização, como se vê, por exemplo, nas megalópoles e na modificação da mobilidade.[82]

77. Um fenômeno relevante é a organização do espaço urbano nas megalópoles. Vivemos na “Era Urbana”, um novo momento da história humana. A formação de cidades enormes é um fenômeno do nosso tempo, que teve início em meados do século XX. Desde os primeiros anos do século XXI, mais da metade da população mundial vive nas cidades, determinando a passagem do contexto rural para o urbano, típico da cultura mediática e informática atual. O tipo de vida em que o ser humano se realiza mudou muito nessas “regiões metropolitanas”, como as chamava Paulo VI, que unem centros e periferias em aglomerados imensos, com grandes complexos suburbanos muitas vezes desprovidos de serviços essenciais.[83]

78. A mudança atual na mobilidade também tem repercussões na experiência humana do espaço. A possibilidade já mencionada de encurtar as distâncias com meios mais rápidos, reorganizando o espaço da vida (trabalho, casa, amizades, escola), mas também a difusão e distribuição de mercadorias, com a possibilidade de ter sempre à disposição produtos de diferentes partes do mundo e de países distantes, levou a uma “desterritorialização” da identidade pessoal e das culturas. A própria alimentação já não está ligada ao ambiente natural de origem e às suas estações. Assim, os costumes, os modos de vida e os valores estão em constante tensão entre uma pertença territorial delimitada e uma civilização planetária sem fronteiras. Somos cada vez mais cidadãos do mundo. Uma certa cultura global, feita de valores, bens e mercadorias indiferenciados e universais, que são de todos e de ninguém, determina cada vez mais a maneira de se vestir, comer, divertir-se, celebrar as festas e o descanso, de acordo com as ofertas da indústria do lazer. Os locais de encontro e trânsito onde se estabelecem contatos são cada vez mais “não locais” anônimos e uniformes (estações, aeroportos, grandes centros comerciais), expressão de um mundo artificial mais do que ambientes humanos e culturais definidos por uma história e identidade precisas.

79. Neste tipo de espaço, as pessoas correm o risco de se mover como nômades que vagueiam em busca de novas experiências. Assim, perde-se a figura do peregrino, que parte em viagem, deixando a sua casa e as suas coisas, em busca da verdadeira pátria onde habitar, da terra prometida para onde Deus o chama. Além disso, o peregrino não perde a relação com a sua terra: “A solução não está numa abertura que renuncia ao seu próprio tesouro. Como não há diálogo com o outro sem identidade pessoal, assim como não há abertura entre os povos se não for pelo amor à própria terra, às próprias características culturais”.[84]

80. A organização global do espaço, por si só, não torna as pessoas mais hospitaleiras e abertas ao outro. Pelo contrário, muitas vezes leva a reações identitárias fortes, que tendem a delimitar o “próprio espaço”, criando fronteiras intransponíveis, que estabelecem separações nítidas entre “nós e vocês”, o próprio mundo e o dos outros. É reflexivo o fato de que o primeiro impacto das teorias “multiculturalistas” diz respeito precisamente à percepção do espaço e da unidade do mundo em que se vive. Compreendem-se as metáforas alternativas, associadas positivamente a esta descoberta: “alargar os espaços”, “dar lugar ao outro”, “dilatar as fronteiras”; ou, vice-versa, “defender as próprias fronteiras”, “erguer barreiras”, “delimitar o próprio espaço”. A imaginação que domina grande parte da cultura contemporânea é a de um eu ou de um povo que está no centro de uma “esfera do próprio”, em relação à qual o outro ou o estranho aparecem como uma determinação secundária, na periferia ou nas fronteiras.

81. Na descoberta do outro, do diferente e até mesmo do estranho, é mais fácil despertar hoje a percepção de que “ninguém é dono da sua própria casa”, pois a alteridade vem conosco desde o início, está conosco “em casa”. Isso significa que o outro não é um derivado do próprio, mas é co-originário. Infelizmente, “o que é próprio” é frequentemente delimitado por processos de exclusão em relação ao outro, ou seja, criando fronteiras. Isto aplica-se tanto à consciência do próprio eu como às culturas. Não se deve, portanto, esquecer que na origem existe um humano comum que é um entrelaçamento, uma rede em que o próprio e o estranho, o eu e o outro estão co-implicados.[85] A dificuldade em aceitar este entrelaçamento originário numa lógica de encontro e hospitalidade deve fazer-nos refletir sobre o funcionamento da globalização, que parece abrir espaços comuns de encontro, mas na realidade deixa crescer sentimentos de “invasão”, que revelam a percepção do outro como uma ameaça.

82. A fé cristã muda o eixo da experiência do espaço: “Os cristãos não se diferenciam dos outros homens nem pelo território, nem pela maneira de falar, nem pelo estilo das suas roupas. Na verdade, eles não habitam em cidades específicas, não usam nenhuma língua estranha e não adotam um modo de vida especial. [...] Residem tanto em cidades gregas como bárbaras, conforme as circunstâncias, e embora sigam os costumes locais no modo de se vestir, de comer e no resto da vida, propõem-se uma forma de vida maravilhosa e, como todos admitiram, incrível.Cada um vive na sua pátria, mas como se fosse estrangeiro; respeitam e cumprem todos os deveres dos cidadãos e assumem todos os encargos como se fossem estrangeiros; cada região estrangeira é a sua pátria, mas cada pátria é para eles terra estrangeira”.[86] Os cristãos não reivindicam um espaço “próprio”, a não ser em função do serviço da missão e do culto, e, de qualquer forma, o seu espaço já é habitado por uma alteridade radical, a de Deus, que pode assumir também, em Cristo, a figura do estrangeiro que interpela, questionando o que se dava por adquirido e pacífico.

83. O repensar do “espaço próprio” implica uma redefinição das fronteiras como “limiares”, ou seja, zonas que colocam em contato, espaços de transição. Quem atravessa o limiar de outra experiência humana não chega simplesmente a outro lugar, mas é chamado a “tornar-se outro”. Ninguém pode dominar esta diferença e mediar entre as culturas a partir de uma posição neutra. O desafio consiste, portanto, em ampliar os limites para se expor ao apelo do outro. Nesse sentido, a parábola do bom samaritano (cf. Lc 10,1-15) oferece um modelo insuperável da cultura do “tornar-se próximo” e do encontro.[87]

84. A presença de Jesus Cristo, em quem se reúnem o princípio, o centro e o fim da história (cf. Ap 22,13), abre o espaço de vida dos povos e das pessoas, mantendo-o aberto como um lugar hospitaleiro das diferenças, sem muros ou fechamentos, regenerando, pelo contrário, o tempo, que vive de um presente cheio de significado salvífico (kairòs), mesmo estando ainda em caminho, aberto a um cumprimento futuro transcendente, que realizará a promessa inscrita na origem.

2. Relações e sentido de pertença: a intersubjetividade

85. Neste contexto espaço-temporal insere-se a intersubjetividade, ou seja, a pertença a uma família, a um povo e a uma tradição. Essas pertenças, nas quais a identidade pessoal se inicia e se molda na história, constituem quase um dique contra a propagação de uma globalização uniformizante, que nem sempre ajuda a moldar laços autênticos: “A sociedade cada vez mais globalizada nos torna mais próximos, mas não nos torna irmãos”.[88] Falar de intersubjetividade significa sublinhar como a vida humana implica desde o início um horizonte comunitário: a vida do indivíduo deve ser situada no quadro das relações que formam uma comunidade. Essas relações, constitutivas da identidade pessoal, são estruturadas na família, num povo, com as suas tradições, e na pertença mais ampla ao comum humano.

86. A família é o lugar original da intersubjetividade, precisamente porque é o lugar da dádiva e do acolhimento do milagre da vida, que se realiza em cada novo nascimento. A intersubjetividade surge precisamente onde a vida é dada, não produzida nem muito menos autoproduzida. Na origem de toda a vida há um dom inesperado, numa experiência de passividade originária, pela qual nos encontramos na existência, precedidos e acolhidos pelo desejo dos outros. A cultura dominante hoje não está suficientemente atenta ao fato de que “se nasce”, e o transumanismo, e ainda mais o pós-humanismo, esquecem que o ser humano é antes de tudo filho e, portanto, criança, que se descobre gerado e doado a si mesmo na maravilhosa aventura de ser e crescer.

87. A família como comunidade originária encontra, de fato, na criança, e precisamente no seu receber-se e tomar consciência de si mesma no dom sorridente dos pais, uma realização particularmente significativa da existência humana que nenhum transumanismo ou pós-humanismo pode esquecer. A vida como plenitude do ser e promessa encontra o seu ponto de realização na criança enquanto filho.[89] De fato, a articulação do humano no amor entre homem e mulher e, sobretudo, a união do homem e da mulher na fecundidade do filho mostram a transparência do ser como dom de Deus. Na criança-filho manifesta-se um reflexo da origem, com o seu conjunto de espanto e plenitude, confiança e bem-aventurança, dom e gratidão. É este entrelaçamento de laços e sentimentos que constitui a trama do início, o espelho da origem em que está guardada a verdade filial. O ser humano como filho é o correlato antropológico do ser como dom e amor, a sua esplêndida atestação. É precisamente esta plenitude do ser na simplicidade do olhar da criança o segredo da sua capacidade intuitiva, mas também racional, de unificar o real nas suas dimensões de necessidade e liberdade, de espírito e natureza, no abraço do amor.

88. A criança é sinal do humano filial entendido como habitar na plenitude: precisamente porque não é lançada na existência, mas acolhida e rodeada pelos cuidados parentais, a criança não deve ser conquistada num esforço de desenvolvimento contínuo, mas recebida com gratidão. A criança não é um vazio a ser preenchido, mas uma plenitude doada e prometida, a ser acompanhada na aventura de dar forma à existência nas experiências da vida. A identidade filial é objeto de reconhecimento mediado pelos cuidados familiares em casa: neste espaço de vida, a passividade do vir é a condição da liberdade de agir, e a dependência do amor é a condição da autonomia. Por isso, a razão desenvolve-se na criança no contexto de uma unidade original da realidade, como articulação do ser, do bem e do belo. O pensamento tem uma raiz afetiva na sua origem. Esta condição deve ser reencontrada, e não superada, numa troca em que a criança é recebida pelo amor dos pais e estes redescobrem com ela o seu ser filhos.

89. O desejo de potenciar o humano, portanto, deverá concentrar-se menos em programar um transumano que vá além do ser (estados) crianças, para tentar garantir a cada família as condições sociais e económicas para acolher e acompanhar este milagre do início, num contexto de vida favorável ao nascimento e ao crescimento dos filhos.

90. Em segundo lugar, deve-se precisar o valor humano da pertença a um povo, com a sua tradição, e o valor teologal da pertença ao Povo de Deus na história. A categoria de “povo”, neste seu duplo significado secular e religioso, adquire um peso significativo como sujeito do desenvolvimento plenamente humano. “Povo” é uma categoria histórica, que identifica um sujeito comunitário num determinado território, constituído ao longo do tempo através de processos de integração e com referência a uma cultura.[90] A pertença a um povo é uma realidade humana complexa, feita de participação existencial e afetiva.[91] Realiza-se na partilha de uma cultura, ou seja, de um conjunto de valores, práticas, costumes e hábitos, que permite às pessoas reconhecerem-se, viverem normalmente num ambiente também geográfico comum, com uma língua e uma história particulares. Fazer parte de um povo significa habitar juntos o espaço como âmbito de relações. Cada pessoa realiza-se num conjunto de relações dentro de uma condição situada, que molda as mentalidades e a forma de se perceber. Não há identidade sem pertença, mesmo que vivida criticamente, a um povo.

91. Assim, redescobrimos também o valor da terra entendida como lugar simbólico de uma cultura e de uma identidade de um povo. Essa experiência se opõe à visão globalista, que anula as diferenças e as identidades ligadas a um contexto particular. A ligação ao lugar apresenta-se como uma oportunidade para realizar o encontro entre pessoas, no qual se constrói a amizade social, partindo não de ideias abstratas, mas de âmbitos de vida e valores partilhados no território (casa, trabalho, festa). É precisamente esta vida de um povo com uma identidade situada que se descobre em contato com outros povos, chamada ao intercâmbio, num regime de criatividade, com culturas diferentes e num processo dinâmico, muitas vezes também conflituoso, a assumir e transformar num intercâmbio recíproco de dons. Não há abertura entre os povos senão no amor pela própria terra, pelo próprio povo e pela própria cultura.[92]

92. Na pertença a um povo, é preciso evitar o duplo risco de procurar os fatores de unificação apenas na etnia, na língua ou na defesa do território, entendido como espaço fechado e excludente, ou de dissolver a identidade do povo numa cultura cosmopolita anónima e globalizada, que o expõe às leis do mercado e da finança, sem se preocupar em proteger o bem comum da sociedade. O vínculo fundamental é representado pela cultura, ou seja, por um certo modo de viver, que encerra a referência a valores partilhados e, portanto, orientados para uma unidade na diversidade, que permite ir além dos conflitos e caminhar em direção a laços de fraternidade abertos a todos.

93. Nesta dinâmica de busca da unidade de cada povo em diálogo com os outros povos, insere-se o caminho histórico do Povo de Deus que é a Igreja, Povo de Deus no qual se expressa historicamente o Corpo de Cristo.[93] Como tal, o Povo de Deus não se baseia em dinâmicas territoriais, sociológicas ou institucionais, mas na fé entendida como leito do sentido religioso, existencial e cultural. Promove, portanto, a cultura do encontro, pois a Igreja não é separável do caminho da humanidade. Acompanha a história dos povos, mantendo a tensão para a comunhão universal em Cristo, mediador de uma vida nova, mais forte do que o mal e a morte, mas também dos conflitos e das divisões. Essa tensão para a comunhão não perde as diferenças, mas mantém-nas abertas a um projeto unitário maior. Foi o que aconteceu no evento de Pentecostes (cf. At 2,1-13), em que a descida do Espírito faz dos Apóstolos uma unidade plural, capaz de falar todas as línguas, um “Povo dos povos” (cf. At 15,14-18). O Espírito de Deus age nas diferentes culturas e histórias dos povos com uma obra universalizante, mas não uniformizante: “[Tu] resgataste para Deus, com o teu sangue, homens de toda tribo, língua, povo e nação” (Ap 5,9; cf. também 7,9; 11,9; 13,7; 14,6).

94. A inserção do Povo de Deus nos caminhos históricos dos vários povos torna evidente o desafio de compor as histórias particulares dos povos e o desenvolvimento global da humanidade. Emerge a consciência de que, por um lado, o bem comum dos povos individuais não pode ser protegido apenas por meio de estratégias políticas locais, regidas talvez por lógicas de isolamento e fechamento. É necessária, antes, a convergência e a harmonização dos projetos locais com as dinâmicas globais, que ultrapassam as fronteiras dos países individuais. Mas essa composição também requer a mediação de instituições internacionais suficientemente autoritárias e justas, e, portanto, capazes de conciliar o bem de cada povo e o bem comum de toda a humanidade, para uma proteção eficaz daquilo que hoje se denomina “bens comuns” (a terra, a água e o ar). Precisamente na crise relacionada com a pandemia da Covid-19, experimentámos o que significa agora “estar todos no mesmo barco”, empenhados numa luta comum pelo bem de todos.

95. É necessário um trabalho permanente de discernimento crítico das escolhas histórico-políticas relativas à família humana, do ponto de vista da responsabilidade assumida por todos os vários organismos das organizações internacionais, bem como pela Igreja com a sua doutrina social, de modo a esclarecer a questão dos sujeitos habilitados a decidir o bem comum e o destino de todos.[94] Em particular, o sistema económico e monetário global necessita, por um lado, da responsabilidade por parte das instituições financeiras, que devem estar atentas à economia real mais do que à lógica do lucro e, por outro lado, não devem perder uma abordagem ética, sensível à dignidade da pessoa, ao bem comum em regime de solidariedade e ao bem-estar das sociedades, especialmente as mais frágeis.[95]

96. É imprescindível valorizar a unidade da “família humana”, em caminho na história, na referência presente e escatológica ao Cristo total, no qual se revela plenamente, primeiramente, o fim e a direção do caminho: a comunhão do amor trinitário, cumprimento da redenção da família humana. Trata-se de um caminho que se realiza num ritmo pascal, no qual se manifesta, aos pés da Cruz, o que há no coração humano, enquanto este é libertado de tudo o que impede a comunhão com Deus, com a criação e com os irmãos e irmãs. É precisamente na referência a Cristo crucificado e ressuscitado que se pode compreender qual é a graça do tempo que nos é dado, a maneira mais justa de habitar o espaço e de viver a qualidade das relações nas quais nos tornamos nós mesmos, e a pertença na qual se encontra o sentido autêntico da vida.

97. Em contraposição a todo o triunfalismo transumanista ou ao pessimismo radical do pós-humanismo, a referência ao mistério da Cruz chama a nossa atenção para a história do ponto de vista das vítimas. O verdadeiro pathos da história não consiste apenas nas grandes conquistas da humanidade, mas também nos sofrimentos silenciosos de tantas pessoas ao longo das gerações e em todo o mundo. A história é feita de ação e paixão, e essa atenção à dimensão do sofrimento torna concreta a visão cristã da história, que não se reduz a um processo anônimo e inexorável de desenvolvimento, voltado para um progresso imanente, que corre o risco de passar por cima dos cadáveres dos derrotados e abandonar os fracos. Não pode haver uma realização humana da história sem justiça para as vítimas, nem um sentido do processo histórico que não tenha em conta as necessidades dos mais fracos. Está em jogo o sentido verdadeiro e decisivo da justiça. Em Cristo, somos autorizados a olhar com esperança para o destino que nos espera, sem esquecer as vítimas da história, mas antes acolhendo o seu clamor.

98. Em Jesus crucificado, Deus assume todo o peso e a provocação da dor inocente na sua referência à esperança numa justiça plena, ligada à fé na vida eterna.[96] A fé em Cristo oferece uma esperança que se credita desde já na vida, transformando-a, e enfrenta a morte, transcendendo-a. A Igreja, como comunhão dos santos, na qual estão unidos os que já estão plenamente no Reino de Deus e os que ainda são peregrinos nesta terra, é uma comunidade que transcende a morte sem abandonar a história e oferece uma esperança universal que responde à sede de justiça plena e de vida eterna.

3. Vocação integral à realização no amor

99. A existência pessoal está inserida numa história, num tempo e num espaço precisos, e desperta para a consciência de si mesma no interior de relações que expressam uma pertença que a precede e a fundamenta. Desta forma, reencontra o seu significado original como chamada à vida: “Isto remete-nos para uma verdade elementar e fundamental, que hoje precisamos de redescobrir em toda a sua beleza: a vida do ser humano é vocação. Não o esqueçamos: a dimensão antropológica, que está na base de cada chamada no âmbito da comunidade, tem a ver com uma característica essencial do ser humano enquanto tal: a saber, que o próprio homem é vocação”.[97]

100. A existência de cada ser humano é compreendida adequadamente quando é reconhecida como fruto do amor criativo do Pai, segundo a dinâmica de um chamado à vida e à felicidade. Cada ser humano vem à vida porque foi pensado e querido por Deus, que o amou antes mesmo de formá-lo no seio materno (cf. Jr 1,5; Is 49,1.5; Gl 1,15). Esta vocação divina explica na sua raiz o mistério da vida do ser humano, na medida em que é um mistério de predileção e de gratuidade absoluta. Por isso, o ser humano, mesmo sendo finito, não pode ser aprisionado na mera dimensão criatural e nenhuma definição pode capturá-lo e esgotá-lo completamente.[98] O amor eterno do Pai exclui que a existência das pessoas seja fruto da necessidade ou do acaso: toda a existência humana tem valor infinito em si mesma. Compreende-se, nesta perspectiva, que o ser humano não pode ser submetido a nenhuma medida exclusivamente de ordem política, econômica ou social que diminua a sua dignidade infinita.[99]

101. A percepção de que a vida é um dom de Deus suscita uma atitude de gratidão nas pessoas, que respondem ao apelo acolhendo o “convite para fazer parte de uma história de amor”.[100] O amor divino, que criou os seres humanos, faz com que ninguém se sinta “supérfluo” no mundo, pois todos são chamados a responder de acordo com um projeto pensado por Deus para cada um. A vida como vocação, entendida em sentido amplo, é própria de cada ser humano e deriva do simples fato de existir como filho. Como expressão do pensamento providencial do Criador, o projeto divino dirige-se a cada ser vivo segundo diferentes realizações.[101] O cristão reconhece ser chamado “ao serviço missionário para com os outros”[102] a ponto de poder dizer de si mesmo: “Eu sou uma missão”.[103] O ser humano, precisamente por ser chamado, é um verdadeiro interlocutor de Deus; não se limita a acolher passivamente o dom, mas, em virtude do dom, torna-se um ator livre, capaz de oferecer um aumento do bem não só aos outros seres humanos, mas à própria economia divina.

102. A vida entendida como vocação revela-se existencialmente na oração. Agostinho estava bem consciente de quanto a vocação implica o apelo que precede o ser humano, o interroga e lhe dá um futuro: “Não negligencies agora a minha invocação. Tu me preveniste antes de te invocar, insistindo com apelos crescentes e multifacetados para que me ouvisses de longe e me voltasses para trás, chamado por ti para te invocar (vocantem me invocarem te)”.[104] Rezar é uma atitude que qualifica a humanidade. Nas suas diversas modalidades de louvor, intercessão, reconhecimento do bem e agradecimento, a oração enraíza-se num gesto profundo de pedido confiante e constante a Deus, que nos faz existir, nos acompanha e nos guia no caminho da vida. Sobretudo nas religiões abraâmicas, ela expressa a relação pessoal com Deus, a quem nos dirigimos como um Tu: “a oração mais popular, dirigida como um dardo ao Coração de Cristo, diz simplesmente: ‘Confio em ti’”.[105] Na oração cristã, esta relação realiza-se como participação na relação do Filho Jesus com o seu Pai no Espírito Santo. Eis a expressão de uma atitude humana que se entrega sem ter de se dissolver nem de se autoprojetar. Não é por acaso que não se encontra facilmente uma referência à oração nos diversos manifestos transumanistas e muito menos pós-humanistas.

103. Hoje, especialmente no Ocidente, é frequentemente favorecida uma “cultura da não vocação”, que de fato também está subjacente aos desafios antropológicos contemporâneos. Em particular, no que diz respeito à educação dos jovens, não é difícil constatar como muitas vezes a compreensão da sua vida carece de abertura a um sentido último, tanto em termos de orientação como de relações constitutivas. Não se sabe e não se reconhece que se é chamado. O planeamento do futuro limita-se a uma lógica que reduz o futuro, na melhor das hipóteses, à escolha de uma profissão, à estabilização econômica ou à satisfação de algumas necessidades: “São escolhas sem qualquer abertura ao mistério e ao transcendente, e talvez até com pouca responsabilidade em relação à vida, própria e alheia, à vida recebida como dom e a ser gerada nos outros”.[106] O modelo antropológico predominante parece ser o da “pessoa sem vocação”, cujo impacto na percepção da vida é o de se sentir perdida no drama de uma existência que não encontra sentido e que não tem esperança em relação ao futuro. É o convite a uma “vida como vocação” que pode abrir um horizonte que ultrapassa a pretensão de encontrar um “projeto de vida” efémero, absolutamente autofundado e programado pelo indivíduo, que paradoxalmente reflete a homologação com a mentalidade dominante.

104. A proposta da vida como vocação pode e deve suscitar positivamente uma “cultura da vocação” como compreensão adequada do processo de maturação da identidade das pessoas e dos povos. Precisamente para os mais jovens, a cultura da vocação abre a possibilidade realista, porque enraizada no apelo de Deus, de seguir um caminho “feito de liberdade, entusiasmo, criatividade, novos horizontes, mas cultivando ao mesmo tempo as raízes que alimentam e sustentam”.[107] Em contextos favoráveis à educação vocacional, ressurge mais facilmente a atitude de reconhecimento diante dos dons recebidos, que suscita o sentido de responsabilidade e de entrega gratuita de si mesmo em favor dos outros, sobretudo dos mais necessitados.

105. Encontramos nestes pensamentos a atitude interior de Maria: grata pelo olhar de Deus que se posou sobre ela, entregando na fé os medos e as perturbações, abraçando com coragem o chamado, ela fez da sua vida um eterno cântico de louvor ao Senhor.[108] Na figura de Maria, temos uma realização eminente da vida como vocação, entendida como um processo, típico de pessoas únicas e livres, a ser vivido com gratidão e confiança, mais do que como um projeto de autorrealização. Maria realizou esse processo em primeira pessoa, enfrentando as suas dúvidas e dificuldades quando era muito jovem. Ela sabia olhar com o coração e dialogar com as experiências guardadas, meditando-as ao longo do tempo.[109]

Capítulo III

O DOM DA VIDA E DA COMUNHÃO
PERANTE OS CENÁRIOS DO FUTURO DO SER HUMANO

106. Redescobrir a vida como vocação significa corresponder a um dom que chama a moldar a própria identidade, assumindo a tarefa de se tornar a si mesmo e de transformar a sociedade e o mundo segundo o desígnio de Deus. Não se trata simplesmente de fazer projetos, de programar o futuro, de encontrar um trabalho para ganhar a vida e melhorar o mundo. A questão séria na vida, entendida como vocação, é realizar a própria identidade pessoal como dom para os outros.

107. Concentremo-nos agora na categoria da “identidade” humana. Ela foi definida classicamente através das categorias de “substância/natureza” e de “pessoa”, para indicar aquilo que permanece idêntico a si mesmo no tempo e assegura a base da dignidade ontológica e moral de cada ser humano.[110] Com base nisso, guiar-nos-á mais especificamente a preocupação de oferecer um discernimento sobre os fenômenos atualmente em curso e o seu impacto no futuro da humanidade. Como se pode conseguir, nesta época cultural e social, discernir uma “identidade humana autêntica”? Quais são os critérios para esse discernimento? Quer-se sublinhar em particular a dupla característica da identidade humana, na medida em que implica um dom e, no entanto, uma tarefa, que exige manter juntas várias dimensões, para valorizar a posição singular do ser humano no cosmos.

1. A identidade pessoal: um dom e uma tarefa

108. Os desafios decorrentes dos avanços da biotecnologia, da robótica e da inteligência artificial, mas também do imaginário cultural difuso, põem em causa a experiência elementar que o ser humano faz de si mesmo concretamente, ou seja, a experiência em que molda a sua identidade.[111] No entanto, a resposta a perguntas como: “Quem sou eu e quem somos nós? Quem quero ser e o queremos ser? O que quero fazer de mim e o que queremos fazer de nós como família humana?” é constitutiva da experiência de cada pessoa, que se encontra empenhada em dar a si mesma uma identidade numa história dinâmica, singular e concreta, e num conjunto de relações constitutivas, às quais corresponder.

1.1. A tarefa de nos tornarmos nós mesmos: dom, amor, liberdade

109. Na origem deste caminho encontra-se um dom que acende no coração a busca da felicidade, ou seja, da vida em plenitude. O dom reconhecido e acolhido torna-se a tarefa na qual cada um se descobre confiado a si mesmo. Nenhum ser humano pode ser feliz se não sabe quem é. Não se pode desejar algo, nem mesmo a felicidade, se não se descobre autorizado a desejar-se incondicionalmente em virtude de um reconhecimento concedido: “A nossa dignidade é-nos conferida, não é exigida nem merecida. Cada ser humano é amado e querido por Deus por si mesmo e, portanto, é inviolável na sua dignidade”.[112] Por isso, a pessoa humana, quando procura moldar a sua identidade, deve ter consciência da sua “eminente dignidade [...] superior a todas as coisas e cujos direitos e deveres são universais e invioláveis”.[113] Essa dignidade baseia-se na criação à imagem e semelhança de Deus, que, em última análise, é à imagem do Filho, o qual, na sua encarnação, partilhou a nossa natureza e a elevou à união com a vida divina e, na sua ressurreição, inseriu a nossa natureza num destino de vida eterna em comunhão com a Trindade.[114]

110. O ambiente mais adequado para amadurecer a própria identidade é o do amor, a começar pela família, que está na origem da nossa existência. De fato, muitas pobrezas, mesmo materiais, nascem na raiz do “isolamento, do não ser amado ou da dificuldade de amar”.[115] De acordo com o dinamismo da reciprocidade assimétrica entre o dom e a resposta que moldam a nossa identidade, assumir a própria vida significa reconhecer que somos confiados a nós mesmos (autopossessão) por um dom não pedido e que deve ser reconhecido, aceite e desejado como um bem para si mesmo (assentimento). Esse reconhecimento do dom que precede não é apenas uma questão de pura razão. Implica uma dinâmica afetiva: amamo-nos porque somos amados e sentimo-nos amados. Este processo é possível quando nos encontramos em relação com uma realidade sensata e promissora, cheia de significados positivos a descobrir com admiração. Eis o reconhecimento, tão necessário e tão frequentemente procurado por outros meios na infosfera. O mundo não é um conjunto de coisas a explorar e objetos a manipular, mas uma morada para habitar, onde se pode encontrar o seu lugar.[116] Não raro, também a rejeição do amor de Deus, determinada por diversos fatores (psicológicos, relacionais, culturais) que tornam difícil perceber o dom original, compromete os processos de identificação pessoal. O amor recebido e acolhido é a força motriz de qualquer processo de aceitação de si mesmo e de crescimento, e tem a sua origem no próprio Deus, amor eterno.[117]

111. A realização desta identidade, na sua consistência ontológica, é confiada à liberdade: “Embora cada ser humano possua uma dignidade inalienável e intrínseca desde o início da sua existência como um dom irrevogável, depende da sua livre decisão e responsável por expressá-la e manifestá-la plenamente ou obscurecê-la. [...] A imagem de Deus é confiada à liberdade do ser humano”.[118] Uma pessoa que renuncia à busca do verdadeiro e do bem pode chegar a pensar que não tem uma identidade a ser preservada e construída através de escolhas verdadeiramente livres e conscientes. Se considerarmos todas as dimensões individuais e sociais do ser humano situado na história, conclui-se que “o exercício correto da liberdade pessoal exige condições precisas de ordem económica, social, jurídica, política e cultural. [...] A liberdade real e histórica precisa sempre de ser “libertada”.[119] Aqui nos interpela o ensinamento de São Paulo: “Cristo nos libertou para a liberdade! Permanecei, pois, firmes e não vos deixeis impor novamente o jugo da escravidão [...] Pois, irmãos, fostes chamados à liberdade” (Gl 5,1.13).

1.2. A complexidade da identidade

112. No entanto, não se trata de um caminho simples.A identidade é complexa, sendo constituída por várias dimensões. Os seres humanos estão conscientes de que as suas identidades, se por um lado são individuais e intransferíveis, por outro são relacionais, moldadas pelas comunidades a que pertencem e pelas circunstâncias da vida.[120] Por isso, a identidade é sempre algo recebido e, ao mesmo tempo, algo atualizado e desenvolvido por cada um. Nenhum ser humano entra na existência já definido e perfeito: temos de aprender quem e o que somos, tanto na infância como na idade adulta. Aprendemos a aceitar o dom de nós mesmos, assumindo sobretudo a tarefa de formar a nossa identidade, implícita neste dom, e de a redescobrir em cada nova etapa da vida.

113. O processo de identificação ocorre em vários níveis, tanto naturais como culturais, pelo que quanto mais complexa for uma sociedade, em termos de classes, profissões, interesses comuns ou religiões, mais complexo será formar a identidade a partir da sobreposição de diferentes fontes de identificação. Ao longo da história, os seres humanos desenvolveram e aumentaram a sua identidade estabelecendo novas relações, sobretudo contraindo matrimónio (cf. Gn 2,24), formando novas famílias, através de migrações da sua terra para outros lugares, aprendendo novas línguas e formas de expressão ou adotando novos costumes e modos de vida. A nossa natureza, precisamente por ser humana, coloca-nos em condições de realizar uma grande variedade de maneiras de pensar, sentir, viver e identificar-nos. Mas isso implica também a possibilidade de errar, de modo que a nossa capacidade de nos darmos uma identidade ou de reimaginar a nossa identidade não é infalível, pelo contrário, permanece exposta ao perigo de se confundir ao identificar a sua própria realidade.

114. Os diferentes fatores que constituem a identidade devem ser considerados na sua unidade. A busca da identidade é sempre acompanhada pela necessidade de unidade, totalidade e síntese que harmonize os elementos, evitando dispersão e fragmentação. Nesse sentido, a busca da própria identidade joga-se no “coração”, ou seja, naquele centro da pessoa que sabe unir os fragmentos. A palavra “coração” não pode ser explicada de forma exaustiva pela biologia, pela psicologia, pela antropologia ou por outras ciências. É uma daquelas palavras originais, que indicam a realidade que pertence ao ser humano como um todo, como pessoa corporal e espiritual. Ao conduzir-nos ao centro íntimo da nossa pessoa, o coração permite-nos reconhecer-nos na nossa totalidade e não apenas em algum aspeto isolado. Por isso, é também capaz unificar e harmonizar a sua história pessoal, que pode parecer fragmentada em mil pedaços, mas onde tudo pode ter sentido. No coração encontra-se a relação correta com o mundo e, por isso, diz-se que quando se compreende uma realidade com o coração, pode-se conhecê-la melhor e mais plenamente. Por fim, o coração torna possível construir laços autênticos, porque uma relação que não é vivida com o coração é incapaz de superar a fragmentação do individualismo. Se as relações não envolvem o coração, chega-se à “perda do desejo”, porque o outro desaparece do horizonte e fechamo-nos no nosso eu com as suas necessidades, sem capacidade para relações saudáveis. Consequentemente, tornamo-nos também incapazes de acolher Deus.[121]

115. Para nós, cristãos, entre os muitos elementos que constituem a identidade humana, um se destaca como um verdadeiro princípio formal, capaz de ordenar os outros aspetos. Trata-se do dom de sermos não apenas criaturas ou servos de Deus, mas chamados a ser filhos e filhas do Pai, para louvor da sua glória e para benefício de toda a criação (cf. Rm 8,20-23). Isto é atestado pelo Espírito de Deus que clama em nós “Abbà / Pai” (cf. Gl 4,6; Rm 8,15) e nos conforma a Cristo, para que sejamos participantes da sua identidade divina de Filho do Pai (cf. 2Pd 1,4).[122] A identidade filial é a determinação última e radical da nossa identidade e quem está marcado no seu coração pelo Espírito Santo encontra nesta identidade de filho o ponto de referência para todos os outros aspetos da sua identidade.[123] Essa identidade, confiada à nossa liberdade, aparece como um ato totalizante, que penetra no profundo do coração, de modo que a pessoa chega à consciência definitiva da sua singularidade na distinção de todos os outros. É também um ato integrador, capaz de harmonizar as diferentes dimensões na doação de si mesmo. A resposta ao chamado divino aparece única, insubstituível, pessoal e, portanto, sempre nova.[124] Consideremos, nesta luz, algumas dimensões constitutivas da identidade.

2. A doação da vida e da comunhão diante do transumanismo e do pós-humanismo

116. A complexidade dos processos de formação da identidade torna possíveis os equívocos em que proliferam os sonhos e as ilusões do transumanismo e do pós-humanismo. De fato, o caminho para a identidade de cada um não se realiza como um mecanismo garantido nem como uma evolução natural. A pessoa descobre-se chamada a responder por si mesma e pelas suas ações, nas quais expressa quem é e quem quer ser. Realiza-se numa história singular e indedutível, que não se pode dissolver numa massa anónima, sem originalidade. A busca e a formação da própria identidade trazem sempre algo novo, tanto em relação às condições naturais quanto à cultura em que se vive. Essa identidade não pode ser jogada numa afirmação arbitrária e absoluta de si mesmo, sem herança a ser apropriada ou sem condições naturais a serem interpretadas; mas também não pode ser reduzida a corresponder às expectativas dos outros, a formas culturais e a papéis sociais pré-estabelecidos. Não se trata de vestir um uniforme pré-confeccionado, mas de costurar um fato à medida, que expresse a nossa originalidade e o nome único que Deus conhece e nos confiou, porque cada um de nós é um ser original e irrepetível, chamado a expressar um contributo único.[125]

2.1. Moldar a própria identidade a partir do corpo doado

117. No início está a relação com o próprio corpo: é preciso reconhecer que “o corpo do homem participa da dignidade de “imagem de Deus”. [...] É no corpo, de fato, que cada pessoa se reconhece gerada por outros”.[126] Compreende-se a urgência do aviso para respeitar a ordem da experiência humana elementar: “Somos chamados a custodiar a nossa humanidade, e isso significa, antes de tudo, aceitá-la e respeitá-la tal como foi criada”.[127] Trata-se de uma verdadeira escolha “ecológica”: “Aprender a acolher o próprio corpo, a cuidar dele e a respeitar os seus significados é essencial para uma verdadeira ecologia humana”.[128] Em particular, hoje, um dos maiores desafios da cultura, ao nível da identidade pessoal, é a aceitação do próprio corpo sexuado, visto como um dom e não como uma prisão que nos impede de ser verdadeiramente nós mesmos, ou como material biológico a ser modificado.[129]

118. Neste contexto, também a reflexão teológica sobre a deficiência pode assumir um valor relevante na defesa da dignidade infinita de cada pessoa, abraçando a sua condição particular. A voz das pessoas com deficiência é uma contestação radical à “cultura do descarte” que ressoa em certos raciocínios transumanistas ou pós-humanistas. Estamos num terreno muito delicado, mas significativo para a questão da identidade biológica-natural, que mereceria uma consideração muito mais aprofundada. Em linha geral, é necessário recordar o significado decisivo da dependência e da vulnerabilidade como elementos integrantes de toda a experiência humana.[130] Sem prejuízo de que as deficiências congénitas não são diretamente desejadas por Deus, a deficiência deve ser explorada, com todas as suas especificidades, como uma manifestação daquelas dimensões de finitude e contingência, que devem ser vistas e vividas não apenas como negativas para a formação da identidade. De fato, a condição de deficiência mantém a identidade pessoal bem ancorada à realidade corporal-espiritual dada, a ponto de aparecer como um elemento inelutável da identidade da pessoa com deficiência. No contexto do conjunto da pessoa e da sua história, também a deficiência pode ser uma ocasião de bem, de sabedoria e de beleza. Estamos longe dos sonhos do transumanismo e do pós-humanismo de fugir da base natural da existência, e especialmente dos limites do próprio corpo, para alcançar a própria identidade.

2.2. Ser um dom para os outros

119. A identidade que se afirma na doação de si mesmo está no centro das relações interpessoais nas quais a pessoa se realiza: “A criatura humana, por ser de natureza espiritual, realiza-se nas relações interpessoais. Quanto mais as vive de forma autêntica, mais amadurece também a sua identidade pessoal. Não é isolando-se que o homem se valoriza, mas colocando-se em relação com os outros e com Deus”.[131] Estas relações tornam-se significativas para a identidade se não forem vividas numa lógica egoísta e de fechamento, uma vez que o ser humano chega a si mesmo com o outro e em relação aos outros.

120. O mistério da pessoa humana inclui, de fato, a sua vocação para a comunhão social. A Gaudium et spes reafirmou que “o homem, que na terra é a única criatura que Deus quis por si mesmo (Deus propter seipsam voluerit), não pode encontrar-se plenamente (plene seipsum invenire non posse) senão através de uma sincera doação de si mesmo (nisi per since-rum sui ipsius donum)”.[132] O magistério pontifício insiste na importância de a pessoa se realizar num dinamismo de transcendência, uma espécie de “êxtase” na doação de si mesmo: “Um ser humano [...] só consegue reconhecer profundamente a sua verdade no encontro com os outros [...]. Isso explica por que ninguém pode experimentar o valor da vida sem rostos concretos para amar”.[133] Nenhuma pessoa pode alcançar a sua plenitude isolando-se, mas apenas no amor que se realiza na abertura, na capacidade de acolher os outros, estabelecendo laços sólidos.[134]

121. A identidade autêntica exige uma experiência real da alteridade. Nesse sentido, é necessário construir laços sólidos por meio do diálogo social, entendido como a capacidade de ouvir o outro como outro, isto é, pelas razões que o tornam irredutível e diferente: “Isso implica a capacidade habitual de reconhecer ao outro o direito de ser ele mesmo e de ser diferente. A partir desse reconhecimento, que se tornou cultura, torna-se possível dar vida a um pato social. Sem esse reconhecimento, surgem formas subtis de fazer com que o outro perca todo o significado, se torne irrelevante, não lhe seja reconhecido qualquer valor na sociedade”.[135] É no contexto desse diálogo que se realiza uma identidade não excludente, mas consistente e capaz de reconhecer e propor a todos a experiência humana elementar.

2.3. A transcendência do dom de Deus que nos abre a um horizonte infinito

122. A religião, entendida como relação com o sagrado e, sobretudo, com o Mistério de Deus, remete para a transcendência do dom da vida, mantendo aberto, antes de mais, o horizonte do mistério da origem e do fim e permitindo superar a tentação de programar o humano com base na nossa medida e nos nossos critérios: “Deus é o garante do verdadeiro desenvolvimento do homem, pois, tendo-o criado à sua imagem, fundamenta também a sua dignidade transcendente e alimenta o seu anseio constitutivo de “ser mais”. O homem não é um átomo perdido num universo casual, mas é uma criatura de Deus, a quem Ele quis dar uma alma imortal e que sempre amou”.[136] Só Ele pode decidir quem nasce e quem morre. Este olhar sobre a origem abre um horizonte infinito sobre o destino da pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus, destinada a participar da sua própria plenitude de vida. É necessária uma visão transcendente da pessoa e do seu destino para sustentar, com as justas motivações, todo o valor de cada vida humana no seu dinamismo global.[137]

123. A fé em Jesus Cristo oferece uma visão que amplia a perspectiva sobre os fatos contingentes da história, com a pergunta concreta sobre a origem de tudo e sobre o fim último: “Precisamente porque Deus pronuncia o maior “Sim” ao homem, o homem não pode deixar de se abrir à vocação divina para realizar o seu próprio desenvolvimento. A verdade do desenvolvimento consiste na sua integralidade: se não for de todo o homem e de cada homem, o desenvolvimento não é verdadeiro desenvolvimento”.[138] Diante deste poderoso “Sim” do Senhor Criador, quem poderia arrogar-se o direito de dizer “não” a uma vida humana e de interromper esta história pessoal que se iniciou?

124. Encontramos paradigmaticamente a correspondência entre o “Sim” de Deus e a cooperação da criatura humana na Anunciação a Maria (cf. Lc 1,26-38). Na narrativa evangélica emerge uma relação pessoal e íntima, na qual Deus e Maria (em representação de todas as criaturas) são interlocutores livres. Maria mostra-se, na sua resposta a Deus, como “pessoa teologal” num diálogo originário com Deus. Ela responde à palavra de Deus dirigida a ela com um “Sim” igualmente total e sem reservas, no qual ela se despoja de si mesma por Deus e, assim, realiza a verdadeira posse de si mesma.[139] Assim se manifesta exemplarmente em Maria a abertura à realização transcendente oferecida por Deus em Jesus Cristo e à qual tende a própria dignidade da pessoa.[140] Este destino não é um dom extrínseco à experiência humana. Pelo contrário, corresponde de modo excedente ao dinamismo inscrito no desenvolvimento do ser humano e do cosmos e, portanto, aperfeiçoa a própria realidade natural em que vivemos.[141]

3. A posição singular do ser humano no cosmos

125. A identidade pessoal do ser humano implica também a sua posição singular no cosmos, em relação a todas as outras criaturas: “O homem, na verdade, não se engana ao reconhecer-se superior às coisas corporais e ao considerar-se mais do que apenas uma partícula da natureza ou um elemento anônimo da cidade humana. De fato, na sua interioridade, ele transcende o universo das coisas: nessas profundezas, ele regressa, quando volta a si mesmo, para onde o espera aquele Deus que escuta os corações”.[142] Além disso, as recentes tentativas de redimensionar a natureza humana, com reduções materialistas ou inspiradas no naturalismo biológico, são, paradoxalmente, um comportamento humano: mesmo quando sonha em ultrapassar a sua natureza humana, ou em rebaixar-se ao nível dos animais, a pessoa age inevitavelmente como ser humano. A pessoa humana, enquanto espiritual, chamada a uma relação direta e imediata com Deus, nunca pode legitimamente ser reduzida à categoria de objeto, nem pode reduzir os outros a objetos de posse.[143] É fundamental, no caminho para a sua identidade, que cada pessoa reconheça esta posição singular no cosmos e na família humana.

126. Isso não implica que os outros seres vivos devam ser considerados meros objetos de domínio ou exploração, pois isso teria consequências graves para a sociedade: reforçaria a idolatria dos mais fortes e produziria desigualdades, injustiças e violência para toda a humanidade e para o planeta.[144] Segundo a Sagrada Escritura, as outros criaturas merecem um olhar positivo, digno de proteção e respeito, em particular os animais, enquanto seres vivos e sencientes. O ser humano, embora se encontre no centro da criação, não pode compreender-se a si mesmo se não se descobrir situado no contexto das outras criaturas e unido a elas.[145] É preciso, porém, evitar os excessos de certas sociedades avançadas, sobretudo no Ocidente, que tendem a considerar alguns animais, especialmente os domésticos, quase como pessoas.[146] É preciso evitar as tentações recíprocas de “humanizar os animais” e de “reduzir os seres humanos a animais”.

127. Numa perspectiva teológica, a doutrina da criação como ação de um Deus pessoal e transcendente e a compreensão do ser humano como imagem de Deus ensinam-nos que o universo existente é “teatro de um evento radicalmente pessoal”, no qual age o Criador.Somos, portanto, convidados a reconhecer “o caráter sagrado da criação visível”,[147] onde os seres humanos assumem o papel de administradores responsáveis do universo físico. Fazem parte da realidade criada e têm a capacidade de dar uma nova forma à ordem natural, tornando-se agentes na evolução do próprio universo, mas sempre no respeito pelas suas próprias leis.[148] Desta administração do mundo, recebido como dom, devem prestar contas Àquele que lhes confiou essa responsabilidade.

Capítulo IV

A HUMANIDADE AFIRMADA, SALVA E ELEVADA

128. O que a família humana precisa, e nela cada pessoa que busca a sua verdadeira identidade, não é um salto evolutivo que ultrapasse a condição atual, mas sim uma relação salvífica, que torne sensata e bela a aventura de realizar-se plenamente. Nesse sentido, falamos de humanidade salva, ou seja, respeitada como dom de Deus e não substituída. A salvação em Cristo é uma “superação plena”, no sentido de que realiza o processo de assunção, purificação e recriação do humano. Não se trata, portanto, em primeiro lugar, de acelerar o desenvolvimento para novas formas de vida, mas sim de apoiar o caminho dos povos e das pessoas, oferecendo um fim e um sentido que permitam a todos e a cada um realizar a sua vocação, moldando a identidade de filhas e filhos de Deus numa fraternidade universal. Os sonhos do transumanismo e do pós-humanismo pretendem simplificar as tensões que atravessam a experiência humana. Mas este projeto revela-se, a bem ver, desumanizante.

129. A aventura da identidade humana pessoal e social tem um caráter “dramático” ineliminável. Com esta categoria, pretendemos reafirmar a natureza livre do processo de se tornar-se a si mesmo, através das circunstâncias históricas concretas — com todos os sofrimentos, pecados e fracassos —, nunca concluído definitivamente na história, até à escatologia.Esse dinamismo, positivo em si mesmo, reconhece-se sobretudo em certas “tensões” ou “oposições polares” (segundo a expressão de Romano Guardini), que são próprias da condição criatural, mas que, devido ao pecado original, também se experimentam de forma desordenada e necessitado de redenção. O anúncio cristão da salvação propõe uma maneira integralmente humana, pela graça, de viver essas polaridades, segundo uma dimensão tanto curativa quanto elevadora. Trata-se de vivê-las como lugar de encontro com o acontecimento de Cristo morto e ressuscitado e verificar assim a credibilidade antropológica do anúncio cristão sobre a nova criatura.

1. As “tensões polares” da condição criatural

130. A condição humana parece marcada por tensões ou polaridades irredutíveis, cujo significado cada pessoa e toda a humanidade são chamadas a descobrir, para compô-las numa harmonia que faça crescer a vida em todo o seu potencial.[149] As “tensões polares” são constitutivas da experiência humana comum, e nelas a pessoa descobre o seu ser mistério aberto ao Mistério de Deus. Se quisermos compreender os recursos e as dificuldades do caminho para nos tornarmos nós mesmos, é preciso tomar consciência dessas polaridades características da condição criatural.

131. As oposições polares são a forma do concreto vivo em cada ser humano e na comunidade. A própria vida humana é estruturada de forma opositiva.[150] Essas tensões atravessam todos os níveis da realidade e assumem diferentes expressões, em busca da unidade no concreto vivo. Na polaridade, a oposição remete a um plano superior, que mantém a tensão. Os limites são integrados, não negados. As oposições ajudam a compreender que só no concreto se realiza o real completo, que faz síntese no crescimento, unindo e realizando a harmonia entre as determinações opostas.

132. Essas polaridades não devem ser interpretadas numa lógica dualista, mas como “unidade dos dois”, nem podem ser simplificadas através da redução de um termo, numa lógica monista da identidade ou numa lógica dual da dialética dos opostos. As polaridades superam, portanto, dualismos e monismos, que pretendem capturar o mistério do ser humano, e mostram o valor justo e inalienável da diferença. Os polos opostos não se anulam, não acontece que um polo destrua o outro. Nem a contradição nem a identidade absoluta dominam. Para vivê-las bem, é necessária outra lógica, que permita captar o ritmo interior da realidade de uma forma mais aderente aos dados e mais harmoniosa. Somos remetidos, em última análise, ao próprio ritmo da vida trinitária, que se reflete na criação, em virtude do qual a relação entre dois não se fecha sobre si mesma, nem reabsorve a alteridade no um, mas se abre à realização no terceiro, sempre excedente e inesgotável.

133. Através das oposições polares, permanece intato o dom original que precede e funda. Devem, portanto, ser assumidas à luz do caráter promissor que brota do próprio dom. Mais do que como “dados”, as polaridades devem ser interpretadas como “dons”. É precisamente em Cristo que se realiza a assunção completa das polaridades numa unidade que mantém as diferenças e as harmoniza numa síntese superior. Esta capacidade de integração unitiva, que respeita o real na sua concretude e, portanto, nas suas oposições polares, é característica do esforço de pensamento do “et/et” típico da forma mentis católica. E é isso que acontece na Igreja: em que o ser humano adquire, pela graça, o sentido da realidade total, pois nela se amplia o horizonte da experiência da pessoa e do seu mistério. Examinemos, então, em rápida síntese, estas polaridades criaturais, segundo uma ordem que parte da experiência humana mais imediata até à raiz mais profunda, precisando que existe entre elas uma “progressão circular”, mais do que uma simples sucessão.[151]

134. a) No que diz respeito à tensão entre o material e o espiritual, deve-se lembrar que os seres humanos, criados à imagem de Deus, são seres físicos que compartilham o mundo com outros seres vivos. Isso implica, em primeiro lugar, que a corporeidade é essencial para a identidade da pessoa, mas também significa que o mundo material cria as condições para o compromisso das pessoas humanas umas com as outras e, portanto, integra as relações interpessoais: na família, nos povos e na humanidade. A antropologia bíblica exclui o dualismo mente-corpo, evitando tanto as reduções espiritualistas quanto as materialistas do humano: a pessoa é “unidade de alma e corpo”.[152] Esta unidade, que não elimina a polaridade, mas a unifica a um nível superior, pode ser compreendida no símbolo do “coração”, como já indicado: “O núcleo de cada ser humano, o seu centro mais íntimo, não é o núcleo da alma, mas de toda a pessoa na sua identidade única, que é de alma e corpo. Tudo está unificado no coração, que pode ser a sede do amor com todas as suas componentes espirituais, psíquicas e também físicas”.[153]

135. No que diz respeito à relação entre a natureza espiritual do ser humano e a matéria em evolução, é importante sublinhar que a pessoa humana não pode ser explicada apenas como resultado da evolução da matéria: “Cada um de nós possui em si uma identidade pessoal capaz de dialogar com os outros e com o próprio Deus. [...] A novidade qualitativa implicada pelo surgimento de um ser pessoal dentro do universo material pressupõe uma ação direta de Deus, um chamado peculiar à vida e à relação de um Tu a outro tu”.[154] Reiteramos, portanto, que o humano “não deve ser subordinado como um mero meio ou instrumento nem à espécie nem à sociedade”.[155] Por ter sido criado à imagem de Deus, o ser humano é capaz de tecer relações de comunhão com o Deus trino e uno e com as outras pessoas humanas, mas também é capaz de exercer com o seu trabalho um serviço ao universo criado.[156]

136. b) Passemos à consideração da tensão entre o homem e a mulher. O fruto mais belo da diferença sexual é o reconhecimento do outro e o espelhamento na reciprocidade, que brota do encontro entre o homem e a mulher em Adão e Eva, com o espanto que daí deriva: “Quando finalmente Deus apresenta a mulher, o homem reconhece exultante que aquela criatura, e somente aquela, é parte dele: “osso dos meus ossos, carne da minha carne” (Gn 2,23). Finalmente há um espelhamento, uma reciprocidade. [...] Assim era o homem, faltava-lhe algo para chegar à sua plenitude, faltava-lhe a reciprocidade”.[157] Ao tentar moldar a sua identidade, um é de alguma forma remetido para o outro e vice-versa: “A diferença entre homem e mulher não é para a oposição ou a subordinação, mas para a comunhão e a geração. [...] Para se conhecer bem e crescer harmoniosamente, o ser humano precisa da reciprocidade entre homem e mulher”.[158] A identidade do homem e da mulher não é uma variável contingente que se pode moldar independentemente ou mesmo em contraste com o seu significado original e permanente; não é uma propriedade a ser gerida de acordo com uma percepção subjetiva, mas é um dom a ser recebido como bênção de um Deus que é amor (cf. 1Jo 4,8), numa dinâmica que não se fecha sobre si mesma, mas se abre a uma dimensão de “unidade dos dois” (segundo o ensinamento de João Paulo II).[159] Este é o desafio de ser “gerador”, isto é, capaz de se doar ao outro, o que abre ao terceiro e, portanto, a uma nova vida. A tendência atual de negar ou querer ignorar esta diferença natural, recebida como um dom, e substituí-la por qualquer possibilidade que a mente humana possa imaginar, torna-se uma forma perigosa de apagar a identidade corporal real e de se fechar em si mesmo numa autocontemplação endogâmica.

137. c) Não se deve esquecer, além disso, a tensão entre o indivíduo e a comunidade. Cada ser humano criado à imagem de Deus é uma pessoa, capaz de conhecimento e amor, que se expressa tanto como indivíduo quanto como membro da comunidade. Os seres humanos são relacionais e sociais, incluídos na família humana. O ser humano é, portanto, chamado a realizar a sua dimensão social dentro de grupos familiares, religiosos, civis, profissionais e de outro tipo, que juntos formam a sociedade à qual cada um pertence.[160] O caráter fundamentalmente social da existência humana deve ser combinado com o reconhecimento do valor inalienável da pessoa, com a sua individualidade e originalidade, bem como com a importância dos direitos individuais e da diversidade cultural.

138. d) Por fim, deve-se lembrar a tensão entre o finito e o infinito. A pessoa sente-se chamada a afirmar a sua identidade na tensão para uma plenitude (infinita) que é posta em causa pela contingência e pelo limite (finito). Nenhuma pessoa pode viver sem alguma abertura à realidade total e ao seu significado, mesmo que fosse na forma de rejeição.[161] Em virtude da sua natureza espiritual (encarnada), cada pessoa é capax omnia, aberta de alguma forma a estar presente em todas as coisas, e é também capax Dei. A referência não deve ser pensada como um objetivo infinito a ser alcançado a partir de experiências individuais de realidade finita e limitada ou da acumulação de diferentes experiências. Pelo contrário, a sabedoria de Israel ensina-nos que a abertura à totalidade é o horizonte dramático necessário a partir do qual o finito pode ser compreendido como tal (cf. Ecl 3,9-11; Eclo 43,26-28). Portanto, no seu caminho histórico de busca e desenvolvimento da sua identidade, a pessoa é chamada a inserir o sentido do fragmento no todo e a compreender a unidade do significado nas suas articulações. O real não é compreendido separadamente nem como finito nem como infinito, mas como unidade de identidade-diferença de finito-infinito. Esta é a tensão que se reflete na famosa exclamação de Santo Agostinho: “Tu nos fizeste para ti e o nosso coração está inquieto até que descanse em ti”,[162] que será retomada na cultura medieval, alcançando uma admirável síntese literária entre o cor inquietum agostiniano e a inquieta aventura de Ulisses na Divina Comédia. Sobre essa exigência de totalidade no conhecimento e na vida, o Ulisses dantesco exorta os companheiros: “Considerai a vossa semeadura, / Não fostes feitos para viver como brutos, / Mas para seguir a virtude e o conhecimento”.[163]

2. A experiência humana no drama do pecado e da graça

139. Orientamo-nos agora para um ponto de fuga especificamente cristão e teológico. As “tensões polares” afirmam-se como estímulo do desenvolvimento dinâmico do ser humano. A liberdade humana, sempre situada numa história feita de encontros e confrontos com outras liberdades, é, porém, marcada pelo pecado original, que encontra confirmação nos pecados pessoais, e por isso é vivida como condição decadente e como liberdade ferida, expondo-se a uma realização parcial e desordenada. Na história, por outro lado, atesta-se a experiência de uma possibilidade de viver a condição humana sempre renovada, sustentada e elevada pela graça.[164] Deste ponto de vista, a categoria de “dramaticidade” implica tanto o risco a que a liberdade se expõe no seu caminho de realização pessoal, porque pode contradizer a sua condição original no pecado, como o aspeto dramático da redenção, na medida em que se realiza através do encontro da liberdade do Filho de Deus e da liberdade de cada pessoa situada na história.

2.1. A ruptura das relações constitutivas da identidade humana

140. Vamos parar um momento no texto do Génesis, onde se encontra uma descrição mítico-simbólica de uma realidade concreta que feriu a existência humana.Na raiz da condição decadente, que nos leva a interpretar erroneamente o sentido autêntico das polaridades e a perder o caráter promissor da diferença ou do limite, há uma interrupção das relações que constituem a identidade autêntica (cf. Gn 3-11): “Pois, com o pecado, o homem recusa-se a submeter-se a Deus, e o seu equilíbrio interior se rompe, e precisamente no seu interior eclodem contradições e conflitos. Assim dilacerado, o homem produz quase inevitavelmente uma laceração no tecido das suas relações com os outros homens e com o mundo criado”.[165] Trata-se de uma rejeição do dom de Deus e, portanto, da relação com o Criador: “Esta é a primeira e fundamental ‘relação’, que dá valor tanto ao fato de o ser humano ser feito de ‘pó’, como ao seu ser vivo pelo ‘sopro’ divino”.[166] Na passagem do dom ao comando, que identifica e propõe uma tarefa, infiltra-se a suspeita (cf. Gn 3), comunicada pela serpente, que muda o olhar sobre Deus e sobre a realidade e leva à transgressão, comprometendo a relação com o Criador.[167]

141. A primeira consequência dessa ruptura é a desordem, no próprio ser humano, entre a dimensão material/corporal e a dimensão espiritual.[168] A desordem implica uma perda da harmonia entre as duas dimensões e exige uma vigilância especial para reconhecer em si mesmo a alma espiritual e imortal e não se deixar “iludir por uma criação imaginária que se explicaria apenas pelas condições físicas e sociais”, perdendo a capacidade de “tocar profundamente a verdade mesma das coisas”.[169] A desordem na relação com a matéria diz respeito também à própria corporeidade, lugar de experiência do limite e da fragilidade, como se pode reconhecer na “nudez” quando ela perde a sua inocência e integridade originais e assim se torna refém do outro.Mais amplamente, é precisamente a perda do valor simbólico de todas as coisas, reduzidas a material a ser manipulado arbitrariamente com o único objetivo de obter lucro, em vez de serem vistas como sinais de um mistério maior, que está na raiz da atual crise ecológica.[170]

142. Isso compromete também as relações interpessoais. Em primeiro lugar, a relação entre o homem e a mulher, depois a relação entre irmãos e, por fim, as relações entre os povos. Assiste-se a uma expansão da conflituosidade humana: “A ruptura com Deus rompe ao mesmo tempo o fio da amizade que unia a família humana, de modo que as páginas seguintes do Génesis nos mostram o homem e a mulher, que quase apontam o dedo acusador um contra o outro; depois o irmão que, hostil ao irmão, acaba por tirar-lhe a vida. [...] A consequência do pecado é a fragmentação da família humana, já iniciada com o primeiro pecado e agora levada ao extremo na sua forma social”.[171] A fraternidade universal, inscrita na origem comum, não é adequadamente reconhecida, pelo contrário, é constantemente ofendida devido ao manifestar-se de tantas particularidades e diferenças sociais, que fornecem o pretexto para a arrogância que habita o coração humano e se consolida na afirmação da própria identidade em oposição polémica aos outros. A história, desde os primórdios, será, portanto, marcada pela rivalidade e da guerra, e os povos terão de sair das ruínas, tentando recompor as fraturas e redesenhar perfis de paz e solidariedade.[172]

2.2. A salvação através da humanidade de Cristo

143. A iniciativa livre de Deus, que socorre cada pessoa e cada povo no caminho da formação da sua identidade, encontra a sua forma gratuita e concreta de realização na história da salvação. Nela, Deus revelou-se aos seres humanos, identificando-se na relação com eles. Revelou a sua identidade a Moisés como Deus de Abraão, Isaac e Jacó (cf. Ex 3 e 6). Jesus revela-nos plenamente o mistério de Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo e que nos dá a graça de nos tornarmos filhos e filhas no Filho, irmãos, capazes de chamar Deus de Pai e nosso Pai. Nos mistérios da vida de Cristo, manifesta-se a determinação filial da liberdade de Jesus segundo a medida de uma relação de reciprocidade com o Pai, que Ele vive no Espírito. À luz da oração que Jesus dirige ao Pai (cf. Mt 11,27), descobrimos os elementos que são fundamentais para a compreensão integral da relação com Deus. Em primeiro lugar, vem a iniciativa de Deus, conhecido e reconhecido como Pai que dá tudo de Si ao Filho. Em segundo lugar, Jesus ensina que só o Filho conhece o Pai (cf. Jo 10,15): somente Aquele que se reconhece como Filho conhece e reconhece o Pai como Pai. O terceiro elemento é a reciprocidade dinâmica entre o Pai e o Filho, onde a assimetria da origem (somente o Pai é princípio sem princípio) se dá na simetria da gratuidade e totalidade do dom recíproco. Este amor recíproco entre o Pai e o Filho é revelado e oferecido aos discípulos na efusão do Espírito Santo como pessoa-dom. Ele torna possível também aos discípulos clamar do coração: “Abbà, Pai!” (cf. Rm 8,15; Gl 4,6).[173]O Deus que se revela como Pai, Filho e Espírito, revela-se, portanto, como “nosso” Pai (cf. Mt 6,9-13), Pai de todas as criaturas humanas imersas no tempo e no espaço. Cada ser humano é chamado a reconhecer e acolher o dom da sua identidade criatural dentro da família mais vasta da criação.[174]Mas a revelação plena de quem somos e de quem somos chamados a tornar-nos é-nos dada pela encarnação daquele que é a Imagem do Pai, à imagem e semelhança do qual fomos criados e divinizados (cf. Col 1,15) e que nos redimiu do pecado.[175]

144. Jesus Cristo identifica-se com todos os aspetos do que significa ser verdadeiramente humano. E fá-lo inserindo-se num povo concreto, com a sua história e tradição, ou seja, no povo judeu, eleito e chamado por Deus para se tornar bênção para todas as nações; fá-lo recebendo a existência terrena de Maria, esposa de José, da tribo de Judá, e aprendendo o ofício familiar de carpinteiro. Ele recebe a plenitude do dom do Espírito desde a sua concepção e, no batismo no Jordão, é enviado para cumprir a missão que lhe foi confiada. É precisamente o Espírito Santo, desde a concepção, que permeia e molda a sua humanidade de acordo com a sua identidade filial, dada pelo Pai. Desta forma, o Filho realiza a sua identidade pessoal e relacional eterna, que recebe do Pai, na nossa verdadeira humanidade e assim revela plenamente o ser humano a si mesmo.[176] Numa história concreta e como membro da família humana, torna-se nosso irmão, abre-nos o caminho para receber uma nova identidade e alimenta esta identidade em nós como seus irmãos e irmãs.

145. A sua entrega completa por nós manifesta-se no seu corpo traspassado e no seu sangue derramado na cruz para a nossa salvação, e torna-se ainda mais “nosso” na sua ressurreição por nós. Cristo, que nos salva na cruz, apresenta-se a nós ressuscitado, cheio de vida, e do seu coração ferido e transfigurado chega até nós o dom do Espírito Santo. Este mistério da Páscoa abriu-nos a possibilidade real de alcançar a plenitude humana, que começamos a saborear no quotidiano. Como afirma o Papa Leão XIV: “Cristo ressuscitou. Ele realmente ressuscitou! [...] É um dom a pedir saber ver a certeza da Páscoa em todas as dificuldades da vida”.[177] O mistério da Páscoa de Cristo alcança a nossa vida humana em todas as suas dimensões, em todas as suas etapas e em todos os seus momentos. Precisamos da consciência de que precisamos de salvação: Cristo salva-nos hoje!

146. O encontro com a humanidade de Jesus Cristo ilumina a nossa humanidade e revela-nos a nós mesmos. Acima de tudo, devolve-nos o sentido da nossa liberdade perante o apelo do Criador, precisamente enquanto realiza a nossa vocação de participar na plenitude escatológica da Sua vida ressuscitada. Esta realização da plenitude da condição humana (cf. Ef 4,13) e “a perfeição cristológica do homem põem em causa a autonomia absoluta que o pecador escolheu para si. Por isso, o anúncio do Evangelho não pode ser separado do anúncio do juízo e do convite à conversão”.[178] O seguimento de Cristo inclui o caminho da Cruz, um caminho que não destrói o ser da pessoa, mas elimina as muitas formas de alienação e ilumina aquele julgamento crítico sobre o comportamento humano que, segundo a medida de Cristo, oferece um serviço à dignidade humana e ao bem comum na sociedade, levando a cabo a justiça com a caridade.

147. O “mistério da caridade” de Jesus Cristo oferece uma visão global da realidade que é nova e, “embora [...] submeta a um exame crítico o desejo do homem de hoje, afirma a sua importância, purifica-o e supera-o”.[179] Este desejo, que também se vislumbra nos sonhos expressos pelas várias formas de transumanismo e pós-humanismo, ilumina-se à luz da realização em Cristo: “O que todos os homens procuram, desejam e esperam, pelo menos implicitamente, é transcendente, infinito a tal ponto que só se pode encontrar em Deus. A verdadeira humanização do homem atinge o seu ápice na sua divinização gratuita, ou seja, na amizade e na comunhão com Deus. […] A graça de Jesus Cristo satisfaz abundantemente os desejos profundos do homem, mesmo aqueles que ultrapassam os limites das forças humanas”.[180] A realização do humano em Deus não absorve nem diminui o humano, assim como não empobrece o divino que se comunica. Trata-se, de fato, de um encontro de liberdade, onde Deus diviniza ao mesmo tempo que o ser humano se humaniza.

3. A nova humanidade no Espírito de Jesus Cristo, o Filho de Deus

148. “Na verdade, o mistério do homem só se ilumina verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado”.[181] No acontecimento de Jesus Cristo manifestou-se o “desígnio pré-estabelecido” do Pai sobre as criaturas, e em particular sobre os seres humanos (cf. At 2,22-23; Ef 1,1-14).[182] A antropologia cristã ilumina-se plenamente quando se reconhece que fomos desejados e criados pelo Pai para nos tornarmos “filhos no Filho” e participar, pelo dom do Espírito, na comunhão do amor intradivino.[183] O que nós, cristãos, chamamos de “graça” é, antes de tudo, o próprio Deus que se doa a nós em Cristo como amor que nos eleva, nos purifica, nos transforma e leva a nossa vida à sua plenitude. A graça é, em primeiro lugar, Ele mesmo que nos salva na cruz, é Ele mesmo que, vivo, nos dá o Espírito Santo e, consequentemente, provoca um novo dinamismo de salvação, de renovação no nosso próprio ser e na nossa própria vida.

149. A realização deste desígnio divino, revelado na Aliança, começou com a criação, e a sua plenitude é precisamente o acontecimento cristológico que atingirá o seu auge quando tudo for recapitulado no Pai e Deus for tudo em todos (cf. 1Cor 15,20-28).[184] Cristo é o segundo Adão, à imagem do qual foi moldado o primeiro (cf. Rm 5,14). A antropologia cristã, tal como proposta pela Gaudium et spes, reconhece, portanto, os traços consumados do humano à luz da humanidade de Jesus de Nazaré. Não só porque Ele é o modelo insuperável, mas porque é através da conformação da história pessoal de cada ser humano à sua história singular, pelo dom do Espírito, que nos tornamos filhos e filhas do Pai, realizando a vocação humana: “Com a encarnação, o Filho de Deus uniu-se de algum modo a cada homem”.[185]

150. Através dos mistérios da vida de Jesus, realiza-se a consumação e a transfiguração do mundo e da história. Não vamos além de Jesus Cristo, mas procuramos alcançá-lo, entrando cada vez mais profundamente no seu mistério pascal. Em Cristo, os crentes são “transformados nessa mesma imagem, de glória em glória, segundo a ação do Espírito do Senhor” (2Cor 3,18). Cristo, de fato, trouxe toda a novidade ao trazer a si mesmo, e o Espírito Santo introduz-nos nesta novidade de Cristo.[186] Não pode haver “trans” ou “pós” que a novidade de Cristo já não tenha integrado antecipadamente. Cristo é a última palavra de Deus em toda a sua novidade insuperável.

151. A vida do crente, que se expressa como resposta a um chamado (cf. Jo 15,16), não se realiza apenas num momento do tempo, mas se prolonga na incorporação do cristão a Cristo, no Espírito Santo, para oferecer tudo ao Pai. A vida cristã como vocação traduz-se no envolvimento da existência pessoal na existência de Cristo “até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4,19). Eis o princípio último da unificação do humano. Trata-se de uma assimilação progressiva a Cristo, até ter os seus mesmos sentimentos (cf. Fl 2,5), o seu mesmo pensamento (cf. 1Cor 2,16). Tornando-se semelhantes ao Filho, pelo dom do seu Espírito, a existência vocacional traduz-se sobretudo num amor que não se poupa, mas oferece tudo ao Pai em obediência filial (cf. Jo 10,17-18; Hb 10,8-10), para a salvação e a felicidade dos irmãos e irmãs.

152. A totalidade da existência permanece sempre um mistério, que, no entanto, não é mais um enigma estranho, mas torna-se um espaço no qual se começa a compreender e a experimentar algo do Mistério do amor de Deus, na medida em que se adere livremente a ele (cf. 1Jo 2,3-6).Dentro desta existência “em Cristo”, as polaridades antropológicas alcançam concretamente a sua realização gratuita. A tensão finito/infinito resolve-se ao reconhecermo-nos amados na nossa existência limitada, mas ao mesmo tempo orientados, na esperança, para uma plenitude que nem sequer podemos imaginar.

153. A tensão material/espiritual (alma/corpo) encontra o seu significado pleno na ressurreição dos mortos. Graças a ela, o ser humano é salvo até ao fim, pois o corpo ressuscitado torna-se, em certo sentido, o sinal visível e transparente de todo o ser humano, a dimensão que revela a sua natureza espiritual, que permanece o vértice unificador do eu e atesta a sua diferença em relação aos outros animais.

154. A tensão homem/mulher encontra a sua perspectiva adequada no anúncio cristão sobre o homem e a mulher como pessoas criadas à imagem de um Deus pessoal na vocação à unidade dos dois (cf. Gn 1,27) com igual dignidade. Assim, pode-se reconhecer a originalidade da diferença sexual, expressão do mistério de Deus: em virtude da unidade amorosa entre os dois, da sua destinação procriativa e da sua abertura à comunhão interpessoal e com Deus.[187] Esta polaridade não é abolida na ressurreição de Cristo e na transfiguração do ser humano que dela deriva: “É semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual. Se há um corpo animal (psykikôn), há também um corpo espiritual (pneu-matikôn)” (1Cor 15,44-45). A Escritura ensina que, na ressurreição, as pessoas serão como anjos e não tomarão marido nem mulher (cf. Mt 22,30), mas o corpo ressuscitado mantém a identidade sexual do corpo físico. Jesus, no seu corpo ressuscitado, continua a ser homem e Maria, a Mãe de Deus, no seu corpo assumido ao céu, continua a ser mulher. O que é verdade para Jesus e Maria será também verdade para a humanidade.

155. Por fim, a tensão indivíduo/comunidade, que implica também a tensão entre as culturas, encontra o seu ponto de convergência na comunhão eucarística e eclesial até à sua realização, que é a comunhão dos santos. A experiência cristã expressa-se como pertença ao Povo de Deus que caminha na história rumo ao seu destino. Essa pertença não tira nada à identidade pessoal, mas antes a torna possível e a promove: “A este respeito, a razão encontra inspiração e orientação na revelação cristã, segundo a qual a comunidade dos homens não absorve em si a pessoa, aniquilando a sua autonomia, como acontece nas várias formas de totalitarismo, mas valoriza-a ainda mais, porque a relação entre a pessoa e a comunidade é de um todo para outro todo”.[188] Trata-se de uma pertença que nunca é exclusiva e fechada em si mesma, que não estabelece um “nós” contra um “vocês”. É, pelo contrário, uma pertença inclusiva e empenhada na afirmação da fraternidade universal, em sintonia com outras experiências religiosas.[189] Se na ordem criada haverá sempre uma certa tensão entre a pessoa individual e as exigências da existência social, na vida de graça participa-se na via da perfeita harmonia entre as Pessoas trinitárias que partilham a comunhão de uma única vida divina.[190]

156. A incorporação a Cristo acontece através do fluxo concreto de vida que brota Dele, no sinal da unidade dos cristãos que anunciam a Palavra de Deus e celebram os sacramentos. A Igreja torna tangível o dom divino para que todos possam experimentar eficazmente o anúncio da salvação e participar da vida nova em Cristo.[191] A expressão culminante na Igreja e na história da nova realidade da vida humana dada em Cristo é a Eucaristia. Através da comunhão com o corpo e o sangue de Jesus, que é, por isso mesmo, comunhão com Deus, os discípulos tornam-se o Povo de Deus. Tal comunhão é inexplicável de uma forma meramente sociológica, porque nasce do Espírito Santo (cf. 2Cor 13,13).[192] A celebração eucarística assume e regenera as relações humanas e abre-as à comunhão da Trindade. É preciso sublinhar que na comunhão eclesial se realiza, ainda que de forma imperfeita, aquela profunda exigência de unidade do indivíduo e da humanidade, que guiou tantas utopias sociais e revolucionárias da história sem nunca ter sido alcançada. De fato, na comunhão eucarística, a pessoa e a comunidade não se opõem uma à outra, mas são chamadas mutuamente a uma circulação que encontra expressão adequada apenas no interior do Mistério trinitário. A Eucaristia ilumina não só a vida social e a história, mas também a relação com a criação, segundo a promessa do Senhor: “Nós, de fato, [...] esperamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça” (2Pd 3,13; cf. Ap 21,1).[193] O ritmo de vida da criação, nas suas várias estações, é assumido pelas celebrações sacramentais e abre-se para comunicar a graça de Deus, inserindo-o no mistério pascal de Cristo. Em particular, a celebração da Eucaristia dominical assume um significado cósmico.[194]

157. O perdão e a misericórdia também contribuem de forma decisiva para realizar os laços de comunhão que concretizam a reconciliação capaz de destruir as barreiras de separação entre as pessoas e entre os povos (cf. Ef 2, 13-14; Cl 1, 20). No sacramento da reconciliação, Deus regenera os nossos corações feridos pelo mal e pelo pecado, bem como as relações fraternas, permitindo-nos recomeçar não a partir da experiência do mal feito ou sofrido, mas da plenitude do amor de Deus.[195] Assim, são favorecidos os processos de reconciliação também a nível social.

158. A reflexão teológica sobre a experiência humana e o processo de maturação da própria identidade que tentámos descrever baseia-se na economia sacramental da salvação. Para (re)elaborar e propor uma cultura plenamente humana, capaz de olhar para o futuro e de enfrentar também os desafios e os mal-entendidos fundamentais veiculados a esse respeito pelo transumanismo e pelo pós-humanismo, a reflexão teológica deve ser acompanhada pela contribuição de outras ciências e das artes. Por esta razão, é oportuno convidar pessoas e instituições envolvidas nos âmbitos económico-social, académico, artístico, cultural e político a colaborar com este objetivo. O objetivo é desenvolver, a partir dos intercâmbios já em curso, novas formas de pensamento e ação, de forma interdisciplinar e transdisciplinar. Desta forma, a antropologia teológica poderá traduzir-se em experiências vividas e concretas, tanto a nível pessoal como social, especialmente no campo educativo e cultural. Hoje, mais do que nunca, diante dos desafios de uma humanidade que olha para o futuro com esperança e incertezas, são necessários o diálogo e a cooperação interdisciplinar e transdisciplinar. Ela deve saber traduzir a riqueza inesgotável da experiência humana segundo o bom desígnio de Deus Pai.

Conclusão

O DOM DA DIVINIZAÇÃO COMO VERDADEIRA HUMANIZAÇÃO

159. No início do nosso percurso, ressoou uma pergunta, partilhada com os irmãos e irmãs em humanidade: Quo vadis, humanitas? Neste momento do século XXI, a família humana se depara com questões tão radicais que chegam a ameaçar a sua própria existência, tal como a conhecemos até agora.A irrupção de um desenvolvimento científico e técnico sem precedentes na história do planeta deve ser acompanhada por um crescimento correspondente de responsabilidade que oriente o progresso para o bem do ser humano, porque hoje ele está exposto a riscos nunca imaginados. O impacto do desenvolvimento técnico-científico, em particular da revolução digital, sobre a experiência humana é muito profundo, tanto ao nível da relação com o ambiente, como da relação com os outros na sociedade, consigo mesmo e com Deus.Através das novas tecnologias, pode configurar-se uma era de verdadeira mudança da condição humana, que se reflete nos receios do imaginário social da cultura de massa e no otimismo ou pessimismo inquietantes dos movimentos transumanista e pós-humanista. A proposta antropológica e cultural do cristianismo remete, hoje mais do que nunca, a uma concepção da vida como vocação, que torna possível uma forma humana de habitar o tempo e o espaço e de conceber as relações intersubjetivas, que se torna também julgamento profético sobre os aspetos mais inquietantes que não podemos deixar de reconhecer no transumanismo e no pós-humanismo.

160. A concepção da vida como vocação é a perspectiva na qual se pode/deve situar o processo decisivo e complexo da identidade a nível pessoal e social. A visão cristã da vida articula a identidade com o reconhecimento de um dom gratuito originário que a precede e com a aceitação de uma tarefa que daí decorre, confiada pelo amor de Deus à liberdade dos indivíduos e dos povos. Cada ser humano é chamado a receber-se como dom, a partilhar o dom da diferença, a tornar-se dom para os outros, a reconhecer a transcendência do dom como divino. Este processo que envolve a identidade pessoal e social nunca é estático ou definido de uma vez por todas, mas tem uma dimensão dramática intrínseca, que se manifesta nas “tensões polares” típicas da experiência humana na história, que se radicaliza diante do desafio do mal, na medida em que este quer alterar o seu significado original. O diálogo, portanto, entre a liberdade humana e a divina, ao acolher ou rejeitar o dom da divinização pela graça, não pode deixar de ter também um caráter dramático: “Vejam que grande amor o Pai nos deu, para sermos chamados filhos de Deus, e realmente o somos! Por isso o mundo não nos conhece: porque não o conheceu a ele. Meus queridos, já agora somos filhos de Deus, mas o que seremos ainda não foi revelado. Sabemos, porém, que quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1Jo 3,1-2).

161. Nas nossas sociedades, estimuladas por sonhos incessantes de potencialização ilimitada, quando não até mesmo de substituição do humano, a fé cristã oferece a sua proposta teológica, pastoral e cultural. Trata-se de uma compreensão teórico-prática do humano que a comunidade eclesial deseja sempre propor aos seus membros e que deseja apresentar a todos. O anúncio cristão identifica a maneira adequada de ir além (trans) dos limites da experiência humana, com a divinização (theiosis) possível apenas a Deus,[196] que é o oposto exato da auto-deificação de caráter transumanista. Concretiza-se como vocação em Cristo (cf. Rm 8,1; 2Cor 5,17; Gl 3,26-28; 2 Tm 3,12). O Filho do Homem é Aquele em quem as tensões constitutivas do ser humano encontram um equilíbrio dinâmico. Pela dádiva do Espírito Santo, os batizados participam dessa plenitude, ainda não perfeitamente no caminho da história, na espera da recapitulação definitiva, quando Deus será tudo em todos (cf. 1Cor 15,28). Assim, diante das várias reduções que descrevemos, onde certos aspetos do humano eram mortificados, a forma mentis católica pretende buscar uma síntese dinâmica, na qual nenhuma dimensão da experiência comum se perca, respeitando as tensões constitutivas.

162. Devemos ainda sublinhar que o fato de as tensões poderem encontrar convergência na fé não significa uma espécie de eliminação antecipada do drama da vida. O dom do Espírito do Ressuscitado é oferecido livremente à liberdade humana, que coopera com a graça divina. Na vida cristã, o drama criatural não é eliminado nem negligenciado. As tensões naturais são, em certo sentido, vividas com maior radicalidade, em razão do surgimento de uma nova consciência: os cristãos conhecem em Cristo a sua condição de seres que devem tudo à iniciativa de Deus Pai e que, ao mesmo tempo, são convocados por Ele ao desenvolvimento mais autêntico e à plena doação de si mesmos. Por isso, o seu anúncio da salvação não insiste tanto na sua capacidade de autossuperação (também tecnológica) dos limites naturais ou culturais, mas na acolhida comovida e grata do dom de um amor que torna possível o desenvolvimento da identidade pessoal e social, pois opera através da caridade (cf. Gl 5,6), assumindo uma tarefa criativa, para um melhor serviço ao bem comum.[197] Desta forma, contribui para a realização do desígnio divino, segundo uma reciprocidade assimétrica dos dons.

1. A Mãe plenamente humana

163. À luz desta perspectiva teológico-pastoral, Maria Imaculada e Assunta no seio de Deus Pai com Jesus aparece como a figura admirável de um ser humano em que as tensões alma/corpo, homem/mulher e indivíduo/comunidade expressam a sua amplitude segundo uma unidade que não destrói, mas potencia cada um dos elementos integrantes. A obediência de Maria ao chamado do Senhor atesta-se como disponibilidade perfeita, em todo o seu ser pessoal, espírito e corpo; atesta-se como fecundidade virginal e materna para a construção do novo povo na história humana; atesta-se também como paradigma de integração personalizante na comunidade dos discípulos (cf. Jo 19,25-26). De fato, em Maria, a Igreja contempla o que todos esperamos ser: a imagem de um ser humano na sua plenitude.[198] Nas circunstâncias da sua vida, Maria realiza uma síntese que une o apelo do amor e a resposta livre; a vocação pessoal e a missão social; a identidade filial e a comunhão fraterna; o anúncio de Deus e o serviço aos outros seres humanos; a obediência responsável e o serviço generoso; a acolhida do dom e a doação gratuita de si mesma; a alegria do canto e a meditação serena sobre a vida, a pertença ao seu povo e a abertura a todas as gerações; a aceitação dos próprios limites e a felicidade da fé; o “sim” para que se cumpra a vontade de Deus (cf. Lc 1,26-38) e a solicitude para que todos façam o que Jesus lhes dirá (cf. Jo 2,5).Maria acolheu a sua vida como vocação e assim realizou a sua identidade pessoal no cumprimento da missão que lhe foi confiada, para que se realizasse o desígnio de amor de Deus Trino para toda a humanidade.

2. O desafio dos pobres

164. O desenvolvimento tecnológico imparável que consideramos neste texto e que favorece sobretudo aqueles que já têm muito poder, desafia-nos a voltar o nosso olhar para os mais pobres. Se este desenvolvimento, como vimos, juntamente com as ideologias que o acompanham, implica sérios riscos, estes serão ainda maiores para os mais fracos e indefesos, ou seja, para aqueles que não contam nada por que não servem aos interesses dos mais poderosos. Eles correm o risco de se tornarem matéria descartável, “danos colaterais”, varridos sem piedade. Como cristãos, porém, somos chamados a olhar para eles com os olhos de Cristo, que diz a cada um deles: “Eu te amei” (Ap 3,9). Como explica o Papa Leão XIV, Cristo “com o seu amor doado até ao fim, mostra a dignidade de cada ser humano”.[199] E isso nos estimula a “perceber a forte ligação que existe entre o amor de Cristo e o seu apelo a aproximarmo-nos dos pobres”.[200]

Daí decorre o dever de estar particularmente atentos, como humildes sentinelas, às consequências que os novos desenvolvimentos da sociedade podem ter para a vida dos últimos. Não obstante, reagir com uma palavra profética e um envolvimento generoso. É assim que se joga a autenticidade da nossa fé e o valor humano da nossa vida.

 

 


[1] Cf. Dicastério para a Doutrina da Fé, Decl. Dignitas infinita, 2 de abril de 2024, 6. 11.

[2] O Salmo 144 coloca a mesma questão, mas destacando a fragilidade do ser humano: “Senhor, que é o homem para que te importes com ele? O filho do homem, para que te preocupes com ele? O homem é como um sopro, os seus dias como uma sombra que passa” (Sl 144,3-4). Também Jó questiona-se sobre o sentido do interesse de Deus pelo ser humano: “Que é o homem, para que te importes com ele e lhe dediques a tua atenção?” (Jo 7,17).

[3] Francisco, Discurso aos participantes na Plenária do Pontifício Conselho da Cultura, 18 de novembro de 2017. Ver também o documento da Pontificía Comissão Bíblica, O que é o homem? (Sl 8,5). Um itinerário de antropologia bíblica, 2019, 8, que utiliza como base do discurso antropológico bíblico precisamente o Salmo 8.

[4] Leão XVI, Discurso ao Colégio Cardinalício, 10 de maio de 2025.

[5] Comissão Teológica Internacional, A teologia hoje: perspectivas, princípios e critérios, 2012, 55.

[6] Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 3.

[7] Pontifício Conselho Justiça e Paz, Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 19.

[8] Nos documentos de conteúdo antropológico da Comissão Teológica Internacional aparece o termo “identidade”, mas não é um dos mais frequentes. É usado em sentido não especificamente antropológico, mas cristológico ou trinitário, e, às vezes, em sentido genérico.

[9] Sobre a noção de natureza humana – também em relação à noção de pessoa – ver: Comissão Teológica Internacional, Em busca de uma ética universal: novo olhar sobre a lei natural, 2009, 64-66; ID., A liberdade religiosa para o bem de todos, 2019, 32-39.Trata-se de uma noção complexa, que designa o princípio da identidade ontológica específica de um sujeito, ou seja, a sua “essência”, definida por um conjunto de características estáveis. Não se trata, porém, de algo fixo e estático, sendo um princípio interno dinâmico, que orienta o sujeito para a sua realização através de atividades específicas numa complexa inter-relação, antes de tudo, com Deus em Cristo, com as outras pessoas, com todas as realidades.

[10] Cf. Francisco, Exort. Ap. Evangelii gaudium, 24 de novembro de 2013, 221.

[11] Para esta caracterização da condição existencial, ver: S. Kierkegaard, The Sickness Unto Death, ed. e trad. por Howard V. Hong e Edna H. Hong (Kierkegaard’s Writings, XIX), Princeton 1980, “Despair as Defined by Finitude/Infinitude”, 29-35; Id., The Concept of Anxiety, ed. e trad. com introdução e notas de Reidar Thomte em colaboração com Albert B. Anderson (Kierkegaard’s Writings, VIII) Princeton 1980, “V. Anxiety as Saving through Faith”, 155-162.

[12] Cf. N. Bostrom, “Transhumanist Values”: Journal of Philosophical Research 30/Supplement (2005) 3-14, 4. Sobre o transumanismo, podem ser indicadas mais amplamente: S. Young, Designer Evolution: A Transhumanist Manifesto, Amherst NY 2005; The Transhumanist Reader: Classical and Contemporary Essays on the Science, Technology, and Philosophy of the Human Future, ed. Max More and Natasha Vita-More, Nova Iorque/Londres 2013; Y. N. Harari, Homo Deus: A Brief History of Tomorrow, Nova Iorque 2017;R. Kurzweil, The Singularity Is Nearer: When We Merge with AI, Nova Iorque 2024. Ver o site da Humanity Plus: https://www.humanityplus.org [consulta online em 19.08.2025].

[13] Sobre o pós-humanismo, destacamos: R. Braidotti, Metamorphoses: Towards a Materialist Theory of Becoming, Cambridge 2002; The Posthuman, Cambridge 2013; C. WOLFE, What is Posthumanism?, Minneapolis 2009. M. Rosendahl Thomsen e J. Warnberg (Eds.), The Bloomsbury Handbook of Posthumanism, Londres/Nova Iorque, 2020; F. Ferrando, The Art of Being Posthuman: Who Are We in the 21st Century? Cambridge 2024.

[14] Embora, em algumas versões, o transumanismo pareça orientado para um “ideal pós-humano” a ponto de se confundir com o pós-humanismo. Na paradigmática Transhumanist FAQ de N. Bostrom (https://nickbostrom.com/views/transhumanist.pdf [consulta online 19.08.2025]) pode-se encontrar a articulação de um “ideal pós-humano”.

[15] Cf. Francisco, Const. Ap. Veritatis gaudium, 27 de dezembro de 2017, Proêmio.

[16] Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 11.

[17] Francisco, Exort. Ap. Laudate Deum, 4 de outubro de 2023, 67, que cita a Carta Enc. Laudato si’, 24 de maio de 2015, 89. Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 2 e 57.

[18] Já a assembleia conciliar se questionava sobre o futuro do ser humano: Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 11.

[19] Cf. Dicastério para a Doutrina da Fé – Dicastério para a Cultura e a Educação, Nota Antiqua et Nova, 28 de janeiro de 2025, nota 9.

[20] D. Alighieri, A Divina Comédia. Paraíso, Canto I, 70: “Transumanar significar per verba non si porria; però l’esempio basti a cui esperienza grazia serba”, que poderia ser traduzido como “ultrapassar o humano [reservado àqueles que entram em comunhão com Deus no Paraíso] não pode ser expresso com palavras, mas apenas dar uma ideia com o exemplo àqueles que um dia poderão experimentá-lo”.

[21] Francisco, Exort. Ap. Evangelii gaudium, 24 de novembro de 2013, 8.

[22] A tradição patrística e escolástica é rica em afirmações que proclamam a divinização do cristão, a sua comunhão com o Filho, com o Espírito e com o Pai, a permanência do fiel em Deus e de Deus nele. O axioma: “Deus tornou-se o que nós somos para que nós nos tornássemos o que Ele é”, embora com nuances diferentes, é património comum nessa tradição. Entre outros: Ireneu, Adv. Haer. V praef: SC 153, 14: “Seguindo o único mestre firme e verdadeiro, o Logos de Deus, Jesus Cristo nosso Senhor, aquele que, pela superabundância do seu amor, se tornou o que nós somos, para nos tornar capazes de ser o que Ele mesmo é”; Tertulliano, Adv. Marc. II, 27, 7: SC 368, 164.166: “Deus tornou-se homem para que o homem fosse instruído a agir divinamente. Deus agia como igual ao homem, para que o homem pudesse agir como igual a Deus. Deus foi encontrado pequeno, para que o homem se tornasse grandíssimo”; Cipriano, Quod idola 11: CSEL 3/1, 28: “Cristo quis ser o que é o homem, para que também o homem pudesse ser o que é Cristo”; Atanásio, De Incarnatione 54, 3: SC 199, 458: “Na verdade, o Filho de Deus fez-se homem para nos tornar Deus”; Tomás de Aquino, Officium de festo corporis Christi, Ad Matutinas, In primo Nocturno, Lectio 1: Opera omnia, v. 29 (Paris 1876) p. 336: “O Filho único [...] de Deus, querendo que participássemos da sua divindade, assumiu a nossa natureza, para que, feito homem, fizesse dos homens deuses”. Para uma apresentação sintética do sentido cristão da “divinização” e da sua forma de realização, ver: Comissão Teológica Internacional, Teologia, cristologia, antropologia, I, E, 1-5.

[23] João XXIII, Carta Enc. Pacem in terris, 11 de abril de 1963, 21ss. Cf. também: Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 4 e 44.

[24] Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 33.

[25] Ibid.

[26] Paulo VI, Carta Enc. Populorum progressio, 26 de março de 1967, 34.

[27] Ibid., 14.

[28] Cf. Paulo VI, Carta Ap. Octogesima adveniens, 14 de maio de 1971, 29.

[29] João Paulo II, Carta Enc. Redemptor hominis, 4 de março de 1979, 15.

[30] Ibid.

[31] Em particular, a respeito da ética da tecnologia, veja-se: João Paulo II, Carta Enc. Sollicitudo rei socialis, 30 dezembro de 1987, IV, 27-34.

[32] Bento XVI, Carta Enc. Caritas in veritate, 29 de junho de 2009, 68.

[33] Cf. Ibid., 16-17.

[34] Ibid., 70.

[35] Francisco, Carta Enc. Laudato si’, 24 de maio de 2015, 105.

[36] Ibid., 106.

[37] Ibid., 103.

[38] Leão XIV, Saudação aos influenciadores e missionários digitais, 29 de julho de 2025.

[39] Leão XIV, Mensagem por ocasião da cúpula AI for good, 10 de julho de 2025.

[40] Cf. A. Barba-Kay, A Web of Our Own Making: The Nature of Digital Formation, Cambridge 2023.

[41] O impacto antropológico das novas tecnologias, e em particular da tecnologia digital, já tinha sido analisado por um grupo de estudiosos encarregado pela Direção-Geral da Comunicação da Comissão Europeia.Os resultados podem ser encontrados no volume The Onlife Manifesto. Being human in a Hyperconnected Era, 2009 (https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-319-04093-6) [consulta online 19.08.2025]).

[42] Cf. Francisco, Carta Enc. Laudato si’, 24 de maio de 2015, 115.

[43] Francisco, Carta Enc. Laudato si’, 24 de maio de 2015, 51, onde a polaridade Norte-Sul não tem imediatamente um sentido geográfico, mas indica uma distinção socioeconómica, que atravessa diferentes situações de pobreza: cf. Leão XIV, Exort. Ap. Dilexi te, 4 de outubro de 2025, 11-12

[44] Cf. K. Crawford, Atlas of AI: Power, Politics, and the Planetary Costs of Artificial Intelligence, New Haven/Londres 2021.

[45] Alguns critérios para um discernimento podem ser encontrados no Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 461-487.

[46] Ver o trabalho interdisciplinar de M. J. Gaudet et Al. (ed.), AI Research Group of the Centre for Digital Culture of the Dicastery for Culture and Education of the Holy See, Encountering Artificial Intelligence: Ethical and Anthropological Investigations, vol. 1 (Eugene, OR 2024).

[47] Cf. Francisco, Mensagem para a LVII Jornada Mundial da Paz “Inteligência Artificial e Paz”, 1 de janeiro de 2024, 2. Cf. Dicastério para a Doutrina da Fé – Dicastério para a Cultura e a Educação, Nota Antiqua et Nova, 28 de janeiro de 2025, 7-12.

[48] Cf. Dicastério para a Doutrina da Fé – Dicastério para a Cultura e a Educação, Nota Antiqua et Nova, 28 de janeiro de 2025, 49-103.

[49] Cf. Leão XIV, Mensagem aos participantes da segunda conferência anual sobre “Inteligência artificial, ética e governança empresarial”, 17 de junho de 2025.

[50] Cf. Dicastério para a Doutrina da Fé – Dicastério para a Cultura e a Educação, Nota Antiqua et Nova, 28 de janeiro de 2025, 38

[51] Bento XVI, Carta Enc. Caritas in veritate, 29 de junho de 2009, 73.

[52] Cf. Dicastério para a Doutrina da Fé – Dicastério para a Cultura e a Educação, Nota Antiqua et Nova, 28 de janeiro de 2025, 85-89.

[53] Não são poucos os expoentes da cultura contemporânea que se ocuparam disso: cf. E. Erikson, Juventude e crise de identidade, Roma 1995.

[54] Francisco, Exort. Ap. pós-sinodal Christus vivit, 25 de março de 2019, 87. Cf. também Pontifícia Academia das Ciências, Declaração Final do Workshop sobre Riscos e Oportunidades da IA para as Crianças. Um Compromisso Comum para a Proteção das Crianças, 24 de março de 2025.

[55] Francisco, Exort. Ap. pós-sinodal Christus vivit, 25 de março de 2019, 88.

[56] Ibid., 89; cf. Francisco, Carta Enc. Fratelli tutti, 3 de outubro de 2020, 199-202; Dicastério para a Doutrina da Fé – Dicastério para a Cultura e a Educação, Nota Antiqua et Nova, 28 de janeiro de 2025, 77-84.

[57] Podem ser consultados vários estudos recentes do MIT, como, por exemplo, N. Kosmyna et Al., “Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt when Using an AI Assistant for Essay Writing Task”: https://www.media.mit.edu/publications/your-brain-on-chatgpt/ [consulta online 19.08.2025].

[58] Cf. Bento XVI, Carta Enc. Caritas in veritate, 29 de junho de 2009, 74; Francisco, Exort. Ap. pós-sinodal Christus vivit, 25 de março de 2019, 82.

[59] Cf. T. Berger, @ Worship: Liturgical Practices in Digital Worlds (Liturgy, Worship, and Society Series), Nova Iorque/Londres 2019.

[60] Cf. Dicastério para a Doutrina da Fé – Dicastério para a Cultura e a Educação, Nota Antiqua et Nova, 28 de janeiro de 2025, 104-107.

[61] Cf. Francisco, Carta Enc. Laudato si’, 24 de maio de 2015, 85, 199-201, 222.

[62] Na Summa Theologiae I, q. 25, a. 6 ad 3 e ad 4, Tomás rejeita a ideia de que Deus tivesse de criar o melhor mundo possível, argumentando que o mundo criado por Deus é aquele que “mais pode ser melhorado” através do dom da graça e, em particular, com a graça da união do infinito divino com o finito na união hipostática.

[63] H. Jonas, O princípio da responsabilidade, Turim 2009 (orig. 1979), p. 54.

[64] Cf. Francisco, Exort. Ap. Gaudete et exsultate,19 de março de 2018, 36-39; veja-se também Const. Ap. Evangelii gaudium, 24 novembre 2013, 94.

[65] Congregação para a doutrina da fé, Carta Placuit Deo, 22 de fevereiro de 2018, n. 3, onde se precisam tanto as semelhanças quanto as diferenças entre as formas de gnosticismo da Antiguidade e essas tendências do pensamento moderno e pós-moderno.

[66] A noção de “povo” não se identifica com a de “nação”, que remete a um significado mais político e jurídico, embora as duas não se excluam mutuamente. Sobre o significado aqui proposto, ver: Francisco, Carta Enc. Fratelli tutti, 3 de outubro de 2020, 157-158: “Para afirmar que a sociedade é mais do que a mera soma dos indivíduos, é necessário o termo ‘povo’. A realidade é que existem fenômenos sociais que estruturam as maiorias, existem megatendências e aspirações comunitárias; além disso, é possível pensar em objetivos comuns, para além das diferenças, para implementar em conjunto um projeto partilhado; finalmente, é muito difícil projetar algo grande a longo prazo se não se conseguir que isso se torne um sonho coletivo. Tudo isso encontra expressão no substantivo ‘povo’ e no adjetivo ‘popular’” Cf. também os parágrafos 90-92 do mesmo documento.

[67] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 5.

[68] Cf. Francisco, Carta Enc. Fratelli tutti, 3 de outubro de 2020, 9-17. Ver também os números 151-153, nos quais o Papa Francisco coloca as realidades regionais entre as locais e a universal.

[69] De forma paradigmática: Agostinho, Confissões, XI, 14. 31. 41. Cf. P. Ricoeur, Temps et Récit I-III, Paris 1983-1985.

[70] Domina uma percepção generalizada de “falta de tempo”, em que o tempo se consome, mas não se vive: Z. Bauman, Consumo, portanto sou, Roma-Bari 2009; Id., A ética num mundo de consumidores, Roma-Bari 2010. Sobre a perda do sentido da história e da memória: J. B. Metz, Sobre o conceito da nova teologia política 1967-1997, Brescia 1998

[71] Cf. por exemplo: C. Lasch, O eu mínimo. A mentalidade da sobrevivência numa época de turbulências, Milão 1985.

[72] Cf. Francisco, Carta Enc. Lumen fidei, 29 de junho de 2013, 25, que sublinha: “na cultura contemporânea, tende-se frequentemente a aceitar como verdade apenas a da tecnologia: só é verdade o que o homem consegue construir e medir com a sua ciência, verdadeiro porque funciona e, assim, torna a vida mais cómoda e fácil”.

[73] Cf. Francisco, Carta Enc. Fratelli tutti, 3 de outubro de 2020, 13.

[74] Ibid., 17; também 188, 27, 30, 36.

[75] Cf. ibid., 160 e 163.

[76] Cf. João Paulo II, Carta Enc. Fides et ratio, 14 de setembro de 1998, 12.

[77] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 38-39.

[78] João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris missio, 7 de dezembro de 1990, 28.

[79] Cf. João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris Mater, 25 de março de 1987, 36.

[80] Bento XVI, Exort. Ap. pós-sinodal Verbum Domini, 30 de setembro de 2010, 30.

[81] Cf. Francisco, Carta Enc. Dilexit nos, 24 de outubro de 2024, 19.

[82] Cf. Sínodo dos Bispos, XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos – II sessão: Documento Final. Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão, 26 de outubro de 2024, 111-113.

[83] Cf. Paulo VI, Carta Ap. Octogesima adveniens, 14 de maio de 1971, 8-12.

[84] Francisco, Carta Enc. Fratelli tutti, 3 de outubro de 2020, 143.

[85] Cf. P. Ricoeur, Lectures 1. Autour du politique, Paris, 1991; também B. Waldenfels, Topographie des Fremden. Studien zur Phenomenologie des Fremden, Frankfurt am Main 1997.

[86] Carta a Diogneto 5, 1

[87] Cf. Francisco, Carta Enc. Fratelli tutti, 3 de outubro de 2020, 77-86.

[88] Francisco, Carta Enc. Fratelli tutti, 3 de outubro de 2020, 12; cf. Bento XVI, Carta Enc. Deus caritas est, 25 de dezembro de 2005, 19.

[89] Entre os autores que trabalharam nessa perspectiva, ver os filósofos G. Siewerth, Metaphysik der Kindheit, Einsiedeln 1962; F. Ulrich, Der Mensch als Anfang. Zur philosophischen Anthropologie der Kindheit, Einsiedeln 1970. Na teologia, é bem conhecido o ensaio de K. Rahner, “Gedenken zu einer Theologie der Kindheit”: Schriften zur Theologie, VII, 313-329.

[90] Sobre a relação entre comunidade política e povo, cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 385. Sobre a riqueza simbólica do povo, ver: R. Guardini, Dostoevskij. Il mondo religioso, Brescia 1951, p. 15.

[91] Cf. Francisco, Exort. Ap. Evangelii gaudium, 24 de novembro de 2013, 268, onde se sublinha o “gosto espiritual” de pertencer a um povo e a participação no “olhar de Jesus [que] se amplia e se volta cheio de afeto e ardor para todo o seu povo”.

[92] Cf. Francisco, Carta Enc. Fratelli tutti, 3 de outubro de 2020, 144-145.

[93] Sobre o valor da experiência do povo de Deus, cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 377-383. Quanto à “teologia do povo”, ver: L. Gera, La religione del popolo, Bolonha 2015 (orig. 1977).

[94] Sobre a importância da comunidade internacional, cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 428-450.

[95] Cf. Congregação para a Doutrina da Fé – Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, Oeconomicae et pecuniariae quaestiones, 6 de janeiro de 2018, 18-33.

[96] Cf. Bento XVI, Carta Enc. Spe salvi, 30 de novembro de 2007, 43.

[97] Francisco, Discurso aos participantes do Encontro Internacional “Homem-mulher imagem de Deus. Por uma antropologia das vocações”, 1 de março de 2024. Cf. também Francisco, Exort. Ap. pós-sinodal Christus vivit, 25 de março de 2019, 248-277.

[98] Cf. Comissão Teológica Internacional, Em busca de uma ética universal: novo olhar sobre a lei natural, 2009, 66. Id., Comunhão e serviço. A pessoa humana criada à imagem de Deus, 2004, 7.

[99] Cf. Dicastério para a Doutrina da Fé, Decl. Dignitas infinita, 2 de abril de 2024, 1.

[100] Francisco, Exort. Ap. pós-sinodal Christus vivit, 25 de março de 2019, 252. Não faltam autores contemporâneos que propõem uma fenomenologia do chamado e da resposta, do dom, como caminho para uma antropologia renovada que também assuma a dimensão religiosa intrínseca do humano: J.-L. Chrétien, L’appel et la réponse, Paris 1992; J.-L. Marion, Étant donné, Paris 1998, Id., À vrai dire: une conversation, Paris 2021.

[101] Cf. Pontifícia Obra das Vocaçôes Eclesiásticas, Novas vocações para uma nova Europa, 8 de dezembro de 1997, 13.

[102] Francisco, Exort. Ap. pós-sinodal Christus vivit, 25 de março de 2019, 253.

[103] Francisco, Exort. Ap. Evangelii gaudium, 24 de novembro de 2013, 254.

[104] Agostinho, Confissões, XIII, I, 1.

[105] Francisco, Carta Enc. Dilexit nos, 24 de outubro de 2024, 90.

[106] Pontifícia Obra das Vocaçôes Eclesiásticas, Novas vocações para uma nova Europa, 8 de dezembro de 1997, 11c; cf. também 12-13.

[107] Francisco, Exort. Ap. pós-sinodal Christus vivit, 25 de março de 2019, 184.

[108] Cf. Francisco, Mensagem para o 57Dia Mundial de Oração pelas Vocações, 3 de maio de 2020.

[109] Cf. Francisco, Carta Enc. Dilexit nos, 24 de outubro de 2024, 19.

[110] “Ao exercer a sua liberdade para cultivar as riquezas da sua natureza, a pessoa humana constrói-se ao longo do tempo. Mesmo que, devido a várias limitações ou condições, não seja capaz de pôr em prática estas capacidades, a pessoa subsiste sempre como “substância individual” com toda a sua dignidade inalienável”: Dicastério para a Doutrina da Fé, Decl. Dignitas infinita, 2 de abril de 2024, 9. O texto especifica o fundamento ontológico da dignidade da pessoa humana, retomando a definição clássica de pessoa entendida como substância individual de natureza racional. Além disso, sobre a pessoa humana, a sua singularidade, liberdade, dignidade e abertura à transcendência, ver: Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 124-148; Comissão Teológica Internacional, A liberdade religiosa para o bem de todos, 2019, 29-42.

[111] Entre os autores mais atentos a esta problemática contemporânea, E. Morin, O método 5: a identidade humana, Milão 2002; Z. Bauman, Entrevista sobre a identidade, Roma-Bari 2007.

[112] Dicastério para a Doutrina da Fé, Decl. Dignitas infinita, 2 de abril de 2024, 11.

[113] Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 26.

[114] Cf. Dicastério para a Doutrina da Fé, Decl. Dignitas infinita, 2 de abril de 2024, 17-21.

[115] Bento XVI, Carta Enc. Caritas in veritate, 29 de junho de 2009, 53.

[116] Sobre o valor da relação intergeracional, ver: Francisco, Exort. Ap. pós-sinodal Amoris laetitia, 19 de março de 2016, 193. A liberdade dos jovens é mais frágil se for vazia, desprovida de memória afetivamente conotada: Francisco, Exort. Ap. pós-sinodal Christus vivit, 25 de março de 2019, 181.

[117] Cf. Bento XVI, Carta Enc. Caritas in veritate, 29 de junho de 2009, 1.

[118] Dicastério para a Doutrina da Fé, Decl. Dignitas infinita, 2 de abril de 2024, 22.

[119] Ibid., 31.

[120] Cf. Congregação para a Doutrina da Fé – Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, Oeconomicae et pecuniariae quaestiones, 6 de janeiro de 2018, 10.

[121] Cf. Francisco, Carta Enc. Dilexit nos, 24 de outubro de 2024, 15-19.

[122] Cf. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I-II, q. 110, a. 3; q. 112, a. 1.

[123] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Dogm. Lumen gentium, 21 de novembro de 1964, 13.

[124] Na reflexão filosófico-teológica de Edith Stein, a “vocação” divina (Berufung) é o critério mais profundo de identificação do ser humano pessoal; cf. Endliches Sein und Ewiges Sein, Freiburg-Basel-Wien 2025 (cap. VIII). P. Ricoeur, Soi-même comme un autre, Paris 1990, destaca os dinamismos da identidade narrativa da pessoa, que implica a capacidade de compreender e expressar a imagem de si mesmo recebida nas relações que se têm e da qual se apropria numa história.

[125] Cf. Bento XVI, Carta Enc. Caritas in veritate, 29 de junho de 2009, 68.

[126] Dicastério para a Doutrina da Fé, Decl. Dignitas infinita, 2 de abril de 2024, 60.

[127] Francisco, Exort. Ap. pós-sinodal Amoris laetitia, 19 de março de 2016, 56.

[128]Francisco, Carta Enc. Laudato si’, 24 de maio de 2015, 155.

[129] Como sublinha Dignitas infinita, “daqui decorre que qualquer intervenção de mudança de sexo, em regra, corre o risco de ameaçar a dignidade única que a pessoa recebeu desde o momento da sua concepção. Isto não significa excluir a possibilidade de uma pessoa afetada por anomalias genitais já evidentes à nascença ou que se desenvolvam posteriormente, poder optar por receber assistência médica com o objetivo de resolver tais anomalias. Nesse caso, a intervenção não constituiria uma mudança de sexo no sentido aqui entendido”: Dicastério para a Doutrina da Fé, Dich. Dignitas infinita, 2 de abril de 2024, 60.

[130] Cf. A. MacIntyre, Dependent Rational Animals. Why Human Beings need the Virtues, Chicago 1999 (cap. 1).

[131] Bento XVI, Carta Enc. Caritas in veritate, 29 de junho de 2009, 53.

[132] Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 24.

[133] Francisco, Encíclica Fratelli tutti, 3 de outubro de 2020, 87.

[134] Cf. ibid., 111; também 95.

[135] Ibid., 218.

[136] Bento XVI, Carta Enc. Caritas in veritate, 29 de junho de 2009, 29.

[137] Cf. Ibid., 11. Ver também o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 130

[138] Bento XVI, Carta Enc. Caritas in veritate, 29 de junho de 2009, 18.

[139] Cf. João Paulo II, Carta Enc. Redemptoris Mater, 25 de março de 1987, 30-31.

[140] Cf. Dicastério para a Doutrina da Fé, Decl. Dignitas infinita, 2 de abril de 2024, 20.

[141] Cf. Francisco, Carta Enc. Laudato si’, 24 de maio de 2015, 79, 83.

[142] Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 14.

[143] Cf. Francisco, Carta Enc. Laudato si’, 24 de maio de 2015, 81. Dicastério para a Doutrina da Fé, Decl. Dignitas infinita, 2 de abril de 2024, 9. Também Comissão Teológica Internacional, A liberdade religiosa para o bem de todos, 2019, 42.

[144] Cf. Francisco, Carta Enc. Laudato si’, 24 de maio de 2015, 82.

[145] Cf. Id., Exort. Ap. Laudate Deum, 4 de outubro de 2023, 67.

[146] Sobre a relação entre o ser humano e os animais numa perspectiva bíblica, cf. Pontificía Comissão Bíblica, O que é o homem? (Sl 8,5). Um itinerário de antropologia bíblica, 2019, 139ss.

[147] Comissão Teológica Internacional, Comunhão e serviço. A pessoa humana criada à imagem de Deus, 2004, 66.

[148] Francisco, Exort. Ap. Laudate Deum, 4 de outubro de 2023, 26-27.

[149] Ver paradigmaticamente R. Guardini, Der Gegensatz: Versuche zu einer Philosophie des Leben-dig-Konkreten (Romano Guardini Werke), Mainz 2025.

[150] Cf. J. Bergoglio – Papa Francisco, Nei tuoi occhi è la mia parola. Omelie e discorsi di Buenos Aires 1999-2013, Milão 2016, XIX. Daí deriva o princípio segundo o qual “a unidade é superior ao conflito” (Exort. Ap. Evangelii gaudium, 24 de novembro de 2013, 228): a solução dos conflitos remete para um plano superior que conserva em si as virtualidades positivas das polaridades em tensão.

[151] Para a descrição destas polaridades antropológicas, inspiramo-nos em Comissão Teológica Internacional, Comunhão e serviço. A pessoa humana criada à imagem de Deus, 2004, 25-51.

[152] Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 14; cf. Comissão Teológica Internacional, Comunhão e serviço. A pessoa humana criada à imagem de Deus, 2004, 26-30. Enquanto na teologia existe uma longa e dominante tradição que interpreta esta “unidade de corpo e alma” segundo as linhas de um modelo hilemórfico aristotélico, revisto à luz da revelação (por exemplo: Tomás de Aquino, Summa Theologiae I, q. 76), um modelo que se reflete também no Magistério (desde o Concílio de Vienne até ao Concílio Vaticano II), há também um modelo tripartido mais antigo – corpo, alma, espírito –, que também encontra bases sólidas. Ver: H. De Lubac, Théologie dans l’histoire: I. Lumière du Christ, Paris 1990, 113-199. Na realidade, os dois modelos não se excluem, mas se complementam, enriquecendo a antropologia cristã com diferentes ênfases, graças à referência constitutiva à relação com Deus (à qual se referem tanto o conceito de alma como o de espírito), fazendo intuir que a polaridade material/espiritual encontra harmonia num terceiro e superior nível: o da relação com Deus (cf. o que foi especificado no n. 132).

[153] Francisco, Carta Enc. Dilexit nos, 24 de outubro de 2024, 21.

[154] Id., Carta Enc. Laudato si’, 24 de maio de 2015, 81. Cada ser humano é uma pessoa que integra e supera a sua dimensão biológica, genética e corporal: “Quando da união conjugal dos dois nasce um novo homem, este traz consigo ao mundo uma imagem e semelhança particulares de Deus mesmo: na biologia da geração está inscrita a genealogia da pessoa”, João Paulo II, Carta às famílias “Gratissimam sane”, 2 de fevereiro de 1994, 9.

[155] João Paulo II, Mensagem aos participantes na Plenária da Pontifícia Academia das Ciências, 22 de outubro de 1996, 5.

[156] Cf. Comissão Teológica Internacional, Comunhão e serviço. A pessoa humana criada à imagem de Deus, 2004, 64.

[157] Francisco, Audiência Geral, 22 de abril de 2015. O espanto de Adão diante da mulher significa que o reconhecimento de Eva como “parte dele” não implica posse ou dependência, mas é um dom inesperado e gratuito que provém somente de Deus, mesmo que toque profundamente a identidade do homem. Este é o sentido da alteridade na reciprocidade.

[158] Francisco, Audiência Geral, 15 de abril de 2015.

[159] Cf. João Paulo II, Carta Ap. Mulieris dignitatem, 15 de agosto de 1988, 6. Id., Carta às famílias “Gratissimam sane”, 2 de fevereiro de 1994, 8.

[160] Esta polaridade traduz-se, no seu exercício, noutras “tensões” importantes inerentes aos fenômenos sociais, cf. Francisco, Exort. Ap. Evangelii gaudium, 24 de novembro de 2013, 221-237.

[161] Cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 130.

[162] Agostinho, Confissões I, 1.1.

[163] D. Alighieri, A Divina Comédia. Inferno, Canto XXVI, 118-120.

[164] Sobre a historicidade característica da redenção, ver: Pontificía Comissão Bíblica, O que é o homem? (Sl 8,5). Um itinerário de antropologia bíblica, 2019, 11 e cap. IV.

[165] João Paulo II, Exort. Ap. pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia, 2 de dezembro de 1984, 15. Cf. Pontificía Comissão Bíblica, O que é o homem? (Sl 8,5). Um itinerário de antropologia bíblica, 2019, 295ss.

[166] Pontifícia Comissão Bíblica, O que é o homem? (Sl 8,5). Um itinerário de antropologia bíblica, 2019, 12.

[167] Para Deus, o mandamento é um “dom” (Dt 5, 22; 9, 20; 10, 4; Ne 9, 14), para o ser humano, em vez disso, assume principalmente o aspecto da “prova” (Gn 22, 1; Êx 15, 25; 16, 4). Concretamente, o indivíduo raramente percebe imediatamente a “bondade” do que lhe é prescrito; manifesta, portanto, a sua fé se obedecer, mesmo sem compreender (plenamente) o bem do que lhe é prescrito (cf. Pontificía Comissão Bíblica, O que é o homem? (Sl 8,5). Um itinerário de antropologia bíblica, 2019, 273).

[168] Dicastério para a Doutrina da Fé, Decl. Dignitas infinita, 2 de abril de 2024, 18.

[169] Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 14.

[170] Cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 451-452.

[171] João Paulo II, Exort. Ap. pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia, 2 de dezembro de 1984, 15. Sobre a “proliferação do mal” após a transgressão no Éden, ver: Pontificía Comissão Bíblica, O que é o homem? (Sl 8,5).Um itinerário de antropologia bíblica, 2019, 302ss.; sobre as consequências da transgressão, ver: ibid., 319-324.

[172] Cf. Pontificía Comissão Bíblica, O que é o homem? (Sl 8,5). Um itinerário de antropologia bíblica, 2019, 240-241.

[173] Sobre o Espírito Santo como “pessoa amor” e “pessoa dom”, ver: João Paulo II, Carta Enc. Dominum et Vivificantem, 18 de maio de 1986, 10; cf. também: Agostinho, De Trinitate V, 11.12; VI, 5.7;Tomás de Aquino, Summa Theologiae I, q. 38 a. 2.

[174] Cf. Dei Filius, cap. II: DH 3004 ss.

[175] Cf. Agostinho, De Trinitate VII, 6. 12: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gn 1,26) [...] Não deve ser entendido no sentido de que foram os deuses que criaram o homem ou que o fizeram à imagem e semelhança dos deuses, mas no sentido de que foram o Pai, o Filho e o Espírito Santo que o criaram, à imagem, portanto, do Pai, do Filho e do Espírito Santo, para que o homem existisse como imagem de Deus. Ora, Deus é Trindade. Mas, como esta imagem de Deus não era totalmente igual ao seu modelo, pois não nasceu de Deus, mas foi criada por Ele, para significar isso, diz-se que é uma imagem “à imagem de...”, ou seja, uma imagem que não alcança o modelo em termos de igualdade, mas que se aproxima dele por uma certa semelhança. De fato, não nos aproximamos de Deus superando distâncias espaciais, mas com a semelhança, e é com a diferença que nos afastamos Dele... É por causa, como vimos, de uma semelhança imperfeita, que o homem é chamado de imagem e acrescenta-se nossa, porque o homem era imagem da Trindade; não igual à Trindade, como o Filho ao Pai, mas aproximando-se dela por uma certa semelhança, como dissemos, da mesma forma que seres distantes estão próximos não por contato espacial, mas por imitação.É isso que significam as seguintes palavras: “Transformai-vos renovando o vosso espírito” (Rm 12, 2), e aos seus destinatários o Apóstolo diz também: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados” (Ef 5, 1). É ao homem novo, de fato, que se diz: “Renova-te na medida do conhecimento de Deus, conformando-te à imagem daquele que o criou” (Col 3,10)”; cf. também De civitate Dei XI, 2; XXI, 15-16.

[176] “Só em Jesus se manifesta plenamente o projeto de Deus sobre o ser humano: Ele é o homem definitivo segundo Deus”, Bento XVI, Audiência geral, 9 de janeiro de 2013.

[177] LeãoXIV, Discurso aos participantes no jubileu das Igrejas Orientais, 14 de maio de 2025.

[178] Comissão Teológica Internacional, Teologia, Cristologia, Antropologia, 1981, 4.2.3.

[179] Ibid., 4.3.

[180] Ibid., 4.2.2. O intellectus fidei da divinização, enquanto pleno e definitivo “além” da vida humana, está no centro da reflexão teológica moderna. Já se ocuparam dele grandes teólogos do século XIX, como A. Rosmini, Antropologia Soprannaturale (Obras de Antonio Rosmini 39/40), Roma 1983, e M. J. Scheeben, Handbuch der Katholischen Dogmatik III/4, Friburgo 1961, §§ 146-180. O tema da divinização também atraiu o interesse do diálogo ecumênico, com pontos promissores de convergência, como emerge nos documentos do diálogo com a Igreja Ortodoxa: O Mistério da Igreja e da Eucaristia à Luz do Mistério da Santíssima Trindade (1982) e Fé, Sacramentos e Unidade da Igreja (1987).

[181] Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 22.

[182] Cf. Ireneu, Adversus Haereses IV, 38, 3-4: “Assim, através desta ordem, destes ritmos e deste movimento, o homem criado e moldado torna-se à imagem e semelhança de Deus não criado: o Pai decide benevolentemente e comanda (Gn 1,26), o Filho executa e molda (Gn 2,7), o Espírito nutre e faz crescer (Gn 1,28), e o homem, pouco a pouco, progride e eleva-se à perfeição, ou seja, aproxima-se do Incriado; porque só o Incriado é perfeito, e este é Deus.De fato, era necessário que o homem fosse primeiro criado, depois, depois de ter sido criado, crescesse, depois de ter crescido se tornasse adulto, depois de se ter tornado adulto se multiplicasse, depois de se ter multiplicado, se tornasse forte, depois de se ter tornado forte, fosse glorificado e depois de ter sido glorificado visse o seu Senhor. Porque é Deus quem deve ser visto, e a visão de Deus proporciona a incorruptibilidade, e a incorruptibilidade faz com que se esteja perto de Deus (Sab 6,19)”; ver também: IV, 11, 4; 12, 3; 37, 7; 39, 1.

[183] Cf. Catecismo da Igreja Católica, 460. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, q. 43, a. 5.

[184] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Dogm. Dei Verbum, 18 de novembro de 1965, 3-4.

[185] Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 22.

[186] De importância ainda atual para ler os sinais dos tempos “em Cristo” e para discernir criticamente aquele “espírito” que opera na separação de Cristo e que pode informar as visões do transumanismo e do pós-humanismo: H. De Lubac, La postérité spirituelle de Joachim de Flore, Paris 2014.

[187] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 12; João Paulo II, Carta Ap. Mulieris dignitatem, 15 de agosto de 1988, 7.

[188] Bento XVI, Carta Enc. Caritas in veritate, 29 de junho de 2009, 53.

[189] Cf. Francisco, Carta Enc. Fratelli tutti, 3 de outubro de 2020, 272.

[190] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 24; Comissão Teológica Internacional, Comunhão e serviço. A pessoa humana criada à imagem de Deus, 2004, 40-42.

[191] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Dogm. Lumen gentium, 21 de novembro de 1964, 3; Catecismo da Igreja Católica, 774-776.

[192] Cf. Bento XVI, Exort. Ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis, 22 de fevereiro de 2007, 12.

[193] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 39. Francisco, Carta Enc. Laudato si’, 24 de maio de 2015, 236.

[194] Cf. Francisco, Carta Enc. Laudato si’, 24 de maio de 2015, 237.

[195] Cf. Ambrogio, Exameron IX, 76; Explanatio Ps. 39, 24; De institutione virginis 104.

[196] Cf. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I-II, q. 112, a. 1.

[197] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Past. Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, 39, 45. Francisco, Carta Enc. Dilexit nos, 24 de outubro de 2024, 209.

[198] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Const. Sacrosanctum concilium, 4 de dezembro de 1963, 103.

[199] Leão XIV, Exort. Ap. Dilexit te, 4 de outubro de 2025, 2.

[200] Ibid., 3.